Resenha Crítica | Uma Família em Apuros (2012)

Uma Família em Apuros | Parental Guidance

O cinema jamais deixou de evidenciar a importância que os avós têm na formação da personalidade de seus netos. Afinal, nada melhor do que contar uma história dramática (ou cômica) em que há ausência de sintonia na dinâmica entre três gerações distintas. É exatamente essa a premissa de “Uma Família em Apuros”, filme para o público em geral em que os veteranos Billy Crystal e Bette Midler recebem a oportunidade de ouro em viverem  protagonistas após alguns anos pouco gloriosos no cinema.

Artie (Billy Crystal) é um comentarista esportivo que é derrubado por um mercado que atualmente valoriza os profissionais mais jovens. Ao enfrentar uma aposentadoria forçada, Artie não consegue encontrar nada de relevante para fazer em seu lar ao lado de sua esposa, Diane (Bette Midler). Filha de Artie e Diane, Alice (Marisa Tomei) tem uma rotina tumultuada com o marido Phil (o insosso Tom Everett Scott), com quem é incapaz de reservar um segundo para respirar fundo, pois as responsabilidades diárias se estendem ao criarem os três filhos, Harper (Bailee Madison), Turner (Joshua Rush) e Barker (Kyle Harrison Breitkopf), crianças com temperamentos muito difíceis. O quinteto é um espelho da atual classe média alta, uma vez que ele se vê completamente refém da modernidade.

Quando Alice e Phil chegam à conclusão de que é preciso tirar férias para o relacionamento não esfriar, eles selecionam Artie e Diane para cuidarem por alguns dias de Harper, Turner e Barker. E assim um choque se apresenta nesta reaproximação familiar, pois Alice e Phil querem ter filhos perfeitos e robóticos enquanto Artie e Diane defendem o velho valor de que é preciso um relacionamento mais humano para que os seus netos cresçam aprendendo cedo que a vida não é feita somente de maravilhas.

Responsável pelos divertidos “A Loucura de Mary Juana” e “Ela é o Cara”, Andy Fickman anda incapaz de entregar um bom filme desde o imerecido sucesso de “Treinando um Papai”. Embora consiga espontaneidade das crianças com que trabalha e revele o lado mais descontraído de atores já estabelecidos, Fickman lamentavelmente não faz bom uso da moral bacana por trás de “Uma Família em Apuros”. Até chegar a aguardada reconciliação entre todos os membros desta família, é preciso tolerar uma sucessão de babaquices, como pancadas nas partes íntimas de Billy Crystal e tentativas frustradas de arrancar risos diante de algumas situações constrangedoras envolvendo o caricato trio de rebentos.

Parental Guidance, 2012 | Dirigido por Andy Fickman | Roteiro de  Joe Syracuse e Lisa Addario | Elenco: Billy Crystal, Bette Midler, Marisa Tomei, Tom Everett Scott, Bailee Madison, Joshua Rush, Kyle Harrison Breitkopf, Jennifer Crystal Foley, Rhoda Griffis, Gedde Watanabe, Steve Levy e Tony Hawk | Distribuidora: Fox

Elena

Elena

Realizadora do premiado curta-metragem “Olhos de Ressaca”, Petra Costa toma um salto mais ambicioso com “Elena”, documentário com algumas intervenções de ficção e seu segundo trabalho atrás das câmeras. Porém, a produção não se apresenta somente como um desafio para a jovem, mas também como uma forma de exorcizar os demônios que preencheram o vazio que a atingiu com a perda de uma pessoa querida. Se Elena não é um nome que lhe permite associações com uma mulher renomada é porque esta não conseguiu atingir o cobiçado status.

A história de “Elena” é construída através de trechos de vídeos caseiros e filmagens de alguns trabalhos artísticos de Elena Andrade. Graciosa e desinibida, Elena mostrou desde cedo grande aptidão para a arte dramática. Ainda na adolescência, participou de grupos teatrais em que provou possuir um talento singular para a linguagem corporal, do qual chegou a ser reconhecida em matérias de veículos impressos. Mas Elena não desejava seguir este caminho por muito tempo, pois seu grande sonho era ser uma atriz de cinema. Não encontrou muito campo no Brasil, um país cujo forte é a telenovela, e assim concretizou os planos de estudar interpretação nos Estados Unidos.

