Resenha Crítica | Mistério da Rua 7 (2010)

Quando um projeto é assinado pelo americano Brad Anderson, a certeza é de que estaremos diante de algo pouco usual no cinema. Quem assistiu o romance com toques de ficção científica “Feliz Coincidência” e o drama psicológico “O Operário” conhece os caminhos narrativos inusitados empregados pelo realizador e o quanto ele os manipulam tão bem. É um autêntico cinema autoral, que também não está livre de tropeços. Algo que acontece em “Mistério da Rua 7”. O roteiro assinado por Anthony Jaswinski é um dos mais intrigantes já rodados recentemente no gênero, mas as responsabilidades de Brad Anderson na direção de episódios de seriados como “Boardwalk Empire”, “Fringe” e “Treme” provavelmente impediram os tratamentos necessários para a história, que em linhas gerais não passa de uma versão indie do frustrante “Presságio“.

Um bar situado na rua sete é o cenário principal da história, habitado por personagens em situação de desespero. Eles são Luke (Hayden Christensen), Paul (John Leguizamo), Rosemary (Thandie Newton) e o pequeno James (Jacob Latimore), quatro dos poucos sobreviventes das sombras que varrem toda a população da Terra. Essas sombras deixam para trás apenas as roupas que vestem o corpos das vítimas e por mais modestos que sejam os recursos técnicos o filme produz uma atmosfera de tensão convincente. Apropriando-se do gerador ainda ativo no bar, esses personagens buscam encontrar meios de saírem desta situação, com a esperança de que toda a obscuridade na cidade não atingiu outros locais.

A luta em permanecer em áreas iluminadas obviamente não é a única coisa que “Mistério da Rua 7” tem para oferecer. Há inúmeras tentativas de pôr em cena várias referências bíblicas e lendárias e a maioria só denotam infantilidade do roteiro. Muitos espectadores quebraram a cabeça, mas as mensagens subliminares de “Mistério da Rua 7” nem são difíceis de serem descortinadas. O recomeço da vida no mundo serviu de resolução em “Presságio” e é reprisado em “Mistério da Rua 7”. Já os personagens centrais, que apenas sobreviveram por estarem protegidos por alguma luz na manifestação das sombras, não passam de modelos de pecadores justamente em um bar, uma representação da impureza. Não à toa, um bar situado na rua 7, número total dos pecados capitais. Há outras besteiras, como a maçã definida como o fruto proibido, animais imunes a este evento apocalíptico e até o onipresente Croatoan, analogia a famosa lenda do século XVI da colônia inglesa desaparecida e cuja única pista para o fenômeno foi o nome Croatoan escrito em uma árvore.

Título Original: Vanishing on 7th Street
Ano de Produção: 2010
Direção: Brad Anderson
Roteiro: Anthony Jaswinski
Elenco: Hayden Christensen, John Leguizamo, Thandie Newton, Jacob Latimore, Jordan Trovillion, Arthur Cartwright, Neal Huff, Hugh Maguire, Larry Fessenden e Nicholas Yu
Cotação: 2 Stars

Burlesque

É de dar medo qualquer projeto protagonizado por uma cantora. Desde o momento que Madonna estourou no cenário pop em meados da década de 1980, as “cantrizes” (nada mais do que a combinação de cantora com atriz) têm aproveitado todo o apelo do cinema para se promoverem. Nada melhor do que ganhar interpretando um papel de destaque e faturar ainda mais na colaboração com a trilha-sonora. Beyoncé (“Obsessiva“), Jennifer Lopez (“Contato de Risco”), Britney Spears (“Crossroads – Amigas Para Sempre”) e Mariah Carey (“Glitter – O Brilho De Uma Estrela”) são algumas das várias “cantrizes” que dançaram, no mau sentido, na tela grande. Por isto, não dava para esperar por algo muito diferente com Christina Aguilera, que estreia no cinema com “Burlesque”. Uma das mais esnobes de todas as artistas do ramo musical, a moça nem é a pior coisa da produção, porém.

“Burlesque” emula tantas produções, algumas bem cafajestes, que dá até pena. Steve Antin estreou com o medíocre “A Casa de Vidro 2” e aqui nada mais faz do que misturar “Showgirls”, “Showbar” e o melhor da estética e encenação de “Moulin Rouge! – Amor em Vermelho” e “Chicago”. Ali (Christina Aguilera) é a típica garota interiorana que sonha em ir à cidade grande e estourar como estrela. Como a própria mulher que a incorpora, Ali sabe cantar e dançar muito bem (olhem lá, é o que diz a imprensa de entretenimento). Resta-lhe comprar uma passagem só de ida à Los Angeles e tentar a sorte trabalhando como garçonete no The Burlesque Lounge, cuja proprietária Tess (Cher, que parece ter saído de um sarcófago) está no sufoco para pagar as despesas. Claro que haverá os personagens estereotipados de sempre, caso da rival Nikki (Kristen Bell), o amigo que logo se transformará em interesse romântico (Cam Gigandet), o sujeito bem-sucedido nos negócios que planeja tomar o cenário principal para si (Eric Dane) e até o braço direito gay (Stanley Tucci, reprisando na cara de pau o seu Nigel de “O Diabo Veste Prada”).

