No

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Em temporada de eleições em nosso país, os meios de comunicação são tomados por programações de campanhas realizadas por partidos políticos. A televisão é o veículo que se destaca como o mais utilizado para a propagação de promessas dos candidatos. As emissoras obrigatoriamente disponibilizam um espaço em sua grade que busca atingir o maior número de telespectadores. Daí a antipatia do brasileiro pelo horário eleitoral gratuito, uma vez que configura no atraso do telejornal que o atualiza sobre os acontecimentos do dia ou mesmo sua telenovela favorita.

Por outro lado, o horário eleitoral gratuito também pode ser denominado um fenômeno que influencia (e até mesmo entretém) toda a nação. Como não recordar uma figura pública espalhafatosa como o finado candidato do PRONA Enéas Carneiro, que em 2002 se elegeu como Deputado Federal ao receber votação recorde? Há também Paulo Salim Maluf, cuja carreira como político eleito fez cair por terra o próprio caráter que exaltava exaustivamente em campanhas eleitorais. São apenas dois exemplos que evidenciam o que muitos jamais enxergam com clareza: as engrenagens por trás de um jogo político.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “No” não é próximo de nosso passado recente (ou mesmo de nosso cenário contemporâneo) somente por se tratar de uma produção latino-americana. Assim como o Brasil, o Chile também viveu os seus tempos de chumbo e a democracia promovida com o poder do voto é o que constrói a história.

Realizador de “Tony Manero”, Pablo Larraín adapta a peça teatral homônima de Antonio Skármeta para reviver a Ditadura Militar de Augusto Pinochet, tomando posse do Chile com o Golpe Militar em 1973 que eliminou o presidente marxista Salvador Allende. A história se passa em 1988 e o país segue com centenas de desaparecidos por agentes do Governo Pinochet, presos políticos e censura na imprensa.

Embora tenha promovido plebiscitos durante o seu Governo, Pinochet se beneficiou ao inviabilizar qualquer interferência da oposição, firmando-se anos a fio à frente do Chile. O mesmo não ocorre ao final da década de 1980, em que as pressões (inclusive internacionais) o fazem inaugurar um novo plebiscito em que os chilenos expressarão o apoio ou objeção a um novo mandato de oito anos.

Requisitado publicitário, René Saavedra (Gael García Bernal) é convocado para elaborar projetos a serem exibidos em rede nacional para que as pessoas votem “Não” para a eleição de fevereiro de 1988. Restam aproximadamente quatro semanas para que a população vá às urnas e René se apresenta inadequado para liderar um movimento pela mudança. A princípio, René não parece saber o que está fazendo (sequer identifica o que representa cada cor do arco-íris que cobre o logotipo “No”) e há preocupações pessoais em excesso, como a responsabilidade de trabalhar e cuidar do filho pequeno Simón (Pascal Montero), fruto de um relacionamento desfeito com Verónica (Antonia Zegers), jovem que é constantemente capturada ao participar de manifestações populares contra Pinochet. Além disso, René é subordinado de Lucho Guzmán (Alfredo Castro), que, por sua vez, moverá forças para criar campanhas pelo “Sim”.

Com a intenção de emular a estética midiática dos anos 1980, o cineasta Pablo Larraín ousou ao rodar “No” com U-matic, o formato de tape analógico para gravação com 3:4 de proporção (a tela recebe cortes verticais). Para nos ambientar naquele período, a diretora de arte Estefania Larrain investe pesado na fidelidade aos cenários, objetos de cena e até mesmo ao estilo oitentista dos personagens, algo possível graças ao trabalho da figurinista Francisca Román  e da maquiadora Margarita Marchi.

Por ter origens teatrais, “No” é irregular quando a ação demanda largo alcance. O roteiro ignora a encenação de conflitos com uma grande concentração de pessoas e quando não os evita no clímax, o resultado soa inconvincente. Para aplacar essa deficiência, “No” confere maior importância às propagandas políticas idealizadas por René, que definitivamente representam os maiores trunfos de “No”. De tão ingênuas, elas provocam risos inevitáveis. No entanto, o elemento surpresa vem sobre a conclusão que tiramos sobre elas. Trata-se de ferramentas persuasivas que determinou não somente o fim de Pinochet, como também os rumos de todo o panorama político.

No, 2012 | Dirigido por Pablo Larraín | Roteiro de Pedro Peirano, baseado na peça homônima de Antonio Skármeta | Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Marcial Tagle, Pascal Montero, Jaime Vadell, Elsa Poblete, Diego Muñoz, Roberto Farías, Sergio Hernández, Manuela Oyarzún e Paloma Moreno | Distribuidora: Imovision

Os 10 Melhores Filmes da 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Embora a 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo tenha encerrado com a Repescagem que seguiu até o dia 7 de novembro, as responsabilidades diárias impediram que publicássemos comentários sobre todos os filmes assistidos até o início deste mês. Portanto, chega somente agora a nossa lista dos dez melhores filmes assistidos no festival que anualmente promove uma maratona de tirar o fôlego para cinéfilos.

