Um Crime Americano

Um Crime Americano

Atualmente acompanhamos pelas manchetes muitos casos de pessoas que são mantidas em cativeiro sendo molestadas e torturadas, especialmente mulheres e pré-adolescentes. E um desses casos comentado até hoje, apesar das mais de quatro décadas já passadas, é o da garota Sylvia Marie Likens. E é sobre o acontecimento chocante envolvendo Sylvia que o diretor Tommy O’Haver (que tem “Uma Garota Encantada” como seu trabalho anterior) desenvolve “Um Crime Americano”, ao qual é responsável pela direção e roteiro também escrito por Irene Turner. Ainda que lançado diretamente para a tevê em maio de 2008 pela First Look International, “Um Crime Americano” não passou despercebido.

O retrato será mais doloroso se você não se propuser a pesquisar sobre ele antes de assistir ao filme de O´Haver, que centra na adolescência de Sylvia (Ellen Page) e sua irmã Jennifer (Hayley McFarland). Filhas de um casal que sobrevive através do circo, elas são deixadas pelo pai Lester (Nick Searcy) aos cuidados de Gertrude Baniszewski (Catherine Keener, indicada recentemente ao Globo de Ouro na categoria de melhor atriz por mini-série ou filme televisivo) por vinte dólares semanais. Bem religiosa e totalmente desequilibrada, não consegue controlar os seus seis filhos e muito menos ter um relacionamento decente com o jovem Andy (James Franco). E não demora para Gertrude punir a mais velha das duas irmãs em sua responsabilidade, Sylvia, por coisas que ela não cometeu. E estes castigos cada vez mais constantes e brutais são insuportáveis de serem observados.

Junto a esta ação, passada em Indianópolis (local onde Tommy O’Haver viveu a sua infância), são acrescentadas vários depoimentos dentro de um tribunal que se espelham no que de fato foi declarado por vários das pessoas interrogadas e envolvidas neste caso. E esta montagem faz com que a indignação entre aqueles que contribuiram nesta tortura de Sylvia ou os que se calaram perante seu sofrimento seja ainda maior, assim como o ato final do longa. Um filme de tamanha tristeza e que nos deixa a par de um acontecimento real repetidas das mais diversas formas por todo o mundo não precisava recorrer a um epílogo tão enganador ou mesmo constrangedor. Mas vale ficar atento ao filme “The Girl Next Door”. Produzido no mesmo ano de “Um Crime Americano”, a adaptação do livro de Jack Ketchum, que se inspirou inteiramente no caso de Sylvia Likens, está causando grande impacto entre aqueles que o vê, julgando ser uma experiência de tamanha brutalidade que é difícil usá-la como sugestão para o público.

Título Original: An American Crime
Ano de Produção: 2007
Direção: Tommy O’Haver
Elenco: Ellen Page, Catherine Keener, Hayley McFarland, Nick Searcy, Romy Rosemont, Ari Graynor, Scout Taylor-Compton, Tristan Jarred, Hannah Leigh Dworkin, Carlie Westerman, Jeremy Sumpter, James Franco, Brian Geraghty, Bradley Whitford e Michael O’Keefe.
Nota: 6.0

Ensaio Sobre a Cegueira

No espaço virtual onde o cineasta brasileiro Fernando Meirelles dissecava sobre a construção de seu novo longa internacional, Diário de Blindness, acredita-se que muitos leitores e os admiradores pelo seu trabalho no cinema puderam notar as dificuldades e cuidados ao adaptar um romance de amplo sucesso e  que  já sinalizava divergências futuras  entre o público mais conservador. O resultado que Meirelles conseguiu com o seu “Ensaio Sobre a Cegueira”, um projeto que o cineasta lutava por anos para adaptar até receber aprovação de José Saramago (autor do romance), é um drama menos complexo do que se imaginava, ordenado com criatividade, mas com muita insegurança.

Não se trata de uma comparação, mas às distâncias (bem às distâncias), o público experimentará sensações similares a aquelas de “Dogville”, do diretor dinamarquês Lars Von Trier. Se no filme alternativo de 2003 Grace (Nicole Kidman) era uma heroína diante de figuras que representam toda a sordidez de nossa sociedade de ontem, de hoje e de sempre, A Mulher do Médico (Julianne Moore) também é posicionada nesta situação, ainda que num cenário ainda mais caótico após uma cegueira branca se alastrar por todo o mundo. E, assim como Grace, A Mulher do Médico tem o poder (a sua imunidade perante a esta “praga indecifrável”) que pode trazer a resolução deste problema, ainda que se comporte passivamente, passando-se também por infectada por este mal.

