Bate-papo com Leandra Leal, Jiddu Pinheiro e Ricardo Pretti, de “O Uivo da Gaita”

Elenco e Equipe de O Uivo da Gaita

A produtora Rita Toledo, o diretor de “O Rio nos Pertence” Ricardo Pretti, a atriz e produtora Leandra Leal e o ator Jiddu Pinheiro.

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Ao contrário dos filmes internacionais, as produções brasileiras estão protegidas do ineditismo promovido pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Embora exibido na mais recente edição do Festival do Rio, “O Uivo da Gata” esteve presente na programação da 37ª edição do evento.

Para promover o filme, os protagonistas Leandra Leal e Jiddu Pinheiro e a produtora Rita Toledo estiveram presentes após a primeira exibição de “O Uivo da Gaita” para responder as perguntas do público. Devido a ausência do diretor Bruno Safadi, Ricardo Pretti, que realizou “O Rio nos Pertence” e que colaborou na realização de “O Uivo da Gaita“, o substituiu para compartilhar algumas experiências da realização do projeto experimental.

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Sobre o processo de realização de “O Uivo da Gaita”.

Leandra Leal: Durante todo o tempo de filmagens, houve um longo processo de amadurecimento do Bruno Safadi, especialmente depois da filmagem. Existiram até mesmo outras versões do filme com mais diálogos, mas a escolha foi mesmo de radicalizar. Particularmente, penso que o filme está muito mais fiel a ele desse jeito. Foi uma descoberta, não somente uma questão de escolha. Quando você faz o filme, você vê uma coisa e quando você vê o filme que fez, vê outra.

Ricardo Pretti: Lembrando de algumas coisas que o Bruno falou, muitas vezes ele tem uma ideia em que entende o gesto como a eternidade. O gesto eterniza as emoções de certas ânsias humanas. Neste caso, é o amor, o desejo de amar, de encontrar alguém e viver esse amor. Para o Bruno, ficou cada vez mais claro que se ele fosse para as vias do cinema mudo, para o cinema que fosse mais puramente visual, de tentar cristalizar, aprofundar cada momento enquanto gesto, tudo ficaria mais denso, mais eterno.

Leandra Leal: Tem também a coisa de tentar se afastar do cotidiano e encaminhar tudo para algo mais artístico. O Bruno veio com essa ideia de não ficar com personagens tão cotidianos.

Jiddu Pinheiro: A palavra no cinema vem depois da imagem. Muitas vezes se você escolhe a palavra, você renuncia o caminho pela imagem. Na verdade, a afirmação da imagem é muitas vezes uma forma de poder potencializar o não dito. É também uma escolha para afirmar o discurso interno, pois ele ganha força desse modo.

O Uivo da Gaita

Sobre a Operação Sonia Silk.

Ricardo Pretti: A Operação Sonia Filk surgiu em aproximadamente três anos, veio de uma personagem (interpretada pela Helena Ignez) da Belair,  que é uma produtora dos anos 1970 que fez sete filmes em três meses. Filmes incríveis, que recomendo para quem não viu, como “Copacabana, Mon Amour”. Nós pegamos esse modelo de produção, que é o de fazer filmes com poucos recursos, de forma espontânea, de nos relacionarmos com essa tradição de um cinema que não está preocupado em fazer uma indústria. São filmes que vão contra a ideia de fazer uma indústria, mais declaradamente experimentais, de riscos, de descobertas, ver o que acontece quando você sai de um padrão de funcionamento.

Todo mundo que está nesses filmes entrou com esse espírito de formar um grupo bastante coeso, bastante imerso nesta necessidade e vontade de se deslocar um pouco do que já estão acostumados a entender enquanto profissão de cinema. Cinema como produção e também como sentido. O que faz a gente sentir, ou entender alguma coisa, ou perceber alguma coisa. Quando você cria certos mecanismos que deslocam isso, você passa a perceber as coisas de modo diferente. Isso é algo muito válido, pois de alguma forma no Brasil há muito a tradição sobre o que nós somos. Eu sou do cinema americano. Vi muito isso na minha infância, adolescência, mas ao longo dos anos eu estou descobrindo esse outro cinema. Esse é o cinema que me trouxe uma coisa que não estou acostumado, mas que fala comigo de modo mais íntimo, confessional. Uma troca de segredos.

