Resenha Crítica | Homem-Aranha 3 (2007)

Spider-Man 3, de Sam Raimi

Com o orçamento estimado em 240 milhões de dólares – que o torna a produção mais custosa da história do cinema, somando ainda os valores de marketing – era de se esperar um filme grandioso nesta terceira aventura do jovem Peter Parker. Se as aventuras rodadas em 2002 e 2004 agradaram a maioria, as coisas mudam de figura em “Homem-Aranha 3”, onde nem os fãs mais fervorosos se entrosaram tanto.

Desta vez, a técnica não impressiona e a concepção dos três vilões é inaceitável. Falando em vilões, já até notamos em cena a falta de disposição no cineasta Sam Raimi, que despreza a todo custo o simbionte alienígena Venom, obrigado pelo estúdio a introduzi-lo nesse capítulo. É mais um produto ruim que se une a tantos outros títulos deste novo gênero de Hollywood, inaugurado com força total pela produtora Marvel Comics.

Adaptado dos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko, as ilustrações de “Homem-Aranha” mostravam aos leitores o surgimento de inúmeras responsabilidades quando um desajeitado rapaz adquire poderes após ser picado por uma aranha exposta à radioatividade, mesmo com habilidades que o tornava uma pessoa mais segura. Em “Homem-Aranha 3”, o herói (interpretado por Tobey Maguire, de “O Segredo de Berlim”) já é idolatrado pelo público e tudo na vida de Peter Parker está em total controle.

Obviamente, novas ameaças só podem ser combatidas com a sua bondade, mas nada é tão fácil. Primeiro temos o bandido foragido Flint Marko, transformado no Homem de Areia (Thomas Haden Church, de “Sideways – Entre Umas e Outras”) o real culpado pela morte do tio Ben. Também vemos a obstinação de Harry Osborn (James Franco, de “Flyboys”) em aniquilar o Homem-Aranha, já sabendo que por trás da máscara está a face de Peter Parker, a pessoa que acredita ter assassinado seu pai. Por último, Eddie Brock (Topher Grace, de “Segunda Chance”) é quem se renderá a face negra como Venom. Já as crises pessoais surgem novamente quando Mary Jane Watson (Kirsten Dunst, de “Maria Antonieta”) desconfia de que seu possível futuro marido está se envolvendo com Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard, de “Manderlay”).

É claro que tantas camadas de personagens só ganham interesse na leitura, pois na ação o desastre é monumental. Se a presença de Harry Osborn dá um brilho surpreendente na produção, a qualidade não consegue apagar, por exemplo, como Gwen Stacy é jogada a esmo na premissa, já que nos quadrinhos ela é uma garota totalmente relevante a vida de Parker, eternizada como sua primeira namorada. Há também decisões tolas que Raimi insiste em impor no decorrer dos acontecimentos (ninguém consegue me fazer engolir a sequência constrangedora onde Parker desfila dançando pelas lojas e calçadas de Nova York, usando a roupagem de um autêntico emocore).

Quando o clímax ganha sustento, novamente a plateia é vítima de uma insuportável tortura audiovisual, tentando nos fazer acreditar que todo aquele perigo de confrontos é verdadeiramente emocionante. Sam Raimi e o roteirista Avil Sargent (responsável pelo bom script de “Infidelidade”), ainda se preocupam demais em desenvolver uma personalidade de um herói que já se caracterizou roubando tempo e paciência, deixando novamente a ação quase como pano de fundo. Lamentável é ver que ambos perdem as de si próprios ao fazerem do que podemos apelidar de aberração em celuloide. Poupe-nos de uma nova continuação, por favor.

Resenha Crítica | O Hospedeiro (2006)

Gwoemul, de Bong Joon-Ho

Já no primeiro instante da produção coreana “O Hospedeiro”, estamos cientes do que se formou a bagre gigante que apavora todos os personagens do filme. Trata-se de uma irregularidade vinda do território americano, onde foi descartado pelo ralo produtos altamente tóxicos. O conteúdo circula rios afora até se espalhar nas margens de Seul, capital da Coreia do Sul.

Com o passar dos meses, o foco muda quando somos apresentados à família que nos conduzirá até o final. Hie-bong Park (Hie-bong Byeon) é um senhor que mora num minúsculo trailer com seu desleixado filho Gang-Du (Kang-ho Song), que tem uma pequena filha chamada Hyun-seo (Ah-sung Ko). Há ainda mais dois membros da família que são irmãos de Gang-Du: Nam-Joo (Du-na Bae), esportista olímpica de arco e flecha, e Nam-il (Hae-il Park).

