Resenha Crítica | Jogos Vorazes (2012)

Antes um candidato forte para mimar os fãs de “A Saga Crepúsculo” após seu derradeiro capítulo, “Jogos Vorazes” rapidamente provou que tinha mais a oferecer do que um mero triângulo amoroso entre uma moça e dois “monstros”. Mesmo tendo os jovens como público-alvo, “A Saga Crepúsculo” e “Jogos Vorazes” foram concebidos com propósitos muito distintos. Em uma história, temos uma jovem chamada Bella (Kristen Stewart) em um processo íntimo de descoberta ao se apaixonar por um ser imortal. Em outra história, essa infinitamente mais pertinente, há a também jovem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) lutando para sobreviver em um cenário totalitário.

O cacife do material de Suzanne Collins é confirmado com o envolvimento de Gary Ross, que age como diretor e roteirista de “Jogos Vorazes”. Responsável por “A Vida em Preto e Branco” e “Seabiscuit – Alma de Herói”, o cineasta americano é um nome incomum para liderar um universo às vezes fantasioso. A escolha é certeira para dar credibilidade à história de Katniss, o pilar que sustenta uma família composta apenas por uma mãe (Paula Malcomson) sem vitalidade e uma irmã, Prim (Willow Shields), que ainda não compreendeu a dimensão da desgraça de se viver no Distrito 12, o menos nobre entre a uma dúzia existente.

Anualmente, o presidente Snow (Donald Sutherland) promove os Jogos Vorazes, campeonato em que jovens de até 18 anos são sorteados para digladiarem entre si em uma arena repleta de armadilhas. Somente um participante sobreviverá e cada distrito deverá submeter um casal. Prim é sorteada no Distrito 12 junto com Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e Katniss se voluntaria para substituir sua irmã. Exibido em todos os distritos, os Jogos Vorazes é um evento macabro que tem como objetivo fortalecer o governo opressor de Capitol. Afinal, nada mais eficiente para o presidente Snow do que destruir o único símbolo de esperança de uma nação: a juventude.

Ao se inspirar em realities shows e na mitologia grega, a escritora Suzanne Collins fez em “Jogos Vorazes” uma mistura rica não totalmente eficaz com a inserção de alguns elementos fantásticos na narrativa e também pelo receio em corromper a moral de sua protagonista. Gary Ross tem contas a prestar a um público muito grande e esses problemas ganham vida na adaptação cinematográfica, o que rende um clímax tomado por criaturas nada convincentes e uma Katniss que acerta um alvo somente quando há a garantia de sua integridade não ser comprometida diante de olhos ingênuos. Falhas que, felizmente, não são reprisadas no maduro “Jogos Vorazes: Em Chamas”.

The Hunger Games, 2012 | Dirigido por Gary Ross | Roteiro de Billy Ray, Gary Ross e Suzanne Collins, baseado no romance homônimo de Suzanne Collins | Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Alexander Ludwig, Isabelle Fuhrman, Latarsha Rose, Jack Quaid, Leven Rambin, Dayo Okeniyi, Paula Malcomson, Willow Shields, Wes Bentley, Stanley Tucci e Toby Jones | Distribuidora: Paris Filmes

Rush – No Limite da Emoção

Rush - No Limite da Emoção | Rush

 A Fórmula 1 é pouco prestigiada dentro dos filmes esportivos. Entre um ou outro sucesso comercial, somente “Grand Prix” é recordado com algum carinho pelos cinéfilos mais velhos. Apesar de atingir um valor de respeito no total arrecadado em todos os países, “Rush – No Limite da Emoção” não foi um estouro nos Estados Unidos e no Brasil – e olha que temos Ayrton Senna como um de nossos grandes heróis. Falta apelo popular e há desafios técnicos ao lidar com esse tipo de produção, como alternar o ator profissional e o dublê no volante.

Mesmo com os dois entraves, Ron Howard supera as dificuldades ao longo de “Rush – No Limite da Emoção”. Desconsiderando a precariedade da computação gráfica aplicada em um acidente que redefiniu a carreira de Niki Lauda (Daniel Brühl, em interpretação extraordinária), trata-se do melhor trabalho do cineasta nos últimos dez anos.

A adrenalina corre solta tanto dentro quanto fora das pistas. Mesmo que incrivelmente habilidoso, Niki Lauda não era um piloto dos mais carismáticos. Daí a rivalidade com James Hunt (Chris Hemsworth) ser mais potente: charmoso e mulherengo, Hunt fascinava a todos. Na briga constante em provar quem era o melhor, Niki topou contra sua própria vontade participar do Grand Prix da Alemanha em uma situação desfavorável para todos os competidores: diante de uma chuva devastadora, o risco de qualquer piloto sofrer um acidente drástico é enorme.

Ron Howard segue uma cartilha que apresenta desdobramentos previsíveis (a vida privada dos protagonistas é construída sem muito esmero), mas encontra meios de tornar “Rush – No Limite da Emoção” um dos filmes definitivos de Fórmula 1. Os trunfos estão em fazer com que o público acompanhe na maior parte do tempo o espetáculo pela perspectiva de Niki Lauda e ao permitir que sintamos a pulsação dos rivais nos instantes mais decisivos. Para Niki e James, a viva só é vivida plenamente quando o limite é a morte, algo belamente representado em tomadas em que a fúria da natureza se concentra agressivamente nas corridas.

