Resenha Crítica | Smashed – De Volta a Realidade (2012)

Smashed

Há um número grande de produções dramáticas com personagens centrais alcoólatras. Seja o vício algo central ou secundário na trama, nem sempre a situação é tratada da maneira mais adequada. Geralmente, visualizamos um indivíduo mergulhando em um abismo somente para na conclusão da história a redenção surgir com a sua força de vontade em sair da situação. Em resumo, são obras que adaptam para a sua época a fórmula do ótimo “Farrapo Humano”, a produção oscarizada de Billy Wilder.

Quem já acompanhou de perto alguém constantemente prejudicado pelo vício do álcool sabe que o momento de dizer basta é apenas o primeiro de muitos passos a serem dados. No processo de reabilitação não há somente o esforço extremo em evitar um drinque, como também o difícil convívio com outros alcoólatras, a tentação em consumir álcool em uma situação adversa, a falta de apoio daqueles que duvidam da recuperação e as consequências de atitudes cometidas no passado.

O independente “Smashed” é um filme especial porque registra de forma breve, mas magistral, todos esses percursos citados. Kate (Mary Elizabeth Winstead) é uma jovem que tem uma vida conformista com o seu marido Charlie (Aaron Paul), pois nada fazem para evoluírem como seres humanos. Além de se embriagarem diariamente, sequer adquiriram a própria independência, pois os pais de Charlie bancam a residência em que vivem.

A perspectiva de Kate muda ao encontrar-se não em uma, mas em duas noites no meio da rua sem se recordar muito bem dos eventos que a levaram a tal situação. Tendo que trabalhar com ressaca na escola de ensino infantil que leciona, a situação só piora: ao vomitar na sala de aula, Kate diz sim quando os alunos perguntam se o enjoo é devido uma gravidez. O constrangimento chega ao ouvido da diretora da escola (papel de Megan Mullally), que acredita que Kate realmente está grávida.

Incentivada por Dave (Nick Offerman), seu colega de trabalho, Kate passa a frequentar o A.A. e se mostra resistente em todas as ocasiões em que se depara com garrafas ou copos preenchidos com alguma bebida alcoólica. Apesar da fé que deposita em si mesma e do apoio de Dave e Jenny (Octavio Spencer, em uma interpretação sutil que prova que o seu Oscar por “Histórias Cruzadas” não foi um erro), Kate terá de enfrentar o marido e a mãe (Mary Kay Place) que não a apoiam e o dever que tem de desmentir a gravidez para a sua chefe e os seus alunos.

James Ponsoldt persegue Kate com câmera na mão, uma decisão que espelha uma protagonista que a todo o momento está prestes a perder o controle. Uma cena que traduz muito bem isso é quando Kate se apresenta em seu primeiro dia no A.A.: o close trêmulo flagra a vergonha da personagem diante daquela situação. O seu maior acerto, entretanto, é depositar a confiança em Mary Elizabeth Winstead para conduzir um papel tão difícil e delicado. A atriz, indicada ao último Indepedent Spirit Awards, tem uma interpretação irrepreensível e sempre evidencia as qualidades de Kate, uma pessoa de bom coração que se embriaga para esquecer seus incômodos particulares ao invés de enfrentá-los sóbria. O resultado é um belo filme que, sem moralismos baratos ou soluções fáceis, se mostra um dos mais notáveis sobre um tema tão palpável.

Smashed, 2012 | Dirigido por James Ponsoldt | Roteiro de James Ponsoldt e Susan Burke | Elenco: Mary Elizabeth Winstead, Aaron Paul, Nick Offerman, Megan Mullally, Octavia Spencer, Mary Kay Place, Kyle Gallner, Bree Turner, Mackenzie Davis, Barrett Shuler, Rene Rivera, Ron Lynch e Brad Carter| Distribuidora: Sony

Resenha Crítica | E… Que Deus Nos Ajude!!!

E... Que Deus Nos Ajude!!! | Salvation BoulevardOs anos se passam e com eles novas gerações se formam com valores renovados. O comportamento dos jovens de hoje mudou e tudo é debatido de forma acalorada e sem censura, o que acaba influenciando a opinião dos adultos. Nisto tudo, é interessante constatar o quanto a religião não se mostra mais indispensável para muitos indivíduos, que hoje desenvolvem a própria personalidade sem a necessidade de um credo. Seguidor de tendências, o cinema anda discutindo mais do que nunca o embate entre ateus e cristãos fundamentalistas, algo que também está ganhando a mídia.

