As Vantagens de Ser Invisível

As Vantagens de Ser Invisível | The Perks of Being a WallflowerMuitos escritores contemporâneos parecem despreparados para contarem uma história que se desenvolve em um grupo juvenil. Os avanços da tecnologia permitem que todos os adolescentes sejam capazes de interagirem entre si com a distância de um clique. Porém, isto não significa que a vida desses indivíduos em processo de formação se resuma a vícios por redes sociais ou aparelhos móveis. Ao contrário de nomes como Lisa Azuelos, realizadora da versão francesa e americana de “Rindo à Toa”, Stephen Chbosky entende este recado, pois “As Vantagens de Ser Invisível” mostra a nada mole vida de um adolescente.

Mesmo que a narrativa de “As Vantagens de Ser Invisível” não transcorra nos dias atuais (a ausência de objetos tão corriqueiros como computadores e celulares indica que ela acontece durante os anos 1990), Stephen Chbosky apresenta os elementos corretos para nos fisgar nesta adaptação do seu próprio romance de tom autobiográfico.

Sem recorrer aos velhos padrões que definem e separam os colegiais populares dos loosers, “As Vantagens de Ser Invisível” foca o introvertido Charlie (Logan Lerman) sendo introduzido a uma nova escola. Ao invés de ser hostilizado pelo simples fato de não ter com quem conversar (o seu melhor amigo cometeu suicídio recentemente), Charlie é rapidamente acolhido pelos meios-irmãos Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson) e o professor de literatura Anderson (Paul Rudd).

Os três serão responsáveis por transformarem Charlie em um adolescente mais preparado para enfrentar alguns dilemas que o perseguem. Homossexual assumido, mas com um relacionamento mantido em segredo com o líder de um time de futebol (Johnny Simmons), Patrick torna Charlie mais sociável. Já Sam é a garota pela qual ele se apaixona perdidamente. O problema é que ela se envolve com outros garotos que não a respeitam. Como confessa em uma ocasião, ela aceita o amor que ela acha que merece. Por fim, Anderson, como bom profissional, trará sabedoria ao jovem ao incentivá-lo a mergulhar na leitura e escrita.

Na relação do protagonista com estes e outros personagens, “As Vantagens de Ser Invisível” levanta temas como amizade, depressão, paixão, orientação sexual e futuro com sutileza. O feito é obtido devido ao gosto apurado de Stephen Chbosky para as escolhas. A escalação dos jovens Logan Lerman, Emma Watson (provando que há vida após “Harry Potter“) e Ezra Miller não poderia ser mais impecável e a nostalgia invade a tela através da seleção de músicas como “Asleep” (“The Smiths”), “Heroes” (David Bowie) e “Temptation” (“New Order”), que traduzem os tormentos internos de Charlie. Imperdível, inclusive para o público que já passou por esta fase tão conturbada da existência humana.

Título Original: The Perks of Being a Wallflower
Ano de Produção: 2012
Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Stephen Chbosky, baseado no livro homônimo de sua autoria
Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Nina Dobrev, Paul Rudd, Mae Whitman, Melanie Lynskey, Kate Walsh, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Nicholas Braun, Zane Holtz, Reece Thompson, Julia Garner, Erin Wilhelmi, Adam Hagenbuch, Owen Campbel, Brian Balzerini, Tom Kruszewski, Rick Dawson, Emily Marie Callaway e Tom Savini

Resenha Crítica | ParaNorman (2012)

ParaNormanOs responsáveis de “Coraline e o Mundo Secreto”, baseado em um livro do cultuado Neil Gaiman, conseguiram um feito antes alcançado apenas pelas produções animadas de Tim Burton: conquistar a plateia com uma produção infantil para lá de sombria. Ao que tudo indica, o sucesso permitiu o sinal verde para “ParaNorman”, uma animação que pode perturbar ainda mais a criançada.

Norman (voz de Kodi Smit-McPhee) é zombado pelos colegas de classe pelo dom (ou seria maldição?) de falar com os mortos. Daí o apelido ParaNorman. O problema é que o pobre garoto não é visto com bons olhos nem pela própria família. Especialmente pelo pai (Jeff Garlin), exausto de ouvir Norman afirmando que o fantasma da sua avó está acomodado na sala de estar tricotando e vendo tevê.

