Resenha Crítica | O Golpista do Ano (2009)

A vida do americano Steven Jay Russell é realmente digna de um filme. Preso, foi sentenciado em 2010 a permanecer neste estado até 12 de julho de 2140 (!). Mas o que este sujeito fez de tão grave? Durante muitos anos, Steven Jay Russell praticou inúmeros golpes e sempre conseguia meios de fugir da cadeia quando detido. Parece até personagem da ficção e a dupla Glenn Ficarra e John Requa reproduz com fidelidade episódios reais de Steven.

Antes dos golpes, Steven Russell (Jim Carrey) era um policial, marido, pai e cristão praticante aparentemente de boa índole. Num acidente que o deixa gravemente ferido, revela-se homossexual para quem quiser ouvir. Abandona aos poucos com isto sua esposa Debbie (Leslie Mann, mal aproveitada) a partir do momento que aplica seus golpes em busca de grana fácil. Até banca seu querido amante Jimmy, personagem feito pelo brasileiro Rodrigo Santoro. Ao ser preso, descobre a imediata sintonia que tem pelo seu companheiro de cela, o sensível Phillip Morris (Ewan McGregor), tendo seus verdadeiros sentimentos pela primeira vez correspondidos. De golpe em golpe, livre ou por trás das grades, Steven procura manter o relacionamento.

A dupla de cineastas estreantes oferece um tom cômico para ilustrar a história de Steven Russell. Mesmo assim, tiveram sérios problemas para lançarem o filme nos cinemas americanos, tão careta e conservador. Sem um público específico, “O Golpista do Ano” foi finalizado em 2008 e entrou em cartaz no circuito limitado apenas no final de 2010. A partir deste momento, os comentários nem se aproximaram da polêmica vista quando fotos promocionais com Jim Carrey e Ewan McGregor se abraçando e quase se beijando.

O centro dessa falta de popularidade do filme, ironicamente, é Jim Carrey. Ewan McGregor apresenta como Phillip Morris um de seus melhores desempenhos, respondendo pelos momentos mais humanos da história. Já Jim Carrey está totalmente fora de tom como Steven Russell, praticamente reprisando Ace Ventura ultrapassando todos os limites da afetação. Uma forma equivocada de incorporar um personagem fascinante que provavelmente não contou com a orientação apropriada de Glenn Ficarra e John Requa como diretores do astro, rendendo um filme que não traz um mínimo de veracidade e com ritmo problemático.

Título Original: I Love You Phillip Morris
Ano de Produção: 2009
Direção: Glenn Ficarra e John Requa
Roteiro: Glenn Ficarra e John Requa, baseado no livro de Steve McVicker
Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Antoni Corone, Brennan Brown, Michael Mandel, Annie Golden, Marylouise Burke, David Jensen e Dameon Clarke

 

Resenha Crítica | Direito de Amar (2009)

Mesmo protagonizado pelo respeitado britânico Colin Firth, aguardou-se com muitas suspeitas o longa-metragem “Direito de Amar”. Isto porque a produção marca a estreia de Tom Ford na direção. O americano é um dos estilistas mais famosos do mundo, mas trocar a indústria da moda pela indústria cinematográfica vai contra todas as expectativas. Eis que “Direito de Amar” chega ao público e com ele vai embora qualquer receio acumulado anteriormente, pois a adaptação do romance de Christopher Isherwood é feita com desvelo e segurança.

Em esplêndido desempenho, Colin Firth recebeu sua primeira indicação ao Oscar no papel de George, um professor universitário que acompanharemos por apenas um dia. Ao despertar, vemos a desolação estampada no rosto de George e os flashbacks mostrados ao longo da narrativa nos apresentam a razão deste homem querer se matar após mais um dia comum. É porque seu parceiro Jim (Matthew Goode, em participação marcante) foi vítima de um acidente de carro. A família de Jim claramente não aprovava o relacionamento dele com George, impossibilitando sua presença no enterro. Talvez na cena mais extraordinária do filme o sempre contido George desaba em lágrimas nos ombros de sua velha amiga Charley (Julianne Moore), uma tomada realizada tendo a chuva como única intervenção sonora.

