Sobrenatural

Nascido na Malásia, o jovem James Wan conseguiu em seu segundo trabalho em longa-metragem impor uma nova maneira de se fazer terror contemporâneo. Este filme foi “Jogos Mortais”, que não apenas rendeu uma franquia de sucesso como inaugurou o que conhecemos hoje como torture porn. Seus filmes seguintes pouco entusiasmaram: “Gritos Mortais” esteve longe de receber a mesma acolhida do público e “Sentença de Morte” (protagonizado por Kevin Bacon) pode facilmente ser confundido com outros thrillers recentes. Com “Sobrenatural”, James Wan faz novamente um fenômeno de bilheteria e confere inovações dentro do gênero.

Em nova residência, a família Lambert rapidamente testemunha estranhos acontecimentos. Portas que rangem, objetos que aparecem em lugares antes não deixados, ruídos no assoalho… Além desses eventos sobrenaturais, o filho mais velho do casal Lambert (interpretados por Patrick Wilson e Rose Byrne), Dalton (Ty Simpkins), adoece misteriosamente, caindo em um sono que jamais desperta. Nenhum especialista é capaz de dar um diagnóstico e o tempo permite que eles liguem o estado do garoto com as malévolas presenças espirituais no casarão. Uma nova mudança de habitação evidencia a novidade no roteiro assinado pelo também ator Leigh Whannell, pois a família Lambert desvendará que não é mal-assobrada a casa onde estavam e sim a própria família.

Com orçamento risível de 1,5 milhão e com faturamento mundial que multiplica em torno de sessenta vezes este valor, “Sobrenatural” é situado nos tempos atuais, mas há um delicioso clima oitentista. Impossível não se recordar de clássicos deste período diante de um trabalho técnico à moda antiga e personagens pitorescos, como a médium vivida pela impagável Lin Shaye. Excetuando uma magnífica cena onde a personagem de Rose Byrne finalmente se depara com uma criança do além, sente-se apenas que em matéria de tensão o filme não atinge todo seu potencial. “Sobrenatural” é muito legal, mas o grau de incômodo na poltrona é menor do que o prometido.

Título Original: Insidious
Ano de Produção: 2010
Direção: James Wan
Roteiro: Leigh Whannell
Elenco: Patrick Wilson, Rose Byrne, Barbara Hershey, Lin Shaye, Leigh Whannell, Angus Sampson, Ty Simpkins, Andrew Astor, Corbett Tuck, Heather Tocquigny, Ruben Pla, Josh Feldman e John Henry Binder
Cotação: 3 Stars

Entrando Numa Fria Maior Ainda Com A Família

Refilmagem de uma comédia independente desconhecida, “Entrando Numa Fria” pegou muitos espectadores de surpresa quando lançado há onze anos. Não se tratava apenas da união de um ótimo comediante com um veterano respeitado, mas da encenação de algo pouco usual no cinema em geral: os inevitáveis conflitos entre sogro e genro ao invés de uma sogra e uma nora. O americano Jay Roach conseguiu segurar a onda na também hilariante sequência “Entrando Numa Fria Maior Ainda” e fez bem ao se desligar (ao menos como diretor) do terceiro episódio cujo esgotamento já se vê no título nacional, “Entrando Numa Fria Maior Ainda Com A Família”.

Se antes havia alguma verdade em situações para lá de absurdas, o ingrediente secreto que fazia “Entrando Numa Fria” funcionar, agora é destacado as crianças de Greg e Pam (Ben Stiller e Teri Polo) como mero pretexto para piadas banais. A rixa entre Greg e Jack (Robert De Niro) está longe de encontrar uma solução, pois agora o patriarca da família Byrnes crê piamente que Greg não é o seu sucessor ideal. Trabalhar com a assanhada Andi (Jessica Alba, cada vez pior e devidamente laureada com o troféu Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante) só piorará a situação de Greg.