Terceiro longa-metragem de George Ratliff (“Joshua – O Filho do Mal”), “E… Que Deus nos Ajude!!!” é um novo exemplar a trazer a discussão à tona. Inicia promissor com o debate entre o pastor Dan Day (Pierce Brosnan) e Peter Blaylock (Ed Harris), um cético autor de best sellers. No município em que vivem, Dan é mais popular com os seus inúmeros seguidores, mas se mostra aberto para ouvir uma proposta de Peter, que deseja desenvolver um livro em que discutirá a existência de Deus avaliando os dois lados da moeda. O encontro acontecerá na casa de Peter e Dan vai ao seu encontro tendo Carl Vanderveer (Greg Kinnear) como companhia.

Após um tenso bate-papo, um acidente acontece: Dan manuseia uma arma de Peter e dispara, sem querer, na cabeça dele. Desesperado, Dan manipula o cômodo em que estavam como se Peter pretendesse um suicídio e firma um pacto com Carl, que passa a ser seguido quando planeja dizer a verdade para a polícia.

Carl tem uma dívida eterna com Dan, a pessoa que o influenciou a abandonar uma vida errante e a constituir família com Gwen (Jennifer Connelly). No entanto, a postura de Dan o faz rever sua vida e a própria religiosidade, especialmente ao reencontrar Honey Foster (Marisa Tomei), uma testemunha do seu passado rebelde como integrante de uma banda de rock.

Por mais surpreendente que seja o primeiro ato de “E… Que Deus nos Ajude!!!”, George Ratliff usa o acidente cometido pelo pastor Dan somente como pretexto para desviar a atenção do tema tabu. De uma hora para outra, a história se converte em um thriller de humor negro nada funcional em que predominam personagens excessivamente caricatos, a exemplo do protagonista banana defendido por Greg Kinnear e a personagem de Marisa Tomei, uma hippie que sequer depila as axilas. Um filme covarde que ignora sua proposta inicial para não levantar polêmicas ou bandeiras.

Salvation Boulevard, 2011 | Dirigido por George Ratliff| Roteiro de Douglas Stone e George Ratliff, baseado no romance homônimo de Larry Beinhart| Elenco: Greg Kinnear, Pierce Brosnan, Jennifer Connelly, Marisa Tomei, Ed Harris, Ciarán Hinds, Isabelle Fuhrman, Mary Callaghan Lynch, Christine Kelly e Jim Gaffigan| Distribuidora: Focus Filmes

O Dobro ou Nada

O Dobro ou Nada | Lay the Favorite

O veterano cineasta inglês Stephen Frears tem uma filmografia que conta com grandes dramas como “Ligações Perigosas”, “Coisas Belas e Sujas” e “A Rainha”. Cheio de energia, chega a realizar um longa-metragem atrás do outro, geralmente com resultados acima da média. Assim, é de se estranhar que o seu nome esteja vinculado a um projeto como “O Dobro ou Nada“. Ok, talvez Frears tenha, entre um filme e outro,  o desejo de realizar algo mais leve, a exemplo do recente “O Retorno de Tamara”. Porém, “O Dobro ou Nada” atinge um nível tão precário que a credibilidade do cineasta chega a ser posta em xeque.

É difícil definir o que aborrece mais em “O Dobro ou Nada”: a sua insuportável personagem central ou a produção estilo fundo de quintal. A trama, vejam só, é baseado nas memórias de Beth Raymer, uma anônima que pulou dos shows de striptease para uma Las Vegas em que todos estão sedentos por dinheiro. Ótima atriz, Rebecca Hall surge aqui totalmente sem noção do primeiro ao último segundo como Beth. A beleza de Rebecca também foi embora com a caracterização: apesar das curvas à mostra, o bronzeamento artificial, os largos sorrisos abobalhados e a voz de garota imatura são explorados sem cerimônia.

A história escrita por D.V. DeVincentis segue o mesmo percurso da verdadeira Beth. Exausta da vida que leva, a personagem vai à Las Vegas para trabalhar como garçonete. Sua precisão com números chama a atenção de Dink (Bruce Willis), sujeito que chefia um grupo de apostadores de campeonatos esportivos. Dink, que é casado com uma dondoca (Catherine Zeta-Jones, com carreira na UTI), não somente contrata Beth como parece se apaixonar por ela. Porém, a sede de dinheiro e os problemas conjugais de Dink não combinam com os interesses de Beth, cercada de gente que pode lhe pregar algumas peças.