Rush, 2013 | Dirigido por Ron Howard | Roteiro de Peter Morgan | Elenco: Daniel Brühl, Chris Hemsworth, Alexandra Maria Lara, Olivia Wilde, Pierfrancesco Favino, David Calder, Natalie Dormer, Stephen Mangan, Christian McKay, Alistair Petrie, Julian Rhind-Tutt, Colin Stinton, Jamie de Courcey, Ilario Calvo e Augusto Dallara | Distribuidora: California Filmes

Resenha Crítica | O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013)

O Hobbit: A Desolação de Smaug | The Hobbit: The Desolation of Smaug

Como capítulo introdutório, “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” foi capaz de se esquivar com sucesso das inúmeras críticas ao modo desnecessário como Peter Jackson decidiu alongar uma história muito breve em sua versão literal. Com edições publicadas com um pouco mais de 300 páginas, “O Hobbit” se transformou no cinema em uma trilogia que deverá conter aproximadamente 9 horas.

Mesmo narrando eventos que antecedem a trilogia “O Senhor dos Anéis”, “Uma Jornada Inesperada” precisava situar um novo público aos cenários vistosos da Terra Média, bem como explorar personagens inéditos para aqueles já familiarizados com a novela fantasiosa de J.R.R. Tolkien. “A Desolação de Smaug” não tem esse compromisso e o resultado é frustrante devido a falta de novidades.

Sequência direta de “Uma Jornada Inesperada”, “A Desolação de Smaug” narra, durante quase três horas, a caminhada longa de Bilbo (Martin Freeman), Gandalf (Ian McKellen) e a trupe liderada por Thorin (Richard Armitage) para enfrentar o dragão Smaug (Benedict Cumberbatch), que tomou posse da Montanha Solitária, o reino dos anões. Os perigos não cessaram, pois os Orks continuam seguindo nossos heróis e há aranhas ameaçadoras na floresta Mirkwood, um ponto que inevitavelmente deve ser percorrido caso queiram chegar a Smaug.

Apesar de lidar com um universo tão abrangente, Peter Jackson parece tão pressionado a criar um novo épico à altura de “O Senhor dos Anéis” que se limita a chavões. A destreza dos personagens é diminuída a cada instante em que eles são salvos por terceiros quando um risco atingiu o seu grau máximo. Algo que não acontece somente uma ou duas vezes, mas três. Nem a entrada dos elfos nesta etapa de “O Hobbit” entusiasma, pois o roteiro decidiu conferir uma importância inexplicável em uma atração entre a elfa Tauriel (Evangeline Lilly, que faz o possível para conferir alguma dignidade ao papel) e o anão Kili (Aidan Turner) – alguém ainda cai no “olhei, gamei”? – em detrimento de um terceiro ato mais organizado. Ao equilibrar três linhas de frente, o minuto final se converte em um convite para a audiência direcionar para tela os palavrões mais cabeludos.

Nem tecnicamente falando “A Desolação de Smaug” se sobressai. As panorâmicas não passam de artifícios para aumentar a metragem e a High Frame Rate (o processamento de 48 quatros por segundo) é uma tecnologia que provavelmente se tornará obsoleta assim que “Lá e De Volta Outra Vez” estrear em meados de dezembro deste ano. Antes um cineasta notável pela economia, agora Peter Jackson sucumbiu à megalomania, algo que reduz quase a zero as expectativas que seriam concentradas para a conclusão desta nova trilogia.

The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013 | Dirigido por Peter Jackson | Roteiro de Fran Walsh, Guillermo del Toro, Peter Jackson e Philippa Boyens, baseado no livro ‘O Hobbit”, de J.R.R. Tolkien | Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O’Gorman, Aidan Turner, Josh Callen, Peter Hambleton, Jed Brophy, Mark Hadlow, Adam Brown, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Cate Blanchett, Mikael Persbrandt, Silvester McCoy, Luke Evans Stephen Fry e voz de Benedict Cumberbatch. | Distribuidora: Warner Bros.

Eu e Você

Eu e Você | Io e te

Até o lançamento de “Os Sonhadores”, o cineasta italiano Bernardo Bertolucci manteve um ritmo de trabalho admirável. Moderadamente prestigiados no ano em que foram lançados, seus últimos trabalhos, quase todos predominados pela língua inglesa, hoje são apreciadas com maior fervor quando revisitados, a exemplo de “Beleza Roubada” e “Assédio”. Portanto, o que justifica o hiato de dez anos entre “Os Sonhadores” e “Eu e Você”?

Um pouco depois de “Os Sonhadores”, Bertolucci realizou uma cirurgia na coluna que trouxe resultados catastróficos. Antes uma presença cheia de vitalidade em festivais de cinema, hoje o cineasta está preso em uma cadeira de rodas. Felizmente, a fatalidade não diminuiu seu bom-humor (foi flagrado em novembro visitando sua estrela na Calçada da Fama após cinco anos de sua inauguração). Por outro lado, não há como não traçar ligações entre as emoções tumultuadas que possivelmente o acompanharam nesses últimos anos e “Eu e Você”, seu novo longa-metragem.

Após ser adiado inúmeras vezes no Brasil, a adaptação do romance homônimo de Niccolò Ammaniti (o mesmo de “Eu Não Tenho Medo”) chega no circuito alternativo de modo discreto. A história contada em “Eu e Você” é de Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori), um adolescente introvertido que não tem um relacionamento muito amável com a mãe (Sonia Bergamasco). Seja por razões ligadas ao divórcio dos seus pais ou de inadequação na escola, Lorenzo decide se refugiar no porão do edifício em que vive sem contar a ninguém. Como confirmou sua presença em uma excursão para uma estação de esqui, Lorenzo não deverá enfrentar nenhum problema além das ligações telefônicas de sua mãe.