Sem uma história decente para contar, os roteiristas John Hamburg e Larry Stuckey, junto ao cineasta Paul Weitz, preenchem o que conseguem com gagues de cunho sexual e escatológico. Quando não investem neste padrão redundante de humor, usam referências cinematográficas que definitivamente não funcionam (não faltam citações a trilogia “O Poderoso Chefão” ou ao clássico “Tubarão”). Também é perceptível o desfalque dado por Dustin Hoffman, que no final do segundo tempo decidiu reprisar brevemente o seu Bernie em troca de um cachê mais polpudo. Aliás, a única razão de existir “Entrando Numa Fria Maior Ainda Com A Família” é mesmo os dólares que garantiria na bilheteria. Algo injusto para os fãs que aguardavam por um produto melhor e que enterra a reputação de uma franquia até então bem-sucedida.

Título Original: Little Fockers
Ano de Produção: 2010
Direção: Paul Weitz
Roteiro: John Hamburg e Larry Stuckey
Elenco: Robert De Niro, Ben Stiller, Owen Wilson, Dustin Hoffman, Barbra Streisand, Blythe Danner, Teri Polo, Jessica Alba, Laura Dern, Kevin Hart, Daisy Tahan, Colin Baiocchi, Tom McCarthy e Harvey Keitel
Cotação:

Atividade Paranormal – Tóquio

O cinema oriental de horror prima por uma originalidade quase impossível de ser reprisada com sucesso pela indústria americana. Especialmente quando são histórias fantasmagóricas, não importando se a ameaça é mais física ou psicológica. Por isso é difícil compreender a razão de existir “Atividade Paranormal – Tóquio”, pois aqui há uma inversão do padrão estabelecido: é um japonês que se aproveita de um argumento concebido por um americano e não o contrário.

O primeiro equívoco é fazer de “Atividade Paranormal – Tóquio” uma sequência quase direta de “Atividade Paranormal“. Já existe uma continuação americana para o sucesso de Oren Peli, “Atividade Paranormal 2“, o que torna o experimento de Toshikazu Nagae  ainda mais descartável. O espírito que atormentava o casal Katie (Katie Featherston) e Micah (Micah Sloat) agora é transferido para o apartamento onde a estudante de intercâmbio Haruka (Noriko Aoyama) estará hospedada após um acidente automobilístico que a torna cadeirante por tempo indeterminado. O local pertence ao seu irmão mais novo Koichi (Aoi Nakamura) e será ele que a ajudará nas atividades diárias. Claro que não poderia faltar uma filmadora para o personagem registrar alguns estranhos acontecimentos noturnos.

Péssimos, Aoi Nakamura e Noriko Aoyama não são capazes de transmitir o pavor que a situação causaria e só torna o recurso utilizado de filmagem ainda mais inconvincente. Aqueles que já assistiram ao fenômeno realizado por Oren Peli também ficarão aborrecidos com a ausência de novas informações para fortalecer o mito materializado por atividades paranormais, pois Toshikazu Nagae apenas substitui pequenos elementos da narrativa (sal ao invés de talco, crucifixo pegando fogo ao invés de tabuleiro de Ouija et cetera) e conduz sua narrativa para caminhos já explorados anteriormente. É o longa-metragem mais desnecessário do ano.

Título Original: Paranômaru akutibiti: Dai-2-shô – Tokyo Night
Ano de Produção: 2010
Direção: Toshikazu Nagae
Roteiro: Toshikazu Nagae
Elenco: Aoi Nakamura e Noriko Aoyama
Cotação: 1 Star

Resenha Crítica | O Poder e a Lei (2011)

Dramas de tribunal sempre tiveram público garantido. No cinema e também na telinha, como se vê nos sucessos de audiência de “The Good Wife” e “Damages”, Porém, é bacana quando surgem narrativas originais, que ousam ao investir em terrenos pouco explorados. Este é o caso de “O Poder e a Lei”, segundo longa-metragem dirigido por Brad Furman.

