Resenha Crítica | Os Estranhos (2008)

É surpreendente conferir “Os Estranhos” em comparação do que foi oferecido pelo gênero horror nos últimos meses nos cinemas. Não que o saldo seja devedor enquanto a eficiência de filmes suspicazes, mas o filme do estreante diretor e roteirista Bryan Bertino se destaca por oferecer uma prazerosa e incômoda sensação de desespero para o seu público a partir de um projeto pequeno desde sua concepção. Afinal, é um longa independente (tem um custo estimado de 10 milhões de dólares), conta com uma eficiente dupla de protagonistas e pouquíssimos personagens secundários e a sua premissa não é um grande primor, ainda que acerte por diversas vezes no que tem para mostrar (ou melhor, ocultar) sobre os seus vilões.

Como a cena inicial entrega, algo de muito trágico acontecerá ao casal interpretado por Liv Tyler e Scott Speedman. Liv é Kristen McKay que recusa a proposta de casamento de James (Speedman) no estacionamento de uma festa que estavam presentes. Arrasados, eles vão descansar na casa que pertencia ao pai de James. Mesmo com a pequena troca de diálogos, eles estão a ponto de se entenderem quando, de repente, aparece uma estranha garota procurando por outra chamada Tamara. O que não passava de um aparente engano se torna um verdadeiro pesadelo quando batidas agressivas contra a porta de entrada são ouvidas e suspeitos vestígios de invasão surgem. E logo saberemos que não se trata de apenas um, mas três estranhos que Kristen e James terão de enfrentar.

Com uma tensão crescente, Bertino se inspirou num episódio pessoal de sua infância para o seu “Os Estranhos”, mas a descrição passada no início da metragem é falsa (um truque que Marcus Nispel também recorreu com o seu vídeo forjado na refilmagem de “O Massacre da Serra Elétrica”). E com todo esse suspense arrepiante, Bertino já se mostra como um diretor promissor dentro do gênero atual ao trocar sustos previsíveis com acertados posicionamentos de câmera que permitem que o espectador fique impactado com imagens que os personagens centrais não visualizam, a exemplo da aterradora primeira aparição de um dos mascarados do longa (Kip Weeks). E a explicação para o horror é um achado: a questão formada por Kristen para o porquê deste comportamento dos três mascarados é respondida por eles (e por Bertino) com originalidade. Só a se lamentar a cena que encerra “Os Estranhos”. Talvez impulsionado pelos produtores, infelizmente Bryan Bertino teve que deixar um gancho para uma sequência, programada para 2010.

Título Original: The Strangers
Ano de Produção: 2008
Direção: Bryan Bertino
Elenco: Liv Tyler, Scott Speedman, Gemma Ward, Kip Weeks, Laura Margolis, Glenn Howerton, Alex Fisher e Peter Clayton-Luce

Divas do Blue Iguana

divas do blue iguana

Talvez seja a primeira vez que o mundo das mulheres que se sustentam como strippers profissionais ganha uma abordagem relevante no cinema. Ao contrário do que foi feito por Andrew Bergman em “Striptease”, longa perdido nas suas pretensões e que amaldiçoa Demi Moore até hoje, “Divas do Blue Iguana” é um filme triste que transforma as suas personagens em algo bem distante daquilo que definimos como “vadias”. Aqui as tais divas são mulheres perdidas no mundo que as cercam, que almejam por algum afeto e que possuem talento especial a ser desenvolvido mas que só encontraram alguma oportunidade de continuar seguindo um rumo se despindo em frente de homens mais vulgares e sujos que elas próprias. E ao contrário destes, as mulheres são as que mais apresentam garra e um sonho pelo qual lutar.

O que surpreende nesta premissa é que, por trás dela, está ninguém menos que Michael Radford, o cineasta sensacional responsável por “O Carteiro e o Poeta”, “O Mercador de Veneza” e o recente “Um Plano Brilhante”, que também dirige “Divas do Blue Iguana”. Aqui acompanhamos o dia e a noite de cinco dançarinas de uma boate. Pela manhã encarando a dura existência. Pela noite se apresentando. Entre elas, Angel (Daryl Hannah, que realizou o documentário “Strip Notes”, baseado nas suas experiências com este filme) é uma das strippers que ganham um grande destaque no drama, sendo ela uma pessoa de idade madura mas que se comporta como uma pós-adolescente aguardando pelo instante que possa vivenciar as experiências de ter uma filha, só que suas neuroses também se assemelham a esta fase da vida pelo qual já passou por um bom tempo. Já Jasmine (Sandra Oh) é aquela que elimina as suas dores internas escrevendo poemas maravilhosos. E temos também Joe (Jennifer Tilly), meio estourada e que está grávida.

