Resenha Crítica | Silent Hill – Revelação 3D (2012)

Silent Hill - Revelação 3D | Silent Hill - Revelation 3D

Gamers costumam ser muito severos com a adaptação cinematográfica de um jogo eletrônico. Não se trata apenas da exigência de um roteiro que siga fielmente a história antes explorada através de um console, mas também de haver a sensação de que está interagindo com aquilo que contempla como espectador. Não é uma missão impossível de ser cumprida, como provara o francês Christophe Gans em “Terror em Silent Hill”.

Tendo “O Pacto dos Lobos” como sua obra máxima, Christophe Gans promoveu com “Terror em Silent Hill” um festival macabro que não trai as origens do material adaptado por Roger Avary (Oscar pelo roteiro de “Pulp Fiction – Tempo de Violência”). Como esperado em um competente artista europeu, Gans fez, portanto, o melhor filme oriundo do universo dos videogames, imaginando estágios e modos peculiares para exibir os eventos infernais que tomam a desconhecida cidade de Silent Hill.

Lamentavelmente, a sequência, “Silent Hill – Revelação 3D”, não conta com a dupla formada por Gans e Avary. A responsabilidade para tocar a sequência ficou a cargo de Michael J. Bassett, que a executa obtendo um resultado que deixaria Uwe Boll orgulhoso – ou envergonhado, para se ter uma noção da calamidade que é “Silent Hill – Revelação 3D”.

A história é ambientada alguns anos após os eventos do filme original e personagens importantes retornam, a exemplo de Heather (Adelaide Clemens, uma Michelle Williams de segunda), agora uma adolescente que não se recorda de sua mãe e das experiências que viveu com ela em Silent Hill. Com problemas de adaptação, Heather ao menos tem o seu pai Harry (Sean Bean) para apoiá-la. O regresso de Heather à Silent Hill se dá quando Harry é sequestrado por um desconhecido. Desolada, ela contará com a companhia de Vincent (Kit Harington, do seriado “Game of Thrones” e em seu primeiro papel no cinema), um colega de classe que pode ou não ser confiável.

Embora contenha elementos de “Silent Hill – Origins” e “Silent Hill – Downpour” (respectivamente, quinto e oitavo capítulo lançado da franquia de jogos), “Silent Hill – Revelação 3D” nada mais é do que um rascunho muito mal concebido do desenvolvimento de “Terror em Silent Hill”. Personagens secundários, cenários e a sensação de perigo formam elementos que parecem meras reciclagens do filme de Christophe Gans e Michael J. Bassett piora as coisas apresentando soluções de bandeja, uma vez que Heather encontra as suas respostas com a mesma facilidade que qualquer um com problemas de coordenação motora tem para passar uma fase de “Super Mario World”.

De qualquer modo, não dava para aguardar um resultado melhor de “Silent Hill – Revelação 3D”. Rodado com um orçamento que sequer se aproxima da metade do valor que viabilizou “Terror em Silent Hill”, esta sequência anda tendo sérias dificuldades para ser lançada no Brasil após fracassar nas bilheterias estadunidenses. Aproveite a deixa: reveja o filme original e ignore a existência de “Silent Hill – Revelação 3D” imaginando outras possibilidades para a oportuna conclusão em aberto filmada em 2006.

Silent Hill: Revelation 3D, 2012 | Dirigido por Michael J. Bassett | Roteiro de Michael J. Bassett, baseado no jogo eletrônico “Silent Hill”, da Konami | Elenco: Adelaide Clemens, Kit Harington, Sean Bean, Carrie-Anne Moss, Martin Donovan,  Malcolm McDowell, Deborah Kara Unger, Roberto Campanella, Erin Pitt, Peter Outerbridge, Heather Marks e Radha Mitchell | Distribuidora: Playarte

Resenha Crítica | Terapia de Risco (2013)

Terapia de Risco | Side Effects

Já tendo voltado atrás quanto a sua decisão de se aposentar, Steven Soderbergh recentemente apresentou “Terapia de Risco” ao público  com a promessa de que este definitivamente seria o seu último longa-metragem. A justificativa para tomar uma decisão tão drástica é pífia: Soderbergh disse estar exausto do modo como a indústria de cinema se move. Avaliando a quantidade de produções que tem passe livre para realizar anualmente e todo o elenco e equipe ao seu dispor, tal frustração artística se mostra inconcebível.