O último dia de George consiste em encenar sua morte, encarar mais um dia de trabalho, carregar o tambor de sua arma, ver pela última vez Charley e ter como breve companhia o seu jovem aluno Kenny (papel de Nicholas Hoult). Entre esses acontecimentos cotidianos, alguns trechos dos momentos mais íntimos de George e Jim.

Passado no início da década de 1960 em Los Angeles, “Direito de Amar” usa um tom de crônica que é especial graças a um trabalho técnico primoroso. Circunstâncias aparentemente banais se revelam fortemente tristes quando acompanhadas pela melancólica composição de Abel Korzeniowski e um trabalho de fotografia do espanhol Eduard Grau (o mesmo de “Enterrado Vivo“) que traduz os olhares atenciosos e gentis de George com a instantânea saturação de cores, ganhando vida um percurso que, ironicamente, levará George à morte. Se este estado de contemplação sobre as pessoas e as coisas encontram um limite com uma reviravolta suavizada pelo excesso de planos usados por Tom Ford, “Direito de Amar” comove ao ressaltar o quanto a perda do verdadeiro amor é devastadora e o quanto continuar a viver pode ser tão compensador.

Título Original: A Single Man
Ano de Produção: 2009
Direção: Tom Ford
Roteiro: David Scearce e Tom Ford, baseado no romance de Christopher Isherwood
Elenco: Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode, Jon Kortajarena, Paulette Lamori, Ryan Simpkins, Ginnifer Goodwin, Teddy Sears, Paul Butler, Aaron Sanders, Aline Weber, Keri Lynn Pratt, Adam Shapiro, Jon Hamm e Lee Pace

Resenha Crítica | A Epidemia (2010)

Embora tenha dado o seu primeiro passo como diretor de longa-metragem com o nada visto “Crimes Premeditados”, Breck Eisner deu um tremendo banho de água fria em seu primeiro projeto de destaque, a aventura “Sahara”. O fato de ser filho do ex-chefe executivo da The Walt Disney Company, Michael Eisner, pesou. Inexperiente, recebeu 130 milhões de dólares como investimento para dirigir o astro Matthew McConaughey em um projeto insípido. Com o fracasso, Breck Eisner aprendeu que para se aprimorar é preciso lidar com projetos pequenos, mas que lhe ofereçam a liberdade para descobrir sua identidade. E o jovem realizador parece ter encontrado isto com “A Epidemia”, atualização de uma fita pouco celebrada de George A. Romero, “O Exército do Extermínio”.

Do ponto de vista narrativo, “A Epidemia” é um filme convencional. David (Timothy Olyphant) é o xerife de uma cidadezinha vítima de uma contaminação tóxica. Junto com sua esposa Judy (Radha Mitchell), por sua vez a única médica da cidade e grávida há pouco tempo, tenta descobrir a origem da epidemia que faz com que a população mude drasticamente o seu comportamento, convertendo-se de pessoas serenas a assassinos em potencial. Quando o exército americano isola os infectados, David percebe que é tarde demais para interferir na ação, tendo como única opção fugir para alguma área que não seja de risco.

Embora longe de ser tão explosivo, “A Epidemia” encontra alguns paralelos com “Extermínio 2” ao focar explicitamente como verdadeiros vilões figuras públicas dotadas de autonomia e as forças armadas. São eles o pivô do perigo iminente e serão eles os responsáveis por mais caos e menos solução. É um chavão do cinema B de horror e que ganha algum respaldo de renovação pela habilidade de Breck Eisner em criar sequências que são impecavelmente tensas.

E para finalizar: não, este não é um filme com zumbis!