É arriscado. São filmes que se propõem a quase serem invisíveis. Isso no mundo da publicidade, no mundo em que tudo quer aparecer, quer ser espetáculo, é sempre um gesto de risco de você quase se anular. No entanto, a gente acredita tanto nisso que pensamos “Vamos nessa, vamos acreditar nesta força da invisibilidade.” Isso para mim é cinema, como para o Bruno de muitas formas é. A Leandra maravilhosamente encabeçou não só como atriz, como também produtora junto com a Rita Toledo. Ela participou de todos os processos em conjunto. De argumento a roteiro, da produção, da filmagem até a finalização. Todo mundo participou de tudo isso ao mesmo tempo e em conjunto. Todos falando sobre coisas que sentiam um do outro, era uma coisa que invade a vida, o processo de criação de uma obra de arte. Se entrelaçam e formam as coisas mais humanas e mais profundas para a gente.

 

O Uivo da Gaita

Sobre a eliminação dos diálogos.

Leandra Leal: Os diálogos tinham mais informações sobre os personagens… Quem era essa pessoa, contextualizava ela mais neste mundo. A escolha foi tirar isso.

Jiddu Pinheiro: Tinha muitos dados sobre quem eram esses personagens, de onde eles vinham, o conflito deles, como eles se conheceram. Situavam eles nos lugares. De certa forma, essas informações estão com os personagens, pois nós os criamos a partir delas. Acho que é um convite para que as pessoas completem essas informações por si mesmas, é aberto. É com o espectador que o filme se completa.

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Grigris

Grigris

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Há pessoas com um magnetismo tão forte que se assemelhar a figuras pitorescas da ficção. Protagonista de “Grigris”, o estreante Souleymane Démé é um modelo perfeito para confirmar esta impressão. Démé parece a personificação de uma figura caricata de animação: além da arcada dentária desproporcional, ele tem uma perna atrofiada. Quando a câmera de Mahamat-Saleh Haroun registra os seus passos de longe, Démé lembra um Louva-a-deus.

Muitos diretores costumam se aproveitar de artifícios para com que os seus atores consigam incorporar papéis fisicamente desafiadores, algo descartado por Mahamat-Saleh Haroun em “Grigris”. Souleymane Démé realmente tem uma deficiência e a convicção com que lida com o personagem-título garante com que o filme seja assistido com certo fascínio.

Grigris é um jovem simpático que ganha a vida como dançarino. Mesmo sofrendo de paralisia em uma das pernas, encarar coreografias extraordinárias na pista de dança não parece ser um grande desafio para Grigris. O seu problema é a falta de dinheiro. Os bicos como fotógrafo podem ser prazerosos, como reconhece ao se deparar com uma cliente aspirante a modelo (Anaïs Monory) plenamente satisfeita com suas fotografias. No entanto, ele é incapaz de lidar com as dívidas hospitalares do seu tio (Marius Yelolo), que está à beira da morte.

Ainda que faça um filme muito superior a “Um Homem que Grita”, Mahamat-Saleh Haroun aos poucos vai perdendo o controle de sua história quando Grigris deixa de ganhar a vida com dignidade para trabalhar na ilegalidade. Ao registrar as dificuldades do protagonista em se sobressair na tarefa trabalhar com traficantes de combustível, “Grigris” sacrifica toda a autenticidade de sua primeira meia hora para inserir dilemas que se apresentam banais – senão ridículos, como se vê no clímax involuntariamente hilário. Grigris e, consequentemente, Souleymane Démé mereciam um filme melhor.

GriGris, 2013 | Dirigido por Mahamat-Saleh Haroun| Roteiro de Mahamat-Saleh Haroun | Elenco: Souleymane Démé, Anaïs Monory, Cyril Guei e Marius Yelolo | Perspectiva Internacional

Resenha Crítica | O Uivo da Gaita (2013)

O Uivo da Gaita

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Rodado simultaneamente com o longa-metragem de ficção “O Rio nos Pertence” e o documentário “Meta Mancia” (atualmente em fase de pós-produção), “O Uivo da Gaita” é um dos vértices da Operação Sonia Silk, projeto realizado coletivamente e com poucos recursos. Assim como em “O Rio nos Pertence”, “O Uivo da Gaita” se mostra econômico nos diálogos para que possa desenhar sua história com o suporte das imagens.

