Resenha Crítica | Clube de Compras Dallas (2013)

Clube de Compras Dallas Dallas Buyers Club

 

“Clube de Compras Dallas” foi um projeto que ganhou a luz do dia após um processo muito prolongado de planejamentos e desistências. Roteirizado por Craig Borten e Melisa Wallack (atualmente envolvidos com “The 33”, outro projeto baseado em fatos), “Clube de Compras Dallas” despertou o interesse de Dennis Hopper durante os anos 1990. Já em tempos mais recentes, Craig Gillespie e Marc Forster chegaram a avaliá-lo. O maior problema, no entanto, foram os inúmeros obstáculos para viabilizar “Clube de Compras Dallas”. Havia muitos nomes talentosos interessados em fazê-lo, mas é difícil encontrar investidores para uma história quase impossível de se consolidar como um sucesso financeiro.

Rodado com apenas 5 milhões de dólares, “Clube de Compras Dallas” deve sua existência a Matthew McConaughey. O ator não poderia ser selecionado um momento mais oportuno em sua carreira para interpretar o protagonista Ron Woodroof e ele não mediu esforços para conferir dignidade ao papel. Antes um astro de comédias românticas de segunda, Matthew McConaughey confirma-se como um astro do primeiro time de Hollywood ao perder mais de 22 quilos para viver um sujeito rude, trapaceiro e com a integridade física comprometida.

A trajetória errante de Ron Woodroof é notada já nos primeiros minutos de “Clube de Compras Dallas”. Eletricista viciado em drogas, sexo e apostas, Ron descobre ter contraído o vírus HIV após ser internado por ter sofrido um acidente de trabalho. Pior: ele está  no estágio avançado da doença e os médicos Sevard (Denis O’Hare) e Eve (Jennifer Garner) lhe dão apenas 30 dias de vida.

Graças ao excelente trabalho de montagem de Jean-Marc Vallée (também diretor do filme) e Martin Pensa, a história brinca com as nossas expectativas ao impor uma contagem regressiva em uma batalha pela vida que se prolongou por anos. Quando está prestes a ceder, Ron encontra na ilegalidade um meio de sobreviver. Estamos em pleno anos 1980 e toda a América vê como salvação a AZT, a única droga disponível para tratamentos experimentais. Isso até Ron trazer do México novas possibilidades que o farão travar uma briga escandalosa com os laboratórios farmacêuticos.

Como nem toda ficção amparada por uma história real é capaz de sobreviver sem algumas licenças, “Clube de Compras Dallas” acerta ao inventar um personagem que ajudará a definir o verdadeiro caráter de Ron. Trata-se de Rayon (Jared Leto, no melhor desempenho de sua carreira), um travesti que introduzirá Ron a comunidade gay, aquela que representa o maior número de contaminados pelo HIV. Menos feliz é a existência de Eve, personagem que que dá um tom emocional a uma história até então excepcional pelo modo cru e brutal que narrava a luta de seu protagonista de viver de modo desregrado em uma sociedade corrompida pelo lucro garantido pela enfermidade de minorias.

Dallas Buyers Club, 2013 | Dirigido por Jean-Marc Vallée | Roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack | Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O’Hare, Steve Zahn, Michael O’Neill, Dallas Roberts, Griffin Dunne, Kevin Rankin, Donna Duplantier, Deneen Tyler, J. D. Evermore, Ian Casselberry, Noelle Wilcox e Bradford Cox | Distribuidora: Universal

Resenha Crítica | Capitão Phillips (2013)

Capitão Phillips | Captain Phillips

O inglês Paul Greengrass foi mais um exemplo de cineasta que teve uma fase nada gloriosa em sua carreira ao deixar que o sucesso inflasse seu próprio ego. Mesmo elevando a franquia “Bourne” para um patamar inesperado, logo surgiu na mídia declarações referentes aos seus métodos de trabalho de fazer qualquer investidor arrancar os fios do próprio cabelo. Seu trabalho seguinte, o insuportável “Zona Verde”, representou uma queda profissional vertiginosa consolidada com o fracasso nas bilheterias.