Título Original: The Crazies
Ano de Produção: 2010
Direção: Breck Eisner
Roteiro: Ray Wright e Scott Kosar, baseado no filme “O Exército do Extermínio”, de George A. Romero
Elenco: Timothy Olyphant, Radha Mitchell, Joe Anderson, Danielle Panabaker, Christie Lynn Smith, Brett Rickaby, John Aylward, Joe Reegan, Glenn Morshower, Larry Cedar, Justin Welborn, Lisa K. Wyatt, Tahmus Rounds e Brett Wagner
Cotação: ***

A Estrada

O cinema americano, com seus blockbusters ou alternativos, não sossega quando o assunto é o apocalipse. O australiano John Hillcoat não é um diretor de pretensões fáceis e encontra no romance “A Estrada” (de Cormac McCarthy, o mesmo de “Onde os Fracos Não Têm Vez”) a oportunidade de encenar uma versão diferente de um mundo pós-apocalíptico. Contando com auxílios de maquiagem realista e efeitos visuais sutis, a sua perspectiva sobre o fim do mundo é surpreendente.

Assim como em “Ensaio Sobre a Cegueira“, a narrativa busca confundir o público nos acontecimentos ao não batizar seus personagens com nomes, mas apenas com alguma característica. Sabemos com isto que há uma família composta por Homem (Viggo Mortensen), Mulher (Charlize Theron) e Garoto (Kodi Smit-McPhee). Os laços familiares são desatados quando Mulher abandona seu marido e filho em um cenário já atingido por uma tragédia jamais descrita com clareza. Antes de partir, apenas pede para que eles caminhem em direção ao sul. Dias se passam e Homem e Garoto encontram algum otimismo ao seguirem esta recomendação, mesmo que o percurso seja marcado por paisagens mortas, cadáveres e canibais.

Não demoramos para sentir que no fundo de todo o caos há um belo conto que preserva a determinação de um pai que é capaz de fazer tudo para o seu filho. Para isto, há a intervenção de personagens secundários defendidos por intérpretes tão bons quanto Viggo Mortensen. O que prejudica esta atmosfera de “A Estrada” é a presença do pequeno Kodi Smit-McPhee. Com atores mirins tão bons em atividade, é lamentável que a escolha seja de um garoto que nada oferece de positivo para o seu papel, limitando-se a lamúria e também sendo anulado diante das presenças especiais de intérpretes como Guy Pearce e Molly Parker – com a canadense especialmente marcante como a última personagem a aparecer em cena.

Título Original: The Road
Ano de Produção: 2009
Direção: John Hillcoat
Roteiro: Joe Penhall, baseado no romance de Cormac McCarthyElenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Robert Duvall, Guy Pearce, Michael K. Williams, Garret Dillahunt, Bob Jennings e Molly Parker
Cotação: 3 Stars

Resenha Crítica | As Melhores Coisas do Mundo (2010)

A cineasta paulistana Laís Bodanzky driblou as dificuldades e lançou de forma bem-sucedida o seu primeiro longa-metragem, “Bicho de Sete Cabeças”. Nesta fita protagonizada por Rodrigo Santoro se viu uma vontade de focar suas câmeras para um grupo composto por pessoas que não são estranhos entre si, algo confirmado com o retrato que moldou da terceira idade em “Chega de Saudade” e agora com os adolescentes de “As Melhores Coisas do Mundo”, produção inspirada na série de livros “Mano”, com personagens criados pela dupla Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto.

Mano, apelido para Hermano (Francisco Miguez), tem a sua vida abalada a partir do momento que os seus pais iniciam o processo de separação. Mas o que deixa Mano e seu irmão mais velho Pedro (Fiuk) surpresos é que o pai deles, Horácio (José Carlos Machado), abandona a esposa Camila (Denise Fraga) por um homem mais jovem. Em um cenário escolar onde um caso como este é encarado como deboche pelos colegas de classe, Mano e Pedro fazem de tudo para ocultarem este motivo do divórcio entre os seus pais. E como a adolescência é uma fase da vida que exige maior motivação para o amadurecimento, a criação de uma identidade, o jovem Mano passará por várias provas de fogo, especialmente nas expectativas de um primeiro amor correspondido.