Entre “O Rio nos Pertence” e “O Uivo da Gaita”, é possível notar um avanço. A decisão de trocar os cômodos vazios e obscuros de “O Rio nos Pertence” para os ambientes arquitetônicos de “O Uivo da Gaita” favorece o filme, uma vez que a fotografia de Ivo Lopes Araújo consegue criar imagens sedutoras através de três locações: o Porto do Rio de Janeiro, a Casa das Canoas de Oscar Niemeyer e a praia de Niterói.

No prólogo de “O Uivo da Gaita”, Antonia (Mariana Ximenes) e Luana (Leandra Leal) se refugiam em uma praia paradisíaca para viver um relacionamento proibido. Imediatamente, a história retrocede para mostrar que Antonia é comprometida com Pedro (Jiddu Pinheiro). Apesar de viver em uma bela residência e de ser incondicionalmente amada por Pedro, Antonia parece viver uma mentira. Seu desejo de fuga se amplia com a aparição de Luana, com quem praticará junto com Pedro alguns jogos sexuais.

Atrizes com beleza hipnotizante, Mariana Ximenes e Leandra Leal jamais foram contempladas de modo tão intenso por uma câmera. Embora consigam incorporar seus papéis com o auxilio de alguns diálogos triviais abafados pela música de Guilherme Vaz, Mariana e Leandra sustentam “O Uivo da Gaita” pelo que sugere o choro não contido, os olhares de desejo e a agitação de corpos que querem se entregar um para o outro.

O experimentalismo não é bem-sucedido porque “O Uivo da Gaita” é um filme desprovido de um bom texto. Quando Bruno Safadi busca agregar algum peso ao que os seus personagens dizem de aparentemente relevante, absolutamente nada é elucidado. Não se sabe exatamente os motivos de Antonia se sentir tão sufocada, de Pedro não ser o marido que corresponde às expectativas e de onde veio Luana. Questões sem respostas mais por uma premissa limitada do que a pretensão de criar um cinema de sensações alcançadas unicamente por toques e gestos.

O Uivo da Gaita, 2013 | Dirigido por Bruno Safadi| Roteiro de Bruno Safadi | Elenco: Mariana Ximenes, Leandra Leal e Jiddu Pinheiro | Mostra Brasil

Resenha Crítica | O Rio nos Pertence (2013)

O Rio nos Pertence

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Viabilizado pela DAZA, TB Produções e Alumbramento, a Operação Sonia Silk consiste em um pacote com três filmes realizados de modo coletivo e independente, ideais defendidos pela produtora Belair durante a década de 1970. Por isso mesmo, o caminho seguido é o da experimentação, o do cinema de sensações. Uma linha de produção muito bem-vinda para um circuito que privilegia somente as histórias populares se o resultado não fosse tão limitado.

A mesma equipe de “O Uivo da Gaita”, o segundo filme da Operação Sonia Silk (o terceiro, o documentário “Meta Mancia”, ainda está em fase de finalização), se desdobra em “O Rio nos Pertence”. Tanto o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo quanto os montadores Guto Parente e Luis Pretti colaboram para os projetos. Já os intérpretes Leandra Leal, Mariana Ximenes e Jiddu Pinheiro surgem em “O Rio nos Pertence” e “O Uivo da Gaita” assumindo papéis distintos.

Em “O Rio nos Pertence”, o diretor e roteirista Ricardo Pretti envereda pelo suspense com toques de surrealismo ao contar a história de Marina (Leandra Leal), jovem que se desligou de um relacionamento e que revisita fantasmas de um passado traumático ao voltar para o Rio de Janeiro. Reencontra na cidade o ex-namorado Mauro (Jiddu Pinheiro) e a irmã (Mariana Ximenes), com quem tem alguns assuntos mal resolvidos após uma tragédia que as separou.

Apesar das interações tumultuadas de Marina com esses dois personagens, “O Rio nos Pertence” dedica a maior parte de sua curta duração na isolação desta protagonista em um apartamento despido de objetos e presença humana. Marina é aterrorizada por cartões-postais em que se lê “O Rio nos pertence” escrito a sangue, pensamentos suicidas e pesadelos.