Meirelles se mantém fiel a estrutura do livro, fazendo com que a identidade de seus personagens ou mesmo o ambiente onde eles transitam seja de pouco válido, e com a fotografia de César Charlone somados as sons compostos por Marco Antônio Guimarães auxiliam que este ensaio de um caos ao qual o título original sugere tenha muito a ver com a forma onde os seres humanos se rebelam em situações de risco e puro desespero. O problema se concentra na transição dos três atos do filme. Bem distintos entre si, a impressão é que Fernando Meirelles se deixou levar por demais na recepção de sua obra em sessões testes ou mesmo de sua premiere em Cannes, realizando alguns cortes que talvez impossibilitou que  a ação inicial como aquela de reclusão e de libertação posterior se unissem com maior harmonia. Entretanto, isto não faz com que o poder do texto de Don McKellar seja totalmente amenizado.

Título Original: Blindness
Ano de Produção: 2008
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar, baseado no romance de José Saramago
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Mitchell Nye, Danny Glover, Gael García Bernal e Sandra Oh
Cotação: ***

Resenha Crítica | A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (2008)

A Múmia - Tumba do Imperador Dragão
Em 1981, “Os Caçadores da Arca Perdida” do veterano diretor Steven Spielberg fez com que as aventuras hollywoodianas ganhassem um novo fôlego. Mesmo produzida há quase três décadas, a fita do arqueólogo Indiana Jones conseguiu que a magia de sua aventura se repetisse tanto nas suas sequências, assim como também serviu de inspiração para que outros cineastas armassem as suas histórias empregando muitos efeitos especiais de ponta e muito bom humor. E um desses cineastas foi o americano Stephen Sommers que não é um grande profissional, mas que fez com que “A Múmia” e “O Retorno da Múmia” fossem filmes extremamente divertidos e de grande estima perante aqueles que tem como “Indiana Jones” uma de suas séries prediletas do cinema. E é lamentável que o diretor tenha transferido a sua cadeira de controle para Rob Cohen, responsável por um blockbuster que talvez seja o mais bocejante de toda a década, “Stealth – Ameaça Invisível”.

O início da terceira jornada da família O’Connell que se dá antes dos créditos iniciais é promissora. Em tom sério e de tirar o fôlego, o Imperador Dragão de Jet Li consulta a feiticeira Zi Juan (Michelle Yeoh) querendo arrancar dela a fórmula que o tornará um ser imortal. Depois de Zi Juan se apaixonar por aquele que é o fiel soldado do Imperador Dragão, uma reviravolta acontece e este, junto com todo o seu exército, se transformam em estátuas. Depois de milênios quando a tumba é descoberta por Alex O’Connor (Luke Ford), o encanto de uma hora para outra é desfeito e resta a Rick (Brendan Fraser) e Evelyn O’Connell (a boa Maria Bello, numa personagem que se encaixava melhor quando incorporada pela insossa Rachel Weisz) a ajudarem o filho numa viagem para a China depois de muitos anos fora de ação.

Com orçamento bem exagerado, até que Cohen consegue criar sequências visualmente bonitas, como aquela passada em Xangai com carroças em grande movimento com a explosão de muitos fogos de artifício. Mas é de se estranhar que a grande maioria das cenas com adrenalina não consigam empolgar o público, especialmente a barulhenta batalha final. Algo que também não ajuda é as muitas situações embaraçosas do roteiro escrito por Alfred Gough e Miles Millar, como as irritantes pausas para as reuniões familiares dos O´Connell. Isso fez com que essa segunda sequência da franquia, cujo primeiro episódio é uma adaptação de “A Múmia” de 1932 (estrelado por Boris Karloff), resulte em uma aventura frouxa. E não será inserindo uma vaca em cena de pleno vôo que tornará o filme cômico.