As tolices são inúmeras e nem é preciso se dar ao trabalho para deduzir todos os rumos da história. Como musical, exigia-se ao menos que a falta de uma história decente fosse compensada por bons números musicais. Nem neste aspecto “Burlesque” se redime. Christina Aguilera não faz feio no uso da voz e a sua primeira apresentação no palco da boate Burlesque, com a música “Tough Lover”, é quase espetacular. Há outros momentos musicais que não fazem sentido. Exemplo daquele onde Tess ensaia “You Haven’t Seen The Last Of Me” – quem teria ânimo para se aventurar em uma boate no agito da noite, pronto para encher a cara e ser presenteado, depois de ter pago um valor considerável pelo ingresso, com uma coisa chorosa dessas?

Título Original: Burlesque
Ano de Produção: 2010
Direção: Steve Antin
Roteiro: Steve Antin
Elenco: Christina Aguilera, Cher, Stanley Tucci, Cam Gigandet, Kristen Bell, Eric Dane, Peter Gallagher, Julianne Hough, Glynn Turman, Dianna Agron, David Walton, Terrence Jenkins, Chelsea Traille, Tanee McCall, Tyne Stecklein, Paula Van Oppen, Isabella Hofmann, Stephen Lee, Denise Faye, Michael Landes, Wendy Benson-Landes, James Brolin e Alan Cumming
Cotação: 1 Star

Incontrolável

Em quinze de maio de dois mil e um, a vila de Walbridge, situada no estado de Ohio, ganhou as manchetes locais. Foi por lá que se deu o início de um incidente cujo protagonista foi a locomotiva CSX 8888. Desgovernada e em altíssima velocidade, a locomotiva transportava em seus vagões produtos tóxicos. O desfecho deste episódio foi feliz. Foi o que bastou para Hollywood, tão fascinada por notórios incidentes, arregaçar suas mangas. Desde dois mil e quatro o projeto buscava por um diretor. O finalista, Tony Scott, não poderia ser pior. Mas eis que um dos realizadores mais histéricos em atividade consegue se conter em “Incontrolável”, que apenas se inspira no episódio verídico para criar algo bem diferente.

Na história inicia-se com Will Colson (Chris Pine) em seu primeiro dia em novo emprego. Apenas com treinamento prévio, Will conduzirá locomotivas tendo o veterano Frank Barnes (Denzel Washington) como parceiro. Will não poderia iniciar pior na nova profissão, pois além dos preconceitos que enfrenta por ser um novato, o personagem se envolverá na arriscada missão de deter o incontrolável CSX 8888. A encarregada de ferrovia Connie Hooper (Rosario Dawson, excelente) não poderia estar mais certa ao descrever a razão deste incidente, nada mais do que uma combinação de erro humano e má sorte.

Tony Scott é notório por suas extravagâncias e a boa notícia é que “Incontrolável” lhe força a ter uma percepção diferente de direção. Não estão ausentes os planos que duram segundos e a frenesi de sua câmera, mas o vilão da história segue literalmente um destino traçado, o que permite a presença de um trabalho técnico mais sutil (a edição de som foi indicada ao Oscar). Aliás, é no empenho em converter CSX 8888 num personagem que está o grande achado da ação, ofuscando até mesmo as interpretações no piloto automático de Denzel Washington e Chris Pine, que como personagens errantes (Frank não é o pai ideal para a filha e Will destruiu seu casamento por uma crise de ciúmes infantil) não provocam qualquer empatia.

Título Original: Unstoppable
Ano de Produção: 2010
Direção: Tony Scott
Roteiro: Mark Bomback
Elenco: Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Ethan Suplee, Kevin Dunn, Kevin Corrigan, Kevin Corrigan, Kevin Chapman, Lew Temple, T.J. Miller, Jessy Schram, David Warshofsky, Andy Umberger, Elizabeth Mathis e Meagan Tandy
Cotação: 3 Stars

Os Cinco Filmes Prediletos de Weiner Gomes

Uma das tarefas mais complicadas para aquele que planeja criar um blog é a busca por leitores. Afinal, eles são essenciais para determinar a qualidade e diferencial do conteúdo compartilhado. Em seu primeiro ano de vida, o Cine Resenhas já tinha em seu blogroll A Grande Arte, espaço também dedicado ao cinema editado por Weiner Gomes. A felicidade é testemunhar que até hoje ainda há essa ligação virtual e por ela não pude desistir de meus planos de solicitar ao Weiner a sua participação para o crescimento desta seção do Cine Resenhas, que busca conhecer um pouco mais do cinéfilo que há dentro de cada um destes caros amigos.

