Resenha Crítica | Sem Proteção (2012)

A mais de cinquenta anos atuando no cinema, Robert Redford ainda se mostra um dos artistas mais políticos na ativa. Para comprovar isso, basta relembrar os três títulos mais recentes de sua filmografia como cineasta: “Leões e Cordeiros” (2007), “Conspiração Americana” (2010) e agora “Sem Proteção” (2012), longa-metragem que registra as consequências de um ato fictício cometido por membros da Weather Underground.

Weather Underground foi um grupo terrorista de esquerda que surgiu ao final da década de 1960 e que atacava vários símbolos do capitalismo e do governo, como bancos e edifícios governamentais. Seus atos também serviam para se opor à Guerra do Vietnã. Um dos principais membros do Weather Underground, Nick Sloan (Robert Redford) se tornou o responsável pelo assassinato de um vigia em um banco invadidos pelo grupo.

Trinta anos se passaram e Nick agora se apresenta como Jim Grant. Pai viúvo e advogado, Jim faz de tudo para se desvincular de seu passado como ativista extremista. No entanto, uma velha colega, Sharon Solarz (Susan Sarandon, excelente em uma breve participação), é capturada pelo FBI e decide revelar o seu envolvimento com o Weather Underground, trazendo à tona o crime sem solução. Vivendo somente para manter o bem-estar de sua filha Isabel (Jackie Evancho) e com a identidade verdadeira descoberta pela equipe liderada pelo agente Cornelius (Terrence Howard), Jim inicia uma verdadeira viagem para rever seus velhos colegas da Weather Underground até chegar ao verdadeiro responsável pelo assassinato do qual é acusado.

Baseado em um romance de Neil Gordon, “Sem Proteção” acerta ao fazer perspectivas distintas sobre as lutas que realizamos por acreditar em nossas motivações. Primeiro temos um panorama de todos os membros da Weather Underground. Agora velhos, cada um deles parece atormentado pelas consequências de seus atos e também pela causa que defenderam. Há também um destaque dado pela falta de inquietação dos jovens que representam a mais nova geração da sociedade americana representada por Ben Shepard (Shia LaBeouf, em interpretação que não compromete), jornalista que talvez não compreenda perfeitamente a dimensão do caso que passará a investigar.

Por outro lado, tais perspectivas parecem mais presentes no planejamento teórico da narrativa, pois na prática “Sem Proteção” é mais um thriller conduzido sem muita firmeza por Robert Redford. A história do Weather Underground só foi levada aos cinemas por documentários (a exemplo de “Tempo de Protesto”, indicado ao Oscar em 2003) e o realizador e protagonista perde a oportunidade de oferecer uma impressão maior aos nossos olhos, ainda mais se avaliarmos os recentes protestos que tomaram o Brasil e que coincidiram com o lançamento da produção dos cinemas brasileiros.

The Company You Keep, 2012 | Dirigido por Robert Redford | Roteiro de Lem Dobbs, baseado no romance homônimo de Neil Gordon | Elenco: Robert Redford, Shia LaBeouf, Julie Christie, Susan Sarandon, Nick Nolte, Chris Cooper, Terrence Howard, Stanley Tucci, Richard Jenkins, Anna Kendrick, Brendan Gleeson, Brit Marling, Sam Elliott, Stephen Root, Jackie Evancho, Matthew Kimbrough e Gabrielle Rose | Distribuidora: Imagem Filmes

Resenha Crítica | Frances Ha (2012)

Frances Ha

Há muitas pessoas que possuem a ambição de ter uma carreira artística. No entanto, colocar os planos em prática podem resultar em muitas desilusões, algo que virou um dos temas centrais do recente documentário brasileiro “Elena“. Em “Frances Ha”, novo filme do cineasta Noah Baumbach, há uma proposta descontraída, embora a escolha em narrar a história através de uma fotografia em preto e branco denuncie certa melancolia que paira sobre a protagonista.

Encantadora ao ponto de fazer Baumbach terminar o seu casamento com Jennifer Jason Leigh somente para namorá-la, Greta Gerwig consolida-se na pele de Frances Haliday como a nova musa do cinema independente americano. Frances é uma moça com 27 anos estagnada na vida e que vê seus pilares emocionais desabarem quando sua melhor amiga e companheira de apartamento Sophie (Mickey Sumner) diz que chegou o momento em que elas devem se separar. Se Sophie tem para onde ir, Frances irá encarar o efeito pipoca: sem estabelecer raízes, ela pulará de apartamento em apartamento.