Título Original: The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor
Ano de Produção: 2008
Direção: Rob Cohen
Elenco: Brendan Fraser, Maria Bello, Jet Li, John Hannah, Luke Ford, Michelle Yeoh, David Calder, Anthony Wong Chau-Sang e Isabella Leong.
Nota: 5.0

Quatro Amigas e Um Jeans Viajante 2

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Quatro Amigas e Um Jeans Viajante” é uma adaptação da obra literária de Ann Brashares, que consiste numa franquia de quatro livros, sendo estes “A Irmandade das Calças Viajantes”, “O Segundo Verão da Irmandade”, “Meninas de Calças: O Terceiro Verão da Irmandade” e “Forever in Blue: The Fourth Summer of the Sisterhood”. Mesmo que não tenha conquistado grandes feitos em termos de bilheteria, a popularidade de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante” entre os jovens não demorou a aparecer. E o filme tem méritos o suficiente para este bom êxito: é uma história singela sobre amadurecimento.

Mas como os produtores acreditaram que a série literária não teria fôlego para quatro filmes, optaram-se por selecionar somente “Forever in Blue: The Fourth Summer of the Sisterhood” com algumas passagens de “O Segundo Verão da Irmandade” e “Meninas de Calças: O Terceiro Verão da Irmandade” para a construção de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante 2”, que novamente trás as amigas Carmen (America Ferrara), Tibby (Amber Tamblyn), Lena (Alexis Bledel) e Bridget (Blake Lively) tendo que se separarem para enfrentar as responsabilidades e aventuras de Verão. Carmen está trabalhando com o teatro; Tibby passa por problemas com o seu namorado depois de sua primeira transa; Lena se dedica a arte da pintura e Bridget se aventura como arqueóloga.

Embora a continuação ainda traga uma boa química entre as quatro adolescentes e reserve bons momentos pela turma de coadjuvantes liderados aqui por Blythe Danner, Shohreh Aghdashloo e Kyle MacLachlan, nota-se que a roteirista Elizabeth Chandler, a mesma do drama original, não está muito à vontade ao condensar praticamente três romances para um único roteiro e que a cineasta Sanaa Hamri não impõe a mesma dinâmica de Ken Kwapis, fazendo com que a distância entre as quatro personagens centrais não apresente alguma emoção pelos vários encontros e desencontros que arma ao longo do filme. Isto faz com o que a história se desenvolva com alguns problemas, abrangendo um espaço maior para situações de relacionamentos amorosos e menor para reflexões em questão do valor da amizade e das descobertas fascinantes pelas as quais elas passarão.

Título Original: The Sisterhood of the Traveling Pants 2
Ano de Produção: 2008
Direção: Sanaa Hamri
Elenco: Amber Tamblyn, Alexis Bledel, America Ferrera, Blake Lively, Rachel Nichols, Tom Wisdom, Rachel Ticotin, Leonardo Nam, Michael Rady, Shohreh Aghdashloo, Blythe Danner e Kyle MacLachlan.
Nota: 5.5

Resenha Crítica | Quarentena (2008)

Todo mundo sabe que Hollywood é uma enorme fábrica de sonhos. Mas por muitas vezes essa indústria cinematográfica confecciona longas com conceitos nada originais. Se idéias novas não estão rendendo, que vá garantir sucesso com base em um material já apresentado com sucesso, baixo custo e bom retorno do público. É através deste pequeno exemplo que nos aproximamos a “Quarentena”, remake realizado com uma pequena distância de meses do lançamento de “[REC]“. E, ao julgar pelo seu resultado, chegamos a conclusão de que os americanos que movem o cinemão deveriam tomar vergonha na cara. Tudo o que foi mostrado no excelente longa conduzido em 2007 pelos diretores espanhóis Jaume Balagueró e Paco Plaza é copiado da cabeça aos pés. O resultado pode até parecer o mesmo, mas definitivamente não é.

Vamos a trama: Angela Vidal (Jennifer Carpenter, de “O Exorcismo de Emily Rose”) é uma repórter que junto com o cinegrafista Scott (Steve Harris, de Mirority Report – A Nova Lei”) cobrirão a rotina noturna de um Corpo de Bombeiros em Los Angeles. Ambos circulam pelos locais até que um pedido de emergência surge. Ao chegar ao local onde os bombeiros devem iniciar a operação, acabam por entrar no apartamento de uma senhora coberta de sangue. Pensando que se trata de uma velha louca, assim como os vizinhos a julgaram, mal sabem que ela está com um vírus que, se transmitido para outra pessoa, os transformará em seres raivosos. O problema é que ao todos se aproximarem da saída principal do edifício onde estão, a vigilância sanitária os deixaram em quarentena.

