Resenha Crítica | Amor Pra Cachorro (2007)

Amor Pra CachorroEm “Por Um Sentido na Vida”, filme dirigido por Miguel Arteta e roteirizado por Mike White, Jennifer Aniston é Justine, uma jovem mulher amargurada que, como bem representa o título nacional, procura por algo ou alguém que a faça ter uma nova perspectiva de vida e que ela tenha alguma emoção. Mas o seu marido indecoroso e o emprego monótono dificultam que ela alcance seus objetivos, até se relacionar com um dos seus colegas de trabalho (interpretado por Jake Gyllenhaal), que compartilha os mesmos objetivos de Justine, apesar das suas excentricidades. Na sua primeira experiência por trás das câmeras e com o apoio de Brad Pitt e Jack Black como produtores, sendo também ator de outras comédias como “Escola de Rock” (que também assina o roteiro), Mike White confere muitas características daquele drama independente de 2002 em “Amor Pra Cachorro”, sendo agora a comediante Molly Shannon a protagonista. Ela também é amargurada e tem a sua vida modificada com a chegada de um homem. Entretanto, White optou por uma narrativa mais leve, com muitos momentos de diversão.

O veterinário Newt (Peter Sarsgaard) é o responsável pela mudança de comportamento de Peggy. Mas antes que o provável interesse amoroso se estabeleça, passamos a conhecer um pouco da vida dela, uma mulher doce, um exemplo de funcionária competente e carinhosa com as poucas pessoas que estão presentes em seu cotidiano, como o seu irmão Pier (Thomas McCarthy), a sua cunhada Bret (Laura Dern), os seus sobrinhos e a sua amiga Layla (Regina King). Mas é no seu cãozinho de estimação Pencil (ou Lápis, se preferir) que ela encontra a sua companhia para todas as horas. O problema é que ao animal ultrapassar a barreira para a casa vizinha, Peggy depara-se com o seu cachorro num péssimo estado, resultado em seguida na sua morte por possível envenenamento, talvez ocasionado por Al (John C. Reilly). É aí que surge Newt e suas boas intenções em doar um de seus cães a Peggy, sendo nesta amizade sincera que ela começa a desenvolver expectativas de encontrar um parceiro que sempre desejou, chegando a apoiá-lo em projeto em defesa aos animais e virando vegetariana.

É nesta situação onde aquela velha frase cômica “quanto mais conheço as pessoas, mais eu amo os animais” surte um efeito mais sério, já que Peggy sofre uma grande decepção ao notar que esta paixão crescente que tem por Newt não está sendo correspondida. Assim que ela começa a cometer algumas pequenas “loucuras”, como transferir dinheiro da empresa onde trabalha como doação para ações que salvam os animais de experiências de cosméticos ou para virarem casacos de pele. Mas o conhecimento de White por tipos melancólicos e solitários permite que este drama nunca derrape na caricatura. Ao contrário. Este retrato triste mas esperançoso adquire um resultado especial com o seu belo desfecho, numa confortável mensagem de autoconhecimento. Mas é um resultado agradável obtido muito pela interpretação de Molly Shannon, num dos melhores desempenhos femininos até o instante. Descoberta no programa humorístico americano “Saturday Night Live” e atriz frequente em filmes de comédia, Shannon prova que também possui um invejável talento para interpretações dramáticas, sendo capaz de emocionar com toda a dor que expressa.

Título Original: Year of the Dog
Ano de Produção: 2007
Direção Mike White
Elenco: Molly Shannon, Laura Dern, Regina King, Thomas McCarthy, Josh Pais, John C. Reilly, Peter Sarsgaard, Amy Schlagel, Zoe Schlagel e Dale Godboldo.