Tendo realizado previamente outros filmes pequenos, Ricardo Pretti visualiza no cenário urbano carioca o ambiente perfeito para situar sua história. Quando sai de seu apartamento, Marina vaga solitária em pontos que deveriam ser reconhecidos como movimentados e tropicais. Mesmo oferecendo esta perspectiva pouco usual da cidade para ambientar sua protagonista, “O Rio nos Pertence” provoca apatia. Não há equilíbrio em um filme em que seu fiapo de história se mostra óbvio demais para fomentar as múltiplas possibilidades que ambiciona.

O Rio nos Pertence, 2013 | Dirigido por Ricardo Pretti| Roteiro de Ricardo Pretti| Elenco: Leandra Leal, Jiddu Pinheiro e Mariana Ximenes | Mostra Brasil

Resenha Crítica | Somos o que Somos

Somos o que Somos | We Are What We Are

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Aos poucos os aficionados pelo terror, gênero lamentavelmente preterido na programação da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ajudam a promover a carreira de nomes que futuramente devem ocupar as cadeiras de mestres como John Carpenter e Dario Argento. Já em seu terceiro longa-metragem, Jim Mickle se confirma como um diretor interessado em dar uma roupagem clássica para histórias contemporâneas, obtendo um êxito confirmado com pouca frequência em outros exemplares.

Antes cameraman em produções pouco vistas, Jim Mickle visualizou a oportunidade de debutar como diretor de longa-metragem em “Mulberry Street – Infecção em Nova York”, um dos títulos do pacote 2007 da After Dark Horrorfest. Saiu-se muito melhor em “Stake Land – Anoitecer Violento”, horror em que imagina um mundo pós-apocalíptico tomado por vampiros, e agora em “Somos o que Somos”, que teve uma única exibição a meia-noite na Mostra e que em breve ganhará o circuito comercial pela Esfera Filmes.

Refilmagem do mexicano homônimo dirigido por Jorge Michel Grau em 2010, a história inicia com a morte da matriarca da família Parker (Kassie Wesley DePaiva) após passar mal e bater a cabeça em um cano de ferro no estacionamento de um mercado. A perda atinge terrivelmente Frank (Bill Sage), que agora terá três filhos para criar sozinho: Iris (Ambyr Childers), Rose (Julia Garner, excelente) e o caçula Rory (Jack Gore). Cristão fundamentalista, Frank submete a sua família a um terrível ritual diário em a desobediência e a liberdade não devem existir, algo difícil para Iris e Rose, pois as duas estão na fase delicada e cheia de descobertas da adolescência.

Sem elucidar apressadamente os mistérios que rondam os Parker, Jim Mickle dá preferência a criação de uma atmosfera quase sufocante. Na cidadezinha quase inóspita que serve de cenário para a história, as enchentes varreram residências e árvores e há ainda os desaparecimentos não solucionados de algumas garotas, como a filha do veterano detetive Doc Barrow (Michael Parks) que, por sua vez, está obstinado em encontrar um culpado. Isso tudo gira ao redor de Iris e Rose, que a todo o instante se veem obrigadas pelo pai delas a fazer coisas que desaprovam.

No processo de adaptação em conjunto com o também ator Nick Damici, Jim Mickle erra ao associar as origens dos Parker a uma família de nômades de aproximadamente três séculos atrás. É algo ilustrado através de flashbacks mal encenados e que não se encaixam com harmonia à história. Por outro lado, Jim Mickle filma a violência com elegância, se importando mais com as reações de quem a executa do que com o choque gratuito. Somente na conclusão se deixa dominar pelo horror explícito e este se manifesta com um impacto singular que somente os bons diretores do gênero são capazes de arquitetar.

We Are What We Are, 2013 | Dirigido por Jim Mickle | Roteiro de Jim Mickle e Nick Damici, baseado no roteiro homônimo de Jorge Michel Grau | Elenco: Bill Sage, Ambyr Childers, Julia Garner, Jack Gore, Michael Parks, Nick Damici, Kelly McGillis, Kassie Wesley DePaiva, Wyatt Russell, Annemarie Lawless, Traci Hovel, Nat DeWolf, Larry Fessenden, Odeya Rush, Joel Nagle e Reagan Leonard | Distribuidora: Esfera Filmes | Perspectiva Internacional

A Ternura

A Ternura | La tendresse

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Embora o ponto de partida de “A Ternura” se dê com um acidente, a diretora, roteirista e produtora Marion Hänsel imediatamente tranquiliza o público ao registrar que nada de tão grave aconteceu a Jack (Adrien Jolivet), adolescente que esquiava com sua namorada Allison (Margaux Châtelier). O resultado foi uma perna quebrada e um curto período hospitalizado. O problema é que Jack está muito longe de casa e depende de seus pais para buscá-lo.