Nada gracios0 e com um elenco de apoio que parece mais preocupado em pagar as contas do que trabalhar com um diretor como Stephen Frears, “O Dobro ou Nada” ainda é capaz de fazer qualquer um desviar os olhos da tela pelo desleixo. Além da história fraquíssima, provavelmente não houve nenhum esforço no processo de montagem para dar algum dinamismo ao filme. O curioso, entretanto, é depositar um pouco de atenção aos figurinos, que causam a impressão de que grande parte do elenco foi filmar vestindo aquilo que estava usando na hora de dormir (Bruce Willis pode ser visto a todo o instante com camisas com estampas desgastadas). Aproveite o tom desafiador do título nacional e se livre desta roubada.

Lay the Favorite, 2012 | Dirigido por Stephen Frears | Roteiro de D.V. DeVincentis | Elenco: Rebecca Hall, Bruce Willis, Catherine Zeta-Jones, Joshua Jackson, Vince Vaughn, John Carroll Lynch, Laura Prepon, Frank Grillo, Joel Murray, Corbin Bernsen, Wayne Pére, Andrea Frankle e Jo Newman | Distribuidora: Paris Filmes

Resenha Crítica | Relação Mortal (2011)

Relação Mortal | The Moth Diaries

♪ My mother she butchered me,
My father he ate me,
My sister, little Ann Marie,
She gathered up the bones of me
And tied them in a silken cloth
To lay under the juniper.
Tweet twee, what a pretty bird am I! ♪

Antes do universo vampiresco de Bram Stoker se consagrar com o romance “Drácula”, o irlandês Joseph Sheridan Le Fanu já o havia explorado alguns anos antes em “Carmilla”. Esta obra da literatura gótica lançada em 1872 não estabeleceu as “regras” descritas por Bram Stoker posteriormente, como um vampiro jamais visualizar seu reflexo ou a necessidade de se esconder da luz solar. Ao invés de sangue, em “Carmilla”, tal “sanguessuga”, uma mulher,  é capaz de atravessar divisões de cômodos e drenar as forças vitais de suas vítimas. Há também um forte tom homoerótico na história, pois Carmilla só ataca mulheres.

Modelo de personagem secundário que só é criado por um roteirista com a única intenção de deixar mais evidente as características particulares de uma história, o professor Davies (interpretado por Scott Speedman) é a única presença masculina com alguma relevância em um ambiente estritamente feminino. Além de deixar inúmeras alunas com os hormônios em plena ebulição encantadas, Davies estabelece as diferenças entre os romances de Stoker e Le Fanu, necessárias para que a narrativa de “Relação Mortal” possa engrenar.

Adaptação do romance “O Diário da Mariposa”, escrito por Rachel Klein e publicado no Brasil pela editora Planeta do Brasil, “Relação Mortal” tem como protagonista Rebecca (Sarah Bolger, que fez uma das garotinhas de “Terra de Sonhos”), jovem abalada pelo recente suicídio do pai (Julian Casey) por motivações desconhecidas. Aluna de um tradicional colégio interno, Rebecca, que tem como marcador de página de seu diário a lâmina que seu pai usou para cortar os pulsos,  encontra na sua melhor amiga Lucy (Sarah Gadon, de “Cosmópolis”) um pilar de apoio para que não desmorone emocionalmente. A relação bem íntima entre elas será abalada com a presença de uma nova aluna, Ernessa (Lily Cole, de “O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus”).

Claramente uma garota antissocial, Ernessa parece exercer domínio sobre Lucy, que passa a ignorar Rebecca. Além do mais, as colegas de classe mais próximas de Rebecca cometem atos que as desligam do colégio, deixando-a solitária e inconsolável. Tudo isso confirma algo: Rebecca está diante de alguém capaz de manipular tudo ao seu redor. Mas seria tudo isso fruto de seu estado de espírito instável ou Ernessa é realmente uma ameaça sobrenatural?

Realizadora de “Psicopata Americano”, Mary Harron decepciona em seu novo suspense, uma junção do romance de Le Fanu com o drama que acomete uma protagonista que ainda não superou uma trágica perda. Há atmosfera soturna, mas a única virtude em “Relação Mortal” está na presença de  Lily Cole, dona de uma face alienígena e envolvente. Quando sua Ernessa revela suas origens e motivações, os laços com Rebecca se estreitam sem coerência, revelando a ineficiência narrativa do projeto, que ao final só é capaz de encontrar alguma recompensa com a maravilhosa canção “Numb”, de Marina Lambrini Diamandis.