Chegamos a este top 10 devendo algumas coisas. Devido a nossa distância do palco do CineSesc, não obtemos uma gravação de qualidade do bate-papo realizado com o diretor Michael Wahrmann, de “Avanti Popolo“. Alguns trechos dos depoimentos de Ricardo Pretti sobre “O Rio nos Pertence” também foram comprometidos. Com mais tempo e paciência, pretendemos realizar as transcrições das duas gravações e publicá-las futuramente. Além do mais, temos aproximadamente duas horas de registros da conversa com o cineasta coreano Park Chan-wook promovida no teatro da FAAP. Está em nossos planos fazer uma homenagem a Park e a transcrição será destinada para essa ocasião.

Também sentimos a necessidade de dedicar um parágrafo aos colegas de blogosfera que conhecemos ou revimos durante a Mostra. Colega na direção da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos e editor do Pós-Première, Elton Telles dividiu muitas sessões com a gente, bem como o seu amigo cinéfilo Paulo Soares. Também conhecemos Erasmo Penteado, do Vision de Cinematique. Os demais colegas já são rostos conhecidos: Adécio Moreira Jr. (Poses e Neuroses), Cecilia Barroso (Cenas de Cinema), Hélio Flores (Cinefilia.com), Márcio Sallem (Em Cartaz), Maurício Ribeiro (Spoiler Movies) e Rafael Carvalho (Moviola Digital).

Vale dizer também que participamos de três listas sobre a Mostra promovidos por três sites diferentes. Como colaborador do Cenas de Cinema, pude dizer quais foram os destaques do festival a partir de uma lista temática. Na Sociedade Brasileira dos Blogueiros Cinéfilos, todos os membros que cubriram o evento apontaram um filme favorito. Por fim, a Liga dos Blogues Cinematográficos, da qual sou membro desde o início deste ano, fechou uma lista não publicada no site com os dez melhores filmes da edição a partir de um top 10 feito pelos membros.

Sem mais delongas, confiram a nossa seleção por ordem de preferência. Todos os filmes foram devidamente comentados, basta clicar no sinal de adição para ler a resenha.

  Apenas um Suspiro | Le temps de l'aventure

01. Apenas um Suspiro +

  Confissão de Assassinato | Nae-ga sal-in-beom-i-da

02. Confissão de Assassinato +

  Cães Errantes | Jiao you

03. Cães Errantes +

 

O que os Homens Falam | Una pistola en cada mano

04. O que os Homens Falam +

  Somos o que Somos | We Are What We Are

05. Somos o que Somos +

  Olhos Frios | Gam-si-ja-deul

06. Olhos Frios +

  Educação Sentimental

07. Educação Sentimental +

  Instinto Materno | Pozitia copilului

08. Instinto Materno +

  Tatuagem

09. Tatuagem +

  A Ternura | La tendresse

10. A Ternura +

 

Bate-papo com o diretor Hilton Lacerda, a atriz Sylvia Prado e o ator Sílvio Restiffe, de “Tatuagem”

Hilton Lacerda

Hilton Lacerda, diretor de “Tatuagem” [Foto: Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Todos aguardavam com ansiedade a primeira exibição de “Tatuagem” na 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que aconteceu na sala 1 do Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca na sexta-feira, 25 de outubro. O atraso para iniciarem a exibição do filme era aguardado. O mesmo não pode ser dito sobre um problema de projeção que se apresentou já nos primeiros segundos: os comerciais dos patrocinadores e a vinheta da Mostra foram exibidos com uma coloração esverdeada. Protestos rapidamente foram emitidos e tudo indicava que a exibição de “Tatuagem” seria cancelada.

Felizmente, Jean Thomas Bernardini, o nome por trás da distribuidora independente Imovision, havia se prevenido uma versão 35mm de “Tatuagem“, o que animou toda a plateia. Ovacionados, diretor e equipe do premiado longa-metragem não somente o apresentaram, como voltaram após os créditos finais para um rápido bate-papo. Quem roubou as atenções na ocasião foi o bebê da atriz Sylvia Prado, que a todo momento pegava o microfone. Nasce uma estrela?

 

Tatuagem

Sobre a distribuição de “Tatuagem” no Brasil.

