Diretor: Woody Allen | Filmografia Comentada | Parte III

Penélope Cruz em “Para Roma, Com Amor”.

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Para finalizar o nosso especial sobre o diretor Woody Allen, comentamos todos os 46 filmes que ele dirigiu ao longo de sua extensa carreira, que vai desde “O que Há, Tigresa?” até o recente “Para Roma, Com Amor“. O trabalho foi árduo, mas o processo de resgatar da memória momentos de cada uma de suas obras só faz confirmar a genialidade desse realizador que é um dos mais especiais que o cinema tem. Para servir de complemento a esta série de postagens, em breve divulgarei os meus dez filmes favoritos de Woody Allen. Sem mais delongas, vamos prosseguir.

Para Roma, Com Amor (To Rome, With Love, 2012)
Ainda em cartaz, esta coletânea de contos passados em Roma parece ter desagradado os espectadores que ficaram maravilhados com “Meia-noite em Paris”, mas isto não invalida o resultado, que é ótimo. A história protagonizada por Jesse Eisenberg é insossa, mas as outras três, especialmente a protagonizada pelo próprio Woody Allen (em sua primeira aparição em frente às câmeras após “Scoop – O Grande Furo”), rendem situações saborosas.

Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)
A princípio, “Meia-noite em Paris” emula “Manhattan” (a sequência inicial flagra diversos pontos da cidade), mas logo embarcamos em uma história fantasiosa em que Gil (Owen Wilson) é transportado magicamente para uma Paris em que bares eram habitados por figuras célebres como Cole Porter e Ernest Hemingway. Há saídas fáceis na narrativa, mas tudo é compensado pela bela mensagem de que, por melhor que seja o passado, viver o presente é o que vale.

Você vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (You Will Meet A Tall Dark Stranger, 2010)
Apesar do grande elenco, o resultado dessa crônica sobre sorte e azar (tema recorrente na filmografia do diretor) é um tanto amargo. O roteiro ousa na resolução que é oferecida para algumas situações, mas o tom usado por Woody Allen para contá-las sempre mantém o espectador a certa distância. Helena (Gemma Jones), que virou supersticiosa após uma consulta com uma taróloga, é o pivô da história que também persegue o seu agora ex-marido Alfie (Anthony Hopkins), um homem de terceira idade que procura curtir a vida, e a sua filha Sally (Naomi Watts), que tem um casamento nada excitante com Roy (Josh Brolin), sujeito que passa a contemplar diariamente a sua vizinha Dia (Freida Pinto) pela janela.

Larry David em “Tudo Pode Dar Certo”.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009)
Responsável pelos seriados “Seinfield” e “Segura a Onda” (“Curb Your Enthusiasm”), o impagável Larry David poderia muito bem ser confundido como um irmão de Woody Allen. Judeus neuróticos e gênios na arte de fazer humor, a parceria só não se mostra infalível porque “Tudo Pode Dar Certo” começa excelente e termina apenas ok.

Vicky Cristina Barcelona (Vicky Cristina Barcelona, 2008)
Recebido com grande euforia em seu lançamento, “Vicky Cristina Barcelona” é bom, mas sente-se que Woody Allen não ousou o bastante no quadrado amoroso que se desenha entre Vicky (Rebecca Hall, no primeiro grande papel de sua carreira), Cristina (Scarlett Johansson), Juan Antonio (Javier Bardem) e Maria Elena (Penélope Cruz). Sem dizer que Patricia Clarkson faz uma personagem para lá de dispensável. De memorável mesmo, só a presença da espanhola Penélope Cruz (que ganhou o Oscar pelo papel) e a cidade de Barcelona belamente fotografada por Javier Aguirresarobe (“Os Outros”).

O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2007)
Após o surpreendente sucesso de “Match Point”, Woody Allen se viu mais livre para contar histórias densas. O primeiro e segundo ato de “O Sonho de Cassandra” indicam que o realizador nos presenteará com mais uma obra-prima. As expectativas vão por água abaixo quando chegamos ao terceiro ato, conduzido sem nenhuma sutileza e com uma conclusão desastrosa em todos os sentidos. Promessa de um grande filme que não se concretizou.

Woody Allen e Scarlett Johansson em “Scoop – O Grande Furo”

Scoop – O Grande Furo (Scoop, 2006)
“Scoop – O Grande Furo” foi recebido como um banho de água fria pela mesma crítica que celebrou o vigor renovado de Woody Allen em “Match Point”. Foi apedrejado sem merecer, pois “Scoop – O Grande Furo” é tão fofo quanto Scarlett Johansson, linda como nunca na pele de uma jornalista ambiciosa e com jeitão nerd que recebe um furo jornalístico de um fantasma (Ian McShane): a identidade do Assassino do Tarô, que aterroriza as ruas de Londres. A química entre a jovem atriz e Woody Allen (que interpreta um mágico que a auxiliará na missão de desmascarar o Assassino do Tarô) é perfeita e o filme é daqueles que a gente implora para não acabar.

Match Point (Match Point, 2005)
Com os seus filmes amargando péssimos resultados de bilheteria, Woody Allen se viu com poucas opções de investidores para dar forma aos seus próximos filmes. Acabou indo pela primeira vez a Londres e por lá se viu com uma liberdade artística que jamais havia experimentado tão plenamente. O resultado é “Match Point”, um suspense perfeito e que nos faz refletir sobre as pegadinhas que a vida nos prega – algumas acabam servindo para o nosso próprio benefício.

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda, 2004)
Radha Mitchell está intensa nesta “dramédia” em que encara duas Melindas: uma que é protagonista do lado trágico da vida e outra que é a protagonista do lado cômico da vida. As duas possibilidades são expostas por um grupo de intelectuais em um restaurante e o espectador testemunhará os percalços que atingirão as duas Melindas. Pena que ao invés de evidenciar os extremos presentes na existência do ser humano como foi visto em “Crimes e Pecados” o filme opte por misturá-los, provocando uma incômoda indecisão ao definir o que é triste e o que é engraçado.

Jimmy Fallon e Christina Ricci em “Igual a Tudo na Vida”.

Igual a Tudo na Vida (Anything Else, 2003)
Quarto e último filme rodado com dinheiro da Dreamworks, “Igual a Tudo na Vida” é o pior trabalho da carreira de Woody Allen. Insuportavelmente longo (só perde para “Match Point” e “Para Roma, Com Amor” em termos de duração), a história é centrada em Jerry (Jason Biggs) sujeito com vida estagnada e com sentimentos confusos quanto a Amanda, a garota infiel com quem namora. Protagonista da franquia “American Pie”, Jason Biggs faz um Jerry que não causa qualquer empatia e suas raras interações com a plateia são desastrosas. O que mais incomoda, entretanto, é a sensação de tempo perdido em acompanhar uma história que, resumidamente, parece terminar no ponto em que começou. Só não é pior porque o próprio Woody Allen dá às caras como David Dobel, senhor que orienta Jerry sobre as suas decisões privadas e profissionais.

Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending, 2002)
Criativa e curiosa comédia em que Woody Allen faz Val, um cineasta em decadência que tem a grande oportunidade de sua carreira ao ser indicado pela sua ex-esposa Ellie (Téa Leoni, muito bem) a dirigir uma grande produção de época. Repentinamente, Val perde totalmente a visão no início das filmagens. No entanto, para não decepcionar Ellie, ele decide dirigir o filme literalmente no escuro. As divertidas dificuldades de comunicação vistas com o diretor de fotografia são inspiradas nas interações de Woody Allen com Zhao Fei, chinês que fotografou “Poucas e Boas”, “Trapaceiros” e “O Escorpião de Jade”. A resolução continua sendo o grande problema: há uma indecisão em apontar se a cegueira crônica de Val é culpa do seu nervosismo ao dirigir uma grande produção, dos fracassados relacionamentos amorosos ou dos assuntos pendentes com o filho roqueiro.

Sons de Uma Cidade que Eu Amo (Sounds from a Town I Love, 2001)
Segunda e última investida de Woody Allen em um filme em formato de curta-metragem (a primeira vez se deu com o não visto “Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story”), “Sons de Uma Cidade que Eu Amo” é uma pequena homenagem a Nova York de aproximadamente três minutos em que o cineasta flagra diversos anônimos neuróticos falando ao celular pelas ruas da cidade. A melhor conversa pelo aparelho móvel é aquela em que uma mulher prevê o futuro fracassado da filha de apenas três anos apenas por ela não ter ingressado a pré-escola que julgava a mais apropriada.

Charlize Theron em “O Escorpião de Jade”.