Elena passava horas de seu dia agendando testes, participando de entrevistas e criando contatos. Sem sucesso. Tomada por uma decepção que lhe tirava toda sua vitalidade, Elena reencontra sua família no Brasil e o brilho de seu sonho vai se apagando gradativamente. Sua mãe e Petra, sua irmã, nada conseguiram fazer para reanimá-la e a espontaneidade em frente de uma câmera também desapareceu.

Ao fazer um tributo para Elena, Petra Costa, de certa forma, consegue transformá-la na artista que ela sempre desejou se tornar. Também ocupando a função de narradora da história, Petra estabelece a exposição de um relacionamento muito íntimo entre essas irmãs, tornando-o especial para o espectador. A princípio incômodas pelo excesso de desfoque, muitas cenas atingem uma atmosfera de poesia, a exemplo daquelas em que Petra caminha solitária por lugares como alguém atingida pelas desilusões de uma carreira difícil e que atinge o nosso emocional de modo implacável.

Por outro lado, esse retrato extremamente pessoal de Elena compromete a linguagem documental adotada, justamente aquela em que se exige uma visão mais ampla de tudo antes de ser estruturada. Mesmo que extremamente duro, não havia a necessidade de Petra permitir a sua abalada mãe a mostrar o modo como viu Elena pela última vez. São instantes assim que não permitem que “Elena” alce voos mais altos e se restrinja a um acontecimento levado aos cinemas contemplado com mais intensidade somente pelos familiares e amigos de Elena Andrade.

Elena, 2012 | Dirigido por Petra Costa | Roteiro de Carolina Ziskind e Petra Costa | Elenco: Petra Costa, Elena Andrade e Li Na | Distribuidora: Espaço Filmes

Sem Dor, Sem Ganho

Sem Dor, Sem Ganho | Pain & Gain

Em meados de 1995, o trio de fisiculturistas formado por Daniel Lugo, John Carl Mese e Noel Doorbal cometeu golpes contra milionários e assim conquistaram, temporariamente, o sonho americano de ter tudo aos seus pés. Marc Schiller foi a primeira vítima e sobreviveu para conseguir colaborar com a captura do trio. O mesmo não pode ser dito de um casal que mantinha um negócio bem-sucedido de telessexo, sendo assassinados e tendo os seus corpos desmembrados com o uso de serras e machados.

Achou a descrição do crime amedrontadora e não consegue associá-lo ao nome de Michael Bay como realizador de uma versão cinematográfica? Ok, o diretor é famoso por produzir as refilmagens dos slasher “O Massacre da Serra Elétrica” e “Sexta-feira 13” através da empresa Platinum Dunes, mas vê-lo dirigindo algo assim é muito inusitado. Pois “Sem Dor, Sem Ganho” não é uma fita de terror e oferece um viés cômico e cheio de adrenalina para as histórias e ambições de Lugo, Mese e Doorbal.

Na primeira sequência, Daniel Lugo (Mark Wahlberg), interrompe seus exercícios ao ouvir inúmeras sirenes da polícia, o que antecede a informação de que ele fez algo muito grave. Após Lugo ser atingido por um veículo, a história de “Sem Dor, Sem Ganho” retrocede seis meses e mostra os planos desse protagonista em ser alguém além de um mero sócio de uma movimentada academia de Miami. Ao assumir o papel de instrutor de Victor Kershaw (Tony Shalhoub), um judeu milionário que não hesita em revelar todas as suas conquistas, Lugo planeja sequestrá-lo com a intenção de lhe tomar toda a sua fortuna.