Hilton Lacerda: Eu não entendo público como mercado, são duas coisas diferentes. Tenho uma preocupação relacionada ao cinema brasileiro. Como opinião pessoal e até muito perigosa, estamos começando a ficar feliz com muito pouco. “O Som ao Redor”, do Kléber Mendonça Filho, foi um filme que teve uma bilheteria incrível, foram 100 mil espectadores. Ou mudamos essa gramática de como essas coisas são tão elaboradas ou vamos acabar perdendo o olhar. Eu não quero, por exemplo, que um órgão específico contabilize quantas pessoas viram o meu filme. Não quero um Filme B dizendo que três mil, cinco mil, quinze mil pessoas viram “Tatuagem”. Quero que as pessoas simplesmente o vejam. Não estou oferecendo o meu filme para público mas sim para pessoas. Acho muito triste a ideia de um país estar se tornando mercado dos outros, pois a gente só recebe coisas do mercado dos outros. A gente deve ser responsável pelas nossas próprias merdas. Vamos de fato colocar o nosso cu na reta e ver o que acontece.

Tatuagem

Sobre a dinâmica do Chão das Estrelas.

Hilton Lacerda: Começamos a fazer o teste com os atores durante seis semanas de convivência. No roteiro havia as peças que deveriam ser reproduzidas e entregamos para o grupo de teatro para que representassem, trazer para gente o que eles viam naqueles espetáculos, o que foi uma forma de aproximação. Talvez a experiência mais interessante seja os próprios atores, pois isso se reproduz no Chão de Estrelas. Não que cinema tenha que ser feito desse jeito, mas neste caso específico era muito importante para que isso inspirasse a gente de alguma forma. É muito complicado você interpretar dois números musicais  com dados específicos: essa coisa pseudonaturalista que é o cotidiano e a extravagância que é o teatro. Tivemos a (preparadora de elenco) Amanda Gabriel, que trabalhou com a gente o tempo inteiro fazendo essa ponte e criando essa possibilidade. São personagens muito importantes, os de Chão de Estrelas. Havia a proposta de todo mundo ir e vir junto para o mesmo lugar. Um exemplo é o Irandhir Santos, um ator que eu admiro demais. Mas a ideia não era de todo mundo chegar a Irandhir, mas que ele se aproximasse do grupo. Foi uma declaração de amor com os atores mais lindos e brilhantes com quem trabalhei ultimamente.

Sylvia Prado (intérprete de Deusa): Foi muito impressionante porque a atmosfera do Chão de Estrelas já existia. Eu cheguei e vi uma companhia de teatro muito forte, foi um trabalho muito intenso. Muitas das coisas que a gente viveu lá estão na película. A escolha foi muito assertiva porque neste pouco tempo  a gente viveu a eternidade, foi maravilhoso. Eu era de alguma maneira essa personagem com o olhar de fora da companhia e que conversa com o Clécio (personagem de Irandhir Santos). A gente fez muito laboratório com a Amanda, maravilhosa e que equalizou tudo isso, e quando eu cheguei ela já me colocou no fogo de uma relação que eu tinha que ter com o Clécio. Irandhir é um ator excepcional e ele foi generoso com todos nós. Foi o pai dessa companhia que existe até hoje.

Eu acho que esse filme é atualíssimo e importantíssimo para o Brasil e o mundo hoje, pois queremos viver com liberdade artística. Eu tenho esse desejo como atriz de teatro e fiquei muito feliz de ser convidada pelo Hilton com toda a minha dificuldade. Falta fusão entre as artes. A cultura precisa de liberdade para criar, de fazer o que pode, o que tem desejo de fazer. “Tatuagem” foi feito com muito desejo e eu sinto falta que a gente junte o teatro e o cinema, pois estamos falando a mesma língua e com as mesmas necessidades no Brasil de hoje.

Silvio Restiffe (intérprete do Professor Joubert): Compartilho sobre o que a Silvia falou. Além da Amanda, teve um diferencial, que foi de uma outra janela que tive de filmar. Realmente isso aconteceu e eu participava da criação dos filmes em Super 8mm. No primeiro dia de filmagem, o Hilton me disse que eu participaria da criação do filme. Eu disse ok. Esse processo de criação do filme me ajudou muito e gostaria de agradecer ao Hilton e também ao (diretor de fotografia) Ivo Lopes Araújo, que me apresentaram essa janela. Eu descobri muito sobre filme através de olhar a câmera e frame a frame e esse processo de criação da cena em que fazíamos cada número. O que vejo do filme é que foi uma ponta de iceberg, um processo muito intenso. A gente estava naquela atmosfera o tempo todo. É muito diferente, o mundo do cinema e do teatro. Estava saindo com a Sylvia de uma peça com duração de sete horas e aí, de repente, a gente saí das cinzas e vai a eternidade. O cinema é essa pintura rupestre. Quem viu a peça “O Idiota – Uma Novela Teatral”, viu. Quem não viu…

Hilton Lacerda: Tem uma coisa relacionada aos atores que era uma certa cumplicidade, às vezes era muito engraçado. Haviam figurantes que gostariam de participar da apresentação do Chão de Estrelas e que diziam que era muito bom trabalhar em “Tatuagem”, pois podiam fumar e beber. Disse que tudo bem. Contanto que não atrapalhassem, está tudo certo. Isso fazia parte de nossa proposta. Qualquer pessoa que esteja em frente a uma câmera e se propor a algo já é ator. A coisa mais engraçada era você emprestar o seu corpo para algo que na minha cabeça era muito importante.