The Moth Diaries, 2011 | Dirigido por Mary Harron | Roteiro de Mary Harron, baseado no romance “O Diário da Mariposa”, de Rachel Klein | Elenco: Sarah Bolger, Lily Cole, Sarah Gadon, Anne Day-Jones, Julian Casey, Steffi Hagel, Valerie Tian, Melissa Farman, Laurence Hamelin, Kathleen Fee, Gia Sandhu, Judy Parfitt e Scott Speedman | Distruidora: California Filmes

Resenha Crítica | Segredos de Sangue (2013)

Segredos de Sangue | StokerPark Chan-wook faz parte de um seleto grupo de cineastas sul-coreanos cujo talento para a arte cinematográfica é impossível de reproduzir por outras mãos. Após o sucesso da “Trilogia Vingança” (composta por “Mr. Vingança”, “Oldboy” e “Lady Vingança”) no Ocidente, o ingresso de Park Chan-wook nos Estados Unidos seria uma mera questão de tempo.

A boa notícia é que “Segredos de Sangue” é um projeto independente que oferece a oportunidade para Park Chan-wook desdobrar da maneira que deseja um roteiro que não é da sua autoria. Estrela do seriado “Prison Break”, o ator Wentworth Miller inicia de modo promissor a sua carreira como roteirista em “Segredos de Sangue”, claramente influenciado por “A Sombra de Uma Dúvida”, de Alfred Hitchcock.

A verdade é que nas mãos de um cineasta qualquer, “Segredos de Sangue” resultaria em um longa-metragem comum sobre a transição da adolescência para a maturidade e as tentativas de uma protagonista em descobrir e aceitar a sua própria essência. Com Park Chan-wook por trás das câmeras, “Segredos de Sangue” sustenta uma narrativa mais visual, em que cada imagem é cuidadosamente concebida e que absolutamente nada soa aleatório. O apuro estético é logo testemunhado na sequência de créditos iniciais, em que o nome de Park Chan-wook se desfaz em meio a fumaça de velas de aniversário abafadas em um recipiente de vidro.

India Stoker (Mia Wasikowska) acaba de perder o pai Richard (Dermot Mulroney), talvez o único elo que tinha entre o mundo real e seu universo particular. Isso porque India não tem amigos ou qualquer afinidade com a mãe Evelyn (Nicole Kidman), buscando refúgio nos momentos em que passava com o pai e em seus próprios devaneios vindos de uma perspectiva diferenciada diante das coisas (India tem alguns sentidos, como a visão e a audição, bem apurados).

Desorientada, India chega aos dezoito anos não apenas abatida com a tragédia familiar como também não compreendendo a sua própria natureza. Isso tende a mudar com a chegada de Charlie (Matthew Goode), um tio cuja existência desconhecia e que apresenta intenções de ficar por tempo indeterminado na casa em que vive. Tratando-o a princípio com frieza, India apresenta uma estranha sintonia com Charlie, uma mistura de sedução e perigo. Já Evelyn, que antes de enviuvar estava presa em um casamento infeliz, visualiza em Charlie uma versão jovem e encantadora de Richard. A desestrutura na dinâmica entre os personagens é evidenciada em planos em que todos jamais são visualizados juntos, o que automaticamente preenche qualquer lacuna sobre as razões que levaram a família Stoker se tornar tão desunida.

Amparado por uma equipe muito especial, como o diretor de fotografia Chung Chung-hoon, o compositor Clint Mansell e a supervisão de Ridley Scott como produtor, Park Chan-wook faz um intrigante estudo da concepção da psicopatia. Quando finalmente as intenções de Charlie ficam claras e a inocência de India desaparece, “Segredos de Sangue” abraça as suas raízes mais violentas, mas desenvolvidas com a sutileza já conhecida de Park Chan-wook em qualquer longa-metragem anterior de sua filmografia. Como o fenômeno que faz as flores crescerem com uma coloração imprevista, India finalmente descobre ao final de “Segredos de Sangue” que não há nada que possa fazer para impedir os impulsos que correm em seu sangue, senão abraçá-los.

Stoker, 2013 | Dirigido por Park Chan-wook | Roteiro de Wentworth Miller | Elenco: Mia Wasikowska, Matthew Goode, Nicole Kidman, Alden Ehrenreich, Dermot Mulroney, Jacki Weaver, Phyllis Somerville, Lucas Till, Tyler von Tagen, Thomas A. Covert, Ralph Brown, Judith Godrèche e Harmony Korine | Distribuição: Fox

Resenha Crítica | Descobrindo o Amor (2011)

Descobrindo o Amor | Damsels in DistressDesde “Os Últimos Embalos da Disco” (1998) sem dirigir um longa-metragem, o cineasta americano Whit Stillman retorna a função com “Descobrindo o Amor” causando a sensação de que parou no tempo. Porém, isto não é considerado uma crítica para quem conhece a breve filmografia desse realizador indicado ao Oscar pelo roteiro de “Metropolitan”.