As atrizes Sheila Kelley e Charlotte Ayanna também tem os seus momentos interpretando, respectivamente, Stormy e Jesse. Mas o valor de “Divas no Blue Iguana” reside em algo raramente elaborado no cinema: o trabalho coletivo. Com o baixo salário que as atrizes receberam para embarcarem neste projeto é surpreendente ver que todas elas se dedicaram de maneira intensa para a construção de suas personagens, conversando com strippers reais e visitando inúmeras boates acompanhando a rotina das dançarinas. Ao levantarem esta pesquisa, Radford, junto com David Linter, trataram de conceber a estrutura adequada para o longa. Apesar de todo esse esforço, “Divas do Blue Iguana” é irregular e este resultado pode ser obtido analisando cada uma das estrelas envolvidas. Sandra Oh, excelente atriz e que tem bom curriculum, é aquela que reserva a história com a qual mais nos identificaremos. Em contrapartida, é Daryl Hannah que, assim como sua carreira, está a um ponto de se jogar no abismo. Ou seja: faltou mais talentos para que o filme de Michael Radford se tornasse o estudo perfeito deste tema e que fosse dado como referência.

Título Original: Dancing at the Blue Iguana
Ano de Produção: 2000
Direção: Michael Radford
Elenco: Daryl Hannah, Charlotte Ayanna, Sandra Oh, Sheila Kelley, Jennifer Tilly, Chris Hogan, Rodney Rowland, W. Earl Brown e Elias Koteas.
Nota: 6.0

Sex and the City – O Filme

Sex and the City - O FilmeParece uma tarefa ingrata para qualquer homem, provavelmente antenado nas estréias de “O Incrível Hulk”, “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” ou mesmo “Speed Racer”, longas com muita adrenalina, encarar um filme como “Sex and the City – O Filme”, que na primeira impressão se apresenta como um filme com personagens neuróticas e que só pensam nas aparências usando trajes, calçados e acessórios que custam uma verdadeira fortuna. E não ajuda muito se você não resgatou alguma informação do formato anterior que rendeu o filme de Michael Patrick King, um seriado televisivo que durou seis anos de transmissão. No fim das contas, não é preciso embarcar em dezenas de episódios das seis temporadas de “Sex and the City” para não se sentir deslocado das passagens vividas por Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), Charlotte York (Kristin Davis), Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) e Samantha Jones (Kim Catrall) no cinema. E tanto o público feminino quanto o masculino podem se divertir com a amizade deste quarteto, mesmo que as mulheres consigam se deslumbrar mais.

No seriado televisivo, uma adaptação do livro de Candace Bushnell que entrou ao ar em 1998, acompanhamos quatro mulheres muito bem sucedidas profissionalmente, mas com crises nos relacionamentos. Carrie é uma colunista que fala sobre casos amorosos. Charlotte é a garota correta que procura por aquele tal marido dos sonhos. Miranda é a advogada mais centrada em suas metas pessoais. E, por fim, o grupo se fecha com Samantha, a mais velha das amigas e que sempre vê o sexo como uma prioridade. Já no filme, um grande sucesso de bilheterias e que já tem uma sequência em negociação, muitas mudanças acontecem a essas mulheres e o centro das atenções é Carrie e os preparativos do seu casamento com Mr. Big (Chris Noth). Só que a indecisão do segundo sobre se casar por uma terceira vez possibilita que o romance receba modificações não muito esperadas e que também atingirá todas as amigas de Carrie.

Com uma metragem que ultrapassa duas horas, “Sex and the City – O Filme” acaba com aquela gostosa sensação de quero mais. Isto acontece porque a história assumida pelo diretor Michael Patrick King (co-criador do seriado) sabe discutir com ternura os problemas de suas personagens perante o casamento, as dificuldades de manter uma família e o vazio existente quando não se é amado em meio a falta de tempo do companheiro para corresponder a este desejo. Neste aspecto, só perde mesmo a personagem de Kristin Davis, que não apresenta muitas incertezas a serem avaliadas. E vale informar que comentários por parte da crítica sobre a falta de consistência do roteiro ou mesmo de espaço para os personagens defendidos pelos homens são totalmente descartáveis e preconceituosos. Para as mulheres será muito prazeroso acompanhar a jornada de Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha provando peças do elegante guarda-roupa de Pat Fields (nomeada ao Oscar por “O Diabo Veste Prada” e que merece uma nova indicação na premiação de 2009). Já para os homens será divertido ver que não é somente nós quem lideramos os problemas vindos de um relacionamento ou que, enfim, somos os únicos a pensar em sexo.