O espaço do Weiner sofreu algumas alterações, tão comuns para qualquer um. Atualmente, seus textos podem ser lidos em O Brado Retumbante! É uma visita obrigatória em um blog que se destaca pela diversidade e a análise rica e perspicaz do seu autor, como pode ser testemunhado a seguir.

Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornattore (1988, Nuovo Cinema Paradiso)

Existe a máxima de que, para ser cinéfilo, é preciso amar o cinema – a arte sagrada de manipular imagens, sons, sentimentos. Não basta ocupar poltronas e assistir aos filmes, ainda que o espaço físico, em si, seja indispensável; também é preciso compreender a força desta engrenagem social, que tem poder (sim) de entreter, e (principalmente) aculturar, acrescentar, moldar, perpetuar. “Cinema Paradiso”, a obra-prima do cineasta italiano Giuseppe Tornattore é a mais linda de todas as odes ao cinema. Isto porque cultua a sétima arte, e faz de seus canais mais convencionais (as salas de exibição e projeção) verdadeiros templos. Salvatore, o garoto conhecido como Toto (interpretado pelo talentoso homônimo Salvatore Cascio na infância e por Jacques Perrin na fase adulta) desenvolve encantamento imediato pelo único cinema de sua pequena cidade, encravado no meio de uma praça – e naturalmente pelo projecionista Alfredo (o brilhante Phillipe Noiret), um homem velho que fincou raízes numa profissão solitária, mas gratificante. Diante de sinopse tão simples, parece exagero considerar “Cinema Paradiso” como uma das mais tocantes obras da História; mas que outra definição mereceria filme que presta tão sincera homenagem àquele que considero um dos maiores legados da Humanidade? Mas se funciona apenas para os verdadeiros amantes do cinema? Não, vai além. Pequena correção faz-se necessária: “Cinema Paradiso”, é antes de tudo, uma ode à própria vida. À amizade. Ao direito de sonhar. À linha tênue que aproxima inocência e experiência. Ao direito universal de ser feliz. Dono de inspiradíssima trilha sonora (Ennio Morricone em momento de primazia absoluta) e desfecho de raríssimo poder emocional, o filme é ternura e emoção do primeiro ao último segundo.

Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder (1950, Sunset Blvd.)

Mesmo que um filme consiga lançá-lo dentro de perspectiva jamais imaginada, despertar sensações indescritíveis e proporcionar alguns dos melhores momentos de uma vida, vale ressaltar que ainda é obra humana. Obra movida por dinheiro, lucro, liquidez. Em suma, vive da objetividade cruel que separa o sucesso do fracasso – e infelizmente o público está convencionado a tal lógica. “Crepúsculo dos Deuses”, obra-prima máxima do diretor Billy Wilder (tão habituado a obras-primas) segue tal desígnio. Desmitifica o mítico. Sacode com brusquidão aquele que sonha diante de uma poltrona. Profana pedestais. Descarta vidas inteiras. Maneira romântica demais para atacar o ciclo natural da fama, que sempre abre espaço para novos talentos e, indiferente, vira as costas àquele que já envelheceu? Talvez. Aceitar, porém, que o cinema, legado transcendental às imperfeições do homem, também é vítima de tamanha “humanidade”, ainda dói. É assim que a personagem de Gloria Swanson (em soberba atuação) se sente: vitimada por um sistema que ao mesmo tempo em que constrói, destrói. Detalhe, aliás, que se intensifica após a transição do cinema mudo para o cinema falado – fenômeno que dizimou o talento de muitos profissionais do passado. Wilder notava tais discrepâncias. A ganância da indústria, amparada pela ingratidão do público que já ansiava por “nova ordem”. Assim, criou um dos retratos mais sombrios dos bastidores de Hollywood – que nos faz pensar, até hoje, se algo de fato mudou. “All right Mr. De Mille, I’m ready for my close-up”. Um incômodo calafrio.