Como um tombo faz bem para todo mundo, Greengrass volta à boa forma com “Capitão Phillips”. O mesmo se aplica ao seu astro Tom Hanks, que desde “Matadores de Velhinha” devia um grande desempenho. No entanto, ambos não estão presentes entre os nomes indicados para o Oscar deste ano. Além de menções em três categorias técnicas (Montagem, Edição de Som e Mixagem de Som), “Capitão Philips” é finalista em Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante (o estreante Barkhad Abdi) e Melhor Filme. Greengrass comete uma série de deslizes ao conduzir a segunda metade de “Capitão Phillips”, mas Hanks é uma ausência sentida entre os finalistas: ele poderia ter ocupado uma vaga que agora pertence a Christian Bale, cujo trabalho em “Trapaça” vem sendo elogiado em demasia.

A participação especial de Catherine Keener nos cinco primeiros minutos de “Capitão Phillips” não é gratuito. Rosto conhecido, a atriz vive a esposa de Richard Phillips (Tom Hanks), capitão de um navio que transporta containers. Trata-se de um pai de família amoroso que precisa abdicar deste papel para trabalhar. A viagem narrada no filme é real e aconteceu em 2009: após algumas tentativas exaustivas de driblar a invasão de piratas somalis, a tripulação foi sequestrada e muitas horas se passaram até alguma solução drástica ser encontrada.

Uma vez rendido, o Phillips de Hanks aproveita-se de subterfúgios para garantir a integridade de seus subordinados e do navio que comanda. No entanto, Muse (Barkhad Abdi), o líder do grupo que restou de piratas somalis, mostra-se suficientemente esperto para obter as riquezas transportadas, mesmo que para isso precise eliminar os reféns. Instaura-se assim uma tensão genuína mantida com o embate entre dois opostos que tiram vantagem um do outro a cada momento.

Quando o jogo é virado contra Phillips  ao fim da primeira metade da história, “Capitão Phillips” começa a perder a credibilidade. Em prol de sua tripulação, Phillips acaba cedendo quando os somalis planejam torná-lo refém assim que o transferem para um barco salva-vidas. Com isso, o acontecimento exige interferências externas e assim são implantados todos os artifícios esperados em uma trama de sequestro, algo que “Capitão Phillips” estava evitando com muito sucesso. Se a transição de um homem dominando plenamente as suas estratégias para outro que vai perdendo progressivamente o controle da situação é convincente, o mesmo não pode ser dito de suas tentativas de fuga ou o modo como os piratas somalis contornam as adversidades consequentes de seus atos. Somente quando Philips enfim desaba é que Paul Greengrass recupera o magnetismo da primeira hora da metragem.

Captain Phillips, 2013 | Dirigido por Paul Greengrass | Roteiro de Billy Ray, baseado no livro “Dever de Capitão”, de Richard Phillips e Stephan Talty | Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, David Warshofsky, Corey Johnson, Chris Mulkey, Yul Vazquez, Max Martini, Omar Berdouni e Catherine Keener | Distribuidora: Sony

Ela

Ela | Her

Há quem ainda discuta a complexidade por trás de cada pós e contra da tecnologia. Ela facilitou o modo como operamos nossas vidas ou somente nos sobrecarregou? A comunicação é mais eficiente ou superficial? Ter várias ferramentas a um clique de distância é prazeroso ou compromete a capacidade de socialização? Se depender da perspectiva negativa de Spike Jonze em “Ela”, todos nós seremos indivíduos sozinhos no meio de multidões.

Ao dirigir o seu primeiro longa-metragem baseado em um roteiro original de sua própria autoria, Jonze garantiu para si três menções ao Oscar: como produtor, como roteirista do argumento original e como compositor junto com Karen O da canção “The Moon Song” – “Ela” também é finalista nas categorias de Melhor Trilha-Sonora Original e Melhor Direção de Arte. Experiente em trabalhar com realidades paralelas, Jonze já fez muito melhor ao oferecer mais possibilidades em narrativas como as de “Onde Vivem os Monstros” e “Adaptação”.

