10 Piores Filmes de 2012

Se antenar no maior número de lançamentos de um determinado ano implica em muitos riscos. Há a falta de tempo para escrever sobre um filme que merece algumas considerações (mesmo ruins), as expectativas elevadas que se frustram e os maus pressentimentos que se confirmam. Nesta postagem, há um pouco de tudo isto, pois é destacado o que houve de pior no cinema em 2012. As postagens sobre os melhores do ano passado iniciam ainda nesta semana, mas haveria uma pendência em nosso fechamento de 2012 se não dedicássemos um pequeno espaço para relembrar as bombas do cinema recente.

A postagem repete o molde do mesmo levantamento feito no ano passado: além dos dez piores filmes, também destacamos as dez piores interpretações masculinas e femininas de 2012.

Battleship - A Batalha dos Mares

01. “Battleship – A Batalha dos Mares”, de Peter Berg
Você sabe que Hollywood está em estado de alerta assim que se depara com um filme como “Battleship – A Batalha dos Mares”. Na falta de criatividade, temos até blockbuster baseado em brinquedo ou jogo de tabuleiro. Neste caso, “Battleship – A Batalha dos Mares” é inspirado no velho Batalha Naval. Se nem se assumindo como bobagem isto daria certo, imagina quando há pretensões de se fazer uma fita de ação grandiosa. Protagonizado por Taylor Kitsch, a promessa de astro mais fracassada do cinema contemporâneo, “Battleship – A Batalha dos Mares” tem a cantora Rihanna soltando frases de efeito a cada minuto, Liam Neeson no fundo do poço como herói de ação ancião e um roteiro que não entretém nem o mais acéfalo dos espectadores. Parece uma versão piorada de “Transformers”, como se isto fosse possível.

As Aventuras de Agamenon, o Repórter02. “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”, de Victor Lopes
Um dos melhores filmes de Woody Allen, “Zelig” foi produzido em 1983 e apresentou um formato pouco usual no cinema: mockumentary, o falso documentário. Através de um personagem camaleônico, Woody Allen extraiu humor ao satirizar inúmeros episódios históricos. No mais notável, Zelig surge próximo de Hitler em uma aparição pública. Victor Lopes recorre a este formato em “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”, mas qualquer influência ao filme de Woody Allen é imediatamente ignorada neste filme que comporta tudo o que há de pior na comédia brasileira: aparições aleatórias de globais, humor vulgar, piadas de duplo sentido pífias (Dr. Jacinto Leite Aquino Rêgo, sério?) e a franca decadência dos Cassetas, bem distantes das ótimas sátiras produzidas para a tevê nos áureos anos 1990. Uma mancha na carreira de Marcelo Adnet, um dos melhores jovens humoristas brasileiros que está se deixando contaminar pela poderosa Globo.

Motoqueiro Fantasma - Espírito de Vingança03. “Motoqueiro Fantasma – Espirito de Vingança”, de Brian Taylor e Mark Neveldine
Desesperado para estrelar um filme baseado em um herói oriundo das histórias em quadrinhos, Nicolas Cage aceitou sem pensar duas vezes a proposta de encarnar Johnny Blaze, personagem de segundo escalão da Marvel. Após um péssimo filme de origem conduzido por Mark Steven Johnson em 2007, a dupla Brian Taylor e Mark Neveldine (responsáveis por “Adrenalina” e “Gamer”) foi incumbida de dar um novo fôlego a esta franquia que se desenhava. O resultado não é somente pior que o original, como ocupa o terceiro lugar da nossa lista dos piores do cinema em 2012. Brian Taylor e Mark Neveldine até se arriscam em fazer um filme com ação vibrante (ambos ignoram o perigo ao conduzirem a câmera a bordo de carros e motos em alta velocidade), mas esta sequência parece um rascunho de “Fúria Sobre Rodas”, coincidentemente, também protagonizado por Nicolas Cage.

