Resenha Crítica | Toy Story 3 (2009)

O amadurecimento de uma pessoa jovem implica em diversas mudanças. Afinal, assim que largamos a adolescência, muitas coisas que nos eram queridas na infância são esquecidas. No caso de Andy, o personagem humano central de “Toy Story 3”, ir para a faculdade implica em não ver a sua mãe com a mesma frequência e abandonar temporariamente o lar onde nasceu e cresceu. Com isto, também se vai a disposição em continuar tendo seus velhos brinquedos como companhia.

O destino do caubói Woody (voz de Tom Hanks), Buzz Lightyear (Tim Allen) e companhia é o tema principal deste terceiro e último capítulo animado roteirizado por Michael Arndt e dirigido por Lee Unkrich, que registrou na última edição do Oscar a presença como finalista em cinco categorias. Todos esses bonecos, após uma tremenda confusão, vão parar em uma creche. Ao contrário de Andy no passado, as crianças fazem a maior algazarra com os inúmeros brinquedos disponíveis para a hora do recreio. O pior, entretanto, está por vir. De noite, todo o espaço é monitorado pelo urso de pelúcia Lotso (Ned Beatty), criando até mesmo uma prisão para os bonecos que não obedecerem as suas regras. Desesperados em reverem Andy, Woody e Buzz Lightyear fazem de tudo para fugirem da situação.

Acredito que muitos, assim como eu, sentiram uma grande nostalgia nos primeiros minutos de “Toy Story 3”. Afinal, os dois capítulos anteriores, produzidos em 1995 e 1999, foram animações significativas para o público infantil e também para a história do gênero com os expressivos avanços técnicos de qualidade apresentados. Por isto o humor adulto (qualquer passagem com Ken, o famoso namorado da Barbie, é impagável!) e as sequências dramáticas funcionarem melhor para uma geração marcada pelas aventuras de Woody e Buzz.

Título Original: Toy Story 3
Ano de Produção: 2009
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Michael Arndt
Vozes de: Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Estelle Harris, John Morris, Jodi Benson, Emily Hahn, Laurie Metcalf, Blake Clark, Teddy Newton, Timothy Dalton, Jeff Garlin, Bonnie Hunt, R. Lee Ermey, Richard Kind e Whoopi Goldberg
Cotação: 4 Stars

O Vencedor

Muitos intérpretes e diretores são célebres pelas recusas de projetos promissores e que cumpriram com todas as expectativas e muito mais. O cineasta Darren Aronofsky era o nome responsável pela condução deste “O Vencedor”. Mais interessado em realizar “Cisne Negro“, Darren Aronofsky pulou fora e para não deixar Mark Wahlberg na mão, já que o protagonista também é produtor do filme, fez questão de colaborar como produtor executivo. Camarada de Mark Wahlberg desde os tempos de “Três Reis”, David O. Russell aceitou a proposta de dirigi-lo pela terceira vez (eles também fizeram “Huckabees – A Vida é Uma Comédia”). A troca fez bem para ambos os cineastas, mas David O. Russell saiu em uma pequena vantagem, pois no Oscar 2011 “O Vencedor” arrebata sete indicações, duas a mais que “Cisne Negro“.

O enredo de “O Vencedor” aparentemente é dos mais conhecidos, pois os personagens centrais, os irmãos Micky Ward e Dicky Eklund, são figuras reais. Ou seja: assim como em “127 Horas“, nós já sabemos no que o final dessa história dará. Mas o que vale aqui é acompanhar esses irmãos, tão unidos e ao mesmo tempo tão opostos. Micky Ward (Mark Wahlberg) é o irmão caçula, com todo um jeitão deslocado, mas de bom coração. Sempre viveu à sombra do irmão Dicky até que este passou a se viciar nas drogas. Perdeu o prestígio e todo o vigor físico. Ambos são apaixonados pelo boxe e Dicky tenta reconquistar a fama sendo protagonista de um documentário da HBO com intenções que ele desconhece e dando apoio (apesar do desleixo) ao irmão para se tornar o novo campeão mundial.

