Os Cinco Filmes Prediletos de Rafael Carvalho

Rafael Carvalho (Moviola Digital)Recordo-me como se fosse ontem do instante em que decidi criar um blogue de cinema. Ao contrário de hoje, naquela ocasião havia muito tempo livre para assistir filmes durante o dia. Ainda assim, a atualização do Cine Resenhas acontecia semanalmente. Por incrível que pareça, escrever neste ritmo rendia, pois a interatividade com os leitores acontecia com muita facilidade.

Rafael ainda escrevia para o Cinematógrafo XXI quando a minha primeira interação com ele aconteceu. Admito que naquela época me comunicava mais com a Andressa, que mantinha o endereço em parceria com o Rafael. A separação entre os dois foi rápida, mas amistosa. Andressa escreveu mais alguns textos para o Cinematógrafo XXI e desistiu da vida de blogueira cinéfila – aliás, por onde ela anda? Já o Rafael seguiu firme e forte e hoje responde por um dos melhores blogues nacionais de cinema. Trata-se do Moviola Digital, espaço que completou cinco anos de atividade em setembro.

Pude conhecer o Rafael pessoalmente na mais recente edição da Mostra Internacional de Cinema e este acontecimento me incentivou a convidá-lo para comentar neste modesto espaço sobre os seus filmes prediletos. A resposta?

Por Rafael Carvalho.

É da natureza das listas de melhores quaisquer coisas serem incompletas, inconstantes, temperamentais. Mas elas são também prazerosas de fazer, de compartilhar, são sintomáticas, apontam caminhos e nos questionam sobre a certeza dos itens contidos nelas. Por isso é uma satisfação participar dessa seção do Cine Resenhas e apontar meus filmes preferidos, tarefa difícil pelo limite de cinco títulos. Não pude deixar de escolher os filmes que de alguma forma me marcaram no começo da minha paixão pela sétima arte. Como toda lista de melhores, elas nunca serão definitivas. A minha, hoje, é essa:

Aurora, de F. W. Murnau (Sunrise - A Song of Two Humans, 1927)Aurora, de F. W. Murnau (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927)

“Aurora”, obra-prima do cinema mudo e espetáculo fascinante em preto e branco, além de filme exemplar de uma fase áurea do cinema, é também um grande trunfo artístico e emocional. Primeiro filme dirigido por Murnau nos EUA, carrega vestígios do Expressionismo Alemão, mas agora atrelados a uma história de amor e tragédia, bem ao gosto hollywoodiano clássico. “Aurora” nos leva a experimentar uma montanha russa de emoções, acompanhando as desventuras de um homem que se perde de amor por uma mulher fatal, tentado a se livrar de sua própria noiva a fim de viver sua nova paixão. Murnau contrapõe campo e cidade, rejeição e desejo, bem e mal, para construir os descaminhos de um homem perdido em seus sentimentos. De uma só tacada, “Aurora” consegue ser uma narrativa sobre amor, traição, culpa e redenção. É o filme sobre amor, traição, culpa e redenção mais lindo que eu já vi.

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman (Viskningar och Rop, 1972)Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman (Viskningar och Rop, 1972)

Assim que eu terminei de ver “Gritos e Sussurros”, fiquei tão impressionado como o filme que eu precisei revê-lo, naquele mesmo dia. Foi uma experiência intensa e ao mesmo tempo provocadora porque Bergman nos propõe uma viagem pela psicologia de suas personagens, permeada por uma história dilacerante de dor, impotência e iminência da morte. Os tons fortes de vermelho que estão presentes a todo instante são a própria representação da alma exposta dessas mulheres. Não parece haver redenção, mas somente as posições de cada uma diante daquela situação – duas irmãs e uma empregada numa casa de campo cuidando da terceira irmã, gravemente enferma. Das várias cenas marcantes do filme (o médico desvendando a personalidade de uma mulher pelos traços de seu rosto, a mutilação da genitália, a representação da Pietà), acho que nunca vou esquecer uma delas, simples, mas intensa: o acordar, nos primeiros minutos do filme, da irmã moribunda, seu rosto ganhando aos poucos os contornos da dor que lhe tomava a vida pouco a pouco. É o prenúncio das agonias que vêm adiante.