O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion, 2001)
Filme mais caro da carreira de Woody Allen, “O Escorpião de Jade” é uma espécie de paródia aos filmes noir dos anos 1940. Há aqui a reunião de vários dos diálogos mais brilhantes já escritos por Allen. Os flertes entre o seu detetive com a suspeita interpretada por Charlize Theron (espetacular) e as farpas com a colega de trabalho feita por Helen Hunt são geniais. Infelizmente, a história, que envolve roubo de joias e hipnose, ganha uma resolução lastimável. De qualquer forma, Woody Allen exagera ao apontar este como o pior filme de sua carreira.

Trapaceiros (Small Time Crooks, 2000)
Primeiro filme de Woody Allen para a Dreamworks, “Trapaceiros” é uma de suas comédias mais inofensivas, daquelas que não se esforçam para provocar uma forte impressão. Tracey Ullman e Elaine May são as melhores coisas no filme – elas fazem, respectivamente, a esposa e o interesse romântico de Ray, papel interpretado por Woody Allen. A mudança de tom na história, que surge de uma hora para outra, prejudica o resultado: antes um filme de roubo, “Trapaceiros” passa a satirizar a alta sociedade a partir do segundo ato.

Poucas e Boas (Sweet and Lowdown, 1999)
Filme pouco visto de Woody Allen em que Sean Penn incorpora Emmet Ray, um guitarrista de jazz fictício em plena década de 1930 que idolatra Django Reinhardt, encara gângsteres e se apaixona por Hattie (Samantha Morton), uma garota muda. Com admirável reconstituição de época, o cineasta faz uma espécie de homenagem tanto a músicos de trajetória cigana como Reinhardt e Stéphane Grappelli como para “A Estrada”, dirigido por Federico Fellini e um dos seus filmes preferidos. O problema está na inserção de depoimentos de Ben Duncan, Nat Hentoff, Douglas McGrath e do próprio Allen como “estudiosos” da vida e carreira de Emmet Ray.

Judy Davis e Bebe Neuwirth em “Celebridades”.

Celebridades (Celebrity, 1998)
Em sua última colaboração com o diretor de fotografia Sven Nykvist, Woody Allen faz um retrato amargo do mundo das celebridades, com um preto e branco que ressalta a dissimulação dos indivíduos que o habitam. Entretanto, Woody Allen parece perdido em sua própria história. É incapaz de determinar um protagonista e as discussões que levanta sobre a artificialidade que domina aqueles que buscam a fama são esquecidas a todo o momento. A história é sobre Lee Simon (Kenneth Branagh) em contato com várias pessoas envolvidas com a indústria cinematográfica para que mostrem interesse em levar o seu roteiro para as telas, mas também pode ser sobre a sua ex-mulher (Judy Davis) e os percursos que ela atravessa para superar o rompimento.

Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997)
Com elenco de apoio perfeito (Robin Williams, Demi Moore, Kirstie Alley, Amy Irving, entre outros), “Desconstruindo Harry” mostra um roteirista incorporado por Woody Allen com bloqueio criativo que divide o seu tempo discutindo com suas ex-mulheres e contratando prostitutas. Em pequena viagem para receber um prêmio especial, acompanhamos trechos de suas histórias. Há até instantes em que ele passa a interagir com os próprios personagens que criou. A originalidade do roteiro (indicado ao Oscar) é comprometida pela montagem desordenada, que privilegia em demasia os cortes secos. A excelente Hazelle Goodman é a primeira atriz negra a ter um papel de destaque em um filme do diretor.

Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You, 1996)
Em uma realidade em que intérpretes precisam de um vozeirão para estrelar um musical, Woody Allen inova ao fazer o extremo oposto: a exigência feita ao cast de “Todos Dizem Eu Te Amo” foi que eles desempenhassem suas cenas musicais como se estivessem cantando debaixo de um chuveiro. O incômodo está na falta de domínio do realizador ao lidar com este gênero tão complicado. O número musical que envolve aparições fantasmagóricas é feio de se ver. A trama entre os personagens de Woody Allen e Julia Roberts é a versão cômica da ideia trabalhada em “A Outra”.

Woody Allen e Mira Sorvino em “Poderosa Afrodite”.

Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite, 1995)
Woody Allen recebeu uma indicação ao Oscar pelo roteiro desse filme que foca as desventuras de Lenny, um sujeito que decide desvendar quem é a mãe do seu filho adotivo, um garotinho com uma astúcia fora do comum. A busca o leva à Linda Ash (Mira Sorvino), uma atriz de filmes pornográficos que atualmente ganha a vida como prostituta. O problema é que Lenny ignora os constantes alertas de um coro grego, que não acha que ele está fazendo a coisa certa. “Eu vejo desastre. Eu vejo catástrofe. Pior, eu vejo advogados!”, alerta o coro. Em grande performance vencedora do Oscar, Mira Sorvino torna Linda Ash uma figura ainda mais irresistível ao lhe dar um sotaque carregado do Brooklyn e uma sensualidade que jamais soa vulgar.

Quase Um Sequestro (Don’t Drink the Water, 1994)
Originalmente escrita como uma peça (ganhou os palcos da Broadway em 1966), “Quase Um Sequestro” recebeu uma adaptação cinematográfica homônima em 1969. Segundo Woody Allen, o filme de Howard Morris é um dos piores que ele já viu em toda a sua vida. Porém, nada de válido é visto ou acrescentado na versão de 1994, adaptada pelo próprio Woody Allen em formato de telefilme. Após um incidente em plena Guerra Fria, a família Hollander busca refugio na Embaixada Americana para não serem presos. Apoiado por piadas redundantes (os fracassados truques de mágica feitos pelo padre interpretado por Dom DeLuise são repetidos até dizer chega) e performances apagadas, “Quase Um Sequestro” é sem dúvida um dos piores filmes de Woody Allen.

Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway, 1994)
Embora tenha trabalhado com John Cusack em “Neblina e Sombras”, é difícil compreender o motivo que levou Woody Allen em escalá-lo como protagonista de “Tiros na Broadway”. Forçado ao viver um alter ego do diretor, Cusack ainda é totalmente ofuscado pelo grande elenco de apoio, que conta com nomes como Dianne Wiest, Jennifer Tilly e Chazz Palminteri, todos devidamente indicados ao Oscar (Dianne Wiest venceu a estatueta de melhor atriz coadjuvante, sua segunda em um filme de Woody Allen). Fora este pequeno grande problema, “Tiros na Broadway” diverte ao mostrar um malfeitor (Palminteri) cujos pitacos influenciam positivamente o texto de um dramaturgo (Cusack).

Anjelica Huston e Woody Allen em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”.

Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery, 1993)
Embora tenha desejado inserir uma trama de mistério em “Hannah e Suas Irmãs”, a ideia desenvolvida em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan” perseguia Woody Allen desde “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. A espera valeu muito a pena, pois o resultado é um filme que mistura de forma brilhante elementos de humor e suspense. Curiosamente, Diane Keaton substituiu Mia Farrow de última hora (ela rompeu o relacionamento amoroso e profissional com Woody Allen em 1992 após encontrar evidências do envolvimento dele com Soon-Yi Previn, sua filha adotiva). O maior tour de force em toda a carreira de Woody Allen está aqui, em um clímax passado em um salão com espelhos que refletem trechos de “A Dama de Shanghai”, de Orson Welles.

Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992)
Experimento radical, Woody Allen acompanha o cotidiano de dois casais (Allen e Mia Farrow, Sydney Pollack e Judy Davis) usando uma câmera frenética, com cortes secos e nenhuma preocupação estética. O que se vê é assustador, mas reflete muito bem todos os baixos dos personagens, críveis com a exposição de todas as suas imperfeições.

Neblina e Sombras (Shadows and Fog, 1991)
Habituado em rodar em locações, Woody Allen investe uma verdadeira grana na criação dos cenários cobertos por névoa de “Neblina e Sombras”, entrada mal sucedida no universo noir. A sensação é que há dois filmes aqui. O primeiro tem Mia Farrow como Irmy, esposa de um artista circense (John Malkovich) que pula a cerca com Marie (ninguém menos que a Madonna). Já o segundo tem Kleinman (Woody Allen), um atrapalhado detetive. O elo está no assassino em série que cruza os caminhos de Irmy e Kleinman. A melhor coisa aqui é a fotografia assinada pelo italiano Carlo Di Palma, oferecendo uma atmosfera densa que o texto infelizmente não corresponde à altura. Reparem nas participações de Jodie Foster, Kathy Bates e Lily Tomlin como prostitutas, bem como a de Donald Pleasence interpretando um médico legista.

Mia Farrow em “Simplesmente Alice”

Simplesmente Alice (Alice, 1990)
A missão de Woody Allen de rodar uma média de um filme por ano só alegra os seus fãs. Porém, filmes menores, quase insípidos acabam sendo uma inevitável consequência. “Simplesmente Alice” se encaixa perfeitamente nesta categoria e tem como único atrativo as passagens em que a personagem-título encarnada por Mia Farrow consome um chá que a torna invisível. Não à toa, é um dos filmes menos comentados quando se discute a carreira de Woody Allen.

Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989)
Embora tenha assumido posteriormente que poderia ter descartado toda a história que envolve seu personagem, a melhor sacada de Woody Allen em “Crimes e Pecados” foi desenvolver duas tramas que apresentam uma conexão sutil apenas no último ato. Como esperado, Woody Allen é o protagonista da parte cômica como Cliff, diretor de documentários que recebe financiamento do seu cunhado (Alan Alda) para o seu próximo projeto, ainda que o deteste. Na outra história, esta bem dramática, Martin Landau faz Judah, homem casado que mantém um relacionamento com Dolores (Anjelica Huston), que o ameaça de tornar pública a sua pulada de cerca caso não desista de tudo para ficar com ela.

Contos de Nova York – Édipo Arrastado (New York Stories, 1989)
Em “Contos de Nova York”, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen rodaram histórias com aproximadamente quarenta minutos para formar um longa-metragem. Em cada um, vemos os elementos narrativos que tornaram os três cineastas tão cultuados, mas quem se saiu melhor foi mesmo Woody Allen com o seu “Édipo Arrastado”, de longe o melhor segmento de “Contos de Nova York”. Ele vive Sheldon, advogado que namora com Lisa (Mia Farrow) atormentado pela própria mãe (Mae Questel), uma velha que o trata como criança e que desaprova totalmente o relacionamento. As coisas pioram quando ela o perturba no céu nova-iorquino após desaparecer em um truque de mágica. Só assistindo para acreditar – e se divertir, claro.

Gena Rowlands em “A Outra”.

A Outra (Another Woman, 1988)
Um filme que tinha tudo para ser notável, mas que termina sem ao menos nos emocionar. Os inúmeros acertos incluem a escalação da extraordinária Gena Rowlands como protagonista, o casamento perfeito das cenas com a música de Erik Satie e a fotografia de Sven Nykvist que dá ao filme um ar bergmaniano. A história começa promissora, com Marion (Gena Rowlands) ouvindo secretamente as confissões de Hope (Mia Farrow) para o seu terapeuta em sessões que acontecem no apartamento vizinho. Há tensão no prometido encontro entre as duas personagens, mas os inúmeros flashbacks, que ilustram algumas escolhas tomadas por Marion na sua juventude que dizem muito sobre quem ela se tornou, são encaixados de forma inadequada à narrativa.

Setembro (September, 1987)
Curiosidade bizarra: “Setembro” foi filmado duas vezes, contando com um elenco distinto em ambas as versões. A intenção de Woody Allen aqui era fazer um filme passado em um único cenário e com um elenco e equipe minúsculos. A primeira versão o desagradou e fazer ‘Setembro” outra vez lhe custou a saída de atores como Maureen O’Sullivan, Charles Durning e Sam Shepard (que já estava substituindo Christopher Walken) e o seu maior fracasso de bilheteria. Ainda assim, o resultado é bem acima da média e a sensação de teatro filmado é rapidamente esquecida graças a dedicação do elenco. E qualquer semelhança com a vida da atriz Lana Turner (Mia Farrow faz uma mulher traumatizada por ter sido responsabilizada pela morte de um mau elemento com quem sua mãe se relacionava) pode não ser mera coincidência.

A Era do Rádio (Radio Days, 1987)
Filme mais nostálgico de Woody Allen, “A Era do Rádio” retorna aos velhos tempos em que famílias se reuniam para ouvir canções e as principais notícias pelo rádio e o quanto o objeto influenciava a vida de cada membro. Com uma trilha-sonora deliciosa que inclui até mesmo Carmen Miranda, “A Era do Rádio” é também um dos melhores filmes do diretor em relação de equilíbrio entre personagens e suas histórias, cada um com o tempo apropriado em cena. Diane Keaton fecha o filme com chave de ouro fazendo uma participação especial em que canta “You’d Be So Nice to Come Home To”.

Mia Farrow, Barbara Hershey e Dianne Wiest em “Hannah e Suas Irmãs”.

Hannah e Suas Irmãs (Hannah And Her Sisters, 1986)
“Hannah e Suas Irmãs” é o filme mais bem-sucedido de Woody Allen dos anos 1980.  Rendeu a ele inúmeros prêmios, ótima bilheteria e fortaleceu o seu status de grande autor. Visto hoje, não se iguala aos seus maiores momentos. O filme se inicia em um Dia de Ação de Graças e foca a intimidade das irmãs Lee (Barbara Hershey), Holly (Dianne Wiest, que venceu o Oscar pelo papel) e Hannah (Mia Farrow). Hannah é casada com Elliot (Michael Caine, em desempenho superestimado premiado com um Oscar), que por sua vez mantém um relacionamento com Lee, que vive com Frederick (Max von Sydow), um artista recluso – Holly é a irmã loser, uma viciada em cocaína. Alívio cômico do filme, Woody Allen rouba a cena como um sujeito em dúvida quanto a sua própria religiosidade.

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985)
Woody Allen faz uma singela homenagem ao cinema com “A Rosa Púrpura do Cairo”. No filme, Mia Farrow vive Cecilia, uma triste garçonete que vive em uma Nova Jersey tomada pela Grande Depressão Americana com o marido Monk (Danny Aiello), sujeito grosseiro viciado em jogos de azar. A sala de cinema é o refúgio de Cecilia e Tom Baxter (Jeff Daniels), herói do filme “A Rosa Púrpura do Cairo”, passa a lhe fazer companhia ao sair magicamente da tela. O problema é que o filme não pode continuar sem seu protagonista e o ator que incorpora Tom Baxter, Gil Shepherd (também Jeff Daniels) é convocado para persuadir Cecilia e fazer o seu personagem voltar para a tela. Obra que nos marca pela sua melancolia.

Broadway Danny Rose (Broadway Danny Rose, 1984)
Se Martin Scorsese fizesse uma comédia sobre o universo de gângsteres do qual lhe é tão familiar, o resultado estaria próximo desse “Broadway Danny Rose”. Mas é uma obra na qual há bastante influência direta à vida de Woody Allen, uma vez que Danny Rose, agente que incorpora aqui, foi inspirado em Charles Joffe e Jack Rollins, os sujeitos que gerenciavam a carreira de Woody Allen quando ele começou a fazer stand up comedy. O destaque aqui fica por conta de Mia Farrow, que como Tina (amante de um gângster com quem Danny Rose acaba se envolvendo) faz a personagem mais diferente entre as treze colaborações com Woody Allen.

Woody Allen em “Zelig”.

Zelig (Zelig, 1983)
Realizado simultaneamente com “Sonhos Eróticos Numa Noite de Verão”, “Zelig” apresenta um Woody Allen experimental em sua melhor forma. Ele retoma o estilo mockumentary de “Um Assaltante Bem Trapalhão” para contar a curiosa história de Leonard Zelig, um autêntico homem-camaleão: ele tem a habilidade de incorporar qualquer pessoa que lhe seja conveniente. O ápice é atingido quando Zelig é visto próximo a Hitler em plena Segunda Guerra Mundial (o filme utiliza uma série de arquivos de época). Filme mais curto da filmografia de Woody Allen, recebeu indicações ao Oscar nas categorias de melhor fotografia e figurino.

Sonhos Eróticos Numa Noite de Verão (A Midsummer Night’s Sex Comedy, 1982)
Após a morna recepção do autoral “Memórias”, Woody Allen se inspira em outro filme de Ingmar Bergman (“Sorrisos de Uma Noite de Amor”) para fazer uma comédia leve, realizada com um elenco pequeno e tendo uma bela casa no campo como cenário. Escrito em apenas duas semanas, a comédia é uma das mais esquecíveis em toda a carreira do cineasta, sobressaindo-se apenas pelo tom fantástico que predomina a narrativa. Indicada ao Framboesa de Ouro pelo papel, Mia Farrow inicia uma parceria com Woody Allen que se estenderia consecutivamente por mais doze filmes.

Memórias (Stardust Memories, 1980)
Woody Allen faz o seu “8½” de Fellini nesta história de um célebre cineasta em viagem para um festival para receber um prêmio especial pela sua carreira, rapidamente convertida em uma jornada emocional que o fará reviver lembranças e amores de sua vida. Fotografado em esplêndido preto e branco por Gordon Willis, “Memórias” causa estranhamento para quem está acostumado a acompanhar as comédias do cineasta e carece da intensidade dramática vista em “Interiores”. Há pontas de Sharon Stone e Louise Lasser, contribuição em um período em que já havia se divorciado de Woody Allen.

Meryl Streep e Woody Allen em “Manhattan”.