A tranquilidade em se isolar de tudo e de todos enquanto ouve suas bandas favoritas no último volume e consome algumas besteiras é abalada quando sua irmã Olivia (a bela estreante Tea Falco) invade o porão em busca de uma caixa com alguns pertences. Há uma tensão entre ambos, pois Olivia há muito não vê Lorenzo. Viciada em drogas, Olivia saiu de casa após atingir a maioridade e sobrevive entre vender suas fotografias e flertar com homens ricos.

Durante os dias de isolação dos protagonistas de “Eu e Você”, Bertolucci dá pinceladas sobre o estado da juventude atual, mas seu verdadeiro interesse está em discutir o processo de recolhimento para finalmente se libertar de tormentos internos. É um relato que não resiste perfeitamente por ter sido lidada em tantas ocasiões da cinematografia mundial. De qualquer modo, Bertolucci garante alguma autenticidade no modo como registra o reencontro entre Lorenzo e Olivia, dando-os a possibilidade de imaginar o quanto aquele refúgio os transformaram.

Io e te, 2012 | Dirigido por Bernardo Bertolucci | Roteiro de Bernardo Bertolucci, Francesca Marciano, Niccolò Ammaniti e Umberto Contarello, baseado no romance homônimo de Niccolò Ammaniti | Elenco: Jacopo Olmo Antinori, Tea Falco, Sonia Bergamasco, Veronica Lazar, Tommaso Ragno e Pippo Delbono | Distribuição: California Filmes

À Procura do Amor

À Procura do Amor | Enough Said

As mulheres ainda lutam para representarem uma fatia expressiva como diretoras dentro do cinema contemporâneo. Entre todas elas, Nicole Holofcener é sem dúvida uma das mais especiais. Trabalhando com orçamentos bem reduzidos, esta nova-iorquina de 53 anos sempre aproxima o público dos dramas críveis vividos por suas personagens, seja no cinema ou na tevê – ela dirigiu os dois melhores episódios de “Enlightened”, seriado protagonizado por Laura Dern lamentavelmente cancelado pela HBO.

Em uma história sobre as inseguranças na idade madura, Eva (Julia Louis-Dreyfus, em um retorno triunfal ao cinema após uma pequena participação em “Desconstruindo Harry“, de 1997) é a personagem doce e imperfeita ideal para protagonizá-la. Trata-se de uma mulher que não espera que a vida lhe ofereça novas possibilidades. O divórcio com Peter (Toby Huss) já foi superado e Eva está conformada com a partida de sua única filha Ellen (Tracey Fairaway), que em breve começará a faculdade.

Dentro da organização do lar, de trabalhar como massagista para clientes aborrecidos e de jogar conversa fora com Sarah (Toni Collette), sua melhor amiga que sempre procura realçar as falhas inúteis de sua relação com Will (Ben Falcone), Eva consegue reservar um espaço para que o simpático Albert (James Gandolfini) entre em sua vida. Ambos se conheceram em uma festa e não demoram para perceber que, mesmo com hábitos diferentes, foram feitos um para o outro.

O problema é que Eva também conheceu nesta mesma festa Marianne (Catherine Keener, colaboradora habitual de Holofcener), de quem se torna amiga imediatamente. Marianne é aquela mulher que Eva gostaria de ser e, enquanto fortalece sua relação com Albert, é abatida por uma coincidência:  o ex-marido de quem Marianne tanto desdenha para Eva é ninguém menos que ele. Embora Eva comece a se apaixonar por Albert, ela passa a visualizar nele os defeitos apontados por Marianne, uma poeta que leva uma vida de luxo que Eva inveja.

Ao invés de fazer graça com a ligação incomum entre os personagens, Nicole Holofcener felizmente opta em estudar o âmago Eva e os padrões que a rondam. Excetuando o papel maternal que desempenha para Chloe (Tavi Gevinson, levemente parecida com Scarlett Johansson), a melhor amiga de sua filha, todos os pequenos detalhes redundantes em “À Procura do Amor” ganham resoluções comoventes. A surpresa com que reage diante da gentileza não anunciada pelos seus clientes e até o modo progressivo que substitui os sapatos por sandálias são suficientes para anunciarem tanto a perspectiva positiva possível de nascer dentro da banalidade quanto a importância de manter os seus pés firmes naquilo que o seu coração lhe diz.

Enough Said, 2013 | Dirigido por Nicole Holofcener | Roteiro de Nicole Holofcener | Elenco: Julia Louis-Dreyfus, James Gandolfini, Catherine Keener, Toni Collette, Ben Falcone, Tracey Fairaway, Tavi Gevinson, Jessica St. Clair, Christopher Nicholas Smith, Lennie Loftin, Phillip Brock, Nick Williams, Ivy Strohmaier, Natasha Sky Lipson, Toby Huss e Kathleen Rose Perkins | Distribuidora: Fox

Resenha Crítica | Flores Raras (2013)

Flores Raras | Reaching for the Moon

Há muito que “Flores Raras” perseguiu Bruno Barreto. Mãe do cineasta, Lucy Barreto ficou tão encantada pelo livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Lucia de Oliveira, que decidiu após a leitura comprar os direitos para um dia levá-lo ao cinema. A tarefa foi delegada a Bruno, cujo interesse só veio quando a sua até então esposa Amy Irving fez o monólogo “Um Porto Seguro para Elizabeth Bishop”.

Hoje divorciados, Bruno Barreto e Amy Irving eram, respectivamente, diretor e protagonista de “Flores Raras”. Talvez a separação tenha mexido muito com Barreto, pois a dor da ausência vinda com o rompimento ganha tradução nos poemas de Elizabeth Bishop, conferindo na australiana Miranda Otto uma intérprete notável.