Abril Despedaçado, de Walter Salles (idem, 2001)Abril Despedaçado, de Walter Salles (idem, 2001)

Aqui, a minha gênese cinéfila, o filme-despertar. Tive de ver “Abril Despedaçado” por conta da inclusão dele na prova de vestibular, numa época que meu contato com cinema era bastante raso. Porém o que mais me impressionou na sessão foi uma palestra iluminadora de uma psicóloga que apontou alguns simbolismos do filme. Daí eu duvidei: “Será mesmo que pode caber tanta coisa tão interessante em um filme?”. Pronto, estava fisgado. A vida de Tonho, preso à tradição castradora daquelas famílias rivais, como um círculo vicioso de morte e sofrimento, era representada pela ideia de circularidade que aparece em vários momentos da narrativa. De peripécia de uma família sertaneja, fadada a um destino trágico (e qual não está?), o filme passa a história universal da necessidade de partir com as correntes que nos prendem e destroem nossas liberdades. Isso é “Abril Despedaçado”, o romper das amarras, o encontro com a infinidade do mar, e também o despertar para o cinema – o fato de abril ser o mês de meu aniversário é só mais um detalhe na equação. Um filme para carregar a vida toda.

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick ( A Clockwork Orange, 1971)Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (The Clockwork Orange, 1971) 

Foi o primeiro filme de Kubrick que eu vi, e o primeiro Kubrick não se esquece assim facilmente. Deve até haver outros dele melhores e mais reconhecidos como obras-primas, mas o impacto de “Laranja Mecânica” me foi imediato, um retrato de anarquismo e ultraviolência perpetrados por aquele grupo de delinquentes num futuro que nem parece tão distante assim. Decerto que todo aquele ambiente, linguagem e personagens peculiares se devem ao livro original de Anthony Burgess. Mas a mão precisa de Kubrick é essencial para dotar o filme da potência imagética e sonora que confere uma dimensão grandiloquente à trajetória de Alex, esse anti-herói odiável, fruto de uma sociedade de valores perdidos, aparentemente impossível de ser curado. Para além do discurso político sobre a natureza da violência social, tudo nesse filme é sinfonia, um estudo sobre a agressividade – de quem comete e de quem tenta revertê-la, na mesma moeda. Mesmo assim, não conseguimos tirar o olho.

Kill Bill Vol. I-Kill Bill Vol. II, de Quentin Tarantino (Kill Bill Vol. I-Kill Bill Vol. II, 2003-2004)Kill Bill Vol. I/Kill Bill Vol. II, de Quentin Tarantino (Kill Bill Vol. I/Kill Bill Vol. II, 2003/2004)

Ah, vá lá, estamos falando de uma obra só, dividida em duas partes, por conta da mente inquieta e genialmente criadora de Quentin Tarantino (também por seus caprichos), que não conseguiu se contentar com um filme só. Apesar desses dois momentos serem até distintos, continuam juntos o bom gosto e apuro estético, a direção caprichosa, o texto afiado, o pop como estilo norteador, reprocessados pelos tons de violência, enfim, todo o verniz cult que torna esse projeto tão prazeroso de se assistir, ininterruptamente, mesmo pelo grafismo brutal das mortes que deixam seu rastro sangrento. A noiva que quer matar Bill é no fundo a mãe que busca a vingança pela filha que lhe foi tirada, essa é sua sina, numa jornada tão louca quanto improvável, à medida que vamos desenhando os percursos da história para entender como se chegou àquela situação. E no fim, Tarantino ainda demonstra que tem coração, um carinho imenso por sua protagonista, apesar de não lhe facilitar o caminho, como poucas vezes se evidencia em sua filmografia.

Katy Perry – Part of Me

Katy Perry - Part of MeMesmo aqueles que não acompanham as tendências da música Pop provavelmente estão familiarizados com o nome Katy Perry. Jovem talento de Santa Bárbara, Katy conseguiu um feito alcançado apenas por Michael Jackson: emplacar nada menos do que cinco singles em primeiro lugar nas paradas americanas. O feito, entretanto, é apenas um dos vários episódios comentados em “Katy Perry – Part of Me”, documentário que se dedica a esmiuçar tanto a Katy Perry dentro quanto a fora dos palcos.