Em mais um papel baixo-astral, Joaquin Phoenix vive Theodore, um homem maduro fora de sintonia com os ambientes que transita. O comportamento introvertido de Theodore é justificado com um processo doloroso de separação com Catherine (Rooney Mara). Ambos viviam um relacionamento muito próspero desde que se apaixonaram na faculdade, mas o tempo revelou uma Catherine destrutiva que Theodore não havia conhecido.

Enquanto não toma a decisão de assinar os papéis necessários para consolidar o divórcio, Theodore se ocupa com o trabalho em uma agência especializada em compor cartas para os seus clientes e com um jogo virtual interativo. Somente a amizade preservada com Amy (Amy Adams) e as conversas breves com o seu colega de trabalho Paul (Chris Pratt) mantêm Theodore conectado com a realidade.

Os temas de Spike Jonze se revelam com maior intensidade no momento exato em que Theodore ativa um sistema operacional de inteligência artificial que se apresenta como Samantha (voz de Scarlett Johansson, que substituiu Samantha Morton quando Jonze notou que ela não construiu com Joaquin Phoenix a sintonia aguardada). As expectativas dele com Samantha são superadas de modo tão imediato que sua presença parece física.

A troca de confidências acarreta em um relacionamento íntimo que colocará Theodore em uma situação muito delicada. Como tornar público um “namoro” que não será compreendido por todos, como fica bem claro através da reação nada positiva de Catherine? Será tarde demais quando Theodore recobrar a sua sensatez? Questionamentos com resoluções previsíveis ou soluções fáceis para uma história que pretende ser tão autêntica.

Pior do que isso são os personagens fechados no universo hipster de “Ela”. Se há filmes que frustram com um excesso de felicidade que nada condiz com a realidade, o mesmo se aplica quando a emoção é oposta. Além de Theodore, os personagens secundários de “Ela” estão totalmente estagnados na vida. Uns querem um relacionamento sério já no primeiro encontro às escuras (como a jovem vivida por Olivia Wilde). Outros querem experimentar um amor pleno falso como surrogate (Portia Doubleday). Há até quem prefira viver na solidão do que admitir para o próprio parceiro que perdeu as estribeiras em uma discussão trivial, como a própria Amy faz. Jonze acha que a culpa disso tudo é das interações instantâneas do mundo moderno, mas o verdadeiro problema são os seus personagens deprimidos que preferem culpar o estado das coisas ao invés de dedicar algum esforço para mudá-lo.

Her, 2013 | Dirigido por Spike Jonze | Roteiro de Spike Jonze | Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Matt Latscher, Olivia Wilde, Laura  Kai Chen, Portia Doubleday e vozes de Scarlett Johansson, Kristen Wiig, Bill Hader, Spike Jonze e Brian Cox | Distribuidora: Sony

Resenha Crítica | Trapaça (2013)

Trapaça | American Hustle

David O. Russell deve ter superado inúmeros recordes durante as filmagens de “Trapaça”. Após participar da extensa temporada de premiações cinematográficas com “O Lado Bom da Vida“, o cineasta americano correu para as locações setentistas de Massachusetts para “Trapaça”, longa-metragem filmado em dois meses. A pressa é justificada com a pretensão de Russell e de seus produtores em eleger “Trapaça” como uma possibilidade para a nova edição do Oscar, que será transmitida neste domingo, 2 de março. O tiro foi certeiro, pois o filme lidera com “Gravidade” o número de menções ao Oscar: dez. Além de indicações nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor, “Trapaça” repete o feito de “O Lado Bom da Vida” ao colocar o seu quarteto central preenchendo ao menos uma vaga em cada uma das categorias de interpretações.