Mesmo relativamente conhecida, a Elizabeth Bishop que nos é apresentada ao início de “Flores Raras” ainda não dominou a fama pela qual é reconhecida ainda hoje. Bishop é atingida por um bloqueio criativo e busca no clima tropical do Brasil alguma inspiração. Amiga de longa data, Mary (Tracy Middendorf) oferece abrigo à Bishop em sua casa belíssima projetada pela sua companheira Lota de Macedo Soares (Glória Pires).

Após um divertido choque cultural dessa inglesa pálida em um cenário mantido por uma culinária e hábitos incomuns, nasce uma atração inesperada entre ela e Lota, com quem até então antagonizava para ter as atenções de Mary. A resolução para este triângulo amoroso que se desenha se mostra mais pacífica que o esperado, o que permite que Bishop contemple as paisagens e os acontecimentos ao seu redor com mais tranquilidade.

Bruno Barreto comprova um domínio notável ao conduzir uma história em que a poesia precisa se mostrar presente. O feito não é mérito único do elenco maravilhoso ou da música composta com precisão por Marcelo Zarvos, mas da capacidade que Barreto tem de mergulhar no olhar romântico que Bishop provou possuir em seus poemas. A captação de ações aparentemente banais fazem toda a diferença nesta história, como o modo que Bishop organiza o escritório que converterá em sua fortaleza artística ou mesmo quando enxágua os longos fios negros de Lota na banheira.

Se o roteiro de Julie Sayres, posteriormente revisado por Matthew Chapman, não é capaz de se esquivar de erros como tornar a língua inglesa mais presente do que o tolerável e de quase vilanizar duas personagens secundárias que vão intervir de algum modo no relacionamento de Bishop e Lota, ao menos a singularidade dessas suas personagens reais foram mantidas. No processo de uma mulher que se fortalece enquanto a outra, outrora inabalável, se enfraquece, Bruno Barreto faz de “Flores Raras” uma de suas melhores obras dentro de uma carreira bem-sucedida em sua alternância entre os cinemas nacional e internacional.

Reaching for the Moon, 2013 | Dirigido por Bruno Barreto | Roteiro de Julie Sayres e Matthew Chapman, baseado no livro “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Lucia de Oliveira | Elenco: Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Marcello Airoldi, Lola Kirke, Tânia Costa, Marianna Mac Niven, Marcio Ehrilich, Anna Bella e Treat Williams | Distribuidora: Imagem Filmes

Resenha Crítica | Álbum de Família (2013)

Álbum de Família | August: Osage County

O pouco visto “Bastidores de Um Casamento” contem um momento em que um personagem afirma que apesar das celebrações obrigatórias em família, ela se vê realmente unida somente na tragédia. Essa é uma verdade que justifica a existência de histórias encenadas por grandes elencos, a exemplo de “Álbum de Família”. Afinal, os Westons não iriam se rever caso o patriarca da família, Beverly (Sam Shepard), não desaparecesse sem deixar vestígios.

Mais do que uma mera lavação de roupa suja que este evento incentivará, no entanto, há no texto de Tracy Letts (já notório por “Possuídos” e “Killer Joe – Matador de Aluguel”, peças de sua autoria adaptadas para serem dirigidas por William Friedkin no cinema) uma abordagem pouco sugerida em derivados. A agressão verbal (quando não física) não é configurada apenas por uma mera questão de falta de afinidade entre pais, irmãos e todos os elementos de uma árvore genealógica. Em ´”Álbum de Família”, o cerne dos desentendimentos está na incompatibilidade das gerações de uma família.

A matriarca Violet (Meryl Streep), que vive entorpecida de medicamentos receitados para tratar um câncer na boca, confirma com o consentimento de sua irmã Mattie (Margo Martindale) que os problemas aparentemente mundanos de suas filhas Barbara (Julia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) em nada equiparam ao trauma de uma educação rígida infringida pelos seus pais.

Durante o calor devastador em uma casinha antiquada em Oklahoma, a reunião dos Westons só prova que essas mulheres são reprises uma das outras. Se Mattie e Violet aos poucos revelam que partilharam ao longo de suas existências mais coisas do que deveriam, Barbara, Ivy e Karen confirmam o mesmo nível de insatisfação com a vida, ainda que tenham seguido rumos totalmente diferentes. Antes podendo ser julgada como a irmã bem-sucedida do trio, Barbara não consegue esconder o fracasso de seu casamento com Bill (Ewan McGregor), com quem teve a precoce Jean (Abigail Breslin). Nada de significativo aconteceu também com Ivy e Karen: se a primeira foi a única a permanecer perto da mãe, a segunda depende de homens cafajestes para viabilizarem os seus caprichos, como prova o seu noivado com Steve (Dermot Mulroney), homem com três casamentos desfeitos que seduz na cara dura sua sobrinha Jean.

Mesmo não se mostrando um grande diretor, John Wells é feliz ao preservar a acidez já conhecida de um texto de Tracy Letts e ao dar a cada integrante do elenco ao menos um grande momento para brilhar – o que inclui os atores, que definitivamente incorporam figuras secundárias nesta história essencialmente feminina. São acertos que validam “Álbum de Família” como um filme que cria meios alternativos ao encenar a necessidade de fuga em ocasiões turbulentas. Cada Westons fugirá do cenário lúgubre e restará a cada um deles determinar se chegar a um destino não determinado será suficiente para driblarem suas existências ordinárias.