A novidade no roteiro de John Romano, que adapta o elogiado romance de Michael Connelly (“Advogado de Porta de Cadeia”), consiste no tipo interpretado por Matthew McConaughey, Mick Haller. Este advogado moralmente ambíguo é daqueles que só está a serviço de gente barra-pesada e que promove crimes nas ruas de Los Angeles. Esta escolha profissional acarretou o fim de seu casamento com a promotora de justiça Maggie (Marisa Tomei). Ao defender o playboy Louis Roulet (Ryan Phillippe) de um crime que ele aparentemente não cometeu, Mick se descobre demasiadamente envolvido neste caso que colocará sua vida em risco.

Recepcionado com boas críticas, o material de “O Poder e a Lei” deve ser adaptado em formato de seriado pela ABC. Cinematograficamente, “O Poder e a Lei” contém boa fluidez, com reviravoltas que surgem na medida certa. Por outro lado, o terceiro ato não fecha o todo de maneira brilhante, resumindo-se a um suspense convencional. Mesmo assim, “O Poder e a Lei” pende mais para o lado positivo numa balança de pós e contras, especialmente pela presença de Matthew McConaughey como protagonista, superando a fase de galã de comédias românticas com um desempenho de verdade.

Título Original: The Lincoln Lawyer
Ano de Produção: 2011
Direção: Brad Furman
Roteiro: John Romano, baseado no romance “Advogado de Porta de Cadeia”, de Michael Connelly
Elenco: Matthew McConaughey, Marisa Tomei, Ryan Phillippe, William H. Macy, Josh Lucas, John Leguizamo, Michael Peña, Bob Gunton, Frances Fisher, Bryan Cranston, Trace Adkins, Laurence Mason, Margarita Levieva, Pell James, Shea Whigham, Katherine Moennig, Michaela Conlin, Mackenzie Aladjem, Reggie Baker, Javier Grajeda, David Castro, Conor O’Farrell e Michael Paré
Cotação: 3 Stars

Os Cinco Filmes Prediletos de João Paulo Rodrigues

Um dos passatempos da minha adolescência era assistir filmes e compartilhar virtualmente as minhas opiniões sobre eles. Em um período da minha vida onde não havia grandes responsabilidades além dos estudos, adorava alugar dezenas de títulos nas vídeo locadoras próximas ao meu bairro e ir aos cinemas na primeira oportunidade. Em fóruns de redes sociais, criei amizades com pessoas que têm este vício por cinema. Fiquei feliz em testemunhar que essa conectividade permanece firme atualmente. João Paulo foi um dos primeiros cinéfilos que interagi e não podia deixar de escapar o entusiasmo que ele demonstrou ao participar desta seção do Cine Resenhas. Desde maio de 2006, João Paulo mantém o Cine JP. Recentemente, surgiu um espaço que adapta para outro idioma algumas de suas críticas, o Cine JP in Spanish.

Antes de eu oficializar o convite, refleti com carinho sobre a importância que ele exerceu para a criação deste espaço. Graças ao seu incentivo, reservei um território virtual com intenção de registrar as experiências cinematográficas que cada filme, bom ou ruim, me oferece. Tão importante quanto ler as reações de leitores que se aventuram por este espaço, escrever a opinião de um filme é apresentar registros das modificações que estamos sujeitos, proporcionados por uma arte rica em dissecar com detalhe e beleza sobre quem somos e sobre o espaço que habitamos. Deduzo que esta seja uma das formas como o João visualiza o cinema, especialmente após ler sobre os seus cinco filmes favoritos.

Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick (1964, Dr. Strangelove)

Ainda me lembro como se fosse ontem quando estava fazendo cursinho pré-vestibular em 2005 para estudar a temática da Guerra Fria e fiquei tão maravilhado com o filme que fui mostrar ao professor como se fosse um tesouro da humanidade. Se bem que ele não ligou muito, mas para mim ainda é uma sensação maravilhosa. Como se o filme tivesse aberto as portas da sensibilidade cinematográfica. Tudo nesse filme me encanta, desde sua ideia tensa até o tom de escracho com a ironia musical ao final com a perfeita “We’ll Meet Again”, da cantora Vera Lynn representando o final da humanidade. Por causa do filme, o meu nickname é em sua homenagem e poucos ligam a questão dele ao filme, sempre com uma canção ou algo parecida. Mas gosto quando algumas meninas perguntam o porquê do apelido. Rende um bom papo (risos).

Clube da Luta, de David Fincher (1998, Fight Club)

Ansioso ao extremo era eu na época que saiu o filme… Seria perfeito se pudesse ter conferido na data do meu aniversário, não fosse o massacre no cinema em 1999. Minha mãe reclamou para eu não poder ver o filme com medo de algo parecido ou por ser violento. Mas o filme na realidade foi uma pedra fundamental em minha vida e toda vez que vejo o filme sempre aparece algo novo, uma visão diferente. Muitos podem dizer que é um filme chocante. Prefiro dizer que é um projeto que curiosamente não sairá da minha vida tão fácil. Literalmente.

Up – Altas Aventuras, de Bob Peterson e Pete Docter (2009, Up)

O melhor filme da Pixar. Ri aos montes no cinema, porém foi o filme que sai com os olhos mais inchados em toda minha vida. Na época estava vivendo uma das piores fases na minha aventura na Argentina no qual pela primeira vez senti uma solidão plena. Não conseguia expelir essa dor no meu peito até ver essa fábula vivida por Carl em seu maior desafio: aprender a viver e continuar em frente. Percebi nesse momento minha jornada para lutar por que eu acredito e os meus princípios foram renovados. Ao término de Carl olhar o álbum de fotografia, aos meus olhos cheios de lagrimas, vi uma mensagem importante, é hora de seguir em frente e vivenciar a maior aventura de minha vida.

O Show de Truman – O Show da Vida, de Peter Weir (1998, The Truman Show)

Há muito tempo atrás, quase 13 anos, existia um projeto no estado de Pernambuco chamado Cine Escola. Esse projeto consistia em passar determinados filmes no cinema para alguns colégios. Vi “O Céu de Outubro”, de Joe Johnston, e “O Show de Truman”, de Peter Weir. A jornada de Truman Burbank vivida por perfeição por Jim Carrey, no papel definitivo de sua carreira, sobre o controle da vida e dos caminhos que acreditamos seguir me fez na época no auge da inocência cinematográfica sentir mexido por dentro e levantei sozinho, bati palmas como um louco desvairado e muitos ao meu lado olharam surpresos. A seguir, todos levantaram e bateram palmas também. Disse algumas coisas estúpidas, levadas a emoção, mas sem dúvida o filme vive dentro do meu peito e seu final treme na minha mente.

Dublê de Anjo, de Tarsem Singh (2006, The Fall)

Eu não sei se já passou isso com sua pessoa, mas em 2008 cheguei a um ponto de entrar em crise de escrita. Já esperava esse filme alguns meses atrás inteiramente por causa do seu cartaz surrealista, lembrando aquelas pinturas de Dalí em seu auge. Desde o primeiro acorde de Bethoveen até as palavras finais da personagem Alexandria (Cantinca Untaru), o filme entrou de uma maneira fugaz e impertinente a minha mente e por ai ficou. Talvez seja uma dos melhores filmes que já vi que nos lembra o nosso amor ao cinema. A recriação da imaginação, da inocência, do poder que nos faz ficar com olhos brilhando durante todo o filme, sentir um misto de surpresa e beleza inigualáveis. Muitos podem não ser fãs do diretor, mas serei eternamente grato me lembrar novamente por que eu amo cinema.