Também “realizadores” (Lugo se denomina assim após participar de uma palestra motivacional coordenada pelo personagem interpretado por Ken Jeong), o ex-presidiário cristão Paul Doyle (Dwayne Johnson) e o ingênuo Adrian Doorbal (Anthony Mackie) formam parceria com Lugo para efetivarem o plano. Após uma sucessão de tropeços, eles conseguem deixar Victor na pior. O problema é que o sujeito sobrevive para contar a história e ainda conta com os auxílios de um detetive linha-dura (Ed Harris) para interceptarem o trio.

Embora seja reconhecida a mão de Michael Bay em cada fotograma (as tonalidades fortíssimas são obtidas pelo diretor de fotografia Ben Seresin, com quem ele trabalhou em “Transformers – A Vingança dos Derrotados”, e há o uso de contra-plongée sempre que os personagens se sentem em uma situação de superioridade ou vantagem), “Sem Dor, Sem Ganho” é um filme estranho em sua filmografia. Para dizer a verdade, o longa-metragem chega ao ponto de contradizê-la. Michael Bay sempre foi um diretor de excessos e registrou com malícia os atributos físicos de seus intérpretes, especialmente quando são mulheres absurdamente belas e com talento zero. Desta vez, tais cacoetes são reproduzidos como meios para reproduzir um comentário sarcástico sobre indivíduos que camuflam suas estupidez e frustração através de corpos bem definidos, resultado da obsessão por academias e uso de anabolizantes. É muito vindo de um cineasta considerado um dos piores em atividade.

Pain & Gain, 2013 | Dirigido por Michael Bay | Roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado em artigos de Pete Collins | Elenco: Mark Wahlberg, Dwayne Johnson, Anthony Mackie, Tony Shalhoub, Ed Harris, Rob Corddry, Bar Paly, Rebel Wilson, Ken Jeong, Michael Rispoli, Keili Lefkovitz, Emily Rutherfurd, Larry Hankin, Tony Plana e Peter Stormare | Distribuidora: Paramount

Trilha-Sonora: Passion

OST Passion French VersionBrian De Palma continua sem saber se um dia Alfred Hitchcock viu e gostou dos seus primeiros thrillers claramente inspirados em obras como “Psicose”, “Janela Indiscreta” e “Um Corpo que Cai”. De qualquer modo, conseguiu validar os toques hitchcockianos em “As Irmãs Diabólicas” e “Trágica Obsessão” graças a colaboração do maestro Bernard Herrmann, com quem Hitchcock trabalhou em algumas oportunidades. Encontrando o parceiro perfeito para traduzir a força de suas imagens através da música, Brian de Palma se viu diante de um impasse quando Bernard Herrmann morreu enquanto ele planejava a adaptação de “Carrie – A Estranha”. Foi aí que se deu a primeira de várias parcerias entre De Palma com Pino Donaggio, compositor italiano que até então era um novato.

Vinte anos após “Síndrome de Caim”, a dupla volta a trabalhar junto em “Passion”, longa-metragem apontado pela imprensa como o retorno de Brian De Palma aos thrillers hitchcockianos. O aguardado reencontro não poderia ter sido melhor, pois a música feita por Donaggio para “Passion” é um deleite para os fãs.

OST Passion International VersionDesta vez, Pino Donnagio faz uma curiosa mistura de intenções. Em “Twin Souls”, o maestro rende um tom falsamente descontraído, como se a história nada mais fosse do que uma comédia sobre duas profissionais bem-sucedidas elaborando as melhores estratégias para uma campanha publicitária. “Back Issues” e “Higher Heels” fortalecem essa sensação. No entanto, assim que o relacionamento entre as protagonistas feitas por Noomi Rapace e Rachel McAdams vai se tornando espinhosa, Donaggio entrega melancólicos acordes que refletem o inferno astral que Noomi viverá – “Passion Theme” é a perfeita exemplificação disso. Por fim, vem os aguardados acordes sinistros. Pino Donnagio sempre atinge o ápice como compositor ao intensificar o uso de violinos em suas músicas e em “Passion” ele faz uma releitura de seu próprio trabalho através de “Journey Though a Nightmare”. A faixa se assemelha demais com “The Nightmare”, a música que acompanha o desespero de Nancy Allen em um banheiro diante da conclusão de “Vestida Para Matar”. “Journey Though a Nightmare” é uma extensão desta música e é de gelar a espinha, não importa quantas vezes você inevitavelmente apertar a tecla replay.