Tendo quarenta anos quando filmou “As Melhores Coisas do Mundo”, seria fácil para a diretora Laís Bodanzky não conseguiu registrar com fidelidade a juventude de hoje. Para isto não acontecer, Laís se dedicou a um incansável trabalho de pesquisa entre adolescentes com a mesma faixa de idade de Mano. Através deste desvelo, “As Melhores Coisas do Mundo” consegue atingir ao público jovem e provocar alguma nostalgia para aqueles que já passaram desta etapa de descobertas, embora se torne vítima de vícios à lá “Malhação”, como a redundância da discussão de alguns temas e o destino traçado para o personagem do filho de Fábio Júnior, Fiuk.

Título Original: As Melhores Coisas do Mundo
Ano de Produção: 2010
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Luiz Bolognesi, baseado nos personagens de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto
Elenco: Francisco Miguez, Denise Fraga, Fiuk, José Carlos Machado, Gabriela Rocha, Caio Blat, Maria Eugênia Cortez, Sophia Gryschek, Gabriel Illanes, Gustavo Machado, Carlos Mandel, Thais Abujamra Nader, Rodrigo Pasquale, Luccas Perazzio, Anders Rinaldi e Paulo Vilhena

Resenha Crítica | Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2009)

Uma das coisas mais tristes que podem acontecer é uma pessoa talentosa morrer muito antes de seu trabalho mais precioso chegar ao público. O jornalista sueco Stieg Larsson teria testemunhado o sucesso de sua Trilogia Millennium caso não tivesse uma vida de excessos, que resumia a um trabalho exaustivo, as ameaças de morte por atuar como ativista político, as poucas horas que reservava para dormir e o consumo exagerado de filtros de cigarros e alimentos nada nutritivos. Tudo isto o levou a sofrer um ataque cardíaco em novembro de 2004, momentos antes de entregar os manuscritos originais da Trilogia Millenium. Provavelmente, ficaria orgulhoso da excelente adaptação para cinema, iniciada com “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”.

A obra de Niels Arden Oplev foi a única exibida nos cinemas brasileiros. Ao questionar a distribuidora Imagem Filmes quanto a demora do lançamento das sequências, tive como resposta que ainda não há uma previsão para a chegada de “A Menina Que Brincava Com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar”, episódios já lançados com sucesso na Suécia e Estados Unidos. Uma pena todo esse atraso, pois “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” é o melhor thriller do ano passado e os episódios seguintes são ótimos.

Há dois personagens centrais em “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” e um deles, Mikael Blomkvist, é praticamente um auterego de Stieg Larsson. Assim como o personagem muito bem desempenhado por Michael Nyqvist, Stieg Larsson foi editor de uma revista que se dedicava a denunciar todas as mazelas de seu país (daí tantas ameaças de vida). Mikael é responsável pela Millenium e é obrigado a cumprir pena na prisão e pagar uma alta multa por difamação por denunciar um magnata envolvido com contrabando de armas sem provas suficientes. Mesmo que Mikael tenha a oportunidade de pedir uma revisão do caso, prefere se desligar temporariamente da Millenium nos seus meses de liberdade antes de ir à cadeia, deixando as responsabilidades da revista com a sua sócia e amante Erika Berger (Lena Endre).