Tudo é deliciosamente antiquado em “Descobrindo o Amor”. Do perfil de cada personagem até os figurinos, o longa-metragem parece ter sido produzido nos anos 1990. A história é centrada em um grupo de garotas de uma fraternidade da Seven Oaks College. Violet (Greta Gerwig, a nova Parker Posey) é a líder e responsável pelo Centro de Prevenção de Suicídios, iniciativa que visa atender aos alunos desorientados com os relacionamentos frustrados ou a confusa personalidade.

Lily (Analeigh Tipton, de “Meu Namorado é Um Zumbi”) é a aluna mais nova do colégio, rapidamente acolhida por Violet e suas amigas Heather (Carrie MacLemore) e Rose (Megalyn Echikunwoke). Neste quarteto que se forma com a presença de Lily, a fragilidade de Violet é exposta. Almejando ser um modelo de comportamento impecável, Lily vai perdendo a pose quando não consegue esconder os seus sentimentos por Charlie Walker (Adam Brody), rapaz que parece sustentar duas identidades e um relacionamento com Lily.

Como o aguardado, Whit Stillman conduz “Descobrindo o Amor” através de interações cínicas e astutas. Porém, assim como aconteceu em “Nos Últimos Embalos da Disco”, o risco do público diminuir o interesse no desenvolvimento da história é grande porque tudo é mantido em um ritmo excessivamente brando. Somente as intervenções musicais garantem fôlego: como método terapêutico, Violet desenvolve o Sambola, uma dança que rende uma sequência de créditos finais muito divertida.

Damsels in Distress, 2011 | Dirigido por Whit Stillman | Roteiro de Whit Stillman | Elenco: Greta Gerwig, Carrie MacLemore, Megalyn Echikunwoke, Analeigh Tipton, Adam Brody, Ryan Metcalf, Jermaine Crawford, Zach Woods, Caitlin FitzGerald, Domenico D’Ippolito, Billy Magnussen, Nick Bleamire, Hugo Becker, Meredith Hagner e Aubrey Plaza

Resenha Crítica | Killer Joe – Matador de Aluguel (2012)

Killer Joe - Matador de Aluguel | Killer JoePelo visto, a parceria entre William Friedkin com o dramaturgo Tracy Letts não sofreu abalos diante do pouco entusiasmo com o qual a obra-prima “Possuídos” foi recebida diante do público e crítica. Seis anos depois, Tracy Letts adapta a própria peça teatral “Killer Joe” para o cinema contando novamente com William Friedkin como diretor. Assim como em “Possuídos”, “Killer Joe – Matador de Aluguel” é provocante e explosivo, ingredientes sempre presentes nos mais notáveis filmes de William Friedkin, que agora vive uma fase em sua carreira em que não há hesitação ao explorar o mundo de perversões habitado por seus personagens.

A trama é ambientada no Texas e não haveria cenário mais adequado para tipos tão desajustados como os que compõem a família Smith. Chris (Emile Hirsch), um jovem traficante, passa por apuros com uma dívida com os seus fornecedores. Sem visualizar possibilidades para se livrar do problema, ele recorre a uma atitude extrema: matar a mãe ausente e resgatar o dinheiro do seguro de vida. Para isso, Chris, com o consenso (acredite) de seu pai e madrasta (papéis de Thomas Haden Church e Gina Gershon), contrata o detetive e matador de aluguel Joe Cooper (Matthew McConaughey, em um papel que representa um divisor de águas em sua carreira) para executá-la. Cobra 10 mil dólares pelo serviço e exige Dottie (Juno Temple), irmã caçula de Chris, como garantia.

Embora a assinatura de William Friedkin seja reconhecida a cada fotograma, é impossível não lembrar de alguns trabalhos dos irmãos Coen, especialmente “Gosto de Sangue”. Assim como no longa-metragem de estreia dos Coen, “Killer Joe – Matador de Aluguel” tem desdobramentos inesperados a partir do acordo de uma morte por encomenda e apresenta um terceiro ato absurdamente doentio. Se em “Gosto de Sangue” há um verdadeiro jogo de gato e rato entre uma mulher e um detetive contratado para matá-la, em “Killer Joe – Matador de Aluguel” há banho de sangue e uma submissão obscena envolvendo a fantástica Gina Gershon e KFC.