Além de duas homenagens a Ravel através de “The Breakdown” e “Last Surprise”, a trilha-sonora de “Passion” também tem como surpresa “Prélude à L’après-Midi d’un Faune”, balé de Claude Debussy. Brian De Palma sempre sonhou em encená-lo em alguma de suas histórias de suspense e encontrou a oportunidade perfeita nesta refilmagem de “Crime de Amor“, pois a Isabelle do original vai ao cinema antes de um assassinato gerar uma reviravolta na história. Em “Passion”, De Palma modifica essa passagem do roteiro dividindo a tela em dois, obrigando-o a registrar tanto Isabelle no balé quanto Christine aguardando pelo seu amante. O resultado é uma junção de imagem e música fascinante e que com uma pequena intromissão de Pino Donnagio, que no CD é transferida para a faixa “Know that Know”, reflete a sintonia do trabalho entre cineasta e maestro.

Lançada pela Quartet Records, a trilha-sonora de “Passion” tem duas versões: a francesa e a internacional, cujas artes estão publicadas ao longo do texto. Cada uma delas custa €16.95.

Faixas:

01. Twin Souls (3:09)
02. The Breakdown (Hommage to Ravel) (3:14)
03. Passion Theme (4:09)
04. Back Issues (1:19)
05. Know that Know (4:27)
06. A Dreamer’s Deam (3:15)
07. Prélude à L’après-Midi d’un Faune (Debussy) (10:25)
08. Perversions and Diversions (3:45)
09. The Last Drop (2:16)
10. Higher Heels (1:05)
11. Journey Though a Nightmare (7:44)
12. Last Surprise (Hommage to Ravel) (3:16)

Resenha Crítica | A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010)

A Caverna dos Sonhos Esquecidos | Cave of Forgotten Dreams

Um dos cineastas veteranos mais ativos do cinema, o alemão Werner Herzog divide-se entre longas de ficção e documentários – isso quando não faz bicos como ator, a exemplo do recente “Jack Reacher – O Último Tiro“. Após as filmagens de “My Son, My Son, What Have Ye Done” (que permanece inédito no Brasil), Herzog embarcou profundamente na realização de “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, recentemente exibido em São Paulo após um atraso de aproximadamente dois anos.

Situada no sul da França, a Caverna Chauvet teve o seu interior explorado pela primeira vez em 1994 por cientistas e pesquisadores. A caverna traz consigo inúmeros segredos em formas de desenhos rupestres realizados há mais de 32 mil anos, o que nos faz refletir (sem a densidade aguardada) sobre quem eram os homens que ali habitavam e o que comunicavam com tantos traços fascinantes.

Maravilhado com a possibilidade de documentar as rígidas expedições, Werner Herzog conseguiu autorização para adentrar a caverna e registrar tudo o que viu. No entanto, o fez diante de algumas limitações, como a agenda de visitação, e equipe técnica reduzida e os equipamentos para filmagens. Tudo para preservar o máximo possível a Caverna Chauvet, que corre o risco de ter os desenhos rupestres desintegrados através da iluminação artificial, a temperatura e até mesmo pelo ar da respiração.

Assumindo a responsabilidade de guia para o espectador através de sua presença física e sua narração em off, Werner Herzog faz o possível para tornar a experiência de se ver “A Caverna dos Sonhos Esquecidos” o mais cinematográfica possível. Ele utiliza câmeras especiais para projeção em três dimensões e reserva para a conclusão uma denúncia os males que atingem a natureza através de indústrias ecologicamente incorretas. Esforços que não amenizam a sensação de estarmos diante de uma produção convencional do National Geographic.