Embora tenha potencial para arrumar um emprego burocrático e com boa remuneração para quitar as dívidas, Frances não quer abandonar o seu sonho de se tornar uma dançarina. Esforça-se ao frequentar uma companhia e a todo o momento é passada para trás quando surge a oportunidade de ser selecionada para alguma temporada de apresentações. Daí a comparação inevitável entre Frances e Sophie, pois a primeira vive com a conta bancária no negativo enquanto a segunda, agora distante, usufrui os benefícios de ter encontrado uma alma gêmea bem-sucedida para satisfazer os seus caprichos.

Se Noah Baumbach não consegue com “Frances Ha” atingir um nível de excelência, ao menos prossegue autêntico com o retrato que tece sobre gente como a gente. Títulos anteriores como “A Lula e a Baleia” e “Margot e o Casamento” estabeleceram vínculo com o público com suas histórias construídas através de problemas aparentemente mundanos e em “Frances Ha” essa virtude também é notada. Além do mais, os personagens imperfeitos dessas obras jamais são julgadas com uma lupa pelo diretor e roteirista, o que torna tudo ainda melhor.

Inebriada pela música ao ponto de dançar pelas ruas de Nova York e às vezes imatura por se deixar levar por impulsos (a exemplo da viagem à Paris planejada em cima da hora), Frances é alguém já não tão jovem com características que podem ser identificadas em nós mesmos. E assim aprenderemos com ela que a vida sempre estará pronta para quebrar as expectativas que depositamos em nossos sonhos e naqueles que nos cercam. O benefício de aceitar essa situação? Certamente a volta por cima, um processo que nos faz ter uma perspectiva mais madura diante das coisas sem que a inocência de nossa essência seja arranhada.

Frances Ha, 2012 | Dirigido por Noah Baumbach | Roteiro de Greta Gerwig e Noah Baumbach | Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Adam Driver, Michael Zegen, Charlotte d’Amboise, Grace Gummer, Daiva Deupree, Isabelle McNally, Justine Lupe, Lindsay Burdge, Patrick Heusinger, Marina Squerciati, Christine Gerwig, Gordon Gerwig, Maya Kazan e Josh Hamilton | Distribuidora: Vitrine Filmes

A Família

A Família | The Family

 “Quando penso que estou fora, eles me puxam de volta”. Se “O Poderoso Chefão III” é uma conclusão insatisfatória para a saga dirigida por Francis Ford Coppola, ao menos tem nesta sentença célebre de Don Michael Corleone (Al Pacino) algo que redefine o mundo daqueles que vivem no (sub)mundo da máfia. O dilema também é válido para os protagonistas de “A Família”, novo longa-metragem do cineasta francês Luc Besson.

Nos primeiros instantes da história, temos a impressão de que a família Blake está se mudando temporariamente para uma discreta cidade da França. No entanto, quando o patriarca Fred (Robert De Niro) tira uma conservada máquina de escrever do quintal de sua nova residência para digitar em papel branco suas memórias, sabemos que aquela é uma família que está vivendo de aparências. Pior: ela está no programa de proteção a testemunha e é monitorada de perto pelo agente da CIA Stansfield (Tommy Lee Jones).

Fred, que na realidade se chama Giovanni Manzoni, foi um figurão da máfia do Brooklyn que delatou os seus “bons companheiros” em troca de imunidade. Pois os seus agora inimigos não deixarão a traição passar em branco e procuram Fred/Giovanni para eliminá-lo junto com toda a sua família. Porém, como veremos a seguir, cada um dos Blake tem seus próprios esqueletos ocultos no armário.

Esforçando-se para desempenhar bem o papel de dona de casa, mãe e esposa,  Maggie (Michelle Pfeiffer) é daquelas mulheres com pavio curtíssimo. Os filhos de Fred e Maggie também não são diferentes, uma vez que Belle (a fraca Dianna Agron, do seriado musical “Glee”) se defende de modo agressivo em situações em que se sente desprotegida e Warren (John D’Leo) se revela assustadoramente calculista quando decide se rebelar contra os novos colegas de classe que não o recepcionaram muito bem.