Antes que “Trapaça” avance em sua história inspirada em fatos, Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams) são apresentados com minúcia. Irving é um judeu que desde a infância aprendeu a sobreviver sendo um trapaceiro de mão cheia. Ainda que desleixado com a aparência, Irving consegue conquistar o coração de Sydney, uma moça que é tirada por ele da sarjeta. Antes uma stripper que se diz mais esperta do que todos presumem, Sydney torna-se sócia e companheira amorosa de Irving.

Viabilizando um escritório através da venda de obras de arte falsificadas, Irving e Sydney são desmascarados pelo agente do FBI Richie Dimaso (Bradley Cooper). Para se livrar da cadeia, o casal precisa topar a missão de usar suas próprias artimanhas para comprovarem as práticas fraudulentas de Carmine Polito (Jeremy Renner), reconhecido por toda Nova Jersey como um prefeito com coração de ouro. Sem saída, Irving e Sydney se envolvem em uma teia de mentiras e falsas aparências, arrastando involuntariamente para ela Rosalyn (Jennifer Lawrence), de quem Irving ainda é esposa no papel e com quem teve um filho.

Embora algumas características do cinema de Martin Scorsese sejam emuladas por David O. Russell (há até Robert De Niro em participação especial), as comparações acabam sendo esquecidas pelo tom cômico adotado. Atingindo níveis extremos, ele proporciona situações às vezes eficazes (a sequência inicial em que Irving tenta esconder sua calvície ao aplicar uma peruca), às vezes extravagantes (o êxtase de Sydney ao se atracar com Richie no banheiro de uma boate ou Rosalyn realizando faxina ao som de “Live and Let Die”).

Pior do que isto é como a história aos poucos se anula em detrimento de seus personagens. David O. Russell já assumiu que “Trapaça” é um filme feito para eles e isso se justifica através das novas parcerias que estabelece com Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, intérpretes que sabem que o temperamento difícil do cineasta é mero detalhe diante dos louros posteriormente garantidos. Isso faz com que os acontecimentos inspirados no escândalo envolvendo o prefeito Angelo Errichetti sejam puro pretexto para um desfile de decotes, penteados da época e muitas escolhas aborrecidas.

American Hustle, 2013 | Dirigido por David O. Russell | Roteiro de David O. Russell e Eric Warren Singer | Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola, Elisabeth Röhm, Paul Herman, Saïd Taghmaoui, Matthew Russell, Thomas Matthews e Robert De Niro | Distribuidora: Sony

As Aventuras de Tadeo

As Aventuras de Tadeo | Las Aventuras de Tadeo Jones

A cinessérie “Indiana Jones” continua sendo alvo de inspirações e cópias desde o instante em que Steven Spielberg a iniciou em 1981. Algumas deram certo, como “A Múmia” e “O Retorno da Múmia”. Outras nem tanto, a exemplo de “As Minas do Rei Salomão” e o próprio “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal“. A animação espanhola “As Aventuras de Tadeo” nem tenta disfarçar a influência, como denuncia o nome de seu protagonista, Tadeo Jones. No entanto, há novidades nesta aventura assinada pelo estreante Enrique Gato.

Sucesso na Espanha (ficou durante cinco semanas consecutivas no topo da bilheteria) e vencedor de três Goyas (Melhor Animação, Melhor Diretor Estreante e Melhor Roteiro Adaptado), “As Aventuras de Tadeo” traz o personagem-título (voz de Óscar Barberán) tirando proveito de uma confusão para embarcar em uma aventura no Peru. Desde a infância interessado em explorar o mundo e viver grandes riscos, Tadeo é confundido com um arqueólogo célebre e convocado para liderar uma expedição que contará com a professora Sara (Michelle Jenner), o guia Freddy (José Mota) e Jeff, seu cão de estimação.