Cave of Forgotten Dreams, 2010 | Dirigido por Werner Herzog | Roteiro de Werner Herzog | Elenco: Werner Herzog, Jean Clottes, Julien Monney, Jean-Michel Geneste, Michel Philippe, Gilles Tosello, Carole Fritz, Dominique Baffier, Valerie Feruglio, Nicholas Conard, Maria Malina, Wulf Hein e Maurice Maurin | Distribuidora: Zeta Filmes

Resenha Crítica | Quando as Coisas Acontecem (2011)

Onde as Coisas Acontecem | Union Square.

Diretora de dois dos três segmentos do formidável telefilme “O Preço de uma Escolha”, Nancy Savoca não estabeleceu uma carreira expressiva no cinema, mas prova com o seu recente “Quando as Coisas Acontecem” que é capaz de tirar ótimas interpretações de seu elenco através de uma história muito íntima. Título original (Union Square é um bairro de Manhattan, Nova York) somente vende um filme que, ao contrário do que se espera, é situado em um apartamento na maior parte do tempo.

É para o cenário não tão amplo habitado pelo casal Jenny (Tammy Blanchard) e Bill (Mike Doyle) que vai Lucy (Mira Sorvino), uma mulher madura que é extravagante com as peças que veste e possivelmente desequilibrada pelo que sugere as ligações feitas para o seu amante ao início de “Quando as Coisas Acontecem”. Lucy é irmã de Jenny e faz três anos que estão sem se ver. A visita inesperada de Lucy deixa Jenny atordoada, pois ela é uma mulher muito diferente de antes. Esconde de Bill, um sujeito saudável e irritantemente controlador, seu histórico familiar desapontador e as origens modestas no Bronx.

Mais do que realizar fantasias com o amante que vive em Manhattan, Lucy se hospeda no apartamento da irmã para acertar alguns ponteiros com ela. Traz consigo uma notícia devastadora e suas lágrimas repentinas sugerem alguém capaz de tirar a própria vida a qualquer instante. Não demora para percebemos que entre duas irmãs tão distintas há muitas características em comum e imutáveis, embora Jenny realmente se esforce para manter a máscara de alguém equilibrada e segura de si mesma.

O tema central de “Quando as Coisas Acontecem” é os laços familiares, algo já abordado à exaustão no cinema independente americano. Porém, há nesta realização de Nancy Savoca uma perspectiva diferenciada através das inúmeras tentativas de Lucy e Jenny em reestruturarem uma família em frangalhos. Uma surpresa apresentada no terceiro ato da história confirma essa intenção.

Atrizes excelentes que geralmente não recebem papéis à altura de seus talentos, Mira Sorvino e Tammy Blanchard brilham ao compreenderem tão bem suas personagens e não deixam o desinteresse surgir inclusive em ocasiões em que a diretora de fotografia Lisa Leone encontra dificuldades em registrar cenas externas com suas duas Canon 5D. O sotaque do Bronx empregado por Sorvino e os flertes de Blanchard com filtros de cigarros dizem muito sobre o passado jamais explícito de Lucy e Jenny.

Union Square, 2011 | Dirigido por Nancy Savoca | Roteiro de Mary Tobler e Nancy Savoca | Elenco: Mira Sorvino, Tammy Blanchard, Mike Doyle, Michael Rispoli, Patti LuPone, Christopher Backus, Daphne Rubin-Vega, Michael Sirow, Harper Dill e Holden Backus | Distribuidora: Vinny Filmes

 

Os Smurfs 2

Os Smurfs 2Lançado no ano retrasado, “Os Smurfs” fez um estrondoso sucesso mundial, o que garantiu sinal verde para uma continuação que já está em exibição em inúmeras salas espalhadas pelo mundo. As criaturas azuis criadas pelo belga Peyo são irresistíveis e o erro do filme original foi torná-las quase coadjuvantes em uma história por um protagonista de carne e osso (Neil Patrick Harris) às voltas com as pressões profissionais e particulares. Os humanos permanecem essenciais em “Os Smurfs 2”, mas agora quem realmente domina a cena são os personagens digitais.