Grindhouse

Grindhouse

O público em geral sempre foi fascinado pela evolução do cinema, tanto nos aspectos tecnológicos quanto narrativos. Robert Rodríguez pode ser usado como modelo de cineasta que sabe nos transportar para filmes cujos maiores atrativos é a sua própria habilidade em lidar com os efeitos especiais, algo que fez e direcionou especialmente para o público infantil com a franquia “Pequenos Espiões”, ainda que longe de ser um exemplo adequado. Já Tarantino é o nome ideal para construir roteiros com personagens ricos. Uma pena que ao trabalharem juntos em “Grindhouse, uma espécie de união de dois filmes extremamente podreiras do gênero horror onde o espectador se diverte em dobro pagando o valor de um único filme (num sistema chamado “double feature”), as habilidades de ambos os cineastas sejam pouco válidas. É verdade que tudo não passa de uma brincadeira despretensiosa, mas é uma tarefa difícil para aquele que se submete a essa experiência que resulta frívola e sem graça alguma, onde, estranhamente, o maior atrativo são os inspiradíssimos trailers falsos exibidos antes do filme. Abaixo resenhas correspondentes aos filmes “Planeta Terror”, de Rodriguez, e “À Prova de Morte”, de Tarantino, que foram lançados em diversos países separadamente.

 

Planeta TerrorGrandes amigos desde que se conheceram no início da década passada, Tarantino e Rodriguez sempre se uniram de uma forma ou de outra nos próprios projetos. A oportunidade e expectativa de vê-los como parceiros íntegros de uma mesma realização aconteceu em “Planeta Terror”. Mas nada que seja muito animador: além das irregularidades na direção de Rodriguez como o ritmo esquizofrênico, Tarantino surge irritante numa participação pequena neste filme sobre zumbis. Sem um pingo de humor e com ausência total de um bom clima de horror, “Planeta Terror” é puro desleixo – proposital, claro. Mas não é essa a intenção? Sim, mas existem filmes B mais competentes mofando nas locadoras que foram realizados com recursos totalmente limitados melhores do que este. O pior de tudo é que sua maior atração só é apresentada nos minutos finais, sendo as pernas matadoras de Cherry Darling (Rose McGowan, que também aparece em “À Prova de Morte”).

Título Original: Planeta Terror
Ano de Produção: 2007
Direção: Robert Rodriguez
Elenco: Rose McGowan, Freddy Rodríguez, Josh Brolin, Marley Shelton, Michael Biehn, Bruce Willis, Naveen Andrews, Stacy Ferguson, Nicky Katt, Electra Avellan, Elise Avellan e Quentin Tarantino.

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À Prova de MorteNão à toa, o momento de Tarantino na direção foi reservado para a segunda parte da sessão. Sem aquele número gritante de pontas bobocas de celebridades visto no filme de Rodriguez, “À Prova de Morte” obtêm um resultado bem melhor, ainda que longe de ser memorável. Algumas marcas registradas do cultuado diretor de “Pulp Fiction – Tempo de Violência” estão presentes neste filme que nos apresenta ao maníaco Stuntman Mike (Kurt Russell), cujo possante indestrutível é a ferramenta de uso para matar garotas rebeldes. Os trinta minutos finais são geniais, onde um trio de amigas planejam uma brincadeira para lá de audaciosa: Zoe (Zoe Bell, a dublê de Uma Thurman em “Kill Bill”) posiciona-se no capô de um carro enquanto Kim (Tracie Thoms) dirige em alta velocidade e Abernathy (Rosario Dawson) somente assiste a loucura. Só que as coisas começam a ficar ainda mais perigosas quando Mike decide interferir na diversão em plena tarde ensolarada. É sufocante, sensacional, divertidíssimo. Uma pena que, para chegar nessa seqüência, o espectador tenha de aturar uma hora de diálogos bocejantes entre outras personagens dentro de um bar.

Título Original: Death Proof
Ano de Produção: 2007
Direção: Quentin Tarantino
Elenco: Kurt Russell, Zoe Bell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Rose McGowan, Mary Elizabeth Winstead, Jordan Ladd, Marcy Harriell e Eli Roth.