O que diferencia o William Friedkin que dirige “Killer Joe – Matador de Aluguel” de qualquer outro diretor ou filmes a ele associados é que não há o interesse em antecipar na tela o destino que acompanhará os personagens que restam ao final da história. Desagradável para muitos devido o humor negro inserido em alta potência, a conclusão em aberto talvez sugira um círculo da família disfuncional que se inaugura, como se um nascimento representasse, acima de tudo, a previsão de futuras tragédias na existência dos Smith.

Killer Joe, 2012 | Dirigido por William Friedkin | Roteiro de Tracy Letts, baseado em uma peça de sua autoria | Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon, Marc Macaulay, Danny Epper, Jeff Galpin e Charley Vance | Distribuição: California Filmes

Resenha Crítica | Paixão (2012)

Passion

Ao exibir “Paixão” para concorrer ao Leão de Ouro na última edição do Festival de Veneza, Brian De Palma talvez não esperasse pelas vaias desrespeitosas que receberia na coletiva de imprensa realizada após a exibição deste que é o seu retorno aos thrillers que o consagraram. Como defesa, De Palma usou o argumento de que os seus filmes têm histórias contadas mais pelos recursos visuais do que pelos diálogos, chegando à conclusão de que por isso as reações da crítica especializada são tão desaprovadoras no calor do momento.

Há verdade na declaração do cineasta norte-americano que atualmente vive na França. Assim como acontece com “Femme Fatale”, lançado há dez anos diante de aplausos e vaias e agora reavaliado pela audiência com um olhar mais clínico, talvez “Paixão” tenha os seus méritos apreciados com mais entusiasmo com uma revisão em um instante em que o modo de Brian De Palma narrar uma história esteja escasso diante de seus sucessores.

Em tempos em que os filmes mais populares de Brian De Palma são refilmados (além de “As Irmãs Diabólicas” e “Carrie – A Estranha”, há rumores sobre um novo “Scarface” que terá como base no filme homônimo de 1983), soa estranho o próprio cineasta dar sua versão para o roteiro do recente “Crime de Amor”, o canto do cisne do francês Alain Corneau produzido em 2010. Porém, como se espera, há muitas distinções nesse filme concebido para uma época em que há tantas refilmagens literais, que não se permitem a novas possibilidades diante de histórias consagradas.

Ambientada na Alemanha, a história de “Paixão” inicia com as discussões de ideias da poderosa Christine (Rachel McAdams) com a sua subordinada Isabelle (Noomi Rapace) ao avaliarem uma péssima campanha publicitária de um aparelho móvel da Panasonic. Na mesma noite em que se despede de Christine, Isabelle tem um lampejo de criatividade que resulta em uma ideia brilhante e bem-humorada que põe em prática com o auxílio da sua secretária Dani (Karoline Herfurth, de “Perfume – A História de um Assassino”). Porém, Christine, com a ambição de trabalhar em Nova York, toma créditos pelo trabalho, deixando Isabelle inconformada.

A partir daí, “Paixão” mergulha em um jogo de manipulações entre suas personagens. Do mesmo modo que Isabelle se deixe enganar pela falsa parceria colaborativa com Christine, Dani tem uma admiração por Isabelle que não é recíproca. Além do mais, há nesta teia de falsas aparências o inconsequente Dirk (Paul Anderson, de “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras”), um homem que mantém um relacionamento com Christine e Isabelle ao mesmo tempo em que passa por problemas ao desviar dinheiro da organização em que elas trabalham. Quando a competitividade entre Christine e Isabelle fica definitivamente clara (“Sem punhalada pelas costas, são apenas negócios”), a sedução passa a ser a principal arma para uma derrubar a outra até que a consequência seja um crime.

Comparado ao original francês, “Paixão” não o iguala quanto à tensão que existia entre as personagens de Kristin Scott Thomas e Ludivine Sagnier, que refletia muito bem as armadilhas que aqueles que almejam sucesso no mundo corporativo estão sujeitos a cair. Por outro lado, as imagens de Brian De Palma são infinitamente mais poderosas que aquelas concebidas por Alain Corneau, substituindo os descartáveis flashbacks em preto e branco por um tom voyeurístico.