Tinha tudo para ser mais um drama esportivo se não fosse a autenticidade de como essa história real é construída e os fascinantes personagens. Os momentos mais insólitos são protagonizados por Mellisa Leo, mãe de Micky e Dicky e de outras sete mulheres. É hilário quando todas vão tirar satisfações com a atendente de bar Charlene (Amy Adams), namorada de Micky com suas boas intenções não sendo apropriadamente compreendidas. Se não fosse uma equivocada campanha onde Mellisa Leo se autopromoveu, o Oscar de melhor atriz coadjuvante já seria todo seu.

Dentro desses conflitos, encontra-se uma produção que entusiasma por ter personagens errantes que precisam entrar em um estado de transformação, mas que às vezes não sabem como darem o primeiro passo. O fato de deixar as lutas de ringue como segundo plano é o acerto mais representativo de “O Vencedor”. Afinal, o que realmente importa para David O. Russell e para o público é o drama familiar.

Título Original: The Fighter
Ano de Produção: 2010
Direção: David O. Russell
Roteiro; Eric Johnson, Paul Tamasy e Scott Silver
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo, Jack McGee, Melissa McMeekin, Bianca Hunter, Erica McDermott, Jill Quigg, Dendrie Taylor, Kate B. O’Brien, Jenna Lamia e Mickey O’Keefe
Cotação: ****

 

Resenha Crítica | Cisne Negro (2010)

O mundo do balé pode não ser tão belo. No cinema contemporâneo, um dos últimos filmes de Robert Altman, “De Corpo e Alma”, nos esclarecia muito bem que para o resultado de uma apresentação de balé ser espetacular é preciso sofrer muito nos bastidores. Embora apenas regular, nesta realização Neve Campbell, que antes de atriz foi bailarina, protagoniza (ou revive) situações de extremo esforço físico, onde garotas se desgastavam com movimentos que a faziam serem leves como pena. Embora Darren Aronofsky tenha descrito seu “Cisne Negro” como a irmã de “O Lutador“, ele tempera as características deste e de muitos outros exemplares similares. Mas do que isto. “Cisne Negro” é, na verdade, um drama psicológico onde todos os tormentos para se alcançar a perfeição são expostos às vezes de maneira assustadora.

Nina Sayers (Natalie Portman) é a protagonista sensível que viverá na pele as durezas que deverá superar assim que é anunciada como a substituta da prima ballerina Beth Macintyre (Winona Ryder, um pouco desperdiçada) na encenação de “O Lago dos Cisnes”. Apesar da imensa felicidade de finalmente ter sua dedicação como bailarina reconhecida, nada a ajuda superar um impasse. Ela é notável para incorporar a Cisne Branca, mas para protagonizar esse balé dramático com composição de Tchaikovsky será preciso convencer e seduzir a audiência também como Cisne Negro. Um papel duplo que confundirá o psicológico de Nina, criando delírios e com o lado negro de sua personalidade vindo à tona especialmente com a presença de uma concorrente em potencial chamada Lily (Mila Kunis) e as intromissões de sua mãe superprotetora e ex-bailarina Erica (Barbara Hershey).

De longe o maior sucesso comercial de Darren Aronofsky, “Cisne Negro” é um filme feito com economia e muito talento que rapidamente caiu nas graças de todos. Isto porque Aronofsky criou um pesadelo delirante, com maravilhas que brotam até mesmo nos maiores horrores materializados pela mente de Nina. Ver a sua degradação física chega a ser insuportável, com arranhões pelo corpo e dedos com unhas que caem e pele dilacerada. Mas nem sempre todo o potencial é aproveitado. Os primeiros dois atos também investem em outros delírios bem óbvios, como reflexos de espelhos, sócias de Nina por onde ela está e alguns sustosquando sua repressão sexual é exposta.

Com isto, a sensação que “Cisne Negro” transmite é que a loucura que busca retratar de Nina não atinge a complexidade esperada. Apenas quando a personagem se livra de suas próprias amarras que o suspense atinge altos picos de arrepio e fascínio, interferindo positivamente na performance de Natalie Portman. Representa o instante mais sublime da atriz quando o “lado negro” finalmente a domina, com uma expressão marcante de pura excitação.