Bate-papo com Júlio Bressane, diretor de “Educação Sentimental”

Júlio Bressane

Júlio Bressane, diretor de “Educação Sentimental” [Foto: Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Cineasta veterano ainda em atividade, o carioca Júlio Bressane prossegue com a produção de filmes em que ele mesmo admite são saber o que são. Mesmo que isto acarrete na organização de um público muito restrito (seu último filme, “A Erva do Rato”, foi assistido por aproximadamente 10 mil espectadores durante sua jornada no circuito comercial), há ainda força em seu nome ao ponto de prosseguir como um de nossos cineastas mais autorais em um país que prioriza as produções populares.

Júlio Bressane reagiu com surpresa quando uma boa parcela do público que assistiu a “Educação Sentimental” permaneceu na sala após os créditos finais para participar de um bate-papo – com duração de aproximadamente 15 minutos, a oportunidade de falar com o público se alongou em meia hora. A primeira exibição de seu novo longa-metragem na 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo aconteceu no dia 23 de outubro. Quase um mês depois, postamos a transcrição da gravação que fizemos na ocasião. Não foi uma tarefa fácil, uma vez que é hábito de Bressane ir muito além das perguntas realizadas, o que é sempre bom para elucidarmos ainda mais o seu cinema peculiar.

Sobre a relação com o cinema.

O filme propõe. O indivíduo dispõe. Você faz um filme e não sabe o que é. Se eu soubesse, eu não fazia. Tem uma parte da coisa que você controla, que você domina. Mas há a outra parte que domina você. O que você faz é uma coisa mínima que a sua consciência permite. Difícil é você deixar que essa outra força fale por você, que te contradiga, que negue o que você está fazendo. Essa ideia que surge, uma “viagem”, é o momento bom do filme, onde você pode esquecer de si mesmo, sair um pouco de si mesmo, sair para algo fora de você.

Educação Sentimental

Sobre o personagem de Bernardo Marinho e inaturalidade.

Eu procuro não me meter com o filme. Eu tenho alguma coisa que me é dada, uma cena… Eu vou atrás daquilo, mas procuro não me meter com o filme. Evito, até onde posso, não direcionar coisa nenhuma, apesar da questão do enfraquecimento das palavras, do discurso básico. Mas, mesmo assim, tem que falar alguma coisa. A dificuldade está dentro de entender a histeria e não haver espaço para falar. As coisas são ditas para serem compreendidas. Há o menino que tem o dom da escuta, não sabe nada, um jovem completamente despreparado para qualquer coisa. Não tem experiência de leitura, de vida. Não tem nada, não sabe nada. Agora, também é alguém que tem o dom ouvir, esta é a questão rara. Não somente em um jovem, mas em qualquer um. É uma educação às avessas, pois é dito coisas que ele não compreende, que ele não sabe o que são. São coisas ditas justamente para não serem compreendidas. Mas se alguém pode escutar, tem que continuar escutando. Agora, a persistência em escutar, a persistência em buscar esse desentendimento, vem do esforço de cada um. No momento em que você compreendeu e já sabe o que é, tudo está morto. A questão é justamente alguma coisa que excite porque você não sabe o que é. A força ali está na capacidade de escutar, esse dom. É uma coisa perdida a educação, o afeto… está tudo fora do mapa. Não tem mais importância.

O dinheiro está de uma maneira distribuído hoje no qual não tem mais como reverter. A coisa sensível está desaparecida. Hoje é o valor, suprir o salário, a vitória da civilização do trabalho. Isso aí é o mundo irresponsável, o mundo ocioso, o mundo inútil. Essa que é a coisa interessante. Hoje a escravidão é paga bem, inclusive. A gente luta pelo salário. Imagina você trabalhar dez, doze horas ou até mais que isso. Não tem como mais ter um outro estilo. Hoje as artes são repartidas com restaurantes, com a Disneylândia, com coisas para as quais você trabalha, luta para ter um salário, para gastar nisso. Você trabalha, você se mata para comprar um relógio, um carro. Essa questão é hoje inatual e anacrônica. O contemporâneo é o inatual. Áurea é uma mulher que tem o dom da memória, de fazer com que uma coisa desaparecida, distante, possa se aproximar de você, o que um filósofo chama de “imagem dialética”. Uma coisa de um passado e que vem até agora. Junta-se os tempos, aquela coisa nebulosa que se forma. Você vê o passado e o agora se juntarem. Isso é uma imagem dialética. Isso é algo que tem em “Educação Sentimental”. É um filme inatual. Isso é um milagre, ter gente aqui sentada ainda. Não há mais público para isso. É o mesmo que falar japonês na Nigéria. Não há como compreender.

Educação Sentimental

Sobre o trabalho em equipe, finitude e geocentrismo.