Inspirado em “Malavita”, nome dado tanto ao romance de Tonino Benacquista quanto ao cachorro de estimação dos Blake, o roteiro escrito por Besson e Michael Caleo tem a pretensão de lidar com tons muito destoantes. Como o esperado, o resultado disso nem sempre é favorável. Há flertes com a comédia de humor negro, o drama familiar e o tradicional thriller de máfia, um misto que não garante um ritmo adequado à fita.

Decepciona um cineasta dinâmico e experiente como Luc Besson cair em armadilhas tão fáceis. Se não bastasse a coincidência usada para aproximar os Blake de um destino explosivo (algo que seu colaborador Julien Rey tenta contornar com uma montagem esperta) e o romance da jovem Belle com um professor de matemática que não leva a lugar nenhum, Besson ainda permite que a sua França natal seja subordinada a uma família americana. Não importa os ambientes que os Blake transitam, todos dialogarão convenientemente em inglês. Isso mata a autenticidade pretendida por “A Família” e frustra os fãs de um cineasta que teve a ousadia de criar do zero uma linguagem para a memorável Leeloo, personagem de Milla Jovovich em “O Quinto Elemento”.

The Family, 2013 | Dirigido por Luc Besson | Roteiro de Luc Besson e Michael Caleo, baseado no romance “Malavita”, de Tonino Benacquista | Elenco: Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Dianna Agron, John D’Leo, Tommy Lee Jones, Jimmy Palumbo, Domenick Lombardozzi, Stan Carp, Vincent Pastore, Jon Freda, Michael J. Panichelli Jr., Paul Borghese, Anthony Desio, Ted Arcidi e David Belle | Distribuidora: Paris Filmes

Elysium

Elysium

É impossível não fazer associações entre o primeiro longa-metragem de Neill Blomkamp, “Distrito 9”, com sua mais nova realização, “Elysium”. Para quem não se recorda, “Distrito 9” só ganhou vida porque Peter Jackson, ainda inebriado com o sucesso da trilogia “O Senhor dos Anéis”, decidiu viabilizá-lo ao se impressionar com “Alive in Joburg”. Rodado em 2006, o curta-metragem apresenta o cenário e alguns personagens futuramente desenvolvidos em “Distrito 9”. Os resultados obtidos foram o estrondoso sucesso de público e crítica, quatro indicações ao Oscar e um passe de primeira classe para Neill Blomkamp ir a Hollywood e fazer o que bem entendesse.

Quatro anos depois, temos como consequência “Elysium”. Assim como em “Distrito 9”, há aqui muito discurso social em um ambiente futurístico em que uma divisão de grupos está bem determinada. Estamos em 2154, ano em que 99% da população é pobre e habita um planeta Terra horroroso: não há uma cidade que não se pareça com uma favela e há indivíduos que trabalham ou como meros operários ou na criminalidade. Muito diferente é a realidade dos ricos que representam o 1% restante, pois eles vivem em Elysium, uma estação espacial que se assemelha aquilo que muitos idealizam como o paraíso.

Max (Matt Damon) é quem toma frente da história, um ex-presidiário que sobrevive trabalhando em uma fábrica de robôs que, quando ativados, oprimem todos aqueles que infligem as leis estabelecidas. Ao ser exposto à radiação, Max se vê com apenas cinco dias de vida. Sem ter o que fazer, ele recorrerá a única pessoa que poderá lhe oferecer uma chance para sobreviver. Trata-se de Spider (Wagner Moura), um hacker responsável por um transporte que pode levá-lo ilegalmente à Elysium, justamente o único local em que há uma máquina capaz de eliminar qualquer enfermidade em questão de segundos, e também por uma espécie de uniforme que potencializará sua força física.

Se fosse só isso, talvez “Elysium” apresentasse alguma eficácia. Mas não, Neill Blomkamp sentiu a necessidade de inserir mais personagens para assegurar a ação frenética e o texto dramaticamente pífio. Do lado do nosso herói Max, há outros mocinhos constantemente sujos, suados e mal vestidos com um bom plano odontológico (ao julgar pelos sorrisos Colgate) que podem ajudá-lo (como seu melhor amigo Julio, interpretado por Diego luna) ou simplesmente atrapalhá-lo (como Frey, interpretada por Alice Braga, enfermeira e amor de infância que cuida de uma garotinha com leucemia). Do outro, temos uma andrógena Jodie Foster na pele de Delacourt, uma secretária sem coração que impede a entrada de clandestinos em Elysium graças ao ameaçador Kruger (Sharlto Copley), sujeito que tem um impressionante histórico como criminoso.