Também menosprezado pelos colegas, o gordinho Neil (Tucker Albrizzi) surge para se tornar o primeiro amigo de Norman, uma vez que não se incomoda com a habilidade dele de se comunicar com seres do além. Enquanto isto, Norman é procurado pelo seu tio Prenderghast (John Goodman), um senhor dado como louco. Assim que parte dessa para a melhor, Prenderghast diz que uma maldição secular irá tomar a cidade e que Norman será o único capaz de quebrá-la.

Mesmo que seja um finalista ao Oscar de melhor animação em longa-metragem, “ParaNorman” não vai além da mera curiosidade. Como em “Coraline e o Mundo Secreto”, não há em “ParaNorman” um bom equilíbrio entre o humor e o tenebroso. Quando há espaço para piadas, elas se resumem a fazer graça com estereótipos – e olha que a história se mostra contra a prática do bullying. Já nas oportunidades de abraçar suas raízes de terror, sente-se que “ParaNornan” o faz com receio de ir longe demais. Ficou no meio do caminho.

Título Original: ParaNorman
Ano de Produção: 2012
Direção: Chris Butler e Sam Fell
Roteiro: Chris Butler
Vozes de: Kodi Smit-McPhee, Anna Kendrick, Leslie Mann, Casey Affleck, John Goodman, Christopher Mintz-Plasse, Jodelle Ferland, Bernard Hill, Jeff Garlin, Elaine Stritch, Tempestt Bledsoe, Tucker Albrizzi e Hannah Noyes

Resenha Crítica | Moonrise Kingdom (2012)

Moonrise KingdomCom “Os Excêntricos Tenembaums”, Wes Anderson passou a ser reconhecido como um cineasta americano de estilo muito particular e criador de personagens para lá de incomuns. Infelizmente, com exceção da animação “O Fantástico Sr. Raposo”, tantas excentricidades transformaram Anderson em um cineasta desinteressante de se acompanhar, resultado da resposta pouco entusiasmada de público e crítica diante das experiências proporcionadas por “Viagem a Darjeeling” e especialmente “A Vida Marinha com Steve Zissou”. Com “Moonrise Kingdom”, Wes Anderson volta a filmar com fôlego renovado.

Filme de abertura na última edição do Festival de Cannes, “Moonrise Kingdom” mostra o relacionamento entre os pequenos Suzy Bishop (Kara Hayward) e Sam Shakusky (Jared Gilman), que de infantil não tem nada. Em pleno verão de uma ilha na Nova Inglaterra de 1965, os encontros entre este casal se mostram complicados a partir do instante em que eles se intensificam. Isto porque os pais de Suzy (interpretados por Bill Murray e Frances McDormand) são rigorosos e porque Sam é um órfão escoteiro que se mostra o menos popular da turma de colegas.

Contra tudo e contra todos, Suzy e Sam estão determinados em selar um casamento precoce e fugirem do local. Os planos podem ir por água abaixo quando algumas pessoas dão conta do sumiço dos dois e se mobilizam para encontrá-los, cada um com uma intenção distinta. Temos tanto o escoteiro-chefe Randy Ward (Edward Norton) querendo se destacar ao cumprir a missão quanto uma representante do serviço social (Tilda Swinton) que pretende ter sob o seu poder o desolado Sam.

Tal descrição sobre a premissa de “Moonrise Kingdom” ganha tradução pouco convencional na tela, claro. Como aguardado, Wes Anderson esbanja um gosto sofisticado ao contar esta história. Registra um universo que se mostra todo seu com uma câmera conduzida com rigor, além de moldá-lo com direção de arte, fotografia e trilha-sonora que correspondem perfeitamente ao perfil dos adoráveis personagens. Reencontra, enfim, o tom adequado para representar a pureza na descoberta do amor e a solidariedade que brota inesperadamente em adultos amargurados que não desprezam um final feliz.