Título Original: Black Swan
Ano de Produção: 2010
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Andres Heinz, John J. McLaughlin e Mark Heyman
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Benjamin Millepied, Ksenia Solo, Sebastian Stan, Toby Hemingway, Sergio Torrado e Winona Ryder

Inverno da Alma

É praticamente impossível não associar o novo filme independente de Debra Granik com o recente “Rio Congelado“, produção conduzida pela cineasta Courtney Hunt responsável em por em tardia evidência o talento da veterana Melissa Leo, atriz que neste ano colheu novos frutos com sua performance em “O Vencedor”. Isto porque a ação se passa em cenários gélidos, com personagens com estilos de vidas pouco explorados pelo cinema americano. Mas as similaridades da narrativa de “Rio Congelado” com a realizada por Debra Granik em “Inverno da Alma” pouco importam. A elogiada produção arrebata na mais nova edição do Oscar quatro indicações mais do que merecidas.

Se Melissa Leo fez uma mulher cuja situação precária causava pena, difícil é descrever o caso ainda mais drástico de Ree Dolly, a personagem central desta adaptação do romance de Daniel Woodrell (“Cavalgada com o Diabo”) e interpretada por Jennifer Lawrence, atriz que já mostrara a que veio em “Vidas que se Cruzam“. É um espanto ver uma jovem de dezessete anos cuidando tanto dos dois irmãos mais novos quanto a mãe depressiva e que não diz uma palavra. A situação financeira é precária. Esta família habita uma residência decadente feita de madeira nas montanhas de Ozark. Ainda assim, um lar. O espaço é ameaçado quando o xerife Baskin (Garret Dillahunt) diz a Ree que o seu pai traficante o colocou sob fiança. Se ele não se apresentar no tribunal em uma semana, todos serão despejados.

A única iniciativa que Ree pode tomar para reverter esta consequência é iniciar uma busca pelo seu pai desaparecido. Estando vivo ou morto, Ree precisará provar o seu paradeiro. E o faz batendo na porta dos seus vizinhos distantes, alguns que têm o mesmo sangue, como o seu tio Teardrop (John Hawkes, extraordinário), e outros que de alguma maneira se envolveram nos negócios obscuros de seu pai. É uma digna via crucis para Ree, destemida mesmo quando sua própria vida é ameaçada.

Essa história densa em alguns instantes emperra com sequências de respiro que focam os irmãos de Ree brincando em paisagens mortas e com personagens secundários nem sempre bem explorados, como o ameaçador Thump Milton (Ronnie Hall), o velho marido de Merab (Dale Dickey) com quem Ree busca informações. Mas este é um filme que cresce em cada um de seus detalhes graças ao trabalho de elenco perfeito. Se justiça fosse feita, Jennifer Lawrence e John Hawkes iriam além o reconhecimento como finalistas ao Oscar e Dale Dickey, assustadora, não seria tão subestimada. Mas é Jennifer Lawrence a verdadeira razão para se ver “Inverno da Alma”, com um trabalho tão crível que em certos momentos parecemos não estarmos diante apenas de uma mera ficção, mas de um retrato de tantas garotas cujas circunstâncias as obrigam a amadurecerem muito antes do tempo.

Título Original: Winter’s Bone
Ano de Produção: 2010
Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik e Anne Rosellini, baseado no romance de Daniel Woodrell
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Garret Dillahunt, Dale Dickey, Lauren Sweetser, Shelley Waggener, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, Valerie Richards, Cody Brown, Cinnamon Schultz, Casey MacLaren, Kevin Breznahan, Tate TaylorSheryl Lee e Marideth Sisco
Cotação:  3 Stars

Resenha Crítica | Bravura Indômita (2010)

Na filmografia dos irmãos Coen parece não haver meio-termo. Ou suas realizações são extraordinárias (“Fargo”, “Onde os Fracos não Têm Vez”) ou são grandes frustrações (“O Amor Custa Caro”, “Um Homem Sério“). Em “Bravura Indômita” existe um equilíbrio entre esses dois contrastes. A atenção não se mantem firme em quase duas horas de filme, mas “Bravura Indômita” não deixa um gosto amargo na boca, embora a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tenha superestimado ao colocar os Coen pelo terceiro ano consecutivo na festa do Oscar. “Bravura Indômita” figura no segundo lugar da lista de títulos com maior número de indicações (dez ao todo), perdendo para “O Discurso do Rei“, este finalista em doze categorias.

