Your Sister’s Sister

Your Sister's Sister

Um dos maiores trunfos do cinema independente está naquele espírito colaborativo entre equipe e elenco facilmente perceptível. Longe do controle de produções de estúdio e com cronograma apertado e pouco dinheiro, todos os envolvidos buscam desempenhar os seus trabalhos da melhor maneira possível para assegurar a existência do projeto.

Novo filme de Lynn Shelton, “Your Sister’s Sister” foi filmado durante doze dias e custou somente 125 mil dólares. Além do mais, Shelton deixou o trio central feito por Emily Blunt, Rosemarie DeWitt e Mark Duplass improvisarem na maior parte do tempo, o que revela a sua confiança no talento de cada um deles. O resultado é uma comédia bacana com toques dramáticos e que capta na maior parte do tempo os anseios de jovens adultos que ainda não se encontraram na vida ou mesmo no amor.

Ainda abalado com a morte de seu irmão, Jack (Mark Duplass) parece precisar de um momento de isolação. Quem nota isso é Iris (Emily Blunt), sua melhor amiga e ex-namorada de seu irmão. Ela tem uma bela cabana situada em um local bem isolado e não hesita ao convidá-lo a passar alguns dias hospedado por lá. Jack topa e ao chegar ao lugar é surpreendido com a presença de Hannah, irmã de Iris. Lésbica e com uma personalidade bem diferente de Iris, Hannah viu na cabana um refúgio para superar o rompimento recente de um relacionamento.

Ao final do dia de chegada, papo vem e papo vai entre Jack e Iris e o resultado é uma rápida relação amorosa. Porém, é no dia seguinte que as consequências desse ato se apresentam, pois Iris decide ir à cabana para servir de companhia para Jack e acaba também surpresa com presença de Hannah.

 Ir além seria revelar algumas pequenas surpresas que cada um dos três personagens guarda consigo. Todas elas garantem ainda mais envolvimento com a filme, embora a solução encontrada para todos os desdobramentos soe pouco convincente. Nada que comprometa demais “Your Sister’s Sister”, que prova que Lynn Shelton tem muita desenvoltura para lidar com histórias intimistas.

Your Sister’s Sister, 2011 | Dirigido por Lynn Shelton | Roteiro de Lynn Shelton | Elenco: Emily Blunt, Rosemarie DeWitt, Mark Duplass e Mike Birbiglia

Resenha Crítica | Margaret (2011)

Antes da celebração com “O Vencedor” e “O Lado Bom da Vida”, o diretor David O. Russell realizou “Nailed”, uma comédia protagonizada por Jessica Biel e Jake Gyllenhaal. Produzida em 2008, as filmagens foram interrompidas quando inúmeros membros da equipe se desligaram do projeto ao não receberem seus salários. Cinco anos depois, há indícios de que “Nailed” será lançado em breve. Pior foi o caso do cineasta Kenneth Lonergan com o seu “Margaret”.

Protagonizado por Anna Paquin, “Margaret” foi filmado em 2005 e lançado comercialmente nos Estados Unidos seis anos depois. Com um circuito restrito, ninguém foi vê-lo. Kenneth Lonergan parecia ter ambições de fazer um grande filme dramático, aquele que um dia poderia vir a ser sua obra-prima em uma breve carreira atrás das câmeras.

Com um roteiro que continha originalmente 368 páginas, “Margaret” começou a ter problemas justamente na pós-produção. Além das divergências entre Kenneth Lonergan e o estúdio Fox Searchlight, o orçamento se esgotou, impedindo que a montagem fosse concretizada. “Margaret” só voltou a ver a luz do dia quando ninguém menos que o cineasta Martin Scorsese apareceu para dar uma força (Lonergan escreveu “Gangues de Nova York”). Ainda assim, “Margaret” recebeu duas versões: a já extensa versão para cinema e a versão do diretor com aproximadamente três horas de duração.

É possível um filme com tantos problemas para ser finalizado preservar a visão original de seu realizador e resultar em algo positivo? Quanto o caso “Margaret”, a resposta é sim. Apesar do tempo, a história permanece atual e o elenco não está muito diferente do que é hoje. Porém, “Margaret”, assim como a protagonista vivida por uma notável Anna Paquin, não agradará a todos.

Paquin vive Lisa Cohen, uma jovem afetada com a separação de seus pais (vividos pela excelente J. Smith-Cameron e o próprio Kenneth Lonergan) e ainda presa em uma fase de descobertas em que há a mistura de amadurecimento e ingenuidade. Em um dia comum como qualquer outro, visualiza o motorista de ônibus Maretti (Mark Ruffallo) com um chapéu de caubói que gostaria de comprar. Enquanto ele conduz o veículo, Lisa o distrai ao querer saber em que lugar conseguiria encontrar um modelo igual. Por mais inocente que seja a situação, ela apresenta como consequência um trágico acidente. A vítima é uma senhora (Allison Janney) que, antes de morrer, confunde Lisa com sua filha.

