Resenha Crítica | Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (2006)

Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, de Larry Charles

O comediante vencedor do Globo de Ouro de melhor ator em comédia/musical Sacha Baron Cohen desenvolveu e entregou pela primeira vez seu famoso personagem Borat no programa de sucesso “Da Ali G Show”. Com “Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”, Cohen e o diretor Larry Charles conseguem com bom êxito revolucionar o mockumentary. São tamanhos os absurdos desenvolvidos na tela que ficamos inquietos ao perceber que certos trechos podem não ter sido uma mera encenação por parte dos “personagens reais”, ou melhor, o próprio cidadão americano.

A história que dá um cutucão no comportamento, no formalismo e no preconceito dos Estados Unidos mostra Borat em viagem passageira ao país com o intento de mostrar que a precariedade do Cazaquistão pode se igualar aos padrões americanos. Com pouco dinheiro, uma mala, um cinegrafista chamado Azamat Bagatov (Ken Davitian) e uma galinha (!) eles finalmente chegam ao lugar. Não demora a Borat se apaixonar pela estonteante Pamela Anderson (a siliconada de “Todo Mundo em Pânico 3″, na sua melhor “interpretação”), criando uma perseguição obsessiva pela moça. No percurso, ele irá se esbarrar com um casal de judeus (que ele teme como se fosse a encarnação do próprio diabo), com um grupo de mulheres feministas (que Azamat julga terem cérebro da medida de um esquilo), entre outras mórbidas situações.

Cínico e ingênuo, Borat é um personagem pelo qual somos capazes de nos identificar de imediato, sendo fácil embarcar e gargalhar com diversas cenas. Essa evidência de risos do início ao fim só chega a determinado limite quando o filme joga de tempos em tempos conjunturas que não sabemos ao certo se devemos rir ou nos constranger, exemplo da embaraçosa e comentada luta entre Borat e Azamat. Este queridinho dos críticos de melhor comédia do ano não foi tão bem-sucedido o quanto esperado em termos de bilheteria no Brasil (entretanto, foi sucesso nas telas ianques), mas deve encontrar uma grande legião de admiradores no DVD, especialmente para os que apreciaram o não menos engraçado “Ali G Indahouse”, investida anterior de Sacha Baron Cohen nos cinemas.

Resenha Crítica | Letra e Música (2007)

Music and Lyrics, de Marc Lawrence

Bem-vinda é a união de Hugh Grant e Drew Barrymore nas telas de cinema. Mesmo que o casal possua um grau de talento questionável, é injusto negar que se encontram confortáveis nas comédias românticas, gênero que os consagraram ao primeiro time de Hollywood. Grant costuma interpretar o canalha ou o boa-praça, enquanto Barrymore é a bem-sucedida ou a moça com parafusos a menos. Ele entregou um ótimo desempenho em “Um Grande Garoto”, enquanto ela brilhou com “Donnie Darko” e “Os Garotos da Minha Vida”, mas é no carisma que ambos se destacam. Marc Lawrence provou novamente que sabe selecionar os rostos certos para os seus projetos, entregando um filme previsível, mas com alguns elementos autênticos, como a química entre os personagens principais através da música.

Alex Fletcher (Grant) era um famoso integrante do grupo musical “Pop” que atualmente sobrevive de pequenas turnês em centros públicos ou privados. Porém, surge a oportunidade do ex-astro reacender a chama do sucesso quando seu empresário Chris (Brad Garrett) apresenta uma proposta irrecusável: dividir as atenções nos palcos com a cantora Cora Corman (Haley Bennett) com uma nova canção com o intento de derrubar cantoras famosas do pódio das mais tocadas. Como previsto, ocorre uma barreira: ele não está nem um pouco inspirado para escrever uma música. Assim, ele conta com a ajuda de Sophie Fischer (Barrymore), jovem mulher que faz tarefas básicas na sua residência que demostra esplêndido talento com a escrita. Só que ela tem seus fantasmas para exorcizar, como a presença de seu ex-namorado (Campbell Scott), cujo envolvimento é descrito no desenvolvimento do filme.

Lawrence segue a mesma linha de um dos seus filmes anteriores, o descontraído “Amor à Segunda Vista”, onde opostos se atraem através da luta para conquistar algum objetivo. Esta visão de que a história acabará como o esperado pode ocasionar alguma decepção, mas a comédia romântica procura não fazer mudanças drásticas em fórmulas até então batidas, porém, infalíveis em algumas circunstâncias, o que acaba sendo um ponto positivo nesta saborosa produção de risos incessantes e contagiantes números musicais.