Título Original: Moonrise Kingdom
Ano de Produção: 2012
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Roman Coppola e Wes Anderson
Elenco: Kara Hayward, Jared Gilman, Bruce Willis, Edward Norton, Tilda Swinton, Bill Murray, Frances McDormand, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Bob Balaban, Charlie Kilgore, Tommy Nelson, Neal Huff, Chandler Frantz, Jake Ryan, Lucas Hedges, Gabriel Rush, Andreas Sheikh, Jordan Puzzo, James Wilcox, L. J. Foley, George J. Vezina e Joshua Meehan

Resenha Crítica | A Escolha Perfeita (2012)

A Escolha Perfeita | Pitch PerfectNão há dúvidas de que “Glee” inovou a televisão americana ao se apresentar como um musical contemporâneo. No entanto, a superficialidade com que os roteiristas lidavam com os personagens estereotipados e seus dramas particulares se revelou algo exaustivo para aqueles que acompanharam com interesse o seriado no início de 2009. Porém, até que isto se estabelecesse, o público-alvo de “Glee”, justamente os adolescentes, já estava dando replay nas versões moderninhas de canções como “Don’t Stop Believin’”, do “Journey”.

Os planos de apresentar para a nova geração clássicos do rock e pop com uma nova roupagem eram arriscados, mas o sucesso veio imediatamente. “A Escolha Perfeita”, longa-metragem de estreia de Jason Moore (que tem em seu currículo a direção de alguns episódios de “Dawson’s Creek” e “Brothers & Sisters”) guarda muitas similaridades com “Glee”, mas se mostra infinitamente superior no que se diz respeito a construção de personagens e números musicais vibrantes.

Indicada ao Oscar por “Amor Sem Escalas”, Anna Kendrick é Beca, uma jovem que vislumbra um futuro como profissional no ramo musical. Mesmo contra sua própria vontade, ela se matricula na Universidade Barden, instituição em que o seu pai (John Benjamin Hickey) é professor. Assim como acontece com o protagonista de “Glee”, o talento vocal de Beca é descoberto enquanto ela canta no chuveiro. Chloe (Brittany Snow), aquela que a flagra soltando a voz descompromissadamente, a convida para participar da fraternidade em que a careta Aubrey (Anna Camp) é líder. Beca se mostra pouco entusiasmada, mas é encorajada pelo seu pai a fazer amizade com essas moças que aspiram vencer um concurso musical anual.

Além de Beca, Chloe e Aubrey, “A Escolha Perfeita”, que é inspirado em um livro escrito por Mickey Rapkin e produzido por Elizabeth Banks (que faz uma participação especial como uma comentarista musical sem papas na língua), tem outros personagens carismáticos. Jesse (Skylar Astin) é colega de trabalho e rival de Beca, mas provará ser um bom sujeito como potencial interesse amoroso. Mas as maiores surpresas ficam por conta da espevitada Fat Amy (Rebel Wilson, que está conquistando Hollywood rapidamente) e Lilly (Hana Mae Lee), uma garota que profere frases bizarras em voz inaudível.

Como se espera, as músicas de “A Escolha Perfeita” são usadas em cena nos mesmos moldes de “Glee”. Além de muito autotune (uma ferramenta que corrige as imperfeições na voz de um cantor), há também os já famosos mashups, nome dado a uma junção de duas ou mais canções distintas. Felizmente, o resultado obtido não incomoda devido ao inspirado elenco, que protagoniza ótimos embates musicais. Além do mais, “A Escolha Perfeita” tem um delicioso clima de matinê oitentista tão difícil de se ver em produções contemporâneas. Provável fã de John Hughes,  Jason Moore não deixa de citar “O Clube dos Cinco”, obra que fará a protagonista Beca enxergar a juventude, a música e o cinema com outros olhos.