Só aqueles que não viram o horror espanhol encontraram algo para se entreter. E, como dito anteriormente, “Quarentena” tem uma estrutura idêntica a apresentada por Balagueró e Plaza em “[REC]”. Só que ao contrário do filme rodado em 2007 e que obteve um grande êxito mundialmente, “Quarentena” não trás desconforto algum – no bom sentido, claro. Nem Jennifer Carpenter, que apresentou um desempenho extraordinário em “O Exorcismo de Emily Rose”, tem o que fazer aqui, orientada pelo diretor John Erick Dowdle a imitar diálogos, expressões e sustos de Manuela Velasco, a protagonista da fita original.

Mas o pior de tudo é quando “Quarentena” quer se diferenciar um pouco de “[REC]”. Só para se ter uma idéia, chega um instante onde alguns personagens analisam que esta infecção se espalhou a partir de uma família de negros. O que era algo engraçado no original, que em certo momento apontava que esse vírus se originou de um casais de orientais, aqui vira puro preconceito. Mas o destaque mesmo é quando Erick Dowdle faz com que o personagem Scott apareça para o público e que, pior ainda, se defenda usando a sua ferramenta de trabalho como defesa, “martelando” inúmeras vezes a câmera de forma subjetiva diretamente ao rosto de um dos infectados. Que grosseria!

Título Original: Quarantine
Ano de Produção: 2008
Direção: John Erick Dowdle
Elenco: Jennifer Carpenter, Steve Harris, Jay Hernandez, Johnathon Schaech, Columbus Short, Andrew Fiscella e Joey King

[REC]

[REC]Os cineastas Jaume Balagueró e Paco Plaza são grandes destaques dentro do cinema espanhol contemporâneo. E o talento de ambos justifica todo esse prestígio. No entanto, mesmo que os seus filmes obscuros tenham um delineamento invejável no que se diz respeito a atmosfera, Balagueró e Plaza trabalham com roteiros tão pretensiosos que nos impossibilita de entregar uma melhor avaliação para as suas obras. Basta assistir “A Seita” (de Balagueró) e “Romasanta – A Casa da Besta” (de Plaza) para notarmos que há um vigoroso trabalho técnico e habilidade para cenas de terror, mas que não sustentam a narrativa “viajante”. Isso muda de forma extraordinária em “[REC]”, um terror sensacional e de verdade que proporciona uma experiência perturbadora que não é transmitida desde “A Bruxa de Blair”.

A repórter Ángela Vidal (a sensacional Manuela Velasco, que fez uma pequena participação quando pequena em “A Lei do Desejo”, de Pedro Almodóvar) é incumbida juntamente com o seu cameraman Pablo (Pablo Rosso, ao qual nunca vemos e que é responsável pela fotografia do filme) para apresentarem uma nova atração para o programa “Enquanto Você Dorme”. Desta vez, a dupla deve cobrir a rotina noturna dos bombeiros. Eles passam pelo refeitório, dormitórios, quadra para esportes, banheiros e outros espaços do quartel aguardado por uma chamada com a intenção de registrar toda a operação dos bombeiros. Uma emergência acontece e ambos acompanham todo o percurso até um prédio onde num dos quartos há uma idosa que perturba os vizinhos com os seus gritos. Não é um ataque de loucura e um dos policiais que também averiguam a situação é atacado brutalmente. Quando todos vão a caminho do portão principal para escaparem deste perigo que logo se pronunciará como epidemia todo o local é bloqueado pela vigilância sanitária num estado agravante de quarentena.

Tudo isto é orquestrado por Balagueró e Plaza no mesmo recurso de “A Bruxa de Blair”: conduzido num formato como se tudo que vemos fosse registrado de forma verídica, apagando completamente a nossa convicção de que não passa de pura encenação. Embora este seja uma forma de cinema que aos poucos se adapta pela maneira como o público vem respondendo a isto no número de bilheterias, nenhum longa dessa safra recente foi capaz de ser tão marcante como “[REC]”. Talvez “Diário dos Mortos”, de forma alguma o fraco “Cloverfield – Monstro” e muito menos a péssima refilmagem de “[REC]”, “Quarentena”.