Produtores de “Justin Bieber – Never Say Never”, Dan Cutforth e Jane Lipsitz acompanharam Katy Perry durante a turnê “California Dreams”, composta por nada menos do que 124 em aproximadamente um ano. Mais do que captar imagens de cenários de contos de fadas para causar fortes impressões com o uso do 3D, a dupla resgatou vídeos da cantora muito antes da fama. E daí vem o espanto: antes de estourar com “I Kissed the Girl”, Katy era Katheryn Elizabeth Hudson, uma cantora de música Gospel. Filha de Keith e Mary Hudson, dois pastores para lá de conservadores, Katy decidiu que precisava explorar o mundo ao atingir a maioridade. O fez ao investir em seu talento como cantora e compositora para tentar estourar como uma artista Pop e os depoimentos de familiares e amigos mais próximos elucidam suas particularidades e influências musicais.

O sonho se realizou, mas como se vê em “Katy Perry – Part of Me”, os percursos incluíram coragem, reprovação de estúdios e falta de dinheiro enquanto se aventurava em Los Angeles. Para alguém com apenas 28 anos, Katy Perry tem muitas experiências para serem compartilhadas e o acerto do documentário é provar de que a trajetória da artista é forte o suficiente para render um filme.

Sucessos como “California Gurls”, “Firework” e “Last Friday Night” definitivamente não agradam a todos os ouvidos, mas “Katy Perry – Part of Me” é capaz de despertar curiosidade até mesmo de quem não é fã da moça. O documentário mescla a vida profissional e particular com agilidade e comove com a intimidade que registra aquele que talvez seja o momento mais conturbado de Katy: até então casada com o comediante inglês Russel Brand, a cantora é surpreendida com um pedido de divórcio enviado por ele em SMS minutos antes de cantar para o público paulistano, o maior de toda a turnê “California Dreams”. Para um projeto que previamente aparentava ser apenas um material para autopromoção, “Katy Perry – Part of Me” resulta surpreendente.

Título Original: Katy Perry – Part of Me
Ano de Produção: 2012
Direção: Dan Cutforth e Jane Lipsitz
Elenco: Katy Perry, Bradford Cobb, Johnny Wujek, Steven Jensen, Tamra Natisin, Angela Hudson, David Daniel Hudson, Keith Hudson, Mary Hudson, Shannon Woodward, Adele, Lady Gaga, Jessie J e Rihanna

Um Divã Para Dois

Um Divã Para Dois | Hope SpringsAs comédias românticas costumam afugentar espectadores que não toleram histórias esquemáticas. Porém, maior que o incômodo em acompanhar uma narrativa previsível é a maneira como é idealizado o final feliz. Depois de muitos pós e contras, os protagonistas se descobrem feitos um para o outro – não pode faltar aí o grande beijo e a câmera que se despede sobrevoando um belo cenário até surgir o longo fade out que precede os créditos finais. O terno “Um Divã Para Dois” mostra que o “felizes para sempre” não se mantém quando um casal mergulha na maior ameaça de um casamento: a convivência diária.

Kay (Meryl Streep) e Arnold (Tommy Lee Jones) estão juntos há mais de trinta anos. Mesmo que levem uma vida saudável e sem grandes atritos, a atração foi algo que se perdeu pelo caminho. De repente, Kay não se viu apenas dormindo em um quarto separado de Arnold como também perdeu a intimidade com o seu parceiro. Cansada dessa situação, ela decide pegar suas economias e pagar por algumas sessões de terapia de casal com o doutor Feld (Steve Carell).

Ranzinza que só, Arnold é contra a ideia, mas reúne energias para salvar um casamento do qual sequer imagina estar se desfazendo. Assim, ambos passam a compreender quais os aspectos que tornaram a união insípida e se mostram dispostos (mesmo que com muitos receios) a cumprirem com as “atividades” propostas pelo doutor Feld, o que inclui a realização de alguns desejos sexuais.

Responsável pelos irregulares “O Diabo Veste Prada” e “Marley & Eu”, David Frankel mostra progresso em “Um Divã Para Dois”. Mesmo que erre no uso inadequado da música e desperdice ótimos intérpretes do elenco de apoio (nomes como Jean Smart, Damian Young, Mimi Rogers e Elisabeth Shue fazem apenas breves participações), Frankel é feliz ao confiar totalmente o texto de Vanessa Taylor para a dupla central de veteranos. Meryl Streep e Tommy Lee Jones encenam com excelência a dinâmica entre Kay e Arnold. Apesar do nervosismo em retomarem a vida sexual, não há um instante em que ficamos em dúvida do quanto um ama o outro. Após “Alguém Tem Que Ceder”, finalmente temos com “Um Divã Para Dois” um exemplar a explorar de maneira crível e descompromissada na medida certa o difícil processo de manter ativo o amor na terceira idade.

