Resenha Crítica | Tempo de Crescer (2009)

O casal Kieran e Michele Mulroney (irmã do galã Dermot Mulroney) foi presenteado com um banho de água fria pela produtora DC Entertainment. Ambos escreveram um roteiro de “A Liga da Justiça”, projeto que registraria a união de todos os heróis do universo da DC Comics: Batman, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Caçador de Marte, Flash, Superman e Aquaman. O problema é que tal projeto ainda está engavetado por tempo indeterminado, dependendo muito do sucesso das aventuras individuais de cada um desses heróis. A alternativa foi fazer o que seria uma versão indie de um filme com um protagonista com super poderes. Este resultado se vê em “Tempo de Crescer”.

A produção independente lançada direto em DVD no Brasil passou por várias desavenças. Com filmagens que aconteceram no início de 2006, Kieran Mulroney e Michele Mulroney tiveram que realizar alguns ajustes no final de 2008, lançando assim o filme comercialmente apenas no ano passado. Quem veste o colante de herói aqui é Ryan Reynolds, o Capitão Excelente (ou Captain Excellent, se preferir). A diferença é que este não é o sujeito anônimo que se dedica em salvar o dia. Capitão Excelente nada mais é do que um amigo imaginário de Richard Dunn (Jeff Daniels), cujo primeiro livro é um fracasso assim como o relacionamento atual com sua esposa Claire (Lisa Kudrow). Ao encontrar um lugar em Long Island onde pode ficar recluso por um tempo (afirma à Claire que é para escrever um romance), Richard conhece a jovem Abby (Emma Stone). Embora o primeiro contato tenha sido desastroso, Richard paga para Abby vigiar o seu lar temporário nas noites que ele estiver ausente. A personagem também tem seus dramas e apenas na amizade sólida com Christopher (Kieran Culkin) que ela encontra algum consolo.

A dupla se revela inventiva como roteiristas. A maior evidência disto está na contratação de Kieran Mulroney e Michele Mulroney para escrever a segunda aventura do astuto Sherlock Holmes de Robert Downey Jr. nas telonas. Infelizmente, como cineastas são fraquíssimos. Não somente na arte da mise-en-scène, mas a condução inadequada oferecida para esta narrativa, cheia de situações que não se encaixam com harmonia. Em contrapartida, em “Tempo de Crescer” surge com uma revanche em seu segundo tempo. Testemunha-se na tela um relacionamento muito bonito entre Richard e Abby quando suas fragilidades emocionais são expostas com maior clareza. O que pode ser confundido com um polêmico caso amoroso é, na realidade, a identificação mútua entre uma garota se livrando das amarguras da adolescência e um homem que ainda não as superou.

Título Original: Paper Man
Ano de Produção: 2009
Direção: Kieran Mulroney e Michele Mulroney
Roteiro: Kieran Mulroney e Michele Mulroney
Elenco: Jeff Daniels, Emma Stone, Ryan Reynolds, Lisa Kudrow, Kieran Culkin, Hunter Parrish, Louis Rosario, Arabella Field, Chris Parnell e Brian Russell
Cotação: 3 Stars

O Turista

Não sendo mais do que um thriller de espionagem regular, a história de “Anthony Zimmer – A Caçada” não apenas chamou a atenção dos celebrados roteiristas Christopher McQuarrie e Julian Fellowes como também atraiu os dois maiores astros do cinema contemporâneo, Johnny Depp e Angelina Jolie, ao ponto de contracenarem pela primeira vez juntos. A atualização da obra francesa de Jérôme Salle também registra o passaporte de ida de Florian Henckel von Donnersmarck (Oscar de melhor filme estrangeiro por “A Vida dos Outros”) à Hollywood, culminando em uma produção que não justifica as três nomeações recentes ao Globo de Ouro, mas ao menos não faz feio dentro do gênero.

O início de “O Turista” se dá com o inspetor da Scotland Yard John (Paul Bettany) e sua equipe perseguindo a belíssima Elise (Angelina Jolie). Ela é o único ponto de ligação com Alexander Pearce, sujeito que roubou uma fortuna de um perigoso gângster e que deve milhões em impostos ao governo britânico. Com uma cirurgia que modificou totalmente sua face, todos estão com dificuldades de interceptá-lo, encontrando em Elise a isca perfeita nesta busca, pois Alexandrer se comunica com ela através de bilhetes. No primeiro deles, Alexander orienta Elise a pegar um trem para Veneza. A bordo, deve encontrar um homem qualquer que tenha a mesma estatura que Alexander, bem como convencer a polícia de que ele é o próprio Alexander e não Frank Tupelo, sua real identidade, um viúvo professor de matemática.

A armadilha e o conflito de interesses que se amplia com a entrada de Reginald Shaw (Steven Berkoff), então o finado gângster traído, faz de “O Turista” uma realização que remete as produções mais classudas de Alfred Hitchcock, especialmente “Ladrão de Casaca”. As locações na Itália e Paris são de encher os olhos e desempenham papéis importantes na narrativa. Graças aos cenários, os momentos entre Angelina Jolie e Johnny Depp ganham maior realce. Triste apenas testemunhar que toda a elegância e a boa fusão de mistério e humor esteja a serviço de um encerramento que aborrece ao recorrer a um dos pecados mais graves que pode existir no cinema: trapacear o público.

