O Espião Que Sabia Demais

Quando o escritor britânico Ian Fleming criou James Bond, provavelmente não imaginava o quão popular seria o modelo de espião que o personagem representa. James Bond é um personagem rodeado tanto de mulheres estonteantes quanto vilões com planos mirabolantes. Sem dizer que suas missões parecem mais divertidas do que ameaçadoras, pois ele sempre tem a disposição poderosas ferramentas de trabalho, como carros luxuosos e armas modernas.

Em “O Espião Que Sabia Demais”, o cineasta sueco Tomas Alfredson (de “Deixe Ela Entrar” e em seu primeiro trabalho falado em inglês) adapta um famoso romance de John le Carré que vai de encontro com todos os artifícios defendidos na obra de Ian Fleming. Não há em “O Espião Que Sabia Demais” um personagem como James Bond ou uma grande aventura. Aqui, o universo dos espiões se mostra burocrático e sem qualquer glamour.

Ambientado em 1973, palco da Guerra Fria, o filme inicia com a suspeita de que há no Serviço Secreto Inglês um agente duplo. As pistas são de que tal espião trabalha para o Centro de Moscou e, o mais importante, pode ser um dos agentes mais influentes da organização. Com a saúde debilitada, o chefe do Serviço Secreto Inglês (John Hurt) escala George Smiley (Gary Oldman, em interpretação indicada ao Oscar) para desmascarar e eliminar o agente duplo. Os suspeitos: Percy Alleline, o Funileiro (Toby Jones); Bill Haydon, o Alfaiate (Colin Firth); Roy Bland, o Soldado (Ciarán Hinds); Toby Esterhase, o Homem Pobre (David Dencik) e o próprio George, o Mendingo.

Mais do que desvendar a identidade do agente duplo no Serviço Secreto Inglês, “O Espião Que Sabia Demais” cria uma verdadeira teia de segredos e mentiras que levará George para caminhos desconhecidos. Uma teia também moldada por informações preenchidas por detalhes que podem fazer o espectador se desorientar facilmente. Atenção não é o único requisito básico para se ver “O Espião Que Sabia Demais”. Também é preciso uma firmeza que rapidamente se converte em exaustão, uma vez que a condução de Tomas Alfredson se mostra excessivamente fria. Um reflexo das ambições da história quanto ao moldar o retrato de um espião, sim, mas pouco adequada para uma trama de mistério.

Título Original: Tinker Tailor Soldier Spy
Ano de Produção: 2011
Direção: Tomas Alfredson
Roteiro: Bridget O’Connor e Peter Straughan, baseado no romance “O Espião Que Sabia Demais”, de John le Carré
Elenco: Gary Oldman, John Hurt, Mark Strong, Colin Firth, Ciarán Hinds, Toby Jones, Benedict Cumberbatch, Tom Hardy, Christian McKay, David Dencik, Kathy Burke, Stephen Graham, Arthur Nightingale, Simon McBurney e Amanda Fairbank-Hynes
Cotação: 2 Stars

Resenha Crítica | W.E. – O Romance do Século (2011)

No cinema, a decisão de uma cantora se tornar atriz é encarada com muito preconceito. O processo de interpretar diante das câmeras é muito distinto daquele de oferecer uma grande performance nos palcos. Poucas são as “cantrizes” que notam a distancia que há entre a arte do cinema com a arte da música e por isso pagam um mico que repercute mundialmente. Respectivamente vencedoras do Oscar por “Funny Girl – A Garota Genial” e “Feitiço da Lua”, Barbra Streisand e Cher são os únicos exemplos notáveis de cantoras que fizeram uma carreira cinematográfica de respeito.

A rainha do Pop Madonna tentou e fracassou inúmeras vezes ao investir no cinema. De nada adiantou protagonizar o ambicioso musical “Evita” e trabalhar com cineastas como Woody Allen, Spike Lee e Abel Ferrara se ao mesmo tempo estampava seu nome nos cartazes de produções risíveis como “Quem É Essa Garota?” e “Corpo em Evidência”. Porém, se há algo que podemos admirar em Madonna é sua persistência. Tão inabalável que a levou a investir na carreira de diretora e roteirista. Mesmo não sendo mais do que regular, há inegáveis qualidades em “Filth and Wisdom” (conhecido como “Sujos e Sábios” no Brasil), seu primeiro filme por trás das câmeras. Agora, Madonna retorna mais ambiciosa em “W.E. – O Romance do Século”.

Com o auxílio de Alek Keshishian (que a dirigiu no documentário “Na Cama com Madonna”), Madonna cria duas histórias românticas em “W.E. – O Romance do Século”. A primeira – verídica – mostra Edward VIII (James D’Arcy), então príncipe de Gales, abdicar a coroa em troca de Wallis Simpson (Andrea Riseborough), sua amante americana. A segunda – tão fictícia que parece um conto de fadas – tem Wally Winthrop (Abbie Cornish, de “O Brilho de Uma Paixão”) como a protagonista fascinada pela vida de Wallis Simpson e infeliz com os rumos que o seu casamento com o cafajeste William (Richard Coyle) levou.

Com “O Discurso do Rei” ainda fresco em nossa memória, “W.E. – O Romance do Século” serviria como um bom complemento ao filme de Tom Hopper, uma vez que a renúncia de Edward VIII não era o acontecimento principal do filme, mas sim o empenho de George em assumir o trono. Porém, Madonna não está minimamente interessada nisto. O foco de “W.E. – O Romance do Século” é Wallis e o que ela teve que abdicar para assumir sua paixão por Edward VIII: a liberdade e controle da própria existência. Compreender a dimensão dessa decisão é o que motivará Wally a enfim recomeçar sua vida.