Título Original: Hope Springs
Ano de Produção: 2012
Direção: David Frankel
Roteiro: Vanessa Taylor
Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Jean Smart, Ben Rappaport, Marin Ireland, Patch Darragh, Brett Rice, Becky Ann Baker, Charles Techman, Daniel Flaherty, Damian Young, Mimi Rogers e Elisabeth Shue

Resenha Crítica | Intocáveis (2011)

Intocáveis | IntouchablesVolta e meia o cinema investe em uma história edificante em que a força da amizade é capaz de afugentar qualquer distinção entre dois indivíduos, seja ela social ou étnica. Se a publicidade de “Intocáveis” antecipa um filme convencional sobre a abordagem, os diretores e roteiristas Eric Toledano e Olivier Nakache provam que o cinema francês permanece único no registro de relações humanas.

Na espetacular abertura, Philippe (François Cluzet) e Driss (Omar Sy) parecem estar em uma situação delicada: por conduzir um carro em alta velocidade, Driss é parado pela polícia e se diz desesperado para levar Philippe, aparentemente correndo risco de morte, para um hospital mais próximo. Atônitos, vemos a seguir que tudo não é apenas uma imprudência da dupla, mas que a mistura testemunhada de drama e comédia será usada em toda a narrativa de “Intocáveis”.

Após este momento, “Intocáveis” retrocede para o momento em que Philippe e Driss se conhecem.  Trata-se de figuras extremamente opostas. Philippe é um rico tetraplégico à procura de alguém que possa observá-lo e atendê-lo diariamente. Morador da periferia que recentemente saiu da prisão após uma acusação de furto, Driss é um malandro que apenas se candidata a vaga de enfermeiro particular para ser prontamente eliminado do processo de seleção e receber um seguro do governo para sustentar a sua família. Por incrível que pareça, Philippe visualiza em Driss a pessoa perfeita para o trabalho, uma vez que está exausto de todos sentirem pena dele por causa de sua condição.

As coisas fluem tão bem que Philippe e Driss não se tornam apenas bons amigos, como também se transformam como indivíduos. Parece improvável, mas “Intocáveis” se inspira em uma história real. Neste caso, o drama biográfico de Philippe Pozzo di Borgo, um herdeiro e executivo bem-sucedido vítima de um acidente de parapente que o deixou imóvel do pescoço aos pés. Encontrou no argelino Abdel o amigo ideal para encarar a vida após a irreversível tragédia com mais otimismo.

Ao adaptar para o cinema esta incrível história, Eric Toledano e Olivier Nakache fizeram uma pequena modificação que permite ao filme um novo aspecto a ser refletido: em “Intocáveis”, Abdel se transformou em Driss, um negro. Configura-se assim um drama de caráter universal, permitindo que a franqueza com que se dá o relacionamento entre os protagonistas seja forte o suficiente para apagar qualquer conflito étnico que poderia se dar. O resultado é infalível, pois além de ser a produção francesa mais assistida nos cinemas, “Intocáveis” é também um dos melhores filmes de 2012.

Título Original: Intouchables
Ano de Produção: 2011
Direção: Eric Toledano e Olivier Nakache
Roteiro: Eric Toledano e Olivier Nakache
Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet, Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Cyril Mendy, Christian Ameri e Grégoire Oestermann

Resenha Crítica | Diário de Um Jornalista Bêbado (2011)

Diário de Um Jornalista Bêbado | The Rum DiaryLançados no Brasil com uma diferença de quase três meses, “Diário de Um Jornalista Bêbado” e “Na Estrada” são inspirados em dois nomes essenciais da literatura norte-americana. Como repórter, Hunter S. Thompson inaugurou o Jornalismo Gonzo, que acontece quando um escritor se mistura com a própria história que está criando, independente da mídia que ela será direcionada. Sem formalidades e imparcialidade, o estilo pode ser reconhecido em “Medo e Delírio em Las Vegas”, que foi escrito por Thompson. Embora Jack Koureac, precursor da geração beat, nada tenha a ver com Hunter S. Thompson, é interessante notar que ambos se tornaram famosos pela rebeldia com que lidavam com a escrita. Uma sessão dupla com “Diário de Um Jornalista Bêbado” e “Na Estrada” seria recomendável se as adaptações não se mostrassem tão desapontadoras.