Diretor do famoso filme baseado em fatos “Memórias de Um Assassino”, Bong Joon-Ho consegue entrelaçar com muito talento os diferentes temas que se propôs a contar. Existe, primeiramente, uma habilidosa alfinetada ao império americano, como autor da desgraça que aflige a família Park e todas as pessoas que vivem ao seu redor. Há também humor quando nos envolvemos com o cotidiano dessa família peculiar, onde as trapalhadas de Gang-Du nos faz dar boas gargalhadas.

Com tensão, sustos e política, “O Hospedeiro” para de engrenar repentinamente. É quando o mostrengo captura Hyun-seo, aprisionando-a num cativeiro repleto de outras pessoas, “O Hospedeiro” perde as rédeas e se desenvolve andando em círculos. É possível que muitos consigam encontrar genialidade na história, mas a indecisão de que ritmo seguir, se é com descontração ou com mais seriedade, resulta num final (e experiência) um tanto frívolo.

Resenha Crítica | A Colheita do Mal (2007)

The Reaping, de Stephen Hopkins

Acompanhando o Antigo Testamento de Êxodo da Bíblia Sagrada, alguns versículos nos informam sobre as dez pragas bíblicas, que atingiu o Egito. A ordem:

1) Água em sangue – A primeira praga, a transformação do Nilo e de todas as águas do Egito em sangue, causou desonra ao Deus-Nilo, Hápi. A morte dos peixes no Nilo foi também um golpe contra a religião do Egito, pois certas espécies de peixes eram realmente veneradas e até mesmo mumificadas. (Êx 7:19-21)

2) Rãs – A rã, tida como símbolo da fertilidade e do conceito egípcio da ressurreição, era considerada sagrada para a Deusa-rã, Heqt. Assim, a praga das rãs trouxe desonra a esta Deusa. (Êx 8:5-14)

3) Piolhos – A terceira praga resultou em os sacerdotes-magos reconhecerem a derrota, quando se viram incapazes de transformar o pó em borrachudos, por meio de suas artes secretas. (Êx 8:16-19) Atribuía-se ao Deus Tot a invenção da magia ou das artes secretas, mas nem mesmo este Deus pôde ajudar os sacerdotes-magos a imitar a terceira praga.

4) Moscas – A linha de demarcação entre os egípcios e os adoradores do verdadeiro Deus veio a ficar nitidamente traçada da quarta praga em diante. Enquanto enxames de moscões invadiam os lares dos egípcios, os israelitas na terra de Gósen não foram atingidos pela praga (Êx 8:23,24). Deus algum pôde impedí-la, nem mesmo Ptah, “criador do universo”, ou Tot, senhor da magia.

5) Peste sobre bois e vacas – A praga seguinte, a pestilência no gado, humilhou deidades tais como a Deusa-vaca, Hator, Ápis e a Deusa-céu, Nut, imaginada como uma vaca, com as estrelas afixadas na sua barriga. (Êx 9:1-6)

6) Feridas sobre os egípcios – A praga dos furúnculos causou desonra aos Deuses e às Deusas considerados como possuindo habilidades curativas, tais como Tot, Ísis e Ptá. (Êx 9:8-11)

7) Tempestades de fogo – A forte saraivada envergonhou os Deuses considerados como tendo controle sobre os elementos naturais; por exemplo, Reshpu, o qual, pelo que parece, cria-se que controlava os raios, e Tot, do qual se dizia ter poder sobre a chuva e os trovões. (Êx 9:22-26)

8.) Gafanhotos – A praga dos gafanhotos significava uma derrota dos Deuses que, segundo se pensava, garantiam abundante colheita, um destes sendo o Deus da fertilidade, Min, o qual era encarado como protetor das colheitas. (Êx 10:12-15)

9) Escuridão total durante 3 dias – Dentre as deidades desonradas pela praga da escuridão achavam-se os Deuses-sol, tais como Rá e Hórus, e também Tot, o Deus da lua, tido como o sistematizador do sol, da lua e das estrelas. — Êx 10:21-23

10) Morte de todos os primogênitos inclusive entre os animais dos egípcios– A morte dos primogênitos resultou na maior humilhação para os Deuses e as Deusas egípcios. (Êx 12:12) Os governantes do Egito realmente chamavam a si mesmos de Deuses, filhos de Rá ou Amom-Rá. Afirmava-se que Rá, ou Amom-Rá, tinha relações sexuais com a rainha. O filho nascido era, portanto, considerado como um Deus encarnado e era dedicado a Rá, ou Amom-Rá, no seu templo. Assim, com efeito, a morte do primogênito de Faraó realmente significava a morte de um Deus. (Êx 12:29).