A Morte e a Vida de Charlie

O espiritismo está em voga no cinema e não apenas no nacional, como demonstra o recente lançamento da produção americana “A Morte e a Vida de Charlie”. Os direitos do romance de Ben Sherwood foram adquiridos em 2004, ganhando forma apenas agora. Os investidores provavelmente apostaram que a adaptação cinematográfica faria grande sucesso entre o público jovem, porém a fraca bilheteria apenas condena “A Morte e a Vida de Charlie” pelo que é: uma péssima produção que está mais preocupada em promover Zac Efron como ator dramático, descartando qualquer possibilidade inédita de dar luz ao seu tema espiritual.

Assim que encerrou definitivamente sua participação na franquia “High School Musical”, Zac Efron trabalhou com Burr Steers em “17 Outra Vez“, descompromissada comédia onde o astro juvenil segurou muito bem a onda como protagonista. Em “A Morte e a Vida de Charlie”, Zac Efron retoma a parceria com o cineasta e sai de sua zona de conforto ao viver o personagem título, arrasado pela morte do irmão mais novo, Sam (Charlie Tahan). Talentoso e com um futuro promissor pela frente, Charlie não apenas abandona tudo e a todos, como se torna o zelador do cemitério onde Sam está enterrado. O roteiro até então trivial ganha contornos diferentes ao mostrar Charlie se comunicando com o espírito de Sam.

“A Morte e a Vida de Charlie” daria certo se não tivesse dois elementos que quando problemáticos detonam uma produção como um todo: elenco e narrativa. Zac Efron não consegue transformar Charlie em um figura minimamente real e é triste assistir veteranos como Ray Liotta e Kim Basinger fazendo participações que, cronometradas, não duram cinco minutos. Já a narrativa não rende qualquer relevância sobre as dificuldades que temos em seguir em frente quando uma tragédia abate uma pessoa querida e a possibilidade de uma alma não descansar em paz com o fim de sua existência no mundo material. E tem gente que ainda reclama de “Além da Vida“.

Título Original: Charlie St. Cloud
Ano de Produção: 2010
Direção: Burr Steers
Roteiro: Craig Pearce e Lewis Colick, baseado no romance “Morte e Vida de Charlie St. Cloud”, de Ben Sherwood
Elenco: Zac Efron, Charlie Tahan, Amanda Crew, Augustus Prew, Donal Logue, Dave Franco, Matt Ward, Miles Chalmers, Jesse Wheeler, Desiree Zurowski, Adrian Hough, Jill Teed, Tegan Moss, Julia Maxwell, Ray Liotta e Kim Basinger
Cotação:

Rio

É ótimo testemunhar um amplo país como o Brasil servir de cenário para a realização de filmes estrangeiros. Não apenas amplia a oportunidade de trabalho para profissionais brasileiros como divulga uma região geográfica dona de uma cultura rica e muito além dos estigmas de violência constantemente exportados. Uma pena que “Rio”, justamente o projeto da vez responsável em agregar toda essa importância, não atinja as expectativas que muitos geraram.

O carioca Carlos Saldanha fez “A Era do Gelo 2” e “A Era do Gelo 3” e em “Rio” pouco colabora para que a Blue Sky Studios atinja o mesmo patamar de concorrentes como a Pixar e a Dreamworks. Animal de estimação de Linda (voz de Leslie Mann), Blu (Jesse Eisenberg) é uma arara azul raríssima. Tulio (Rodrigo Santoro), sujeito com jeitão nerd e de bom coração, surge com a intenção de levar Blu ao Rio de Janeiro para que ele possa acasalar com a única fêmea de sua espécie, Jewel (Anne Hathaway).

Blu passou tantos anos se comportando como Linda que mal sabe voar e Jewel (ou Jade, na versão brasileira) é relutante em formar par com macho tão desajeitado. As confusões entre a dupla acontecem sob uma Cidade Maravilhosa como todo bom brasileiro conhece: há as maravilhosas panorâmicas de cartão postal, calor, clima de carnaval e a criminalidade das favelas representadas por contrabandistas de animais em extinção. Apesar da fidelidade com o cenário, “Rio” tem um roteiro que para de engrenar assim que Linda e Tulio têm suas aves sequestradas, rendendo risos esporádicos e soluções manjadas.