Na comparação com o trabalho de Walter Salles, o filme de Bruce Robinson leva uma pequena vantagem. Johnny Depp vive Kemp, alter ego de Hunter S. Thompson. Nos primeiros momentos de “Diário de Um Jornalista Bêbado”, Kemp é contratado por Lotterman (Richard Jenkins) para ser um dos repórteres de um jornal de Porto Rico. Incapaz de passar uma hora sem consumir alguma bebida alcóolica (a preferência, claro, é um bom copo com rum), Kemp parece incapaz de julgar a si mesmo ao se envolver com Chenault (Amber Heard), a tentadora noiva de Sanderson (Aaron Eckhart), poderoso empresário que convoca Kemp para auxiliá-lo a se popularizar como uma figura confiável, mesmo que por trás de tudo esteja se envolvendo com esquemas corruptos para a construção de propriedades no local.

Como se imagina, Kemp se aproveitará de sua função como jornalista para tentar tirar alguma vantagem de toda a situação, caracterizando assim o citado Jornalismo Gonzo. Com isto, Bruce Robinson, que não rodava um filme desde o suspense “Jennifer 8 – A Próxima Vítima”, aproveita para representar na tela o texto descompromissado de Hunter S. Thompson, por vezes explorando as inúmeras confusões originadas em noites de bebedeira com Sala, o colega de trabalho de Kemp interpretado pelo excelente Michael Rispoli.

Quando “Diário de Um Jornalista Bêbado” precisa encenar passagens em que há mais seriedade, sente-se que o filme atinge um limite. As consequências da amizade questionável entre Kemp e Sanderson acontecem sem nenhum impacto e o resultado final da adaptação não se aproxima da mesma curiosidade do livro quanto a origem do Jornalismo Gonzo. Por fim, mesmo que seja um ator excelente, Johnny Depp não faz um Kemp vibrante como o aguardado. Amigo íntimo de Hunter S. Thompson (que cometeu suicídio em 2005), Depp não parece plenamente à vontade ao dar vida ao alter ego de seu ídolo.

Título Original: The Rum Diary
Ano de Produção: 2011
Direção: Bruce Robinson
Roteiro: Bruce Robinson, baseado no romance homônimo de Hunter S. Thompson
Elenco: Johnny Depp, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Amber Heard, Richard Jenkins, Giovanni Ribisi, Amaury Nolasco, Marshall Bell, Bill Smitrovich, Julian Holloway, Bruno Irizarry, Enzo Cilenti, Aaron Lustig e Tisuby González

Resenha Crítica | Quatro Amigas e Um Casamento (2012)

Quatro Amigas e Um Casamento | BacheloretteAlém de ser a melhor comédia do ano passado, “Missão Madrinha de Casamento” é uma prova de que é possível fazer humor astuto e para todo o público tendo mulheres defendendo os principais papéis da história que será contada. Quando a produção do independente “Quatro Amigas e Um Casamento” foi anunciada, a expectativa era de ver algo na mesma linha do filme de Paul Feig. Porém, passam-se alguns minutos de história e logo percebemos que não caímos apenas em uma barca furada, mas que “Quatro Amigas e Um Casamento” representa um retrocesso diante do sucesso e importância alcançados por “Missão Madrinha de Casamento” quando o assunto é filme feminino.

Originalmente encenada nos palcos, a história de “Quatro Amigas e Um Casamento” acompanha as desventuras de Regan (Kirsten Dunst), Gena (Lizzy Caplan) e Katie (Isla Fisher) no dia que antecede o casamento de Becky (Rebel Wilson). Mesmo que sejam amigas de Becky desde a juventude, o trio sente inveja da situação e não perdem oportunidades para destilarem um pouco de veneno. Isto porque mesmo que Becky seja gorda e um tanto estabanada, será a primeira entre elas a se casar com um bom partido.

