Retrospectiva 2013

Eis que chegamos ao fim de mais um ano. E o momento é de pura reflexão, de avaliar os erros e os acertos. Afinal, não há como não se arrepender de ter visto determinados filmes, bem como comemorar as ocasiões em que me vi totalmente tocado por uma história simplesmente incrível. Sim, aquelas três horas de “Os Miseráveis” foram uma tortura que nunca devem ser revisitadas, mas nada que não tenha sido compensado por aquelas lágrimas de Jessica Chastain ao final de “A Hora Mais Escura”, toda aquela poesia viva em “As Sessões” ou aquele último ato de “Killer Joe – Matador de Aluguel”, que mostra o quão perturbados podemos ser.

A retrospectiva, no entanto, não foi feita para compartilhar esses devaneios particulares, mas para eternizar no Cine Resenhas os acontecimentos que marcaram o cinema em 2013. Não poderiam escapar as premiações e os resultados que amamos reclamar, as pessoas que nos marcaram ou que partiram para sempre e algumas tendências que podem ditar o que o próximo ano pode nos reservar.

Desejamos a todos os leitores um excelente ano novo. Não deixem de voltar aqui em 2014, viu?

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70º GLOBO DE OURO

Tommy Lee Jones Golden GlobesTommy Lee Jones feliz como se não houvesse amanhã.

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Eis que os responsáveis pelo Globo de Ouro finalmente acertaram em sua mais recente edição. Além de ter subido a audiência e a qualidade das gracinhas ao convocarem as fantásticas Tina Fey e Amy Poehler para apresentarem o show (as comediantes já foram confirmadas como hosts na edição do ano que vem), não houve a presença de filmes ou celebridades que faziam crescer a forte impressão de farsa que sempre rodeou o evento – para quem não lembra, ano retrasado o remake “O Turista” fisgou de modo suspeito indicações na categoria de Melhor Filme – Comédia e Musical, Melhor Ator (Johnny Depp) e Melhor Atriz (Angelina Jolie). Foi uma rara ocasião em que os vencedores casaram com aqueles anunciados no Oscar, mas ainda assim o Globo de Ouro conferiu reconhecimento merecido ao trabalho da atriz Jessica Chastain em “A Hora Mais Escura” e do ator Hugh Jackman em “Os Miseráveis”, uma das poucas coisas a saírem ilesas desse musical horrendo. Já divulgada, a lista de indicados ao Globo de Ouro 2014 prova que a Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood voltou a trilhar um caminho certo e respeitável.

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85º OSCAR

Jennifer Lawrence Falls at OscarsJennifer Lawrence vence o Oscar de Melhor Atriz, mas quem comemora é Quvenzhané Wallis – pronuncia-se “quan-vem-je-ney”, mané!

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Fazia tempo que os membros da Academia não se viam em uma barca furada. Quando os indicados ao Oscar 2013 foram divulgados, “Argo” cresceu diante do público e da crítica de modo inesperado. O único detalhe é que o nome de Ben Affleck não foi mencionado na categoria de Melhor Diretor. É um fenômeno estranho, pois todas as premiações americanas de cinema buscam dar crédito ao trabalho de um diretor cujo filme está entre os favoritos. Era tarde demais para rever a decisão e a atitude tomada foi dividir as estatuetas em quantidades quase inexpressivas. No fim das contas, “Argo” se deu bem em apenas três categorias: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem. Recordista em vitórias, “As Aventuras de Pi” conquistou quatro Oscars, o que incluiu um reconhecimento para lá de surpreendente para Ang Lee. Triste foi o caso de “A Hora Mais Escura”. Melhor e mais importante filme entre os indicados, “A Hora Mais Escura” teve de se contentar com uma mera vitória em Melhor Edição de Som. Detalhe: o prêmio foi dividido com os profissionais de “007 – Operação Skyfall”.

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66º FESTIVAL DE CANNES

 Carey Mulligan and Justin Timberlake at CannesCarey Mulligan e Justin Timberlake tirando onda com os franceses.

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Com a ausência de Ben Affleck na seleção dos melhores diretores no Oscar 2013, era certa a consagração de Steven Spielberg com o seu “Lincoln”. Não foi bem o que aconteceu. Apesar do balde de água fria, Spielberg foi convocado na sequência para assumir a direção do júri do Festival de Cannes neste ano – até trouxe a bordo Ang Lee, justamente o sujeito que levou a estatueta de Melhor Diretor no Oscar. Visto os filmes esquálidos que vêm dirigindo nos últimos anos, foi uma agradável surpresa que Spielberg tenha dado a Palma de Ouro justamente para “Azul é a Cor Mais Quente”, um drama romântico lésbico contemporâneo e impactante no modo como constrói e destrói um relacionamento. E o reconhecimento fez nascer um fenômeno inédito em Cannes: além do filme, um prêmio especial foi dado ao diretor Abdellatif Kechiche e as atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. “Um momento de breve felicidade diante do inferno que viria”, teria dito Kechiche: após os louros em Cannes, o diretor driblaria com a estrela Léa Seydoux uma série de discussões amplamente cobertas pela imprensa que só fez aumentar a curiosidade em torno de “Azul é a Cor Mais Quente”.

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O FRACASSO DE “O CAVALEIRO SOLITÁRIO”

Johnny Depp falls in The Lone RangerSim, Johnny Depp quase morreu no set de filmagens.