O romance da autoria de Charles Portis fora adaptado para cinema em 1969 também sob o título de “Bravura Indômita”. A produção rendeu a John Wayne o prêmio de melhor ator e ganhou a sequência pouco popular “Justiceiro Implacável”, penúltimo filme do ator. Já nesta nova versão, Jeff Bridges é quem incorpora Rooster Cogburn, típico xerife beberrão marcante pelo tapa-olho que usa. Mesmo assim, é uma pessoa cuja bravura indômita chama a atenção da jovem de catorze anos Mattie Ross (a revelação Hailee Steinfeld). O seu pai acaba de ser assassinado pelo próprio empregado, Tom Chaney (Josh Brolin), e após vender a sua propriedade Mattie paga Rooster para lhe ajudar a encontrá-lo e assim executar sua vingança.

O gênero é pouco popular atualmente, mas isto não impediu que “Bravura Indômita” se tornasse o maior sucesso já registrado de um western, bem como o mais bem-sucedido filme dos Coen nos Estados Unidos (mais de 160 milhões com base nas últimas estimativas). Isto porque os realizadores souberam acrescentar à história algumas doses de humor irreverente. O que incomoda é o ritmo claudicante desta jornada de Cogburn e Mattie, às vezes acompanhado por LaBoeuf, um policial texano interpretado por Matt Damon. Em contrapartida, os irmãos capricham no ato final, assumidamente diferente do livro. Perfeito, ele surpreende com uma ternura jamais apresentada em outras histórias contadas pelos Coen. Se essa beleza irretocável também fosse usada nos atos precedentes “Bravura Indômita” seria uma obra-prima.

Título Original: True Grit
Ano de Produção: 2010
Direção: Ethan Coen e Joel Coen
Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen, baseado no romance de Charles Portis
Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Dakin Matthews, Jarlath Conroy, Paul Rae, Domhnall Gleeson e Elizabeth Marvel

A Origem

O sonho permanece como o maior mistério da psique humana. Ao repousarmos, ele nos invade com imagens aleatórias, nossas maiores alegrias e temores, acontecimentos de caráter premonitórios, pessoas queridas ou que desconhecemos et cetera. Há também as lembranças que se apagam assim que despertamos. É algo que nos intriga e também ao cineasta Christopher Nolan, que se inspira nesse universo sem limitações para criar “A Origem”, ficção-científica que se destaca no Oscar 2011 com oito indicações.

O mote serviu para Christopher Nolan desenvolver uma história cheia de camadas autênticas onde um grupo liderado por Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) atua como ladrões. O que eles almejam é nada convencional: informações que podem ser extraídas através dos sonhos. Saito (Ken Watanabe) é uma das vítimas e ciente das artimanhas de Dom o manipula através de uma falha cometida por Nash, o Arquiteto (Lukas Hass). Este homem poderoso solicita os serviços do protagonista não para roubar informações, mas para introduzir um novo dado na mente do empresário Robert Fischer (Cillian Murphy). Dom, conhecido como o Extrator, sabe muito bem das consequências de agir ao inverso, mas afirma que existe uma possibilidade. O problema é que Dom falhou miseravelmente na sua primeira e única tentativa neste processo, resultando na perda de sua esposa Mal (Marion Cotillard), figura que sempre interfere os seus pensamentos. A equipe é formada por Arthur, o Point Man (Joseph Gordon-Levitt), Eames, o Falsificador (Tom Hardy) e o químico Yusuf (Dileep Rao). Com Nash eliminado, Dom precisa de um novo Arquiteto. Encontra para ocupar este posto a jovem Ariadne.

Esta personagem de Ellen Page representa o limite que “A Origem” chega. A execução do plano de Dom poderá confundir aos desavisados. Isto porque ele consiste em estágios, em sonho dentro de um sonho. O problema é que para cada elemento novo o roteiro de Christopher Nolan faz questão de dar inúmeras explicações usando a novata Ariadne como justificativa para isto. Mesmo acrescentando coisas fascinantes para este universo (o totem que identifica sonho de realidade, a música de Edith Piaf usada como instrumento para despertar os personagens, o tempo que transcorre diferente nestes dois mundos paralelos, o choque da morte nos sonhos que nos despertam imediatamente para a realidade et cetera), há um didatismo maçante na realização.

Se isto não permite tantas observações pertinentes aos mistérios do sonho pelo controle que as criações de Christopher Nolan têm sobre eles por outro lado ao menos sobrevive a boa intenção do autor na contribuição de um argumento original dentro de um cinema afeito ao barulho e histeria de efeitos especiais e 3D. Impressionam ver personagens que levitam em cenários com gravidade zero e uma Paris dobrando sobre si mesma.