Uma rápida visualização no perfil delas nos fará compreender a razão de, no fundo, serem tão infelizes. Mesmo que Regan se comporte como a mais politicamente correta das amigas, ela está presa em um relacionamento em que não há futuro. Já Gena não mede as consequências de suas atitudes desde que tomou uma decisão difícil em seu prematuro relacionamento com Clyde (Adam Scott), sujeito de quem está atualmente separada e que revê na despedida de solteiro do noivo de Becky. Por fim, Katie denota imaturidade a todo o momento. Viciada em drogas e bebidas alcoólicas, ela parece acreditar que vive em um universo dos contos de fadas, algo perceptível no apartamento em que vive, onde uma piscina substitui uma sala de estar.

Ao contrário do que se supõe, não há prejuízos a uma história que tenha como protagonistas personagens pouco adoráveis e com comportamentos difíceis diante de acontecimentos inesperados. Regan, Gena e Katie representam este modelo, mas não causam qualquer empatia por se tratarem apenas de mulheres próximas dos trinta e anos agindo como pré-adolescentes. Desta maneira, fica impossível rirmos dos momentos que se pretendem cômicos, como aquele em que elas rasgam o vestido de casamento de Becky. Em “Quatro Amigas e Um Casamento”, o humor é extraído da estupidez de suas protagonistas, não da inteligência que poderia se originar da inveja que elas são incapazes de disfarçar.

Pior do que a total ausência de risos é a inexperiência de Leslye Headland como roteirista e especialmente como cineasta. O texto de “Quatro Amigas e Um Casamento” é impregnado de vulgaridades e perceba que até o ator Adam Scott aparece visivelmente embaraçado com as patéticas sequências que protagoniza. Além de ruim de se ver, “Quatro Amigas e Um Casamento” também é ruim de se ouvir. O trabalho de som é precário, tornando quase inaudível o que os personagens estão falando. Presença fácil em uma lista de piores comédias americanas do ano, fica difícil compreender como os talentosos intérpretes se sujeitaram a participar de tremendo papelão.

Título Original: Bachelorette
Ano de Produção: 2012
Direção: Leslye Headland Roteiro: Leslye Headland
Elenco: Kirsten Dunst, Lizzy Caplan, Isla Fisher, Rebel Wilson, Adam Scott, James Marsden, Ann Dowd, Andrew Rannells, Kyle Bornheimer, Ella Rae Peck, Shauna Miles, Arden Myrin, Candy Buckley e Hayes MacArthur

Os Mercenários 2

Os Mercenários 2 | The Expendables 2Embora os efeitos especiais já estivessem presentes no cinema americano oitentista, os filmes de ação mais populares não foram aqueles que recorreram a eles, mas sim a grandes astros da arte da pancadaria. Nomes como Sylvester Stallone, Jean-Claude Van Damme, Bruce Willis e Dolph Lundgren garantiram o êxito de algumas produções ao resolver os seus conflitos na bordoada e sem recorrer a dublês. Em tempos em que o cinema privilegia mais do que nunca um espetáculo de tiros e explosões, é mais do que bem-vinda a iniciativa de Stallone em recuperar os elementos desses filmes, mas atualmente quase obsoletos.

Se em “Os Mercenários” Stallone fez um trabalho razoável ao ocupar o crédito de direção, nesta sequência ele se dá melhor ao convocar Simon West para lidar com esta responsabilidade. Desta vez, Stallone e sua trupe deverão impedir os planos de Vilain (Jean-Claude Van Damme) de enriquecer com a venda de plutônio roubado em um vilarejo. Porém, mais do que uma “missão de rotina”, a aventura será embalada também por uma motivação pessoal, uma vez que Vilain elimina um componente muito importante dos mercenários.

Em certos momentos, “Os Mercenários 2” é guiado pela nostalgia de forma tão excessiva passa a reprisar não apenas o que havia de melhor nos filmes de ação oitentista, como também o pior. Com um orçamento de 100 milhões de dólares, “Os Mercenários 2” poderia ao menos ser visualmente mais arrojado. Mas tudo isto é compreensível, uma vez que “Os Mercenários 2” é feito especialmente para aquele espectador que passou sua juventude (ou qualquer outra fase da vida) alugando semanalmente meia dúzia de filmes do gênero em formato VHS nas vídeo locadoras do bairro mais próximo ou que tentava afugentar a insônia vendo algum “Domingo Maior” da vida.