Em “Paixão”, há dois mundos que se confundem: a realidade amarga de Isabelle e seu inconsciente que a desorienta a partir do ponto em que recorre a uma medida drástica para penalizar Christine por sua traição. Braço direito do espanhol Pedro Almodóvar, o diretor de fotografia José Luis Alcaine dá indícios de qual mundo estamos explorando junto com Isabelle. Diante do desconhecido, ângulos diagonais e uma tonalidade azul com sombras de persianas criam uma atmosfera de mistério que remetem ao film noir. Cenários e locações não dizem muito, mas é interessante se atentar aos figurinos que cobrem Christine como uma mulher perfeita e apresentam Isabelle como uma profissional brilhante sempre ofuscada pelo ambiente inescrupuloso que atua através do uso de roupas sempre pretas.

Entretanto, o ápice do filme vem quando o Brian De Palma dos thrillers hitchcockianos se apresenta em plena forma, transformando um crime em uma verdadeira obra de arte. “Vestida Para Matar” é o longa-metragem com os elementos mais resgatados em “Paixão”. Percebam, por exemplo, como o tema composto pelo italiano Pino Donaggio para a conclusão de tirar o fôlego de “Paixão” é praticamente idêntico a “The Nightmare”, usado para a mesma ocasião em “Vestida Para Matar”.

Já o uso do split screen tem potencial para ser tanto o melhor momento do cinema neste ano quanto para a filmografia de Brian De Palma. Enquanto no quadro direito da tela temos a possível perspectiva de um indivíduo prestas a cometer um crime, no quadro esquerdo há o balé “Prelúdio à Tarde de um Fauno”, de Debussy, contemplado por Isabelle e a perfeita tradução para o mundo perturbador dos sonhos e o poder da sedução. Se não é perfeito, não faltam razões para se excitar com “Paixão”, que prova que um dos maiores manipuladores da linguagem visual no cinema está de volta com tudo. Que, desta vez, um novo hiato não se pronuncie.

Passion, 2012 | Dirigido por Brian De Palma | Roteiro de Brian De Palma, baseado no filme “Crime de Amor”, escrito por Alain Corneau e Natalie Carter | Elenco: Noomi Rapace, Rachel McAdams, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Rainer Bock, Benjamin Sadler, Michael Rotschopf, Max Urlacher, Dominic Raacke e Tystan W. Putter | Distribuição: Playarte

Resenha Crítica | A Seita Misteriosa (2011)

Sound of My VoiceA jovem Brit Marling atingiu um feito que se assemelha a um golpe de sorte: projeção artística em um trabalho de estreia. Neste caso, a ficção científica dramática “A Outra Terra”, produção filmada com pouco dinheiro e muita criatividade. Pois a atriz faz por merecer tanta badalação, revelando-se também uma roteirista de mão cheia. Após “A Outra Terra”, Brit Marling volta a assumir as funções de atriz e roteirista em “A Seita Misteriosa”, ainda inédito no país e tão bom quanto o trabalho que a revelou.

Além de se encaixar nos gêneros de “A Outra Terra”, o destino também é tema importante na história. No entanto, param aí as semelhanças, pois “A Seita Misteriosa” apresenta uma proposta muito distinta e incitará qualquer espectador a refletir profundamente sobre várias lacunas não preenchidas com certezas permanentes.

“A Seita Misteriosa” nos desorienta ao não apresentar as motivações por trás de Maggie, Peter e Lorna (respectivamente, Marling, Christopher Denham e Nicole Vicius), os três personagens centrais da história. Por isso mesmo, quando menos se revelar da história, melhor. A princípio, estamos diante de um culto com uma ideologia muito particular. Peter e Lorna, que são namorados, sujeitam-se a um verdadeiro ritual antes de se apresentarem para Maggie. Todos os membros da seita, selecionados a dedo, devem tomar banho, vestirem-se com um avental branco e realizarem um longo cumprimento. Só assim ouvem com admiração Maggie, jovem frágil que diz vir de outra época.

Em cada encontro, Maggie tem a intenção de purificar espiritualmente cada um de seus fiéis com palavras de sabedoria e algumas atividades incomuns, o que envolve uma sequência quase repulsiva de vômito coletivo. Respondendo positivamente a cada “dinâmica” conduzida por Maggie, Peter parece deixar aos poucos o seu ceticismo de lado, embora ele, assim como Lorna, oculte a intenção obscura de se fazer presente em cada encontro.