Se há algo em “W.E. – O Romance do Século” que não dá para negar é o apuro de Madonna para formar uma equipe de respeito. Além das protagonistas (ambas em boas interpretações), Madonna selecionou o diretor de fotografia alemão Hagen Bogdanski (“A Vida dos Outros”), o compositor polonês Abel Korzeniowski (“Direito de Amar”), o designer inglês Martin Childs (“Shakespeare Apaixonado”) e a figurinista americana Arianne Phillips (em trabalho merecidamente indicado ao Oscar). Ainda assim, não é o suficiente. Madonna simplesmente anula a força de suas duas histórias ao interagi-las durante duas horas exaustivas. Sem dizer a redundância de sua direção, com planos que se repetem inúmeras vezes (as portas que se abrem para a câmera adentrar um cômodo privado, corredores escuros que representam a jornada amorosamente sofrida de suas protagonistas et cetera). Se Madonna sonha em ter uma carreira de prestígio como cineasta, precisará amadurecer muito.

Título Original: W.E.
Ano de Produção: 2011
Direção: Madonna
Roteiro: Alek Keshishian e Madonna
Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D’Arcy, Oscar Isaac, Richard Coyle, David Harbour, James Fox, Judy Parfitt, Haluk Bilginer, Geoffrey Palmer, Natalie Dormer, Laurence Fox, Douglas Reith, Katie McGrath e Christina Chong

Resenha Crítica | Millennium: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres

Ao morrer em novembro de 2004 devido a um ataque cardíaco, o jornalista Stieg Larsson deixou um testamento para milhares de fãs da literatura policial: a trilogia “Millenium”, sujo sucesso não pôde desfrutar. Composta pelos capítulos “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”, “A Menina Que Brincava Com Fogo” e “A Rainha Do Castelo De Ar”, a trilogia “Millenium” é uma febre e a adaptação cinematográfica era apenas uma questão de tempo para acontecer. O problema é que inventaram de fazer não uma, mas duas versões para “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”. Pior: num curto intervalo de tempo e, no fim das contas, quase idênticas.

A primeira versão foi produzida em 2009 na Suécia. Conduzido por Niels Arden Oplev, “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” é só elogios. Retratou uma Suécia sórdida com brilhantismo, usou o que havia de melhor no romance de Stieg Larsson e eliminou toda a sobra presente em algumas passagens, tornou-se a produção Suécia mais bem-sucedida da história e ainda revelou Noomi Rapace para o mundo. Já a versão americana conduzida por David Fincher, “Millennium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”, não passa de um genérico.

Oscar por “A Lista de Schindler”, Steven Zaillian parece apenas adaptar o texto da dupla de roteiristas da versão anterior, não o romance de Stieg. O maior diferencial, óbvio, é fazer personagens suecos falar inglês e comer junk food do McDonald`s. Lisbeth Salander (Rooney Mara) e Mikael Blomkvist (Daniel Craig) são os protagonistas. Lisbeth é uma hacker com passado obscuro que nas mãos de seu novo tutor (Yorick van Wageningen) se transforma em vítima de abuso sexual. Mikael é o polêmico jornalista responsável pela revista Millenium acusado por difamação.

Enquanto aguarda sua sentença, Mikael é contratado pelo milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) para desvendar o desaparecimento de Harriet Vanger, sobrinha que sumiu do mapa há quarenta anos. Henrik é o dono das poderosas indústrias Vanger e aposta que alguém de sua própria família possa ter matado Harriet. Quem e porquê são os mistérios que Mikael deve elucidar. Já Lisbeth Salander é contratada para investigar se há algo comprometedor no histórico profissional e privado de Mikael. Uma vez descoberta pelo próprio Mikael, Lisbeth usa suas habilidades para auxiliá-lo.

Excetuando o rigor técnico (não muito diferente do filme de 2009, especialmente a fotografia de Jeff Cronenweth, que emula o tom sépia dos flashbacks) e algumas soluções distintas (como os créditos de abertura e a conclusão), “Millennium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” definitivamente não apresenta nada que tenha algum ineditismo que o liberte de comparações. Repete-se aqui o mesmo episódio do início do ano passado com o lançamento de “Deixe-me Entrar”, que reprisou o horror de “Deixe Ela Entrar” em versão soft. Para americanos com preguiça de ler legenda, “Millennium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” poderá ser um programa satisfatório.

Título Original: The Girl with the Dragon Tattoo
Ano de Produção: 2011
Direção: David Fincher
Roteiro: Steven Zaillian, baseado no romance “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”, de Stieg Larsson
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Steven Berkoff, Robin Wright, Yorick van Wageningen, Joely Richardson, Geraldine James, Goran Visnjic, Donald Sumpter, Ulf Friberg, Bengt C.W. Carlsson, Tony Way, Per Myrberg, Moa Garpendal, Julian Sands e Embeth Davidtz

Resenha Crítica | A Pele Que Habito (2011)

Após fazer uma tímida homenagem ao cinema com o drama “Abraços Partidos”, Pedro Almodóvar faz uma mudança radical em “A Pele Que Habito”. Na concepção do cineasta mais celebrado em toda a Espanha, trata-se de sua primeira inclusão no gênero terror. Claro que qualquer um que viu uma boa parcela de sua filmografia sabe que irá se deparar com uma obra que não respeita os elementos básicos do terror, embora existam ecos de “Frankenstein” no romance de Thierry Jonquet do qual “A Pele Que Habito” adapta.