August: Osage County, 2013 | Dirigido por John Wells | Roteiro de Tracy Letts, baseado na peça homônima de sua autoria| Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Sam Shepard, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Will Coffey, Newell Alexander, Jerry Stahl e Misty Upham | Distribuidora: Imagem Filmes

Resenha Crítica | Uma Estranha Amizade (2012)

Uma Estranha Amizade | Starlet

Jane (Dree Hemingway) consegue um quartinho na residência espaçosa em que vivem Melissa (Stella Maeve) e Mikey (James Ransone). Ela é jovem, bela e tem muito tempo para gastar, pois não possui uma escala de trabalho convencional. Com a intenção de dar a sua cara ao cômodo que chamará de novo lar, Jane vai à busca daquelas feirinhas realizadas por muitos americanos em frente de suas casas para se livrar do que não tem mais utilidade. Acompanhada de Starlet, sua Chihuahua graciosa, Jane volta com muitos objetos para decorar o seu quarto. Inclusive um vaso com muito dinheiro que comprou por um valor simbólico de Sadie (Besedka Johnson), uma senhora de 85 anos.

Em seu terceiro longa de ficção (e o primeiro lançado comercialmente no Brasil), o americano Sean Baker permite que desfrutemos sobre a experiência em conhecer os outros e a nós mesmos ao investir em uma amizade que nasce entre Jane e Sadie. Portanto, há algo especial em um relacionamento que vai além de um dilema: deveria Jane gastar os 10 mil dólares armazenados no vaso de porcelana ou devolver o dinheiro à Sadie?

A princípio enigmática, Jane, uma personagem sem origens descritas, só é parcialmente desvendada quando já obteve de Sadie um sentimento mais positivo que o mero desinteresse. Viúva há décadas solitária em sua casa cercada por um jardim que precisa ser podado (até as autoridades foram acionadas após uma pessoa se acidentar em sua fachada), Sadie abandona sua ranzinzes habitual ao chegar à conclusão de que Jane só tem boas intenções com suas ações, como conduzi-la de carro para todos os lugares que ela precisa, do supermercado ao cemitério em que seu marido está sepultado.

Embora tenha recebido o prêmio Robert Altman no Independent Spirit Awards no ano passado, não há qualquer dúvida de que são Dree Hemingway e Besedka Johnson que dominam “Uma Estranha Amizade”. Apesar do sobrenome e da idade (Dree Hemingway é bisneta do escritor Ernest Hemingway e Besedka Johnson estreia no cinema após uma carreira profissional dedicada à Astrologia – lamentavelmente, ela faleceu em março do ano passado) ambas são duas atrizes novatas que constroem suas personagens de modo impecável, tornando-as cada vez mais próximas, críveis.

Amparado por suas duas grandes estrelas, “Uma Estranha Amizade” efetiva um relacionamento difícil de ser trabalhado quando não há um toque de delicadeza preciso. É aquele em que valores são construídos quando duas gerações entram em sintonia ao ponto de suprir qualquer solidão e eliminar qualquer julgamento moral. Enquanto Jane vê em sua nova velha amiga uma figura que tem muito a acrescentá-la devido à experiência de vida, Sadie descobre que a presença de uma jovem seja suficiente para reascender sua vitalidade. O fruto dessa amizade é uma história que emociona em cheio em ocasiões inesperadas.

Starlet, 2012 | Dirigido por Sean Baker | Roteiro de Chris Bergoch e Sean Baker | Elenco: Dree Hemingway, Besedka Johnson, Stella Maeve, James Ransone, Karren Karagulian, Michael Adrienne O’Hagan e Boonee | Distribuidora: Tucumán

10 Filmes Para 2014

Entramos em 2014, mas nossas atenções ainda estão concentradas nos filmes exibidos ao longo do ano passado. Afinal, estamos em plena temporada de premiações cinematográficas (o Globo de Ouro 2014 será televisionado já no próximo domingo) e a ocasião exige atenção especial aos filmes que ainda precisam ser vistos.

Hoje decidimos fazer uma pequena pausa em tudo o que se refere ao ano passado para compartilhar uma seleção com dez títulos que estamos doidos para assistir neste ano. Revendo a lista 10 Filmes para 2013, notamos que apenas “Devil’s Knot” figura em nossa lista de 2014. Embora exibido em Toronto, o novo longa-metragem de Atom Egoyan ainda não foi lançado comercialmente.

Vale dizer que alguns filmes já contém teasers ou trailers. Todas as sinopses foram extraídas do Adoro Cinema, um dos parceiros do Cine Resenhas. Comentem sobre os filmes que vocês têm mais expectativas para este ano. Estamos curiosos em saber.

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A Pele de Vênus

A Pele de Vênus | La Vénus à la fourrure | dir. Roman Polanski | Trailer | IMDb
Lançamento: 2014
Distribuição: –
A trama gira em torno de Vanda (Emmanuelle Seigner) é uma atriz que luta para convencer o diretor Thomas (Mathieu Amalric) de que ela é a pessoa certa para interpretar a protagonista de sua mais nova peça, inspirada em obra de Sacher Masoch. A direção é de responsabilidade de Roman Polanski.

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Devil's Knot

Devil’s Knot | dir. Atom Egoyan | Trailer | IMDb
Lançamento: 2014
Distribuição: –
Em 1993, os adolescentes Damien Echols, Jason Baldwin e Jessie Misskelley Jr. foram acusados de assassinar brutalmente três crianças de oito anos. Em um julgamento repleto de polêmicas e incertezas, eles foram condenados. Após uma longa batalha judicial, foram soltos no ano passado. Adaptação do livro “The Devil’s Knot: The True Story of the West Memphis Three”.