Todos os filmes demoram um pouco para você organizar, racionalizar o irracional. Devo esse filme ao (produtor) Marcello Ludwin Maia. “Educação Sentimental” tem algo semelhante à pintura, antiga, de ateliê. É feito por muitas mãos. Muitas mãos trabalham ali. Marcelo foi quem organizou essas forças para trabalhar no filme. Isso tudo é uma preparação que se organiza e que na hora de filmar se esquece. Eu faço cinema de improviso. Agora, para chegar aí, você faz as coisas contra você, evita fazer as coisas que você gosta. De repente, o que você gosta é uma porcaria. A dificuldade está em justamente entender alguma coisa que você não gosta e aí essa coisa pode funcionar para você. Se você imaginar uma coisa para você fazer porque quer ou porque gosta, não seria necessário fazer. É como ir para uma terra incógnita. Há uma preparação e um sacrifício muito grande. O sacrifício de persistir em uma coisa e se apagar nela.

Um caso desse que está em jogo, uma coisa importante, é que, apesar de ter mais de 500 anos, nós ainda vivemos como se a Terra fosse o centro do universo. Chegamos ao mundo geocêntrico e ainda estamos no mundo geocêntrico. Estamos ainda em um mundo que gira em torno da Terra. Isso daí já é a cosmologia infinitiva, já é a passagem onde a morte é bem-vinda, que foi uma coisa que desapareceu da nossa vida. A musa da vida é a morte e ela desapareceu, hoje ninguém morre mais. Essa coisa senil da juventude em que tudo é investido. Ou seja: tudo investido em coisa alguma. Essa figura central, que é a finitude, é o que o levará para o infinito. Isso daqui em breve não passará de poeira. E essa é a memória futura que você está jogando, não a passada. Essa é uma discussão que é você dar uma taça de veneno para a pessoa beber. Ninguém que está fazendo o sacrifício que faz hoje aceitará isso. A vitória absoluta é da civilização do trabalho. Desse trabalho que está aí, o peão.

Educação Sentimental

Sobre a figura materna representada por Débora Olivieri, transparência e opacidade.

Áurea é mulher com um dom humano arcaico, que é o de colocar as entranhas em contato com as estrelas. Isso é feito através da dança, uma coisa arcaica da humanidade. Há cerimônias religiosas, de euforias, em que você se colocava em relação cósmica. Criava entre você e o cosmo um elo, uma força que foi perdida. Assim, o filme tem um pouco essa sonoridade desse atrito das entranhas com as estrelas. O filme tem uma mancha de fundo que é a questão da divindade, do amor proibido, do amor de um imortal por um mortal. É aí que surge essa questão da mãe, que chega para criar um desacerto. A mãe é o humano. Tudo o que ela diz são as coisas humanas: mãe querer comer o filho, suruba com a própria empregada. Isso é coisa humana, da humanidade inteira. Isso é o que quebra o encanto, revela que o menino é humano. A mãe é o fator humano, o fator normal, o Homem comum que chega para dizer o que todos os homens dizem. Não há uma mulher que não queira comer o filho ou vice-versa. Isso faz parte da natureza do Homem – bom, não estou dizendo que todos tenham feito isso ou que pensam “Bom, isso não é comigo” ou que esses homens só existem nos livros ou, não, que nós somos outra coisa. Essa que é a questão da tradição, da erupção da personagem, uma mulher humana, comum. Gente ordinária.

Há um aspecto secundário em meus filmes. O cinema sofre de uma hipertrofia imensa. O cinema hoje é sobre um sujeito que sai de carro, bateu e voltou para casa. O filme se limita a isso. Você imagina um fotograma, com centenas de milhares de grãos. Cada grão é uma luz. Tô falando da trama. Há uma deformação. Você vai buscar uma coisa no filme que talvez ele não tenha. Uma história, um enredo. E isso não é da natureza do filme. A coisa de fundo que tem aí é a questão da passagem da transparência para a opacidade. Cinema até hoje – ou o cinema de ontem – foi feito em película. Ou seja, a complexidade do mecanismo do cinema é que ele é uma projeção de uma transparência. O filme é um fotograma transparente, uma pasta granulada onde se imprime a luz. O cinema tem que ser visto a partir do fotograma, não do enredo. Isso é julgar elefante pela unha. O início é a questão da ocupação da transparência pela sombra, alguma coisa que organiza o nada.

Nós recebemos uma carta do laboratório que fez “Educação Sentimental” nos cumprimentando por ser o último filme feito em película por lá. Desmontaram o laboratório e doaram tudo para a Cinemateca. A película hoje não tem mais razão para existir. Na França de hoje, o país do cinema, 95% dos cinemas contêm somente projeção digital. Então passou o cinema da transparência para a opacidade. O digital é opaco. Como foi o vídeo, que já era opaco. Agora, isso não é uma perda, como muitos podem imaginar. A opacidade é algo importante, é o inconsciente e o sujeito. O campo de exploração da opacidade é tão interessante quanto o campo de exploração da transparência.