Dia de Preto04. “Dia de Preto”, de Daniel Mattos, Marcial Renato e Marcos Felipe
Como não temos uma indústria de cinema estabelecida, tem sido cada vez mais comum ver realizadores independentes com dificuldades em lançarem suas obras pouco convencionais em um circuito comercial cada vez mais concorrido. Por isto é importante o apoio oferecido a estes títulos, que dependem tanto de um amplo trabalho de divulgação para sobreviverem. No entanto, é difícil ter entusiasmo quando este cenário é invadido por filmes como “Dia de Preto”, do trio Daniel Mattos, Marcial Renato e Marcos Felipe. Ao imaginar duas encarnações de um personagem negro (antes o primeiro escravo livre no Brasil e agora um sujeito envolvido com o roubo de uma relíquia perseguido em um shopping), “Dia de Preto” faz uma junção de estilos que resulta em um fracasso constrangedor. Entre as pérolas da narrativa, há uma ação estilizada calcada em fitas internacionais de ficção científica, uma perseguição noturna de kart e o uso excessivo de ditos populares.

armadilha05. “Armadilha”, de David Brooks
Mesmo que não tenha alcançado um bom número de espectadores em sua estreia, “Enterrado Vivo” foi considerado rapidamente um dos melhores e mais inusitados exemplares do thriller contemporâneo. Mérito do roteirista Chris Sparling, que foi capaz de criar uma história e confiná-la em um único ambiente por uma hora e meia. Porém, a reputação que criou em “Enterrado Vivo” é arranhada drasticamente com “Armadilha”, uma porcaria misteriosamente lançada nos cinemas. O roteirista reprisa alguns elementos, como a ação que transcorre em um único cenário e as motivações misteriosas de um vilão cuja identidade não é revelada, mas os seus protagonistas se revelam tão burros diante do perigo que a tensão é rapidamente trocada por risadas involuntárias.

Billi Pig06. “Billi Pig”, de José Eduardo Belmonte
José Eduardo Belmonte acumulou elogios por “A Concepção”, “Meu Mundo em Perigo” e especialmente “Se Nada Mais Der Certo”, mas a trinca não foi capaz de encontrar o seu público ao ser lançada em circuito restrito. Talvez só a vontade de atingir um público mais amplo é que justifica a existência de “Billi Pig”, que conta com o selo da Globo Filmes. Aí reside o problema. Ao fazer uma espécie de homenagem às chanchadas brasileiras, Belmonte perde sua essência como autor e entrega uma comédia popularesca desequilibrada com os seus inúmeros personagens secundários dispensáveis, a exemplo da proprietária de uma funerária vivida por Preta Gil. Sem dizer que ver Grazi Massafera interpretando uma aspirante a atriz sem um pingo de talento é de uma sutileza atroz.

Como Agarrar Meu Ex-Namorado07. “Como Agarrar Meu Ex-Namorado”, de Julie Anne Robinson
Responsável pela direção de alguns episódios de seriados como “Samantha Who?” e “Weeds”, Julie Anne Robinson não começou sua carreira com o pé direito no cinema ao adaptar “A Última Música”, novela de Nicholas Sparks. Ao invés de mostrar progresso em seu segundo filme, o que se vê é um retrocesso. “Como Agarrar Meu Ex-Namorado” é baseado na série de livros da personagem Stephanie Plum, criação da escritora norte-americana Janet Evanovich. O sucesso e astúcia da protagonista se convertem em fracasso e burrice na adaptação cinematográfica. A escolha para vivê-la não poderia ser pior: Katherine Heigl prossegue como o rostinho bonito mais insuportável do cinema e a insistência de Hollywood em torná-la uma estrela é um dos grandes mistérios da humanidade.

Quatro Amigas e Um Casamento08. “Quatro Amigas e Um Casamento“, de Leslye Headland
Aguardada comédia indie, “Quatro Amigas e Um Casamento” despertou desconfiança do público assim que foi divulgada no Brasil com o título “Só Bebendo Elas Casam”, uma descarada tentativa de vendê-la como a versão feminina de “Se Beber, Não Case”. O título final pode até ser “menos pior”, mas a decepção proporcionada por esta estreia de Leslye Headland no cinema é irreversível. Ao adaptar uma peça teatral de sua própria autoria, Leslye Headland prova ser terrível como cineasta e piadista. Difícil acreditar que Kirsten Dunst tenha topado protagonizar isto justamente após sua arrebatadora interpretação em “Melancolia”. De fazer qualquer um rever “Missão Madrinha de Casamento” apenas para apagar o trauma.