De qualquer maneira, sua despedida acontece com a apresentação de duas surpresas. A primeira surpresa vem do fato de “Terapia de Risco” ser um modelo de thriller estranho em sua carreira e com o qual conduz muito bem. Já a segunda surpresa é que o longa-metragem protagonizado por Jude Law e Rooney Mara é ótimo, um resultado que Soderbergh obtém com muita dificuldade.

A verdade é que os méritos de “Terapia de Risco” se devem mais pelo texto de Scott Z. Burns. Para quem não lembra, o roteirista é o responsável pelos únicos bons filmes de Soderbergh nos últimos cinco anos: “O Desinformante!” e “Contágio”. As histórias de Scott Z. Burns são bem estruturadas e inteligentes, capazes de impedirem Soderbergh a sair dos trilhos.

Na trama, Emily (Rooney Mara, bem melhor que em “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”) é uma jovem que aguarda ansiosamente pelo retorno do marido Martin (Channing Tatum), há quatro anos atrás das grades. Embora as razões não fiquem muito claras, há indícios de que Martin havia revelado informações sigilosas da empresa em que trabalhava, resultando em sua prisão. Mesmo com Martin agora ao seu lado, Emily não superou a depressão que surgiu com a ausência dele, fazendo-a tomar atitudes graves como chocar o seu veículo contra a parede de um estacionamento ou quase pular nos trilhos de uma estação de metrô.

Ao ser hospitalizada, Emily é atendida por Jonathan Banks (Jude Law), psiquiatra para o qual ela se oferece como paciente. Nas sessões de terapia, Jonathan passa a receitar drogas experimentais com a intenção de fazer Emily se livrar definitivamente da depressão. Para cada uma, há efeitos colaterais drásticos ao ponto de fazê-la cometer um crime. Acusada de assassinato, Jonathan tenta protegê-la ao mesmo tempo em que se esquiva de possíveis acusações de negligência ao ter receitado antidepressivos de modo inadequado, pois ele participa de programas de estudo realizados por fabricantes que o influenciam a testar novas drogas em seus pacientes.

O que faz “Terapia de Risco” funcionar é a precisão com que suas reviravoltas são aplicadas. Elas não acontecem de modo gratuito, pois a todo o instante o filme oferece indícios para que o público, a este ponto empático com a figura de Jonathan, desconfie do curso que a história está seguindo. De certo modo, “Terapia de Risco” também remete a clássicos do gênero. Adrian Lyne é uma influência assumida por Soderbergh e “Terapia de Risco” desconstrói a figura masculina e a feminina, uma vez que Emily passa a assumir um perfil que causará a impotência de Jonathan diante de sua vida profissional e privada, um revés exibido em “Atração Fatal”. Uma pena Steven Soderbergh não ter demonstrado o mesmo padrão de qualidade visto em “Terapia de Risco” ao longo de sua carreira pouco memorável.

Side Effects, 2013 | Dirigido por Steven Soderbergh | Roteiro de Scott Z. Burns | Elenco: Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Vinessa Shaw, Channing Tatum, Ann Dowd, David Costabile, Polly Draper, James Martinez, Peter Friedman e Mamie Gummer | Distribuidora: Paris Filmes

Resenha Crítica | Spring Breakers – Garotas Perigosas (2012)

Spring Breakers - Garotas Perigosas | Spring Breakers

Como roteirista, Harmony Korine é coautor de duas histórias sem glamorização da adolescência: “Kids” e “Ken Park”. Em “Kids“, um título quase obrigatório para qualquer estudante que ingressa o ensino médio, acompanhou jovens cercados por sexo e drogas em plenos anos 1990. Já em “Ken Park”, cercou os seus personagens desses mesmos elementos em um cenário sem perspectiva diante do Governo Bush.

O tempo passa e as gerações se transformam ao ponto de se diferenciarem umas das outras. Diante disso, é natural que em seu novo filme, “Spring Breakers – Garotas Perigosas”, haja elementos que o distancie de “Kids” e “Ken Park”, mesmo que a sua intenção permaneça a mesma: analisar a juventude de acordo com a sociedade em que está inserida.