Título Original: Sex and the City
Ano de Produção: 2008
Direção: Michael Patrick King
Elenco: Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon, Chris Noth, David Eigenberg, Evan Handler, Candice Bergen e Jennifer Hudson.
Cotação: ***

 

Resenha Crítica | A Garota dos Meus Sonhos (2006)

gray

Heather Grahan é aquele tipo complicado de atriz. É bela, tem desenvoltura para papéis cômicos e, quando quer, arrasa em personagens dramáticas. Quando entrevistada no período de lançamento de “Diga que Não é Verdade”, uma comédia produzida pelos irmãos Farrell, a atriz chegou a se entristecer quando afirmou que alguns jornalistas a acusaram de “burra” ao responder algumas questões em coletivas anteriores daquela. Comentário maldoso para a carismática estrela, mas ela precisa de muita inteligência para selecionar os seus papéis. Mesmo que a contragosto dos próprios pais, Grahan acreditou que tinha potencial para ser uma atriz. Esse pensamento a fez ter participações sem muito destaque nos simpáticos “Irmãos Gêmeos” (de Ivan Reitman, com Arnorld Schwarzenegger e Danny DeVito) e “Sem Licensa Para Dirigir”. Mas foi com “Drugstore Cowboy” que começou a ser notada, numa performance que lhe valeu uma indicação ao Independent Spirit Award. Mas é interessante observar com atenção esta personagem de Grahan no filme de Gus Van Sant, já que ela se repetiu por muitas vezes em toda a sua carreira. Segundo a própria atriz, ela seleciona aqueles papéis com as quais acredita compartilhar da mesma personalidade e que lhe proporcione alguma entrega. Mas precisa ser de mulheres ingênuas, frágeis e confusas?

Admito que gosto bastante de “Mata-me de Prazer”, um filme do aclamado cineasta chinês Chen Kaige e da Alice de Heather Grahan. É uma história elegante, sensual e que aborda a atração de seus personagens pelo prazer selvagem. Prazer este que culmina numa revelação final para lá de inesperada, mas não improvável. E Grahan também encarnou outra personagem para lá de perplexa em “Boogie Nights – Prazer Sem Limites”, no seu melhor momento como uma jovem drogada e atriz de filmes pornôs que não se livra de seus patins – onde ganhou o MTV Movie Awards. Está muito bem também em “Do Inferno”, mas o restante não é nada muito digno de comentários. Tudo isto para chegarmos em “A Garota dos Meus Sonhos”. O filme, produzido por Alexander Payne, conta sobre dois irmãos, Gray (Grahan) e Sam (Tom Cavanagh), com seus trinta anos de idade que moram juntos num apartamento e que sofrem por não terem encontrado aquela desejada alma gêmea para se casar. Só que além desta situação, os dois dividem tantas coisas em igual que os próprios amigos (e o espectador) questionam se, na verdade, não se tratam de um autêntico casal, e não de irmãos. Afinal, eles também já dividiram, por engano, a mesma escova de dentes, e possuem uma paixão pela dança e, consequentemente, pelos filmes musicais.

O problema é quando a linda Bridget Moynahan, como Charlie, surge em cena. Susan Kramer, que além de dirigir, roteiriza e produz o seu primeiro trabalho, cria um quadro extremamente irritante e improvável para se acreditar. É por ela que Sam se apaixona e, num toque de inverosimilhança, já arma um casamento no primeiro encontro. Já presenciei um casamento relâmpago, mas este de “A Garota dos Meus Sonhos” consegue ser risível – e não por querer apresentar uma situação engraçada, mas sim por pura tolice de Kramer. Para piorar, mais um toque de gênio: de uma hora para outra, Gray descobre que é gay (isso faz com que um trocadilho infame com o seu nome seja apresentado) por beijar Charlie na véspera do seu casamento com Sam. O resultado de “A Garota dos Meus Sonhos” só não é mais trágico do que, por exemplo, “Cake – A Receita do Amor” (uma comédia horrorosa onde Grahan interpreta Pippa McGee, que é tão idiota quanto a Gray Matters) porque aqui aparecem três coadjuvantes que são dez: Molly Shannon, como a amiga de Gray, Sissy Spacek como a psicóloga da protagonista e Alan Cumming como um taxista muito carismático. Os três intérpretes estão tão bons que nos fazem esquecer que estamos lidando com uma história tão mal construída.