A Lista de Schindler, de Steven Spielberg (1993, Schindler’s List)

Em 1994, Steven Spielberg não precisava mais provar ao público que sabia dirigir um filme – especialmente quando tal produção dispunha de efeitos visuais e sonoros que arriscavam brilhar mais que o verdadeiro criador. Nem tampouco que era dono de versatilidade admirável, encontrando êxito também em fitas dramáticas. À crítica e às premiações, contudo, a situação era diferente. Em “A Lista de Schindler” (considerado pelo AFI como um dos 10 melhores filmes da História), Spielberg encontrou o material que precisava: baseado na vida de Oskar Schindler, industrial polonês que favoreceu milhares de judeus – até então condenados à morte pelo fundamentalismo nazista. Um tema levemente pedante, sim, mas tratado com dignidade suficiente para arrancar diversas ovações – e arrebatar importantes prêmios. Num preto-e-branco fantástico, capturado pela fotografia de Janusz Kaminski, “A Lista de Schindler” se impôs como o mais tocante (e cruel) retrato sobre o nazismo já levado às telas. Personagens inesquecíveis, a dicotomia habitual entre bem e mal que habita as produções de Spielberg, sentimentalidade sem nenhum sentimentalismo. Antes de tudo, um longa que sabe exatamente a quem acusar – dispensando fantoches e massas de manobra –, concentrando críticas sutis àqueles que promoveram o genocídio em nome de ideais perversos; “A Lista de Schindler” não serve somente de enciclopédia parcial e previsível (como acusam alguns detratores), mas seu mérito reside na capacidade de transformar o espectador num ser humano mais sensível, tolerante e consciencioso. Um clássico instantâneo, sim, mas arrebatador.

A Doce Vida, de Federico Fellini (1960, La dolce vita)

“A felicidade não é deste mundo”, muitas religiões professam. Um equívoco, se você não acredita em vida após a morte. Mas surpreende a quantidade de pessoas, entre as mais variadas classes sociais, que buscam incessantemente por algo que preencha o vazio emocional de suas vidas. A vida, em si, é pautada por momentos de extrema euforia e extrema tristeza – e talvez morramos sem descobrir o que é, de fato, a felicidade. Então, é preciso ser triste? Verdade inescapável para muitos, a melancolia reina por todos os espaços. E Federico Fellini, cineasta italiano que tivera uma infância de influenciada pelo fanatismo católico dos pais, perdera um filho muito cedo e não encontrara completude ao lado da esposa, fizera tal pergunta a si mesmo. A resposta está neste filme. “A Doce Vida” é a última palavra em termos de desolação e desesperança. E quem jamais tiver pensado a respeito, que atire a primeira pedra. Gozado, porém, é assistir decadência moral de um filão de personagens comuns e banais – o que só acentua a realidade deste filme atemporal. Eles estão procurando, desesperadamente, por uma forma menos convencional de ocupar seu tempo – o sexo indiscriminado, o alcoolismo, o tabagismo, a falsidade, o assédio, o ócio, a irreverência ao divino (que rendeu excomunhão a Fellini) – já parecem inúteis. Como todas as gerações que já passaram pela Terra, estão em busca de alguma resposta, alguma motivação que dê, de fato, valor à vida. E se o desfecho parecer pessimista é válido lembrar que promove o direito de escolha – como se em algum lugar inóspito (mas não tão insólito) estivesse guardado o deslindar desta questão. Basta abrir os olhos. Ainda que para Fellini tais olhos tenham se acostumado à cegueira e se conformado à iminente condenação.

A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra (1946, It’s a Wonderful Life)

Em contraponto ao fantástico filme de Federico Fellini, existe o maior de todos os filmes, “A Felicidade Não Se Compra”. Quem não conhece ou já consumiu algo claramente influenciado por esta lindíssima história de Natal? Piegas? Talvez. Manipulativo? Quem sabe? George Bailey (James Stewart, icônico) não é perfeito; mas nem mesmo por isso deixa de ser o grande herói do cinema mundial. Herói por aceitar o destino e suas ciladas, herói por demonstrar fraqueza e humanidade, mas não render-se jamais (ainda que, por momentos, esta pareça a única saída). Herói por existir dentro de cada um de nós. Herói por acreditar na vida. Acovardar-se diante de pequenas coisas é corriqueiro, pois todos nós estamos fechados numa redoma insignificante de egoísmo. Frank Capra apresenta, todavia, uma situação bem mais desesperadora, inimaginável para muitos que passam a vida protegidos pelo conforto. Mas, por que procurar a maneira mais digna para livrar-se de uma adversidade? Por que conservar o caráter se a vida retribuiu a subordinação com desgraça e infortúnio? Por que acreditar numa solução quando a Providência não dá sinais de apoio, só devolve indiferença? “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia”, já dissera grande intelectual. E feliz quem corroborar a afirmação de Shakespeare (e Capra!). Acreditemos sempre que é possível crescer diante de um obstáculo – e sempre que estivermos presos a condições humilhantes, estivermos fracos, desanimados, contritos, sem fé, lembremo-nos de “A Felicidade Não Se Compra”. Cinema. Mantra. Filosofia de vida.