Agora assumindo a direção de seu próprio roteiro, Harmony Korine criou uma polêmica que assegurou o sucesso de “Spring Breakers – Garotas Perigosas”. Maiores expoentes das histórias açucaradas da Disney, Selena Gomez e Vanessa Hudgens fogem das tolices das histórias de Cinderela caretas para provarem que são boas atrizes. Portanto, esqueçam dos encantos de “Os Feiticeiros de Waverly Place” ou da cantoria de “High School Musical”, pois o universo de “Spring Breakers – Garotas Perigosas” é aquele em que garotas se divertem seminuas através de roubos, consumo de bebidas alcoólicas e drogas, orgias e assassinatos.

O spring break é a famosa “semana do saco cheio” e acontece durante o início da primavera nos Estados Unidos. Liberados das escolas por um curto prazo de tempo, os alunos se reúnem em áreas ensolaradas e se deixam levar por tudo aquilo que é considerado imoral. Cansadas das rotinas de estudos, o quarteto de amigas formado por Faith (Selena Gomez), Candy (Vanessa Hudgens), Brit (Ashley Benson) e Cotty (Rachel Korine, esposa do diretor) decidem tomar medidas extremas para saírem de férias.

Sem dinheiro o suficiente para ficar uma semana fora, as meninas roubam um restaurante usando máscaras e portando armas de brinquedo e uma marreta. Na sequência, rumam para locais em que se reunirão com outros jovens. Sem transmitirem muitos detalhes para os seus responsáveis, Faith, Candy, Brit e Cotty fazem tudo aquilo que não lhe eram permitidos até chegarem ao ponto de serem presas. Com fianças pagas por um gângster conhecido como Alien (James Franco, surpreendente), elas passam a experimentar o processo de amadurecimento que almejavam com o spring break. Como o esperado, as experiências mostram impactos distintos para cada uma delas, uma vez que nem todas estão dispostas a embarcar no nível de perigo que se mostrará a partir do instante em que assumem os papéis de parceiras de Alien, constantemente ameaçado por um rival (Gucci Mane).

Harmony Korine prossegue com seus experimentalismos em “Spring Breakers – Garotas Perigosas”. Brinca a todo o instante no processo de montagem da história, eleva as tonalidades das cores (algumas atingindo um atraente efeito fosforescente), reprisa testemunhos narrados em off e granula algumas imagens. Tudo isso é adequado para a sua proposta, que proporciona um rito de passagem quase singular. Afinal, o preparo para o amadurecimento das personagens só acontece quando elas testarem os seus próprios limites em situações de risco.

Spring Breakers, 2012 | Dirigido por Harmony Korine | Roteiro de Harmony Korine| Elenco: James Franco, Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Ashley Benson, Rachel Korine, Gucci Mane, Heather Morris, Ash Lendzion, Emma Holzer, Lee Irby, Jeff Jarrett, Russell Curry, Josh Randall e Travis Duncan | Distribuidora: Universal

Piscou, Perdeu!

Harmony Korine in Stoker

Harmony Korine em “Segredos de Sangue”
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Aguardada estreia de Park Chan-wook no cinema americano, “Segredos de Sangue” atraiu ótimos nomes até mesmo em papéis breves, o que evidencia a força do nome do cineasta sul-coreano no cenário contemporâneo. Além do trio central formado por Mia Wasikowska, Matthew Goode e Nicole Kidman, o filme também traz participações especiais de Dermot Mulroney, Jacki Weaver e Phyllis Somerville. Os mais atentos, entretanto, devem ter reagido com surpresa diante da ponta relâmpago do cineasta Harmony Korine interpretando um professor de Artes. Ele pode ser visto do lado direito na captura acima. Aliás, o novo filme de Korine, “Spring Breakers – Garotas Perigosas”, terá uma resenha publicada amanhã. Fiquem atentos.

Resenha Crítica | Amor Pleno (2012)

Amor Pleno | To the Wonder

Cineasta consagrado com carreira com poucos títulos, Terrence Malick parece compensar somente agora todos os anos que se manteve recluso entre a produção de longas-metragens. Antes de receber a Palma de Ouro em Cannes por “A Árvore da Vida”, Malick já estava concluindo este “Amor Pleno”  e contava com mais três projetos em fase de desenvolvimento: “Knight of Cups”, “Voyage of Time” e o “Projeto Sem Título de Terrence Malick”, todos atualmente em fase de pós-produção.