Além do mais, “Os Mercenários 2” resulta melhor que o seu predecessor porque Stallone deu uma bela polida no humor presente na narrativa. Não faltam diálogos espirituosos entre os personagens já realçados “Os Mercenários” e o espaço mais amplo dado a Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis renderam paródias dos seus maiores sucessos. Se estes exemplos de humor citados não fossem suficientes, “Os Mercenários 2” ainda obtém um feito que talvez não se repita no prometido “Os Mercenários 3”: trazer Chuck Norris em algumas aparições, que facilmente representam os melhores momentos do cinema-pipoca de 2012.

Título Original: The Expendables 2
Ano de Produção: 2012
Direção: Simon West
Roteiro: Richard Wenk e Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jean-Claude Van Damme, Jet Li, Dolph Lundgren, Chuck Norris, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Terry Crews, Randy Couture, Liam Hemsworth, Scott Adkins, Nan Yu, Amanda Ooms, Charisma Carpenter e Velislav Pavlov

J. Edgar

J. EdgarConhecido como J. Edgar, John Edgar Hoover fez história. Graduado em Direito, John iniciou sua carreira no Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Sua ambição o fez evoluir rapidamente até se tornar diretor do FBI, cargo que passou a ocupar até sua morte em 1972. “J. Edgar” é uma cinebiografia de John Edgar Hoover e o diretor Clint Eastwood e o roteirista Dustin Lance Black (que venceu o Oscar por “Milk – A Voz da Igualdade”) desejam ir além dos altos e baixos profissionais dessa figura real.

Ainda que a vida privada de John Edgar Hoover permaneça um mistério, Dustin Lance Black não tem receios ao tratar como fato as suspeitas quanto a sua orientação sexual. Interpretado por Leonardo DiCaprio, J. Edgar mostra-se aqui um homem muito próximo de sua mãe Annie (Judi Dench) e um fracassado diante de todas suas investidas amorosas em mulheres, o que inclui Helen Gandy (Naomi Watts), uma jovem que prefere investir em seu crescimento profissional como sua secretária do que abraçar uma vida convencional como esposa.

Como responsável pela interrupção das ações de inimigos públicos como o gângster John Dillinger, J. Edgar passou a ser tratado como um homem de respeito e encontrou em Clyde Tolson (o excelente Armie Hammer, que fez os gêmeos de “A Rede Social”) o braço-direito ideal para conduzir sua vida e trabalho.

Quando a narrativa se dedica em focar o relacionamento de J. Edgar e Clyde Tolson, consumado de maneira pudica, passamos a desvendar os tormentos internos do personagem-título. Mesmo que isto garanta atenção, sente-se que o John Edgar Hoover imaginado aqui não é o mais adequado. O filme apenas pincela episódios marcantes na vida profissional de J. Edgar, como sua grande colaboração para a prática de coleta e arquivamento de impressões digitais em cenas de crime e as polêmicas mantidas ocultas durante as quase quatro décadas que durou o seu mandato como diretor do FBI. Ao invés de dedicar mais tempo a esmiuçar tudo isto, “J Edgar” se arrasta encenando a última etapa de sua vida evitando os holofotes, o que culmina em um terceiro ato em que todo o elenco central é submetido a uma vergonhosa maquiagem de envelhecimento.

Título Original: J. Edgar
Ano de Produção: 2011
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Leonardo DiCaprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Judi Dench, Josh Lucas, Josh Hamilton, Geoff Pierson, Ed Westwick, Jessica Hecht, Ken Howard, Jeffrey Donovan, Denis O’Hare, Kyle Eastwood, Jamie LaBarber e Dermot Mulroney

Resenha Crítica | Poder Paranormal (2012)

Poder Paranormal | Red LightsO jovem Rodrigo Cortés deu um grande salto em sua carreira. Após o pouco visto “Concursante”, uma comédia dramática de 2007 ainda inédita no Brasil, o diretor espanhol transformou o pequeno e corajoso “Enterrado Vivo” em uma obra aclamada pela crítica mundial. “Poder Paranormal” é seu terceiro longa-metragem e pôde contar com veteranos como Robert De Niro e Sigourney Weaver. O orçamento é maior, mas Rodrigo Cortés desenvolveu o projeto com a liberdade conferida apenas aos cineastas europeus. O resultado, no entanto, é aquém do aguardado.