Título Original: The Pitch Perfect
Ano de Produção: 2012
Direção: Jason Moore
Roteiro: Kay Cannon, baseado no livro de Mickey Rapkin
Elenco: Anna Kendrick, Skylar Astin, Ben Platt, Brittany Snow, Anna Camp, Rebel Wilson, Alexis Knapp, Ester Dean, Hana Mae Lee, Kelley Jakle, Wanetah Walmsley, Shelley Regner, Caroline Fourmy, Nicole Lovince, Adam DeVine, Utkarsh Ambudkar, Michael Viruet, David Del Rio, Elizabeth Banks, John Michael Higgins, John Benjamin Hickey e Christopher Mintz-Plasse

Frankenweenie

FrankenweenieDemorou para o sonho de Tim Burton em transformar “Frankenweenie” em longa-metragem se tornar realidade. Outrora realizado em formato de curta-metragem, o cineasta aguardava pelo momento em que a tecnologia se mostrasse avançada o suficiente, bem como a chance de viabilizá-lo através de um grande estúdio. Eis que a hora chegou para Tim Burton fazer “Frankenweenie” do jeito que sempre visualizou em sua mente.

É a Disney, plenamente satisfeita com o um bilhão de dólares que “Alice no País das Maravilhas” atraiu para o seu cofre, que investe nesta história com pesada atmosfera gótica sobre Bob (voz de Robert Capron, de “Diário de Um Banana”), um menino introspectivo que passa a maior parte do seu tempo fora da escola na companhia do seu cachorro Sparky. Em um jogo de baseball, o pior acontece: ao correr para apanhar a bola em que Bob acertou com seu taco após um arremesso, Sparky é atropelado. O cãozinho não resiste e Bob está tão inconformado que decide por em prática uma experiência científica que pode trazer os mortos de volta à vida.

Para esta história, Tim Burton e o roteirista John August se inspiram em clássicos do cinema fantástico como “Frankenstein”. Há também personagens secundários cujos nomes fazem uma divertida homenagem à grandes personagens e nomes da literatura gótica, como Elsa Van Helsing (voz de Winona Ryder), vizinha de Bob, e Edgar ‘E’ Gore (Atticus Shaffer), brincadeira óbvia com o poeta e autor americano Edgar Allan Poe.

Este fator, somado ao preto e branco e a técnica de stop motion, entrega uma animação atípica para o público infantil, algo que justifica sua baixa popularidade no circuito comercial. Adeptos ao estilo excêntrico do cineasta poderão se deliciar com o filme, no entanto. Visualmente esplêndido, “Frankenweenie” é a obra mais autoral de Tim Burton em muito tempo e se apresenta ousada em um universo aparentemente ingênuo. Perde pontos apenas pela conclusão, que anula parcialmente a força da mensagem de que o processo de superar uma perda é doloroso, mas necessário.

Título Original: Frankenweenie
Ano de Produção: 2012
Direção: Tim Burton
Roteiro: John August, baseado no curta-metragem homônimo escrito por Leonard Ripps e Tim Burton
Vozes de: Robert Capron, Winona Ryder, Catherine O’Hara, Martin Short, Conchata Ferrell, Tom Kenny, Martin Landau, Atticus Shaffer, Charlie Tahan, James Hiroyuki Liao e Christopher Lee

Looper – Assassinos do Futuro

Looper - Assassinos do Futuro | Looper Diante da tecnologia que o cinema atualmente tem ao seu dispor, surpreende a ausência de filmes de ficção-científica que construam realidades paralelas ou universos inimagináveis com autenticidade. Lamentavelmente, o que se vê são atualizações de obras bem-sucedidas no passado, resultando agora em espetáculos barulhentos e visualmente confusos.

Oriundo do cinema independente, o jovem cineasta americano Rian Johnson consegue fazer uma interessante mescla entre modernidade e conteúdo com “Looper – Assassinos do Futuro”. Esta modesta realização recorre a alguns artifícios visuais ao contar uma envolvente história que se desenvolve através da interação entre presente e futuro, dois tempos distintos, mas que dependem um do outro.

Em 2044, teremos Loopers, agentes anônimos contratados pela máfia e encarregados de eliminarem pessoas do futuro. Através de Joe (Joseph Gordon-Levitt), personagem central da história, vemos que o seu trabalho é simples. Sempre no mesmo lugar e horário programados, Joe irá se deparar com o seu alvo encapuzado através de teletransporte, disparando sua arma sem qualquer vacilo. Depois, resta a ele dar fim ao cadáver, algo que se mostra mais complicado no futuro que veio.