Reconhecido pelo modo sem igual como capta suas cenas e pelo rigor com que conta as suas histórias praticamente visuais, é natural a expectativa gerada em torno de suas obras. O coração de Terrence Malick esta presente em cada segundo de “Amor Pleno”. Assim como em “A Árvore da Vida”, há aqui uma história que lida com temas universais como o amor, a família e a religião. No entanto, muita coisa se perde em sua condução lírica.

Embora seja ambientado nos dias atuais, “Amor Pleno” tem lances autobiográficos. Interpretado por Ben Affleck, Neil apaixona-se por Marina (Olga Kurylenko, no melhor trabalho de toda a sua carreira) francesa divorciada que vive com sua pequena filha, Tatiana. O amor compartilhado entre ambos é forte e o Monte Saint-Michel serve de cenário para ilustrar a plenitude desse sentimento. Ao viver juntos em uma residência em Oklahoma, o relacionamento não se fortalece. Tatiana não se adapta ao novo lar e não demora em surgir uma crise entre o casal.

Com o visto vencido, elas retornam para França e ele, solitário, se reconecta à Jane (Rachel McAdams), uma mulher com receios em se envolver seriamente com um homem devido a uma série de rompimentos que enfrentou durante sua vida. Por Jane ser alguém que conhece tão bem desde a adolescência, Neil gostaria de tê-la por perto, mas ainda não superou Marina, que voltará a contatá-lo admitindo a si mesma que não conquistou na França todos os seus objetivos.

Assim como a história vista em “Amor Pleno”, Terrence Malick também viveu um relacionamento com uma francesa. Após 13 anos de união, ele pediu divórcio e imediatamente se casou com Alexandra, um amor dos tempos do colégio.  Apesar disso, Neil é um personagem coadjuvante em “Amor Pleno”, uma vez que são raros os instantes em que sua perspectiva narra os acontecimentos íntimos que testemunhamos.

Novamente com a colaboração do diretor de fotografia Emmanuel Lubezkik, o cineasta obtém imagens deslumbrantes. Sua câmera passeia em cenários e entre pessoas com a mesma leveza que Marina, uma dançarina totalmente inebriada pelas emoções que a rodeiam. O apego à imagem, porém, não supriu apropriadamente as interações humanas que dependem do diálogo para se sustentarem.

Terrence Malick tem um modo peculiar de rodar os seus filmes. Não entrega aos seus atores um roteiro pronto, somente divagações que servem como orientações para o que eles devem fazer em cada take. O modo como a história foi concebida também está sujeito a inúmeras modificações na ilha de edição, em que um protagonista pode se transformar em mero coadjuvante, diálogos são substituídos por pensamentos narrados em off e atores são cortados sem cerimônia (nomes do calibre de Jessica Chastain e Michael Sheen tiveram suas participações limadas).

Se o método assegurou o bom resultado de “A Árvore da Vida”, o mesmo não acontece em “Amor Pleno”. O romance não arrebata porque Malick não está interessado em investigar o que Neil e Marina esperam um do outro. Além do mais, Ben Affleck só surpreende com o seu empenho por trás das câmeras iniciado com “Medo da Verdade”, pois como intérprete permanece frio, intragável. Sendo um diretor que trabalha essencialmente com a linguagem corporal dos seus atores, é inadmissível que Malick o tenha escalado para viver um papel tão importante. “Amor Pleno” é puro reflexo da história paralela totalmente deslocada do padre vivido pelo espanhol Javier Bardem. Há somente possibilidades superficiais e nenhuma certeza.

To the Wonder, 2012 | Dirigido por Terrence Malick | Roteiro de Terrence Malick | Elenco: Olga Kurylenko, Ben Affleck, Rachel McAdams, Javier Bardem, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O’Gans, Charles Baker, Marshall Bell e Casey Williams | Distribuidora: Paris Filmes

Resenha Crítica | Anna Karenina (2012)

Anna Karenina

Após duas inclusões no cinema americano com histórias contemporâneas acolhidas com certa frieza pelo público e crítica – “O Solista” e “Hanna” -, o cineasta britânico Joe Wright decidiu voltar aos romances de época, segmento que o consagrou através de “Orgulho & Preconceito” e “Desejo e Reparação”. No entanto, não se trata de se refugiar em uma zona de conforto, pois a sua missão de levar uma nova versão de “Anna Karenina” aos cinemas talvez represente o trabalho mais desafiador de toda a sua carreira.