Título Original: Inception
Ano de Produção: 2010
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postlethwaite, Lukas Haas e Michael Caine
Cotação: ***

 

A Rede Social

Quando a produção de “A Rede Social” foi confirmada com David Fincher na direção comentários questionando o potencial da produção rapidamente ganharam circulação. Afinal, é um projeto que se trata do Facebook, famosa rede social que atualmente conta com mais de quinhentos milhões de usuários. Tirando o “pequeno” detalhe de que seu fundador, Mark Zuckerberg, se tornou o mais jovem bilionário do mundo, qual outro dado é suficientemente interessante para se criar um longa-metragem dessa espécie? Pois Mark Zuckerberg não recorreu aos métodos mais honestos para a sua inovadora criação, como mostra este drama com oito indicações ao Oscar.

O ponto de partida desta história é em 2003, quando Mark Zuckerberg (incomporado por Jesse Eisenberg) leva um chute da namorada Erica (Rooney Mara). A situação é bem escrita por Aaron Sorkin, célebre pelo seriado “West Wing: Nos Bastidores do Poder”, apresentando o tom do filme. Na mesma noite, Mark elabora o Facemash, espaço virtual que se dedica a eleger os mais belos de Harvard com fotos roubadas de arquivos privados da universidade. O servidor enlouquece com os milhares de acesso em poucas horas e Mark responde pela brincadeira judicialmente. Isto chama a atenção dos irmãos gêmeos Winklevoss (Armie Hammer, que também contou com o auxílio de Josh Pence e de efeitos especiais para compor os papéis), ricaços que querem investir em alguma ideia promissora.

A parceria resulta no The Facebook, site de relacionamentos que cresce mais do que o esperado, levando Mark nas nuvens. Paralelamente, a montagem se empenha em antecipar algumas consequências no ano seguinte, quando Mark é processado pelo melhor amigo Eduardo Saverin (Andrew Garfield), paulistano que se mudou para Miami durante os anos 1990, e os irmãos Winklevoss, os financiadores iniciais do The Facebook. Outro a se envolver nesta história é o empreendedor Sean Parker (Justin Timberlake, convincente) notório pelo Napster, um serviço virtual de compartilhamento de músicas, e que sugeriu a mudança de The Facebook simplesmente para Facebook.

Para quem não está minimamente interessado na geração Web 2.0, “A Rede Social” será um pesadelo em celuloide. Tudo gira em torno da criação de um novo espaço para o mundo virtual e segue-se com isto uma narrativa que acelera a ligação entre personagens e de suas ações. É interessante notar algumas sutilezas criadas por David Fincher, que como diretor está menos presunçoso do que de costume. Mas elas, que focam o protagonista interagindo com pessoas como se fossem máquinas, não são tão valiosas para definir um filme como brilhante quando ele realmente só mostra a que veio em seus últimos momentos, ressaltando neles a ausência de sentimentos humanos numa espiral de ganância, traições e individualismo.

Título Original: The Social Network
Ano de Produção: 2010
Direção: David Fincher
Roteiro: Aaron Sorkin, baseado no roteiro de Ben Mezrich
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Rashida Jones, Armie Hammer, Joseph Mazzello, Patrick Mapel, Max Minghella, Josh Pence, Dakota Johnson, John Hayden e Rooney Mara
Cotação:  3 Stars

127 Horas

O público já havia passado recentemente por uma experiência claustrofóbica com o thriller “Enterrado Vivo“, onde Ryan Reynolds surgia durante uma hora e meia como o único personagem de uma narrativa inteiramente passada dentro de um caixão. Por não ir além disto, embora exista nesta realização do espanhol Rodrigo Cortés algumas leituras interessantes, outro “teste de resistência” ganhou mais relevância por abraçar sem medo caminhos edificantes. Trata-se de “127 Horas”, novo filme do britânico Danny Boyle baseado em um episódio real da vida do alpinista americano Aron Ralston e que recebe do Oscar 2011 seis indicações.

