Sombra do Mar

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Gerações surgem e sempre há mudanças no comportamento da juventude. Os adolescentes de hoje estão lidando com anseios em um cenário bem distinto daqueles que já amadureceram. Porém, nunca é fácil estudá-los e compreendê-los, especialmente se estamos falando de jovens que vivem uma realidade em que há distinções quanto a cultura e costumes. Isto se vê ao acompanharmos em “Sombra do Mar” a singela história de Mansoor (Omar Al Mulla), um rapaz de 16 anos que vive nos Emirados Árabes Unidos.

Mansoor está perdidamente apaixonado por Kaltham (Neven Madi), mas tem dificuldades de expressar seus sentimentos por ela. Além do modesto trabalho como entregador, sua família não possui riqueza, um detalhe que o torna um pretendente descartável. Inibido, Mansoor segue o conselho do seu melhor amigo Sultan (Abrar Al Hamad), que sugere que ele tente conquistá-la com presentes.

O cineasta Nawaf Al-Janahi, através do roteiro escrito por Mohammed Hasan Ahmed, busca destacar os vários padrões que Mansoor e Kaltham estão presos. Seja por razões sociais ou o modo como a figura feminina é encarada, ambos parecem ter seus destinos já traçados pelas tradições do ambiente que habitam.

O problema de “Sombra do Mar” é como sua tola história romântica ofusca um tema tão sério. Pior do que o modo como a narrativa desenvolve um mistério ligado a Kaltham é a determinação do ingênuo Mansoor em encontrar meios para ganhar dinheiro e comprar presentes para o seu amor secreto. Repetitivos e sem provocar qualquer descontração, estes instantes só dificultam nossa empatia com o protagonista e também com a realidade em que ele está inserido.

Título Original: Sea Shadow
Ano de Produção: 2011
Direção: Nawaf Al-Janahi
Roteiro: Mohammed Hasan Ahmed
Elenco: Omar Al Mulla, Neven Madi, Abrar Al Hamad, Khadeeja Al Taie, Aisha Abdulrahman, Hasan Rajab, Bilal Abdullah, Ali Al-Jabri, Ahmad Iraj e Mahmood Al Yassi

A Riqueza do Lobo

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Será que tudo que observamos com interesse diz exatamente quem somos? As paisagens que contemplamos, os instantes que nos encontramos imóveis para assistir um acontecimento ao nosso redor, o assunto que fotografamos ou um episódio que filmamos. Tudo isso, de certa forma, encontra elo com as características que formam nossa personalidade. O longa-metragem francês “A Riqueza do Lobo” é exatamente sobre isto.

No início da história, filmado em um tom quase documental, Marie (Marie-Eve Nadeau) diz para a sua melhor amiga (Isabelle Lepage) que encontrou dezenas de horas de gravações realizadas por Olaf (Damien Odoul), seu marido que desapareceu sem deixar qualquer vestígio. Mesmo assustada, Marie reúne toda a coragem necessária e assiste aos teipes, que condensam oito anos da vida de Olaf.

“A Riqueza do Lobo” apresenta uma proposta curiosa e original, mas através de uma execução desastrosa. Há fascínio no processo em que o espectador é convidado a participar, sendo desafiado a desenhar o verdadeiro perfil de Olaf e os seus tormentos internos a partir de imagens enigmáticas. O que incomoda é o limite em que esta realização dirigida, escrita, produzida, protagonizada, fotografada e editada por Damien Odoul atinge.

Se todas as cenas em que Marie é flagrada diante de devaneios sobre o marido são mal realizadas e bocejantes, as imagens capturadas por Olaf, com qualidade que condiz com o seu amadorismo como cameraman, atingem um nível de repetição de causar impaciência.

Com registros às vezes belos (paisagens mortas, tempestades), às vezes repulsivos (animais mortos, escatologias), Damien Odoul arruína toda a experiência ao se apresentar como Olaf próximo do terceiro ato, anulando todo o desenho que desenvolvíamos do personagem em nossa imaginação. Estas e outras escolhas fazem com que as reações negativas para “A Riqueza do Lobo” sejam testemunhadas na própria sala de cinema, com quase metade do público abandonando a sessão antes de ela chegar ao fim.