Cada um Tem a Gêmea que Merece09. “Cada Um Tem a Gêmea Que Merece“, de Dennis Dugan
O comediante Adam Sandler e o diretor Dennis Dugan haviam se redimido de algumas atrocidades com o divertido “Esposa de Mentirinha”, embora os melhores momentos aconteçam graças as presenças de Jennifer Aniston e Nicole Kidman. O acerto é uma exceção em um histórico de parcerias ineficazes e que chega ao fundo do poço com “Cada Um Tem a Gêmea Que Merece”, um filme em que temos de aturar Adam Sandler vivendo não um, mas dois protagonistas de sexos opostos. Embaraçosa, a comédia promete risos com a presença de Al Pacino interpretando ele mesmo. O pedido desesperado do veterano astro em atear fogo em um comercial constrangedor que participou dentro do filme representa exatamente o desejo do espectador que se submeteu a esta tortura nem um pouco engraçada.

Um Verão Escaldante10. “Um Verão Escaldante“, de Philippe Garrel
Felizmente, os anos passam e as produções francesas só ampliam o espaço no circuito nacional. Por isto, algumas bobagens não surtem efeito diante das obras mais fortes e por isto mesmo a sua carreira é resumida na tela grande. Isto se aplica perfeitamente a “Um Verão Escaldante”, novo filme do veterano Philippe Garrel ainda mais aborrecido que “A Fronteira da Alvorada”, seu penúltimo drama romântico. Blasé como sempre, Louis Garrel (filho do cineasta) protagoniza com a bela Monica Bellucci um romance moldado por obsessões que só causa indiferença. Difícil acreditar que o longa ocupou o sétimo lugar dos dez melhores filmes de 2011 segundo a Cahiers du Cinéma.

DESEMPENHOS MASCULINOS

taylor-kitsch-in-universal-pictures-battleship-1Adam Sandler, por “Cada Um Tem a Gêmea Que Merece
Brad Pitt, por “O Homem Que Mudou o Jogo
Chris Pine, por “Guerra é Guerra”
Colin Farrell, por “O Vingador do Futuro
Diego Boneta, por “Rock of Ages – O Filme
Louis Garrel, por “Um Verão Escaldante
Mathieu Kassovitz, por “A Vida de Outra Mulher
Max Thieriot, por “A Última Casa da Rua”
Selton Mello, por “Billi Pig”
Taylor Kitsch, por “Battleship – A Batalha dos Mares”

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DESEMPENHOS FEMININOS

marion-cotillard-as-miranda-tate-in-the-darkGrazi Massafera, por “Billi Pig”
Isla Fisher, por “Quatro Amigas e Um Casamento
Julianne Hough, por “Rock of Ages – O Filme
Katherine Heigl, por “Como Agarrar Meu Ex-Namorado”
Kristen Stewart, por “Branca de Neve e o Caçador
Marion Cotillard, por “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Michelle Rodriguez, por “Resident Evil 5 – Retribuição
Nina Ivanisin, por “Slovenian Girl”
Rihanna, por “Battleship – A Batalha dos Mares”
Susana Vieira, por “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”

Resenha Crítica | Millennium II: A Menina Que Brincava com Fogo (2009)

Um dos maiores sucessos da história do cinema sueco, “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” comprovou a força do texto literário de Stieg Larsson, que morreu antes de testemunhar o sucesso de sua trilogia. Assim como os três volumes de “Millennium”, publicados em uma só tacada, os produtores das versões cinematográficas foram ágeis ao rodá-las simultaneamente. Portanto, “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, “Millennium II – A Menina Que Brincava com Fogo” e “Millennium III – A Rainha do Castelo de Ar” foram lançadas nos cinemas em curto intervalo de tempo.

A estratégia representava um risco. Ao serem exibidos um atrás do outro, não existiu uma pausa apropriada para o público absolver totalmente “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” para encarar rapidamente suas duas sequências. Assim, “Millennium II – A Menina Que Brincava com Fogo” e “Millennium III – A Rainha do Castelo de Ar” não foram comercialmente tão bem sucedidos quanto “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”. Aqui no Brasil, o segundo e terceiro “Millennium” foram comprometidos com lançamentos para o mercado de homevideo.

No caso de “Millennium II – A Menina Que Brincava com Fogo”, não há a trama investigativa quase impossível de se solucionar que popularizou o filme original, mas a tensão e o fascínio pela hacker Lisbet Salander (Noomi Rapace) e o jornalista Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) só crescem. Lisbeth, aliás, é o ponto central da narrativa e Noomi Rapace tem aqui a chance de explorar novas camadas desta antológica heroína nada convencional.