Cães Errantes

Cães Errantes | Jiao you

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Enquanto duas crianças dormem, uma mulher senta à beira da cama que elas dividem com um olhar vazio. É certo que ela é mãe delas, mas as possibilidades que nos perturbam a partir de sua expressão são inúmeras. Estaria esta mãe decidida a abandoná-las, refletindo sobre sua própria existência ou a cometer um ato irreversível? Tudo isso está presente somente no primeiro take de “Cães Errantes”, novo longa-metragem de Tsai Ming Liang que se constrói a partir de momentos como esse.

A seguir, as mesmas crianças (interpretadas por Lee Yi-cheng e Lee Yi-chieh) são vistas na presença do pai (Lee Kang-sheng), que passa por um sufoco diário para sustentá-las. Durante o dia, trabalha nas ruas de Taipei executando aquele que pode ser considerado um dos piores trabalhos no mundo: outdoor humano. As chuvas severas amplificam o sentimento de pena por um homem totalmente ignorado em um cenário que se verticaliza.

As noites passadas com os filhos não amenizam o desconforto insuportável nesta luta pela sobrevivência. A higiene básica é mantida em banheiros públicos e a alimentação diária é feita através de restos de comida ou amostras grátis de supermercados. O cubículo improvisado em uma área abandonada serve de lar para esta família.

Os diálogos são usados com economia em “Cães Errantes” e o cineasta Tsai Ming Liang é implacável no modo como registra cada acontecimento. São especialmente perversas duas cenas de aproximadamente cinco minutos em que a fragilidade do protagonista é exposta. Na primeira, um close em seu rosto registra o processo de desmoronamento emocional enquanto sustenta uma placa contra uma forte ventania. Na segunda, o vemos comendo frango como um animal esfomeado.

Tsai Ming Liang felizmente quebra as expectativas quando o discurso social deixa de ser o seu principal alvo. A figura materna, até então ausente, ganha um novo significado quando a certeza de que há muitas camadas ocultas sobre o protagonista se aproxima com a introdução de uma personagem a princípio alheia a tudo o que testemunhamos dolorosamente.

De certo modo, a experiência de se ver “Cães Errantes” é a mesma que mergulhar em uma galeria de imagens de um artista anônimo. O desconforto inicial é paulatinamente substituído por um sentimento de fascínio quando finalmente contemplamos as mesmas imagens com um olhar já amadurecido. Trata-se de algo oferecido por Tsai Ming Liang ao longo de “Cães Errantes”: a mesma pintura visualizada por uma personagem no meio da narrativa representa a nós mesmos quando mostrada pela segunda vez em uma conclusão fenomenal.

Jiao you, 2013 | Dirigido por Tsai Ming Liang | Roteiro de Tsai Ming Liang, Song Peng Fei e Yu Tung Chen | Elenco: Lee Kang-sheng, Chen Shiang-chyi, Lee Yi Cheng, Lee Yi Chieh e Lu Yi Ching | Distribuidora: Filmes da Mostra | Perspectiva Internacional

Trem Noturno para Lisboa

Trem Noturno para Lisboa | Night Train to Lisbon

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Já se tornou hábito algumas produções, inclusive não americanas, fazer com que os personagens de uma história interajam em inglês quando são de origens ou países estrangeiros.  Há quem aponte este sintoma como mera preguiça do público americano em acompanhar filmes com legendas, o que justifica a existência de inúmeras refilmagens atuais. Embora não precise lidar com esse tipo de compromisso, o cineasta dinamarquês Bille August faz com que os personagens portugueses de

Resenha Crítica | Educação Sentimental (2013)

 

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Com quase 50 anos de carreira, o diretor carioca Júlio Bressane é um raro modelo de artista que não deixou com que o tempo sucumbisse o seu modo de fazer cinema. Isto não o impede de continuar produzindo até hoje, já contabilizando, entre longas e documentários, nove títulos desde o início da década passada.

“Educação Sentimental” é um filme mais interessante que os recentes “Cleópatra” e “A Erva do Rato” porque é capaz de revelar o perfil de Bressane em meio ao flerte de enigmas visuais difíceis de serem elucidados. Mais do que acompanhar a sintonia instantânea entre uma professora e um aprendiz, “Educação Sentimental” se ampara no apego pelo antiquado.

Áurea (Josi Antello, extraordinária) contempla de uma sacada um rapaz (Bernardo Marinho) em uma piscina. A aproximação nos revela uma mulher madura e solícita em educar um adolescente ingênuo em busca de uma identidade. As aulas particulares são aplicadas na residência de Áurea, mas o ambiente se assemelha a de uma escola, conforme ressaltado com o som executado por Damião Lopes e Vanílton Santos de colegiais interagindo.