Título Original: La richesse du loup
Ano de Produção: 2012
Direção: Damien Odoul
Roteiro: Damien Odoul
Elenco: Marie-Eve Nadeau, Damien Odoul e Isabelle Lepage

Kill Me

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

“Kill Me” inicia com um plano aberto em que visualizamos uma garota à beira de um precipício. A expectativa é vê-la se jogar, mas ela vacila. Nos acontecimentos posteriores, somos apresentados a esta protagonista. Trata-se de Adele (Maria-Victoria Dragus), uma adolescente presa com os seus pais em um mundo em que não há grandes perspectivas. Divide o seu tempo entre os estudos e os afazeres na fazenda em que vive. Adele não tem amigos e os seus pais a tratam com frieza.

Apesar cotidiano repetitivo e melancólico, não é isto que motiva Adele em acabar com a própria vida. Antes que saibamos o porquê, “Kill Me” apresenta um homem que também assume o papel de protagonista. Ele é Timo (Roeland Wiesnekker), um foragido da lei que surpreende Adele no quarto dela. Apesar do temor inicial, Adele aproveitará a oportunidade para propor a Timo uma troca: ela promete ajudá-lo a se refugiar na França, mas Timo terá que empurrá-la em um precipício ao final da “missão”, pois ela fracassou ao fazê-lo em todas as tentativas anteriores.

Responsável por “O Estranho em Mim”, a cineasta alemã Emily Atef desenvolve em “Kill Me” dois personagens que apresentam reações emocionais inesperadas diante do inusitado relacionamento. Adele continua firme com a sua vontade de morrer, mas parece redescobrir que na vida existe coisas significativas capazes de fazê-la reconsiderar esta decisão. Já Timo é uma presença que amedronta, mas às vezes é possível enxergar bondade em suas ações.

Mesmo construindo dois protagonistas interessantes, que são incorporados com competência por Maria-Victoria Dragus e Roeland Wiesnekker, “Kill Me” é um filme fraco. Além da mise-en-scène comprometedora em cenas-chave  (o primeiro encontro de Timo com Adele e a primeira tentativa dele em matá-la), há outras ocasiões que caem no ridículo – na principal delas, Adele joga distraidamente futebol com um time formado por garotos, sem lembrar que tinha um encontro marcado com Timo para seguirem viagem. Envolto a inconsistências, fica difícil permanecer preso a “Kill Me” até o seu ato final.

Título Original: Kill Me
Ano de Produção: 2012
Direção: Emily Atef
Roteiro: Emily Atef e Esther Bernstorff
Elenco: Maria-Victoria Dragus, Roeland Wiesnekker, Wolfram Koch, Christine Citti, Geno Lechner, Thiemo Schwarz, Matthias Breitenbach e Mateo Wansing-Lorrio

Eu, Anna

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Por maior que seja o talento de um intérprete, ele sempre encontrará dificuldades para conseguir um papel de grande destaque ao atingir uma idade elevada. Não é coisa que se vê apenas em Hollywood. Em qualquer lugar que se faz cinema existe um preconceito com veteranos, pois vivemos em uma realidade em que aparência física é (equivocadamente) tudo, inclusive parâmetro para determinar sucesso de um filme. Atualmente, só se vê uma atriz como Charlotte Rampling e um ator como Gabriel Byrne em dois tipos de papel: o secundário em um projeto com algum apelo e o principal em um filme de qualidade duvidosa. Infelizmente, “Eu, Anna” se encaixa na segunda categoria.

Filho de Charlotte Rampling, Barnaby Southcombe estreia como diretor de longa-metragem adaptando o romance homônimo de Elsa Lewin. Na trama, o inspetor-chefe Bernie Reid (Gabriel Byrne) vive dias difíceis por causa de um rompimento recente com a esposa. Isto o faz ficar atraído de imediato por Anna (papel de Charlotte Rampling), uma mulher que aparenta ter a mesma idade que a sua e cujo charme lhe chama a atenção. O problema é que Bernie a contemplou justamente no edifício em que investiga um assassinato – não muito tempo depois, ele recebe evidências que são fortes o suficiente para incriminá-la.

