Resenha Crítica | Bobby (2006)

Bobby, de Emilio Estevez

Faltavam poucos passos para Emilio Estevez encerrar “Bobby”, drama que une dezenas de personagens no hotel que serviu como cenário para o brutal assassinato de Robert Francis Kennedy, até que chegou a determinado ponto onde a importância da realização estava direcionada mais aos nomes de peso no elenco do que a encenação do infortúnio ocasionado na noite do dia 5 de Junho de 1968. Felizmente, todos colaboram ao evitar a busca pelo brilho individual, preferindo interpretar com sentimento de coletividade, enquanto Estevez confere sensibilidade aos instantes finais do seu projeto, que demorou anos para ser concluído e entregue para todo o mundo, optando por captar todo o “sismo humano” do que investigar com afinco os mistérios que ficaram no ar.

Mesmo que o palestino Sirhan Bishara Sirhan tenha sido capturado naquela mesma noite nos arredores do refeitório do luxuoso Hotel de Los Angeles Ambassador, ainda há questões a respeito da possibilidade de ter sido arquitetado uma conspiração, possivelmente a mesma que matou o irmão e companheiro político do senador Bobby, John Francis Kennedy. Neste cenário que Estevez revive, somos apresentados dos hóspedes aos funcionários. Paralelamente, trechos verídicos de Robert Kennedy mostrando as suas propostas aos cidadães americanos são passados ao longo da projeção.

No tranquilo cotidiano daquele edifício, temos Cooper (Shia LaBeouf) representando a fase adolescente rebelde daquela época onde busca junto com um amigo o fornecedor de drogas Fisher (Ashton Kutcher) para fazer uma “viagem alucinante”. Também temos a opulenta Samantha (Helen Hunt) que acredita na possibilidade de que os trajes de grife podem corresponder as suas convicções. Paul (William H. Macy) é um dos gerentes do local, que mantém um caso às escondidas com a telefonista Angela (Heather Graham), também ocultando certo envolvimento com a cabeleireira Miriam (Sharon Stone). De tantos personagens, ainda temos Tim (Estevez) que vive à sombra do sucesso da sua mulher desequilibrada Virginia (Demi Moore), e Diane (Lindsay Lohan), que deseja se casar com William (Elijah Wood) para que este não seja selecionado para a guerra no Vietnã, mesmo que a paixão entre ambos pareça não existir.

A princípio, deduzimos que o excesso de personagens não fará com que as histórias sejam costuradas adequadamente ao final do filme, até mesmo por estas demonstrem ser fracas. E é exatamente aqui que encontramos a maior das muitas virtudes de “Bobby” onde, independente de credo ou classe social, são seres humanos errantes e que têm o livre direto de redenção, fazendo com que cada ação e diálogo, mesmo singelo, seja compreendido pelo público.

Robert Kennedy se elegeu à presidência com o intento de lutar pela igualdade e pelos direitos civis dos negros na sociedade americana, além de acompanhar as eleições mostrando propostas contra a guerra no Vietnã. Como nunca, a população acreditou em Kennedy, mas viu a esperança de dias melhores ser destruída através do homicídio daquela noite.

Mesmo que ocorrido há quase 70 anos, os acontecimentos de “Bobby” encontram ressonância com a nossa atualidade, especialmente com a declaração narrada durante a sequência desesperadora que mesclam as filmagens do diretor juntamente com os vídeos reais do momento dos disparos. Ou seria mentira que, mesmo com toda a violência, preconceito e pobreza, precisamos nos unir com todas as forças para viver em harmonia?

Resenha Crítica | Hannibal – A Origem do Mal (2007)

Hannibal Rising, de Peter Webber

Quando um personagem é construído e logo adquire uma imediata popularidade, os planos de construir novas histórias para o mesmo indivíduo também são instantâneos. Não é somente no cinema contemporâneo que se cria certo fascínio em desvendar os primeiros passos de uma figura enigmática ou até mesmo o seu possível destino.

Em “O Exorcista 2 – O Herege” tivemos a conclusão de uma batalha psicológica de Regan (Linda Blair) contra o espírito maligno de Pazuzu iniciado por uma ótica mais explícita por Willian Friedkin. O mesmo poderoso demônio teve suas origens narradas em “Dominion: Prequel To The Exorcist” (produção ainda inédita em nosso país e que deve permanecer neste estado por um longo tempo) e na sua refilmagem dirigida por Renny Harlin, “O Exorcista – O Início”.

O mesmo podemos dizer das três continuações de “Psicose” e no recente prequel “Hannibal – A Origem do Mal”. Há dois caminhos opostos de avaliação para o quinto filme que “ressuscita” nosso canibal predileto. No negativo, vemos um filme desnecessário, que não alcança a potência das outras histórias de Hannibal Lecter e que caíra no fácil esquecimento. Positivamente, Peter Webber (do espetacular “Moça com Brinco de Pérola”) cria cenários e personagens elegantes que combinam com a personalidade de Lecter, além do acerto de selecionar o pouco conhecido Gaspard Ulliel, pois haveria descuidos se interpretado por um ator celebrado. Assim, poderíamos aplicar o termo “ame ou odeie”.