Robert Ledgard (Antonio Banderas, em sua primeira parceria com Almodóvar desde “Ata-me”, de 1990) é um personagem que lembra o Henry Frankenstein de Mary Shelley, mas as suas ambições de criar uma criatura perfeita vêm de motivações ainda mais inacreditáveis. Vera Cruz (a excelente e linda Elena Anaya) é a “criatura” mantida sob vigilância diária em um cômodo da mansão de Robert. Logo descobrimos que ela é uma cobaia para um experimento de Robert que busca a pele humana perfeita.

Como toda boa trama de mistério, as dúvidas permeiam o espectador rapidamente. Afinal, o que tornou Robert uma pessoa tão obsessiva em desenvolver uma pele resistente até mesmo ao fogo? Vera é alguém que se voluntariou para este experimento? Por que Marília (Marisa Paredes), até certo ponto apresentada apenas como uma empregada de Robert, tem mais importância do que o esperado em toda essa história?

Antes de responder essas perguntas, Pedro Almodóvar preenche “A Pele que Habito” com as características autorais que o tornam célebre. Mesmo com o crescente clima de tensão do primeiro ato, o cineasta parece debochar da sua própria narrativa adicionando nela um humor peculiar, representado através da figura de Zeca (Roberto Álamo), o irmão fracassado de Robert.

Por outro lado, “A Pele que Habito” é aquele tipo de filme em que a maneira como sua história é contada é o mais importante do que qualquer outra coisa. Infelizmente, é exatamente nisto que Almodóvar erra feio. O flashback que invade todo o segundo ato de “A Pele que Habito” arruína tudo. Sem cadência, faz o espectador encontrar as respostas do mistério muito antes do desejado. Pena, pois a desconcertante conclusão merecia pertencer a um filme melhor.

Título Original: La piel que habito
Ano de Produção: 2011
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Agustín Almodóvar e Pedro Almodóvar, baseado no romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet
Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Eduard Fernández, José Luis Gómez, Blanca Suárez, Susi Sánchez, Bárbara Lennie, Fernando Cayo, Chema Ruiz, Ana Mena, Teresa Manresa e Buika
Cotação: 2 Stars

MIB³ – Homens de Preto 3

Quem não se lembra quando “MIB – Homens de Preto” chegou aos cinemas em 1997? Além de ser um dos filmes mais vistos daquele ano, a produção dirigida por Barry Sonnenfeld provou duas coisas. Mostrar que é possível misturar ficção científica com comédia foi uma prova. A outra foi que há chances de existir uma ótima química em uma dupla tão inusitada como o descolado Will Smith e o veterano Tommy Lee Jones. Infelizmente, Barry Sonnenfeld se esqueceu disso em “MIIB – Homens de Preto II” (de 2002) e também em “MIB³ – Homens de Preto 3”, já em exibição nos cinemas brasileiros. Desta vez, a razão da parceria entre o Agente K (Tommy Lee Jones e Josh Brolin na fase jovem) e o Agente J (Will Smith) não da certo por causa do roteiro. A história é tão problemática que a produção precisou forçar até mesmo uma pausa nas filmagens para revisões de última hora.

Se você quiser continuar lendo a minha impressão sobre “MIB³ – Homens de Preto 3”, basta clicar aqui e ver a minha estreia no portal Cenas de Cinema.

Cotação: 2 Stars

Resenha Crítica | 12 Horas (2012)

Quando “12 Horas” chegou ao Brasil, Heitor Dhalia concedeu entrevistas para uma série de veículos. Para todos eles, Dhalia informou sobre as dificuldades e limitações que enfrentou nesta sua primeira vez em Hollywood. Em nenhum momento teve com “12 Horas” as mesmas liberdades artísticas que o guiaram nas produções de “Nina”, “O Cheiro do Ralo” e “À Deriva”: não pôde palpitar no roteiro, ensaiar com o elenco, tomar decisões na montagem e todas as outras regras que perseguem os conhecidos “diretores de aluguel”. Mesmo afirmando como válida a experiência internacional, sente-se que Heitor Dhalia foi muito duro com o material de “12 Horas”, atraindo publicidade negativa.

“12 Horas” é um filme que não oferece qualquer contribuição para o gênero que representa, mas a história acerca de Jill (Amanda Seyfried) tem seus momentos de autenticidade. Há aproximadamente dois anos, Jill foi a única que escapou das mãos de um assassino em série. Atualmente, parece superar a experiência traumatizante, sobretudo pelo apoio de sua irmã Molly (Emily Wickersham). Porém, o repentino desaparecimento de Molly fará Jill rapidamente deduzir que o serial killer que antes a sequestrou está de volta.

A partir do instante em que Jill procura pela polícia, a roteirista Allison Burnett (a mesma de “Sem Vestígios”) cria um jogo psicológico para o público, que passará a questionar a sanidade da protagonista. As autoridades afirmam que nenhum rastro do serial killer que Jill afirmou sequestrá-la foi encontrado e alguns episódios dramáticos em sua vida (como a morte dos pais) a tornaram emocionalmente desequilibrada. Os melhores momentos desse jogo são aqueles em que Jill interage com estranhos com intenção de reunir pistas para encontrar Molly antes que o assassino a mate. Ela inventa histórias de forma tão convincente que realmente acreditamos na possibilidade do assassino não existir, tornando o filme menos previsível do que o esperado.