“Elysium” já soma problemas em seus primeiros minutos. Também responsável pelo roteiro original, Neill Blomkamp é incapaz de descrever com minúcia seus cenários futurísticos. Tudo acontece na velocidade de um estalar de dedos, seja a introdução dos personagens principais, seja as distinções entre a Terra e Elysium – impor um clima seco ao primeiro e plasticidade ao segundo não são recursos visuais suficientes para nos convencer. Se o primeiro ato não é bem desenvolvido, os outros são ainda piores. Neill Blomkamp parece desorientado até mesmo no modo como registra os acontecimentos. Uma hora usa câmera na mão ou emula videogame com um mod de primeira pessoa  que se assemelha a um “Grand Theft Auto” e em outra recorre à câmera lenta ou a imagens serenas de flashbacks.

Em meio a tudo isso, teríamos ao menos o elenco miscigenado como uma decisão criativa, mas nem isso funciona, apesar de Wagner Moura conseguir brilhar através de sua pitoresca caracterização. Mesmo sendo uma escolha comercial, é difícil engolir Max, um personagem mexicano, interagindo a todo o instante em inglês perfeito com Frey, mais velha que ele e também mexicana. No fim, são detalhes que, quando reunidos, só condenam “Elysium” como uma colcha de retalhos de péssimas ideias que Neill Blomkamp talvez tenha descartado ao fazer seu “Distrito 9”. Ideias essas possivelmente apanhadas de sua própria lixeira.

Elysium, 2013 | Dirigido por Neill Blomkamp| Roteiro de Neill Blomkamp | Elenco: Matt Damon, Jodie Foster,Sharlto Copley, Alice Braga, Diego Luna, Wagner Moura, William Fichtner, Brandon Auret, Josh Blacker, Emma Tremblay, Jose Pablo Cantillo, Maxwell Perry Cotton, Faran Tahir, Adrian Holmes e Jared Keeso | Distribuidora: Sony

Lovelace

LovelaceO cinema deixou de ser o mesmo quando “Garganta Profunda” chegou ao público. Considerado o primeiro filme com pornografia explícita a ser exibido em circuito comercial, “Garganta Profunda” foi rodado por Gerard Damiano com míseros 25 mil dólares e teve milhares de ingressos vendidos. A partir daí, novas produções pornográficas também garantiriam exibições na tela grande e Hollywood, que naquela época abandonara o sistema de estúdio para sair às ruas, se viu mais solta ao falar sobre sexo. Porém, uma curiosidade talvez exista: quem é exatamente Linda Lovelace, a jovem que protagonizou um dos filmes mais polêmicos já feito? Pois “Lovelace”, cinebiografia da atriz conduzida pela dupla Jeffrey Friedman e Rob Epstein que tem como acertos seu elenco principal e a reconstrução dos anos 1970, tentará decifrar este mistério.

Escrevi uma crítica para o Cenas de Cinema sobre “Lovelace”. Para lê-la, basta clicar aqui.

Bling Ring – A Gangue de Hollywood

Bling Ring - A Gangue de Hollywood | The Bling Ring

Em seu quinto longa-metragem como diretora, Sofia Coppola continua interessada em acompanhar os “pobres ricos” que transitam em um mundo do qual é tão próxima. Por isso, muitos espectadores que a acompanham de “As Virgens Suicidas” até “Bling Ring – A Gangue de Hollywood” já parecem esgotados da abordagem intimista que Sofia faz desses indivíduos da mais alta classe social. Aqueles que ainda estiverem dispostos a acompanhar seus relatos em celuloide poderão chegar à conclusão de que “Bling Ring – A Gangue de Hollywood” é o seu melhor filme desde “Encontros e Desencontros”.