A princípio, Lisa parece processar tudo rapidamente. No entanto, não demora para desmoronar. Os atritos com a mãe, uma atriz do teatro em ascensão, são intensificados e, na tentativa de superar o trauma, Lisa procura conversar com Maretti somente para culpá-lo a seguir pelo atropelamento, embora ela própria tenha dúvidas quanto a sua própria participação na concretização da tragédia.

O que temos a partir disso é um drama que se beneficia justamente pela dureza usada para a construção da personalidade de Lisa. Trata-se de uma garota em conflito consigo mesma, externando-o de um modo capaz de ferir as pessoas queridas ao seu redor. “Margaret”, nome que faz referência a um poema de Gerard Manley Hopkins, é concluído sem dar um nó resistente em todas as relações que se desenham, como o de Lisa com o professor interpretado por Matt Damon. Por outro lado, vê na protagonista um espelho para nossa incapacidade de passar incólume ao testemunhar uma tragédia.

Margaret, 2011 | Dirigido por Kenneth Lonergan | Roteiro de Kenneth Lonergan | Elenco: Anna Paquin, J. Smith-Cameron, Mark Ruffalo, Allison Janney, Matthew Broderick, Kieran Culkin, Krysten Ritter, Jean Reno, Jeannie Berlin, Sarah Steele, John Gallagher Jr., Cyrus Hernstadt, Stephen Adly Guirgis, Betsy Aidem, Adam Rose, Nicholas Theodore Grodin, Rosemarie DeWitt, Glenn Fleshler, Stephen Conrad Moore, Gio Perez, Kenneth Lonergan, Jake O’Connor, David Mazzucchi, Jerry Matz, Hina Abdullah, Matthew Broderick, Josh Hamilton, Olivia Thirlby e Matt Damon

Resenha Crítica | Jack Reacher – O Último Tiro (2012)

Jack Reacher - O Último Tiro | Jack Reacher

Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Os Suspeitos”, o americano Christopher McQuarrie não conseguiu alcançar o mesmo sucesso em seus trabalhos seguintes. Só impediu que seu nome caísse em esquecimento ao iniciar com Tom Cruise uma parceria que se deu com “Operação Valquíria”. Agora, a dupla adapta o romance homônimo de Lee Child, rendendo algo a princípio envolvente.

Em um início espetacular, vemos através da mira de um rifle cinco pessoas assassinadas aleatoriamente por um atirador militar em plena manhã. Sem razão aparente, o sujeito, que realizou os disparos no alto de um edifício, pagou pelo estacionamento do veículo usado para a fuga. O detetive Emerson (David Oyelowo) rapidamente adquire as digitais da moeda depositada no parquímetro, levando-o a James Barr (Joseph Sikora). Ao ser interrogado, James apenas escreve em um papel “Encontre Jack Reacher”.

Jack Reacher (Tom Cruise) é um ex-policial militar do exército norte-americano e atualmente vive no anonimato. Sabe-se que Reacher conhece muito bem James Barr e por isso não hesita em ir à Pittsburgh para defendê-lo. Depara-se com Helen Rodin (Rosamund Pike), advogada obstinada em provar a inocência de James, que entra em coma após ser espancado por outros criminosos enquanto era transferido para a prisão. Astuto e cínico, Jack Reacher não demora a chegar à conclusão de que há uma conspiração e que as vítimas talvez armazenassem segredos que os condenaram.

Antes do terceiro ato se aproximar, “Jack Reacher – O Último Tiro” se mostra uma eficiente fita de ação que se diferencia ao introduzir nos diálogos um humor quase ácido. Há também um elenco secundário de respeito, a exemplo do promotor e pai de Helen interpretado por Richard Jenkins e, surpresa, Werner Herzog como um senhor que pode ser o pivô de toda a conspiração deduzida por Reacher.

Lamentavelmente, não há elogios endereçados ao protagonista. Enfadonho, Tom Cruise acredita somente em seu status de astro ao carregar um projeto cujo título agrega um nome não muito peculiar. O mais incômodo, entretanto, é notar que não há praticamente nenhuma variação entre Jack Reacher com outros de seus heróis, como os espiões Ethan Hunt (da franquia “Missão: Impossível”) e Roy Miller (de “Encontro Explosivo”). A distração resultam em dejà vú e desinteresse no momento em que finalmente as peças se encaixam.