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Ao contrário do que se supõe, o fracasso comercial de “O Cavaleiro Solitário”, filme que ao todo custou 500 milhões de dólares e que faturou metade disso, não deveria ser apenas um mero item a figurar em um relatório sobre os filmes que não obteram um bom desempenho nas bilheterias. É um acontecimento que definitivamente mudará o jogo de como produzir um blockbuster. Midas dos filmes pipoca, Jerry Bruckheimer iniciou a carreira como produtor dando passos pequenos, o que lhe garantiu muita grana ao viabilizar filmes independentes como “Flashdance” e “Um Tira da Pesada”. Atualmente, Bruckheimer tem o seu nome envolvido nas produções mais caras do momento, mas só vem garantindo sucesso estrondoso com a franquia “Piratas do Caribe”. Pois nem Jack Sparrow consegue se livrar de todas as ameaças, uma vez que os números risíveis de “O Cavaleiro Solitário” fizeram com que Bruckheimer perdesse todo o seu prestígio diante dos donos do cofre da Disney. “Piratas do Caribe 5” irá acontecer, não tenha dúvidas, mas “O Cavaleiro Solitário” deixou uma mancha tão negra em 2013 que a partir de agora os lemas dos “poderosos chefões” serão cortar custos e não seguir com qualquer projeto que ameace ser um risco difícil de ser contornado.

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VETERANOS VOLTAM AO PASSADO

TwixtUm gorducho Val Kilmer e Elle Fanning mostram o que é terror de verdade em “Virginia”.

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Lançados neste ano no Brasil ou ainda inéditos por aqui, alguns títulos de grandes cineastas retomaram uma tendência curiosa: a volta às origens. Dirigido por Pedro Almodóvar, “Os Amantes Passageiros” traz o espanhol revendo o início cômico de sua carreira após duas décadas lidando com projetos de grande densidade. Adiado para o ano que vem, “Passion” mostra Brian De Palma emulando a si mesmo ao adicionar em sua história os elementos que o tornaram um mestre do suspense: surrealismo, duplicidade, erotismo e o uso de técnicas como o split-screen. Mais dois cineastas com obras ainda inéditas no país que relembraram com carinho suas origens soturnas são Neil Jordan e Francis Ford Coppola, respectivamente por “Byzantium” (uma história de vampiros) e “Virgínia” (um mistério de horror com direito a presença de Edgar Allan Poe). Até mesmo William Friedkin parece reviver os seus anos mais rebeldes com “Killer Joe – Matador de Aluguel”. O que todos os títulos apontados têm em comum além da nostalgia e dos grandes realizadores que os conceberam? Ninguém foi vê-los nos cinemas. Estaria o público de hoje desinteressado por essas experiências que revivem os ápices das artes particulares de cada um desses cineastas?

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MULHERES EM AÇÃO

The HeatSandra Bullock e Melissa McCarthy mostram quem manda na parada.

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Uma das coisas mais absurdas que ocorrem em Hollywood é a falta de confiança nas mulheres como protagonistas de fitas geralmente protagonizadas por homens. Com exceção de Angelina Jolie e Milla Jovovich, nenhuma outra atriz foi capaz de tornar um sucesso suas empreitadas em projetos que exigem muita adrenalina. Felizmente, isso mudou em 2013. Isso se deve a um fator muito importante: o modo como a ação é conduzida através de uma narrativa. Sandra Bullock quebrou inúmeros paradigmas ao estampar o seu nome no topo dos créditos de dois filmes: “Gravidade” e “As Bem-Armadas”. Na ficção de Alfonso Cuarón, sua personagem, Ryan, toma a frente de uma missão no espaço quando ela já não pode ser conduzida por George Clooney. Já na comédia de ação em que divide a cena com Melissa McCarthy, há a velha história de dois agentes da lei que não se dão muito bem, mas agora representados por duas mulheres fantásticas na arte de fazer rir. Jennifer Lawrence também entra nessa ala ao dar continuidade à franquia “Jogos Vorazes”, onde será representada como líder de uma revolução decisiva. Também não podemos nos esquecer de Jessica Chastain em “A Hora Mais Escura”. Rara presença feminina em uma história cercada por soldados e burocratas, Chastain prova que não será apenas a força bruta que irá assegurar a captura de ninguém menos que Osama Bin Laden. Que Sylvester Stallone e sua trupe tomem muito cuidado.

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.O ANO FOI DE J-LAW

Jennifer Lawrece is coolSim, nós já sabemos, Jennifer.

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Há muito que Hollywood solicita aos deuses cinéfilos que alguém promissor cruze o seu caminho. Hoje já consagrados ou pagando caro pelos seus erros profissionais e pessoais, nomes como Brad Pitt, Johnny Depp, Winona Ryder e Macaulay Culkin foram talentos que estouraram na infância ou adolescência. Havia expectativa que esses astros jovens dos anos 1980 e 1990 ganhassem representantes à altura neste século ainda novo, mas tudo não passou de promessas que não se cumpriram. Antes queridinhas, as agora bagaceiras Lindsay Lohan e Amanda Bynes são alguns exemplos de talentos que pisaram na bola. Somente Anne Hathaway, que ganhou este ano um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “Os Miseráveis”, saiu do mundo encantado da Disney e fez uma carreira digna. Tudo isso para dizer que Jennifer Lawrence é o destaque do ano porque é a jovem mais poderosa em Hollywood. Mesmo com o Oscar por “O Lado Bom da Vida” e vários sucessos consecutivos de bilheteria, Lawrence se porta como uma verdadeira estrela ao mostrar ser dona de um carisma que definitivamente encanta a todos.

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 R.I.P.

Lawrence of Arabia

O grande Peter O’ Toole em “Lawrence da Arábia”.

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Na mesma proporção que novos artistas se apresentam no cinema mundial, outras se despedem. Alguns de modo natural. Outros, de modo trágico. Protagonista da franquia “Velozes e Furiosos”, Paul Walker sofreu um acidente automobilístico grave antes que pudesse finalizar as filmagens de “Velozes e Furiosos 7”. Outro que partiu cedo foi o astro da série “Glee” Cory Monteith, que não resistiu após consumir uma mistura de bebidas alcóolicas com heroína. Também não podemos nos esquecer do veterano Peter O’ Toole, oito vezes indicado ao Oscar (recebeu um honorário dez anos atrás) e também a musa Esther Williams, que saiu das piscinas para mergulhar no mundo do cinema. Outras perdas sentidas: James Gandolfini, que antes de morrer de ataque cardíacio nos deixou uma interpretação emocionante em “À Procura do Amor”; Harry Reems, que ficou marcado negativamente para o resto de sua vida após participar de “Garganta Profunda”; Karen Black, que teve o privilégio de estrelar o último filme de Alfred Hitchcock, “Trama Macabra”; Wojciech Kilar, que fez as músicas extraordinárias de “Drácula de Bram Stoker”, “Retrato de Uma Mulher” e “O Pianista” e Besedka Johnson, que provou ser uma grande atriz aos 85 anos em seu primeiro e último papel no cinema em “Uma Estranha Amizade”.