Mesmo que a atividade desumana se mostre financeiramente recompensadora, Joe tem ciência de que o seu destino já está predeterminado: uma vez que um Looper eliminar sua versão do futuro, não restará muitos anos para que o mesmo inegavelmente lhe aconteça. Isto acontece mais cedo que o esperado e exatamente por isto Joe falha na missão de matar o homem que é sua versão mais velha (e incorporada por Bruce Willis).

Se esta premissa já não rendesse um entretenimento de prender na cadeira, o também roteirista Rian Johnson prepara para a segunda parte de “Looper- Assassinos do Futuro” uma nova surpresa através de Sara, personagem da excelente Emily Blunt que aos poucos se mostrará algo além de uma mera desconhecida para Joe. Chegado a este momento, entretanto, “Looper – Assassinos do Futuro” tem uma pequena falha que se espalha como um câncer. Trata-se da maquiagem que praticamente deforma o rosto de Joseph Gordon-Levitt ao ponto de querer aproximá-lo das mesmas feições de Bruce Willis. A semelhança entre os protagonistas inexiste e isto quebra um pouco da mágica de “Looper – Assassinos do Futuro”, que não nos consegue fazer crer que estamos, enfim, diante da mesma pessoa.

Título Original: Looper
Ano de Produção: 2012
Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson
Elenco: Bruce Willis, Joseph Gordon-Levitt, Emily Blunt, Jeff Daniels, Piper Perabo, Paul Dano, Garret Dillahunt, Pierce Gagnon, Tracie Thoms, Han Soto, Sylvia Jefferies, Noah Segan, David Jensen, Nick Gomez, Sam Medina, James Rawlings, Ritchie Montgomery, James Hébert, Amy Le, Adam Boyer e Josh Perry

Resenha Crítica | O Impossível (2012)

O Impossível | The ImpossibleMesmo sendo um episódio encenado brevemente, Clint Eastwood fez uma impactante recriação do tsunami que atingiu alguns países da Ásia em 2004 no filme “Além da Vida“. Porém, a intenção do cineasta foi usar a tragédia real como mero artifício de um drama que foca três protagonistas na linha tênue entre a vida e a morte. “O Impossível”, segundo longa-metragem do espanhol Juan Antonio Bayona, surge para compreender as consequências irreversíveis causadas em milhares de indivíduos que sobreviveram a esta histórica tragédia.

Maria e Henry (Naomi Watts e Ewan McGregor) são pais de Lucas, Thomas e Simon (respectivamente, Tom Holland, Samuel Joslin e Oaklee Pendergast), todos ainda pequenos. Mesmo que Henry esteja receoso quanto a sua situação profissional, a família acredita que passar a semana de natal na Tailândia será o melhor antídoto para esquecer qualquer preocupação. De modo breve, acompanhamos este quinteto se divertido como qualquer turista. No entanto, o que era para ser uma viagem tranquila se transforma em pesadelo quando esta família é atingida por um tsunami que invade a área de lazer do hotel em que estão hospedados.

Como se espera de qualquer filme catástrofe, a narrativa se concentra em poucos protagonistas na intenção de representar um coletivo.  Portanto, o roteiro de Sergio G. Sánchez acompanha a busca desesperada dos membros dessa família em se reencontrarem, uma vez que o tsunami separou Maria e Lucas de Henry, Thomas e Simon.

Com isto, “O Impossível” soma créditos não apenas por se aprofundar em sentimentos como esperança, solidariedade e desolação que rodeiam tragédias como esta, mas por se inspirar na história verídica de uma família que sobreviveu ao tsunami. Neste caso, da espanhola María Belón, uma pessoa essencial para a produção de “O Impossível”, uma vez que colaborou ativamente tanto no desenvolvimento do roteiro quanto o processo de composição de Naomi Watts para incorporá-la no cinema – o trabalho lhe valeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz neste ano.