Há quinze anos divorciados, Lise (Marilyne Canto, em uma interpretação encantadora) e Frans (Olivier Gourmet), embarcarão juntos em uma longa viagem de carro ao encontro de Jack. Como se espera, o convívio forçado irá reascender alguns desejos. A separação entre ambos foi consolidada com sucesso, mas as suspeitas de que as coisas poderiam ser diferentes não param de invadir os pensamentos de Lise e Frans.

A ternura é um título bem adequado para batizar esta história que ressalta os pequenos prazeres da vida. Modesta na execução, Marion Hänsel se preocupa mais em extrair risos francos através de discretas demostrações de afeto. Ao mesmo tempo em que se interessa pela chama da paixão juvenil entre Jack e Allison, “A Ternura” evidencia que ela se mantém de outro modo acessa nos amadurecidos Lise e Frans.

O que Marion Hänsel inevitavelmente não evita e que valoriza ainda mais “A Ternura” é a sua perspectiva feminina. No fim das contas, o filme acaba mesmo sendo sobre Lise e o quanto a reunião de sua pequena família a faz ver que a sua vida é perfeita do modo que está. Talvez sejam suficientes para se ver realizada como uma mulher as presenças do seu amor do passado e seu querido filho, bem como a permissão que dá para si mesma para viver pequenas aventuras e flertes, coisas que acontecem ao conhecer o caroneiro vivido pelo espanhol Sergi López, em participação muito especial.

La tendresse, 2013 | Dirigido por Marion Hänsel | Roteiro de Marion Hänsel | Elenco: Marilyne Canto, Olivier Gourmet, Adrien Jolivet, Margaux Châtelier, Hilde Heijnen, Romain David, Dean Mechemache, Sylvain Zind, Valérie Gil, Jérôme Fonlupt, Justine Bosco, Mehdi Senoussi e Sergi López | Perspectiva Internacional

Bate-papo com Antonin Peretjatko, diretor de “A Garota do 14 de Julho”

Antonin Peretjatko

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Um dos maiores atrativos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo é a presença quase garantida de um diretor para apresentar a sua obra ao público. As chances de você ouvir curiosidades sobre uma produção e até mesmo direcionar uma pergunta a um diretor são ainda maiores se você optar em ver a primeira ou segunda exibição de um título presente na Competição Novos Diretores.

Em nosso primeiro dia de Mostra, pudemos registrar o bate-papo com o francês Antonin Peretjatko, diretor da comédia “A Garota do 14 de Julho“. A transcrição pode ser lida a seguir.

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“A Garota do 14 de Julho”, filme x digital e nostalgia.
A imagem do filme é bem colorida. Muitas pessoas me disseram que meu filme remete a muitos filmes dos anos 1970, talvez pelo uso das cores e por ter sido filmado em 35mm. Todos os filmes que dirigi anteriormente foram em película e por isso fiz este também em película. Desta forma, posso controlar melhor o resultado, algo que não conseguiria rodando em digital. Também é um modo de dirigir a equipe como um todo, pois a película é cara e assim posso trabalhar com os atores de forma mais precisa. Quando começávamos a gravar, havia uma concentração muito maior entre a equipe. Obviamente, também havia muitos ensaios antes de eu começar a gravar. Em relação ao digital, o mundo de hoje produz câmeras para ver o mundo de hoje. “A Garota do 14 de Julho” é um filme nostálgico e por isso o rodei em película.

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A Garota do 14 de Julho | La fille du 14 juillet

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Sobre as dificuldades em fazer o primeiro longa-metragem.
Há muitas dificuldades em financiar um filme de estreia, pois geralmente na França o primeiro filme é destinado para a televisão que, por sua vez, quer nomes conhecidos. Além do mais, a crise deixou todo mundo muito temeroso.

Sobre a principal intenção em fazer “A Garota do 14 de Julho”.
Trata-se de um road movie em que os personagens realmente atravessam o país na crise. Se eu pudesse resumir o filme em uma ideia seria sobre personagens que colocam a amizade e o amor acima do poder material.