Manhattan (Manhattan, 1979)
Comédia romântica que quase reprisou o sucesso de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Manhattan” faz a cidade-título ser tão protagonista da história quanto Isaac (Woody Allen). A fotografia em preto e branco de Gordon Willis só torna ainda mais deslumbrante os cenários em que transitam os personagens. A história se apoia no namoro de Isaac com Mary (Diane Keaton) e também nas farpas que ele ainda troca com Jill (Meryl Streep), que o largou após se assumir lésbica e que dedica o seu tempo escrevendo um livro em que irá relatar o seu desastroso casamento com ele. Porém, o que realmente vale o filme é a delicadeza com que acontece o envolvimento de Isaac, um homem de 42 anos, com Tracy (Mariel Hemingway), uma estudante com apenas 17 anos.

Interiores (Interiors, 1978)
Pela primeira vez em sua carreira, Woody Allen faz uma homenagem a Ingmar Bergman, um dos seus diretores favoritos. Em “Interiores”, Renata (Diane Keaton), Joey (Mary Beth Hurt, em grande desempenho) e Flyn (Kristin Griffith) são irmãs cheias de atritos que são obrigadas a se reaproximarem para auxiliarem a mãe Eve (Geraldine Page), que entra em um estado de depressão profunda com o repentino pedido de divórcio do marido (E.G. Marshall). Esplêndida radiografia de uma família despedaçada e que marca o espectador por apresentar uma visão menos otimista sobre a vida.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977)
Comédia romântica com fórmula infalível e inimitável, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” foi fundamental para consolidar Woody Allen como um artista sério e que iria muito além da sátira e humor físico presentes em seus trabalhos prévios. Trinta e cinco anos depois, o filme permanece moderno no retrato de realiza de um casal com todos os seus altos e baixos. Para se ver inúmeras vezes.

Diane Keaton e Woody Allen em “A Última Noite de Boris Grushenko”.

A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death, 1975)
Primeiro grande filme de Woody Allen, “A Última Noite de Bóris Grushenko” prova seu avanço como diretor e roteirista. A história é bem amarrada e o trabalho técnico é impecável. Boris Grushenko (Woody Allen) é um covarde forçado a se alistar para o exército para salvar a Rússia das invasões francesas. Diane Keaton vive Sonja, mulher que não corresponde às investidas amorosas de Boris.

O Dorminhoco (Sleeper, 1973)
Com um ponto de partida promissor, Woody Allen mostra o deslocamento de um sujeito congelado em 1973 e reanimado duzentos anos depois. O cineasta faz uma sátira ácida ao artificialismo da modernidade e a um governo opressor, mas o seu filme se sustenta apenas por gags visuais, como aquela em que seu personagem se disfarça como robô ou quando se depara com frutas e legumes em tamanhos gigantescos. Primeira parceria no cinema com Diane Keaton.

Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar (Every Thing You Always Wanted to Know About Sex * But Where Afraid to Ask, 1972)
Por meio de sete segmentos (“Os afrodisíacos funcionam?”, “O que é sodomia?”, “Por que algumas mulheres têm problemas de orgasmo?”, “Os travestis são homossexuais?”, “O que são perversões sexuais?”, “Os experimentos e as pesquisas sobre sexo feitas pelos cientistas médicos são válidas?” e “O que acontece durante a ejaculação?”) Woody Allen prova que qualquer filme neste formato terá momentos que irão se sobressair em comparação com outros. A boa notícia é que o resultado de cada um deles é no mínimo bom. Destaque especial para “Por que algumas mulheres têm problemas de orgasmo?”, em que Woody Allen apresenta o seu melhor momento como ator em uma história que, no fundo, homenageia (ou satiriza?) o cinema italiano.

Homens da Crise – A História de Harvey Wallinger (Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story, 1971)
Único filme da filmografia de Woody Allen que não assistimos. Também, não há outra: mockumentary produzido para a tevê que satiriza a administração de Nixon, “Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story” ia ser exibido em fevereiro de 1972, mas acabou sendo banido pela emissora após a pressão exercida pelo próprio Nixon. Há quem diga que a obra pode ser vista na Paley Center for Media situada em Nova York.

Sylvester Stallone, Woody Allen e Anthony Caso em “Bananas”.

Bananas (Bananas, 1971)
Melhor que “Um Assaltante Bem Trapalhão”, “Bananas” nos mostra as desventuras do ingênuo Fielding em conquistar o coração de uma ativista política (papel de Louise Lasser). Para provocar uma forte impressão, ele viaja para San Marcos e se une aos rebeldes, o que consequentemente o tornará um líder político. O humor físico de Woody Allen é a grande estrela da comédia, que traz uma ponta-relâmpago de ninguém menos que Sylvester Stallone. Em tempo: questionado sobre o título da comédia, Woody Allen respondeu que foi batizado assim porque não há bananas no filme. Gênio.

Um Assaltante Bem Trapalhão (Take the Money and Run, 1969)
Verdadeiro loser na infância, Virgil Starkwell cresce com o desejo de se tornar um ladrão. Todas as tentativas de roubo resultam frustradas pelo despreparo do sujeito, que sempre acaba na cadeia. A melhor piada é a que envolve uma pistola feita de sabão, guardas feitos de reféns e chuva. A fita se sobressai pelo até então pioneiro estilo mockumentary, que mais tarde influenciaria cineastas como Rob Reiner e Christopher Guest.

O Que Há, Tigresa? (What’s Up, Tiger Lily?, 1966)
Mais uma brincadeira do que propriamente cinema, Woody Allen tem “O Que Há, Tigresa?” como o seu primeiro filme em que é creditado como diretor. Uma vez com um filme japonês obscuro em mãos, Woody Allen modifica toda a narrativa ao inserir novos diálogos no processo de redublagem. Antes um filme de espionagem com um agente incumbido de encontrar um microfilme secreto, agora a história se trata sobre a busca por uma receita de salada de ovos (!). Com momentos inegavelmente engraçados, Woody Allen se perde no processo da livre adaptação.

Diretor: Woody Allen | Trabalho | Parte II

Goldie Hawn dança em “Todos Dizem Eu Te Amo”: cena com efeitos especiais e nenhum corte.

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Independente se for uma comédia, um drama, um romance ou até mesmo um suspense, um espectador que conhece uma boa parte da filmografia de Woody Allen sabe exatamente o que esperar de um filme seu ao comprar o ingresso. Isto não significa que este mesmo espectador não possa sair surpreendido com o que acabou de assistir. Agora, se você desconhece o trabalho deste que talvez seja o autor mais original ainda em atividade no cinema americano, nunca é tarde demais para correr atrás das suas obras. No entanto, os comentários acerca dos quarenta e seis filmes dirigidos por Woody Allen estarão presentes apenas na terceira e última parte do especial que preparamos, pois agora desvendaremos as razões que o tornam um roteirista e um diretor único.

Elementos do cinema de Woody Allen:

  •  Personagens neuróticos;
  •  Adultérios;
  •  Dramas bergmanianos;
  •  Alter ego;
  •  Cenário como personagem;
  • Universo sem um deus, a sorte é o que nos guia;
  • Conjugues com grande diferença de idade;
  • Histórias que não se valem de tendências atuais;
  • Uso de música clássica e jazz;
  • Diálogos/sacadas singulares;
  • Parcerias com membros de equipe e elenco que se repetem.

De “O Que Há, Tigresa?” até “O Dorminhoco”, Woody Allen ainda é um cineasta inexperiente. Os seus filmes deste período estavam mais preocupados em apresentarem gags visuais do que propriamente contar uma boa história. Isto se vê especialmente em “O Dorminhoco”, em que os engraçados elementos em cena que pertencem a um futuro ainda distante (precisamente, 2173, ano em que há frutas e vegetais gigantes e grandes cápsulas capazes de nos dar múltiplos orgasmos) ofuscam totalmente o interesse em acompanhar a jornada de Miles Monroe (o próprio Allen). Isto passa a mudar a partir de “A Última Noite de Boris Grushenko”. Ainda há muitas gags visuais (é especialmente hilária aquela que fecha o filme, em que Woody Allen dança alegremente com a morte ao som de uma música do russo Sergei Prokofiev), mas nos ficamos envolvidos com a história do ingênuo e atrapalhado soldado incumbido de defender a Rússia da invasão francesa. Sem dizer que “A Última Noite de Boris Grushenko” é tecnicamente impecável: Woody Allen contou com a colaboração do diretor de fotografia Ghislain Cloquet (“Tess – Uma Lição de Vida”) e do diretor de arte Willy Holt (“Paris Está em Chamas?”) para garantir opulência à fita.

Mia Farrow, Diane Keaton, Diane Wiest e Judy Davis: musas de Woody Allen.