Paralelamente, conhecemos finalmente Lisbeth Salander (Noomi Rapace), uma hacker claramente traumatizada por algum acontecimento no passado. A moça adota sempre um estilo punk, embora seja dona de uma beleza exótica inegável. Ela é contratada pela Milton Security e uma de suas responsabilidades será averiguar toda a vida de Mikael Blomkvist e encontrar as sujeiras ocultas. O que intriga e ao mesmo tempo fascina Lisbeth Salander é que Mikael jamais protagonizou alguma ação comprometedora. No mesmo instante, Lisbeth, cujo dinheiro é controlado desde que saiu de uma instituição de tratamento psicológico em Uppsala, tem o seu tutor trocado. Ele se apresenta na figura de Mils Bjurman (Peter Andersson), um homem sádico que estupra Lisbeth em todas as ocasiões em que ela precisa pedir uma quantia do seu próprio dinheiro.

Ambos os personagens finalmente se encontram quando Mikael mergulha em um trabalho como investigador particular de Henrik (Sven-Bertil Taube), um ricaço idoso dono da Indústria Vanger, uma das mais bem-sucedidas de toda Suécia. O serviço consiste em desvendar o mistério que o perturba há quatro décadas. Sua adorada sobrinha Harriet Vanger (Julia Sporre) desapareceu quando ainda era jovem. Todos acreditam que ela esteja morta e Henrik afirma a Mikael que todos os anos, na data de aniversário de Harriet, ele recebe da pessoa que a assassinou uma flor emoldurada. Este ritual sempre se repetiu. Depois de tanto espionar o laptop de Mikael e todos os arquivos de sua investigação, Lisbeth não hesita ao dar uma dica que o direcionará Mikael para outro rumo.

A complexidade de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” se vê em sua própria sinopse, que precisa de linhas e mais linhas para ser feita. Impressiona que o diretor Niels Arden Oplev, com devida menção aos roteiristas Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, tenha criado uma narrativa que consegue condensar em duas horas e meia uma história que foi desenvolvida por Stieg Larsson ao longo de seis centenas de páginas. O resultado visto supera todas as expectativas. A adaptação para cinema jamais deixa de respeitar o romance de Stieg Larsson enquanto descarta passagens muitas vezes desnecessárias imaginadas pelo escritor. Seguindo este raciocínio, é preciso destacar o trabalho extraordinário da atriz Noomi Rapace. Se Stieg Larsson às vezes errava ao desenhar alguns traços de sua heroína Lisbeth Salander, Noomi Rapace usufrui de todas as suas qualidades e evolui para a construção única de uma grande personagem. Lisbeth Salander é uma mulher que depende de muita dedicação para ser encarada por uma intérprete e Noomi tira o desafio de letra. A sua ausência como finalista na categoria de melhor atriz no Oscar 2011 é uma injustiça imperdoável, mas Noomi está colhendo os frutos de sua soberba caracterização, sendo solicitada rapidamente pelo cinema americano (ela está em “Sherlock Holmes 2” e Ridley Scott brigou com a Fox até conseguir incluí-la como protagonista de seu novo projeto de ficção científica, “Prometheus”).

Muitos estão confundido “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” com uma fita hollywoodiana banal pela dinâmica que Niels Arden Oplev impõe em sua realização, só que nenhum exemplar americano seria capaz de ir tão longe em cenas de violência contra a mulher e outras de tensão bem construída. Toda essa violência neste filme de mistério é reflexo da própria Suécia de hoje. Em uma das várias estatísticas que inspiraram Stieg Larsson a escrever a Trilogia Millenium, mais de 40% das mulheres que vivem na Suécia foram vítimas da violência executada por um homem. É apenas uma de várias discussões que “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” é capaz de suscitar. Pena que muita dessa relevância provavelmente se perderá com a inconveniente atualização já em pós-produção conduzida por David Fincher, um cineasta preocupado mais com a forma do que o conteúdo.