[Final] Cotação: **

 

Resenha Crítica | Ligados Pelo Crime (2007)

Estamos acostumados a assistir filmes dramáticos com personagens desorientados com os próprios sentimentos. Com algum acontecimento marcante ou com o relacionamento com outra pessoa a emoção vem à tona e o que vem em seguida é o declínio total ou uma chance para um recomeço dependendo da circunstância. “Ligados Pelo Crime” também conta com essa premissa, mas se diferencia das produções contemporâneos por fazer uso de quatro emoções distintas e essências do ser humano como atração principal, sendo elas felicidade, prazer, tristeza e esperança – todas separadas em quatro atos que se fundem. É usado o mesmo recurso de “Crash – No Limite”, “Babel“, “Encontros Do Destino”, entre outros, onde uma ação pode ter consequências arrebatadoras, fazendo com que outros personagens sejam envolvidos e ganhem importância na história. O filme também usa timidamente a borboleta como símbolo da alma, do renascimento, da transformação. Este, por sinal, é o inseto que o personagem de Whitaker tem um grande fascínio.

O ator que venceu o Oscar por “O Último Rei da Escócia” é o protagonista do capítulo “Happiness”, onde o seu personagem nos informa que tem uma vida harmoniosa, mesmo que seja num cotidiano repetitivo e sem novidades. Depois de ouvir às escondidas o possível campeão de uma corrida de cavalos num torneio que ainda deve acontecer, ele envolve-se com o perigoso mafioso Fingers (papel de Andy Garcia) e é ameaçado. Ele só será poupado caso consiga uma alta quantia, já que apostou todo o dinheiro que tinha no cavalo dado como vencedor, coincidentemente chamado Butterfly. Resta planejar um assalto. Por incrível que pareça cada um dos personagens dos outros segmentos também tem um momento de prazer, tristeza e esperança, só que pelos motivos visivelmente contrários. Caso do gângster incorporado por Brendan Fraser que descobre o prazer no instante que interfere nas suas próprias premonições, da cantora Pop de Sarah Michelle Gellar (em notável desempenho) que mesmo com o enorme sucesso tem uma vida amargurada e do doutor de Kevin Bacon que nutre uma paixão não correspondida por Gina (Julie Delpy).

O drama que recebeu um título nacional nada inspirado e que tem o lançamento confirmado pela Califórnia Filmes em DVD no dia 06 de Maio garante comunicação imediata com o seu espectador por trabalhar profundamente estes quatro sentimentos presentes em todas as fases de nossas vidas. Mas não serão todos que devem se satisfazer com a história. O roteiro de Bob DeRosa, com parceria do próprio Jieho Lee, arquiteta soluções sufocantes e emocionantes, mas através de algumas coincidências que não devem ser bem aceitas por todas, em especial aquele onde Bacon tenta salvar desesperadamente a sua amada Gina e encontra a saída para curá-la do veneno que circula pelo corpo após uma experiência no laboratório onde trabalha. Resta a você encarar essa saída para a conclusão do filme de forma positiva para que o filme lhe toque de forma intensa.

Título Original: The Air I Breathe
Ano de Produção: 2007
Direção: Jieho Lee
Roteiro: Jieho Lee e Bob DeRosa
Elenco: Kevin Bacon, Julie Delpy, Brendan Fraser, Andy Garcia, Sarah Michelle Gellar, Clark Gregg, Emile Hirsch, Forest Whitaker e Kelly Hu.
Cotação: ***

Resenha Crítica | Ponto de Vista (2008)

Em Salamanca, localizada na Espanha, o Presidente americano Ashton (William Hurt) sobe ao palco e encara centenas de pessoas para discorrer sobre o combate ao terrorismo. Mas antes que as suas propostas sejam ouvidas por toda aquela multidão centrada na Plaza Major, tiros e explosões resumem o seu discurso. Estes ataques são vistos em um trailer por Rex Brooks (Sigourney Weaver) e toda a equipe televisiva com a qual está cobrindo todos os detalhes da conferência. Resta saber quem está por trás desta ação e como estão agindo. Aparentemente uma missão da qual o espectador apreciaria com a maior serenidade, se não fosse as artimanhas que a direção de Pete Travis e a história de Barry Levy armam.