Nesta fase inicial de sua carreira, é possível notar também a preferência de Woody Allen em trabalhar com profissionais repetidas vezes. Em “O Dorminhoco”, temos a primeira parceria de Woody Allen e Diane Keaton nas telas (eles voltariam a trabalhar juntos em “A Última Noite de Boris Grushenko”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Interiores”, “Manhattan”, “A Era do Rádio” e “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”). O editor Ralph Rosenblum também é um nome muito importante para Woody Allen. Ele não apenas auxiliou Allen em “Um Assaltante Bem Trapalhão” (que pode ser considerado o seu primeiro filme, pois em “O Que Há, Tigresa?” a real preocupação se concentrava apenas em sua redublagem) como montou cinco de seus filmes (a parceria terminou em “Interiores”).

O trio que vem após “A Última Noite de Bóris Grushenko”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Interiores”, “Manhattan”, resume ainda melhor o artista consagrado que tanto adoramos hoje em dia. Em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, Woody Allen deu um novo sentido para as comédias românticas, criando um retrato crível de um relacionamento entre um homem e uma mulher um tanto neuróticos moldado por altos e baixos. Também não há como não ressaltar os diálogos, cheio de sacadas brilhantes. Como não se lembrar da anedota usada pelo personagem interpretado por Woody Allen para comparar o relacionamento com Annie (Diane Keaton)?

Paciente: Doutor, o meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha.
Psiquiatra: Por que você não o interna?
Paciente: Até internava, mas preciso dos ovos.

Mesmo que não considere um dos seus melhores trabalhos, “Interiores” é o melhor drama já dirigido por Woody Allen e que provocou na audiência da sua época o mesmo choque que “Match Point” provocou em nós. Nunca foi um segredo que Woody Allen sempre foi um grande admirador de Ingmar Bergman, mas somente nesta fita é que ele faz um verdadeiro tributo ao realizador sueco. Os principais elementos em “Interiores” que remetem ao cinema de Ingmar Bergman são as tomadas silenciosas, a ausência total de uma trilha-sonora, um foco delicado nas mulheres e uma atmosfera melancólica, alcançada através do trabalho do diretor de fotografia Gordon Willis, os figurinos assinados por Joel Schumacher (sim, o mesmo sujeito que duas décadas depois faria “Batman & Robin”) que vestem os personagens como se estivessem de luto e os ambientes em que não há nenhum calor humano assinados pela dupla Daniel Robert e Mel Bourne.

Jonathan Rhys Meyers em uma cena de “Match Point” que representa uma das marcas de Woody Allen: o crime mais dramático é aquele que o público não vê de forma explícita.

Para fechar o trio, finalmente temos “Manhattan”. Fotografado em belo preto e branco, a história traz outros elementos que se tornaram constantes nos textos de Woody Allen. Além de adultérios e relacionamentos entre indivíduos com idades bem diferentes (Woody Allen interpreta Isaac, sujeito divorciado com quarenta e dois anos que namora uma estudante de dezessete anos feita por Mariel Hemingway), “Manhattan” transforma a cidade-título em um verdadeiro protagonista. Assim como no recente “Meia-noite em Paris”, o diretor reserva uma introdução de aproximadamente quatro minutos para mostrar os mais belos pontos do lugar em que ele situará seus personagens.

Woody Allen aprendeu tudo que sabe na prática e se diz um diretor incorrigivelmente preguiçoso. Isto nunca foi motivo para ele não ser considerado um dos maiores cineastas da história do cinema, integrante de um grupo em que há nomes como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Alfred Hitchcock, Francis Ford Coppola e outros. Um olhar mais atento em seus filmes revelam um talento natural e que consegue elaborar ao menos uma grande cena para ficar na memória. Este resultado é alcançado por dois fatores fundamentais.

Melanie Griffith corre desesperadamente em “Celebridades”: fotografia assinada pelo sueco Sven Nykvist, braço direito de Ingmar Bergman.

O primeiro fator é o relacionamento de Woody Allen com o diretor de fotografia. Ciente de suas limitações, resta se apoiar naquele que o auxiliará em fazer com que o filme seja o mais fiel possível a sua imaginação, uma vez que ele acredita que o processo de escrever é muito mais enriquecedor do que o de dirigir. A atmosfera dos filmes de Woody Allen varia de acordo com o diretor de fotografia da vez. Percebam que a colaboração de Woody Allen com Sven Nykvist (o braço direito de Ingmar Bergman) renderam aquelas que são as obras que trazem um lado mais amargo da vida (“A Outra”, “Crimes e Pecados”, “Celebridades”) enquanto algumas colaborações com Carlo Di Palma resultaram em filmes mais iluminados, coloridos (“A Era do Rádio”, “Simplesmente Alice”, “Tiros na Broadway”, “Poderosa Afrodite”).

Woody Allen também detesta fazer muitas tomadas e usa planos-sequência sempre que soar positivo para a narrativa. Uma vez ou outra o uso se mostra enfadonho (a exemplo de “Igual a Tudo na Vida”, com interações que parecem jamais acabar), mas já rendeu cenas memoráveis: o instante em que Goldie Hawn começa a dançar com Woody Allen em “Todos Dizem Eu Te Amo” é uma tomada sem um corte. Há também certo experimentalismo em filmes como “Maridos e Esposas” e “Desconstruindo Harry”: a câmera na mão quase agressiva do primeiro e os cortes secos do segundo são reflexos do universo de seus personagens centrais.

ATUAÇÕES

Woody Allen como Jimmy Bond em “Cassino Royale”: mal sucedida paródia ao universo de James Bond.

Woody Allen deu as caras como intérprete ao menos em 2/3 dos filmes que dirigiu. Em todos, fez uma versão de si mesmo. Não importa se ele está incorporando um mágico (“Scoop – O Grande Furo”), um roteirista com bloqueio criativo (“Desconstruindo Harry”) ou um sujeito em dúvida com os próprios credos (“Hannah e Suas Irmãs”), sempre estaremos diante do homem que gagueja e gesticula sem parar e que parece estar à beira de um ataque de nervos. Trata-se de um padrão de interpretação que todos aprenderam a admirar, embora revele um ator limitadíssimo. Mas o que importa é ver Woody Allen interpretando Woody Allen. Ou vai dizer que há coisa melhor em “Para Roma, Com Amor” do que vê-lo em frente às câmeras após ficar afastado dessa posição desde “Scoop – O Grande Furo”?

De qualquer forma, Woody Allen está ciente dos seus limites como ator. Foi por isso que descartou a possibilidade de reservar para si algum papel em filmes como “Tiros na Broadway”, “Celebridades”, “Tudo Pode Dar Certo” e “Meia-noite em Paris”. Não que tenha mudado muita coisa: os protagonistas desses filmes, John Cusack, Kenneth Branagh, Larry David e Owen Wilson, são nada mais, nada menos do que alter egos de Woody Allen, repetindo em cena todas as suas famosas peculiaridades.

Woody Allen contracena com Judy Davis em “Para Roma, Com Amor”: versão de si mesmo.

Uma curiosidade é que Woody Allen gosta de brincar como ator e costuma dar uma resposta positiva sempre que surge um convite de outro diretor para interpretar algum pequeno ou grande papel. Embora considerada uma comédia ruim por unanimidade, sua participação em “Cassino Royale”, uma paródia de James Bond, é impagável. Woody Allen também já foi dirigido por Herbert Ross (“Sonhos de Um Sedutor”), Martin Ritt (“Testa-de-ferro Por Acaso”), Paul Mazursky (“Cenas de Um Shopping”), John Erman (no telefilme “Feitos Um Para o Outro”), Stanley Tucci (“Os Impostores”) e até mesmo Alfonso Arau (“Juntando os Pedaços”).

Atualmente, ele está de contrato assinado para protagonizar “Fading Gigolo”, filme em que contracenará com John Turturro, diretor e roteirista da produção. Em pré-produção, a comédia acompanhará dois amigos judeus que decidem reviver os tempos em que eram gigolôs com a intenção de descolar uma grana extra.

Obs: A nossa postagem sobre a vida e carreira de Woody Allen será dividida em três partes.

Diretor: Woody Allen | Perfil | Parte I

Quem é Woody Allen?

Dentro de um saco plástico há inúmeras folhas destacadas tanto de cadernos de bolso como de blocos para anotações com a logomarca de vários hotéis de luxo situados em algumas cidades na Itália, como o Hotel Gritti Palace (Veneza), a Villa d’Este (Cernobbio) e o Hotel Hassler (Roma). Mesmo que a caligrafia seja ilegível, é possível compreender que há nestas folhas notas que descrevem brevemente algumas ideias para desenvolvimento de histórias e personagens – neste caso em particular, os elementos que formariam o roteiro de “Crimes e Pecados”, para o qual Woody Allen seria indicado ao Oscar, Bafta e o Writers Guild of America.