Publicado na edição de março de 2010 da revista Vanity Fair pela jornalista Nancy Jo Sales, o artigo “The Suspects Wore Louboutins” (“Os Suspeitos Usavam Louboutins”, em tradução literal) chamou a atenção de Sofia Coppola enquanto ela estava em um voo. Sofia não procurou pelas figuras reais, pois as personagens não sustentam os nomes das figuras reais e sua pesquisa não envolveu uma extensa entrevista com cada uma delas.

No plano estático e noturno que abre “Bling Ring – A Gangue de Hollywood” flagra o quinteto de amigos Rebecca (Katie Chung), Marc (Israel Broussard), Chloe (Claire Julien) e as irmãs Nicki (Emma Watson) e Sam (Taíssa Farmiga) invadindo a mansão de uma celebridade. A seguir, a história nos apresenta cada um deles e como The Bling Ring ganhou forma. Trata-se de adolescentes de classe média alta alocados em um colégio particular para desajustados que encontram uma distração perigosa para se esquivarem de suas vidas politicamente corretas.

A princípio, são somente Rebecca e Marc que brincam de invadir a propriedade de Paris Hilton. Em outras visitas, que já incluem os endereços de estrelas como Orlando Bloom e Lindsay Lohan, Chloe, Nicki e Sam estão presentes para colaborarem em roubos de roupas e acessórios de luxo que, estimou-se na época, totalizam o valor de 3 milhões de dólares.

Como nem toda celebridade é tão desprevenida quanto Paris Hilton, que deixava a chave da entrada principal debaixo do capacho e nem tinha um sistema de segurança instalado para detectar intrusos, cada membro do The Bling Ring foi capturado. Este é um fato do qual Sofia Coppola não se importa em revelar antes do ato final de “Bling Ring – A Gangue de Hollywood”, pois seu interesse está em observar com o seu distanciamento habitual as personagens e a geração em que estão inseridas.

Em uma sociedade movida por interações instantâneas e o poder da imagem, é natural que a gangue tenha a ambição de fantasiar uma vida idêntica aquela de seus ídolos superficiais. A ironia fina destilada por Sofia Coppola no roteiro de sua própria autoria é o que o enquadra como um retrato quase notável da juventude de hoje. Aproveita-se de sua própria influência como artista autoral para reunir material cedido por estrelas hollywoodianas e usufrui dessa vantagem para rebater a inadequação destas como modelos de comportamento. Daí vem os risos por testemunharmos figuras tão patéticas e o frio na barriga por elas serem assustadoramente críveis.

The Bling Ring, 2013 | Dirigido por Sofia Coppola | Roteiro de Sofia Coppola, baseado em artigo de Nancy Jo Sales | Elenco: Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Claire Julien, Taissa Farmiga, Georgia Rock, Leslie Mann, Carlos Miranda, Gavin Rossdale, Stacy Edwards, G. Mac Brown, Marc Coppola, Janet Song, Annie Fitzgerald, Paris Hilton e Kirsten Dunst | Distribuidora: Diamond Films

Resenha Crítica | Truque de Mestre (2013)

Truque de Mestre | Now You See Me

Apadrinhado por Luc Besson, o jovem francês Louis Leterrier conseguiu se impor já em seus dois primeiros filmes: “Cão de Briga”, que segue como seu melhor trabalho até o momento, e “Carga Explosiva 2”, considerado o melhor capítulo da trilogia do mercenário Frank Martin (vivido por Jason Statham). A seguir, Leterrier se perdeu sem a supervisão de Besson, mas prova com o surpreendente sucesso de “Truque de Mestre” que hoje é um cineasta mais seguro.

A aventura de mistério inicia de modo muito promissor. J. Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), Henley Reeves (Isla Fisher), Merritt McKinney (Woody Harrelson) e Jack Wilder (Dave Franco) são quatro mágicos com habilidades especiais recrutados para  representarem Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, grupo que será patrocinado pelo milionário Arthur Tressler (Michael Caine). O problema é que as principais atrações armadas pelo quarteto envolvem roubo a bancos, o que sempre garante shows com ingressos disputadíssimos.

Embora não ajam dúvidas de que Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse sejam ladrões, a polícia é incapaz de desvendar os truques usados nas apresentações para desmascará-los. Escalado para liderar essa difícil missão, o burocrático detetive Dylan Rhodes (Mark Ruffalo) desvendará que Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse ocultam diversas motivações para zerar os cofres de bancos escolhidos a dedo. Para auxiliá-lo, a agente novata da Interpol Alma Dray (Mélanie Laurent) e o especialista em revelações dos mais complexos truques de mágica Thaddeus Bradley (Morgan Freeman) entram em cena.