Diante de um relacionamento estreito, Áurea encanta-se com a prestação de seu jovem aprendiz enquanto este a deslumbra como uma figura que o seduz devido o seu intelecto. Tal reciprocidade é abalada quando o âmago de ambos é exposto. Se Áurea é abatida pela solidão, o personagem de Bernardo Marinho se deixa influenciar por uma didática que resultará na intromissão de sua mãe (Débora Olivieri) na relação.

A presença masculina segue frágil nos filmes de Bressane (é perceptível a inexperiência de Bernardo Marinho ao lidar com um texto difícil e recitado de modo pouco usual) e ele permanece enaltecendo suas protagonistas. Áurea é uma representação de um modo de expressão extinto. A didática que prioriza a capacidade do ouvir do aluno se mostra tão raro quanto o uso da película para a realização de um filme, atualmente vitimada pela expansão do mercado digital. Uma metáfora que se mostra a maior virtude de um filme comprometido apenas pela quebra do lirismo de sua encenação em seu extenso making-off usado como encerramento.

Educação Sentimental, 2013 | Dirigido por Júlio Bressane | Roteiro de Júlio Bressane e Rosa Dias | Elenco: Josi Antello, Bernardo Marinho e Débora Olivieri | Distribuidora: Ludwig Maia Arthouse | Mostra Brasil

O Grande Mestre

O Grande Mestre | Yi dai zong shi

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Realizador de filmes como “Amor à Flor da Pele” e “Um Beijo Roubado”, o chinês Wong Kar Wai é considerado único no modo como registra os romances entre seus personagens. Trata-se de um cineasta que usa intensamente os aspectos técnicos ao seu dispor (fotografia, música, direção de arte) para criar interações em que um mero detalhe emite um sem número de significados e emoções. Por tudo isso, causa estranhamento o seu envolvimento em uma cinebiografia sobre Ip Man.

Para falar a verdade, cinebiografia é uma mera formalidade para descrever “O Grande Mestre”, uma vez que Wong Kar Wai não recorre a características convencionais para contar a história de seu protagonista, notório no Ocidente por ter sido o mentor do astro das artes marciais Bruce Lee. Antes a favor de histórias de amor, agora sua estética singular opera uma trama em que os principais tópicos são honra e vingança.

“O Grande Mestre” inicia com uma batalha arrebatadora sob chuva intensa entre Ip Map (Tony Leung) e Gong Yutian (Wang Qingxiang), dois mestres rivais. Estamos ao final da década de 1930 e a vitória de Ip Map neste embate promove uma rede de intrigas liderara por Gong Er (Zhang Ziyi, que há muito não brilhava), filha de Gong Yutian. Na segunda metade de “O Grande Mestre”, Ip Map torna-se uma figura secundária quando Gong Er também planeja lutar com Ma San (Zhang Jin), pupilo de seu pai e agora inimigo.

Troca de olhares e gestos entre casais apaixonados são substituídos em “O Grande Mestre” por golpes mortais da arte do kung-fu, embora Wong Kar Wai jamais deixe de sugerir que há algo além do ódio em embates belamente coreografados. Neste aspecto, “O Grande Mestre” em nada deve aos épicos conduzidos por Zhang Yimou (“A Maldição da Flor Dourada”, “O Clã das Adagas Voadoras”, entre outros). O contrário se diz sobre a narrativa, que cobre grande parte da existência de Ip Map com desordem. As mudanças de foco em personagens, os letreiros explicativos e um terceiro ato com múltiplas possibilidades de conclusão frustram as expectativas investidas neste retorno de Wong Kar Wai ao longa-metragem.

Yi dai zong shi, 2013 | Dirigido por Wong Kar Wai | Roteiro de Wong Kar Wai, Xu Haofeng e Zou Jingzhi | Elenco: Tony Leung, Zhang Ziyi, Zhang Jin, Wang Qingxiang, Song Hye-kyo, Le Chung, Tsui Elvis, Liu Chia Yung, Tsang Chiu Yee, Lo Hoi-Pang, Lau Shun, Zhou Xiaofei, Wang Mancheung, Ng Ting Yip, Cho Man Keung, Tony Ling, Shang Tielong, Hung Sui Kai, Darren Leung, Lo Meng, Li Huiwen, Xhao Benshan e Chang Chen | Distribuidora: California Filmes | Ciclo de Filmes Chineses / Perspectiva Internacional

Resenha Crítica | Confissão de Assassinato (2012)

Confissão de Assassinato | Nae-ga sal-in-beom-i-da

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Há na Coreia do Sul (e em outros países, como o Brasil) uma lei que assegura que um indivíduo seja legalmente perdoado quando sua captura não é realizada em até 15 anos após um ato criminoso. Somente para relembrar um caso famoso e recente, houve relatórios policiais que associavam Robert Wagner com a morte misteriosa de sua esposa e estrela Natalie Wood, cujo cadáver foi encontrado na Ilha Catalina, Califórnia. Embora nada de definitivo tenha sido divulgado sobre a reabertura do caso, a justiça nada poderia fazer caso Wagner fosse confirmado como assassino.