Manuela Velasco, que venceu o prêmio Goya de melhor atriz revelação ano passado, está impressionante ao interpretar de forma magnífica e crível o desespero que toma a sua personagem e a sensação do público se fixar em Pablo, como um objeto principal de cena que parece participar dentro da ação, é instantânea. Não há trilha instrumental, somente um trabalho de som competente que merece extremo reconhecimento. Mas muitos dos méritos devem ser devidamente depositados aos diretores que com um roteiro eficiente, também escrito por Luis Berdejo, criaram um filme que não se limita aos sustos. Muito pelo contrário. Renovam o conceito de filmes de zumbis, se tornam referência dentro do gênero e proporcionam uma experiência tão incômoda e de níveis tão insuportáveis que acabam por entregar a verdadeira mágica do nosso prazer pelo medo. Um sentimento que evitamos apresentar, mas viciosa no cinema quando este a proporciona através da ficção – e que é ainda mais eficiente quando surpreende pelo incrível realismo que a encena.

Título Original: [REC]
Ano de Produção: 2007
Direção: Jaume Balagueró e Paco Plaza
Elenco: Manuela Velasco, Ferran Terraza, Jorge Serrano, Pablo Rosso, David Vert, Vicente Gil, Martha Carbonell, Carlos Vicente, Claudia Font, Carlos Lasarte e Javier Botet.
Cotação: 4 Stars

Resenha Crítica | Encarnação do Demônio (2008)

Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins

Embora muitas pessoas, especialmente as mais jovens, não tenham visto ao menos um filme de José Mojica Marins, a sua famosa criação, o Zé do Caixão, é um nome presente na vida de todos os brasileiros como se fosse um personagem folclórico. Mas não é somente do cinema que Marins se mostrava em evidência, vendo as diversas atividades que exerceu ao longo dos anos como apresentador, convidado em shows (foi na apresentação da banda “Sepultura” que ele cortou as suas enormes unhas) ou mesmo de anfitrião em seções terroríficas em parque de diversões como o Playcenter – local este, inclusive, que acontece o ápice de “Encarnação do Demônio”, filme que Marins realiza um sonho de muitos anos atrás: fechar sua trilogia iniciada em 1964 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” e seguida dois anos depois com “Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver”.

Depois de conseguir investimento para o seu projeto quando os produtores morreram nas duas outras oportunidades passadas, aqui Marins contrói um roteiro bem simples com o apoio de Denison Ramalho. Depois de recrutar um grupo de serviçais, Zé do Caixão continua com a sua busca incessante por uma mulher perfeita ao qual gerará aquele que será o filho que prosseguirá com a sua trajetória. Mas é claro que haverá personagens que entraram no seu caminho, sendo as suas vítimas mais cedo ou mais tarde. Além daqueles moradores de favela que o enxergam com olhares nada agradáveis, há também um padre vivido por Milhem Cortaz que o procura com justificativa de vingança, contando com o suporte do Coronel Claudiomiro Pontes (Jece Valadão, que veio a falecer durante as filmagens de “Encarnação do Demônio”).

Ao cinéfilo que pouco aprecia encarar cenas fortes no cinema é bom se preparar: “Encarnação do Demônio” trás inúmeras sequências onde o banho de sangue e as diversas ferramentas de tortura são a atração principal, que vai de uma cena de sexo bem macabra assim como aquela realizada por Alan Parker em “Coração Satânico” até mergulho de mulheres em tambores com baratas e vermes e, para dar mais dicas do cardápio, outra tortura brutal com uma ratazana entrando por uma vagina. Só que o problema está centralizado mesmo na crítica, que defende este retorno de José Mojica Marins de forma infantil, especialmente quando o número nas bilheterias brasileiras não foram nada agradáveis. Um filme como “Encarnação do Demônio”, com toda a sua importância para a história de nosso cinema não merece ser relevado pelo público por causa de “similares” americanos bem-sucedidos (afinal, segundo alguns, quem vê “Jogos Mortais” e “O Albergue” tem que garantir reserva para conferir o longa por ser ainda mais brutal), sendo que o seu verdadeiro mérito se encontra na diversidade que aos poucos a nossa indústria cinematográfica vem abraçando, como visto nos prêmios merecidamente conquistados no recente Festival de Paulínia. Além do mais, “Encarnação do Demônio” é forte, caprichado e bem amarrado, mas os delírios encenados ao longo do filme não apavoram, são tediosos, repetitivos e nada parecem combinar com o Zé do Caixão.