Com aquela energia que somente os cineastas franceses conseguem apresentar em fitas hollywoodianas, Louis Leterrier faz de “Truque de Mestre” aquele tipo de entretenimento em que o espectador se vê totalmente preso na poltrona. Há vários fatores que colaboram para isso. O principal sem dúvida é a harmonia do elenco, pois jovens e veteranos talentos interagem de modo muito especial. Também há aquela prazerosa sensação de deslumbramento diante dos truques e de surpresa quanto cada um deles são devidamente solucionados pelo astuto Thaddeus. Por fim, o ingrediente essencial: a mistura de humor e ação, inquestionavelmente bem conduzida por Leterrier.

Eis que, quando “Truque de Mestre” tem tudo para consolidar-se como um dos grandes blockbusters do ano, o trio de roteiristas Boaz Yakin, Ed Solomon e Edward Ricourt mete os pés pelas mãos na tentativa frustrada de tornar a história mais inteligente do que ela verdadeiramente é. De uma hora para a outra, “Truque de Mestre” segue uma linha muito diferente daquela desenvolvida inicialmente, encaminhando as ações d’Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse para algo muito maior. Essa escolha faz com que o último ato seja preenchido por excessos de efeitos visuais e reviravoltas estapafúrdias. E assim, o que era para ser um truque de mágica bem executado se transforma em uma piada de muito mau gosto. Do jeito que ficou, nem dá para aguardar com alguma ansiedade pela sequência já anunciada.

Now You See Me, 2013 | Dirigido por Louis Leterrier | Roteiro de Boaz Yakin, Ed Solomon e Edward Ricourt | Elenco: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Isla Fisher, Dave Franco, Mélanie Laurent, Morgan Freeman, Michael Caine, Michael Kelly, Common, David Warshofsky, José Garcia, Jessica Lindsey, Caitriona Balfe, Stephanie Honore e Conan O’Brien | Distribuidora: Paris Filmes

Os Amantes Passageiros

Os Amantes Passageiros | Los amantes pasajeros

Após um longo período lidando com dramas de camadas autobiográficas (“Volver”) ou que lhe tiraram de uma zona de conforto (“A Pele que Habito”), Pedro Almodóvar talvez tenha se encontrado em um momento de bloqueio criativo. A solução encontrada para abater esse mal provavelmente foi planejar um retorno às origens modesto e totalmente despretensioso. Este é o raciocínio que nos leva até “Os Amantes Passageiros”, seu mais recente longa-metragem.

Antes de inaugurar uma fase densa em sua carreira com “Tudo Sobre Minha Mãe”, Almodóvar era reconhecido por comédias como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervo” e “Labirinto de Paixões”. São delas que o próprio cineasta extrai ideias para compor “Os Amantes Passageiros”, cuja história acompanha um grupo de passageiros alocados na primeira classe de um avião que talvez não chegue ao seu destino devido aos procedimentos de voo não despeitados antes da decolagem.

No primeiro ato de “Os Amantes Passageiros”, Almodóvar faz uma piada sensacional. De olho na crise financeira que atinge a Espanha, o cineasta e roteirista emite comentário social ao fazer com que os seus personagens proletários, devidamente situados na segunda classe do avião, durmam durante a catástrofe que se anuncia. Por outro lado, são os endinheirados da primeira classe que camuflam a situação lidando com crises existenciais (originadas pela de orientação sexual ou por casos extraconjugais) ou simplesmente farreando no ambiente claustrofóbico.

O problema de “Os Amantes Passageiros” está no limite dessa alegoria imaginada por Almodóvar. As gargalhadas iniciais são amortecidas por risos esporádicos porque a história parece não suportar o enclausuramento em um único cenário, como se nota a partir do momento em que “Os Amantes Passageiros” transfere as atenções para uma personagem situada fora do voo.