Realizador dos dois “Scooby-Doo” e “Perdido pra Cachorro“, Raja Gosnell desta vez acerta em cheio em uma produção que é a sua cara. O diretor faz o público embarcar em um empolgante tour em três dimensões por maravilhosos cartões-postais franceses, transformando a aventura em uma espécie de livro interativo (algo sugerido já na primeira sequência do filme, em que as origens sombrias de  Smurfette são reveladas pelo Papai Smurf).

Capaz de agradar crianças e adultos, “Os Smurfs 2” recebeu uma crítica assinada por mim no Cenas de Cinema. Para lê-la, basta clicar aqui.

Os Cinco Filmes Prediletos de Erika Liporaci

Erika Liporaci (Artes & Subversão)Foi durante minha breve participação na equipe do Cinefilia (rendeu uma colaboração discreta em duas edições de uma revista virtual) que li pela primeira vez um texto assinado pela Erika. Foi uma crítica do filme “Ed Wood”. Continua sendo a melhor opinião já expressa sobre esta obra de Tim Burton e da qual já reli nas ocasiões em que me flagrei folheando a edição impressa que ainda preservo da Revista Cinefilia.

Desde então, venho acompanhando o trabalho da Erika no  Artes & Subversão, nome que faz referência ao tagline do filme “Clube da Luta”: Mischief. Mayhem. Soap. Desde janeiro de 2008 no ar, o site acompanha as novidades no circuito nacional de cinema e contém ainda relatos da Erika durante todas as suas viagens à Itália. Gosto especialmente da cobertura que ela fez de algumas edições do Festival do Rio, evento que sempre apresenta alguns dos títulos que mais tenho expectativas.

Ainda não tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente, mas nossas interações online colaboraram pelo crescimento do meu respeito pela Erika, que se mostra tão astuta, simpática e apaixonada por cinema quanto sugere todas as suas críticas. Nossas divergências se apresentam de modo sadio e comemoramos ao percebermos que às vezes as nossas opiniões são compatíveis. Ao refletir sobre tudo isso, me deparei com as motivações necessárias para convidá-la para comentar sobre os seus cinco filmes prediletos no Cine Resenhas, mas deixo na íntegra o depoimento da Erika ao encarar a difícil missão de selecionar poucos filmes entre tantas obras queridas.

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O Cine Resenhas me deu a tarefa de listar meus cinco filmes prediletos. Não deste ano, mas da minha vida. Logo eu, que ao fim de cada ano tenho grande dificuldade em eleger um top 10! Descobri que não consigo e que, para não cometer nenhuma grande injustiça, essa lista teria que ter pelo menos uns trinta filmes. A quantidade de obras inesquecíveis e indispensáveis na minha vida só aumenta conforme a idade avança. Resolvi, então, voltar às origens. Essa não é uma lista dos meus filmes prediletos, mas sim um apanhado de cinco clássicos que influenciaram muito a minha formação e foram decisivos para moldar minhas preferências futuras. Ainda assim, cometo injustiças: são todos filmes americanos e a maioria dos meus cineastas favoritos não são citados. É duro para quem ama a sétima arte fazer escolhas desse tipo, mas o critério escolhido foi esse. Sem mais delongas, vamos aos cinco. Erika Liporaci.

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CasablancaCasablanca, de Michael Curtiz (idem, 1942)
O clássico dos clássicos, meu primeiro “filme preferido” (e talvez seja até hoje). Um roteiro perfeito, que equilibra delicadamente uma bonita história de amor com um interessante contexto político, temperado com diálogos deliciosamente irônicos. Além disso, o charme cafajeste do Rick Blaine de Humphrey Bogart e a personalidade decidida da Ilsa Lund de Ingrid Bergman tornam tudo mais intenso e verdadeiro. Ah, sim, e o terceiro vértice desse triângulo é um herói que faz um bar cantar a Marselhesa com ele diante dos nazistas. O filme já tem a respeitável idade de 70 anos e continua apaixonando cinéfilos de todas as gerações à medida que o tempo passa, como diz a inesquecível canção. A cada vez que revejo Casablanca, me emociono como se fosse a primeira vez e, assim, o filme só cresce no meu conceito. Vale lembrar que o emblemático desfecho quase foi refeito porque os executivos da Warner acharam um absurdo os protagonistas não terminarem juntos, mas felizmente Ingrid Bergman já estava rodando outro filme e ficou por isso mesmo.