Título Original: Män som hatar kvinnor
Ano de Produção: 2009
Direção: Niels Arden Oplev
Roteiro: Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, baseado no romance de Stieg Larsson
Elenco: Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Lena Endre, Sven-Bertil Taube, Peter Haber, Peter Andersson, Marika Lagercrantz, Ingvar Hirdwall, Björn Granath, Ewa Fröling, Michalis Koutsogiannakis, Annika Hallin, Tomas Köhler, Sofia Ledarp, David Dencik, Stefan Sauk, Gösta Bredefeldt, Gunnel Lindblom, Georgi Staykov, Nina Norén, Julia Sporre e Tehilla Blad

Resenha Crítica | Zumbilândia (2009)

ZumbilândiaNa resenha sobre “Sede de Sangue“, apontei que os vampiros voltaram a serem explorados com força total no cinema contemporâneo. Pois o mesmo está acontecendo com os zumbis. Quase no início da década de 1970, o cineasta e mestre do horror George A. Romero criou obras de narrativas com verniz político. Atualmente, elas ainda são produzidas pelo próprio Romero e os seus aprendizes, mas há também aquelas que se dedicam apenas em finalizarem um entretenimento ligeiro. Várias obras pertinentes de Romero foram refilmadas e os poucos episódios de “The Walking Dead” fizeram imenso sucesso. Já “Zumbilândia” é uma comédia que brinca com os padrões do gênero.

Estreando como diretor de longa-metragem, Ruben Fleischer dá vida ao roteiro criado pela dupla Paul Wernick e Rhett Reese a princípio sem muitas novidades. Afinal, aqui o mundo é novamente tomado por zumbis e poucos são os personagens sobreviventes, a exemplo de Columbus (Jesse Eisenberg), sujeito com jeitão nerd que é surpreendido pelo valentão Tallahassee (Woody Harrelson). Ambos acabam formando uma dupla que combatem as criaturas que se transfomaram os humanos. Apenas não contavam com o aparecimento das irmãs Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), mais ardilosas do que eles esperavam.

Se “Zumbilândia” não tem o humor refinado e por vezes ácido de uma comédia como “Fido – O Mascote”, ao menos mostra o seu diferencial em várias situações. As principais são aquelas que mostram as regras de sobrevivência criadas por Columbus, todas hilariantes, embora nada chegue ao alcance da participação especial e inesperada de Bill Murray, que interpreta ele mesmo. Pode-se dizer que o efeito de se assistir “Zumbilândia” é o mesmo que ir para um parque de diversões. De tão divertido, dá vontade de repetir o passeio.

Título Original: Zombieland
Ano de Produção: 2009
Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Paul Wernick e Rhett Reese
Elenco: Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Emma Stone, Abigail Breslin, Amber Heard, John C. Reilly e Bill Murray

Resenha Crítica | 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos (2010)

Em 1962, cinco cineastas se reuniram para moldar o projeto “Cinco Vezes Favela”, dramática coletânea de cinco curtas-metragens onde cada um apontava sua visão sobre as favelas e seus habitantes. Quase cinco décadas depois, um dos realizadores daquele projeto, Carlos Diegues, produz uma nova versão que se diferencia da anterior por contar com uma equipe própria das favelas e morros cariocas. Com resultado na média, “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos” serve como oportunidade para comprovar que, com o apoio devido, muitos podem se aventurarem como diretores de um cinema com conteúdo relevante e com perspectivas inusitadas. Então vamos esmiuçar cada uma das cinco realizações que compõem “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”.

“Fonte de Renda” é o primeiro título apresentado por “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”. Feito pela dupla Manaira Carneiro e Wagner Novais, o personagem central é Maicon, primeira pessoa da comunidade onde vive a se graduar em Direito. Sem grana, Maicon tem dificuldades para pagar a passagem do transporte público e os livros exigidos pelos professores da universidade. Acaba vendendo drogas para os alunos de sua sala para poder arcar com as dívidas. Há uma reviravolta não muito bem elaborada, mas dá para sentir na pele o sufoco passado por Maicon.