Depois de auxiliar Mikael Blomkvist em desvendar o responsável de um crime há décadas sem solução e livrá-lo da prisão após uma grave acusação de difamação por delatar um figurão inescrupuloso, Lisbeth aproveita a sua vida de milionária, algo conquistado a0 aplicar um golpe infalível no clímax de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”. No entanto, passa por novos apuros ao ser acusada por triplo homicídio. A mesma arma disparada contra um casal de jornalistas que faziam uma matéria polêmica para a revista Millennium (da qual Blomkvist é sócio) e o seu tutor Nils Bjurman (Peter Andersson) contém suas impressões digitais.

Ao invés de provar sua inocência, Lisbeth Salander decide investir na solução mais arriscada. Ela sabe que é vítima de uma conspiração empregada por Zala, um anônimo que pode apresentar ligações familiares. Enquanto inicia uma busca pessoal por um personagem que só será revelado no derradeiro clímax, há também espaço para acompanharmos a história também pela perspectiva de Blomkvist, que moverá montanhas para limpar a barra de Lisbeth Salander, uma vez que ele tem uma dívida com ela por ter sobrevivido das mãos de um assassino e se livrado da prisão graças as suas habilidades.

Diretor de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”, Niels Arden Oplev passou a batuta para Daniel Alfredson, irmão do também cineasta Tomas Alfredson (de “Deixe Ela Entrar” e “O Espião Que Sabia Demais”), que não deixa a peteca cair. Ainda evidenciando os crimes contra a mulher, uma realidade na Suécia contemporânea, a produção permanece extraindo o que há de melhor na obra de Stieg Larsson e não economiza na brutalidade ao se aproximar do último ato explosivo. Inconvincente mesmo apenas a presença de Niedermann (Micke Spreitz), personagem anormal que se revelará o alicerce mais frágil de “Millennium III – A Rainha do Castelo de Ar” e que aqui felizmente é quase uma mera figura secundária.

Título Original: Flickan som lekte med elden
Ano de Produção: 2009
Direção: Daniel Alfredson
Roteiro: Jonas Frykberg, baseado no romance homônimo de Stieg Larsson
Elenco: Noomi Rapace, Michael Nyqvist, Lena Endre, Sofia Ledarp, Georgi Staykov, Peter Andersson, Micke Spreitz, Yasmine Garbi, Annika Hallin, Michalis Koutsogiannakis, Per Oscarsson, Tehilla Blad, Tanja Lorentzon, Magnus Krepper e Paolo Roberto

Resenha Crítica | Marley

MarleyMais de 30 se passaram desde a morte de Bob Marley e o seu nome permanece influente. É natural visualizar jovens que não pertenciam a sua geração usando camisas com o seu rosto estampado ou compartilhando sua ideologia concentrada nas mais populares letras de Reggae já compostas e em suas declarações em shows e para a imprensa. Com o documentário “Marley”, é possível não somente identificar a importância deste artista como também admirá-lo.

Reconhecido pelos seus trabalhos de ficção, tais como “O Último Rei da Escócia” e “Intrigas do Estado”, o inglês Kevin Macdonald apresenta mais dedicação como documentarista. Após o maravilhoso “A Vida em Um Dia” (que recebeu lançamento em abril do ano passado em circuito restrito), o cineasta faz um extenso registro sobre a vida e a morte de Bob Marley, nascido na Jamaica como Robert Nesta Marley em 1945.

Muito antes de iniciar sua carreira musical, Marley já passava por situações que posteriormente se converteriam em pontos curiosos. Concebido com o relacionamento de um militar branco com uma jovem negra, Marley foi ignorado pelo pai e conviveu com a mãe em Trenchtown, notória favela da Jamaica. A reviravolta veio no início dos anos 1960, quando Marley investia em sua aptidão para a música, transformando “Judge Not” em seu primeiro sucesso. A consolidação chegou em 1966, ano em que Marley se mudou para os Estados Unidos.

Esta jornada se aproxima do fim com a chegada da década de 1980, quando Marley foi diagnosticado com câncer de pele que se originou com um ferimento não tratado apropriadamente após uma partida de futebol. Em todas essas fases da breve existência de Bob Marley, Kevin Macdonald se aproveita de raras imagens de arquivo e depoimentos de amigos e familiares do cantor, que não negam sua forte e complicada personalidade. Além do empenho com composições de forte cunho social, Marley também mantinha relacionamentos abertos, um total de sete que rendeu onze filhos. Com um acúmulo de material que faz o documentário se aproximar de duas horas e meia de duração, Kevin Macdonald entrega aquele que é o registro cinematográfico definitivo sobre o maior nome que o Reggea já teve e um exemplo notável de homem cujas imperfeições não ofuscavam a sua destreza em aproximar as pessoas através da música.