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Pacto de Sangue - Double IndemnityPacto de Sangue, de Billy Wilder (Double Indemnity, 1944)
Eu poderia fazer uma lista somente com filmes de Billy Wilder, mas acabei escolhendo este. Baseado no conto de James M. Cain, Double Indemnity foi adaptado para as telas pelo próprio cineasta em parceria com Raymond Chandler e criou as bases do que posteriormente viria a ser batizado de film noir. Dentre as incontáveis qualidades destacam-se a dramática trilha sonora de Miklós Rózsa e a fotografia excepcional de John Seitz, que criou toda uma gama de texturas e nuances para a penumbra opressiva na qual vivia mergulhada a casa da femme fatale Phyllis Dietrichson. O personagem de Fred MacMurray foi recusado por muitos atores, que tinham medo de se queimar com um personagem amoral, e Barbara Stanwick foi praticamente obrigada a fazê-lo porque estava sob contrato. Mas nada como a passagem do tempo para provar o valor de uma obra-prima. O sempre genial Billy Wilder ainda driblou com maestria o Código Hayes (que proibia que “certas coisas” fossem exibidas no cinema) e realizou um filme totalmente calcado em assassinato e adultério sem mostrar nenhum dos dois na tela.

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Cantando na Chuva - Singing in the RainCantando na Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly (Singin’ in the Rain, 1952)
Mais do que um filme, Cantando na Chuva é uma aula sobre a história do cinema. É uma pena que muitos se detenham somente na cena de Gene Kelly sapateando sob a chuva. Embora seja uma bela sequência, é um trecho que não dá a dimensão exata desse interessante enredo, que conta a transição do cinema mudo para o falado através de uma famosa dupla de atores que começa a entrar em desacordo com a chegada da sonorização por conta voz desagradável da mocinha. Antes de tudo uma declaração de amor à sétima arte, o filme é repleto de cenas emocionantes. A minha preferida é aquela na qual Gene Kelly usa a magia do cinema para cortejar Debbie Reynolds: a partir de um estúdio vazio ele, passo a passo, começa a usar todos os recursos cinematográficos disponíveis para criar o cenário ideal ao romance dos dois.

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A Princesa e o Plebeu - Roman HolidayA Princesa e o Plebeu, de William Wyler (Roman Holiday, 1953)
Se for para curtir contos de fada, que seja com Audrey Hepburn como princesa. Neste seu primeiro filme como protagonista, ela encarna uma princesa rebelde que quer viver um dia de plebeia durante uma visita oficial a Roma. Haveria escolha mais perfeita para esse papel do que Audrey? Em meio às ruínas da cidade eterna, a realeza bate de frente com o repórter malandro personificado por Gregory Peck e o resto da história todo mundo já sabe: ele queria um furo de reportagem e acaba apaixonado. Um dos filmes mais charmosos e icônicos de todos os tempos, com locações que são uma atração à parte: o passeio de Vespa pelas imediações do Coliseu, a brincadeira diante da Bocca della Verità (que virou uma atração turística disputadíssima por causa desse filme), o sorvete tomado nos degraus da escadaria da Piazza di Spagna, enfim, todo o filme é um feliz somatório de história fofa, cenário encantador e dois atores no auge de seu charme e carisma. Apaixonante.

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Festim Diabólico - RopeFestim Diabólico, de Alfred Hitchcock (Rope, 1948)
Um filme aparentemente sem cortes. Ok, não exatamente sem cortes, mas realizado em longos planos-sequência de dez minutos e ambientado em um espaço cheio de limitações. Só esse prodígio de direção já garantiria a Festim Diabólico um lugar na lista, mas ele surge aqui também como representante do cinema de Alfred Hitchcock, que foi “o cara” dos meus tempos de adolescência. Talvez o primeiro cineasta que tenha tirado meu olhar do cinema contemporâneo e trazido para os clássicos, com seus mistérios e seu modo revolucionário de fazer cinema. Um esteta genial, um excêntrico, mas, sobretudo, um realizador único. Momento inesquecível? Aquela cena na qual vemos a corda do título original através da porta de vai e vem.