Resenha Crítica | As Viagens de Gulliver (2010)

O clássico da literatura britânica “As Viagens de Gulliver” rendeu quase duas dezenas de adaptações cinematográficas e televisivas. Sem contar as incontáveis referências dentro de obras de ambas as mídias. Em uma nova versão, fica clara a intenção do diretor Rob Letterman em entregar uma obra que seja lembrada por toda geração atual. Há um lamentável infortúnio. Com influência de Jack Black, o realizador de “Monstros Vs. Alienígenas” (uma das melhores e mais sarcásticas animações dos últimos anos) perde as rédeas toda vez que o ego do astro invade a tela. Com todo o perdão aos fãs do membro da banda “Tenacious D”, mas quem ainda tem paciência para tolerar as insossas interferências musicais de Jack Black?

Ao menos no restante “As Viagens de Gulliver” se sai bem. Mesmo não sendo pioneira na técnica de transformar um protagonista em gigante diante de uma realidade paralela, é divertido o resultado obtido aqui, ainda mais pela bela recriação de Londres assinada por Peter Russell, Phil Harvey e Robert Cowper. Como não poderia deixar de ser, Jack Black é um loser, Gulliver, que vive de entregar correspondências em um jornal diário de Nova Iorque. Mete os pés pelas mãos em nova tentativa frustrada de conquistar a bela Darcy Silverman (Amanda Peet), afirmando ser hábil em escrever colunas sobre viagens. De passagem pelo Triângulo das Bermudas, é transportado magicamente ao reino de Lilliput. Gulliver se transforma em herói e as situações cômicas são direcionadas ao público jovem. As carismáticas presenças da princesa Mary (Emily Blunt) e o plebeu Horatio (Jason Segel) seguram a onda.

Título Original: Gulliver’s Travels
Ano de Produção: 2010
Direção: Rob Letterman
Roteiro: Joe Stillman e Nicholas Stoller, baseado no livro de Jonathan Swift
Elenco: Jack Black, Jason Segel, Emily Blunt, Amanda Peet, Billy Connolly, Chris O’Dowd, T.J. Miller, James Corden, Catherine Tate, Emmanuel Quatra, Olly Alexander e Ian Porter
Cotação: 2 Stars

A Garota da Capa Vermelha

Não há dúvidas que a cineasta Catherine Hardwicke tem um carinho especial pelo universo adolescente. Qualquer um que tenha assistido “Aos Treze” e “Os Reis de Dogtown” viram todo o zelo com o qual foram construídos personagens e a autenticidade de seus dramas e tormentos. Porém, o sucesso de “Crepúsculo” subiu a cabeça da diretora. Só assim para justificar a sua opção em dar vida ao material de “A Garota da Capa Vermelha”. O segundo roteiro para cinema de David Johnson (“A Órfã” foi seu debut) é uma versão livre de “Chapeuzinho Vermelho”, mas é impossível não reconhecer uma reprise ainda mais pálida da relação do vampiro Edward (Robert Pattinson), a humana Bella (Kristen Stewart) e o lobisomem Jacob (Taylor Lautner).

O triângulo da vez é formado pela jovem Valerie (Amanda Seyfried), o lenhador Peter (Shiloh Fernandez) e o ferreiro Henry (Max Irons, filho de Jeremy Irons), filho do mais rico morador do vilarejo de Daggerhorn. Cesaire e Suzette (Billy Burke e Virginia Madsen) são pais de Valerie e indicam Henry como melhor pretendente para se casar. Os olhos da moça estão direcionados para Peter, amigo desde a infância e pelo qual está perdidamente apaixonada. A união nunca seria bem vista e exatamente por isto o casal planeja uma fuga. Correria tudo bem se uma sucessão de eventos ameaçadores surgisse. O primeiro é a morte da irmã de Valerie, Lucy (Alexandria Maillot). Depois é a perícia que aponta um lobisomem como o culpado. Por fim, a inclusão do padre Solomon (Gary Oldman, o melhor do elenco) na história, uma espécie de Van Helsing dos lobisomens que aponta todos como suspeitos.

Comparando “Crepúsculo” com “A Garota da Capa Vermelha”, dá até para apontar uma considerável melhora técnica. “A Garota da Capa Vermelha” apresenta um clima tenso pelo cenário bem explorado e há até efeitos visuais bem resolvidos. Por outro lado, os constantes planos aéreos nos fazem ter saudades da boa utilização de câmera na mão da Catherine Hardwicke de “Aos Treze” e tanto as referências a “Chapeuzinho Vermelho” quanto às sugestões impostas pelos Irmãos Grimm na versão mais famosa do conto são jogadas na tela de maneira desconexa. Ou seja: é melhor a diretora voltar às suas raízes, pois seu olhar sobre a juventude em ambientes fantásticos já se esgotou em apenas duas investidas. E nem adianta criar mistério com o velho “quem é o assassino?”. Para isto, já temos o fantástico “Pânico 4“.