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Grace of Monaco

Grace: A Princesa de Mônaco | Grace of Monaco | dir. Olivier Dahan | Teaser | IMDb
Lançamento: 7 de fevereiro
Distribuição: Playarte
A história gira em torno de uma disputa política entre França e Mônaco, em 1962. À época, o líder francês Charles De Gaulle se mostrava muito incomodado com o fato do principado ter se tornado um paraíso fiscal e chegou a dar um prazo de seis meses para que o príncipe de Mônaco Rainer III modificasse sua legislação tarifária. Aos 33 anos e sem mais atuar como atriz, a princesa Grace Kelly usou todo seu prestígio nos bastidores para evitar que o confronto fosse ainda maior.

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The Young & Prodigious Spivet

L’extravagant voyage du jeune et prodigieux T.S. Spivet | dir. Jean-Pierre Jeunet | Trailer | IMDb
Lançamento: 2014
Distribuição: –
Aos doze anos de idade, T.S. Spivet é um garoto superdotado, apaixonado por cartografia. Quando ele ganha um prêmio científico prestigioso, o garoto decide abandonar sua família em Montana para atravessar sozinho aos Estados Unidos, até chegar a Washington. O único problema é que o júri não sabe que o vencedor ainda é uma criança.

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Map to the Stars

Map to the Stars | dir. David Cronenberg | IMDb
Lançamento: 2014
Distribuição: –
Esta comédia satírica explora os bastidores da indústria cinematográfica, com seus agentes e atores. Em particular, a história se foca em duas crianças que começam a atuar e são “arruinadas pela depravação de Hollywood”, de acordo com o diretor David Cronenberg.

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Ninfomaníaca - Parte 2

Ninfomaníaca: Volume 2Nymphomaniac: Volume II | dir. Lars von Trier | Trailer | IMDb
Lançamento: março de 2014
Distribuição: California Filmes
Joe (Charlotte Gainsbourg) é uma mulher de 50 anos que decide contar a um homem mais velho (Stellan Skarsgard) sua história pessoal. Ela relata suas experiências ao longo de oito períodos da sua vida, marcados por diversos encontros e incidentes.

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O Gorila

O Gorila | dir. José Eduardo Belmonte | Teaser | IMDb
Afrânio (Otávio Muller) é um sujeito reservado e angustiado por memórias de sua infância. Ele costumava trabalhar como dublador, mas já não se sente capaz de exercer a função. Para amenizar a solidão e se entreter ele encontra um passatempo: ligar para pessoas desconhecidas, geralmente mulheres, e se apresentar como “O Gorila”. Seu alterego usa da bela voz para conhecer a história dessas pessoas e acaba desenvolvendo laços com com elas. Entretanto, na noite de Natal, Afrânio recebe um trote. Do outro lado da linha está uma pessoa misteriosa que fará ele enfrentar o mundo exterior para tentar salvar uma vida.

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Quando Eu Era Vivo

Quando eu Era Vivo | dir. Marco Dutra | Trailer | IMDb
Lançamento: 31 de janeiro
Distribuição: Vitrine Filmes
Júnior (Marat Descartes) volta a morar com a família depois que perdeu o emprego e se separou da esposa. Ao chegar na casa que um dia já fora seu lar, ele se sente um estranho e passa seus dias no sofá do velho Sênior (Antônio Fagundes) remoendo a separação, o desemprego e sonhando com a jovem inquilina Bruna (Sandy). Após achar alguns objetos que pertenciam à sua mãe, Júnior passa a querer saber tudo sobre a história da família e desenvolve uma estranha obsessão pelo passado, passando a confundir delírio e realidade.

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Sob a Pele

Sob a Pele | Under the Skin | dir. Jonathan Glazer | IMDb | Teaser
Lançamento: 2014
Distribuição: Paris Filmes
Um alienígena (Scarlett Johansson) chega à Terra e começa a percorrer estradas desertas e paisagens vazias em busca de presas humanas. Sua principal arma é sua sexualidade voraz… Mas ao longo do processo, ela descobre uma inesperada porção de humanidade em si mesma.

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The Disappearance Of Eleanor Rigby

The Disappearance Of Eleanor Rigby: His / The Disappearance Of Eleanor Rigby: Hers | dir. Ned Benson | IMDb
Lançamento: 2014
Distribuição: Sony
Nova York, Estados Unidos. O relacionamento do casal formado por Connor Ludlow (James McAvoy) e Eleanor Rigby (Jessica Chastain), a partir do ponto de vista dela. Ele é dono de um restaurante, enquanto que ela resolveu voltar a estudar na universidade.

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Os 10 Piores Filmes de 2013

Não importa o quão prevenidos possamos ser, os filmes ruins sempre vão sempre nos perseguir. Eles podem ser tanto produções europeias que inexplicavelmente arrebataram inúmeros prêmios em festivais e premiações mundo afora quanto aqueles projetos de cineastas que até então nunca haviam errado.

Provando que essas possibilidades são verdadeiras, organizamos a nossa seleção dos piores filmes lançados nos cinemas e em homevideo ao longo do ano passado. Na nossa seleção, há filmes que vão dos nacionais e blockbusters de verão até obras apreciadas em festivais como o de Cannes. Ninguém saiu ileso, inclusive o pobre espectador que desembolsou tempo e dinheiro. De bônus, também apontamos aquelas que foram as piores interpretações masculinas e femininas do ano passado. Vale lembrar que há filmes que possuem resenhas completas – para lê-las, basta clicar no sinal de adição após o título em negrito.