Contando com uma equipe de nomes familiares (a exemplo de Keira Knightley como protagonista e Seamus McGarvey como diretor de fotografia), Joe Wright oferece uma nova luz para o romance homônimo do russo Leo Tolstoy, o mesmo de “Guerra e Paz”. Saí uma reconstituição de época convencional e entra cenários que são, essencialmente, extensos palcos teatrais.

Aristocrata que vive em São Petersburgo com o marido Alexei Karenin (Jude Law), Anna Karenina (Keira Knightley) viaja para Moscou para visitar o irmão Stepan (Matthew Macfadyen), que traiu sua esposa Daria (Kelly Macdonald) com a governanta, proibindo-o assim de rever a ela e aos seus filhos. Conhecida por ser compreensiva e afável, Anna tentará reverter a situação do irmão tentando convencer Daria a perdoá-lo. O destino a fará conhecer o Conde Alexei Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), jovem que a corteja na primeira oportunidade e pelo qual se apaixonará instantaneamente.

Até determinado ponto, este “Anna Karenina” deslumbra pelo trabalho técnico irrepreensível, criando uma experiência visual ousada e raramente vista. Porém, com o texto de Tolstoy já levado tantas vezes para diversas mídias, o romance não encontra diferencial com qualquer outra história moldada por adultérios e paixões não correspondidas apropriadamente. Grande parcela deste resultado desapontador também vem das interpretações de Keira Knightley e Aaron Taylor-Johnson, que em raros momentos oferecem o nível emocional que seus clássicos papéis exigem. Que Joe Wright consiga repetir tal experimentação com resultados mais superiores em uma próxima tentativa.

Anna Karenina, 2012 | Dirigido por Joe Wright | Roteiro de Tom Stoppard, baseado no romance homônimo de Leo Tolstoy | Elenco: Keira Knightley, Aaron Taylor-Johnson, Jude Law, Matthew Macfadyen, Domhnall Gleeson, Alicia Vikander, Kelly MacDonald, Ruth Wilson, Olivia Williams, Emily Watson, Eric MacLennan, Theo Morrissey, Tannishtha Chatterjee, Cecily Morrissey, Fleya Galpin, Octavia Morrissey, Beatrice Morrissey, Luke Newberry e Shirley Henderson | Distribuidora: Universal

Oz – Mágico e Poderoso

Oz - Mágico e Poderoso Oz the Great and Powerful

Sam Raimi é um dos mais notáveis cineastas em atividade ao lidar com o universo fantástico no cinema. Além da trilogia “Evil Dead”, Raimi evidenciou seu domínio tanto na direção de obras como “Arraste-me Para o Inferno” quanto na produção das aventuras televisivas de “Hércules” e “Xena”. Porém, Sam Raimi é aquele artista incapaz de oferecer o melhor de si quando está diante de um projeto de estúdio. Se na trilogia “Homem-Aranha” ele entregou uma ação tão apática quanto o herói Peter Parker, em “Oz – Mágico e Poderoso” sua assinatura jamais é reconhecida.

Ainda que “Oz – Mágico e Poderoso” seja bancado pelo mesmo estúdio Disney que viabilizou “Alice no País das Maravilhas”, ao menos Tim Burton foi capaz de preservar a sua reconhecida marca visual. A responsabilidade de Sam Raimi com “Oz – Mágico e Poderoso” é ainda maior e ingrata: dar forma a um roteiro regular que imagina os eventos que antecedem “O Mágico de OZ”, talvez a maior fantasia que o cinema já produziu.

74 anos se passaram desde o filme de Victor Fleming e em “Oz – Mágico e Poderoso” a missão é desvendar quem é, enfim, o mágico Oz. Pois não se trata de alguém especial. Na verdade, Oz é ninguém mesmo que Oscar Diggs (James Franco), mágico de um circo em Kansas e sujeito para lá de errante. Numa confusão originada com um flerte com a mulher de um dos artistas circenses, Oscar escapa da situação, portando maleta e cartola, voando em um balão. Segundos depois, avista um tornado vindo em sua direção. O que era para ser morte certa se transforma em uma passagem que o conduzirá para um mundo mágico chamado Oz.

