Gosto de Sangue Vs. Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão

Com exceção de serem diretores de grande prestígio, os americanos Joel e Ethan Coel e o chinês Zhang Yimou não têm absolutamente nada em comum. Afinal, os interesses em foco nas realizações desses cineastas pertencem a universos distintos. Talvez por isso a comparação entre duas obras que apresentam o único elo entre eles seja o que há de mais divertido. Pois os títulos são “Gosto de Sangue” e “Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão”. E não é que mesmo tudo sendo diferente o resultado ainda assim é muito parecido? Vamos conhecer as razões agora.

GOSTO DE SANGUE – 1984

Primeiro filme dirigido por Joel Coen (Ethan Coen não é creditado na direção), “Gosto de Sangue” é uma obra de importância histórica no cinema americano, pois trata-se de um dos principais títulos independentes da década de 1980 do subgênero neo noir. Ganhando circuito limitado no início de 1985, “Gosto de Sangue” teve uma versão do diretor lançada em 2000 contando com aproximadamente três minutos a menos. Segundo os próprios irmãos, nela há uma edição mais precisa, combinando cenas com registros mais detalhados com outras onde há maior ação com muito mais equilíbrio. A trama se passa no Texas e acompanha um triângulo amoroso. Marty (Dan Hedaya) é dono de um bar e desconfia que seu funcionário, Ray (John Getz), esteja tendo um caso com sua esposa Abby (Frances McDormand). Após o flagra, Marty paga o detetive particular Loren (M. Emmet Walsh, perfeito) para matá-los. As reviravoltas aparecem assim que Loren cria falsas evidências que comprovam que o seu serviço sujo foi realizado. A meia hora final é preenchida com muito sangue (o título original, “Blood Simple.”, é um termo que caracteriza pessoas psicologicamente afetadas após o envolvimento com situações violentas) e um humor negro que infelizmente os Coen não conseguem reproduzir com a mesma perfeição em seus títulos mais recentes.

Título Original: Blood Simple.
Ano de Produção: 1984
Direção: Joel Coen e Ethan Coen
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen
Elenco: Frances McDormand, John Getz, Dan Hedaya, M. Emmet Walsh, Samm-Art Williams, Deborah Neumann e Holly Hunter
Cotação: 4 Stars

UMA MULHER, UMA ARMA E UMA LOJA DE MACARRÃO – 2009

O chinês Zhang Yimou tem em sua filmografia recente dois dos títulos mais caros já produzidos em sua terra natal, “A Maldição da Flor Dourada” e o ainda inédito “The Flowers of War”. Entre eles, fez “Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão”, cujo baixo investimento é perceptível na economia de cenários, uso de efeitos visuais e um elenco praticamente desconhecido. Exibido no Festival de Berlim, na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e no Festival do Rio, esta refilmagem de “Gosto de Sangue” deixou grande parte do público com alguns pontos de interrogação na cabeça. A história é ambientada numa época não determinada, onde Wang (Ni Dahong) é dono de uma famosa loja de macarrão. Aqui há também um adultério que desencadeia consequências graves, pois Wang desconfia que a própria esposa (Yan Ni) mantém um relacionamento com Li (Shen-Yang Xiao), o seu empregado banana. O estranhamento que muitos tiveram com esta realização de Zhang Yimou foi em substituir o clima noir de “Gosto de Sangue” por um humor quase pastelão, havendo personagens estereotipados e gags visuais, a exemplo da cena de abertura. O único senão é a ausência quase total da habilidade do cineasta em criar sequências com apuro técnico arrebatador. Com exceção do antológico momento onde vemos parte dos personagens centrais preparando uma massa de macarrão, não há muito que fique na memória. Com isto, mesmo que “Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão” seja fiel, “Gosto de Sangue” segue como a melhor versão do argumento.

Título Original: San qiang pai an jing qi
Ano de Produção: 2009
Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Shi Jianquan e Shang Jing
Elenco: Sun Honglei, Shen-Yang Xiao, Yan Ni, Ni Dahong, Cheng Ye, Mao Mao e Zhao Benshan
Cotação: 3 Stars

Cartazes americanos de "Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão" e "Gosto de Sangue": similaridades até no design.