Título Original: Gray Matters
Ano de Produção: 2006
Direção: Susan Kramer
Elenco: Heather Graham, Thomas Cavanagh, Bridget Moynahan, Molly Shannon, Alan Cumming, Rachel Shelley, Bill Mondy, Don Ackerman, Warren Christie e Sissy Spacek.
Nota: 3.5

Guerra sem Cortes

Guerra sem CortesO pós 11 de Setembro possibilitou que alguns diretores, cujas filmografias apresentam longas que muito se espelham na realidade na qual vivemos, tomassem incentivo de desenvolver novos projetos que encenam tanto a tragédia da queda das torres gêmeas ou mesmo a invasão de soldados americanos no Iraque quanto o comportamento dos cidadãos dos Estados Unidos diante deste traumático ataque terrorísta. O sequestro do jornalista Daniel Pearl em “O Preço da Coragem”, a procura de Hank Deerfield pelo seu filho desaparecido em “No Vale das Sombras” e Nick tentando elaborar junto com Joan um discurso em homenagem aqueles soldados que deram suas vidas em busca de sobreviventes ao ruir do World Trade Center em “Os Heróis” é uma pequena remessa dentro de uma extensa relação de dramas que, de forma ficcional ou não, transmitem toda a dor de seus personagens. No entanto, tais exemplares podem ser encarados como um “treinamento” diante de “Guerra sem Cortes”, o mais novo filme de Brian De Palma vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza em 2007.

Antes de tudo, é fundamental alertar que o cineasta trabalha com uma premissa muito similar àquela apresenta em “Pecados de Guerra”, drama de guerra protagonizado por Michael J. Fox rodado em 1989. Em ambos os filmes acompanhamos um soldado de boa conduta diante da agressividade de seus companheiros no combate, que culmina no estupro coletivo de uma garota e, posteriormente, a sua morte. Mas além da diferença de um ser uma encenação e o outro também apresentar este trabalho mas com documentos verdadeiros (como fotos, relatórios, vídeos, entre outros materiais), temos sob controle um diretor que se comporta de forma distinta com o seu filme. Em “Pecados de Guerra” J. Fox representava uma figura que gostaria de se ver distante de todos aqueles horrores da Guerra no Vietnã. Em “Guerra sem Cortes”, que tem como ator central Rob Devaney (mais uma descoberta estupenda de profissional pelo diretor), De Palma tem uma proposta primordial, que é mostrar a verdade que a mídia insiste em não apresentar com clareza. Desta forma, prepare-se para uma experiência que é completamente desconfortável.

Mesmo que o estupro e assassinato da menina Abeer Qasim Hamza al-Janabi e de toda a família com quem vivia numa modesta residência seja o principal foco apresentado pelo diretor, existem muitos momentos de horrores deste trecho acontecido em 2006. Há o assassinato de uma mulher prestes a dar à luz, assim como a perturbadora sequência onde um soldado é decapitado por rebeldes iraquianos como amostra de vingança. Para elevar esta denúncia, Brian De Palma também trabalha de forma documental em “Guerra Sem Cortes”, onde essa rotina dos soldados americanos é interrompida com vídeos jornalísticos, com depoimentos daqueles que observam com grande distância todo o horror e, claro, de assassinatos. Estes artifícios renderam, novamente, através de Brian De Palma uma nova forma de se fazer cinema. Mas o vigor de “Guerra sem Cortes” se concentra no desejo único do diretor: mesmo que a verdade tenha de ser apresentada com rasuras propositais em forma de tarjas pretas ela precisa ser mostrada para que consigamos nos conscientizar da extrema violência que nos cerca com maior intensidade a cada novo dia.

Título Original: Redacted
Ano de Produção: 2007
Direção: Brian De Palma
Elenco: Rob Devaney, Izzy Diaz, Patrick Carroll, Ty Jones, Ohad Knoller e Abigail Savage.
Cotação: 4 Stars