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BLOCKBUSTER CHEGA AO FIM

VHS TrackingRebobine, por favor.

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Até dez anos atrás, as vídeo-locadoras eram as melhores opções para quem buscava por um entretenimento barato. O aluguel de filmes e games era o que garantia a felicidade de muitos adolescentes e famílias nos finais de semana, sempre se tornando uma opção para quem nem sempre podia arcar com as despesas de ir ao cinema. Com o advento do DVD, esse cenário mudou. Embora o formato tenha chegado no mercado ainda nos anos 1990, foi apenas na década passada que ele ganhou força ao ponto de tornar o VHS obsoleto. Não há dúvidas de que o DVD abriga muitas virtudes, mas sua tecnologia colaborou para a ruína do homevideo. O DVD é fácil de ser pirateado e a sua comercialização ilegal se transformou no modo de sustento de muita gente excluída do mercado de trabalho. Tudo piorou quando a Internet se tornou item indispensável na residência das famílias brasileiras, possibilitando o download gratuito de filmes de qualquer ano e país. As vídeo-locadoras não iriam suportar por muito tempo e a Blockbuster americana, até então a rede mais poderosa de homevideo, declarou em novembro que fechará todas as suas portas. Já no Brasil, a Blockbuster ainda conta com 160 unidades, mas elas só sobrevivem porque são sustentadas pelo mesmo grupo responsável pelas Lojas Americanas – atualmente, os dois estabelecimentos dividem o mesmo espaço físico em vários municípios do pais. Fim de uma era.

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VIVA O CINEMA BRASILEIRO!

Minha Mãe é Uma PeçaO fantástico Paulo Gustavo assume o topo dos mais vistos com “Minha Mãe é uma Peça – O Filme”.

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2013 definitivamente foi um dos melhores anos para o cinema brasileiro desde a Retomada. Nunca tivemos tantos filmes lançados (estima-se que 115 títulos foram exibidos nos cinemas ao longo do ano) e batemos recorde de faturamento (256 milhões contra os 157 milhões do ano passado). Uma análise mais profunda aponta que grande porcentagem desses números foram garantidos por produções de humor popular, mas é um erro repetir o discurso amargo de vários analistas. Afinal, os dois maiores sucessos do ano, “Minha Mãe é uma Peça – O Filme” e “Vai que dá Certo”, foram certeiros ao fazer humor com temas muito presentes na vida do brasileiro comum, encontrando na empatia e graça os ingredientes secretos para conquistar o público. Culpar os filmes com o selo Globo Filmes por ocupar grande fatia do mercado agora é coisa do passado, como provaram os estrondos provodados por filmes que surpreenderam ao atrair um número expressivo de espectadores. Dado o circuito restrito, “O Som ao Redor” não apenas lotou sessões em festivais nacionais como vendeu mais de 90 mil ingressos durante sua passagem pelo circuito comercial. O resultado dessa boa acolhida foi a oportunidade de disputar uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar. Até mesmo o documentário “Elena” se saiu perfeitamente bem, tendo ultrapassado a marca de 40 mil espectadores, um número impressionante para um filme de não-ficção. Que esse progresso não seja interrompido em 2014.

O Homem de Aço

O Homem de Aço | Man of Steel

Christopher Nolan provavelmente não teve uma boa infância com os seus gibis. Só assim para explicar o que fez o mesmo diretor dos pequenos e criativos “Following” e “Amnésia” a se meter nas novas aventuras do Homem-Morcego nos cinemas. E não se tratou apenas de um mero renascimento de um herói cuja reputação foi enterrada com “Batman & Robin”, até então o último exemplar do personagem visto na tela grande.

Parece inaceitável para Nolan tudo o que ele consumiu sobre o personagem. Era preciso imaginar uma perspectiva “realista” para Batman e isso configuraria em eliminar tanto a dinâmica dos quadrinhos quanto os traços góticos imprimidos por Tim Burton em “Batman” e “Batman – O Retorno”. Ou seja: o que provocava fascínio neste universo assumidamente fantasioso é inadmissível para Christopher Nolan. Não satisfeito em desmitificar Batman ao ponto de torná-lo um banana, o britânico agora tem como alvo Clark Kent, também conhecido como Superman e, ou melhor, o Homem de Aço. E o disparo foi certeiro, pois “O Homem de Aço” é um desastre.

Tudo bem, Christopher Nolan não é o diretor de “O Homem de Aço”, mas sua intromissão como autor do argumento e produtor é forte demais para não ser notada, o que corrompe até mesmo o trabalho de Zack Snyder. Mesmo não sendo o diretor visionário que a sua protegida Warner insiste em promover, não há dúvidas de que Snyder sabe arquitetar um belo espetáculo de ação, como comprovado em “Watchmen – O Filme” e “Sucker Punch – Mundo Surreal”. Em “O Homem de Aço”, nem isto que diferenciava Snyder de outros cineastas de blockbusters de verão se vê presente.

Antes que conheçamos Clark Kent (Henry Cavill), “O Homem de Aço” nos mostra Jor-El (Russell Crowe) salvando o seu filho recém-nascido Kal-El enquanto Krypton entra em colapso. O único modo de protegê-lo é enviá-lo para outro planeta. No entanto, a segurança de Kal-El não será garantida por muito tempo, pois o General Zod (Michael Shannon, fazendo mau uso de sua habilidade em interpretar personagens desequilibrados), seu principal inimigo, promete eliminá-lo a qualquer custo. Enquanto Zod é enviado para a Zona Fantasma, Kal-El chega à Terra, precisamente na fazenda do casal Jonathan e Martha Kent (Kevin Costner e Diane Lane).