“Arroz com Feijão”, de Cacau Amaral e Rodrigo Felha, é o segmento mais terno. Wesley (Juan Paiva) tem um pai que está cansado de levar todos os dias como marmita para o trabalho apenas arroz com feijão. O garoto então combina com seu melhor amigo Orelha (Pablo Vinicius) de presenteá-lo com um frango assado para o jantar de seu aniversário. Eles fazem de tudo para conseguir alguns trocados e o desafio só é maior porque eles são roubados por “mauricinhos” assim que garantem o dinheiro. A realização é perfeita e muito bem-humorada graças as notáveis performances dos pequenos Juan Paiva e Pablo Vinicius.

“Concerto Para Violino” é o segmento mais violento e talvez por isto seja o mais deslocado de todo o conjunto. O diretor Luciano Vidigal apenas reprisa velhos chavões de narrativas situadas nas favelas cariocas e há um acontecimento forte (um homem sendo queimado vivo) que pouco convence, embora o envolvimento entre o trio protagonista atinja um desfecho que surpreende. Estes três personagens no caso são Márcia (Cíntia Rosa), Jota (Thiago Martins) e Ademir (Samuel de Assis), que na infância fizeram pacto de amizade e cujos destinos se cruzam anos depois.

“Deixa Voar” é bem conduzido por Cadu Barcelos. O problema está na história que pode soar muito ingênua para o espectador, focando um jovem (Vitor Carvalho) que após perder uma pipa é obrigado pelo dono dela a pegá-la na favela rival. O cineasta supera a limitação do texto ao impor a partir deste impasse uma grande tensão quanto ao rumo do protagonista.

“Acende a Luz” disputa com “Arroz com Feijão” o título de melhor segmento de “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos”. É uma dúvida cruel, mas é fato de que acertaram em cheio ao selecionarem a história para fechar este projeto que soma aproximadamente noventa minutos ao todo. A diretora Luciana Bezerra também apresenta uma situação cômica quando a energia de uma favela acaba na véspera de natal. Assim, o clima de harmonia entre os moradores é quebrado. Sobra para o técnico da companhia de eletricidade, que é feito de refém pelos moradores no poste de energia elétrica até que resolva o problema que depende de uma única peça.

Título Original: 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos
Ano de Produção: 2010
Direção: Cacau Amaral, Cadu Barcelos, Luciana Bezerra, Luciano Vidigal, Manaira Carneiro, Rodrigo Felha e Wagner Novais
Elenco: João Carlos Artigos, Flavio Bauraqui, Zózimo Bulbul, Vitor Carvalho, Samuel de Assis, Edyr de Castro, Jayme del Cueto, Fátima Domingues, Gregório Duvivier, Washington Feijão, Ricardo Fernandes, Luis Fernando, Dandara Guerra, Dila Guerra, Ruy Guerra, Silvio Guindane, Joyce Lohanne, Thiago Martins, Marcelo Melo, Carlos Eduardo Nunes, Juan Paiva, Roberta Rodrigues, Sarita Rodrigues, Cintia Rosa, Gleison Silva, Renata Tavares, Josanna Vaz, Luciano Vidigal, Pablo Vinicius, Marcio Vito e Hugo Carvana

Abutres

Se “O Segredo dos Seus Olhos” permanece como o melhor título do cinema argentino exibido em nossos cinemas no ano passado, uma justiça deve ser feita imediatamente para colocar sob melhor evidência “Abutres”. Ambos os títulos são protagonizados pelo astro Ricardo Darín e “Abutres” estreou timidamente nos cinemas em dezembro. Se “O Segredo dos Seus Olhos” o cineasta Juan José Campanella chama a nossa atenção com algumas de suas sutilezas, Pablo Trapero se sai muito melhor com “Abutres”, com inúmeros planos-sequência que estarrecem.

É um ponto positivo significante para Pablo Trapero, que supera em todos os sentidos o seu mediano trabalho anterior, “Leonera”. Sem aviso prévio, Pablo Trapero joga o público para a ação de sua história, um suspense que foca toda a sujeira por trás do sistema de saúde e policial. Para isto, orquestra sem cortes muitas situações que outras cineastas teriam grande dificuldade de conduzir, seja com ambulâncias de pronto-atendimento pelas ruas do país e de pacientes num hospital necessitando de procedimentos médicos imediatos. É um empenho de Trapero que merecia um prêmio.