Almodóvar também parece distante dos tempos áureos em que era capaz de criar humor subversivo através de seus personagens, pois os gays de “Os Amantes Passageiros” se aproximam da caricatura e até soltam a franga ao cantarem e dançarem “I’m so Excited!”, um dos maiores sucessos do grupo “The Pointer Sisters”.  Prova de que até as obras mais descompromissadas de grandes nomes do cinema precisam de controle para não fazer o público embarcar em viagens turbulentas.

Los amantes pasajeros, 2013 | Dirigido por Pedro Almodóvar | Roteiro de Pedro Almodóvar | Elenco: Carlos Areces, Javier Cámara, Raúl Arévalo, Lola Dueñas, Hugo Silva, Antonio de la Torre, José Luis Torrijo, José María Yazpik, Cecilia Roth, Penélope Cruz, Antonio Banderas, Carmen Machi, Blanca Suárez, Guillermo Toledo, Paz Vega e Miguel Ángel Silvestre | Distribuidora: Paris Filmes

Resenha Crítica | Um Garrafa no Mar de Gaza (2011)

A existência do livro “Uma Garrafa no Mar de Gaza” e a sua adaptação cinematográfica prova que ainda há espaço para um trabalho maduro dentro do cada vez mais fantasioso mercado juvenil. Escrito por Valérie Zenatti, “Uma Garrafa no Mar de Gaza” sustenta elementos que fisgam os adolescentes (a possível concretização de uma paixão dado como impossível, os anseios, a transição da adolescência para a fase adulta) e o acerto do cineasta Thierry Binisti (especialista em produções televisivas) está em preservá-los através da supervisão da própria Zenatti no roteiro para a versão cinematográfica.

Na primeira cena de “Uma Garrafa no Mar de Gaza”, o irmão de Tal Levine (Agathe Bonitzer), Eytan (Abraham Belaga), está prestando serviços militares em um mar de Gaza e imediatamente lança uma garrafa contendo uma carta dentro. O costume costuma evidenciar que alguém busca por um amor anônimo, mas não é essa a motivação de Eytan. Na verdade, a carta foi escrita pela própria Tal. Trata-se de um desabafo após testemunhar de perto uma tragédia em Jerusalém: um homem-bomba agiu dentro de um café, matando duas pessoas cujas histórias chamaram a atenção de Tal; um pai na companhia de sua jovem filha, que logo a seguir iria se casar.

Embora a garrafa tenha sido encontrada pelo primo de Naïm (Mahmud Shalaby), Hakim (Loai Nofi), ele acaba levando-a consigo, pois a mensagem foi escrita em inglês e é o único capaz de traduzi-la. Depara-se com o relato de Tal, algumas palavras amargas e o e-mail dela. Por serem jovens presos em realidades muito distintas, Naïm decide correr o risco de respondê-la com palavras pouco amigáveis e assinando Gazaman. No entanto, os embates verbais acabam tornando-os pessoas mais próximas, pois tanto Tal e Naïm são drasticamente mudados com essa amizade que se desenha.

O incessante confronto entre palestinos e israelenses ganha em “Uma Garrafa no Mar de Gaza” uma encenação que permite dar uma ideia mais clara das divergências existentes entre dois grupos com culturas tão distintas. Enquanto Tal guarda dentro de si uma fúria inquietante, Naïm sofre as consequências de uma guerra do qual não deseja participar, encontrando nos conselhos de Tal a primeira perspectiva positiva para mudar totalmente a sua vida, uma vez que passa a estudar francês fervorosamente para tentar obter uma bolsa de estudos que lhe garanta o passe para sair de Gaza. Bom filme para frisar que lá fora há jovens com crises muito mais profundas do que os problemas mundanos em que buscamos inserir um peso inexistente.

Une bouteille à la mer, 2011 | Dirigido por Thierry Binisti | Roteiro de Thierry Binisti e Valérie Zenatti, baseado no romance homônimo de Valérie Zenatti | Elenco: Agathe Bonitzer, Mahmud Shalaby, Hiam Abbass, Riff Cohen, Abraham Belaga, Jean-Philippe Écoffey, Smadi Wolfman, Salim Dau, Loai Nofi, François Loriquet, Abdallah El Akal e Max Olearchik | Distribuidora: Esfera Filmes

Resenha Crítica | Minha Mãe é uma Peça – O Filme

Minha Mãe é uma Peça - O Filme

Após um ano em que a nossa produção cinematográfica nos presenteou com as piores comédias dos últimos tempos (“As Aventuras de Agamenon, o Repórter” e “Billi Pig” são dois títulos presentes em nossa lista dos piores filmes exibidos em 2012), finalmente estamos presenciando um grande salto. Após Maurício Farias dirigir o divertidíssimo “Vai que dá Certo”, agora temos um longa-metragem ainda melhor representando o gênero. Trata-se de “Minha Mãe é uma Peça – O Filme”, dirigido por Andre Pellenz e, até o momento, a maior bilheteria de um filme nacional neste ano.