“127 Horas” não é um filme que inicia sufocando o espectador. Temos uma breve introdução do nosso herói Aron Ralston (incorporado por James Franco), um jovem carismático e cheio de energia que segue suas aventuras radicais sem dar satisfação aos pais e amigos. Sozinho, pretende escalar no canyon em Utah. No meio da trilha, depara-se com duas jovens, Kristi e Megan (pontas de Kate Mara e Amber Tamblyn), tendo rápida companhia. Seguindo em frente, um acidente: Aron tem o seu antebraço direito preso sob uma rocha. Já o título do longa-metragem refere-se ao tempo que Aron ficou nesta situação tendo disponível pouca água e alimento e os equipamentos indispensáveis para qualquer alpinista, como filmadora para gravar os melhores momentos, cordas, ganchos e até canivete suíço.

Por este ser um registro de uma história recente (Aron passou por este sufoco em maio de 2003), muitos ou todos já sabem qual é o fim de “127 Horas”. Mesmo assim, isto não impediu que o sacrifício físico que Aron teve que se submeter repercutisse em polêmica materializada em desmaios, vômitos e casos de epilepsia. No entanto, o exagero maior do que estas reações é a frenesi típica da filmografia de Danny Boyle. Se os delírios, memórias em flashbacks, esperança quase inabalável e a descrença com um final trágico são itens indispensáveis e que estão presentes na narrativa por outro a montagem acelerada não permite que o clima de tempo inacabado de cinco dias para um caso como este seja respeitado. Neste medo de fazer o tédio o protagonista de “127 Horas”, este se torna mais frenético que o próprio “Show do Milhão Bollywoodiano” e diminui a veracidade dos fatos.

Título Original: 127 Hours
Ano de Produção: 2010
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseado no livro “Between a Rock and a Hard Place”, de Aron Ralston
Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Sean Bott, Treat Williams, Kate Burton, Koleman Stinger, Parker Hadley e Clémence Poésy
Cotação: ***

 

Resenha Crítica | O Discurso do Rei (2010)

Falar é uma das maiores dádivas do ser humano, que em todos os momentos sente a necessidade de se comunicar, se expressar. Sem ela ou qualquer tipo de linguagem seria impossível viver em harmonia. David Seidler, um autor veterano até então sem qualquer expressão, não deixou de não possuir esta habilidade, mas a teve com interferências em sua infância, pois era gago. Foi por conseguir superar este momento que o emperrava tanto que surgiu o interesse de escrever um roteiro a respeito do Rei George VI, antes duque de York que sofria do mesmo mal de David. Mas enquanto o roteirista David Seidler superou sua limitação antes mesmo de trabalhar com a escrita para cinema, o Rei George VI enfrentava com sua gageira um público, já concentrado em um enorme estádio, certamente desconcertado com sua situação. É sobre esta fase que se trata “O Discurso do Rei”, drama britânico apontado como o favorito a vencer o Oscar de melhor filme em longa-metragem no próximo evento que acontecerá na noite de domingo, 27 de fevereiro.

Somos apresentados a Albert Frederick Arthur George, ou simplesmente Bertie (Colin Firth), ainda como duque de York, casado com Elizabeth (Helena Bonham Carter) e pai de duas meninas, Elizabeth e Margaret (Freya Wilson e Ramona Marquez). Ele passa por inúmeros fonoaudiólogos e os tratamentos, que envolvem bolas de gude e vício pelo tabaco, jamais atingem algum resultado positivo. Lionel Logue (Geoffrey Rush), australiano gentil e figura de grande suspeita, é o primeiro a submetê-lo em experiências que finalmente são capazes de extrair algum progresso. Mesmo assim, Bertie não está totalmente livre de sua gagueira, na qual Lionel aponta se tratar nada mais do que um problema psicológico, e fica na corda bamba quando o seu irmão, o Rei Edward VIII (Guy Pearce), recorre à renúncia em troca do casamento com a americana Wallis Simpson (Eve Best), então divorciada duas vezes. Como Bertie ocupará este cargo real se ele nem ao menos está preparado para se apresentar ao público?