Outro ponto a se considerar em “12 Horas” é que ele não cai na velha artimanha de transformar em suspeitos todos ao redor de Jill. Personagens secundários como o namorado de Molly (Sebastian Stan) ou o detetive com boas intenções (Wes Bentley) felizmente não são concebidos de maneira muito óbvia. Já os fãs de Heitor Dhalia devem ao menos reconhecê-lo através da parceria com o diretor de fotografia Michael Grady, acrescentando ao filme tons cinzentos que remetem ao trabalho do paulistano José Roberto Eliezer em “Nina”. Entretenimento satisfatório se assistido com expectativas moderadas.

Título Original: Gone
Ano de Produção: 2012
Direção Heitor Dhalia
Roteiro: Allison Burnett
Elenco: Amanda Seyfried, Jennifer Carpenter, Emily Wickersham, Wes Bentley, Sebastian Stan, Daniel Sunjata, Nick Searcy, Socratis Otto, Joel David Moore, Katherine Moennig, Michael Paré, Sam Upton, Ted Rooney, Erin Carufel, Amy Lawhorn, Susan Hess e Jeanine Jackson
Cotação: 3 Stars

Os Cinco Filmes Prediletos de Christian Piana

Os últimos três anos foram difíceis para mim. Estava preso em uma vida em que tudo estava sendo administrado no piloto automático. Senti que perderia as estribeiras caso não me envolvesse em alguma atividade que motivasse uma nova prática ou talento. Pensei rapidamente em fotografia. Me recordo que em todas as ocasiões em família observava porta-retratos e álbuns de fotografias. Pude através das fotografias conhecer meus avós já mortos quando nasci ou mesmo a juventude de um pai que partiu cedo demais para me ajudar a compreender o mundo cão em que vivemos. A possibilidade de eternizar algo, como imagens ou palavras, sempre me fascinou. Não tenho muita certeza se o coordenador das duas oficinas de fotografia que ingressei durante o ano de 2010 soube, mas essas foram as minhas verdadeiras motivações para fazer algo para o qual não estava preparado nem ao menos com um equipamento adequado.

Christian Piana nasceu na Itália e atualmente vive no Brasil. Não atua apenas como fotógrafo (portfólio aqui) como também coordenador da Editora Lamparina Luminosa, dedicada em transformar em verdadeiros autores pessoas sem formação literária formal. Como meu professor e também amigo, me mostrou que o cinema tem muita ligação com a fotografia: são modos de expressões distintas, mas no final elas podem comunicar a mesma coisa. Christian me revelou que é uma tarefa dura elaborar uma lista de filmes favoritos com um número estabelecido, pois há muitas obras queridas que ficam de fora (“Blade Runner – O Caçador de Androides”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “Playtime – Tempo de Diversão” são algumas delas). De qualquer forma, estou muito feliz. Sei que o resultado a seguir foi positivo para o Christian, pois nossos filmes favoritos dizem muito sobre nossa própria personalidade e também sobre o que vivemos até aqui.

Enviar um convite para o Christian participar dessa seção tão especial do Cine Resenhas me fez recordar os breves momentos de nervosismo e timidez que surgiram quando pedia às pessoas que não conhecia para fotografá-las, conseguindo assim finalizar o meu trabalho para a exposição Processos. Obviamente, assim como aconteceu com aquelas pessoas que fotografei, fiquei lisonjeado com a resposta positiva.

Asas do Desejo, de Win Wenders (1987, Der Himmel über Berlin)

Dedico esta seleção de filmes ao amor e a poesia e início com um filme em que se vê até mesmo um anjo renunciar a sua condição por amor do mundo, das coisas terrenas e táteis. Os protagonistas do filme são Damien e Cassiel – de fato, dois anjos. Damien é interpretado por Buno Ganz que é, em minha opinião, realmente um anjo na vida real. Os dois vagam por uma Berlim em preto e branco e decadente dos anos 1980, pouco antes da queda do muro. Sabemos que estão por aí antes que surgisse a cidade, sempre no ofício de anjos. Porém, Damien e Cassiel não são duas figuras estereotipadas, que realizam a clássica função de anjos. O que os tornam fabulosos é que são somente observadores, duas figuras que parecem ter a única função de registrar o presente com os seus olhos. Talvez eles tenham uma memória milenar mais fiel que qualquer filmagem ou fotografia? Talvez deverão reportar este presente a alguém? Não se sabe.

O que se sabe é que a realidade é estudada, como fazem os bons arquivistas. Não através dos fatos que acontecem, mas através do status de quem os vivem, os sentimentos das pessoas, seus medos, dores e joias. Nos também os vivemos, sentimos como os anjos, as vozes dos pensamentos dos berlinenses e provamos uma misteriosa empatia por eles: não para as pessoas comuns, mas pelos próprios anjos que escutam e veem e não são vistos nem ouvidos. Não sentem o mesmo que gente comum, não tem percepções táteis, não sentem sabores, cheiros, calor e frio. Por isso, durante uma confissão, se revelam cansados de serem anjos. Entre os sons destas angustias e pensamentos pulsa a poesia, vibrante e constante. Não é uma poesia entre linhas, é uma poesia explícita nas imagens tão belas! Nos suspiros! Uma poesia que Wenders procura e mostra sem economia.