A partir daí, “O Homem de Aço” busca manter os pés no chão ao registrar o agora Clark encarando como maldição as suas habilidades sobre-humanas. Ele prefere seguir com o aprendizado de seu pai adotivo Jonathan, que o aconselha a conter suas emoções para que possa se proteger de qualquer ameaça que se anuncia. O resultado dessa postura é uma fatalidade que o faz se desligar da sociedade ao vagar sem rumo por ambientes inóspitos.

Como o esperado, Clark Kent descobrirá que o único modo de fazer valer sua existência é descumprindo os conselhos de Jonathan, uma decisão que coincidirá com os planos do General Zod em invadir e destruir a Terra. Como consequência de má escrita, a jornalista espevitada Lois Lane (Amy Adams) não somente cruzará o caminho de Clark, como também se apaixonará por ele em meio ao caos inicialmente promovido por Zod e sua tropa de súditos.

Durante a “jornada épica” d’O Homem de Aço, erros primários são cometidos quando a verdadeira intenção é situar o protagonista em um cenário mais crível. Não é hilário somente o fato de os alienígenas de Krypton terem o inglês americano como língua nativa, como também a habilidade quase mutante de Lois Lane em transitar sem nenhum incômodo em ambientes com grau abaixo de zero – e olha que isso é nada perto do convite que ela recebe sem razão aparente para embarcar na nave de Jor-El agora conduzida por Zod.

Considerando tudo isso, o maior absurdo se concentra nas mudanças de valores promovidas em “O Homem de Aço”. Na intenção de tentar converter Clark Kent em um “estrangeiro” que descobre a si mesmo em uma sociedade habitada por seres humanos e todos os seus dilemas, “O Homem de Aço” quase o converte em vilão. A destruição de Metrópolis e Smallville deixa de ser mero capricho de um arrasa-quarteirão ao notarmos que metade dela seria evitada se o próprio Homem de Aço fosse mais prevenido com aquilo e aqueles que deveria proteger. Portanto, pouco funciona o instante em que o Homem de Aço deve decidir entre poupar Zod ou salvar uma família que está sob seu alvo: a barbárie foi longe demais para que possamos nos importar com qualquer bobagem a explodir na tela.

Man of Steel, 2013 | Dirigido por Zack Snyder | Roteiro de David S. Goyer, baseado nos personagens criados por Jerry Siegel e Joe Shuster | Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Diane Lane, Russell Crowe, Antje Traue, Harry Lennix, Richard Schiff, Christopher Meloni, Kevin Costner, Ayelet Zurer, Laurence Fishburne, Dylan Sprayberry, Cooper Timberline, Richard Cetrone, Mackenzie Gray, Julian Richings e Christina Wren | Distribuidora: Warner Bros.

Resenha Crítica | Dentro de Casa (2012)

Dentro de Casa | Dans la maison

Germain (Fabrice Luchini) é um professor veterano que sempre deixa transparecer a impressão de que se trata de um intelectual frustrado. As coisas não parecem muito diferentes com a sua esposa Jeanne (Kristin Scott Thomas), cuja galeria de arte não tem a popularidade esperada. Portanto, é compreensível a descrença que Germain tem com sua própria carreira como pedagogo, pois os seus alunos só apresentam um desempenho não muito além do medíocre.

A falta de entusiasmo de Germain é substituída por euforia quando ele se depara com um texto fenomenal de um de seus alunos. Ao solicitar como atividade uma redação com tema livre para uma de suas turmas, Germain recebe de Claude (Ernst Umhauer) um prólogo de uma história sobre uma família de classe média. Germain fica encantado com a fluência da narrativa e incentiva Claude a prosseguir.

A relação entre aluno e professor se estreita e logo vemos que Claude está se inspirando em uma família real. Precisamente, os Artole, que é composta pelo casal Esther (Emmanuelle Seigner) e Rapha (Denis Ménochet) e Rapha filho (Bastien Ughetto). Com a intenção de se tornar íntimo dos Artole, Claude se aproxima de Rapha filho ao se oferecer para ajudá-lo na matéria de Matemática. Isso permite que ele contemple Esther mais de perto, uma mulher madura que se distrai com revistas de decoração para se esquecer do casamento insosso em que está presa.

Como provou em sua obra-prima “Swimming Pool – À Beira da Piscina”, o cineasta francês François Ozon sabe conduzir com habilidade singular um suspense com tensão crescente. Não há somente o discurso sobre a mistura da ficção com a realidade, como também há a intenção de criar um clima de perigo em uma relação que iniciou inocente e que agora toma proporções inesperadas. Compositor musical em todos os filmes de Ozon, o maestro Philippe Rombi é uma chave importante para consolidar essa atmosfera pretendida.

Talvez maravilhado em demasia com o texto originalmente concebido para o teatro pelo espanhol Juan Mayorga, François Ozon acaba cometendo os mesmos excessos de seus protagonistas. Não é somente a expressão previsível de sociopata do iniciante Ernst Umhauer que provoca incômodo, como também a necessidade de converter os personagens secundários em meras marionetes com a intenção de atingir o fim desejado. No teatro da vida, há muito por trás daquelas figuras anônimas que observamos à distância. Trata-se de algo explícito na formidável conclusão de “Dentro de Casa”, mas que não foi aplicado apropriadamente na uma hora e meia que a antecede.

Dans la maison, 2012 | Dirigido por François Ozon | Roteiro de François Ozon, baseado na peça de Juan Mayorga | Elenco: Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto, Jean-François Balmer, Yolande Moreau, Catherine Davenier e Vincent Schmitt | Distribuidora: California Filmes

Resenha Crítica | Wolverine: Imortal (2013)

O astro Hugh Jackman ficou desolado após a possível conclusão da franquia “X-Men” com o capítulo “O Confronto Final”. A ausência de grandes sucessos de bilheteria (“Austrália” ainda é lembrado como um dos épicos românticos mais desapontadores dos últimos anos) e a participação em projetos de gosto duvidoso (“A Lista: Você Está Livre Hoje?”) pareciam ameaçar a permanência do australiano em Hollywood.