Se antes Cortés confinou o astro Ryan Reynolds em um caixão em toda a narrativa de “Enterrado Vivo“, em “Poder Paranormal” temos vários personagens em ambientes pouco claustrofóbicos. Margaret Matheson e seu assistente Tom Buckley são os protagonistas da história. Além de professores universitários, ambos atuam como investigadores de fenômenos paranormais. Astuta, a dupla sempre desmascara aqueles que se dizem responsáveis pelos fenômenos metafísicos presenciados. Isto pode mudar com o ressurgimento de Simon Silver (Robert De Niro), um vidente cego que estava no ostracismo durante trinta anos.

Mesmo que Simon seja realmente uma figura enigmática, todo o potencial de “Poder Paranormal” se concentra em Margaret. Mãe de um filho que jamais despertou de um coma, Margaret questiona o seu ceticismo diante da presença de Simon, tornando-o o único caso não resolvido diante de uma dúvida que ficou aprisionada em sua mente durante tantos anos.

Quando a bola é passada para Tom, que através de um acontecimento terá de planejar artimanhas para desmascarar Simon em público (isto se haver algo que o condene como uma fraude), “Poder Paranormal” descarta todas as possibilidades de construir um suspense competente que instigue a plateia a discutir sobre suas próprias crenças, culminando em um terceiro ato marcado pela transmissão de informações apressadas e cenas de impacto sem razões fortes para existirem, como aquela em que Tom apanha em um banheiro. Não foi desta vez que visualizamos um exemplar excepcional ao discutir a velha batalha de crença x ceticismo.

Título Original: Red Lights
Ano de Produção: 2012
Direção: Rodrigo Cortés
Roteiro: Rodrigo Cortés
Elenco: Cillian Murphy, Robert De Niro, Sigourney Weaver, Toby Jones, Elizabeth Olsen, Joely Richardson, Craig Roberts, Burn Gorman, Karen David, Eugenio Mira e Jan Cornet

Resenha Crítica | Um Método Perigoso

Um Método Perigoso | A Dangerous MethodEmbora David Cronenberg tenha construído uma filmografia que tenta compreender as obscuridades do ser humano, causa estranheza ver o seu nome associado a “Um Método Perigoso”. Primeiro porque se trata de uma produção de época. Segundo porque o roteiro é escrito por Christopher Hampton, cujos textos garantem uma encenação formal – “Um Método Perigoso” foi levado ao teatro em 2002.

Em “Um Método Perigoso”, visualizamos o início e fim da amizade entre Carl Jung (Michael Fassbender) e Sigmund Freud (Viggo Mortensen, indicado ao Globo de Ouro pelo papel), psicanalistas de lados opostos quanto ao que defendiam sobre o que moldava o inconsciente humano. Mais do que as divergências diante do tema, houve um pivô que decretou o rompimento entre Jung e Freud. Trata-se de Sabina Spielrein (Keira Knightley), paciente russa que sofre de histeria. Jung decide tratá-la recorrendo ao método de cura pela fala, desenvolvida por Freud. Uma vez recuperada, Jung vai ao encontro de Freud expondo motivações que o direcionarão a estudar a psique humana através de bases das quais ele desaprova.

David Cronenberg consegue extrair boas performances do elenco. Enquanto Michael Fassbender e Viggo Mortensen lidam com diálogos difíceis, Keira Knightley convence como Sabina, uma jovem perturbadora que se converte em pupila de Jung. Porém, o grande destaque é Vincent Cassel, que vive o psiquiatra esquizofrênico Otto e um breve contraponto a Jung e Freud.

Por outro lado, a exposição de tantos pontos de vista conflitantes resulta em um filme exaustivo de se acompanhar e incapaz de se aproximar da genialidade de Carl Jung e Sigmund Freud. Afeito a obras que mostram a desconstrução de seus protagonistas de modo visual, Cronenberg não é bem-sucedido ao fazê-lo de modo verbalizado.

Título Original: A Dangerous Method
Ano de Produção: 2011
Direção: David Cronenberg
Roteiro: Christopher Hampton
Elenco: Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Keira Knightley, Vincent Cassel, Sarah Gadon, André Hennicke, Arndt Schwering-Sohnrey, Mignon Remé, Wladimir Matuchin, Katharina Palm, Theo Meller, Andrea Magro e Aaron Keller