Damien, durante seu vaguear, se apaixona por uma mulher e para vivê-la decide virar um homem e desistir de ser eterno. Começa assim a ver as cores (o filme passa a ser colorido); pela primeira vez se machuca e vê seu sangue vermelho, que é a cor da paixão. Se encontra com a mulher que corresponde seu amor durante um show do Nick Cave na mais linda Berlim underground cultural, que não foi reconstruída pelo filme, mas que foi filmada assim como era naquele período. Que sempre me faz sentir saudade de uma vida que nunca vivi, mesmo que a sonhei várias vezes.

Adeus, Lenin!, de Wolfgang Becker (2003, Good Bye Lenin!)

Outra obra em que o muro de Berlim, com todos seus significados, é presente. O filme é ambientado no ano em que este é abatido e dois mundos, que compartilhavam a mesma cidade, mas eram separados por metros de arame farpado e minas, se encontram. Uma das épocas históricas que mais me fascina. Um outro hino ao amor, a própria mãe em primeiro lugar, mas também a uma identidade histórica que o protagonista Alex vê desaparecer e que recupera de forma magistral.

Quando a mãe, uma fervente militante pela causa da República Democrática Alemã, em outubro de 1989 sofre um infarto, permanece em coma por oito meses. Quando milagrosamente acorda tudo mudou: o muro caiu, a DDR não existe mais e o ocidente inicia sua irrefreável invasão cultural ao oriente. Alex, para não perturbá-la ainda mais, convence sua irmã, o cunhado e sua nova namorada a ocultar a verdade e reconstruir em sua volta a Berlim socialista, se vestindo e comprando alimentos de poucos meses atrás que parecem vencidos. A empresa, que parece fácil no início, em breve transforma o corajoso protagonista em um herói romântico em luta contra o inevitável aniquilamento do seu passado e do passado do seu povo.

Que tipo é o Alex! Audacioso e forte, não se deixa intimidar pelo desafio. É jovem e fica bravo com todo mundo quando entende que a sua gente parece não ter sido realmente vencida pela colonização cultural, mas parece simplesmente ter se deixado abandonar pelo capitalismo. Se fosse real, Alex seria um pouco maior que eu, dez anos mais velho. Em 1989, eu era criança, mas bastante grande para me lembrar desta época: recordo dos comentários e do medo sobre uma possível invasão soviética e o suspiro que todos em minha volta deram no dia da queda do muro. As mesmas imagens presas nos arquivos da época, que se vê no filme, são as imagens que vimos em televisão por dias, por meses. Alex usa roupas que me lembram aquele tempo, o filme inteiro é magicamente ligado às minhas lembranças, de alguma forma tudo é tão familiar para mim!

A história política da Europa nos é apresentada docemente através das preocupações de um filho. Os eventos que têm marcado tão intensamente aqueles anos são todos brilhantemente refletidos dentro dos amores das dores familiares. Para deixar o filme definitivamente inesquecível, porém, é o perfeito casamento entre este roteiro belíssimo com as fabulosas músicas de Yann Tiersen, que tocam no mesmo ritmo do nosso coração e do coração dos protagonistas, que desenham com uma áurea de magia as cenas mais intensas do filme: nos créditos inicias com as lembranças da família rodadas em Super 8, a mãe que vê a estátua de Lenin transportada de helicóptero e, no final, o emocionante reencontro entre o pai, que havia fugido para o Oeste, e a mãe pouco antes da sua morte.

Amor à Flor da Pele (2000, Fa yeung nin wa)

“In the Mood for Love” foi distribuído no Brasil com o nome “Amor à Flor da Pele”, que não é mau, mas pode deixar a entender que o filme trata de uma grande historia de amor. Na verdade, “In the Mood for Love” apela ao que é o verdadeiro protagonista do filme: o mood do amor, ou seja, o sentimento em si do amor. O título original em cantonês é ainda mais evocativo: significa a idade das flores, que é uma metáfora chinesa para descrever a fugacidade do tempo da juventude, da beleza e do amor.

A história é simples e linear: um homem e uma mulher se mudam para dois microapartamentos próximos na Hong Kong de 1962 e descobrem casualmente que os respectivos cônjuges são amantes. Passam a se verem para tentar entender como tudo pode ter começado. Porém, durante os encontros percebem que se amam, mesmo que nunca chegarão a consumir este sentimento.

O diretor Wong Kar-Wai é o autor de um potentíssimo e novo renascer da Nouvelle Vague do oriente. No passado, nos ofereceu filmes fabulosos em que brilhava o “esplendor do verdadeiro” (termo de fato usado por Jean-Luc Godard para explicar o estilo da Nouvelle Vague). Mas em “In the Mood for Love” a beleza, a poesia e a paixão chegam a sair da tela e nos envolver. A precisão das imagens é fortíssima: cada enquadramento é por si uma obra de arte, a fotografia e as luzes reproduzem a mesma atmosfera do que são feitos os sonhos de amor e o ritmo do filme é o verdadeiro elemento narrativo. Os sentimentos dos protagonistas aumentam a cada encontro, não é necessário que ninguém nos conte. O percebemos, o sentimos, marcado pela música extraordinária e pelas imagens em câmera lenta, que revelam a delicada e belíssima ritualidade dos gestos e anunciam o que duas pessoas que se amam conseguem produzir quando cruzam seus olhares.

Infelizmente, no final os protagonistas, levados pelo curso dos eventos, se afastam, não se encontrarão mais. Porém, não se esquecerão mais um do outro. Ele, na cena final, esconderá o segredo deste amor em uma pedra, sussurrando-o a uma ruína de um antigo templo para que permaneça para sempre guardado. Ao meu parecer, depois deste filme Wong Kar-Wai não conseguiu se igualar, tampouco a se superar.