Sobre a opção de filmar em película.
Os personagens são exagerados e isso é até uma razão para a qual eu filmei em película, pois não conseguiria controlar esses personagens filmando-os em digital. O digital é mais realista que o filme. Trabalhei 22 quadros ao invés de 24 quadros por segundo com a intenção de criar um lado burlesco. Nas cenas documentais do prólogo já há um efeito de comédia. É uma forma de mostrar o mundo do jeito que eu o vejo.

 A Garota do 14 de Julho | La fille du 14 juillet

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Sobre filmagens e referências.
Gravávamos apenas duas ou três vezes por semana, entre 2011 e 2012, e “A Garota do 14 de Julho” segue a linha da contestação de comédia, como os títulos italianos. Na França, tem uma grande produção de contestação cômica desde a Revolução Francesa. Meu filme pertence a essa corrente estética.

Sobre a recepção de “A Garota do 14 de Julho”.
Ainda não tenho uma ideia clara quanto ao acolhimento de “A Garota do 14 de Julho”, mas sei que no Leste Europeu e na Alemanha o filme não funcionaria muito bem. O filme provavelmente seria atrativo para a Itália, a Espanha e Portugal. Não no Norte ou no Leste Europeu.

Sobre o próximo projeto.
Não tenho intenção de fazer somente comédia, mas meu próximo filme será uma e todos os meus curtas-metragens também são do gênero. Meu próximo filme será sobre a construção de uma estação de esqui na Guiana Francesa, no alto da América do Sul, como forma da Europa mostrar o seu poder.

Resenha Crítica | Apenas Um Suspiro (2013)

Apenas um Suspiro | Le temps de l'aventure

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Em tempos de sucessivas desilusões, a melhor saída pode ser se lançar para o acaso. Não há muito o que perder e mergulhar no desconhecido talvez resulte em novas possibilidades para encarar a vida com mais positividade. Alix Aubane (Emmanuelle Devos) é uma mulher que está insatisfeita com as consequências de suas escolhas e que pela primeira vez se permite a embarcar em uma aventura ao desconhecido.

Atriz teatral sem renome e sem um tostão no bolso, Alix viaja de trem à Paris para fazer um teste para um papel de uma mulher com o coração despedaçado e para almoçar com a sua mãe. Antes de chegar ao seu destino, Alix é atraída por um homem de meia-idade irlandês (Gabriel Byrne) aparentemente abatido com algo. Durante toda a viagem, há uma intensa troca de olhares entre Alix e este homem.

Quando finalmente o trem chega em sua última estação, este irlandês pergunta à Alix se ela fala inglês e se pode auxiliá-lo a chegar a um endereço. Um outro passageiro bem-intencionado faz a voz de Alix morrer na garganta e ambos seguem caminhos opostos. A seguir, Alix faz o seu teste, adentra o apartamento de sua mãe para lhe tomar alguns trocados em sua ausência e parece decidida a retornar para casa em Calais. No entanto, antes de tomar o trem, percebemos que Alix está definitivamente encantada por aquele charmoso e estranho homem irlandês – isso sem que ela diga qualquer palavra.

Este é somente o ponto de partida de “Apenas Um Suspiro”, quinto longa-metragem do jovem diretor e roteirista francês Jérôme Bonnell e, através dele, comprovamos o seu talento singular em comunicar tanto através de tão pouco. Trata-se do resgate da fórmula que assegurou o sucesso da trilogia de Richard Linklater sobre o casal Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy), mas com uma proposta e resultado muito distintos.

Nada é muito certo sobre os personagens de Emmanuelle Devos e Gabriel Byrne, cuja sintonia se confirma em um velório. Embora Alix seja a personagem que move “Apenas Um Suspiro”, não desvendamos de imediato como se dá a relação com a sua família e para quem ela insiste em ligar a toda hora. Menos ainda se sabe sobre o homem irlandês, que aparentemente está enterrando uma mulher que amava.

Jérôme Bonnell tem ciência de que é exatamente a desorientação que nos envolve ainda mais com os personagens e acerta ao não determinar de antemão os rumos que a sua história tomará. Há muitos encontros e desencontros, obstáculos que impedem que ambos permaneçam juntos para se conhecerem melhor e humor e romantismo que se manifestam com precisão.