Hugh Jackman se precipitou ao reviver às pressas o seu maior personagem em “X-Men Origens: Wolverine“. O filme representou o encontro de tudo aquilo que prejudica umaadaptação de histórias em quadrinhos: cenas de ação sem personalidade, presença de inúmeros personagens sem o desenvolvimento dramático aguardado, traição de suas origens e um humor quase nonsense (Wolverine se refugiando nu para uma fazenda não foi agradável nem diante de olhos femininos). Felizmente, “Wolverine: Imortal” traz o personagem em sua melhor forma.

Há dois fatores que diferenciam “Wolverine: Imortal” de um filme de herói medíocre. O primeiro fator está na escolha em adaptar uma aventura atípica de Wolverine. Escrito por Mark Bomback e Scott Frank, o roteiro é inspirado em “Eu, Wolverine”, HQ concebida pela dupla Chris Claremont e Frank Miller que traz Logan/Wolverine no Japão. O segundo fator é a assinatura de James Mangold na direção. Um dos cineastas mais ecléticos do cinema americano, Mangold já passou por quase todos os gêneros cinematográficos e confere personalidade a “Wolverine: Imortal”.

No prólogo da história, Wolverine salva o jovem oficial japonês Yashida (Ken Yamamura) quando a explosão de uma bomba atômica destrói Nagasaki. O mesmo Yashida reaparece na vida de Wolverine já nos dias atuais, dando sequência aos acontecimentos narrados em “X-Men: O Confronto Final”. A morte de Jean Grey (Famke Janssen) traumatiza Wolverine e o seu principal desejo é perder a própria imortalidade. Inválido, Yashida (agora vivido por Hal Yamanouchi) obriga Wolverine a ir para o Japão e lhe diz que pode realizar o seu desejo de transformá-lo de mutante para ser humano.

Acompanhado por Yukio (a revelação Rila Fukushima, ex-modelo que rouba a cena), que foi adotada por Yashida como uma filha, Wolverine verá que sua estadia no oriente o obrigará a usar suas habilidades mutantes quando a Yakuza entra em cena para sequestrar Mariko (Tao Okamoto), a querida neta de Yashida pela qual ele se apaixonará.

Em meio a cenas de ação espetaculares (a do trem-bala talvez seja a mais eletrizante testemunhada no cinema neste ano), James Mangold jamais se desprende do drama que atormenta Wolverine. A vulnerabilidade do herói é posta em xeque não somente em seus sonhos com Jean Grey como também ao notar que é alvo de uma conspiração que o faz gradativamente perder sua resistência. Trata-se de uma antítese desse sub-gênero de super-heróis, pois “Wolverine: Imortal” se sobressai justamente ao se distanciar do que é reconhecido desse universo.

Quando tudo indica que “Wolverine: Imortal” será um dos melhores filmes já feitos desse filão, eis que James Mangold precisa recuar para que a história faça jus às suas origens. Portanto, desaparece toda a jornada existencial de Wolverine e se manifesta as mediocridades dos filmes de super-heróis, com direito a uma vilã, Viper (a russa Svetlana Khodchenkova, de “O Espião que Sabia Demais“), afetadíssima e uma surpresa digna de um quadrinho ensebado de quinta. Que o mesmo pecado não seja repetido em “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”.

The Wolverine, 2013 | Dirigido por James Mangold | Roteiro de Mark Bomback e Scott Frank | Elenco: Hugh Jackman, Rila Fukushima, Tao Okamoto, Hiroyuki Sanada, Svetlana Khodchenkova, Brian Tee, Hal Yamanouchi, Will Yun Lee, Ken Yamamura, Famke Janssen, Patrick Stewart e Ian McKellen | Distribuidora: Fox

Resenha Crítica | Um Estranho no Lago (2013)

Um Estranho no Lago | L’Inconnu Du Lac

Desempregado, o jovem Franck (Pierre Deladonchamps) parece não ter muito o que fazer durante o verão francês. Visualiza em um lago no meio do nada não apenas um espaço para ocupar o tempo, mas também uma espécie de paraíso que possivelmente sempre idealizou.  Estamos aqui acompanhando um homossexual totalmente desligado das responsabilidades mundanas acompanhados de nudistas também gays em busca de sexo sem compromisso.

Apenas de não haver falta de opções para saciar os seus desejos sexuais mais íntimos, Franck contempla Michel (Christophe Paou) como o único homem capaz de atendê-los. Assim como Franck, Michel é um novato no lago. Moreno, mais maduro, forte e com bigode, Michel é um estranho do qual Franck está disposto a tudo para se relacionar, ainda ele já tenha um parceiro.

Lenhador introspectivo e acima do peso, Henri (Patrick d’Assumção) será o habitante do lago que se tornará amigo de Franck ao ponto de ouvir todas as suas confissões. Embora não seja homossexual, há algo no ambiente quase paradisíaco que o faz acalentar alguns dramas particulares compartilhados com Franck nem sempre com clareza.

Em seu sexto longa-metragem para cinema, Alain Guiraudie, que arrebatou o prêmio de Melhor Direção em Cannes na Mostra Um Certo Olhar, conduz muitas sequências de sexo explícito, em sua maioria com dublês de corpo. Há todo o momento a tela é invadida por transas praticadas sem o uso de preservativos, algumas com direito a um voyeur que se masturba enquanto elas acontecem.

Há algo além dessa exposição física em “Um Estranho no Lago” e o que falta é um direcionamento adequado. Primeiro existe uma mudança de tom na narrativa quando ela envereda para o thriller. A escolha em lançar todas as cartas de um mistério em potencial não se mostra bem-sucedida porque Guiraudie cria o patético inspetor Damroder (Jérôme Chappatte), para investigar um crime cometido por Michel.