É exatamente assim que nascem as histórias escritas por Woody Allen, nascido Allan Stewart Konigsberg no dia 1 de dezembro de 1935: em pequenos pedaços de papel, que posteriormente ganham formas em uma velha máquina de escrever. O mistério é desvendar a origem do dom para a escrita deste nova-iorquino que passou a infância no Brooklyn tocando sua clarineta e brincando de mágico. Talvez porque desde cedo, aos quinze anos, investiu em sua veia cômica escrevendo piadas semanalmente para jornais locais, todas inspiradas na vivência com sua família judia e com os colegas e professores da escola, embora em muitos momentos tenha matado aula para assistir filmes atualmente considerados grandes clássicos do cinema americano e europeu.


O Começo

Woody Allen em “O Que Há, Tigresa?”: primeiro longa-metragem creditado como diretor.

 A entrada de Woody Allen no show business se deu com o enorme sucesso que fez com stand up comedy, lhe abrindo portas para escrever roteiros de filmes e séries televisivas entre 1950 a 1963. Os trabalhos que Woody Allen realizou neste período podem não ter sobrevivido ao tempo, mas foram suficientemente importantes para lhe garantir segurança para escrever “O Que É Que Há, Gatinha?”, o seu primeiro trabalho em longa-metragem para cinema como roteirista, realizado enquanto tinha 28 anos. Peter Sellers, Peter O’Toole, Romy Schneider e Ursula Andress eram os nomes principais no elenco da comédia.

Logo após “O Que é Que Há, Gatinha?”, Woody Allen estava envolvido com o filme que representaria o seu debut como cineasta. Trata-se de “O que Há, Tigresa?”, uma brincadeira com uma artimanha que atualmente é uma febre: a redublagem de materiais filmados em outro idioma. No caso de “O que Há, Tigresa?”, o cineasta modificou toda a história e diálogos de um filme japonês obscuro. Três anos depois, mais um filme como cineasta com uma nova artimanha pioneira: em “Um Assaltante Bem Trapalhão”, Allen inaugura o mockumentary, ou falso documentário. Séries como “Modern Family” e “The Office” e a maioria dos filmes de Christopher Guest (“Esperando o Sr. Guffman”, “O Melhor do Show”) são claras influências do estilo.


Anos 70: Amadurecimento

Diane Keaton e Woody Allen contracenando em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”: amadurecimento e consagração.

“Bananas”, “Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar” e “O Dorminhoco” são comédias com momentos que ficam gravados na memória de tão hilários, mas o grande Woody Allen que conhecemos hoje se mostra apenas a partir de “A Última Noite de Bóris Grushenko”. É nesta comédia de época, uma sátira filosófica que destaca um plano para assassinar Napoleão, que ele compensa a ausência de uma formação formal como realizador, fazendo um filme impecável em todos os sentidos.

A seguir, vem “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, o filme que consagra Woody Allen como um dos maiores artistas autorais americanos. A melancólica história é centrada em Alvy Singer (o próprio Allen) e Annie Hall (Diane Keaton), que formam um casal com altos e baixos que são mostrados ao longo de uma hora e meia. Grande sucesso de bilheteria, a fita arrebatou quatro Oscar (melhor filme, diretor, atriz e roteiro original) e é considerada por muitos como a obra-prima do cineasta. Há ainda “Interiores” e “Manhattan” produzidos na mesma década. “Interiores” é de longe o drama mais bergmaniano de Woody Allen enquanto “Manhattan” ele quase repete o mesmo sucesso que experimentou com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”.


Anos 80: Nostalgia e Intimidade

Gena Rowlands e Gene Hackman em cena de “A Outra”: maior compreensão sobre o íntimo dos personagens.

Woody Allen não entrou nos anos 1980 em sua melhor forma. “Memórias” e especialmente “Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão” são duas produções com histórias que não envolvem emocionalmente. Alguns podem discordar sobre isto quanto a “Memórias”, do qual o próprio Woody Allen considera um dos seus melhores filmes e constantemente associado a “8½” (uma das obras mais populares de Federico Fellini). De qualquer forma, Woody Allen retoma o fôlego em suas obras posteriores. Com exceção de “Zelig” (o retorno de Woody Allen ao estilo mockumentary de “Um Assaltante Bem Trapalhão”) e o segmento “Édipo Arrastado” de “Contos de Nova York”, os seus filmes deste período parecem nos comunicar muito sobre quem realmente foi Woody Allen antes da fama.

“A Rosa Púrpura do Cairo” tem lances fantasiosos, mas é, acima de tudo, uma verdadeira homenagem ao cinema e que representa todo o amor de Woody Allen por esta arte capaz de produzir imagens poderosas. Já “A Era do Rádio” parece ainda mais autobiográfico, com os inúmeros acontecimentos de uma época que não voltará jamais. Quando era questionado em entrevistas sobre essas ligações, Woody Allen as negava. No entanto, nunca conseguiu se desassociar de “Broadway Danny Rose”, do qual admite ter se inspirado no relacionamento com os seus agentes quando ainda fazia stady up comedy. Já “Hannah e Suas Irmãs”, “Setembro”, “A Outra” e “Crimes e Pecados” é onde se vê Woody Allen mergulhando no íntimo dos seus personagens com uma intensidade vista somente em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “Interiores”.


Anos 90: Contemporaneidade

Judy Davis, Woody Allen e Mia Farrow em “Maridos e Esposas”: crises de casais modernos.

Aqui, Woody Allen lançou três obras que fazem o espectador mergulhar em outra época. Elas são “Neblina e Sombras”, “Tiros na Broadway” e “Poucas e Boas”. Neste trio, só obteve sucesso com “Tiros na Broadway”, notório por ser o seu último filme a encantar as principais premiações cinematográficas (bom, isto até “Meia-noite em Paris”).

A verdade é que nesta década Woody Allen precisava se inovar, uma vez que se viu diante de uma plateia muito distinta daquela que o acompanhou com grande entusiasmo nas décadas anteriores. Assim, passou a compreender as relações modernas com “Simplesmente Alice” e “Maridos e Esposas”, arriscou se aventurar pelo thriller em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”, fez de Mira Sorvino uma carismática prostituta em “Poderosa Afrodite”, transformou “Todos Dizem Eu Te Amo” em um musical contemporâneo, encenou a artificialidade das relações humanas em “Desconstruindo Harry” e também da fama em “Celebridades” e até rodou um filme para a tevê, “Quase Um Sequestro”.


2000-2012: Filmes Menores e Novos Rumos

Woody Allen dirige a sua mais nova musa Scarlett Johansson em “Match Point”, obra-prima do cineasta.

Qualquer fá de Woody Allen reconhece que o começo dos anos 2000 foi aquele a representar a fase menos inspirada em toda a sua carreira. Com um contrato de quatro filmes com a Dreamworks (estúdio de Steven Spielberg), o diretor pareceu ter se deslumbrado demais com o orçamento um pouco acima daquilo que estava habituado, criando histórias esquecíveis. “Trapaceiros”, “O Escorpião de Jade” (talvez o filme mais caro de toda a sua carreira – custou 26 milhões de dólares), “Dirigindo no Escuro” e “Igual a Tudo na Vida” (aquele que, particularmente, considero o seu pior filme) são exatamente assim.

Livre da Dreamworks, Woody Allen teria que arregaçar as mangas caso quisesse continuar rodando um filme por ano, uma vez que ninguém mais ia aos cinemas conferir os seus longas. “Melinda e Melinda”, que ele fez com dinheiro da Fox Searchlight Pictures (a Fox independente), não cativou com sua mistura confusa entre drama e comédia. A grande virada estava para vir a seguir com “Match Point”, esplêndido thriller que se tornou o maior sucesso financeiro em toda a sua carreira (lugar atualmente ocupado por “Meia-noite em Paris”). O filme apresentou um Woody Allen que ninguém conhecia e também se tornou a primeira produção rodada por ele fora de Nova York.

Com exceção de “Tudo Pode Dar Certo”, todos os roteiros que escreveu após “Match Point” foram feitos para o que a imprensa apelidou de “tour de Woody Allen pela Europa”, havendo mais três paradas na Inglaterra (“Scoop – O Grande Furo”, “O Sonho de Cassandra” e “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”), uma na Espanha (“Vicky Cristina Barcelona”), uma na França ( “Meia-noite em Paris”) e uma na Itália (“Para Roma, com Amor”). Atualmente, Woody Allen filma um projeto ainda sem título na sua querida Nova York, contando com Cate Blanchett (com quem finalmente realiza o sonho de trabalhar junto), Alec Baldwin (em terceira parceria após “Simplesmente Alice” e “Para Roma, Com Amor”) e Sally Hawkins (com quem já havia trabalhado em “O Sonho de Cassandra”).