Título Original: Marley
Ano de Produção: 2012
Direção: Kevin Macdonald
Com depoimentos de: Bob Marley, Ziggy Marley, Jimmy Cliff, Rita Marley, Cedella Marley, Lee ‘Scratch’ Perry, Chris Blackwell, Cindy Breakspeare, Lee Jaffe e Danny Sims

Resenha Crítica | Holy Motors (2012)

Holy MotorsEmbora não seja um indivíduo recluso e inacessível como o americano Terrence Malick, Leos Carax é um dos raros artistas que foi capaz de gravar o seu nome na história do cinema produzindo pouco. Mesmo com alguns curtas a tiracolo, há um grande intervalo entre “Os Amantes de Pont-Neuf” e “Pola X” e, agora, “Pola X” e “Holy Motors” – oito e treze anos, respectivamente.

Em “Holy Motors”, Leos Carax parece realizar uma ode ao cinema. Através de seu ator-fetiche Denis Lavant, o cineasta e roteirista cria um indivíduo que, a bordo de uma luxuosa limusine conduzida por Céline (Edith Scob), transita por ambientes em que desempenhará papéis distintos. Em um momento, Lavant surge como um pai que busca sua filha adolescente em uma festa. A seguir, o mesmo Lavant se desdobra ao fazer um assassino em conflito com a sua réplica.

Naquele que é o melhor segmento de “Holy Motors”, Leos Carax revê sua colaboração para o longa-metragem “Tokyo!”, “Merde”. Desta vez, a grotesca criatura que vive no esgoto desempenhada por Lavant invade as ruas de Paris e sequestra a estonteante modelo Kay M (participação especial de Eva Mendes) durante um ensaio fotográfico. Além da mistura de horror e humor, há aqui uma bela recriação de Pièta, a arte cristã em que visualizamos a Virgem Maria com o corpo de Jesus Cristo em seus braços após sua crucificação.

Destoantes entre si, os segmentos de “Holy Motors” são preenchidos por signos e atmosferas que fazem menção a vários gêneros cinematográficos. O resultado desagrada porque faltou a Leos Carax, provavelmente afetado pelo tempo em que não conduziu um longa-metragem, um recurso eficaz para sintonizá-los. A todo o instante em que se cria uma possibilidade para compreender o íntimo de um protagonista perdido entre identidades, a narrativa regride ao ponto de nos desligarmos por completo dos segmentos que virão a seguir. Vale pelo notável empenho de Denis Lavant em mergulhar em um sem-número de personagens.

Título Original: Holy Motors
Ano de Produção: 2012
Direção: Leos Carax
Roteiro: Leos Carax
Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Elise Lhomeau, Jeanne Disson, Michel Piccoli, Leos Carax, Nastya Golubeva Carax, Reda Oumouzoune, Zlata, Geoffrey Carey, Annabelle Dexter-Jones, Elisa Caron, Corinne Yam, Julie Prévost, Ahcène Nini, Laurent Lacotte, David Stanley Phillips, Matthew Gledhill, Hanako Danjo e Leos Carax

Resenha Crítica | O Mundo dos Pequeninos (2010)

O Mundo dos Pequeninos | Kari-gurashi no AriettiExpoente do cinema japonês de animação, Hayao Miyazaki havia desapontado com “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar”, seu último filme. Cheio de elementos fantasiosos pouco convincentes e preenchido por uma música inoportuna, esta produção de 2008 realmente não representou um grande momento em sua carreira. Recupera-se agora em “O Mundo dos Pequeninos”, embora desempenhando somente as responsabilidades de roteirista e produtor executivo.

Ao adaptar o romance “The Borrowers”, assinado pela inglesa Mary Norton e que já inspirara outras versões cinematográficas (a exemplo de ”Os Pequeninos”, com John Goodman), Hayao Miyazaki transferiu a responsabilidade da direção do projeto para Hiromasa Yonebayashi, seu colaborador em projetos como “A Viagem de Chihiro” e “O Castelo Animado” e que estreia aqui na função.

Nesta versão animada em traços belos e tradicionais, a protagonista é Arrietty, garota diminuta que vive anonimamente com os seus pais Pod e Homily no assoalho de uma aconchegante residência. Apesar de se parecerem muito com os humanos, a pequenez sempre foi um problema. Assim, vivem à margem de nós. Mesmo ciente disso, Arrietty não parece enxergar em Shawn, um garoto com o coração frágil que surge temporariamente na casa para preservar suas energias, uma ameaça.