Após o estranhamento inicial, Oscar se situa ao estranho e belo ambiente graças à Theodora (Mila Kunis), que acredita estar diante de um lendário mágico que tem o poder para destruir a Bruxa Má. Assim, Theodora o leva até sua irmã Evanora (Rachel Weisz), que, por sua vez, promete a ele muita riqueza caso mate Glinda (Michelle Williams), a quem ela aponta como a temida Bruxa Má. Uma vez que aceita a missão, Oscar usa alguns de seus truques fajutos para contornar algumas situações perigosas e ainda conta com a companhia de um macaco com asas (voz de Zach Braff) e uma frágil boneca de porcelana (voz de Joey King). Ao finalmente chegar ao local em que Glinda está, Oscar não precisa olhá-la uma segunda vez para saber que a bruxa é a mais pura pessoa que pode existir e que Evanora é a verdadeira vilã deste reino mágico que lhe é tão peculiar.

Extremamente exaustiva, a mágica aventura em muitos momentos se assemelha a uma paródia grosseira em suas tentativas de referenciar o filme original. Embora os primeiros minutos preservem a mesma fotografia em preto e branco daquele Kansas que anos depois servirá de lar para a inocente Dorothy (Judy Garland), a composição de James Franco para viver o protagonista é de um desleixo que já lhe é habitual desde os seus primeiros passos como intérprete. O elenco de apoio segue a mesma linha, atingindo o nível máximo da caricatura ao incorporar personagens para lá de maniqueístas.

Se a jornada até a conclusão de “Oz – Mágico e Poderoso” não é mais aborrecida é porque há duas coisas extremamente singulares. A primeira é a existência de dois personagens digitais muito especiais, o macaquinho e a boneca de porcelana, que respondem pelos únicos momentos realmente emocionantes da história (a primeira aparição da boneca é particularmente tocante). A segunda é o clímax bem elaborado. Através de uma bela explosão de cores deslumbrantes, ele ainda apresenta o único truque verdadeiramente eficaz de Oscar, em que faz a sua face ser projetada para uma multidão que finalmente o aceita como o Mágico de Oz – bem no fundo, é uma ocasião que também exalta o cinema como uma ilusão capaz de tornar real tudo aquilo que nos parece inimaginável. Dois grandes acertos que não compensam a existência desse prequel.

Oz the Great and Powerful, 2013 | Dirigido por Sam Raimi | Roteiro de David Lindsay-Abaire e Mitchell Kapner, baseado nos trabalhos de L. Frank Baum | Elenco: James Franco, Mila Kunis, Rachel Weisz, Michelle Williams, Zach Braff, Joey King, Bill Cobbs, Tony Cox, Stephen R. Hart, Abigail Spencer, Ted Raimi e Bruce Campbell | Distribuidora: Disney

American Mary

American Mary

No grupo de cineastas de horror contemporâneo que ainda se forma, as irmãs gêmeas Jen e Sylvia Soska podem muito bem assegurarem uma vaga caso recebam futuras oportunidades para conduzirem outros filmes. Leitoras assíduas desde a infância dos romances de Clive Barker e Stephen King, dois expoentes da literatura macabra, e fãs confessas de Robert Rodriguez, Dario Argento e Eli Roth, as gêmeas Soska conseguiram grande destaque já no segundo longa-metragem de suas carreiras, o canadense “American Mary”.

Lançado recentemente nos Estados Unidos, “American Mary” apresenta um grande atrativo para os fãs da trilogia “Possuída”. Após viver Ginger Fitzgerald, a bela Katharine Isabelle recebe a oportunidade de bilhar como Mary Mason, personagem central da história. Estudante de medicina com dificuldades para pagar as contas, Mary decide trabalhar como stripper para aumentar o orçamento e não precisar recorrer à mãe. Quando descola uma vaga em uma casa noturna, Mary é imediatamente requisitada em seu primeiro dia para salvar a vida de um dos capengas do seu chefe que possivelmente se meteu em uma briga de negócios.

Após este episódio, Mary reconhece o seu talento nato para fazer cirurgias, ainda não tenha concluído a faculdade. Vê nisso a oportunidade de ganhar muito dinheiro através de operações ilegais. Em meio a isso, Mary é persuadida pelo supervisor do seu estágio a participar de uma festa em que terá a oportunidade de conhecer muitos cirurgiões renomados. Mary aceita e não demora a ser dopada e estuprada por um canalha. Ao invés de denunciá-lo, ela decide executar uma perversa vingança em que removerá aos poucos cada parte do corpo dele enquanto o mantém em cativeiro.