São muitos elementos narrativos e Jérôme Bonnell dá conta de tudo graças à escolha certeira de Emmanuelle Devos e Gabriel Byrne. Embora não tenha a mesma fama de uma Audrey Tautou (com quem contracenou em “Coco Antes de Chanel“, aliás), Emmanuelle Devos prova sua força como atriz ao fazer de Alix uma mulher madura tomada por inquietações quase juvenis. Parceiro de cena, Gabriel Byrne está cada vez mais fascinante com o avanço da idade. O efeito hipnótico provocado pelos seus olhares e voz suave é apenas um dos vários métodos de trabalho deste que é um dos maiores atores em atividade.

De tão envolvente, desejamos que “Apenas Um Suspiro” estenda o registro do dia deste casal que se desenha. É como se Jérôme Bonnell materializasse na tela o desejo que cada um de nós tem de se entregar a um amor impossível ou as armadilhas do destino. O fato de deixar lacunas não preenchidas ao final de “Apenas Um Suspiro” só prolonga o armazenamento da agradável experiência de vê-lo em nossa memória.

Le temps de l’aventure, 2013 | Dirigido por Jérôme Bonnell | Roteiro de Jérôme Bonnell | Elenco: Emmanuelle Devos, Gabriel Byrne, Gilles Privat, Aurélia Petit, Laurent Capelluto, Françoise Lebrun, Denis Ménochet, Sébastien Pouderoux, Olivier Broche, Eddie Chignara, Victoria Quesnel, Jérôme Baëlen, Anne-Elodie Sorlin, Odile Grosset-Grange e Clément Bondu | Perspectiva internacional

Exposição Stanley Kubrick

Exposição Stanley Kubrick 00

Objeto de cena de “Laranja Mecânica”.

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

A Mostra Internacional de Cinema foi muito feliz em sua 37ª edição no que diz respeito a retrospectivas. Além de rever as filmografias dos cineastas Eduardo Coutinho e Lav Diaz, os cinéfilos também terão a oportunidade de ouro de assistir na tela grande as obras assinadas por Stanley Kubrick, considerado um dos maiores cineastas da história do cinema.

Os fãs do cineasta notarão a presença de Kubrick além das sessões disputadas para os seus filmes. A aquarela “Ensaio na Chuva”, pintada pela viúva do diretor, Christiane Kubrick, serve de arte para esta edição e também está presente em vinhetas e produtos da Central da Mostra. No entanto, o maior atrativo está na exposição Stanley Kubrick, abrigada pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) e inédita na América Latina.

A boa notícia é que os interessados não precisam correr para conferir a exposição. Embora a 37ª Mostra Internacional de Cinema termine dia 31 de outubro, a exposição permanecerá em cartaz até o dia 12 de janeiro de 2014. Ou seja: após uma maratona de filmes das mais diversas nacionalidades, o cinéfilo poderá visitar tranquilamente o espaço.

Visitamos o MIS no último sábado, 19 de outubro, e um ar de decepção surgiu no piso térreo, onde os ingressos podem ser adquiridos. Entre tantos salões, há somente um em que câmeras e lentes usadas por Kubrick durante as filmagens de seus filmes estão dispostos de modo insosso. Há, por exemplo, a câmera Eyemo, usada por Kubrick em “A Morte Passou Por Perto” e que era notória entre repórteres de guerra e documentaristas, e também uma lente Kilfitt Makro-Kilar 90mm, com a qual ele realizava seus notáveis close-ups. No mesmo ambiente, há também um acerto pouco vasto de seus trabalhos como fotógrafo para a revista Look – a famosa captura do ator Montgomery Clift em 1949 tomando café da manhã está inclusa.

Felizmente, os outros acessos do Museu da Imagem e do Som são deslumbrantes e nos ambientam em cada um dos filmes de Stanley Kubrick. Organizado por Deutsches Filmmuseum Frankfurt, Christiane Kubrick e The Stanley Kubrick Archive da University of The Arts London e com curadoria de André Sturm (conhecido pela direção de longas como “Sonhos Tropicais” e “Bodas de Papel”), a exposição traz salas temáticas para cada longa-metragem que compõe a filmografia do realizador americano.

A seguir, compartilhamos algumas capturas da exposição. Devido às restrições quanto ao uso de câmeras fotográficas, bem como a pouca luminosidade de cada sala temática, nossa galeria não contém muitas fotos. De qualquer modo, é possível visualizar uma amostra das atrações em cada ambiente.

Exposição Stanley Kubrick 01

Recriação do cenário de “Dr. Fantástico”, de 1964.