Título Original: Red Riding Hood
Ano de Produção: 2011
Direção: Catherine Hardwicke
Roteiro: David Johnson
Elenco: Amanda Seyfried, Shiloh Fernandez, Max Irons, Gary Oldman, Billy Burke, Virginia Madsen, Julie Christie, Lukas Haas, Shauna Kain, Michael Hogan, Adrian Holmes, Cole Heppell, Christine Willes, Michael Shanks, Kacey Rohl, Carmen Lavigne, Don Thompson, Matt Ward, Megan Charpentier, Dj Greenburg, Jen Halley e Alexandria Maillot
Cotação: 2 Stars

Helen

Dois anos e meio atrás o inferno veio me fazer uma visita surpresa“. Autor de “O Demônio do Meio-Dia”, Andrew Solomon é membro de um grupo cada vez maior de pessoas que até hoje combate os males da depressão. Nada mais oportuno que sua forte citação apareça sob fundo negro no início de “Helen”, drama conduzido pela cineasta alemã Sandra Nettelbeck (“Simplesmente Martha”). É uma história dura de se acompanhar, que em sua primeira oportunidade dilacera o tom de alegria que qualquer um imaginaria predominar na existência da personagem-título interpretada por Ashley Judd.

Helen Leonard é casada com David (Goran Visnjic), tem uma filha, Julie (Alexia Fast), que só lhe dá orgulho em ser mãe, é uma professora de música talentosa e com estabilidade financeira perceptível. Denota-se que Helen é o impecável modelo de mulher feliz, mas a realidade se mostra cruel. Seu rendimento profissional decaí, assim como o clima harmonioso que preserva em família. São consequências de uma depressão profunda, que lhe atinge sem aviso prévio.

Apenas a sua jovem aluna universitária Mathilda (Lauren Lee Smith), também depressiva, é a pessoa na qual Helen encontra o apoio que procura. O isolamento conjunto acarretará em uma discussão devastadora. David ama Helen e não aceita perder a sua esposa para a doença, muito menos que o papel de protegê-la seja defendido por uma semi-desconhecida. Ao perguntar a Helen o que torna Mathilda tão especial, Helen responde: porque Mathilda não me pergunta como me sinto. Mathilda simplesmente sabe.

Sandra Nettelbeck também é responsável pelo roteiro e retrata com precisão os estágios da depressão (é preciso apontar a colaboração do diretor de fotografia Michael Bertl pela atmosfera opressiva oferecida). Helen não apenas é incapaz de retomar as suas atividades diárias, como não consegue evitar os pensamentos suicidas, as repentinas crises de choro, os sintomas físicos e o medo em reverter o quadro atual. Talvez desde “Geração Prozac” um filme não processe na tela a realidade de uma grande minoria com esta fidelidade. Ao mesmo tempo, “Helen” é um título difícil de ser recomendado. As resoluções não são fáceis e corre-se o risco do filme ser julgado equivocadamente por espectadores que, assim como David, são incapazes de compreender Helen e Mathilda.

Título Original: Helen
Ano de Produção: 2009
Direção: Sandra Nettelbeck
Roteiro: Sandra Nettelbeck
Elenco: Ashley Judd, Goran Visnjic, Lauren Lee Smith, Alexia Fast, Alberta Watson, Leah Cairns, David Hewlett, David Nykl, Chelah Horsdal, Ali Liebert e Conrad Coates
Cotação: 3 Stars

Resenha Crítica | Reencontrando a Felicidade (2010)

Em um determinado momento do drama “Reencontrando a Felicidade”, Becca (Nicole Kidman) está conversando com sua mãe Nat (Dianne Wiest) e pergunta a ela se a dor que nós sentimos com a perda de alguém nunca desaparece. Nat, cujo filho morreu de overdose há onze anos, responde que não. Como consolo, diz que em algum momento isto se torna suportável. Esta franqueza com que são moldados os diálogos da autoria de David Lindsay-Abaire (que adapta sua peça teatral) permeia toda a narrativa de “Reencontrando a Felicidade”, cujo realizador, John Cameron Mitchell, até então era afeito a um cinema de relatos eróticos como os de “Hedwig – Rock, Amor e Traição” e “Shortbus”.