Nesta parceria de Brit Marling com o cineasta estreante Zal Batmanglij (que voltaram a repeti-la em “O Sistema”, thriller que estreou recentemente nos Estados Unidos) há a vontade de fazer uma trilogia que não deve se concretizar. Afinal, embora com potencial para virar um cult movie, “A Seita Misteriosa” não alcançou o mesmo volume de espectadores que assegurou o sucesso de “A Outra Terra”. De qualquer maneira, o modo como a história se encerra não depende da confirmação de uma sequência para funcionar.

Em seu âmago, “A Seita Misteriosa” trata sobre a fé que investimos em algo que a razão não permite. Esse é o principal tormento de Peter, que talvez esteja se deixando levar demais pela forte personalidade de Maggie – esta, uma figura com as características de um santo com o poder de atrair devotos e afastar incrédulos que a encaram como uma fraude e também o pivô de uma possível conspiração.

Sound of My Voice, 2011 | Dirigido por Zal Batmanglij | Roteiro de Brit Marling e Zal Batmanglij | Elenco: Christopher Denham, Nicole Vicius, Brit Marling, Davenia McFadden, Kandice Stroh, Richard Wharton, Christy Meyers, Alvin Lam, Constance Wu, Matthew Carey, Jacob Price, David Haley e James Urbaniak

Resenha Crítica | O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua (2013)

O Massacre da Serra Elétrica 3D - A Lenda Continua | Texas Chainsaw 3DQuase quatro décadas se passaram e “O Massacre da Serra Elétrica” segue como um dos filmes mais assustadores do segmento slasher, famoso e barato subgênero cujo maior atrativo está em acompanhar assassinos em série mascarados à caça de jovens vítimas hospedadas ou perdidas em locais em que não há ninguém para ajudá-las.  Trata-se do maior feito artístico e comercial de Tobe Hopper, cuja carreira não prosseguiu a contento mesmo assinando os divertidos “Poltergeist – O Fenômeno” e “Pague Para Entrar, Reze Para Sair”.

Diferente das outras encarnações de Leatherface, o novo “O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua” assume a responsabilidade de se apresentar como uma espécie de continuação direta do clássico de Tobe Hopper. O faz a princípio de modo promissor ao resgatar para a sua abertura as cenas mais chocantes do original como método de envolver as novas gerações.

O respeito à cronologia inexiste. Seguindo os eventos à risca, “O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua” deveria se situar ao final do século passado, mas objetos de cena (como o aparelho móvel de última geração usado por um policial) e cenários explorados são contemporâneos.

Cansada da vida que leva, Heather Miller (Alexandra Daddario) tem aproximadamente 20 anos e, filha adotiva, é surpreendida ao receber a mansão Sawyer no Texas como herança de uma avó cuja existência desconhecia. Migra para a cidadezinha na primeira oportunidade e arrasta para lá seu namorado Ryan (Trey Songz) e os amigos Nikki (Tania Raymonde) e Kenny (Keram Malicki-Sánchez) – Darryl (Shaun Sipos) é uma adição ao grupo, um sujeito presunçoso que implora por carona em uma noite chuvosa.

Logo no primeiro dia de hospedagem na bela residência, Leatherface (Dan Yeager) trata de recepcioná-los de modo pouco cordial. Oculto no porão, Leatherface reativa suas ferramentas de matança quando Darryl, sozinho, explora os cômodos em busca de objetos como talheres para roubar. Até aí, o público já desconfia que haja um segredo de sangue entre Heather, cuja presença desperta a desconfiança e ira de alguns velhos inimigos da família Sawyer, e Leatherface.

A surpresa reservada para o terceiro ato, que acontece através da mudança de comportamento da protagonista e outros personagens secundários diante do perigo materializado através de Leatherface, envolve uma amoralidade que se assemelha a sutileza de se assistir a um corpo dividido em dois com o uso de uma motosserra. Ao mesmo tempo em que provoca repulsa até mesmo nos fãs mais fervorosos da franquia, é o que garante relevância ao filme, que até então se contentara com as artimanhas infantis de John Luessenhop, realizador da fita, em promover impacto com sanguinolência em terceira dimensão.

Texas Chainsaw 3D , 2013 | Dirigido por John Luessenhop | Roteiro de Adam Marcus, Debra Sullivan e Kirsten Elms, baseado nos personagens de Kim Henkel e Tobe Hooper | Elenco: Alexandra Daddario, Dan Yeager, Trey Songz, Scott Eastwood, Tania Raymonde, Shaun Sipos, Keram Malicki-Sánchez, James MacDonald,  Thom Barry, Paul Rae, Richard Riehle e Bill Moseley | Distribuição: Europa Filmes