Jack Reacher, 2012 | Dirigido por Christopher McQuarrie | Roteiro de Christopher McQuarrie e Lee Child (romance) | Elenco: Tom Cruise, Rosamund Pike, Robert Duvall, Jai Courtney, Richard Jenkins, Werner Herzog, David Oyelowo, Alexia Fast, Michael Raymond-James, Kristen Dalton, James Martin Kelly, Joseph Sikora, Nicole Forester, Josh Helman e Sara Lindsey

Resenha Crítica | The Woman – Nem Todo Monstro Vive na Selva (2011)

The Woman - Nem Todo Monstro Vive na Selva | The Woman

Desconhecido entre os leitores brasileiros, Jack Ketchum tem uma carreira relativamente bem-sucedida como autor de histórias de horror. Até então, entre as suas obras já levadas para o cinema, apenas “Rastros de Vingança” não é inédita no Brasil. Daí a falta de referências de um nome notório entre os americanos pela violência que impõe em suas histórias, a exemplo de “The Girl Next Door”, uma versão ficcional para a trágica história de Sylvia Likens, uma jovem assassinada em Indianapolis em 1965 – além da adaptação cinematográfica de Gregory Wilson, o mesmo fato originou “Um Crime Americano”, com Ellen Page e Catherine Keener.

Um dos títulos a compor o segundo volume da Ghost House Underground, “Offspring” é uma adaptação para lá de barata escrita pelo próprio Jack Ketchum e dirigida por Andrew van den Houten que mostrava um grupo de canibais atacando cidadãos de um pequeno minicípio em busca de um bebê. Mal conduzida, a história mostrava que os protagonistas tinham instintos tão primitivos quanto os ameaçadores canibais. Tendo uma integrante desse grupo como único elo com “Offspring”, “The Woman – Nem Todo Monstro Vive na Selva” é, surpreendentemente, uma sequência superior em todos os aspectos. Aliás, sequer é necessário assistir “Offspring” para embarcar em “The Woman”, que recebeu lançamento discreto por aqui em homevideo em dezembro de 2012.

Creditada como A Mulher, essa personagem selvagem interpretada por Pollyanna McIntosh vive no meio de uma floresta frequentada por Chris Cleek (Sean Bridgers) em períodos de caça. A princípio um sujeito de boa índole e profissionalmente bem-sucedido, Chris se revela um monstro a partir do instante em que captura A Mulher, mantendo-a presa em seu porão somente para saciar os seus desejos mais perversos, como humilhá-la para convertê-la em alguém que possa viver na sociedade. Além do mais, Chris é capaz de destroçar a própria família. Além de incentivar o seu filho Brian (Zach Rand) a praticar atos violentos, ele abusa sexualmente da filha adolescente Peggy (Lauren Ashley Carter) e agride a esposa Belle (Angela Bettis).

Diretor do ótimo “May – Obsessão Assassina”, Lucky McKee lida aqui com uma moral bem distinta daquela trabalhada por Andrew van den Houten em “Offspring”. Sim, o protagonista se revela tão primitivo quanto A Mulher, mas a violência contra o sexo feminino é o tema mais forte desta vez. Muito bem conduzido, “The Woman” apresenta muitos instantes em que visualizamos a brutalidade física. Porém, o efeito nas personagens e, consequentemente, na audiência é psicológico, havendo até mesmo um sentimento de cumplicidade entre A Mulher e Peggy, a única que agirá quando a situação de passividade atingir o limite do suportável. Por culpa da previsibilidade, a violência gráfica que invade o último ato da história é contemplada com um impacto menor do que o aguardado. Até aí, “The Woman” já cumpriu sua missão de compreender a sociedade selvagem em que vivemos.

The Woman, 2011 | Dirigido por Lucky McKee | Roteiro de Jack Ketchum e Lucky McKee | Elenco: Pollyanna McIntosh, Sean Bridgers, Lauren Ashley Carter, Angela Bettis, Zach Rand, Rsyla Molhusen, Chris Krzykowski, Marcia Bennett, Gordon Vincent, Shelby Mailloux, Amanda Daryczyn e Carlee Baker

Resenha Crítica | As Sessões (2012)

Quando a produção de um longa-metragem sobre Mark O’Brien, jornalista e poeta acometido de poliomielite, foi anunciada, esperava-se por mais um drama lacrimoso que traria as limitações físicas de seu protagonista como foco. O nome do diretor australiano Ben Lewin é essencial para mudar essa impressão, uma vez que ele também contraiu pólio na infância. Assim, temos em “As Sessões” um autor que compreende perfeitamente o perfil da figura real que retrata, oferecendo com isso uma perspectiva leve para a história. No entanto, “As Sessões” não é um filme exclusivamente sobre Mark O’Brien, incorporado pelo notável John Hawkes. Conta também a história de Cheryl (Helen Hunt, em uma das interpretações mais belas e corajosas no cinema recente), uma terapeuta sexual que permite a Mark a primeira oportunidade de sua vida de transar, algo que jamais experimentara devido sua condição.

Desde já forte candidato ao título de melhor filme do ano, “As Sessões” estará disponível em DVD e Blu-ray em julho e recebeu uma crítica de minha autoria na Liga dos Blogues Cinematográficos. Para conferi-la, basta clicar aqui.