Luzes da Cidade, de Charles Chaplin (1931, City Lights)

Charlie Chaplin lançou este filme em 1931, uma época em pleno uso do som e gravações de vozes na película dos filmes. “Luzes da Cidade”, porém, permanece, por irredutível desejo do diretor, um filme mudo que deixa toda a comunicação em pantomímica. Chaplin realizou filmes mudos até 1940, período em que, por várias consequências, morre o fantástico personagem que por anos mostrou as infinitas formas de amar a vida: The Tramp, o Vagabundo. Esta escolha corajosa sempre me lembra um dos mais belos conceitos de muita arte oriental: a gestão do vazio. O vazio não é ausência de coisas, mas é algo que em si existe e precisa saber contemplá-lo e vivê-lo. A cerâmica tradicional japonesa cria peças com a ideia principal de dar forma ao vazio. As características portas corrediças dos quartos nas casas servem para contê-lo e modelá-lo. Da mesma maneira nos filmes de Chaplin, o mudo não é ausência de vozes, mas é presença de silêncio, de um silêncio cheio de comunicação, contido pelos gestos e pela beleza dos movimentos.

Obviamente, esta escolha não o priva de desafios heroicos: em uma das cenas principais deste filme, uma jovem vendedora de flores cega confunde o Vagabundo com um rico senhor que instantaneamente se encanta por ela. Chaplin não sabia como obter o resultado sem o uso das vozes dos protagonistas. Antes de chegar a uma conclusão, repetiu a cena 342 vezes testando as mais variadas soluções. Consegue de uma forma genial: o Vagabundo é dificultado por um trânsito impossível de automóveis e para cruzar a rua é obrigado a desafiar os carros, chegando até a passar dentro deles. Quando sai do último automóvel antes da calçada, fecha a porta bem forte. A vendedora de flores está bem perto desse último automóvel e intui por engano que quem está saindo dele é o proprietário do veículo. O filme não nos deixa “ouvir” o som, deixa “vê-lo”.

Sempre amei profundamente o personagem Vagabundo de Charlie Chaplin desde muito jovem. Porém, só nos últimos anos entendi o porquê: o personagem é um flâneur perfeito: vaga sem um destino predefinido, parece nem ter casa, mas isso não abala minimamente a sua dignidade e elegância. Como eu, quando vaga se encontra sozinho, se orienta. Quando está parado, se perde. Quando é o nômade da cidade é a única pessoa que sabe observar verdadeiramente as coisas, é a única pessoa que reconhece a beleza e o único de fato a perceber aquela belíssima moça sentada na esquina vendendo flores. Todos em sua volta andam freneticamente, vão para frente e para trás ocupadíssimos. Aonde vão? O que tem a fazer? Não se sabe. Só se sabe que o vagabundo está onde tem que estar, é um monge entre burgueses, é um sábio entre monstros. É tão lúcido que chega até a salvar um estúpido ricaço que quer se suicidar mostrando a ele quanto a vida é bela.

Como todos os filmes de Chaplin, em “Luzes da Cidade” a critica à sociedade moderna é forte: para ganhar dinheiro, salvar a moça da pobreza e curá-la da cegueira, The Tramp é obrigado a deixar sua condição de flâneur e revestir papéis. Primeiro um mero trabalho normal, depois sempre mais à margem do conformismo. Isto o consome, assim como a moderna vida urbana que destrói o ser humano, o transforma em um marginal. Nas emocionantes cenas finais, o vagabundo consegue ajudar a florista, mas é preso. Ao retornar, pobríssimo, reconhece a moça que lhe recuperou a visão. Ela o reconhece pelo toque da sua mão, percebendo que na realidade a pessoa que encontrou nunca foi um milionário, mas o contrário: um anjo. “Luzes da Cidade” não é um filme cômico, é um filme de amor.

O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford (1994, Il postino)

Este filme entrou na minha seleção por causa do amor que me liga ao seu ator principal: Massimo Troisi. Troisi transformou “O Carteiro e o Poeta” em mais que um filme, transformou-o em uma experiência humana grandiosa. Todos os minutos da película, mesmo aqueles onde ele não aparece, são cheios da sua presença, da sua pura comicidade e da sua doce melancolia. Durante a realização estava muito mal, sofria desde criança de uma anomalia cardíaca que também o obrigou a uma cirurgia delicadíssima aos 23 anos. Na época de “O Carteiro e o Poeta” deveria ter feito um transplante de coração. Os amigos lhe pediram para antes fazer o transplante e depois o filme, mas Troisi, determinado, sempre respondeu: “Não, este filme eu quero fazê-lo com o meu coração!”.  E de fato é o esforço do seu coração, enfermo mas enorme, que percebemos nas imagens e que sentimos no som de suas palavras.