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Silent Hill - Revelação 3D01. Silent Hill – Revelação 3D +
Após o espetacular “O Pacto dos Lobos”, Christophe Gans desembarcou em Hollywood para atingir um feito inédito: adaptar um jogo e entregar um resultado que é válido tanto como cinema quanto como uma emulação da experiência proporcionada por um videogame. Pois “Terror em Silent Hill” fez bons números e uma sequência era mera questão de tempo. A maior parte do elenco original está de volta, mas muitas coisas mudaram. Se o original custou 50 milhões de dólares para ser produzido, “Silent Hill – Revelação 3D” teve um orçamento de 20 milhões de dólares, o que para uma indústria de cinema estabelecida equivale ao mesmo que comprar duas dúzias de banana em fim de feira. Mas o pior mesmo é a mudança na direção. Michael J. Bassett é quem assume a condução dos eventos que assolam uma adulta Heather (Adelaide Clemens) e o que se vê é uma narrativa redundante em que prevalece a tosquice de criaturas que já não assustam como no original de Gans. Que saudades dos filmes de Uwe Boll.

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Todo Mundo Hispânico02. Todo Mundo Hispânico, de Javier Ruiz Caldera
Em sua estreia na direção de longa-metragem, o cineasta nascido em Barcelona Javier Ruiz Caldera teve uma boa ideia: parodiar as produções espanholas mais populares. Tudo indicava que a brincadeira havia dado certo vendo os nomes de alguns diretores que toparam fazer piada com as suas obras, a exemplo de J.A. Bayona (“O Orfanato”), Alejandro Amenábar (“Preso na Escuridão”) e a dupla Jaume Balagueró e Paco Plaza (de “[REC]”). Astro das paródias americanas, até Leslie Nielsen (em seu último papel no cinema) dá o ar da graça em uma participação especial. Apesar da expectativa, o resultado é de uma falta de graça revoltante. Mesmo caracterizando cenários e personagens de modo a associá-los aos filmes espanhóis mais bem-sucedidos dos últimos dez anos, as piadas não devem em nada a um “Zorra Total”. Lançado direto em DVD com três anos de atraso, “Todo Mundo Hispânico” não vale nem como mera curiosidade.

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Uma Família em Apuros03. Uma Família em Apuros, de Andy Fickman +
Às vezes não há programa mais agradável do que um filme censura livre. “Uma Família em Apuros” indicava que seria a opção mais divertida dessa categoria no ano. Afinal, temos aqui os veteranos Billy Crystal e Bette Midler com o privilégio de protagonizarem uma história sobre as disfunções de uma família com gerações educadas de modo muito distinto. Ledo engano. O novo filme de Andy Fickman, baseado em experiências particulares do próprio Billy Crystal, não passa de uma sucessão de pegadinhas pregadas por um trio de crianças mimadas e aborrecidas que evidenciam a imaturidade de “Uma Família em Apuros”. No show de horrores em que Crystal não passa de um paspalho atingido a todo o momento nas partes baixas (seja com um golpe ou com uma arma de brinquedo que dispara arma) enquanto Midler o observa incrédulo, somente a doce Marisa Tomei sai ilesa.

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Depois de Lúcia04. Depois de Lúcia, de Michel Franco +
Afinal, o que o cineasta Michel Franco pretendia com “Depois de Lúcia”? Sua intenção está em contar uma história sobre o bullying ou o luto? Independente da leitura, este vencedor da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes se mostra grosseiro. Afinal, a humilhação da qual Alejandra (Tessa Ia) é alvo é tão obscena que impossibilita a emissão de qualquer discurso sobre a perversidade que habita o universo jovem. Isso não é modificado se interpretarmos a passividade da protagonista como um modo de processar a dor de perder a mãe, uma vez que ela não havia sequer sugerido a ausência materna antes de ser submetida aos ataques mais cruéis de seus colegas de classe. “Depois de Lúcia” é um filme incapaz de oferecer algo além do choque passageiro.

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O Homem de Aço05. O Homem de Aço, de Zack Snyder +
Saudade dos tempos em que a Mulher-Gato tinha sete vidas e Louis Lane era incapaz de diferenciar Clark Kent do Superman. O lema do inglês Christopher Nolan agora é dar uma “visão realista” para as adaptações de histórias em quadrinhos. No pós-11 de Setembro, é preciso situar seu herói em um cenário cercado pela paranoia, nem que para isso o personagem seja totalmente desconstruído. Como roteirista e produtor de “O Homem de Aço”, Nolan não corrompe apenas a direção de Zack Snyder, que, vamos ser francos, sabe usar o melhor da tecnologia para conceber belas imagens. Clark Kent agora é um bocó em conflito consigo mesmo e que nem imagina desempenhar o papel do vilão mais asqueroso possível ao colaborar para a destruição quase integral de Smallville e Metrópolis. Nem Jesus Cristo é poupado das analogias risíveis deste que é o blockbuster mais insuportável desde “Battleship – A Batalha dos Mares”.

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É o Fim06. É o Fim, de Evan Goldberg e Seth Rogen
Nada contra filmes que acontecem através de uma reunião de amigos que decidem fazer uma brincadeira. Bom, contanto que Seth Rogen, Jay Baruchel e James Franco não sejam elementos do grupo. Astros do besteirol de quinta (um tipo de humor que atrai muitos espectadores americanos para o cinema), o trio convocou uma série de amigos e celebridades (como Jonah Hill e a cantora Rihanna) para “É o Fim”. É até possível imaginar as reuniões de pré-produção, com cada “comediante” testando as péssimas piadas de improviso enquanto estão totalmente chapados. Trata-se de um filme que compreende “subversão” do modo mais equivocado possível. Ou essa galera tão hilária quanto um Danilo Gentili da vida acredita que há graça em ser recebido no paraíso pelos “Backstreet Boys”?