A princípio, as expectativas antecipam a impressão de que embarcaremos em um horror em que detalhes da anatomia humana são expostos e que muito sangue sujará a tela. Embora não se desprenda dessa exposição, as gêmeas Soska conduzem “American Mary” com muita elegância. Há até fascínio no modo como desfila freaks que estão dispostos a se submeterem as mais inimagináveis intervenções cirúrgicas para remodelarem os próprios corpos – uma das pacientes de Mary é quase idêntica a uma boneca de porcelana.

Após todas essas considerações, “American Mary” atinge um resultado somente mediano porque as gêmeas Soska ainda precisam aprimorar a escrita. Há um determinado momento em que a trama se perde ao desenvolver tantos pontos de interesse, rendendo atmosferas muito dispersas. Na indefinição de seguir uma história policial, de vingança ou beleza macabra, a conclusão se apresenta sem o mesmo cuidado preservado nos dois atos que o antecedem. De qualquer modo, as gêmeas Soska não enfraquecem a força de seus nomes, que em “American Mary” se mostram suficientemente dignos de serem espiados daqui em diante.

American Mary, 2012 | Dirigido por Jen Soska e Sylvia Soska | Roteiro de Jen Soska e Sylvia Soska | Elenco: Katharine Isabelle, Antonio Cupo, Tristan Risk, David Lovgren, Paula Lindberg, Clay St. Thomas, John Emmet Tracy, Twan Holliday, Nelson Wong, Sylvia Soska e Jen Soska | Distribuidora: Xlrator Media

Resenha Crítica | Depois de Lúcia (2012)

Depois de Lúcia | Después de Lucía

Adaptado em todos os países que vem ganhando exibição, o pôster do drama “Depois de Lúcia” mostra sua protagonista, a adolescente de 15 anos Alejandra (Tessa Ia, de “Vidas que se Cruzam”), levando um tapa na cara. Considerando-o junto com outros materiais de divulgação, a sensação que se tem é de que a trama gira em torno de um caso de bullying, pois a sinopse deixa claro que Alejandra é uma estudante que sofrerá nas mãos de seus colegas de classe após uma polêmica.

Apesar dessa interpretação, que vem sendo mantida por muitos espectadores chocados com as barbaridades encenadas pelo cineasta Michel Franco (em segundo trabalho em longa-metragem que lhe valeu o prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes), “Depois de Lúcia” é, na verdade, um filme sobre o luto. Pai de Alejandra, Roberto (Hernan Mendoza) encara com desânimo a sua existência após a morte de sua esposa em um acidente automobilístico. Nem a mudança para o Novo México e muito menos o novo emprego o animam. No entanto, Roberto tem Alejandra para criar e diz que ela precisa compensar as suas demonstrações de carinho sendo uma boa aluna.

Embora Alejandra não seja uma garota certinha, ela está longe de ser um mau elemento. É atenciosa com o pai e também com os amigos que faz no novo colégio. A boa reputação que cria desmorona assim que um vídeo em que ela transa com um rapaz de sua turma é visto por todos os alunos da instituição. Se o compartilhamento de um momento íntimo já não fosse suficientemente vergonhoso, Alejandra passará a ser hostilizada, especialmente pelos seus colegas mais próximos. Uma humilhação diária do qual seu pai sequer tem ciência.

Após um primeiro ato sem grande densidade, “Depois de Lúcia” investe em uma sucessão de cenas que poderá testar os limites do espectador mais sereno. Tentativas de assédio, disparos de ofensas e prendas coletivas são apenas alguns acontecimentos desta verdadeira via crucis atravessada por Alejandra. Talvez desde “Vênus Negra” que não se vê no circuito nacional alternativo um longa-metragem com uma protagonista submetida a tantas humilhações.

Lamentavelmente, o diretor Michel Franco transforma “Depois de Lúcia” em um filme que nos marca pelos motivos errados. Franco não está interessado em fazer uma análise das razões que levam um grupo de alunos a selecionar um indivíduo para servir como mero objeto de ridicularização. Sua escolha é fazer com que o bullying seja encarada por Alejandra como uma forma de penitência pela tragédia que resultou na ausência de uma figura materna. Portanto, Alejandra não encara somente com passividade todo o mal que lhe infligem, como também com complacência.