Exposição Stanley Kubrick 02

Objeto de cena de “O Iluminado”, de 1980: “Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um cara bobão.”

Exposição Stanley Kubrick 03

Figurino das irmãs gêmeas de “O Iluminado”.

Exposição Stanley Kubrick 04

Projeção de cenas de “Lolita” (1962) nos famosos óculos da personagem-título.

Exposição Stanley Kubrick 05

Um pouco de voyeurismo em frames de “Lolita”.

Exposição Stanley Kubrick 06

O Oscar de Stanley Kubrick pelos efeitos visuais de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de 1968.

Exposição Stanley Kubrick 07

Claquete das filmagens de “Nascido Para Matar”, de 1987.

Exposição Stanley Kubrick 08

Recriação de cenário de “2001: Uma Odisseia no Espaço”.

Exposição Stanley Kubrick 09

Filosofia de vida.

 

Serviço:

Stanley Kubrick | Ingressos Online
R$ 20 (não há venda de meia-entrada)
Ingressos somente antecipados à venda a partir de 1/10 pelo site: www.ingressorapido.com.br
Atenção: O visitante que realizar a compra antecipada não pode utilizar o ingresso em outra data que não a requerida.

Recepção MIS
R$ 10 (inteira) R$ 5 (meia)
Ingressos para a mesma data da visitação à venda a partir de 11/10 nos horários: terça à sexta-feiras, das 12h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 21h. Terças-feiras: Ingresso gratuito.

Jackie

Jackie

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

As irmãs gêmeas Sofie e Daan (Carice van Houten e Jelka van Houten, também irmãs na vida real) não parecem plenamente satisfeitas com os rumos opostos que levaram. Sofie é uma workaholic um tanto dura com a vida e com as pessoas ao seu redor e Daan sente que não desempenha perfeitamente o papel de esposa por não dar um filho ao seu marido careta. Filhas de um casal homossexual, ambas foram concebidas por uma barriga de aluguel. Não há qualquer problema na relação desta família, mas Sofie e Daan ainda assim sentem a ausência de uma figura materna em suas vidas.

Ao receberem a notícia de que a mãe biológica delas, Jackie (Holly Hunter), precisa ser removida de uma instituição, Sofie e Daan esboçam reações distintas. Apesar de ter nascido alguns minutos antes que Daan, Sofie já é naturalmente marcada por aquele instinto protetor e lúcido de uma irmã mais velha e acredita que a melhor coisa a fazer é ignorar a existência de Jackie. Daan pensa o contrário, pois imagina que Jackie seja a pessoa que preencherá o único espaço vazio do seu emocional.

Pós e contras são levantados e as irmãs partem da Holanda para os Estados Unidos para ir ao encontro de Jackie. A surpresa é que Jackie definitivamente não é a mãe que idealizaram. Com uma perna quebrada e sem apego à aparência, Jackie é uma mulher de comportamento extremamente rude. No entanto, a viagem, que inclui uma parada na fazenda que pertence ao irmão que Jackie não vê há anos, fará mudar a perspectiva de cada uma sobre si mesmas e dos estilos de vida que seguiram até aqui.

Terceiro longa-metragem da cineasta Antoinette Beumer (mais conhecida pela direção de alguns episódios da versão holandesa para o seriado “In Treatment”), “Jackie” é um drama com toques cômicos que revisita algumas características já consagradas em road movies, como a viagem por estradas desertas e ensolaradas como representação de uma jornada interior para que cada personagem se redescubra. Se a ausência de novidades é sentida, não se pode negar que “Jackie” seja um filme prazeroso. Não muito por Holly Hunter, um tanto caricata ao expressar as inquietações de sua Jackie, mas por Carice van Houten e Jelka van Houten, que tornam autêntica a ligação de sangue que preservam de fora para dentro da tela.

Jackie, 2012 | Dirigido por Antoinette Beumer  | Roteiro de Antoinette Beumer | Elenco: Carice van Houten, Jelka van Houten, Holly Hunter, Valerie Adams, Luis Bordonada, Chadwick Brown, Jacob Browne, Hayo Bruins, Edward A. Duran, Bradford Fairbanks, Joe Freeman, Howe Gelb, Pam Gow, Bryan Head e Lynda Fazio | Distribuidora: Cafco | Perspectiva internacional