As origens de “Minha Mãe é uma Peça” são os palcos. Após anos em cartaz e um número surpreendente de público, o comediante Paulo Gustavo acreditou que as confusões protagonizadas por sua personagem renderiam na tela de cinema. Levou a ideia para o seu colega Fil Braz (que assinou os episódios de “220 Volts” e “Vai que Cola”), resultando em um roteiro que apresenta a Dona Hermínia para um novo público.

Inspirada na mãe de Paulo Gustavo, a Dona Hermínia é uma dona de casa sem papas na língua. Não esconde o desprezo pela namorada (Ingrid Guimarães) de seu ex-marido (Herson Capri), é intolerante com os seus vizinhos de condomínio, a todo o instante chama a atenção de sua filha Marcelina (Mariana Xavier) por causa do excesso de peso e mima Juliano (Rodrigo Pandolfo), que se transformou em seu “filho perfeito” desde o momento em que Garib (Bruno Bebianno), seu primogênito, se mudou para Brasília com a esposa.

Em um dia como qualquer outro, Dona Hermínia houve comentários maldosos de Marcelina e Juliano através de uma ligação telefônica não encerrada no momento apropriado. Arrasada, Dona Hermínia se vê cansada da vida banal e encontra como refúgio a casa da Tia Zélia (Suely Franco), aquela que servirá de ouvinte para os seus inúmeros desabafos. E assim a história de “Minha Mãe é uma Peça – O Filme” começa a se agitar, pois é através dos flashbacks que compreenderemos o que tornou Dona Hermínia uma pessoa tão amarga e, ao mesmo tempo, disposta a fazer tudo pelo bem de seus filhos.

Através desse ponto de partida, Andre Pellenz lida com uma linguagem que flerta com a televisiva, pois a estrutura de “Minha Mãe é uma Peça – O Filme” é episódica. A escolha compromete as raras e inoportunas tentativas de introduzir um pouco de drama à história, a exemplo de uma tragédia inesperada que abate a irmã de Dona Hermínia interpretada por Alexandra Richter (de “Divã”). Porém, como se incomodar com falhas pouco expressivas diante do talento de Paulo Gustavo?

Dona Hermínia é, desde já, uma personagem presente em nosso imaginário e isso se deve a habilidade sem igual do comediante em torná-la tão exagerada e, ao mesmo tempo, crível. Há um pouco de Dona Hermínia em cada mãe da classe média e Paulo Gustavo nos faz esquecer que há um homem incorporando essa mulher. Amparado por um trabalho de maquiagem incrível, Paulo Gustavo ainda é certeiro no modo como desenvolve sua voz, as piadas espontâneas, postura e trejeitos (repare o modo natural como move as suas madeixas). Por tudo isso é que algumas situações de constrangimento narradas funcionam tão bem, como a cena da balada do pijama, da fila do supermercado ou quando a verdadeira orientação sexual de Juliano é revelada. É o cinema brasileiro finalmente revendo a fórmula para moldar uma comédia assumidamente popular capaz de deixar todo mundo com um largo sorriso no rosto. Que venha a continuação!

Minha Mãe é uma Peça – O Filme, 2013 | Dirigido por Andre Pellenz | Roteiro de Fil Braz e Paulo Gustavo, baseado na peça “Minha Mãe é uma Peça” | Elenco: Paulo Gustavo, Rodrigo Pandolfo, Mariana Xavier, Alexandra Richter, Ingrid Guimarães, Suely Franco, Herson Capri, Samantha Schmütz, Mônica Martelli, Malu Valle, Bruno Bebianno, Renata Ricci, Gabriel Galvão, Ana Karolina Lannes e Augusto César Jr. | Distribuidora: Paris Filmes