Os Três Mosqueteiros

Inúmeras vezes levado aos cinemas, o romance de Alexandre Dumas tem a versão conduzida por Peter Hyams, “A Vingança do Mosqueteiro”, como uma das últimas já produzidas. Responsável por adaptações de games como “Mortal Kombat” e “Resident Evil” (cujo quinto episódio está sendo filmado), o britânico Paul W.S. Anderson tenta espanar o pó oferecendo uma roupagem moderna para uma história situada em uma época já distante, o que incluí lançá-la em um 3D.

Athos (Matthew Macfadyen, o Darcy da versão de “Orgulho & Preconceito” dirigida por Joe Wright), Aramis (Luke Evans, de “Fúria de Titãs”) e Porthos (Ray Stevenson, do seriado “Roma”) são os mosqueteiros a serviço do rei da França Luís XIII (Freddie Fox). Um plano frustrado pela ardilosa Milady de Winter (Milla Jovovich, esposa de Paul W.S. Anderson) e o Duque de Buckingham (Orlando Bloom) faz os heróis caírem em descrença. Somente a chegada do jovem e destemido D’Artagnan (Logan Lerman), que sempre sonhou em se tornar um mosqueteiro como seu pai (Dexter Fletcher), fará o trio usar novamente suas espadas, pois um complô contra a rainha (Juno Temple), que teve um passado com Duque de Buckingham, está sendo arquitetado.

É difícil associar o nome de Paul W.S. Anderson numa aventura épica como “Os Três Mosqueteiros”. Apesar das suspeitas, o cineasta faz bom uso dos cenários onde sua história é situada e conduz com habilidade algumas cenas de ação. Por outro lado, esta nova versão para o romance de Alexandre Dumas comete um erro gravíssimo ao destacar demais alguns personagens desinteressantes que praticamente tornam Athos, Aramis e Porthos meros coadjuvantes. Isto se aplica na figura de D’Artagnan, defendido por um Logan Lerman sem qualquer carisma. Há também uma enorme vontade dos produtores em fazer de “Os Três Mosqueteiros” o início para uma nova franquia aos moldes de “Piratas do Caribe”. Entretanto, ao julgar pelo baixo apelo da produção em alguns países no qual foi exibido, teremos que aguardar ao menos uma década para uma nova adaptação seja filmada.

Título Original: The Three Musketeers
Ano de Produção: 2011
Direção: Paul W.S. Anderson
Roteiro: Alex Litvak e Andrew Davies, baseado no romance “Les Trois Mousquetaires”, de Alexandre Dumas
Elenco: Matthew Macfadyen, Luke Evans, Ray Stevenson, Logan Lerman, Milla Jovovich, Orlando Bloom, Christoph Waltz, Mads Mikkelsen, Freddie Fox, Juno Temple, Gabriella Wilde, Til Schweiger, Dexter Fletcher, Jane Perry, Carsten Norgaard, James Corden, Ben Moor e Iain McKee
Cotação: 2 Stars

Resenha Crítica | Esquizofrenia – Entre o Real e o Imaginário (2004)

Personagens esquizofrênicos geralmente servem de meros objetos para roteiristas ansiosos em pregarem peças no espectador. Os desastrosos “Ilha do Medo” e “Número 23” são apenas dois dos vários exemplos recentes. Infelizmente, o número de contadores de histórias que fazem um retrato autêntico de um esquizofrênico é muito pequeno. O americano Lodge Kerrigan arrisca-se e se sai muito bem no independente “Esquizofrenia – Entre o Real e o Imaginário” no registro que faz de seu protagonista.

Interpretado por Damian Lewis (do seriado “Homeland”), William Keane parece refazer detalhadamente o episódio numa estação rodoviária no qual sua filha desapareceu. Muito mais interessante que desvendar o que aconteceu à pequena é compreender o que se passa na cabeça de Keane, um homem visivelmente abatido, com ações contraditórias e transtornos graves de humor. Hospedando-se temporariamente em um hotel barato, Keane cria laços afetivos muito fortes ao conhecer a sua vizinha Lynn (Amy Ryan) e especialmente sua filha Kira (Abigail Breslin).