Título Original: Rio
Ano de Produção: 2011
Direção: Carlos Saldanha
Roteiro: Don Rhymer, Jeffrey Ventimilia, Joshua Sternin e Sam Harper
Vozes de: Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Wanda Sykes, Jane Lynch, Jamie Foxx, Will i Am, Jemaine Clement, Jake T. Austin, George Lopez, Tracy Morgan, Bernardo de Paula, Gracinha Leporace e Carlos Saldanha
Cotação: 2 Stars

Resenha Crítica | Não Me Abandone Jamais (2010)

Baseada no romance de Kazuo Ishiguro, a história de “Não Me Abandone Jamais” revela uma importante informação ainda em seu primeiro ato. Infelizmente, grande parte da crítica especializada, ignorando o impacto que ela oferece, tem se encarregado de antecipar o delicado momento protagonizado por Sally Hawkins onde isto acontece, o que será crucial para os personagens centrais, Kathy (Carey Mulligan, de “Educação“), Ruth (Keira Knightley) e Tommy (Andrew Garfield, de “A Rede Social“).

Ainda na infância, estes três órfãos que habitam uma instituição inglesa criam uma forte amizade que se converterá anos depois em triângulo amoroso. Dirigida com mão de ferro por Miss Emily (Charlotte Rampling), nenhuma criança tem autorização para ultrapassar os limites do local. Atingindo a maioridade, Kathy, Ruth e Tommy passam a ganhar maior liberdade. O que intriga é eles parecem presos a um destino já traçado por terceiros, encarando-o com passividade.

Em seu terceiro filme, o americano Mark Romanek é afeito ao universo dos clipes musicais e demonstra grande domínio na condução de longas independentes. Em “Não Me Abandone Jamais”, aproveita-se da contribuição da linda música da compositora Rachel Portman (vencedora do Oscar por “Emma”) e da fotografia de Adam Kimmel para criar um drama que pincela as maravilhas da existência do ser humano. Para isto, jamais recorre à artimanhas baratas que buscam maravilhar o espectador. Confere à “Não Me Abandone Jamais” uma atmosfera opressiva, sem espaço para a harmonia. Uma escolha de tom para se seguir até o final que resulta num dos filmes mais excepcionais do ano.

Título Original: Never Let Me Go
Ano de Produção: 2010
Direção: Mark Romanek
Roteiro: Alex Garland, baseado no romance de Kazuo Ishiguro
Elenco: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Izzy Meikle-Small, Charlie Rowe, Ella Purnell, Charlotte Rampling, Kate Bowes Renna, Hannah Sharp, Christina Carrafiell, Oliver Parsons, Luke Bryant, Fidelis Morgan, David Sterne, Andrea Riseborough, Domhnall Gleeson, Lydia Wilson, Chidi Chickwe, Monica Dolan e Sally Hawkins

Ricky

O lamentável fracasso financeiro de “Angel” parece ter marcado a carreira do francês François Ozon. Após sua primeira experiência com um projeto em língua inglesa, o realizador passou um ano sem comandar um filme, algo inédito em sua carreira até então. O acontecimento permitiu a François rodar uma história original de sua própria autoria de forma mais modesta, resgatando um pouco das características vistas nos primeiros títulos de sua filmografia. Em tom fantástico similar ao bizarro “Sitcom – Nossa Linda Família”, “Ricky” chegou com dois anos de atraso ao Brasil, mas ainda assim é uma realização imperdível.