Esta questão dá um ar de curiosidade enorme e com ela “O Discurso do Rei” parece nos atrair. Mas não se enganem, pois a realização Tom Hooper em raros momentos possibilitam que os sentimentos presentes no espectador ao encarar o seu primeiro ato ganhem outras dimensões. A razão é a mesma de outros filmes ingleses, como o recente “A Jovem Rainha Vitória”: preocupam-se demasiadamente com as firulas de época. Formal demais com os costumes e direção de arte que clamam por atenção, “O Discurso do Rei” só abandona toda essa mediocridade (embora às vezes lindos para os olhos, deva-se admitir) com a interpretação de Colin Firth. Geoffrey Rush e especialmente Helena Bonham Carter não fazem nada de mais, francamente. Já Colin Firth, no ápice da carreira e trabalhando sem parar, faz um minucioso trabalho de caracterização, convincente com sua gaguês e a única presença humana em situações como aquela onde, descontroladamente, grita “Shit!” e “Fuck!” tamanho o seu tormento em ser o responsável pela voz que o seu povo tanto precisa.

Título Original: The King’s Speech
Ano de Produção: 2010
Direção: Tom Hooper
Roteiro: David Seidler
Elenco: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Guy Pearce, Claire Bloom, Michael Gambon, Jennifer Ehle, Calum Gittins, Dominic Applewhite, Ben Wimsett, Timothy Spall, Paul Trussell, Charles Armstrong, Freya Wilson, Ramona Marquez, Jake Hathaway, Patrick Ryecart, Tim Downie, Orlando Wells, Eve Best e Anthony Andrews

10 Filmes Para 2011

Com a publicação de tantas resenhas nas últimas semanas, o Cine Resenhas não conseguiu adicionar a tempo em suas atualizações uma postagem sobre os filmes mais aguardados para este ano. A sorte é que muitos dos títulos esperados ainda não foram lançados no Brasil, aumentando o nosso desejo para apreciá-los mesmo já sendo exibidos em outros países. Assim, abaixo estão dez filmes com pequenas fichas técnicas, uma relação que vai de filmes europeus até blockbusters.

 

AS AVENTURAS DE TINTIN: O SEGREDO DO LICORNE
Dirigido por Steven Spielberg. Com Jamie Bell, Simon Pegg, Andy Serkis, Nick Frost, Mackenzie Crook, Daniel Craig, Toby Jones e Gad Elmaleh.
Sinopse: O aventureiro Tintim compra para o amigo Haddock um modelo de um galeão antigo, que, por coincidência, era a réplica do navio de um antepassado do capitão, o cavaleiro de Hadoque. O modelo é roubado, e logo depois a casa de Tintim é toda revirada. O que os assaltantes procuravam? Por sua vez, o capitão acha no sótão de casa as memórias do cavaleiro. Nelas, ele narra seu encontro no Caribe com o pirata Rackham, o Terrível, que o captura com seu navio, para o qual transfere os tesouros que havia pilhado. O cavaleiro consegue escapar e afunda o Licorne com todo o tesouro a bordo. Divide o mapa com a localização do naufrágio em três partes, que esconde em réplicas do navio. Muitos anos depois, Tintim e seus amigos decidem buscar as partes do mapa, sabendo que para isso terão de driblar uma perigosa quadrilha. Lançamento em 28.12.2011.

HANNA
Dirigido por Joe Wright. Com Saoirse Ronan, Cate Blanchett, Eric Bana, Olivia Williams, Michelle Dockery, Dee Bradley Baker e Tom Hollander.
Sinopse: Hanna é uma adolescente que foi treinada pelo próprio pai para ser a assassina perfeita. Ela recebe a missão de matar uma impiedosa agente que tenta a todo o custo prendê-la. Lançamento em meados de 2011 (8.04.2011 nos Estados Unidos). Trailer

 

 

LOS OJOS DE JULIA
Dirigido por Guillem Morales. Com Belén Rueda, Lluís Homar, Pablo Derqui, Francesc Orella, Joan Dalmau, Boris Ruiz e Daniel Grao.
Sinopse: Julia é uma mulher que sofre de uma doença degenerativa nos olhos. Após enc ontrar sua irmã cega morta, ela decide investigar o acontecido, e descobre um mundo sombrio cheio de mistérios e mortes, enquanto sua visão começa a piorar. Lançamento em meados de 2011. Trailer