Lodge Kerrigan pôde criar ambientes quase claustrofóbicos com a forma que filma o elenco central, defendido por performances excelentes de Damian Lewis, Abigail Breslin e Amy Ryan. Foi o melhor meio encontrado para o realizador dar ênfase nas emoções tumultuadas de Keane. É um ousado estudo de personagem que definitivamente não agradará um público muito vasto, como demonstra o atraso de seis anos para a chegada de “Esquizofrenia – Entre o Real e o Imaginário” em DVD em nosso país. Por outro lado, quem se arriscar será recompensado por uma experiência válida.

Título Original: Keane
Ano de Produção: 2004
Direção: Lodge Kerrigan
Roteiro: Lodge Kerrigan
Elenco: Damian Lewis, Abigail Breslin, Amy Ryan, Liza Colón-Zayas, John Tormey, Brenda Denmark, Ed Wheeler, Christopher Evan Welch, Yvette Mercedes, Chris Bauer, Lev Gorn, Frank Wood e Tina Holmes
Cotação: 3 Stars

Resenha Crítica | VIPs – Histórias Reais de Um Mentiroso (2010)

VIPs - Histórias Reais de um MentirosoO lançamento de “VIPs” no início deste ano atraiu a atenção de um número ainda maior de pessoas diante da figura de Marcelo Nascimento da Rocha, personagem verídico interpretado por Wagner Moura. Pois se na ficção os golpes deste estelionatário impressionavam, a realização de Mariana Caltabiano se esforça em apresentar vários outros não vistos no filme de Toniko Melo.

O documentário “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso” surgiu enquanto Mariana Caltabiano se concentrava em uma série de entrevistas com Marcelo Nascimento da Rocha quando este já cumpria sua pena no presídio. Destinados para a publicação do livro homônimo, Mariana também filmou as conversas que teve com algumas pessoas fundamentais na vida de Marcelo. Com a família, há relatos do temor existente quanto ao destino de Marcelo, que quase foi morto ao se passar por piloto de traficantes que faziam a rota Brasil-Paraguai. Já com algumas celebridades como o ator Ricardo Macchi e o jornalista Amaury Jr. há os depoimentos mais engraçados, todos envolvidos no célebre episódio onde Marcelo se passou por Henrique Constantino, filho do dono da companhia aérea Gol.

Em “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso” também há foco em outras fases da vida de Marcelo, que admite diante das câmeras ter se passado por policial, integrante do grupo “Engenheiros do Havaí”, repórter da MTV e até líder do PCC. Apesar de todos esses feitos, é difícil encarar Marcelo como um criminoso. Mesmo trilhando um caminho errante durante a maior parte de sua vida, trata-se de um sujeito carismático e que, segundo o próprio Ricardo Macchi admite em um trecho do documentário, alguém que parece ter compaixão pelo próximo. Exemplo disto se vê na disposição de Marcelo ao ajudar a própria Mariana em desvendar o acidente com o Airbus A-320 da TAM, que tinha entre os passageiros seus dois irmãos. Há deficiência técnica, mas só pela oportunidade de conhecermos a fundo um sujeito tão curioso o documentário merece uma espiada.

Título Original: Vips – Histórias Reais de um Mentiroso
Ano de Produção: 2010
Direção: Mariana Caltabiano
Roteiro: Mariana Caltabiano
Elenco: Marcelo Nascimento da Rocha, Mariana Caltabiano, Amaury Jr., Ricardo Macchi, Ed Sá e Maria Paula
Cotação: 3 Stars

Cilada.com

Filho de Chico Anysio, o jovem carioca Bruno Mazzeo desenvolveu uma sólida carreira como humorista em programas televisivos. Afinal, foi um dos nomes envolvidos nos roteiros de “Sai de Baixo” e “A Diarista”, dois ótimos programas que tiveram suas temporadas exibidas na emissora Globo. Sua criação mais famosa foi “Cilada”, outro programa cômico com suas seis temporadas produzidas para o canal Multishow e também adaptada como quadro do “Fantástico”. Apesar do bom histórico, Bruno Mazzeo parece avesso dentro do cenário cinematográfico.