O filme é baseado no romance “Ardiente paciencia”, de Antonio Skármeta, e narra o encontro entre o humilde entregador de cartas Mario Ruoppolo e o poeta Pablo Neruda durante seu exílio numa ilha no sul da Itália. Ruoppolo, fascinado pela figura do poeta, faz de tudo para que entre ele e Neruda se estabeleça uma amizade; amizade que em pouco tempo o leva a descobrir a poesia, a reconhecê-la e amá-la. Depois desta descoberta, o carteiro parece ver as coisas de um novo e mais profundo ponto de vista: a poesia o ilumina, o leva a viver a aventura do cotidiano, do cotidiano da sua ilha tão consumida pela vida. A poesia que Mario descobre de fato não é algo que chega, é algo que sempre esteve presente e que agora é revelado. Mario um dia diz à Neruda que seus textos chamaram sua atenção porque ele também sente as coisas que aí estão, mas nunca pensou que poderiam ser escritas. Agora ele sabe. No filme, quem expõe a poesia não é Neruda, o poeta consagrado, mas é o próprio Mario, homem pobre e sensível, que a contém dentro de si, que a mostra na sua doce ingenuidade, que anda simpaticamente à caça de metáforas. É Mario que um dia, depois de ter lhe dito que se sentiu como um barco sacudido pelas suas palavras, pergunta tímido ao poeta se o mundo todo é a metáfora de algo, deixando Neruda fulgurado.

“O Carteiro e o Poeta” é uma homenagem a beleza de todas as coisas, a simplicidade e honestidade dos sentimentos, a majestade do mundo latente em todas suas partículas. A grandeza de Massimo Troisi cria um personagem maduro, pleno de comicidade controlada, mas também de spleen. Nos que amamos Massimo Troisi sabemos, porém, que ele não criou este personagem do nada. Quando assistimos ao filme sabemos que de alguma forma o carteiro é Troisi, que sua voz cansada é a voz de Troisi, que a custo da vida está nos deixando seu testamento moral.

No final, o carteiro morre. É a própria poesia que o aproxima do seu destino. Troisi também nos deixa ao morrer um dia após o fim das filmagens. Ele nunca verá o seu filme. Mas nós lembraremos para sempre da imagem dele no filme em que, olhando para o céu, grava o som das estrelas para enviar à Neruda longe, dizendo: “Lindo! Nunca me dei conta que era tão lindo!”.

Obs.: Amanhã, 19 de maio, às 19h, Christian Piana realizará o lançamento dos livros “A Mineirinha e outras histórias” e “Mínima Memória do Mundo” na Livraria da Vila – Lorena (Rua Alameda Lorena, 1731 – Jardim Paulista – São Paulo, próximo ao Metrô Consolação). Não deixe de prestigiar!

Sete Dias com Marilyn

Quando os planos de fazer “Sete Dias com Marilyn” se concretizaram com a divulgação da primeira imagem promocional de Michelle Williams caracterizada como Marilyn Monroe muitos questionaram não apenas a falta de semelhança física entre as atrizes como também a relevância do projeto. Pois “Sete Dias com Marilyn” chega ao público quebrando qualquer expectativa negativa ao encenar com honestidade os bastidores de “O Príncipe Encantado”, produção protagonizada por Marilyn Monroe e Sir Laurence Olivier.

Feito em “Sete Dias com Marilyn” por Kenneth Branagh, Laurence Olivier vê o sonho de contracenar com a grande estrela ser despedaçado diante do difícil temperamento dela. Teria repetido a parceria dos palcos para o cinema com a esposa Vivien Leigh (Julia Ormond) se ela não se sentisse tão velha para o papel. Marilyn Monroe não apenas se mostra difícil ao adotar o método Strasberg requisitando a presença de Paula Strasberg (Zoë Wanamaker) em tempo integral, mas emocionalmente despreparada para atuar diante das crises de seu casamento com o dramaturgo Arthur Miller (Dougray Scott).

A partir daí, o jovem Colin Clark (Eddie Redmayne) é contratado para ser o terceiro assistente de Laurence Olivier. Porém, ao longo das filmagens de “O Príncipe Encantado” se aproximará muito mais de Marilyn Monroe do que de Olivier, convertendo-se praticamente em protetor da estrela. Hipnotizado pela beleza de Marilyn, Colin se esquece de tudo e todos ao seu redor, inclusive Lucy (Emma Watson), assistente de figurino com quem estava flertando.

Em seu primeiro trabalho para cinema, Simon Curtis acerta na decisão de tornar “Sete Dias com Marilyn” uma produção que não faz apenas uma imitação de Marilyn Monroe. Seu interesse está em compreender o fascínio que ela despertava por todos os lugares que transitava, seja na filmagem de um filme, numa coletiva de imprensa ou em meio aos fãs. Interesse este que dependia exclusivamente de um talento como o de Michelle Williams, que definitivamente não tem os mesmos atributos físicos de Marilyn, porém perfeita em representar com minúcia a sensualidade, carisma, vulnerabilidade e tantas outras camadas de uma deusa que Hollywood jamais terá igual.

Título Original: My Week With Marilyn
Ano de Produção: 2011
Direção: Simon Curtis
Roteiro: Adrian Hodges, baseado nos romances “Minha Semana com Marilyn” e “The Prince, the Showgirl and Me”, ambos de Colin Clark
Elenco: Michelle Williams, Eddie Redmayne, Kenneth Branagh, Julia Ormond, Dougray Scott, Dominic Cooper, Judi Dench, Emma Watson, Derek Jacobi, Pip Torrens, Geraldine Somerville, Miranda Raison, Karl Moffatt, Toby Jones, Robert Portal, Philip Jackson, Jim Carter, Victor McGuire e Zoë Wanamaker
Cotação: 3 Stars

Resenha Crítica | Flores do Oriente (2011)

Um dos cineastas mais imaginativos em atividade, o chinês Zhang Yimou sempre se deu bem ao lidar com dois modelos de drama. O primeiro modelo, do qual é notório, é visto em “O Clã das Adagas Voadoras” e “Herói”, obras com espetaculares sequências de ação. O segundo modelo é visto em filmes mais intimistas, como o recente “A Árvore do Amor”, em que os conflitos físicos são substituídos por diálogos e gestos delicados. Pois Zhang Yimou inventou de fazer uma mescla desses dois elementos que funcionam tão bem individualmente e pariu “Flores do Oriente”, de longe o pior filme em toda sua carreira.