Ainda que haja algumas escolhas pouco autênticas nesta produção espanhola falada em inglês, como as facilidades que os personagens centrais têm ao identificarem no meio da multidão inúmeras vítimas que dialogam no mesmo idioma (sente-se em certos momentos que a Tailândia é habitada mais por americanos e ingleses do que nativos) e o modo privilegiado como são tratados em um acontecimento em que todos se tornam iguais, “O Impossível” prova que é certeiro quando precisa arrebatar. Após a melancolia que preencheu  a resolução do mistério de “O Orfanato”, Juan Antonio Bayona agora provoca comoção ao mostrar que nada é mais poderoso que o espírito humano, independente de qualquer rastro de destruição provocado por um fenônemo inesperado.

Título Original: The Impossible
Ano de Produção: 2012
Direção: Juan Antonio Bayona
Roteiro: Sergio G. Sánchez, inspirado na história de María Belón
Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Russell Geoffrey Banks, Marta Etura, Geraldine Chaplin, Sönke Nöhring, Dominic Power, Olivia Jackson, Oaklee Pendegast, Bruce Blain, Teo Quintavalle, Nicola Harrison, Samuel Joslin, Gitte Witt, Byron Gibson, Oak Keerati, Laura Power, Natalie Lorence, Ploy Jindachote e Johan Sundberg

O Legado Bourne

O Legado Bourne | The Bourne LegacyMesmo que “O Ultimato Bourne” tenha se revelado uma experiência exaustiva para Matt Damon, o ator disse que voltaria a protagonizar um novo filme para a franquia Bourne com a condição de que Paul Greengrass estivesse novamente por trás das câmeras. A exigência não agradou a  Universal Pictures, aborrecida com o fracasso de “Zona Verde” (outra parceria estabelecida entre diretor e ator após “O Ultimato Bourne”) e receosa quanto ao temperamento difícil do diretor inglês nos sets.

Sem acordo, o estúdio decidiu seguir em frente e fez o possível para não trair os fãs da franquia Bourne. “O Legado Bourne”, ao contrário do que poderia se supor, não é um reboot ou um remake, mas sim um filme que transita em cenários já explorados Jason Bourne. Aí está a pegadinha: Tony Gilroy tenta fazer uma obra livre de amarras, mas se faz refém de um público que precisa assimilar a onipresença de Jason Bourne.

O herói da vez é Aaron Cross, interpretado pelo astro do momento Jeremy Renner. Este agente secreto não é desmemoriado, mas passou pelo mesmo programa  secreto para recrutamento desenvolvido pelo governo americano (nomeado Treadstone) que Jason Bourne e atualmente se vê em conflito consigo mesmo ao não conseguir controlar o vício por uma droga que o transformou em um indivíduo com resistência e habilidade sobre-humanas. Procurada por Aaron, a doutora Marta Shearing (Rachel Weisz) é uma das responsáveis pela fabricação da droga, misteriosamente cessada.

Após “Conduta de Risco” e “Duplicidade”, o americano Tony Gilroy mostra-se mais hábil ao orquestrar a ação de “O Legado Bourne”. Na melhor dela, Marta é a única a sobreviver no repentino massacre cometido por um colega no laboratório em que trabalha. Mesmo com esta evolução, “O Legado Bourne” se mostra insatisfatório ao resgatar uma franquia que fechou muito bem todo o seu ciclo como uma trilogia. Em resumo, “O Legado Bourne” é incapaz de justificar sua própria existência. Falta também ao filme personagens que outrora formaram um contraponto interessante a Jason Bourne. Sem Albert Finney, David Strathairn e Joan Allen (que fazem aparições muito breves), restou a introdução de um enfadonho Edward Norton à franquia como Eric Byer, um coronel aposentado chamado pelo diretor da CIA (Scott Glenn) para eliminar Aaron.