A história registra o cotidiano de Katie (Alexandra Lamy), operária e mãe solteira da astuta Lisa (Mélusine Mayance). É clara a solidão desta personagem, inquilina de um apartamento quase decadente. Os flertes com Paco (Sergi López), um colega de trabalho, resultam em gravidez. O nascimento do gracioso Ricky (Arthur Peyret) parece dar início a união de uma família feliz se não fossem os atritos que levam a uma separação. Deste ponto em diante, algo inesperado acontece a Ricky e revelar o mistério seria estragar totalmente a brincadeira proposta por esta fantasiosa “dramédia”.

Com quarenta e três anos de idade e nada menos que vinte e três de carreira, François Ozon pode entregar filmes convencionais como os recentes “O Refúgio” e “Potiche – Esposa Troféu”. Em outras ocasiões, assina produções que instigam com histórias cheias de enigmas que permitem ao espectador desenhar resoluções por conta própria. “Ricky” se enquadra neste segundo grupo, destacando-se ainda pelo comovente tributo que faz à maternidade em seu último ato.

Título Original: Ricky
Ano de Produção: 2009
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon
Elenco: Alexandra Lamy, Sergi López, Mélusine Mayance, Arthur Peyret, André Wilms, Jean-Claude Bolle-Reddat e Maryline Even
Cotação: 4 Stars

Resenha Crítica | Professora Sem Classe (2011)

Desde o sucesso do clássico “Ao Mestre, Com Carinho”, não faltam produções americanas que surgem para destacar a grande influência que os professores exercem sobre os seus alunos, especialmente quando estes nunca tiveram sonhos de um futuro melhor ao estarem encurralados numa realidade de criminalidade. Histórias edificantes à parte, passou da hora de alguém homenagear esses profissionais sob um viés politicamente incorreto. “Professora Sem Classe” seria uma aposta segura para este feito caso seus momentos engraçados não estivessem concentrados apenas no trailer.

Oportunista e sem papas na língua. Estas são as principais características da professora Elizabeth Halsey, feita por uma Cameron Diaz sempre perfeita neste tipo de papel. Elizabeth sonha em encontrar um homem rico o suficiente para afastá-la definitivamente do quadro negro, mas o bom partido da vez a desmascara antes de subir ao altar. Com uma didática da qual julga poderosa (ela exibe filmes como “O Preço do Desafio”, “Mentes Perigosas” e “Pânico” para os seus alunos enquanto cochila em sala de aula), Elizabeth vê no novo professor interpretado por Justin Timberlake o pretendente perfeito para retomar o seu plano, pois o sujeito é membro de uma família com um empreendimento bem-sucedido e com condições suficientes para lhe garantir uma vida de princesa. Daria tudo certo se ele não estivesse interessado em outra professora, a careta Amy (Lucy Punch, exagerada).

Filho do renomado diretor americano Lawrence Kasdan (“Corpos Ardentes” e “O Turista Acidental”), Jake Kasdan obtêm em “Professora Sem Classe” o seu primeiro sucesso estrondoso de bilheteria, justificado apenas com o apelo do elenco central. A dupla de roteiristas Gene Stupnitsky e Lee Eisenberg tem como experiência principal na função alguns episódios escritos para a versão americana do seriado “The Office” e claramente não compreendem bem a linguagem cinematográfica, criando o que mais parecem esquetes televisivos do que uma narrativa coesa. A relação entre mestres e alunos sempre é digna de uma boa história independentemente do cenário onde elas estão situadas. Faltou em “Professora Sem Classe” maior fluência para que ela desse certo.

Título Original: Bad Teacher
Ano de Produção: 2011
Direção: Jake Kasdan
Roteiro: Gene Stupnitsky e Lee Eisenberg
Elenco: Cameron Diaz, Lucy Punch, Jason Segel, Justin Timberlake, Phyllis Smith, John Michael Higgins, Dave Allen, Kaitlyn Dever, Kathryn Newton, Igal Ben Yair, Aja Bair, Andra Nechita, Noah Munck, David Paymer, Paul Feig, Rick Overton, Alanna Ubach e Molly Shannon
Cotação: 2 Stars