Antes de ser corrompido pela crueldade, Hannibal vivia feliz com sua rica família, especialmente quando acompanhado por sua irmã mais nova chamada Mischa (Helena Lia Tachovska). Ocorre uma inversão de temperamento quando é jogado em cena os horrores do Holocausto, tendo que sobreviver sozinho com Mischa quando os seus pais são mortos a despeito de um acidente no meio da floresta em inverno rigoroso. Durante dias, ambos ficaram hospedados às escondidas numa velha casa de madeira, até que são surpreendidos por um grupo de nazistas famintos, liderado por Grutas (Rhys Ifans). Não tarda muito transformar as indefesas crianças em aperitivo, mas somente Hannibal sai ileso do destino que o condenava.

Anos depois, Hannibal já se encontrava seguro num orfanato, mesmo que insatisfeito pela situação que estava. Suas motivações malevolentes iniciam deste ponto, onde nada mais importa do que aniquilar a todos que foram responsáveis pela morte de Mischa. Ele não tinha ferramentas necessárias em mãos para detectá-los, mas as faces de seus futuros alvos sempre estiveram armazenados em sua memória. O desejo de vingança se torna ainda mais forte quando se refugia na mansão de sua tia Lady Murasaki (Gong Li, sempre perfeita), que será o apoio para o desenvolvimento de sua sofisticação e sabedoria.

Existem erros em “Hannibal – A Origem do Mal” a partir do instante onde Murasaki transforma Hannibal em seu aprendiz, fazendo com que o despertar inicial de sua fúria seja caricato. Ou  mesmo no roteiro de Thomas Harris (autor de todos os livros do personagem), que insiste em recorrer aos dispensáveis flashbacks que assombram sua criação. Porém, há também acertos, sendo alguns protagonizados pelo próprio Gaspard Ulliel. Se ele não consegue repetir as fisionomias marcantes de Hopkins ao longo do filme, ao menos executa um trabalho digno de seu personagem.

Este começo seria evocado rapidamente ou tardiamente, mas cumpriria seu papel perfeitamente se não estivesse relacionado a Hannibal Lecter, e sim a outra criação. Nada que torne “Hannibal – A Origem do Mal” o melhor passatempo dos últimos tempos ou uma das piores produções já concebidas. É bom vê-lo novamente, mas é fundamental que tudo acabe definitivamente por aqui.

Resenha Crítica | Natal Negro (2006)

Black Christmas, de Glen Morgan

O que aconteceu com Glen Morgan? Cineasta talentoso e amigo de James Wong, tornou a refilmagem de “Willard” numa grande surpresa e agora nos entrega uma ingrata versão atualizada de “A Noite do Terror”. Se em “A Vingança de Willard” (produção estrelada pelo sinistro Crispin Glover) ele soube equilibrar com maestria a melancolia de seu personagem em união com o horripilante relacionado a presença de inúmeros roedores, em “Natal Negro” ele tropeça em todas as fraquezas do teen horror, alternativa que ele infelizmente optou para a garantia de público.

Nada é divertido neste conto de massacre juvenil, que narra o tédio de fraternidade feminina à véspera do natal. Reza a lenda de que na própria residência onde as garotas estão hospedadas morava uma família composta por um casal e um filho. Descoberto adultério da matriarca, esta, unida com o amante, mata seu próprio marido, enquanto o pequeno chamado Billy (na infância interpretado por Cainan Wiebe), que herdou uma pele amarelada por causa de rara doença no fígado, se esconde nos cômodos inabitados do local.

Nasce do traumatizante homicídio o desejo de vingança e a obsessão em matar indivíduos indefesos. Recluso num presidiário, Billy (agora interpretado por Robert Mann) consegue com muito sucesso retornar para seu doce lar, onde já estamos cientes do que vai ocorrer. Katie Cassidy (“Quando Um Estranho Chama”), Michelle Trachtenberg (“Sonhos no Gelo”) e Mary Elizabeth Winstead (“À Prova de Morte”) são algumas das mocinhas. A veterana Andrea Martin, que esteve na versão original de 1974, tem destaque na refilmagem.

Bobagem é pouco para definir uma produção tão constrangedora, onde sustos são trocados rapidamente por involuntárias gargalhadas, especialmente nas cenas atrozes onde as pobres garotas são sujeitas a perder os dois olhos para futuros enfeites natalinos. Talvez “Natal Negro” surgiu com o intento de mudar toda essa rotina que os americanos não cansam de organizar em datas comemorativas com sadismo e graça. Mas cinema de horror é algo sério demais para que filmes de fracas pretensões sejam relevantes. Ao menos com a estreia futura nas telas brasileiras de “Natal Negro”, que foi adiada inúmeras vezes, alguma distribuidora deva se interessar em lançar a produção original de 1973 em DVD.