Título Original: The Bourne Legacy
Ano de Produção: 2012
Direção: Tony Gilroy
Roteiro: Dan Gilroy e Tony Gilroy, inspirado no romance de Robert Ludlum
Elenco: Jeremy Renner, Rachel Weisz, Edward Norton, Joan Allen, Albert Finney, Corey Stoll, Scott Glenn, Oscar Isaac, Stacy Keach, Donna Murphy, Sheena Colette, Nilaja Sun, Michael Chernus, Michael Berresse, Eli Harris, Jeff Grossman, Tom Riis Farrell, Page Leong e David Strathairn

Selvagens

Selvagens | SavagesVencedor de três prêmios Oscar, Oliver Stone teve um momento em que foi considerado um dos mais brilhantes cineastas americanos em atividade. Politizado e polêmico, Stone teve uma fase brilhante entre os anos 1980 e 1990. Porém, a vontade em circular entre gêneros que não lhe são muito reconhecíveis a partir de “Reviravolta” o fez perder a inspiração e o ritmo com que era habituado a trabalhar (ele já fez dois longas-metragens em apenas um ano, como foi o caso de “Salvador – O Martírio de um Povo” e “Platoon”, ambos produzidos em 1986).

“Selvagens” definitivamente não aparecia da seleção dos melhores filmes em toda sua carreira, mas apresenta um cineasta de fôlego renovado após uma década em que só fez obras desapontadoras (senão simplesmente ruins, como é o caso do épico “Alexandre”). Prova disto está na escolha de jovens intérpretes como protagonistas de uma história ultraviolenta. Taylor Kitsch e Aaron Johnson fazem os melhores amigos e sócios Ben e Chon. Além de cultivarem a melhor maconha do mundo, ambos dividem O (Blake Lively), ingênua e belíssima garota que parece realizada com a situação.

Apesar do negócio ilegal, Ben e Chon não se comportam como vilões da história. Muito pelo contrário. Além do triângulo amoroso que não apresenta qualquer fragilidade, eles investem os lucros em trabalhos filantrópicos, como a educação para crianças desfavorecidas na África. Ainda assim, será questão de tempo até que alguma ameaça se apresente na frente deles. Isto surge na forma da traficante Elena (Salma Hayek, irresistível no papel), cujo braço direito, Lado (Benicio Del Toro, em interpretação antológica), é um homem extremamente cruel, especialmente no que diz respeito aos seus métodos de tortura.

Elena está interessada em formar parceria com Ben e Chon e não aceita um não como resposta. Chon está muito receoso em negar a proposta, mas Ben, ex-mercenário e ex-oficial de elite da Marinha, decide desafiar Elena. A consequência é o rapto de O, que será torturada lentamente por Lado caso eles se neguem a cumprir as exigências de Elena. Enquanto correm contra o tempo, Ben e Chon se esforçam para desvendarem o “calcanhar de Aquiles” de Elena enquanto esta desenvolve um relacionamento quase maternal com O.

Com a colaboração de Don Winslow e Shane Salerno no roteiro, Oliver Stone faz de “Selvagens” uma aventura pulsante, que ganha a plateia assim que se aprofunda no perfil de cada personagem. Além dos nomes já mencionados, o grande elenco ainda conta com John Travolta e Demián Bichir fazendo dois agentes da polícia corruptos e Emile Hirsch como Spin, o contador de Ben e Chon. Tudo embalado por um frenesi de cores e violência que só não se aproxima de “Assassinos por Natureza” – um dos melhores filmes de Stone – pelo ato final, que apresenta uma resolução (ou duas) não muito satisfatória.

Título Original: Savages
Ano de Produção: 2011
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Don Winslow, Oliver Stone e Shane Salerno, baseado no romance homônimo de Don Winslow
Elenco: Blake Lively, Taylor Kitsch, Aaron Johnson, Gary Stretch, Benicio Del Toro, Diego Cataño, Shea Whigham, Karishma Ahluwalia, Joaquín Cosio, John Travolta, Jonathan Carr, Demián Bichir, Antonio Jaramillo, Salma Hayek, Jake McLaughlin, Alexander Wraith, Anthony Cutolo, Emile Hirsch, Kurt Collins, Amber Dixon Brenner, Leonard Roberts, Joel David Moore, Sala Baker, Sandra Echeverría, Sean Stone, Marco Morales e Lucinda Serrano

Resenha Crítica | Os Três Patetas (2012)

Os Três Patetas | The Three StoogesMesmo que o tempo condene, há coisas que não envelhecem jamais, especialmente aquilo que tornou nossa infância tão especial. Embora “Os Três Patetas” fosse exibido na tevê aberta, pude conhecer este clássico seriado graças ao meu falecido pai. Semanalmente, gargalhávamos com as trapalhadas de Moe, Larry e Curly. Craque da comédia física, o trio simulava golpes que rendiam efeitos sonoros hilários. Já sou um jovem crescido, mas me divirto como uma criança em todas as ocasiões em que posso rever alguns curtas de “Os Três Patetas”.