Ao longo da narrativa, notamos a escolha de Barnaby Southcombe em transformar a adaptação em um verdadeiro neo noir, uma vez que tenta explorar ao máximo o envolvimento pessoal de um agente da lei com uma mulher de personalidade dúbia, algo que caracteriza uma femme fatale. Ficou só na intenção, pois “Eu, Anna” tem uma previsibilidade gritante, um erro que um thriller jamais pode cometer. Sem qualquer outro atrativo, nos resta observar com algum interesse os momentos em que Charlotte Rampling e Gabriel Byrne contracenam juntos, fazendo o possível para valorizar a psicologia barata do texto.

Título Original: I, Anna
Ano de Produção: 2012
Direção: Barnaby Southcombe
Roteiro: Barnaby Southcombe, baseado no romance homônimo de Elsa Lewin
Elenco: Charlotte Rampling, Gabriel Byrne, Hayley Atwell, Eddie Marsan, Jodhi May, Ralph Brown, Max Deacon, Honor Blackman, Roger Alborough, Joey Ansah, Perry Benson e Caroline Catz

Por Enquanto

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Grande revelação do cinema independente nos anos 1990, Hal Hartley foi reconhecido como o Jean-Luc Godard americano. A maneira simples, mas particular, de contar as histórias de filmes como “Simples Desejo” e “Confiança” lhe valeram este reconhecimento. Inegavelmente ótimos, “Beatrice e o Monstro” e “Fay Grim” pertencem a uma década em que o prestígio de Hal Hartley estava em baixa, com lançamentos que pareciam direcionados apenas aos seus fãs mais assíduos. Tudo pode mudar agora com “Por Enquanto”, em que Hal Hartley se mostra com fôlego renovado, o que poderá atrair um novo público.

A história apresenta um dia da vida de Joseph (D.J. Mendel), um homem de meia-idade que se depara com figuras tipicamente nova-iorquinas, como uma tímida garota aspirante a atriz, a ex-esposa que teme envelhecer, a secretária de um estúdio de projetos independentes, um escritor em busca de inspiração ao ouvir conversas em bares e até mesmo uma jovem com tendências suicidas.

Através das interações com esses e outros personagens, descobrimos que há em Joseph uma vontade em crescer na vida. Trata-se de um faz-tudo que não encontrou o seu rumo. Baterista, Joseph é hábil tanto para consertar máquinas de escrever quanto para desenvolver romances e atuar como um empreendedor otimista de um negócio duvidoso.

Breve, “Por Enquanto” possui aproximadamente sessenta minutos de duração e deixa ao seu término aquele gosto de quero mais. Hal Hartley também faz referências a si mesmo ao resolver a narrativa como se Joseph fosse um amigo seu, fazendo-o entrar em contato com Miho (Miho Nikaido, esposa de Hartley no filme e na vida real) e também com uma secretária da Possible Films, sua produtora.

Curiosidades à parte, o filme não deixará de encantar aqueles que ainda não tiveram um amplo acesso à filmografia de Hal Hartley, pois “Por Enquanto” é uma encenação vívida graças a Joseph, um papel no qual D.J. Mendel incorpora de maneira inspiradíssima. Transitando por Nova York esplendidamente filmada pelo cineasta, Joseph aguarda a chegada de um dia melhor, deixando o público na torcida para que este desejo se realize.

Título Original: Meanwhile
Ano de Produção: 2011
Direção: Hal Hartley
Roteiro: Hal Hartley
Elenco: D.J. Mendel, Danielle Meyer, Chelsea Crowe, Miho Nikaido, Penelope Lagos, James Rich, Hoji Fortuna, Kanstance Frakes, Amanda Stern, Scott Shepherd, Christine Holt, Stephen Ellis, Anais Borck e Soraya Soi

Resenha Crítica | Na Sua Ausência (2012)

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

A francesa Sandrine Bonnaire tem uma carreira respeitável como atriz. Deu os primeiros passos em frente às câmeras durante e adolescência e pôde trabalhar com cineastas como Claude Chabrol, Patrice Leconte, Jacques Rivette e Agnès Varda. A experiência de estar sob o comando de grandes nomes do cinema francês provavelmente a motivou a dirigir seus próprios projetos. Começou com o documentário “O Nome Dela é Sabine”, no qual retrata o cotidiano de sua irmã autista. Agora, Sandrine Bonnaire realiza um longa-metragem de ficção, “Na Sua Ausência”.