Em “Confissão de Assassinato”, essa curiosidade é o que serve de mote para a trama. O bem afeiçoado Lee Du-seok (Park Shi-hoo) vem a público com um potencial best-seller em que assume a autoria de inúmeros crimes realizados há mais de quinze anos. Isto tira do anonimato o detetive Choi (Jeong Jae-yeong), o responsável pela investigação desse assassino em série que matou brutalmente doze mulheres.

Mesmo que Choi (e muito menos a gente) não acredite que Lee esteja verdadeiramente arrependido como descreve nas páginas no autobiográfico “Confissão de Assassinato”, nada o impede de se transformar em uma celebridade nacional. Potenciais vítimas há 15 anos, agora as garotas o admiram como se estivessem diante de um Justin Bieber. No entanto, nem todos estão satisfeitos com essa impunidade, a exemplo de Han Ji-soo (Kim Young-Ae), uma senhora que perdeu sua filha para Lee e que agora planeja fazer justiça com as próprias mãos.

Se fosse só isso, “Confissão de Assassinato” certamente prenderia a atenção até o final. No entanto, “convencional” é definitivamente uma palavra que não existe no vocabulário do cinema coreano. Se “Confissão de Assassinato” inicia violento e estilizado, logo dá espaço para um humor para lá de debochado. E os risos não se apresentam somente nas ocasiões em que colegiais seguem os passos de Lee como uma celebridade, como também nas inúmeras reviravoltas pregadas pelo roteiro, como o sequestro de Lee, um dos mais absurdos já encenados na história do cinema.

Pode-se supor que o diretor e roteirista Jung Byung-gil tenha usado o humor como reflexo para os absurdos de tudo o que é relacionado à justiça ou mesmo ao funcionamento do sistema da fama. No entanto, cobrar alguma sanidade diante do que é testemunhado seria o mesmo que remover aquilo que torna justamente “Confissão de Assassinato” o filme mais inusitado a pintar na programação da última edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Agora é torcer para que esta estreia de Jung Byung-gil faça sua merecida carreira. Títulos como “Confissão de Assassinato” definitivamente não merecem ficar reclusos a festivais.

Nae-ga sal-in-beom-i-da, 2012 | Dirigido por Jung Byung-gil | Roteiro de Jung Byung-gil | Elenco: Jeong Jae-yeong, Park Shi-hoo, Kim Young-Ae, Choi Won-yeong, Jang Gwang, Jo Eun-ji, Kim Yeong-ae, Min Ji-a e Young Choi Won | Foco Coreia

Mudando as Regras

Mudando as Regras | Ghaedeye tasadof

37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

A quantidade de produções iranianas que chegam ao circuito nacional é mínima e em cada título existe a condição feminina como uma das principais abordagens a serem trabalhadas. Realizador em ascensão, Asghar Farhadi produziu recentemente dos dramas que confirmam este interesse: “À Procura de Elly” e “A Separação”, que no ano passado conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. “Mudando as Regras” não deve ser lançado comercialmente no Brasil, mas segue a mesma linha.

A história flagra um grupo teatral se preparando para embarcar em sua primeira temporada fora do país. Está tudo em seu devido lugar para que os planos deem certo. A única pendência é a bênção que Shahrzad (Neda Jebraeili), protagonista da peça, precisa pedir ao seu pai (Amir Jafari) para realizar esta viagem. O que deveria ser uma mera formalidade se transforma em pesadelo, uma vez que ele a proíbe de seguir em frente e ainda esconde o seu passaporte a sete chaves.

Apesar do embate entre pai e filha ser registrado de modo arrebatador pelo cineasta Behnam Behzadi, “Mudando as Regras” é equivocado no modo como conduz sua proposta. Há um interessante discurso sobre a arte como refúgio para mulheres presas em uma pátria em que não têm voz. Ainda assim, as coisas não são muito favoráveis para Shahrzad, que superou recentemente uma depressão que quase a fez tirar a própria vida. Mesmo diante desse fato, “Mudando as Regras” sabota o instinto paterno presente em um lado para favorecer o outro. Na escolha em priorizar a perspectiva dos amigos de Shahrzad, Behnam Behzadi vilaniza o pai dela.

Ghaedeye tasadof, 2013 | Dirigido por Behnam Behzadi | Roteiro de Behnam Behzadi | Elenco: Amir Jafari, Ashkan Khatibi, Mehrdad Sedighian, Baharan BaniAhmadi, Mohammad Reza Ghaffari, Elahe Hesari, Martin Shamoonpour, Neda Jebraeili, Roshanak Gerami, Sorush Sehhat, Omid Roohani e Soroosh Malamir | Competição Novos Diretores