Com roteiro de Bruno Mazzeo escrito em parceria com Rosana Ferrão, “Cilada.com” tem como personagem central o publicitário Bruno (papel de Mazzeo), sujeito para lá de desinteressante que é flagrado traindo sua namorada Fernanda (Fernanda Paes Leme) numa festa de casamento. Uma vez chifrada em público, Fernanda não demora para se vingar: publica imediatamente no YouTube (ops, InTube) a gravação que não deletou de uma noite de sexo onde Bruno teve ejaculação precoce. Constrangido diante de amigos e desconhecidos, Bruno tenta provar que é bom de cama iniciando uma busca por garotas que se relacionou no passado para que elas testemunhem suas experiências íntimas com ele.

Trama bem cafajeste, não? Pois “Cilada.com” é mais uma produção do gênero que fez sucesso nos cinemas, repetindo o êxito recente de “De Pernas Pro Ar“. Uma pena, pois o diretor José Alvarenga Jr. já havia provado que é possível alcançar popularidade trabalhando com materiais muito melhores (a exemplo da adaptação de “Divã“) e o conjunto de piadas que compõem “Cilada.com” deveriam ser solenemente ignorados. Sim, pois Bruno Mazzeo não compreende que o seu repertório de palhaçadas não têm vez em formato de longa-metragem, com falta de timing cômico e chavões típicos de comédias românticos onde o personagem central é incapaz de dizer “eu te amo” para a sua companheira. Que sejamos poupados de uma sequência.

Título Original: Cilada.com
Ano de Produção: 2011
Direção: José Alvarenga Jr.
Roteiro: Bruno Mazzeo e Rosana Ferrão
Elenco: Bruno Mazzeo, Fernanda Paes Leme, Augusto Madeira, Carol Castro, Fabiula Nascimento, Fúlvio Stefanini, Sérgio Loroza, Thelmo Fernandes, Marcos Caruso, Luis Miranda, Alexandre Nero, Karla Karenina, Dani Calabresa, Ana Paula Bouzas, Rita Elmor, Milhem Cortaz e Débora Lamm
Cotação:

Resenha Crítica | VIPs (2010)

Marcelo Nascimento da Rocha é um nome comum e muitos dificilmente o associariam como sendo de alguém popular. Pois trata-se do nome real do paranaense que deu o que falar ao assumiu a identidade de Henrique Constantino, então filho do dono na companhia aérea Gol. Porém, essa não foi a única farsa do estelionatário atualmente preso em Cuiabá. Todos os seus golpes são descritos no documentário “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso” e também no livro homônimo, ambos assinados por Mariana Caltabiano. Já o longa-metragem de estreia de Toniko Melo, “VIPs”, faz um retrato ficcional do personagem real.

Wagner Moura é quem incorpora Marcelo em algumas fases de sua vida. Prestes a atingir a maioridade, é possível notar duas particularidades neste personagem. A primeira corresponde ao seu fascínio por aviões, algo herdado de seu pai piloto (Norival Rizzo). A segunda, a habilidade em imitar qualquer outra pessoa, como testemunhamos num acontecimento em sala de aula. A história passa a engrenar quando Marcelo abandona sua mãe (Gisele Froes), indo para Mato Grosso do Sul. Como piloto sem experiência prévia, passa a trabalhar para traficantes. Mais velho, dá o golpe que lhe rendeu maior notoriedade, passando-se por Henrique Constantino.

Para encarar o papel, Wagner Moura dispensou a possibilidade de desenvolvê-lo conhecendo na prisão o verdadeiro Marcelo Nascimento da Rocha. A decisão reforça a intenção dos envolvidos, fazendo de “VIPs” uma experiência que se distancia ligeiramente das pesquisas de Mariana Caltabiano. Com isto, “VIPs” ganhou um contorno pesado de drama psicológico. As motivações expostas poderiam soar inconvincentes, mas há aqui um intérprete defendendo a difícil missão de dar várias faces para um personagem tão difícil.

Título Original: VIPs
Ano de Produção: 2010
Direção: Toniko Melo
Roteiro: Bráulio Mantovani e Thiago Dottori, baseado no livro “VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso”, de Mariana Caltabiano
Elenco: Wagner Moura, Juliano Cazarré, Emiliano Ruschel, Gisele Fróes, Arieta Correia, Jorge D’Elía, Roger Gobeth, Amaury Jr., João Francisco Tottene e Norival Rizzo
Cotação: 3 Stars