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Odeio o Dia dos Namorados07. Odeio o Dia dos Namorados, de Roberto Santucci
Ok, “Até que a Sorte nos Separe” está muito longe de ser um bom filme, mas não há dúvidas de que Roberto Santucci fez uma comédia muito melhor que “De Pernas pro Ar”. Há quem aguardasse um novo salto com “Odeio o Dia dos Namorados”, mas o que temos é um verdadeiro retrocesso. Não há em sua nova comédia o mesmo volume de piadas vulgares de “De Pernas pro Ar” e Heloísa Périssé, que é uma comediante de mão cheia, faz o que pode como a protagonista Débora. Por outro lado, “Odeio o Dia dos Namorados” não passa de um pastiche bem sem vergonha do clássico “A Felicidade não se Compra”, trazendo uma workaholic que repensa toda a sua vida após um acidente que pode lhe tirar a vida. Além do mais, todas as tentativas de criar passagens edificantes são destruídas com a intervenção do humor precário. De tão caricatos, Marcelo Saback e Danielle Winits chegam a irritar e há até espaço para fazer graça com a música de Michel Teló. A cereja do bolo de cacto? A conclusão com vários figurantes dançando ao som de “Não Se Reprima” do “Menudos” mostra que, quem diria, “Cinderela Baiana” anda fazendo escolha.

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O Dobro ou Nada08. O Dobro ou Nada, de Stephen Frears +
Até os grandes cineastas erram. Diretor dos ótimos “Ligações Perigosas”, “Coisas Belas e Sujas” e “A Rainha”, o britânico Stephen Frears é garantia de projetos bem produzidos com atuações fora de série. De uma hora para outra, o cineasta deixou as histórias densas de lado para investir em outras mais descontraídas. Se Frears mandou bem em “O Retorno de Tamara”, o mesmo não pode ser dito a respeito de “O Dobro ou Nada”, que parece uma versão de saias e sem nenhum neurónio de “Rain Man”. Provando que o cinema pode produzir histórias inúteis sobre figuras reais (ou sub-anônimos), Frears conduz a trajetória de Beth Raymer (Rebecca Hall), uma dançarina de striptease que decide tentar a sorte em Las Vegas. Ao trabalhar para Dink (Bruce Willis, mal vestido como nunca), sujeito que chefia um grupo de apostadores, a moça descobrirá ter uma habilidade impressionante com números. Se livre desta roubada!

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Um Bom Partido09. Um Bom Partido, de Gabriele Muccino
Depois de finalmente conseguir entrar no primeiro time de Hollywood com o sucesso comercial estrondoso de “300”, o escocês Gerard Butler ficou desorientado quanto a carreira mais adequada a seguir. Na indecisão entre ser um galã romântico, um astro de filmes de ação ou um ator sério, Butler acaba participando de bobagens como “Um Bom Partido”. Seria mais um filme que passaria batido entre nós se não fosse o bom elenco pagando mico. Para tornar explicita a misoginia do roteiro, as belas Jessica Biel, Uma Thurman, Catherine Zeta-Jones e Judy Greer são as mulheres que desempenham os papéis mais patéticos para conquistarem o coração de George, o sujeito interpretado por Gerald Butler que perdeu todo o seu prestígio profissional e sequer sabe o que fazer com a própria vida. Após o embaraçoso “Sete Vidas”, o diretor Gabriele Muccino prova com “Um Bom Partido” que o melhor negócio é regressar para a Itália.

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Colegas10. Colegas, de Marcelo Galvão
“Colegas” estreou em um momento em que o público brasileiro estava entusiasmado com uma nova etapa para o cinema brasileiro inaugurada com “O Som ao Redor”. A ideia do diretor Marcelo Galvão foi ousada: contar uma história com protagonistas com síndrome de Down. Temos assim um filme que se constrói no instante em que os amigos Stallone (Ariel Goldenberg), Aninha (Rita Pook) e Márcio (Breno Viola) decidem fugir da instituição que habitaram ao longo de toda a vida. O que deveria render uma aventura sobre descobertas, liberdade e o valor da amizade se transforma em algo abominável que busca apaziguar todos os valores tortos construídos em uma trama criminal calcada em títulos como “Thelma & Louise”. É como se “Colegas” acreditasse que teríamos empatia pelos  protagonistas pelo simples fato deles serem o que são. Não é bem assim.

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PIORES INTERPRETAÇÕES

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Piores Atores de 2013

ATORES

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Ben Affleck • Amor Pleno
Ben Kingsley • Homem de Ferro  3
Edu Moraes • Somos Tão Jovens
James Franco • Oz – Mágico e Poderoso
Jaden Smith • Depois da Terra
Kit Harington • Silent Hill – Revelação 3D
Russell Crowe • Os Miseráveis
Ryan Gosling • Caça aos Gângsteres
Tobey Maguire • O Grande Gatsby
Will Smith • Depois da Terra

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Piores Atrizes de 2013

 ATRIZES

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Adelaide Clemens • Silent Hill – Revelação 3D
Amanda Seyfried • Os Miseráveis
Amy Adams • O Homem de Aço
Antje Traue • O Homem de Aço
Catherine Zeta-Jones • O Dobro ou Nada
Danielle Winits • Odeio o Dia dos Namorados
Dianna Agron • A Família
Rachel Weisz • Oz – Mágico e Poderoso
Rebecca Hall • O Dobro ou Nada
Svetlana Khodchenkova • Wolverine: Imortal

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