Também assinando o roteiro com Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre, Trapero desenha dois protagonistas. A primeira é a paramédica Luján (Martina Gusman, esposa do diretor e jovem atriz que se entrega sem amarras aos seus papéis), que durante os plantões exaustivos injeta drogas às escondidas para manter o controle. Num de seus atendimentos noturnos de rotina, conhece Sosa, sujeito cuja licença de advogado foi cassada e que aos poucos desvendamos estar encurralado dentro de uma máfia que dá rasteira em seguradoras ao simular acidentes de trânsito. O envolvimento constante de Sosa nas cenas destes acidentes permite que Luján levante suspeitas depois quee se entregue a um relacionamento com ele.

As consequências deste comprometimento entre Luján e Sosa se agravará conforme as pessoas responsáveis por forjarem esses acidentes se mostram e o filme se beneficia por atingir as últimas consequências de uma crítica elaborada através da ficção. Para se ter uma noção, “Abutres” se saí tão bem com os temas espinhosos que a Argentina se mostrou provocada em reaver a legislação de seguro para acidentes automobilísticos. Para um país que registra quase 10 mil mortes vindas de acidentes de trânsito se atentar para estas estatísticas e fraudes com o sucesso de um filme isto não é pouca coisa.

Título Original: Carancho
Ano de Produção: 2010
Direção: Pablo Trapero
Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Pablo Trapero e Santiago Mitre
Elenco: Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón e José Manuel Espeche
Cotação: 4 Stars

Resenha Crítica | Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (2010)

“Tropa de Elite” é o filme nacional que provocou mais reações desde “Cidade de Deus”. Isto porque a ficção conduzida por José Padilha (“Ônibus 174”) em 2007 apresentava um cenário realista do tráfico de drogas presentes nas favelas cariocas. O lançamento foi prejudicado pelas cópias piratas com a produção na íntegra disponíveis semanas antes do lançamento nos cinemas. Já lá fora, arrebatou o cobiçado Urso de Ouro no Festival de Berlim, embora a imprensa especializada tenha erroneamente associado “Tropa de Elite” como uma cópia inferior de “Cidade de Deus”.

As sequências fortes, como aquelas do treinamento do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), foram substituídas por outras com maior suspense, frutos de uma narrativa mais coesa e que supera o já ótimo filme original. O quadro mudou. Passaram-se muitos anos e agora o nosso herói Capitão Nascimento (Wagner Moura, confirmando-se como o melhor intérprete de nosso cinema) é transferido para a Secretária de Segurança após uma missão mal-sucedida que comandou na penitenciária Bangu 1. Como o título da sequência entrega, Nascimento descobrirá que terá inimigos ainda mais perigosos para enfrentar do que os traficantes que rendeu no passado.

Pecando apenas pela caracterização, pois os personagens que retornam para esta sequência continuam fisicamente iguais mesmo que aproximadamente quinze anos tenham se passado, a produção cresceu pela ousadia de expor o mal que corrompe o nosso país. Marginais, policiais e políticos corruptos são encarados como inimigos da mesma espécie. A ação fora de série e o letreiro inicial que confirma o relato como mera ficção apenas fortalece a coragem desta produção que se encaixa na categoria pouco explorada de arte que imita a vida.

Título Original: Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora É Outro
Ano de Produção: 2010
Direção: José Padilha
Roteiro: José Padilha e Bráulio Mantovani
Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Pedro Van-Held, Maria Ribeiro, Sandro Rocha, Milhem Cortaz, Tainá Müller, Seu Jorge, André Mattos, Fabrício Boliveira, Emílio Orciollo Neto, Bruno d’Elia e Rod Carvalho