Surpreendemente, Sandrine Bonnaire escolheu William Hurt como protagonista. Americano, o ator recebe o grande desafio de carregar um filme inteiramente falado em francês. Além do mais, William Hurt é ex-marido de Sandrine Bonnaire, o que torna a parceria ainda mais curiosa. Ele faz Jacques, um homem que viaja para a França para receber a herança do pai que morreu recentemente. No entanto, o que o abate não é esta perda, mas outra que sofreu há nove anos. Trata-se do filho que teve com Mado (Alexandra Lamy), que atualmente está casada com Stéphane (Augustin Legrand) e é mãe de Paul (Jalil Mehenni), um fruto do relacionamento.

“Na Sua Ausência” acompanha o inevitável reencontro de Jacques com Mado e o desejo dele em conhecer Paul. Para isto, Jacques habita secretamente o porão do apartamento de Mado e Stéphane, pois o local contém objetos pessoais de seu filho e também servirá de palco para apresentar a sua obsessão por Paul, num relacionamento que remete o de pai e filho.

Por um lado, Sandrine Bonnaire acerta por não recorrer ao pieguismo para desenvolver a sua história. Ela também extraiu o máximo da presença de William Hurt, um veterano que sempre arrebata pela força do seu olhar. Por outro, “Na Sua Ausência” é um filme de uma nota só, uma vez que dá a resolução mais óbvia para uma narrativa cheia de possibilidades. Também incomoda o velho chavão de converter o papel de segundo marido encarado por Augustin Legrand na única figura a apresentar um temperamento difícil em uma situação de luto que jamais poderia ser superada.

Título Original: J’enrage de son absence
Ano de Produção: 2012
Direção: Sandrine Bonnaire
Roteiro: Jérome Tonnerre e Sandrine Bonnaire
Elenco: William Hurt, Alexandra Lamy, Augustin Legrand, Jalil Mehenni, Françoise Oriane e Norbert Rutili

Keyhole

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Diretor há quase trinta anos, o canadense Guy Maddin fez carreira com a exibição de seus trabalhos em festivais de cinema alternativo. O interesse em registrar o lado obscuro de seus personagens e algumas escolhas nada convencionais (como se vê na grande parcela de suas obras fotografadas em preto e branco) o transformou em um cineasta comparável a David Lynch. “Keyhole”, seu mais recente trabalho exibido, confere estas características particulares e pode despertar o interesse de espectadores de primeira viagem pela sua filmografia. Simultaneamente, é uma encenação frustrante e de ideias macabras que jamais ficam claras.

No fiapo de história, o ranzinza Jason Patric vive Ulysses Pick, um gângster que retorna à sua casa após um longo tempo. O ambiente, impregnado por uma atmosfera densa, serve de único cenário da narrativa, onde acompanhamos Ulysses explorar cômodo por cômodo a fim de reviver memórias do seu passado, que incluem a esposa Hyacinth (Isabella Rossellini, que já havia trabalhado com Guy Maddin em “A Música Mais Triste do Mundo”) e os filhos (papéis de David Wontner e Brooke Palsson).

Sugerindo a todo o momento um tom de perversidade na dinâmica entre esta família e alguns personagens secundários, “Keyhole” não vai além do choque gratuito porque Guy Maddin erra em todas as escolhas que toma como diretor e autor do roteiro (escrito em parceria com George Toles). Os problemas não são as lacunas não preenchidas (se é que elas existem, dada a fragilidade da proposta), mas a redundância com que é encenado o mergulho psicológico do protagonista, preso em um cenário limitado e complementado por uma estética amadora.