Os irmãos Bobby e Peter Farrelly também têm um carinho especial por esta preciosidade cômica. Responsáveis por “Quem Vai Ficar com Mary?” e “Passe Livre”, ótimos modelos da comédia politicamente incorreta, os Farrelly carregaravam durante anos o sonho de um dia transformar “Os Três Patetas” em um longa-metragem. Em meados da década passada, o projeto quase saiu com Jim Carrey, Sean Penn e Benicio Del Toro como protagonistas, mas as coisas não estavam progredindo e os três atores foram se desligando do projeto. Agora, “Os Três Patetas” finalmente é levado aos cinemas, contando com Chris Diamantopoulos, Sean Hayes e Will Sasso.

Os diretores compreendem que a geração atual talvez não conheça “Os Três Patetas” e decidirem adaptar os curtas nos tempos atuais. Antes em preto e branco e situado em poucos cenários, agora “Os Três Patetas” é colorido, contemporâneo e conta com seus protagonistas transitando em ambientes mais amplos. Órfãos, Moe, Larry e Curly cresceram em um orfanato que está prestes a fechar, uma vez que as confusões do trio simplesmente afugentaram os pais adotivos que por ali passaram, o que consequentemente faz com que as freiras não recebam doações para manter o local. Juntos, Moe, Larry e Curly vão à cidade grande para levantarem o valor necessário e impedir que o orfanato feche as portas.

Apesar das atualizações, o espírito de “Os Três Patetas” original é mantido. Os memoráveis efeitos sonoros estão intactos e Chris Diamantopoulos, Sean Hayes e Will Sasso estão perfeitamente caracterizados. Além do mais, os Farrelly turbinam o humor com a presença do grande Larry David. Criador de “Seinfield” e protagonista de “Curb Your Enthusiasm”, o ranzinza Larry é capaz de provocar um sorriso largo apenas com a sua presença e vê-lo incorporando uma das freiras do orfanato foi uma escolha genial.

No mais, “Os Três Patetas” também consegue desenvolver uma trama em que há a ingenuidade que os fãs reconhecem. Um esforço dos Farrelly de tirar o chapéu, pois todos sabemos o que ambos fazem quando trabalham sem censura. Tantos esforços e acertos não parecem suficientes, entretanto. Além de deslocada e sem um pingo de graça, as passagens de Moe entre integrantes do televisivo “Jersey Shore” provam que qualquer tentativa de adaptar o intocável “Os Três Patetas” resultará insuficiente. Caímos assim na velha discussão entre o velho e o novo. O filme dos Farrelly é divertido e nostálgico, mas é o original (precisamente, a formação Moe, Larry e Curly Joe) que está eternizado em nossos corações.

Título Original: The Three Stooges
Ano de Produção: 2012
Direção: Bobby Farrelly e Peter Farrelly
Roteiro: Bobby Farrelly, Mike Cerrone e Peter Farrelly
Elenco: Chris Diamantopoulos , Sean Hayes, Will Sasso, Sofía Vergara, Jane Lynch, Jenni Farley, Nicole Polizzi, Larry David, Stephen Collins, Jennifer Hudson, Mike Sorrentino, Craig Bierko, Lin Shaye, Ronnie Ortiz-Magro, Sammi Giancola, Skyler Gisondo, Isaiah Mustafa, Robert Capron, Carly Craig, Erin Allin O’Reilly, Sayed Badreya, Jeremy Ambler, Max Charles, Patricia French, Kirby Heyborne, Ric Reitz, Dwight Howard, Avalon Robbins, Lance Chantiles-Wertz e Caitlin Colford