Quando “Reencontrando a Felicidade” inicia, uma tragédia já atingiu o casal Becca e Howie (Aaron Eckhart). Foi o acidente de carro que matou Danny (Phoenix List), o único filho deles. Passaram-se meses e ambos não conseguem seguir em frente. Howie frequenta um grupo de apoio e Becca o acompanha contra sua própria vontade. Ela também não consegue esconder seus sentimentos quando sua irmã Izzy (Tammy Blanchard) revela estar grávida. Tendo abandonado o emprego após a morte do filho, Becca busca por conforto onde menos se espera: na figura do jovem Jason (Miles Teller), o responsável por atropelar Danny acidentalmente.

Difícil especialmente para aqueles que já se tornaram pais e mães, “Reencontrando a Felicidade” ganha destaque pela inusitada inversão de perfis que faz. O cinema americano está acostumado em retratar a parte materna como a mais frágil da situação. Aqui, Howie é o que preserva a todo custo tudo aquilo que remete a Danny, como vídeos, fotografias e o quarto abandonado de maneira intacta. Já Becca tenta se manter firme, mesmo que não seja capaz de processar as mudanças das pessoas ao seu redor – é bem elaborada a sequência onde a personagem reserva um dia para visitar os seus colegas do último emprego e é surpreendida com a ausência de todos, que provavelmente receberam outras oportunidades profissionais, deram algum passo, enfim.

Porém, mesmo com todas as sutilizas presentes em “Reencontrando a Felicidade” (e com ela é preciso destacar o empenho de Nicole Kidman, mostrando-se uma produtora invejável com a qualidade que exprime de um orçamento limitado), sente-se que a obra não colabora com novas possibilidades para o tema inúmeras vezes explorado. As situações onde Becca e Howie não são capazes de evitar as lágrimas e toda a fúria emocional tem impacto amenizado para aqueles que já assistiram a um filme como “Entre Quatro Paredes”.

Título Original: Rabbit Hole
Ano de Produção: 2010
Direção: John Cameron Mitchell
Roteiro: David Lindsay-Abaire, baseado na peça de sua autoria
Elenco: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Miles Teller, Dianne Wiest, Tammy Blanchard, Sandra Oh, Giancarlo Esposito, Jon Tenney, Stephen Mailer, Mike Doyle, Roberta Wallach, Patricia Kalember, Ali Marsh, Yetta Gottesman, Colin Mitchell, Deidre Goodwin, Julie Lauren, Rob Campbell e Phoenix List

Esposa de Mentirinha

As constantes colaborações do cineasta Dennis Dugan com o comediante Adam Sandler são daquelas que não entusiasmam ninguém. Afinal, desde “Um Maluco no Golfe” Dennis Dugan conduz as mesmas piadas através de um intérprete que jamais se reinventa. A sorte é que em “Esposa de Mentirinha” a parceria finalmente surte algum efeito positivo. A razão é a presença de Jennifer Aniston, pois é um raro momento onde Adam Sandler protagoniza uma comédia com um nome menos habitual (ao contrário da trupe do extravagante “Gente Grande”, por exemplo). Assim, “Esposa de Mentirinha” é um “meio a meio”: não tem todo aquele açúcar das fitas protagonizadas por Jennifer Aniston ao mesmo tempo que os escrachos a cargo de Adam Sandler são mais moderados.

Danny Maccabee (Adam Sandler) é um cirurgião plástico que recorre a um truque aprendido em seu noivado: conquistar as mais belas garotas com a história de que é um homem casado que passa todos os horrores inimagináveis nas mãos da esposa. A mentira sempre funcionava até conhecer a jovem Palmer (a modelo americana Brooklyn Decker, em seu primeiro papel para cinema), que imagina que Danny não passa de um sujeito desonesto motivado a pular a cerca com qualquer beldade. Apesar da diferença de idade, Danny se apaixonou pela simpática Palmer e está decidido em conquistá-la, nem que para isto tenha que inventar inúmeras novas mentiras, como apresentar a sua secretária Katherine (Jennifer Aniston) como sua detestável esposa. Claro que Katherine, uma mãe solteira, aproveitará a oportunidade para subornar seu chefinho, seja com a renovação de seu guarda-roupa ou mimos para os seus dois filhos, Maggie (Bailee Madison) e Michael (Griffin Gluck).

Com esta premissa, “Esposa de Mentirinha” encaixa-se instantaneamente no modelo de comédia fácil, aquele onde não se recorre a muitos meios para criar situações hilariantes. E isto inclui atropelar qualquer indício de complexidade e coerência. A produção é caríssima (oitenta milhões de dólares) e mesmo assim não há um diretor de fotografia competente para transformar o já deslumbrante Havaí (que serve de locação para a comédia) em algo superior a um cartão-postal insosso. Já sentido é o que não existe na preferência de Danny, que na maior parte do tempo direciona seus olhares para Palmar quando a própria Katherine, mãe dedicada, carismática e dona de um corpão violão, é negligenciada.