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Resenha Crítica | Só Deus Perdoa (2012)

Only God Forgives

Cineasta dinamarquês, Nicolas Winding Refn tornou-se mundialmente conhecido com o sucesso de “Drive”, seu primeiro filme rodado nos Estados Unidos. Sua condução não lhe rendeu somente o cobiçado prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes como também materializou na tela elementos pop ainda celebrados pelo mesmo público que assistiu “Drive” há dois anos. Representando nova parceria de Nicolas Winding Refn com o seu protagonista de “Drive”, Ryan Gosling, “Apenas Deus Perdoa” prometia repetir o mesmo êxito.

Autor do roteiro original, Nicolas Winding Refn faz com “Apenas Deus Perdoa” uma obra mais pessoal. Por mais difícil que seja associar a ação da história ao seu criador, Winding Refn encontrou a inspiração para moldá-la através das crises existências que vivenciou com o nascimento de sua filha mais nova. Fez assim um filme econômico no uso das palavras, com referências míticas e que reproduz, ao seu modo, o perfil de heróis (ou anti-heróis) de faroestes.

Por mais difícil que seja processar, temos definitivamente um filme em que acompanhamos uma grande parte dos acontecimentos pela perspectiva de um vilão, embora isto seja uma definição não muito apropriada para Julian (Ryan Gosling). Antes de assumir a função de protagonista, acompanhamos brevemente o seu irmão Billy (Tom Burke). Assassino cruel e pedófilo, Billy é eliminado pelo pai de uma prostituta menor de idade que assassinou brutalmente. A partir deste instante, Julian, um traficante de drogas que age em Bangcoc, é surpreendido com a presença de sua mãe Crystal (Kristin Scott Thomas), que o pressiona a se vingar dos responsáveis pela morte de Billy.

A partir de então, desenha-se a clássica história familiar de honra e vingança. Fica claro um relacionamento dúbio entre Julian e Crystal, uma mãe que não nega seu favoritismo pelo primogênito morto. Há também Chang (Vithaya Pansringarm), uma engrenagem essencial da história. Sempre portando uma espada e uma postura de samurais, Chang foi o intermediário que garantiu a execução de Billy. Embora extremamente severo, Chang é a representação de um xerife sempre acima da lei. Não à toa, todos os policiais de Bangcoc lhe servem como meros subordinados.

Inspirado pelo trabalho do cineasta nascido na Argentina Gaspar Noé (algo evidenciado pelo uso forte do vermelho, cor que se confunde naturalmente com a brutalidade encenada) Nicolas Winding Refn faz um filme visualmente perturbador, mas emocionalmente oco. Com exceção da interpretação e caracterização incríveis da sempre bárbara Kristin Scott Thomas, “Apenas Deus Perdoa” parece preenchido de objetos inanimados, a exemplo de Ryan Gosling, que faz aqui uma versão ainda mais vazia de seu personagem em “Drive”. Tantas intenções se perdem diante de personagens incapazes de sequer sugerirem o que internamente os atormentam. Não que a indiferença também não nos contamine: todas as jovens absurdamente neutras diante do massacre de um noivo reproduzem perfeitamente nossa reação do início ao fim de “Apenas Deus Perdoa”.

Only God Forgives, 2012 | Dirigido por Nicolas Winding Refn | Roteiro de Nicolas Winding Refn | Elenco: Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm, Gordon Brown, Yayaying Rhatha Phongam, Tom Burke, Sahajak Boonthanakit, Pitchawat Petchayahon, Charlie Ruedpokanon, Kovit Wattanakul, Wannisa Peungpa e Narucha Chaimareung | Distribuidora: Radius-TWC