“As Aventuras de Tadeo” pode ser uma boa introdução para o público infantil que ainda não embarcou em nenhum filme da franquia “Indiana Jones”. Cavernas são exploradas, voos são alçados, vilões megalomaníacos dão às caras e há até múmias para preservar o tom fantástico. Já os valores da história ficam com a decisão de Tadeo em revelar ou não que por trás da máscara que usa há um um homem sonhador que levou sua vida com dignidade ao sobreviver como pedreiro. “As Aventuras de Tadeo” é uma das raras animações a trazer um herói de origens humildes como protagonista e só isso lhe confere um crédito imenso.

Las Aventuras de Tadeo Jones, 2012 | Dirigido por Enrique Gato | Roteiro de Gorka Magallón, Ignacio del Moral, Javier López Barreira, Jordi Gasull e Neil Landau, baseado na comic book “Tadeo Jones y el secreto de Toactlum”, de Gorka Magallón e Javier López Barreira | Vozes de Óscar Barberán, Michelle Jenner, Pep Anton Muñoz, Luis Posada, Meritxell Ané, Miguel Ángel Jenner, Carles Canut e Félix Benito | Distribuidora: Paramount

Universidade Monstros

Universidade Monstros | Monsters University

Embora quase tenha chegado lá com “Ratatouille” e “Up – altas Aventuras“, a Pixar nunca conseguiu se superar desde o momento que lançou o excelente “Monstros S.A.”. A animação em longa-metragem não representou um salto do estúdio apenas em termos técnicos, mas também o confirmou como uma fábrica de histórias para crianças e adultos. Após doze anos, temos “Universidade Monstros” e a pergunta que formulamos automaticamente é “Pra quê?”.

Entre tantas preciosidades em “Monstros S.A.”, a conclusão foi a maior delas. Afinal, a possibilidade de reencontro entre Boo (voz de Mary Gibbs) e Sullivan (John Goodman), bem como a superação do medo que deveria separar esses dois seres de características distintas, é definitivamente um dos mais comoventes no gênero. E aí entra o primeiro acerto de “Universidade Monstros”, pois o filme não é uma continuação direta de “Monstros S.A.”, mas um prequel. Outra bola dentro na história escrita e dirigida por Dan Scanlon está em não depender de “Monstros S.A.”. “Universidade Monstros” é outro momento, tem outra personalidade.

Como o título antecipa, somos apresentados aos jovens Mike (Billy Cristal) e Sullivan, dois monstros opostos que serão obrigados a unirem forças para concluírem a graduação. O universo que eles habitam necessita do medo das crianças, que é convertido em cargas de energia que mantém tudo em funcionamento. Claro que para assustar os pequenos indefesos no meio da noite é preciso muita prática, algo que eles aprenderão na marra devido ao pulso forte da diretora Dean Hardscrabble (Helen Mirren).

Por narrar eventos que antecipam todos aqueles já vistos em “Monstros S.A.”, é natural que “Universidade Monstros” perca alguns pontos em termos de maturidade. Não é um problema, pois os personagens secundários são adoráveis e a velha moral de amigos que descobrem os seus diferenciais é explorada com bastante frescor, especialmente em uma conclusão embalada pela música contagiante de Randy Newman que apresenta o processo de evolução de Mike e Sullivan até se tornarem aqueles personagens cheios de convicção em “Monstros S.A.”.

Monsters University, 2013 | Dirigido por Dan Scanlon | Roteiro de Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird | Vozes de Billy Crystal, John Goodman, Steve Buscemi, Helen Mirren, Peter Sohn, Joel Murray, Sean Hayes, Dave Foley, Charlie Day, Alfred Molina, Tyler Labine, Nathan Fillion, Aubrey Plaza, Bobby Moynihan, Julia Sweeney, Bonnie Hunt, John Krasinski, Bill Hader, Beth Behrs, Bob Peterson e John Ratzenberger | Distribuidora: Disney

Antes da Meia-Noite

Antes da Meia-Noite | Before Midnight

Não houve surpresa quando vários portais de cinema divulgaram a primeira foto oficial de “Antes da Meia-Noite”. Vale relembrar: sem aviso prévio, o cineasta Richard Linklater, o ator Ethan Hawke e a atriz Julie Delpy estavam na Grécia para rodarem o terceiro filme sobre o casal Jesse e Celine. Era uma sequência filmada em segredo e que só foi anunciada justamente quando vimos a imagem de Jesse e Celine nos dias atuais.