Título Original: Keyhole
Ano de Produção: 2011
Direção: Guy Maddin
Roteiro: George Toles e Guy Maddin
Elenco: Jason Patric, Isabella Rossellini, Udo Kier, David Wontner, Brooke Palsson, Louis Negin, Suzanne Pringle, Kevin McDonald, Daniel Enright, Theodoros Zegeye-Gebrehiwot, Brent Neale, Olivia Rameau, Claude Dorge, Jorge Requena e Mike Bell

Ladrão

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

O fator familiar é o mais importante na formação do caráter de um indivíduo. Temos a consciência para determinar o que é certo e o que é errado, mas nossa maneira de ver as coisas tem ligação com a educação que recebemos de nossos pais. Simon (Nico Stone) é um jovem cuja existência comprova esta teoria. Há nele um sentimento de complacência para com os membros de sua família e por isto mesmo ele parece não ter evoluído ao ponto de determinar os seus próprios passos.

Sem profissão, Simon se sustenta roubando produtos de supermercado para revender em ruas e outros estabelecimentos. Parte do dinheiro que arrecada vai para o pagamento da mensalidade do asilo em que sua avó (Mary Webb) está hospedada. Preso nesta rotina, Simon ainda enfrentará um grande dilema ao ser informado de que seu irmão mais velho (Brian McGrail) foi capturado após roubar uma lavanderia. Ele é pressionado a repetir o crime no mesmo lugar, uma estratégia que poderá fazer a polícia acreditar erroneamente que o irmão de Simon não é o verdadeiro culpado.

Em “Ladrão”, nos deparamos com uma perspectiva distinta sobre o quanto sacrificamos para defender a nossa família. Usualmente, isto é visto na ficção de maneira a beneficiar quem o faz. No filme de Matt Ruskin, seu protagonista só será capaz de conduzir sua vida com independência se desligando daqueles que têm o mesmo sangue que o seu.

O erro está em como “Ladrão” representa as dúvidas e temores do protagonista em assumir os erros cometidos pelo seu irmão. Para um filme com duração tão breve (aproximadamente uma hora e dez), “Ladrão” tem uma narrativa feita de repetições, que busca extrair algo do estreante e inexpresivo Nico Stone em circunstâncias em que consome um cigarro, faz amor com uma garota que acaba de conhecer e que pode alterar sua vida ou vaga sem rumo em florestas e ambientes públicos. O rendimento dessa construção de personagem jamais se aproxima da força presente na conclusão de “Ladrão”, que é de uma dubiedade implacável e que merecia pertencer a uma história contada com mais rigor.

Título Original: Booster
Ano de Produção: 2012
Direção: Matt Ruskin
Roteiro: Matt Ruskin
Elenco: Nico Stone, Adam DuPaul, Seymour Cassel, Kristin Dougherty, Brian McGrail, Megan Hart e Gus Kelley

Super Nada

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Quando se fala da profissão de intérprete todos automaticamente o associam a um universo em que há fama, glamour, assédio da mídia e cachês gordos. Porém, isto não se reflete naqueles que ainda estão se profissionalizando, existindo um esforço diário preenchido por ensaios ininterruptos, apresentações para plateias pequenas e todos os desdobramentos para fazer com que o pouco dinheiro que recebem seja suficiente para sobreviverem.

Guto (Marat Descartes) é um desses desafortunados, um paulistano em busca de uma oportunidade que faça a sua carreira engrenar e que habita um apartamento minúsculo e precário – há até um sofá com cantoneira moldada com livros e fita isolante para emendar os rasgos no estofado. Acredita que ela chega com um convite para participar de uma esquete de “Super Nada”, humorístico do qual é fã, mas que tem um texto que remete a um “Zorra Total”. As expectativas de Guto vão se frustrando quando ele se envolve mais do que deveria com Zeca (o cantor Jair Rodrigues), o protagonista de “Super Nada”.