A outra face da moeda ao menos é muito mais promissora, realmente hilariante. A estadia no Havaí só traz mais confusões para o protagonista e também para Katherine. Isto porque ao aproveitar o clima ensolarado, Katherine acaba revendo Devlin Adams. Nicole Kidman é quem faz esta rival número um de Katherine e é incrível como esta participação especial da australiana engrandece a comédia, revelando-se uma surpreendente atriz que sabe rir de si mesma. A pequena Bailee Madison é outro achado, em um papel de aspirante a atriz teatral com forçado sotaque britânico – é engraçadíssimo quando a pequena admite em um momento descontraído que a coisa mais triste em sua vida é ver Judi Dench sem um Oscar de melhor atriz principal. Há outros momentos bem divertidos que poderão ser curtidos caso os pecados de “Esposa de Mentirinha” possam ser perdoados. É pegar ou largar.

Título Original: Just Go With It
Ano de Produção: 2011
Direção: Dennis Dugan
Roteiro: Allan Loeb e Timothy Dowling, baseado no roteiro de “Flor de Cactus”, de I.A.L. Diamond, e na peça escrita por Abe Burrows, Jean-Pierre Grédy e Pierre Barillet
Elenco: Adam Sandler, Jennifer Aniston, Brooklyn Decker, Nick Swardson, Bailee Madison, Griffin Gluck, Kevin Nealon, Rachel Dratch, Minka Kelly, Allen Covert, Dan Patrick, Dave Matthews e Nicole Kidman
Cotação: 3 Stars

Resenha Crítica | Hanna (2011)

“I just missed your heart.”

Nos primeiros minutos de “Hanna” vemos que a personagem-título cresceu em um ambiente diferente de outras garotas de sua idade. Aos dezesseis anos, esta personagem interpretada pela americana Saoirse Ronan vive nas áreas mais gélidas da Finlândia com o seu pai Erik (Eric Bana). Erik cria Hanna sob severos treinamentos físicos e a torna uma expert em idiomas e culturas de lugares que jamais conheceu. O mundo de Hanna é minúsculo, pois ela jamais ultrapassou os limites do refúgio ao qual lhe é um lar. Isto pode mudar quando Erik oferece à Hanna a chance de finalmente explorar novos ambientes, deixando-a ciente de que deverá cumprir com uma missão de risco: eliminar a agente da CIA Marissa (Cate Blanchett), com quem Erik tem um passado.

As razões ficarão claras apenas nos momentos finais desta história, pois o que mais importa ao cineasta inglês Joe Wright (de “Orgulho e Preconceito”, “Desejo e Reparação” e “O Solista“) e aos roteiristas David Farr e Seth Lochhead é fazer com que Hanna desvende sua própria humanidade em meio a um turbilhão de emoções que a acometerá, intensificadas ao conhecer Sophie (Jessica Barden), filha de Sebastian (Jason Flemyng) e Rachel (Olivia Williams). Esta família de turistas mudará Hanna, especialmente Sophie e Rachel, pois nossa protagonista jamais presenciou uma figura feminina em sua infância e adolescência.

Trabalhando pela primeira vez com um roteiro original, Joe Wright finalmente parece livre, leve e solto para conduzir uma história como bem entender. Não poderia apresentar um gosto mais refinado. Wright faz de “Hanna” um filme de ação diferente do habitual, mostrando serviço em sequências de embate espetaculares e no uso de espaços cênicos, como o parque abandonado em Berlim que serve de cenário para o último ato da história. Há também dois elementos que se destacam entre os demais. O primeiro é a contribuição da dupla Ed Simons e Tom Rowlands. Responsáveis pelo grupo “The Chemical Brothers”, ambos realizam um trabalho bizarro (no bom sentido), um misto de música eletrônica e canções dignas de fábulas. O segundo elemento surpreendente é representado por Cate Blanchett. A atriz dá um tom totalmente novo para a sua vilã, distinto da cabeça aos pés do horroroso papel de Irina Spalko em “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal“. O único ponto comprometedor de “Hanna” é quando sua narrativa invade terrenos pouco seguros ao revelar a origem da mortífera protagonista, que não devem ser revelados aqui para não estragar as surpresas.

Título Original: Hanna
Ano de Produção: 2011
Direção: Joe Wright
Roteiro: David Farr e Seth Lochhead
Elenco: Saoirse Ronan, Eric Bana, Cate Blanchett, Tom Hollander, Olivia Williams, Jason Flemyng, Michelle Dockery, John MacMillan, Tim Beckmann, Vicky Krieps, Jessica Barden, Aldo Maland, Jamie Beamish e Sebastian Hülk
Cotação: 3 Stars