Pior do que defender esta postura para uma personagem que não havia demonstrado em nenhum momento a falta da mãe antes da circulação do vídeo que flagra o ato que a compromete é a própria direção de Michel Franco, simplesmente terrível. A falta de profissionalismo do elenco vem sempre à tona quando cada membro caminha sem nenhuma naturalidade até o ponto em que a câmera está fixada. O incômodo prossegue nos inúmeros instantes em que Roberto é flagrado conduzindo o seu veículo e em planos abertos que não permitem que visualizemos as faces de cada intérprete. Um filme que não vai além do choque passageiro.

Después de Lucía, 2012 | Dirigido por Michel Franco | Roteiro de Michel Franco | Elenco: Tessa Ia, Hernan Mendoza, Gonzalo Vega Sisto, Tamara Yazbek Bernal, Francisco Rueda, Paloma Cervantes, Juan Carlos Berruecos, Diego Canales | Distribuidora: Imovision

Vampiras

Vampiras | Vamps

A americana Amy Heckerling apresenta tropeços em sua breve filmografia, mas isso não impede que ela seja uma cineasta importante quando se analisa as obras que definiram o cinema adolescente oitentista e noventista. Assim como “Clube dos Cinco” e “Curtindo a Vida Adoidado”, ambos de John Hughes, Heckerling conseguiu através de “Picardias Estudantis” (1982) e “As Patricinhas de Beverly Hills” (1995) fazer uma astuta radiografia de jovens totalmente envoltos na sociedade em que estão inseridos, seja vivendo a liberdade dos tempos do “sexo, drogas e rock n’ roll”, seja experimentando as consequências de sobreviver através do consumismo.

Por incrível que pareça, “Vampiras” não é uma obra que espelha a geração atual. Muito pelo contrário, Amy Heckerling parece descrente de uma juventude antenada em comunicação e fenômenos instantâneos. Goody (Alicia Silverstone, ainda radiante) é uma vampira com quase dois séculos de existência e que “vive” o século XXI de modo totalmente deslocado. Manhattan se mostra um refúgio ingrato e, embora ela se contente com “Green Day”, o cenário musical, os points e até as os humanos ao seu redor não a entusiasmam como em décadas atrás.

Ao menos Goody tem a companhia da amiga Stacy (Krysten Ritter) como consolo, uma jovem que ela transformou em vampira em meados dos anos 1990. Ao invés de seguirem os seus instintos mais primitivos, Googy e Stacy não aprovam o consumo de sangue humano para sobreviverem. Para saciarem a fome, elas preferem trabalhar como exterminadoras de pestes e sugar o sangue de ratos através de canudos e participarem dos encontros no V.A., os Vampiros Anônimos.

Não permitir que os seus impulsos ajam é quase moleza, mas armadilhas não faltarão quando elas se apaixonarem por meros mortais. Se Goody não consegue esconder os seus sentimentos por Danny (Richard Lewis), um namorado que abandonou lá nos anos 1960, Stacy mal sabe os riscos que irá se expor ao assumir seu relacionamento com Joey (Dan Stevens), filho do ilustre doutor Van Helsing (Wallace Shawn), um senhor obstinado em eliminar Ciccerus (Sigourney Weaver), a rainha dos vampiros.

Em “Vampiras”, Amy Heckerling busca resgatar muitos elementos que eternizaram aquelas comédias que assistíamos com frequência na “Sessão da Tarde” durante nossa infância. É tudo meio deslocado do nosso tempo, especialmente os efeitos especiais, que parecem saídos de um horror trash. Trata-se de um convite para embarcar em uma comédia divertida e, acima de tudo, melancólica sobre a dificuldade de Goody em viver o presente com o seu espírito aprisionado ao passado. Os mais nostálgicos podem se comover diante da bela conclusão.

Vamps, 2012 | Dirigido por Amy Heckerling | Roteiro de Amy Heckerling | Elenco: Alicia Silverstone, Krysten Ritter, Sigourney Weaver, Wallace Shawn, Richard Lewis, Dan Stevens, Justin Kirk, Marilu Henner, Kristen Johnston, Zak Orth, Larry Wilmore, Meredith Scott Lynn e Malcolm McDowell | Distribuidora: California Filmes