Título Original: The Tourist
Ano de Produção: 2010
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro: Christopher McQuarrie, Florian Henckel von Donnersmarck e Julian Fellowes, baseado no filme “Anthony Zimmer – A Caçada”, de Jérôme Salle
Elenco: Angelina Jolie, Johnny Depp, Paul Bettany, Timothy Dalton, Steven Berkoff, Rufus Sewell, Christian De Sica, Alessio Boni, Daniele Pecci, Giovanni Guidelli, Raoul Bova, Bruno Wolkowitch e Ralf Moeller
Cotação: 3 Stars

Resenha Crítica | Revolução em Dagenham (2010)

Nigel Cole é dono de uma filmografia composta apenas por cinco obras cinematográficas (a sexta, “Rafta Rafta”, ainda está sendo filmada). O diferencial é que em todas elas o realizador britânico mostrou a que veio. Isto porque foi capaz de encher de personalidade histórias que facilmente poderiam ser banalizadas por outros diretores, seja de uma mulher de meia-idade que supera de forma pouco convencional sua viuvez (“O Barato de Grace”), um amor juvenil registrado por encontros e desencontros (“De Repente É Amor”) e a relação desfeita entre pai e filho com vidas errantes (“De Golpe em Golpe”). O seu melhor é mostrado em “Garotas do Calendário” e, de certa forma, reprisado em “Revolução em Dagenham”, produção recentemente lançada em nosso país direto para o mercado de DVD.

O diretor tem tato para histórias reais, onde relata grandes mulheres através de pequenas ações bem-intencionadas. Mas se em “Garotas do Calendário” as protagonistas de idade buscavam levantar verba apenas para substituir o sofá do asilo onde vivia o marido de uma delas, “Revolução em Dagenham” apresenta um acontecimento realmente marcante. Cansada de fazer um trabalho que requer o mesmo esforço que de homens em outros departamentos da Ford, Rita O’Grady (Sally Hawkins) move montanhas junta a suas amigas e ao representante sindical Albert (Bob Hoskins) na luta pela igualdade salarial. Rita trabalha no setor de costura, paralisado com uma greve que se arrastou por dias e que fez a Ford de Dagenham fechar suas portas por tempo indeterminado. Afinal, sem passar pelo processo que Rita e suas companheiras de trabalho eram responsáveis era impossível a produção de novos veículos.

Essa dramatização do episódio real de 1968 rende fortes consequências até hoje e é difícil imaginar como uma história tão forte como esta jamais tenha ganhado as telas antes de chegar nas mãos de Nigel Cole. Em um mundo onde mulheres ainda buscam serem valorizadas no mercado de trabalho, “Revolução em Dagenham” se mostra incisivo. Mais do que isto, a produção sabe dosar a seriedade deste conteúdo e dar relevo as personagens reais, retratadas como mulheres vaidosas, descontraídas e duras de queda. O melhor momento onde isto é testemunhado é na maravilhosa presença de Rosamund Pike, que vive a esposa de um ricaço. Em um daqueles momentos de brilhantismo com potencial de entrar na história do cinema, sua personagem, Lisa, se dirige a Rita relembrando os seus gloriosos tempos na universidade onde lia sobre pessoas extraordinárias que influenciaram a história e o quanto gostaria de vivenciar os sentimentos dessas pessoas no momento que atingem grandes feitos, incentivando-a a não desistir de sua luta. Ao término de “Revolução em Dagenham” a maior certeza que fica é de que Rita O’Grady experimentou esse desejo de Lisa como uma grande heroína.

Título Original: Made in Dagenham
Ano de Produção: 2010
Direção: Nigel Cole
Roteiro: William Ivory
Elenco: Sally Hawkins, Daniel Mays, Bob Hoskins, Miranda Richardson, Rosamund Pike, Jaime Winstone, Geraldine James, Andrea Riseborough, Andrew Lincoln, Rupert Graves, Richard Schiff, Lorraine Stanley, Nicola Duffett, Matthew Aubrey, Roger Lloyd-Pack, Sian Scott, Robbie Kay, Marcus Hutton e Danny Huston
Cotação: 4 Stars

10 Melhores Filmes de 2010

Fechando as postagens referente aos melhores filmes de 2010, onde “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” se destacou como melhor filme, melhor atriz, melhor roteiro adaptado e montagem, segue a seleção do Cine Resenhas dos melhores títulos do ano passado por ordem de preferência – vale ressaltar que esta preferência não está de acordo com o número total de indicações ou vitórias que os filmes obteram ao longo das últimas atualizações. E que 2011 continue proporcionando bons filmes para o público cinéfilo!

01. “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres“, de Niels Arden Oplev

02. “Alice no País das Maravilhas“, de Tim Burton

03. “Minhas Mães e Meu Pai“, de Lisa Cholodenko

04. “Sede de Sangue“, de Park Chan-wook

05. “Scott Pilgrim Contra o Mundo“, de  Edgar Wright

06. “À Prova de Morte“, de Quentin Tarantino

07. “O Pequeno Nicolau“, de  Laurent Tirard

08. “Triângulo do Medo“, de Christopher Smith

09. “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro“, de José Padilha

10. “O Escritor Fantasma“, de Roman Polanski