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Nada mais apropriado do que o cinema recriar as 10 pragas bíblicas, numa história contemporânea onde Katherine Winter (Hilary Swank, cada vez mais bela) passa por uma crise de fé. Justo, pois a própria acredita que Deus a abandonou no momento em que sua filha e marido foram dizimados quando ainda era uma missionária. Agora, famosa por ser capaz de provar que nada está ligado ao divino e sim a ciência, ela é convocada por Doug (David Morrissey) para solucionar um mistério na cidade interiorana de Louisiana.

Com o auxílio do seu amigo Ben (Idris Elba, que esteve recentemente em “Extermínio 2”), Katherine inicia as primeiras pesquisas num rio onde as próprias águas sofreram mudança de coloração – tornou-se avermelhada. A cidade também está em estado de caos com a presença da enigmática Loren McConnell (AnnaSophia Robb), filha de Andrea Frankle (Maddie McConnell) que todos querem eliminar por ser a possível responsável por todos os eventos sobrenaturais, incluindo a morte do próprio irmão Brody (Mark Lynch).

Com o tema bíblico, o que deu errado em “A Colheita do Mal”? Finalizado desde 2006, a produção sofreu muitos adiamentos. E, como todos sabem, isso nunca é um bom sinal. Um ponto negativo é a parte técnica da produção, usando efeitos especiais em demasia, danificando o ritmo da história e o bom clima empregue em diversas situações. Existe também a insistência da produtora Dark Castle em finalizar um projeto (às vezes de maneira patética, como na refilmagem “A Casa na Colina”) dando corda para uma possível sequência que, já sabemos, nunca existirá.

O mais preocupante, porém, fica quando somos capazes de nos identificar com o estado delicado de Katherine. Quando iniciamos a reflexão de que somente a fé espiritual é o maior auxiliador em tempos e situações difíceis numa personagem até então bem delineada, a irregularidade predomina. Dá para encarar num sábado à noite como terror médio, valendo um pouco mais pelo momento antológico da oitava praga bíblica: o ataque impiedoso dos gafanhotos.

*Textos explicativos referente as dez pragas bíblicas é da autoria do site bibliaonline.net

Resenha Crítica | Premonições (2007)

Premonition, de Mennan Yapo

Um pouco cansada das comédias românticas bem-sucedidas, Sandra Bullock acreditou novamente depois de anos que seu talento deve estar também a favor de personagens dramáticas em filmes mais sérios. Porém, exceto por “Crash – No Limite” – onde ela convence interpretando Jean Cabot, esposa rica e submissa de Rick Cabot (Brendan Fraser) -, suas escolhas têm sido bem equivocadas.

É provado novamente sua capacidade em “Confidencial”, produção independente lançada recentemente no país onde nos mostra o convívio entre o escritor Trumam Capote com o presidiário Perry Smith quando o primeiro desenvolvia o futuro sucesso “A Sangue Frio”. Mas em “Premonições”, Bullock é sujeita a um projeto que obtém um resultado ainda pior em comparação com outro desempenho sério e recente no filme “A Casa do Lago”.

O filme não faz cópia do argumento do suspense juvenil “Premonição”, mas parece recapitular uma curiosa metáfora da discreta produção “O Terceiro Olho” (filme estrelado por Ryan Phillipe, Piper Perabo e Sarah Polley), como o uso discreto de um jogo de quebra-cabeça. A história se inicia com enigmas revelados gradativamente, assim como o encaixar de peças para finalizar uma imagem em retalhos do famoso passatempo. Mesmo que prenda a atenção por parte dos momentos eficientes onde ocorre grandes escândalos entre todos os personagens em cena (como no desconfortante momento passado num funeral) o mistério é fácil de ser solucionado.

Linda Hanson (Bullock) vê sua vida perfeita desmoronar quando recebe a notícia de que seu marido Jim Hanson (Julian McMahon) foi vítima de um acidente na estrada. Repousando no fim do dia após a esperada tristeza, desperta em seguida vendo Jim mais vivo do que nunca. Os fatos vão se alternando com o início de cada dia de uma semana, fazendo com que a sanidade da personagem fique em questão, assim como o possível adultério cometido pelo próprio marido.

Tentando entrar nos eixos, Linda fará de tudo para evitar que as terríveis premonições que a perturbam se concretizem verdadeiramente. Mesmo com alguns coadjuvantes conhecidos, como Peter Stormare (como o Dr. Norman Roth) e Nia Long (como a amiga Annie), toda a câmara é focalizada unicamente na protagonista, encarando todo o restante como objetos em cena. Mas mesmo com todo o esforço e responsabilidade de Sandra, sua presença não é poderosa o suficiente para esconder a previsibilidade da trama ou apagar a exaustão do espectador já nos instantes iniciais.