Ainda que seja um gênero que esteja muito distante de se aproximar de uma decadência, é fato que várias produções animadas de hoje às vezes privilegiam mais a técnica do que a história. O oposto acontece em “O Mundo dos Pequeninos”. Há fascínio por este universo explorado, mas é no relacionamento moldado por descobertas e amadurecimento entre Arrietty e Shawn, que resulta em uma ruptura crível e necessária, que estão os maiores valores de “O Mundo dos Pequeninos”, a melhor animação de 2012 e que misteriosamente passou batida por nossas salas de cinema.

Título Original: Kari-gurashi no Arietti
Ano de Produção: 2010
Direção: Hiromasa Yonebayashi
Roteiro: Hayao Miyazaki e Keiko Niwa, baseado no romance “The Borrowers”, de Mary Norton
Vozes de: Bridgit Mendler, David Henrie, Amy Poehler, Will Arnett, Carol Burnett e Moises Arias

Resenha Crítica | Histeria (2011)

Histeria | HysteriaAntes de iniciar as filmagens ou mesmo escalar o elenco de “Histeria”, a diretora inglesa Tanya Wexler não quis saber de segredo. Revelou na primeira oportunidade que a sua história seria sobre a invenção inusitada do doutor Joseph Mortimer Granville: o vibrador eletromecânico. Uma vez estabelecida a intenção de seu novo longa-metragem, Tanya Wexler teria apenas duas saídas. A primeira seria preencher sua comédia com piadas vulgares. A outra possibilidade, esta felizmente adotada, seria o efeito moral que um dos acessórios sexuais mais populares entre as mulheres contemporâneas causou na época em que foi criado.

Além de servir de título, histeria também é denominada uma perturbação exclusiva às mulheres, causando desde instabilidade emocional até distúrbios sensoriais. Mal sabia Mortimer Granville (Hugh Dancy) que iria lidar exatamente com este sintoma em suas futuras pacientes. Antes um jovem doutor bem-intencionado com métodos de trabalho contestados por seus antigos patrões, Mortimer é contratado pelo doutor Robert Dalrymple (Jonathan Price) para auxiliá-lo no tratamento de mulheres que sofrem de histeria.

O que hoje seria considerado um procedimento polêmico era tratado como um “mal necessário” há dois séculos. Trata-se da massagem pélvica, ou simplesmente masturbação. Isto mesmo. Para combater a histeria, havia consultórios médicos com profissionais incumbidos desta tarefa. Mortimer “fideliza” a clientela e ganha um voto de confiança de Robert, que vê nele um bom partido para a sua filha Emily (Felicity Jones). Já com o seu grande amigo Edmund St. John-Smythe (Rupert Everett, sempre um destaque), um cientista viciado em criação de bugigangas, inventará o objeto que substituirá o seu empenho manual.

Se lidasse apenas com isto, “Histeria” já se garantiria como um bom entretenimento. Há graça no estranhamento causado pela naturalidade que é discutido um tema tabu. Porém, o acréscimo de Charlotte Dalrymple, filha mais velha de Robert, à história torna “Histeria” uma obra excelente. Interpretada por Maggie Gyllenhaal com um entusiasmo fascinante, Charlotte é o elemento que garante um novo olhar ao episódio narrado, aquele em que as mulheres e suas necessidades eram tratadas como algo secundário. O fato de ser uma americana incorporando uma inglesa motivada em ajudar os menos favorecidos só lhe acrescenta. Temos aqui alguém com convicções deslocadas diante da sociedade que habita e, exatamente por isto, um verdadeiro modelo de mulher à frente de seu tempo.

Título Original: Hysteria
Ano de Produção: 2011
Direção: Tanya Wexler
Roteiro: Jonah Lisa Dyer e Stephen Dyer
Elenco: Hugh Dancy, Maggie Gyllenhaal, Jonathan Price, Felicity Jones, Rupert Everett, Ashley Jensen, Sheridan Smith, Dominic Borrelli, Anna Chancellor, Kim Criswell, Georgie Glen, Elisabet Johannesdottir, Gemma Jones, Kate Linder, Teresa Mahoney, Corinna Marlowe, Tobias Menzies, Catherine Meunier, Malcolm Rennie, Jonathan Rhodes, David Ryall, Leila Anaïs Schaus, Jules Werner, Nicholas Woodeson