Resenha Crítica | Sangue & Chocolate (2007)

Blood and Chocolate, de Katja von Garnier

Segundo a lenda, lobisomens são criaturas mitológicas que estão ocultas dentro de nós, seres humanos. Porém, não são todos herdeiros deste dom. Aliás, maldição. Brigitte Fitzgerald narra em off no prólogo de “Possuída – O Início” que “segundo os índios, a maldição vem de longe e foi passada de geração para geração”. Na vida real, existem vários povos com credos distintos que dão novas estruturas às origens da aberração, porém, tudo não passa de histórias não comprovadas. No cinema, máquina criativa que é capaz de suprir os argumentos mais inimagináveis possíveis, apostou nesse mito como investimento ao gênero terror. Além de “Possuída – O Início” – uma verdadeira obra-prima que mescla horror e estilo gótico com muita sagacidade – temos um verdadeiro filme de lobisomens batizado como “Um Lobisomem Americano em Londres”, produção americana orquestrada por John Landis (do cult “Os Irmãos Cara-de-Pau”) que até então elevou o padrão dos efeitos especiais, limitado pela falta de recursos na época.

O restante, no entanto, não passa de fitas medianas ou bobagens inconsequentes. Existe em “Sangue & Chocolate” uma tentativa pífia de inovação, lembrando de que Ehren Kruger inspirou-se em um famoso best-seller de romance entre lobisomens em tempos modernos. Desconhecida, a diretora alemã Katja von Garnier confere autenticidade ao não optar por muitos efeitos especiais nas transformações de suas bestas feras e nos sublimes cenários que utiliza para compor a sua adaptação, mas a realização não é nada agradável.

A esforçada Agnes Bruckner (jovem atriz que se destacou no independente “Um Certo Carro Azul”) é submetida a mais uma barca furada, não encontrando muitos meios de comprovar a sua capacidade como intérprete. O pequeno brilho do elenco está somente ela. Nomes familiares como dos atores Hugh Dancy e Olivier Martinez encabeçam o rol de coadjuvantes inexpressivos. Na história, Vivian dedica-se nos períodos diurnos a uma pequena e produtiva loja de chocolates. À noite, evita a tentação de arrancar sangue de meros mortais. Um tanto em vão, pois seu primo Rafe com seus aliados atacam impiedosamente as mulheres estonteantes que perambulam pelas ruas estreitas em segredo, pois é membro de uma sagrada fraternidade que proíbe tais liberdades. Sua vida pacata, mas perigosa, ganha novos contornos com a chegada de Aiden, homem da mesma faixa etária que demonstra uma pequena obsessão por contos e desenhos de lobisomens. Daí surge o elo entre o humano e a fera.

Mesmo contando com o mesmo autor dos roteiros excepcionais de “O Chamado” e “A Chave Mestra”, além da mina de ouro nas mãos (no caso, o best-seller), “Sangue & Chocolate” não muda a fórmula de praxe. Não consegue transmitir pavor ou tensão, o mínimo que se exija ao assistir um filme do gênero na tela grande, não? Os fanáticos pelas criaturas noturnas não devem apreciar a falta de novidades.

Resenha Crítica | Turistas (2006)

Turistas, de John Stockwell

A maioria dos filmes atuais de terror ou suspense se trata basicamente de refilmagens de clássicos ruins (como “A Casa dos Maus Espíritos” e “A Bruma Assassina”, que inspirou, respectivamente, “A Casa na Colina” e “A Névoa”) e aquelas fitas capengas descartadas diretamente ao mercado de vídeo. “Turistas” quase se enquadra na segunda categoria, escapando do abismo por um ou outro achado.

A atriz principal é Melissa George, que vem conferindo desenvoltura como heroína no gênero, e todo o projeto é orquestrado por John Stockwell, responsável pelo regular “Mergulho Radical”. Ele demonstra ser um mestre-cuca nas sequências subaquáticas, filmadas com beleza e tensão sufocante. Pena que a história sobre turistas que após acidente de ônibus em viagem de verão para o Brasil se envolvem com quadrilha que trabalha com tráfico de órgãos não tenha competência suficiente para justificar tanta polêmica.

Como curiosidade, os produtores de “Turistas” iriam filmar e concentrar o roteiro apenas em locações da Guatemala, mas a violência de fatos do nosso país é tão expressiva que desenvolveram toda a ação somente por aqui. Seria essa a imagem que exportamos para fora ou os turistas americanos já estão acostumados com nossa rotina através dos passeios turísticos? De qualquer maneira, o filme diverte sadicamente com o mórbido argumento.

Resenha Crítica | A Grande Família – O Filme (2007)

 

A Grande Família – O Filme, de Maurício Farias

Muitas vezes ao comparecer a uma sala de cinema para assistir uma atração adaptada de algum conceito original, me pergunto ao término da sessão: Era necessário que tal material fosse transportado para as telas? Refiz essa questão, agora com “A Grande Família – O Filme”, a transposição para a tela grande do cotidiano nem sempre comum de uma família que rendeu muitos pontos de audiência na emissora Globo. Se na tela pequena assistíamos a um retrato bem-humorado e sem pretensões de revolucionar o humor televisivo (o que resultou na melhor série global dos últimos tempos), nos cinemas é jogado um argumento que rende boas risadas de início, mas que decepciona pela repetição.