“Um Estranho no Lago” também é um drama sobre a solidão o como os indivíduos que buscam evitá-la são capazes de modificar sua própria natureza. É exatamente o que faz Franck ao se entregar nos braços de um homem que pode colocar a sua própria vida em risco. No entanto, o nosso olhar só está concentrado na figura melancólica de Henri, o único a despertar o nosso interesse no que diz respeito ao que ele realmente é fora do lago que serve como único cenário para a trama. Não tivesse esse personagem forte, a celebração em torno de “Um Estranho no Lago” (é o filme do ano para a Cahiers du Cinéma) seria ainda mais equivocada.

L’inconnu du lac, 2013 | Dirigido por Alain Guiraudie | Roteiro de Alain Guiraudie | Elenco: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick d’Assumçao, Jérôme Chappatte, Mathieu Vervisch, Gilbert Traina, Emmanuel Daumas, Sébastien Badachaoui, Gilles Guérin e François-Renaud Labarthe | Distribuidora: Imovision

O Abismo Prateado

O Abismo Prateado

Após um fim de tarde de mergulho em uma praia carioca, Djalma (Otto Jr.) volta a pé e só de sunga para o seu apartamento comprado recentemente. Nas cenas que se seguem, aliás, veremos Djalma ou vestindo uma toalha ou completamente nu. É um indício de uma decisão radical que ele tomará: convicto em se desprender de tudo, Djalma abandonará seu filho adolescente e sua esposa Violeta (Alessandra Negrini).

A vontade de Djalma não é informada de antemão à sua família. Quando Violeta recebe uma mensagem de voz em seu celular em que Djalma diz que a deixou e que não a ama mais, ele já embarcou em um voo para Salvador. Como o esperado, Violeta se desespera. O choque não a torna capaz de seguir com a rotina (ela é dentista) e ela sai de noite de seu apartamento sem dizer ao seu filho para onde vai. Não que isso importe: a desolação de Violeta a impede de traçar um destino.

Em breve jornada noite adentro, Karim Aïnouz faz sua protagonista passar por experiências e dilemas já visitados em longas anteriores como “O Céu de Suely”. Embora ambientado somente no Rio de Janeiro, “O Abismo Prateado” lembra um road movie. A inquietação de Violeta a faz se hospedar rapidamente em um hotel, ir para uma boate e vagar por uma praia e ruas desertas.

São sensações possíveis de serem extraídas de “Olhos Nos Olhos”, canção de Chico Buarque que inspira o roteiro assinado por Beatriz Bracher e Aïnouz, e também da força de Alessandra Negrini, totalmente imersa na confusão que invade Violeta assim que é abandonada por aquele que foi o seu grande amor desde seus 22 anos. Como o esperado, algumas respostas que afugentam o vazio até então presente nesta via crucis vem com a interação com estranhos. Precisamente dois: o pintor de parede Nassir (Thiago Martins) e sua filha Bel (Gabi Pereira).

Não há nada de amoroso na relação entre os três personagens, embora ela seja forte o suficiente para que Violeta reviva aqueles sentimentos que experimentou com Djalma nos primeiros encontros. As afinidades e a bondade que Violeta visualiza em Nassir e Bel é o que a fará reavaliar o seu próprio valor e a caminhar decidida e com serenidade os mesmos ambientes há pouco turbulentos.

O Abismo Prateado, 2011 | Dirigido por Karim Aïnouz | Roteiro de Karim Aïnouz e Beatriz Bracher, baseado na canção “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque | Elenco: Alessandra Negrini, Otto Jr., Thiago Martins, Gabi Pereira, Camila Amado, Luisa Arraes, João Vitor da Silva, Sérgio Guizé e Carla Ribas | Distribuidora: Vitrine Filmes

Em Transe

Em Transe | Trance

Embora não sejam filmes ruins, continua difícil acreditar que “127 Horas” e “Quem Quer Ser Um Milionário” foram dignos do reconhecimento artístico conferido no período em que foram lançados. Se no filme protagonizado por James Franco Danny Boyle conseguiu seis indicações ao Oscar, dois anos antes ele conseguiu com “Quem Quer Ser Um Milionário” arrebatar oito estatuetas, inclusive as de Melhor Filme e Melhor Diretor.

“Em Transe” não segue a cartilha “Quero Oscar” e sequer foi um êxito financeiro, mas é muito melhor que “127 Horas” e “Quem Quer Ser Um Milionário” porque traz aquele Danny Boyle descontraído dos tempos de “Trainspotting – Sem Limites”, que segue como sua obra-prima. Portanto, prepare-se para um entretenimento em que todas as peças de um quebra-cabeça são unidas em ritmo frenético.

Com as caras e bocas de sempre, James McAvoy interpreta Simon, funcionário de uma casa de leilões que se envolve com uma quadrilha liderada por Franck (Vincent Cassel) para roubar uma pintura de milhões de dólares. A execução do plano seria perfeita se Simon não perdesse a memória ao ser atingido por um golpe na cabeça que havia encenado com Franck. Ameaçado, Simon se vê obrigado a procurar Elizabeth (Rosario Dawson, excelente e sensual como sempre), uma hipnotizadora que o ajudará a relembrar o local em que talvez tenha escondido o quadro roubado.

Danny Boyle consegue camuflar certa previsibilidade quanto aos verdadeiros perfis de Simon, Franck e Elizabeth com a nova parceria com o montador Jon Harris, com quem trabalhou em “127 Horas”. Várias pistas são lançadas e as tentativas de antecipar algumas resoluções são agradavelmente frustradas com o domínio que Danny Boyle tem do roteiro escrito pela dupla Joe Ahearne e John Hodge. Sem grandes pretensões, Boyle faz de “Em Transe” um passatempo de prender na cadeira.