Resenha Crítica | Eu Sei Quem Me Matou (2007)

Eu Sei Quem Me Matou | I Know Who Killed Me

I Know Who Killed Me, de Chris Sivertson

O diretor Chris Sivertson passou por um grande calvário ao lançar o suspense “Eu Sei Quem Me Matou”. Neste seu segundo longa metragem – anteriormente só havia realizado o desconhecido “The Lost” com Dee Wallace, diva dos filmes de terror – Sivertson conquistou inúmeras nomeações e vitórias na edição de 2008 do Framboesa de Ouro, não houve retorno esperado do público quando seu filme foi exibido em 2007 nos Estados Unidos e recebeu uma reprovação quase completa de público e crítica. Não se pode dizer, no entanto, que se trata de uma leitura equivocada que muitos tiveram com o seu suspense (apesar de comentários grosseiros terem sido uma constante sobre a sua obra), mas “Eu Sei Quem Me Matou” não é um filme para fácil apreciação. Mas com um orçamento razoável que teve em mãos (estima-se que o valor do longa seja de 11 milhões de dólares), pode-se dizer que Sivertson alcançou feitos impressionantes, seja no que se diz respeito a todo caprichado trabalho técnico, seja por conseguir trabalhar sem pressão diante de uma narrativa arriscada de se apresentar para um público que garantia o seu ingresso para propostas pouco ousadas dentro do gênero.

Aqui Lindsay Lohan, num papel sob medida para o seu talento e beleza, encara um papel duplo. Mas não é uma certeza se de fato a atriz está incorporando uma personagem com crise de múltipla personalidade ou que realmente é quem diz ser. A princípio o público conhece Aubrey Fleming, uma jovem comportada e aluna acima da média, que abandona o seu talento como pianista para se dedicar a escrita. Após torcer para o seu namorado Jerrod (Brian Geraghty) num campeonato noturno de futebol americano no colégio onde estuda, Aubrey desaparece de forma misteriosa em pleno toque de recolher, uma medida de segurança arquitetada quando uma jovem com a mesma faixa etária de Aubrey é encontrada morta. É claro que será Aubrey a próxima vítima. O grande mistério é que, depois de ser encontrada viva sem um dos braços e uma das pernas, a garota estranha quando seus pais (interpretados por Neal McDonough e Julia Ormond) a reconhecem como Aubrey, pois ela insiste de que seu nome é Dakota Moss. Ela é a chave para que os detetives da cidade onde vive capturem o serial killer, mas a agora Dakota não reconhece as pessoas que a cercam, tem uma postura muito diferente a da sempre apresentada por Aubrey e se desespera quando sente muitas dores de forma inexplicável no próprio corpo, assim como muitos hematomas.

O que torna “Eu Sei Quem Me Matou” um filme tão original é que esta curiosa premissa não é só encenada através de falas e cenas suspicazes. Mesmo que um novato, há algo que Chris Sivertson pratica em bons momentos do seu projeto que muito se assemelha, surpreendentemente, aos trabalhos de diretores como Brian De Palma, que aqui Sivertson se influencia em toda a projeção. Ecos de “As Irmãs Diabólicas” são acionados e existe um personagem, do qual não deve ser mencionado, que muito lembra o jeito sinistro de atuação do ator William Finley. E isto se apresenta num grande vigor que tem com o uso de cores, artimanhas com a câmera (o diretor usa o split screen na revelação do mistério) e a música de Joel McNeely para colaborar ainda mais para o clima sobrenatural e poético de “Eu Sei Quem Me Matou”. Sem pretensão alguma, obtêm um resultado muito curioso e elegante com tintas vivas de vermelho e azul como metáfora do Bem e do Mal, de como esses lados tão opostos entre si só caminham quando unidos.

É claro que nem sempre Sivertson é confiante neste recurso e deixa que certas passagens um tanto dispensáveis (mas que não comprometem o ritmo do filme) do roteiro de Jeff Hammond façam com que a ação se deixe falar por este lado místico empregado, como na transa de Jerrod com Dakota, um momento até engraçado e que colabora para deixar ainda mais evidente as mudanças das personagens de Lohan, mas que beneficiaria mais o filme se não existisse. Não é fácil encarar quase todo o filme com Lohan sem alguns membros do corpo e com uma trama que além de todos esses elementos complexos envolvem stigmatismo, segredos do passado e a já citada abordagem de lados opostos. Mas o seu andamento e especialmente a sua conclusão (Sivertson preparou um final alternativo, mas sabiamente selecionou o melhor desfecho) são originais e os enigmas não muito fáceis de serem solucionados ao longo da projeção são interessantes de serem analisados.