Vida Pessoal

Soon-Yi Previn (esquerda), Mia Farrow (centro) e Woody Allen (direita): relação polêmica.

Woody Allen é famoso pelas atitudes cafajestes com o poder que exerce como autor. Afinal, só mesmo na ficção para um sujeito pequenino, que ostenta óculos com grossa armação negra, falastrão e magricela para conseguir levar para a cama personagens interpretadas por beldades como Julia Roberts (“Todos Dizem Eu Te Amo”) e Mira Sorvino (“Poderosa Afrodite”). Porém, se engana quem o ache incapaz de seduzir belas mulheres com suas neuroses para o lado de cá da tela. Ainda jovem, Woody Allen teve um relacionamento de seis anos com Harlene Susan Rosen (o divórcio se deu em 1962). Quatro anos depois, se casou com Louise Lasser, atriz que incorporou personagens de destaque nos seus primeiros longas-metragens. Novamente acabou em divórcio, o que o fez namorar com Diane Keaton por algum tempo – ambos chegaram a viverem juntos, mas no fim acabaram sendo apenas bons amigos.

O capítulo polêmico dos relacionamentos de Woody Allen se chama Mia Farrow. Musa em nada menos do que treze filmes seguidos, Mia foi trocada por ninguém menos que Soon-Yi Previn, filha adotiva de Mia nos tempos em que ainda era casada com o compositor alemão André Previn. Casados desde o final de 1997, Woody Allen e Soon-Yi Previn têm dois filhos e atualmente vivem tranquilos sem o escândalo provocado na época em que a união se tornou pública.

Nos tempos livres, Woody Allen curte a família e pratica exercícios regularmente, o que justifica a sua vitalidade ao dirigir com nada menos do que 76 anos. Também continua tocando a clarineta com a sua banda em bares nova-iorquinos (o hobby tornou notório o episódio em que Woody Allen faltou à cerimônia do Oscar que consagrou “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, pois ele preferiu tocar com a sua banda ao invés de pegar as estatuetas de melhor direção e roteiro). No entanto, o seu vício em produzir observações que futuramente se converterão em filmes permanece incurável. Se ele estiver hospedado em quartos de hotéis luxuosos ou caminhando a esmo pelas ruas de Nova York pode ter certeza de que inspirações estão surgindo para seu próximo filme.

Obs: A nossa postagem sobre a vida e carreira de Woody Allen será dividida em três partes.

Virgínia

Talvez alguns não saibam que muito antes de realizar filmes como “O Poderoso Chefão” e “Apocalipse Now”, considerada duas obras-primas do cinema, Francis Ford Coppola deu os seus primeiros passos dirigindo filmes B de horror. “Demência 13”, produção que custou apenas 30 mil dólares, representa um desses passos. Não é surpresa que Coppola volte ao gênero que o lançou nesta fase de sua carreira: está dirigindo cada vez menos e desde “Drácula de Bram Stoker” que é incapaz de entregar um filme excelente.

O espírito de filme B em “Virgínia” é logo imprimido na escolha de seu protagonista, Val Kilmer, atualmente associado a fitas cafajestes lançadas para o mercado de homevideo e com uma aparência bem distante daquela de galã que conquistou o coração de tantas pessoas nos anos 1990 em filmes como “The Doors” e “Batman Eternamente”. Ele é Hall Baltimore, um escritor em decadência que vai promover o seu mais recente romance em uma livraria/mercadinho de uma cidade minúscula que tem ao menos três atrativos: uma torre com sete relógios que misteriosamente mostram horários desiguais, um pequeno alojamento em que Edgar Allan Poe aparentemente se hospedou em um momento de sua vida e uma lenda de crianças que foram assassinadas em um ritual macabro.

Após uma noite em que sonha com Edgar Allan Poe (vivido de maneira impecável por Ben Chaplin) e com uma das vítimas do massacre, V (Elle Fanning, atriz da qual Francis Ford Coppola pegou emprestado de sua filha Sofia após “Um Lugar Qualquer”), Hall acorda inspirado para escrever um romance sobre vampiros. Diz para a esposa (Joanne Whalley) que adiará o seu retorno para casa e solicita um adiantamento para seu editor (David Paymer) para começar a pesquisa em parceria com o xerife Bobby LaGrange (Bruce Dern). O problema é que Hall consegue conexão com as histórias macabras da cidade apenas ao dormir, conseguindo habitar um universo sobrenatural que poderá lhe trazer lembranças desagradáveis (ele perdeu a sua única filha em um acidente) e colocar sua própria vida em risco.

O cineasta, que exibiu “Virgínia” em formato 3D em alguns festivais de cinema, traduz os sonhos de Hall com imagens impressionantes, com atmosfera gótica e presença de Edgar Allan Poe que seduzem o espectador. O erro está concentrado no texto, que navega por gêneros e estilos sem a menor sutileza. “Virgínia” é um filme de terror assumido, mas há passagens que vão da comédia (os letreiros finais são impagáveis) ao puro trash (o aparelho odontológico que salta em direção do protagonista quando um personagem se transforma em vampiro). Com a carreira que tem, Francis Ford Coppola não pode se dar ao luxo de fazer um filme em que há tantas incertezas.

Título Original: Twixt
Ano de Produção: 2011
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola
Elenco: Val Kilmer, Bruce Dern, Elle Fanning, Ben Chaplin, Joanne Whalley, David Paymer, Anthony Fusco, Alden Ehrenreich, Bruce A. Miroglio, Don Novello, Ryan Simpkins, Lucas Rice Jordan, Fiona Medaris, Katie Crom e narração de Tom Waits

10 Melhores Filmes de 2012 – 1º Semestre

Metade do ano já foi embora e com ele o cinéfilo pode deduzir o que esperar do que ainda resta dele. Todos os principais indicados ao Oscar 2012 já foram exibidos nos cinemas e estão disponíveis em DVD, mas neste segundo semestre é possível que uma boa quantidade de títulos que devem marcar presença da próxima edição da premiação cheguem aos cinemas. Sobre filmes brasileiros, houve uma incrível melhora em comparação ao ano passado e a esperança é que filmes como “E a Vida Continua…”, “Gonzaga – De Pai Para Filho” e “O Abismo Prateado” ajudem a consolidar o nosso cinema. Por fim, os blockbusters em geral não cumpriram com as expectativas, um indício de que devemos encarar com mais cautela os “pipocões americanos” que ainda estão por vir.

O Cine Resenhas assistiu a mais de cem títulos lançados durante a primeira metade do ano, o que inclui os filmes que não tiveram a chance de serem exibidos em uma sala de cinema, mas que chegaram em homevideo. Com isto, fizemos uma lista com os dez melhores filmes do ano, considerando apenas os filmes lançados entre janeiro e junho. Apesar da demora para a seleção sair do forno, nunca é tarde para correr atrás do melhor que o cinema mundial andou produzindo. Confiram.

10. Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca

09. Os Descendentes, de Alexander Payne

08. A Separação, de Asghar Farhadi

07. Para Roma, Com Amor, de Woody Allen

06. Bastidores de Um Casamento, de Sam Levinson

05. Millenium II – A Menina Que Brincava com Fogo, de Daniel Alfredson

04. Guerreiro, de Gavin O’Connor

03. A Delicadeza do Amor, de David Foenkinos e Stéphane Foenkinos

02. Precisamos Falar Sobre o Kevin, de Lynne Ramsay

01. O Artista, de Michel Hazanavicius

Resenha Crítica | Um Negócio Nada Seguro (2011)

Miguel Arteta é um dos cineastas independentes mais originais em atividade. Na maioria dos seus trabalhos, conseguiu extrair de personagens comuns histórias inusitadas e envolventes. Infelizmente, o público não tem dado a devida atenção aos seus filmes, todos com tímidos rendimentos de bilheteria. A boa notícia é que sem trabalhar com a pressão de grandes estúdios, Miguel Arteta continua com a liberdade artística intacta, como prova “Um Negócio Nada Seguro”, filme que chega ao Brasil direto em DVD com um ano e meio de atraso.

O título original, Cedar Rapids, é o nome de uma cidade do estado norte-americano de Iowa. É para lá que Tim Lippe (interpretado pelo carismático Ed Helms, de “Se Beber, Não Case”), um vendedor de seguros com a missão de representar sua empresa em uma convenção. Careta, Tim parece deslocado longe de Macy Vanderhei (Sigourney Weaver, em uma participação inspiradíssima), uma professora com quem tem um relacionamento aberto. As preocupações profissionais e pessoais vão para o espaço quando ele conhece Dean (John C. Reill), Ronald (Isiah Whitlock Jr.) e Joan (Anne Heche), também vendedores de seguros que irão farrear na maior parte do tempo em Cedar Rapids.