Trance, 2013 | Dirigido por Danny Boyle | Roteiro de Joe Ahearne e John Hodge | Elenco: James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassel, Danny Sapani, Matt Cross, Wahab Sheikh, Mark Poltimore, Tuppence Middleton, Simon Kunz, Michel Shaeffer e Tony Jayawardena | Distribuidora: Fox

O que se Move

O que se Move

Em sua estreia na direção de um longa-metragem, Caetano Gotardo toma a escolha arriscada de se dedicar na construção não somente de uma única história, mas de três. O diferencial que assegura a autenticidade de “O que se Move” está em não entrelaçá-las. As artimanhas usadas para justificar coincidências que ligam personagens se mostram ultrapassadas após tantas produções que adotam esse padrão e Caetano Gotardo é feliz ao conduzir três segmentos enxutos em que a única ligação está na escolha de atrizes como protagonistas de histórias sobre a dor da perda em suas diferentes extensões.

Todas as personagens de “O que se Move” sofrem com a interrupção de um ciclo de continuidade. Maria Júlia (Cida Moreira), Sílvia (Andréa Marquee) e Ana (Fernanda Vianna) já tiveram a oportunidade de desempenharem o papel de mãe, seja por muito ou por pouco tempo. Daí a atmosfera lúgubre que se manifesta em “O que se Move”: como seguir em frente e reencontrar a felicidade sem a presença do filho concebido?

Presença aos poucos fortalecida no primeiro segmento de “O que se Move”, Maria (Cida Moreira) é uma funcionária veterana com um cargo de prestígio no colégio em que estuda o seu filho caçula. Já Sílvia (Andréa Marquee) compartilha com o marido as dores de viver após se mostrarem incapazes de superar uma perda recente. Por fim, Ana (Fernanda Vianna) está inquieta com a possibilidade de rever um filho que abandonou assim que ele nasceu.

Mesmo que a história protagonizada por Cida Moreira apresente problemas no que diz respeito à falta de naturalidade entre as interações de membros de uma mesma família e uma surpresa que não condiz com o perfil de determinado personagem, os três segmentos de “O que se Move” são certeiros ao evidenciar instintos maternos que jamais enfraquecem com o tempo, independente da circunstância com que isto desperta no âmago de Maria, Sílvia e Ana.

Caso se sustentasse somente com essa força, “O que se Move” certamente obteria um resultado acima da média. Caetano Gotardo pretende ir além e para isso recorre à música para ressaltar a dor de suas três protagonistas. São nas músicas escritas por Marco Dutra (diretor de “Trabalhar Cansa“) que “O que se Move” atinge seu limite. Embora desempenhadas com intensidade pelas atrizes, as canções somente reprisam aquilo que o espectador já decodificou de antemão. Não era preciso.

O que se Move, 2013 | Dirigido por Caetano Gotardo | Roteiro de Caetano Gotardo | Elenco: Cida Moreira, Andréa Marquee, Fernanda Vianna, Rômulo Braga, Wandré Gouveia, Henrique Schafer, Gabriel Dos Reis, Dagoberto Feliz, Adriana Mendonça,Larissa Siqueira, Anne Rodrigues, Marina Corazza, Beto Matos, Danilo Grangheia e Ledda Marotti | Distribuidora: Lume Filmes

Resenha Crítica | Carrie – A Estranha (2013)

Carrie - A Estranha| Carrie (2013)

Em uma época em que o bullying ainda não denominava a prática de agressão física ou verbal em um ambiente estudantil, Stephen King criou “Carrie – A Estranha”, a obra que iniciaria a sua carreira como o mais notável romancista do macabro. A repercussão foi ainda maior com a adaptação para cinema conduzida por Brian De Palma, que foi além das amarras do livro ao oferecer algo que também tratava de fanatismo religioso, o amor dúbio entre uma mãe e sua filha e o difícil processo de se adaptar em um ambiente em que todos o consideram um alien.

Estamos no século XXI, época em que o bullying já se tornou frequente nos colégios e que más intenções podem ser compartilhadas com a distância de um clique. Kimberly Peirce sabe muito bem disso e revive um dos maiores clássicos de Brian De Palma oferecendo inicialmente provas de que inserir Carrie White nos dias de hoje é uma boa ideia. Portanto, não é apenas o lançamento de absorventes por colegas de classe que aterroriza Carrie (Chloë Grace Moretz) em sua primeira menstruação enquanto toma banho no vestiário ou a falta de informação que a fez imaginar que sangrará até morrer: há também alguém que gravará o episódio comprometedor para publicar na Internet.

A estrutura adotada por Peirce já é conhecida. Carrie White habita dois infernos. O primeiro é a escola e as ofensas gratuitas proferidas pelos alunos mais populares do colégio e até mesmo por alguns professores – quando a menina finalmente reúne coragem para ler um poema em sala de aula, seu orientador a ridiculariza ao dizer que sua escolha foi fúnebre. O segundo é a sua própria casa em que Margaret White (Julianne Moore) assume a figura de deus e diabo. Se as autoridades não interviessem, Margaret preferiria ter Carrie só para si, educando-a longe do mundo. Mas esta mãe desconfia das origens ocultas de Carrie, algo confirmado no exato momento em que ela define não ser mais uma garotinha ao descobrir que tem a capacidade de mover e manipular objetos com o poder da mente.

Antes uma das desafetas de Carrie, Sue Snell (a inglesa Gabriella Wilde) parece arrependida de ter participado do episódio do vestiário. Por isso, se mostra disposta a não participar do baile de formatura ao oferecer o seu namorado Tommy Ross (o carismático Ansel Elgort) como par para Carrie, que até então jamais imaginaria ser convidada por algum rapaz para sair, muito menos pelo atleta amado por todos.

Enquanto Carrie visualiza o baile de formatura como a possibilidade de se tornar uma pessoa normal (ainda que esteja cada vez mais ciente de seus poderes de telecinesia), Margaret permanece repreendendo-a ao acreditar que ela será novamente ridicularizada. Ao que tudo indica, algo de ruim realmente aguarda por Carrie, pois Chris Hargensen (Portia Doubleday) pretende pregar uma peça perversa nela após ser expulsa do baile de formatura pela professora de Educação Física, a senhorita Desjardin (Judy Greer), que provou à reitoria que Chris filmou e postou na Internet o embaraçoso choque de Carrie.