50% falado em inglês, 50% falado em mandarim, “Flores da Guerra” tem como personagem central John Miller (Christian Bale, em seu primeiro papel após o Oscar de melhor ator coadjuvante por “O Vencedor”), coveiro americano contratado para preparar o funeral de um padre em plena Segunda Guerra Sino-Japonesa. Beberrão como poucos, passa-se por padre para enganar o exército inimigo japonês e escapar desta situação com vida. John parece não processar o que acontece ao seu redor até o momento em que tem que proteger dois grupos. O primeiro é composto por estudantes, todas meninas na pré-adolescência. Já o outro grupo é composto por prostitutas, que ganham olhares desaprovadores das meninas por se refugiarem em um ambiente sagrado.

Inspirado em fatos, Zhang Yimou não compreende que a história é forte por si só. Prova isto fazendo um filme cujo pieguismo de inúmeras cenas o tornam simplesmente ridículo e de puro mau gosto. Em “Flores do Oriente”, não é suficiente ver um jovem e ingênuo soldado morrer aos poucos. É preciso mostrar uma prostituta arriscando a própria vida buscando cordas para tocar tocar para este soldado a sua pipa antes dele definitivamente partir. Ainda pior é a conversão pouco convincente de John Miller em alcoólatra sem coração para o herói do dia. Sendo o filme mais caro já rodado na China, “Flores da Guerra” obviamente apresenta virtudes técnicas, mas esta grandiosidade é pequenina diante de tantos deslizes narrativos.

Título Original: Jin líng shí san chai | The Flowers of War
Ano de Produção: 2011
Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Liu Heng, baseado no romance de Yan Geling
Elenco: Christian Bale, Ni Ni, Tong Dawei, Xinyi Zhang, Tong Dawei, Atsurô Watabe, Shawn Dou, Tianyuan Huang, Yuan Nie, Shigeo Kobayashi, Takashi Yamanaka, Kefan Cao, Bai Xue, Hai-Bo Huang e Paul Schneider

Resenha Crítica | Plano de Fuga (2012)

Pelo visto, Hollywood ainda não está disposto a perdoar Mel Gibson, antes astro de franquias como “Mad Max” e “Máquina Mortífera” e agora sujeito polêmico pela repercussão negativa de sua vida privada preenchida por alcoolismo, declarações antissemitas, acusações de violência doméstica feitas pela ex-namorada Oksana Grigorieva e, recentemente, discussões com o roteirista Joe Eszterhas que fizeram a alegria de muitos tabloides. Como os americanos são sensíveis a esse tipo de notícia é até possível compreender nisto não apenas os fracassos de bilheteria de fitas recentes estreladas por Mel Gibson como “O Fim da Escuridão” e “Um Novo Despertar”, mas também o lançamento direto em vídeo de “Plano de Fuga”, do qual o australiano é protagonista, roteirista e produtor. A boa notícia é que ao menos os fãs brasileiros do ator terão a chance de prestigiá-lo na tela grande, pois “Plano de Fuga” estreia na próxima sexta-feira com um bom número de cópias.

Tendo colaborado com Mel Gibson como diretor de segunda unidade em “Apocalypto”, Adrian Grunberg se lança em carreira solo nesta história sobre um ladrão sem nome (Gibson) apanhado em fuga com malas recheadas de dólares no ensolarado México. Seu comparsa morre e ele é direcionado para um presídio que mais parece uma grande favela, uma vez que as celas nada mais são do que residências precárias e ocupadas por todo tipo de gente. Como o título brasileiro entrega, o personagem de Mel Gibson fará um minucioso plano de fuga, além de reaver toda a grana que roubou e salvar a pele de um fedelho (Kevin Hernandez) com tipo sanguíneo compatível com Javi (Daniel Giménez Cacho), chefão do presídio de olho em seu rim.

“Plano de Fuga” vale pelo bom olho de Adrian Grunberg tanto na recriação de cenários sórdidos como em cenas de ação bem planejadas e que recorrem ao slow motion para darem um perfil mais estilizado ao filme. Também não se pode deixar de mencionar o carisma  intacto de Mel Gibson, ainda convincente na pele de heróis errantes e que protagoniza uma cena engraçada ao se passar por Clint Eastwood numa emboscada. Infelizmente, são os únicos elementos positivos contidos em “Plano de Fuga”. Chegada à conclusão, ficamos diante de um filme que se beneficiaria mais caso tivesse injetado em sua história mais doses de humor. Há muitos instantes em que a sensação é de que os envolvidos levaram tudo a sério demais.

Título Original: Get the Gringo
Ano de Produção: 2012
Direção: Adrian Grunberg
Roteiro: Adrian Grunberg, Mel Gibson e Stacy Perskie
Elenco: Mel Gibson, Peter Stormare, Daniel Giménez Cacho, Dean Norris, Bob Gunton, Kevin Hernandez, Scott Cohen, Stephanie Lemelin, Patrick Bauchau, Sofía Sisniega, Aaron Cohen, Jesús Ochoa e Denise Gossett