Mesmo que a história sempre indique as práticas fraudulentas da empresa em que Tim trabalha, o que torna “Um Negócio Nada Seguro” acima da média é o perfil que desenha do personagem, um sujeito que passou os seus trinta e quatro anos de vida de forma careta. A estadia em Cedar Rapids fará Tim amadurecer e só o fato de Dean, Ronald e Joan serem pessoas tão simpáticas quanto ele a comédia se torna ainda mais irresistível, comprovando a habilidade de Miguel Arteta na criação de dinâmica entre personagens.

Título Original: Cedar Rapids
Ano de Produção: 2011
Direção: Miguel Arteta
Roteiro: Phil Johnston
Elenco: Ed Helms, John C. Reilly, Anne Heche, Isiah Whitlock Jr., Stephen Root, Kurtwood Smith, Alia Shawkat, Thomas Lennon, Rob Corddry, Mike O’Malley, Inga R. Wilson, Mike Birbiglia, Seth Morris e Sigourney Weaver

O Pacto

Após uma performance perfeita na versão de “Vício Frenético” dirigido por Werner Herzog e uma participação discreta, mas eficaz, em “Kick-Ass – Quebrando Tudo”, tudo indicava que Nicolas Cage tiraria sua carreira da obscuridade e marcaria presença em bons filmes. Parte da expectativa residia no seu envolvimento em “O Pacto”, comandado pelo competente realizador australiano Roger Donaldson (“A Experiência”, “Efeito Dominó”). O caso do astro se mostrou sem resolução positiva, pois “O Pacto” é uma fita tão medíocre quanto a meia dúzia de produções que protagonizou nos dois últimos anos, como “Fúria Sobre Rodas” e “Reféns”.

O enredo deste filme produzido pelo ator Tobey Maguire se mostra até promissor. Nele, Will Gerard (papel de Nicolas Cage) é um professor casado com a doce Laura (January Jones). A vida comum do casal é alterada quando Laura é violentada enquanto voltava para casa. Ao visitá-la no hospital, Will fica devastado. Sente-se impotente até ser surpreendido pela presença de Simon (Guy Pearce), um homem misterioso que se apresenta como um dos responsáveis por uma organização de vigilantes. Ele oferece uma proposta para Will: o criminoso que atacou Laura será assassinado por um estranho contanto que concorde em fazer o mesmo serviço para uma futura vítima.

O interesse de “O Pacto” surge do momento em que Will aceita esta proposta até o ponto em que terá de executá-la. Quando isto acontece de maneira imprevista, o thriller envereda por saídas banais. Ao invés de propor um debate interessante sobre as consequências de se fazer justiça com as próprias mãos, “O Pacto” passa a se resumir a cenas de ação mal executadas e a inclusão de personagens secundários antes ingênuos e agora suspeitos de participarem da organização de Simon. A boa notícia é que Roger Donaldson terá a oportunidade de compensar esta bola fora com “Cities”, filme protagonizado por Kirsten Dunst que se passará em Londres, Mumbai e Nova York. Já Nicolas Cage, bom, atualmente briga para que filmem a segunda sequência de “A Lenda do Tesouro Perdido”.

Título Original: Seeking Justice
Ano de Produção: 2011
Direção: Roger Donaldson
Roteiro: Robert Tannen
Elenco: Nicolas Cage, January Jones, Guy Pearce, Harold Perrineau, Jennifer Carpenter, IronE Singleton, Wayne Pére, Xander Berkeley, Marcus Lyle Brown, Dikran Tulaine, Joe Chrest, Demetrius Bridges e Jason Davis

Resenha Crítica | O Porto (2011)

Aki Kaurismäki é um dos poucos cineastas finlandeses que consegue garantir distribuição (mesmo que limitada) de seus filmes no Brasil. Feito que vem muito do sucesso de uma trilogia formada por “Kauas pilvet karkaavat” (produção de 1996 inédita no país), “O Homem Sem Passado” (2002) e “Luzes na Escuridão” (2006), filmes que tratam, respectivamente, de um protagonista sem presente, sem passado e sem futuro.

Em “O Porto”, Aki Kaurismäki traz uma história cheia de otimismo que difere da trilogia que o tornou mundialmente conhecido. Nela, Marcel Marx (André Wilms) vive um engraxate que no passado foi um talentoso escritor. Durante uma de suas andanças, ele se depara com Idrissa (Blondin Miguel), um menino africano que está ilegalmente em Havre, região portuária no norte da França. Como a sua esposa Arletty (Kati Outinen) está internada no hospital e Idrissa não tem absolutamente ninguém para ajudá-lo (toda a sua família foi flagrada pelas autoridades), Marcel oferece sua residência como abrigo para o menino. A ação atinge as pessoas mais próximas do protagonista, que ajudarão a proteger Idrissa do inspetor Monet (Jean-Pierre Darroussin), que o procura incessantemente.

Todas as características do cinema de Aki Kaurismäki permanecem intactas em “O Porto”. O cineasta não se alonga ao contar sua história e a situa em cenários que provocam estranheza pelas cores rústicas. Além do mais, a música, com exceção da apresentação de uma banda em um bar, é ausente em toda a narrativa e há muitos closes que valorizam os olhares por vezes desesperançosos dos personagens. Porém, a impressão mais forte acaba sendo a modesta história de Aki Kaurismäki, que aposta que uma resolução feliz só é alcançada através de pequenas ações bem intencionadas.

Título Original: Le Havre
Ano de Produção: 2011
Direção: Aki Kaurismäki
Roteiro: Aki Kaurismäki
Elenco: André Wilms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel, Elina Salo, Evelyne Didi, Quoc Dung Nguyen, François Monnié, Roberto Piazza, Pierre Étaix, Jean-Pierre Léaud e Vincent Lebodo

Resenha Crítica | Hotel da Morte (2011)

Desde que estreou em “Ataque dos Morcegos”, Ti West vem se mostrando uma grande promessa como diretor de filmes de terror. O jovem americano é um raro talento no resgate dos elementos que moldaram os clássicos filmes B e atingiu seu ápice em “The House of the Devil”, cuja história é ambientada em plenos anos 1980. Em “Hotel da Morte”, Ti West pode situar os acontecimentos nos dias de hoje, mas toda a atmosfera aterradora de produções do gênero da década de 1970 e 1980 está presente.

O hotel Yankee Pedlar Inn serve de cenário principal para “Hotel da Morte”. O antigo edifício será demolido e Claire (Sara Paxton, excelente) e Luke (Pat Healy) são os únicos funcionários presentes para atenderem os poucos hóspedes que ainda ocupam algum quarto. Diante do marasmo (afinal, não há nada para fazer em um lugar praticamente abandonado), a dupla decide passar o tempo investindo em um hobby pouco comum: desvendar a presença de alguma alma penada através de equipamentos de FVE (Fenômeno de Voz Eletrônica). A brincadeira toma ares sinistros quando surgem evidências de que o hotel é mal-assombrado, algo intensificado com a presença de Leanne Rease-Jones (Kelly McGillis, que fez o interesse romântico de Tom Cruise em “Top Gun – Ases Indomáveis”) uma médium que no passado era uma estrela televisiva.

Assim como em “The House of the Devil”, “Hotel da Morte” privilegia um modelo de condução onde o terror é crescente. O que seduz no filme não é o seu desespero em atirar informações e sustos a cada minuto e sim a decisão de Ti West em nos deixar no escuro. O medo é constante devido o poder da sugestão e a notável direção de arte só auxilia na criação de um cenário ameaçador cercado pelo sobrenatural.

É uma pena que toda esta minúcia resulte em um ato final que reverte todas essas ideias iniciais tão bem executadas. Chega-se ao momento em que é preciso manifestar aquilo que antes estava oculto e isto se dá com aparições fantasmagóricas que nem de perto provocam o mesmo incômodo daquilo que Claire e Luke não conseguiam compreender. Além do mais, não há qualquer plausibilidade nas explicações do que assombrava o hotel Yankee Pedlar Inn, tornando a resolução ainda menos recompensadora.

Um mapeamento na filmografia de Ti West revela um realizador com problemas ao desenhar a conclusão de suas obras. De qualquer modo, o seu talento singular em preservar um estilo tão ausente no cinema contemporâneo é digno de aplausos. Com uma carreira ainda em gestação, tudo indica que o cineasta evoluirá surpreendentemente, possibilitando futuras oportunidades para tornar o seu nome ainda mais forte.

Título Original: The Innkeepers
Ano de Produção: 2011
Direção: Ti West
Roteiro: Ti West
Elenco: Sara Paxton, Pat Healy, Alison Bartlett, Jake Ryan, Lena Dunham, George Riddle, Brenda Cooney, John Speredakos e Kelly McGillis