Trata-se de um filme que depende das perspectivas de seus personagens para encontrar uma resolução tanto para desvendar o culpado pelo crime quanto para compreendermos o que é forte ao ponto de unir tantas pessoas desconhecidas entre si num mesmo acontecimento. Isto faz com que só possamos retomar o fôlego quando o bem-vindo relógio nos informa que o mesmo episódio será repetido, só que protagonizado por outro personagem. Desta forma, também nos relacionamos com Thomas e Kent (respectivamente, Dennis Quaid e Matthew Fox), agentes veteranos que protegem o Presidente; o turista americano Howard (Forest Whitaker), que acredita ter filmado o atirador; o policial Enrique (Eduardo Noriega), possivelmente envolvido no ataque, entre outros.

O recurso de “rebobinar” uma trama inúmeras vezes não atraem a todos, vendo que deve haver algum desapontamento ao retornar a um mesmo início. Mas o roteiro de “Ponto de Vista” é eficaz ao concluir cada um dos atos com pontos culminantes, fazendo com que todos os confrontos e questões solucionadas sejam condensados somente no aguardado desfecho, menos surpreendente como se espera – ainda que não diminua os créditos obtidos neste primeiro filme de Travis, que reserva muita adrenalina e tensão como todo entretenimento de primeira.

Título Original: Vantage Point
Ano de Produção: 2008
Direção: Pete Travis
Elenco: Dennis Quaid, Matthew Fox, Forest Whitaker, Bruce McGill, Edgar Ramirez, Saïd Taghmaoui, Ayelet Zurer, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, William Hurt, James LeGros, Eduardo Noriega, Richard T. Jones, Holt McCallany, Dolores Heredia e Alicia Zapien

Resenha Crítica | Um Plano Brilhante (2007)

Um Plano Brilhante - FlawlessCom o objetivo de entrevistar Laura Quinn (Demi Moore) para uma matéria sobre o surgimento da mulher moderna a partir da década de 1950, Cassie (Natalie Dormer) surpreende-se ao ver que ela guarda consigo um precioso diamante. Com o relato de como adquiriu o objeto somos transportados para a Londres de 1960 e como Laura subiu de cargo de executiva para gerente da Companhia de Diamantes, uma empresa controlada por homens. Mas antes é mostrado a sua rotina naquele lugar e como se envolveu com Mr. Hobbs (Michael Caine), um zelador. É ao focar a relação entre estes dois personagens, que antes só se comunicavam através de saudações diárias no início de expediente, que o roteiro do estreante Edward A. Anderson começa a ganhar formas muito bem desenhadas pelo interessante cineasta Michael Radford, aclamado em filmes como “O Carteiro e o Poeta” e “O Mercador de Veneza”.

Radford, exemplo de profissional que sabe aproveitar muito bem os outros departamentos de suas produções, sendo neste filme a impecável direção de arte de Chris Lowe e a trilha sonora composta por Stephen Warbeck, também aproveita-se dos talentos de Moore e Caine, trabalhando pela segunda vez após a comédia “Feitiço do Rio” – onde interpretaram pai e filha em viagem de férias ao Rio de Janeiro. A dupla ajuda para que a história de Anderson não se limite somente ao deliamento do roubo ao cofre da Companhia onde trabalham, mas como pretexto para aplicarem a suas vinganças pessoais, sendo o motivo de Laura a descoberta de que será desligada da empresa e o de Hobbs revelado somente nos instantes finais.

Na execução do roubo que soma pontos por primar pela inteligência e não pela ação, “Um Plano Brilhante” também conclui com louvor a proposta inicial com elegância, utilizando até mesmo em seu decorrer uma referência do filme “Instinto Selvagem”, a antológica cruzada de pernas. É nesta e em outras observações que notamos de que se existe algum modelo para representar a mulher moderna provavelmente é aquele que Anderson resume a perfeição na conclusão do longa: sábia, generosa e livre, mas que sempre reserva um pouco de vaidade.

Título Original: Flawless
Ano de Produção: 2007
Direção: Michael Radford
Elenco: Demi Moore, Michael Caine. Lambert Wilson, Natalie Dormer, Nathaniel Parker, Shaughan Seymour, Nicholas Jones, David Barras e Joss Ackland.
Cotação: 4 Stars