Em sua estreia na direção de longa-metragem com “Meninos Não Choram”, Kimberly Peirce reproduziu com garra a devastadora história de Brandon Teena, uma mulher decidida em assumir uma identidade masculina ao amadurecer. Ou seja: Peirce já havia explorado o universo de um personagem encarado como inadequado em uma sociedade pouco flexível para um indivíduo fora dos padrões. Por isso mesmo a expectativa gerada com o seu vínculo com o novo “Carrie – A Estranha”, mas uma história sobre uma figura deslocada em um ambiente de aparências supérfluas e de perversidades.

Com “Carrie – A Estranha”, Kimberly Peirce não é pressionada somente por um ou dois gigantes mas por três. Entre as pressões em atender às expectativas de um grande estúdio (a Metro-Goldwyn-Mayer viabilizou a refilmagem), a responsabilidade em seguir os rumos originalmente determinados por Stephen King e o respeito pela obra-prima de Brian De Palma (o qual ela tem o privilégio de ser amiga por mais de dez anos), a cineasta pouco ou nada pode fazer para inserir a sua marca.

Embora soe como mero detalhe, a impossibilidade de Kimberly Peirce se desacorrentar de tudo isso contamina “Carrie – A Estranha”, a começar pela interpretação irregular de Chloë Grace Moretz. Mesmo conferindo a mesma faixa etária de Carrie White, a atriz definitivamente não contém a fisionomia e talento necessários para incorporá-la. Não há vestuário de brechó capaz de anular sua graciosidade e suas reações forçadas não condizem com o de uma garota a todo o momento reprimida pelas pessoas que a cercam. Com Julianne Moore as coisas não são diferentes. Caso fosse jovem, Moore seria a escolha perfeita para viver Carrie, uma vez que Peirce registra muito bem as sardas que se misturam com sua palidez. Como Margaret White, Moore é incumbida de caricaturizar um papel tão bem interpretado anteriormente por Piper Laurie e Patricia Clarkson (a primeira no cinema e a segunda, na tevê).

Sem alterações em algo já consagrado, resta o aguardado baile sangrento, algo para o qual este novo “Carrie – A Estranha” tanto aquece para apresentar. Por incrível que pareça, é o único momento genuíno. Como em qualquer boa vingança que se preze, vibra-se com a punição naqueles que pisotearam sem cerimônia a inocência de uma ingênua menina, bem como reconforta a bondade ainda presente nela ao proteger os poucos que queriam o seu bem. Justo, mas muito pouco para justificar a existência de uma reimaginação que, como se viu no original, tinha tanto para comunicar para a sua geração.

Carrie, 2013 | Dirigido por Kimberly Peirce | Roteiro de Roberto Aguirre-Sacasa, baseado no livro homônimo de Stephen King e roteiro homônimo de “Carrie – A Estranha”, de Lawrence D. Cohen  | Elenco: Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Gabriella Wilde, Portia Doubleday, Alex Russell, Zoë Belkin, Ansel Elgort, Samantha Weinstein, Karissa Strain, Katie Strain, Barry Shabaka Henley, Demetrius Joyette e Judy Greer | Distribuidora: Sony

Um Golpe Perfeito

Um Golpe Perfeito | Gambit

Há elementos que se reúnem para a viabilização de uma produção em que a expectativa é para que tudo dê certo. “Um Golpe Perfeito” é um desses casos. Refilmagem de “Como Possuir Lissu”, comédia de 1966 protagonizada por Michael Caine e Shirley MacLaine, “Um Golpe Perfeito” traz Colin Firth liderando o elenco com um Oscar fresquinho pela sua interpretação em “O Discurso do Rei“, o diretor Michael Hoffman com a reputação nas alturas com o moderado sucesso artístico de “A Última Estação”, um elenco secundário respeitável (Cameron Diaz, Alan Rickman e Stanley Tucci) e, o maior atrativo, um roteiro assinado por ninguém menos que os irmãos Coen.

Firth vive Harry Deane, um curador especializado em pinturas e subordinado do intragável Lionel Shahbandar (Hickman), ricaço que procura obsessivamente uma obra raríssima de Monet. Trata-se de duas pinturas que o artista aparentemente realizou ao registrar dois climas distintos de um mesmo dia. Lionel tem uma dessas telas e Harry se aproveita disso para aplicar um golpe. Com o auxílio de um velho amigo (o veterano Tom Courtenay, o único a passar incólume por todo o filme), Harry contrata PJ Puznowski (Diaz), uma “rainha de rodeio” que, vai entender, se mostra a pessoa perfeita para persuadir Lionel com um Monet falso.

Embora rodado nos Estados Unidos, o país segue sem uma data para o lançamento de “O Golpe Perfeito”. Daí a chegada antecipadíssima no Brasil, embora o remake tenha coletado comentários nada agradáveis desde sua première em Londres no ano passado. O que deu errado? As engrenagens que deveriam gerar humor simplesmente não funcionam. Michael Hoffman se limita apenas em reproduzir as piadas do texto dos Coen em que as únicas investidas são o choque ingênuo e a divergência entre personagens. Não há um personagem que não seja introduzido de modo exagerado (notem como o personagem de Stanley Tucci espreme limões em seu jantar diante de sua primeira aparição ou mesmo a nudez que Alan Rickman se submete através de um dublê de corpo) e desde o primeiro minuto é evidente que alguma sintonia nascerá entre o Harry e Puznowski, ele um inglês almofadinha e ela, uma texana espevitada. Na intenção de divertir, “Um Golpe Perfeito” só constrange todos os envolvidos.

Gambit, 2012 | Dirigido por Michael Hoffman | Roteiro de Ethan Coen e Joel Coen, baseado em um conto de Sidney Carroll | Elenco: Colin Firth, Cameron Diaz, Alan Rickman, Stanley Tucci, Tom Courtenay, Alex Macqueen, Cloris Leachman, David Danson, Spencer Cummins, Togo Igawa, Julian Rhind-Tutt, Sadao Ueda, Masashi Fujimoto, Kenji Watanabe, Yoshinoru Yamamoto e Ryozo Kohira | Distribuidora: Paris Filmes