A produção se apresenta como uma mistura de “Efeito Borboleta” com “Corra, Lola, Corra”, pois Lineu (Marco Nanini) encontra-se consigo mesmo no ato de um acidente que resumirá a sua vida. O recorte dos dois filmes internacionais é aplicado quando ele consegue retornar ao passado para tentar dar novo rumo a sua vida, só que com cada interferência que ele aplica nos acontecimentos faz com que muitas coisas sejam alteradas drasticamente ou em movimentos opostos. O restante dos personagens também já nos é familiar: a matriarca Nenê (Marieta Severo), sua amiga e vizinha Marilda (Andréa Beltrão), seus filhos Tuco (Lúcio Mauro Filho) e Bebel (Guta Stresser) e seu genro oportunista e salafrário Agostinho (Pedro Cardoso). Para complicar ainda mais o dia-a-dia da família, surge Carlinhos (Paulo Betti), uma antiga paquera de Nenê e Marina (Dira Paes), nova funcionária do setor onde Lineu trabalha.

Só de ler a sinopse percebemos que grandes confusões estão por vir, um tanto originais, mas cansativas. Como tevê e cinema são mundos que andam paralelamente, mas que exigem grandes mudanças quando são separados, os roteiristas Cláudio Paiva e Guel Arraes não foram felizes em algumas escolhas. Quando Lineu retorna ao passado pela primeira vez, tudo se desenvolve perfeitamente, mas quando a sequência é repetida por uma segunda e depois terceira vez, já estamos cientes de quais atos e ações estão por surgir. Essa previsibilidade, unida com o manjado moralismo de família feliz, acaba totalmente com o espírito da série e de seus personagens, aclamados pelas resoluções que não se preocupam em transmitir alguma espécie de mensagem edificante para o público, além da simplicidade que eles vivem as suas vidas incomuns, mas similares como as que vivenciamos com a nossa própria família.

Resenha Crítica | Uma Noite no Museu (2006)

Night at the Museum, de Shawn Levy

“Uma Noite do Museu” é a típica comédia descompromissada que a crítica especializada vaia e que o cinéfilo mais convicto adora menosprezar. Parece uma espécie de sessão da tarde que não tem mensagem para ser aproveitada, humor ingênuo que outro filme do mesmo gênero já atingiu com mais eficiência e tudo que é de praxe, certo? Sim, mas em determinados momentos, a melhor opção é tirar férias dos filmes cabeças e se divertir com algo mais leve, que não tenha vastos detalhes e enigmas a serem notados, mas que faça entreter com muita qualidade e diversão. Se você enfrentou todos os títulos da temporada Oscar e deseja ver um filme pipoca, esta nova produção de Shawn Levy pode ser a melhor opção.

Na história, Larry Daley (Ben Stiller) é um pai que não vive um relacionamento dos mais agradáveis com o seu filho Nick (Jake Cherry) e o principal motivo é o ciúme que tem de Don (participação especial de Paul Rudd) – novo parceiro que sua mulher teve após o divórcio entre os dois. Daley também quer mostrar ao filho que, assim como Don, também é capaz de ser bem-sucedido no ramo profissional, agarrando uma oportunidade quando preenche a vaga de vigia noturno num museu de história natural. Já no primeiro dia, ele esbarra com algo inusitado: à noite, todos os objetos e estátuas que representam pessoas que marcaram história ganham vida num passe de mágica. Está instalado o cabo que proporcionará a Daley grandes confusões.

Se de início somos jogados a uma premissa quase estática, o tempo corre rapidamente e as piadas inspiradas e saborosas começam a surgir. Existem várias cenas engraçadíssimas, como os conflitos de Daley com o perverso macaco que ronda o museu, as suas tentativas quase fracassadas de comunicação com Átila – O Huno (Patrick Gallagher) e até mesmo as presenças hilárias dos comediantes Owen Wilson e Steve Coogan. E ainda somos saudados com a presença do trio de veteranos Dick Van Dyke, Bill Cobbs e Mickey Rooney, que rende um toque graciosamente nostálgico ao filme. A avaliação positiva para “Uma Noite no Museu” pode ser um tremendo exagero, mas admito que foi muito proveitoso arriscar uma sessão do filme dos cinemas. Também acredito que o mesmo aconteceu com grande parte do público, que dava altas risadas durante toda a projeção. Essa satisfação recai na plateia infantil e adulta na mesma proporção, algo que certamente contribuiu para os números de bilheteria.