PÂNICO 4
Dirigido por Wes Craven. Com Neve Campbell, David Arquette, Courteney Cox, Emma Roberts, Hayden Panettiere, Rory Culkin, Marley Shelton, Mary McDonnell, Adam Brody, Anthony Anderson, Kristen Bell e Anna Paquin.
Sinopse: Sidney Prescott (Neve Campbell) agora é autora de um livro de auto-ajuda, e retorna para Woodsboro na última parada de sua turnê para promover o lançamento. Lá, ela reconecta-se com o sherife Dewey (David Arquette) e Gale (Courteney Cox) – agora casados – assim como sua prima Jill (Emma Roberts) e sua tia Kate (Mary McDonnell). Infelizmente, o retorno de Sidney também traz Ghostface de volta, colocando Sidney, Gale e Dewey, junto com Jill, seus amigos e toda a cidade de Woodsboro, em perigo. Inspirado em vários filmes de terror, o assassino retorna, mas desta vez, as regras são baseadas no novo clichê. Lançamento em 15.04.2011. Trailer

PIRATAS DO CARIBE: NAVEGANDO EM ÁGUAS MISTERIOSAS
Dirigido por Rob Marshall. Com Johnny Depp, Geoffrey Rush, Ian McShane, Penélope Cruz, Judi Dench, Stephen Graham, Gemma Ward, Richard Griffiths e Keith Richards.
Sinopse: O Capitão Jack Sparrow retorna em mais uma aventura cheia de ação sobre verdade, traição, juventude e legado. O capitão começa sua jornada quando cruza com uma mulher de seu passado (Penélope Cruz), a filha do lendário Barba Negra. Sparrow está em busca da Fonte da Juventude, e não sabe se a relação deles é amor, ou se ela apenas é uma cruel golpista que quer saber como chegar à fonte. No navio de Barba Negra, Sparrow se preocupa em quem deve ficar se olho: em seu antigo amor, ou em seu grande rival, o Barba Negra. Lançamento em 20.05.2011. Trailer

POTICHE
Dirigido por François Ozon. Com Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Fabrice Luchini, Karin Viard, Judith Godrèche, Jérémie Renier e Sergi López.
Sinopse: Um homem desprezível só pensa nos negócios, mas não se relaciona bem com ninguém: funcionários, filhos e esposa. Depois de uma greve na fábrica, ele é sequestrado e sua mulher assume o comando da empresa, se mostrando uma mulher com capacidade e dons incríveis de administrar a fábrica melhor do que seu marido fazia. Lançamento em meados de 2011 (18.03.2011 nos Estados Unidos). Trailer


SHERLOCK HOLMES 2
Dirigido por Guy Ritchie. Com Robert Downey Jr., Jude Law, Noomi Rapace, Rachel McAdams, Kelly Reilly, Jared Harris e Stephen Fry.
Sinopse: O filme mostrará o famoso detetive Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e seu companheiro Dr. Watson (Jude Law) enfrentando seu arqui-inimigo, o gênio do crime Moriarty (Jared Harris). Lançamento em 16.12.2011.

 

 

MELANCHOLIA
Dirigido por Lars von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård, Stellan Skarsgård, Brady Corbet, Udo Kier e Jesper Christensen.
Sinopse: O filme deve narrar a história dos últimos dias da Terra, quando descobre que um outro planeta chamado “Melancholia” está em rota de colisão com o nosso. Lançamento em meados de 2011 (26.05.2011 na Dinamarca).

 

THE OTHER WOMAN
Dirigido por Don Roos. Com Natalie Portman, Lisa Kudrow, Lauren Ambrose, Anthony Rapp, Scott Cohen, Charlie Tahan, Debra Monk e Elizabeth Marvel.
Sinopse: Emilia é uma estudante de direito que acaba de se casar com Jack, um advogado da firma onde ela trabalha. Jack está se separando de Carolyn, com quem teve um filho, William. Quando Emilia perde a filha recém-nascida, ela tem que lidar com o enteado precoce, que se recusa a aceitá-la. Enquanto isso, Carolyn também faz de tudo para dificultar a conexão entre os dois. Lançamento em 04.04.2011 (direto em DVD). Trailer

MADE IN DAGENHAM
Dirigido por Nigel Cole. Com Sally Hawkins, Rosamund Pike, Bob Hoskins, Miranda Richardson, Rupert Graves e Andrea Riseborough.
Sinopse: O filme dramatiza a greve que aconteceu em 1968 nas fábricas da Ford, quando mulheres protestaram contra a discriminação sexual e em favor da igualdade de remuneração. Lançamento em meados de 2011 (já lançado na Inglaterra e Estados Unidos). Trailer

 

 

Menção: “Albert Nobbs”, de Rodrígo Garcia.