Rubens Rewald e Rossana Foglia estrearam como diretores de longa-metragem em 2007 com “Corpo”, thriller protagonizado por Leonardo Medeiros e pouco visto devido ao seu lançamento restrito no circuito comercial. Com “Super Nada”, a dupla (com Rossana Foglia como codiretora) retoma a parceria com uma história em que há humor do registro da vida difícil que levam os atores que se dedicam em agarrar um grande papel.

Apesar da entrega do excelente Marat Descartes ao papel, da espontaneidade de Jair Rodrigues e dos vários pontos reconhecíveis de São Paulo como cenários, “Super Nada” é comprometido por uma condução inadequada, que torna superficial a construção das interações do protagonista com personagens secundários. Além do mais, há na realização uma inquietude em satirizar de forma crítica as atrações que promovem tudo, menos algum talento envolvido. Neste ângulo, o filme não vai muito longe do humorístico que encena.

Título Original: Super Nada
Ano de Produção: 2012
Direção: Rubens Rewald
Roteiro: Rubens Rewald
Elenco: Marat Descartes, Clarissa Kiste, Jair Rodrigues, Denise Weinberg, Ary França, Cristiano Karnas, Renata Jesion, Larissa Salgado, Benito Carmona, Brígida Menegatti, Débora Serretiello, Domingos Montagner, Rogério Brito, Lucia Romano, Ligia Descartes, Walmir Santanna, Felipe Ehrenberg, Giselle Calazans e Iacov Hillel

Resenha Crítica | A Bela Que Dorme (2012)

36ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Em fevereiro de 2009, morreu Eluana Englaro. Italiana de 38 anos, Eluana sofreu um acidente em 1992 que a deixou em um coma irreversível. Cientes de que nada seria capaz de reverter a situação, os pais de Eluana travaram uma grande batalha para que pudessem deixá-la finalmente partir interrompendo tudo aquilo que ainda a mantinha viva.

A prática da eutanásia gera grandes protestos em países religiosos como a Itália. Sendo um diretor que se move através das histórias que marcaram a sua pátria, Marco Bellocchio faz uma versão ficcional do caso Eluana, apresentando personagens que de alguma maneira estão conectados com indivíduos estagnados na passagem entre a vida e a morte.

O primeiro foco se dá no senador Uliano Beffardi (Toni Servillo). Ainda atormentado pela perda de sua esposa, ele deve tomar uma decisão delicada: se mostrar a favor ou contra a prática da eutanásia. A escolha se mostra difícil não apenas pela pressão emitida pelo partido político que representa, mas pela intromissão de sua filha Maria (Alba Rohrwacher), uma ativista pró-vida, e o estado de Eluana que se mostra similar àquele que condenou sua esposa.

Embora Maria também seja um componente importante na história, outros dois personagens ganham maior destaque. Sempre excelente, Isabelle Huppert interpreta uma atriz que abdicou da carreira para aguardar, em tempo integral, que algum milagre faça a sua jovem filha despertar de um coma também irreversível. A outra personagem fundamental em “A Bela Que Dorme” é Rossa (Maya Sansa), uma viciada em drogas que está decidida em tirar a própria vida. Sensibilizado com a convicção de Rossa, um médico chamado Pallido (Pier Giorgio Bellocchio) não mede esforços para fazê-la mudar de ideia sobre a decisão tão extrema.

Após conduzir o aclamado “Vincere” e  “Irmãs Jamais” (ainda não lançado em circuito comercial), Marco Bellocchio pode até acertar em não levantar bandeiras quanto ao assunto polêmico que aborda, mas o resultado final de “A Bela Que Dorme” deixa um saldo devedor. Além de criar situações inconvincentes com a intenção de extrair grandes emoções (momentos em que personagens são “salvos” diante de alguma ação de risco se repetem mais de uma vez), o cineasta reserva apenas para o final a elaboração de interações capazes de compartilhar o seu convencimento de que a prática da eutanásia não se aproxima da complexidade de uma existência interrompida por uma ação fatídica.

Título Original: Bella addormentata
Ano de Produção: 2012
Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Toni Servillo, Isabelle Huppert, Alba Rohrwacher, Michele Riondino, Maya Sansa, Pier Giorgio Bellocchio, Gianmarco Tognazzi, Brenno Placido e Carlotta Cimador