O espectador que viu “Antes do Pôr-do-Sol”, que dá sequência ao original “Antes do Amanhecer”, já imaginava que seria uma questão de nove ou dez anos até que um novo filme surgisse para fechar uma trilogia. Os eventos em Paris também imploravam por respostas. Afinal, teria Jesse ficado com Celine após abandonar aquele voo programado?

Ao início de “Antes da Meia-Noite”, temos ciência da decisão tomada por Jesse, pois os primeiros minutos exploram sua alongada despedida com Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), filho que vive nos Estados Unidos com sua primeira esposa, de quem, por sua vez, se divorciou para casar com Celine. Aparentemente, está tudo muito bem na vida do casal. Jesse evoluiu na carreira de escritor e Celine dedica o seu tempo cuidando de suas filhas gêmeas, Ella e Nina (Jennifer e Charlotte Prior).

Em férias na Grécia, o casal encontra a oportunidade de viver uma calmaria temporária após tantos anos driblando os problemas para manter uma família. Passeios e conversas com amigos em mesas para refeições denotam que algo não vai tão bem, no entanto. Para preservarem o amor que um tem pelo outro, houve muitas abdicações. Jesse lamenta a distância que o afasta de Hank enquanto Celine afirma que sua vida profissional estagnou ao exercer o papel de mãe e esposa em tempo integral.

Se em “Antes do Amanhecer” Linklater, Hawke e Delpy retrataram com maestria a atração entre dois jovens desconhecidos e em “Antes do Pôr-do-Sol” foram críveis ao encenarem o reencontro entre eles quase uma década depois, em “Antes da Meia-noite” as coisas não seriam diferentes. Divididas em longos takes, as discussões exibem Jesse e Celine em plena meia-idade compartilhando intimidades que espelham as indecisões sobre escolhas tomadas ao longo da vida. Afasta-se assim do tom fabular vislumbrado nos romances e permanece o choque de realidade. É exatamente por isso que o desejo de reencontrarmos Jesse e Celine daqui a dez anos é tão forte quando sobem os créditos finais de “Antes da Meia-Noite”.

Before Midnight, 2013 | Dirigido por Richard Linklater | Roteiro de Ethan Hawke,Julie Delpy e Richard Linklater | Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Seamus Davey-Fitzpatrick, Seamus Davey-Fitzpatrick, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Xenia Kalogeropoulou, Walter Lassally, Ariane Labed, Yiannis Papadopoulos, Athina Rachel Tsangari e Panos Koroni | Distribuidora: Diamond Films/Paris Filmes

Vovô sem Vergonha

Vovô sem Vergonha | Jackass Presents: Bad Grandpa

Convenhamos: não são todos que estão dispostos a encarar um filme com o selo “Jackass Presents”. Para quem espiou acidentalmente alguma esquete descerebrada dessa trupe de comediantes que se sujeitam aos desafios mais absurdos para extrair risadas sabe que é preciso ter estômago forte. Para quem nunca viu a MTV norte-americana ou alugou os filmes distribuídos pela Paramount, “Jackass” acompanhava um grupo de amigos liderado por Johnny Knoxville se expondo a riscos como ser lançado dentro de banheiro público, raspar papel sulfite entre os dedos ou desafiar animais selvagens.

Em “Vovô sem Vergonha”, há alguns estranhamentos. O único representante do “Jackass” no filme de Jeff Tremaine é o próprio Johnny Knoxville e ele está irreconhecível sob uma maquiagem de envelhecimento (o trabalho de Steve Prouty foi a maior surpresa na lista de indicados ao Oscar 2014). Como parceiro, temos o adorável e travesso Jackson Nicoll, que tem apenas dez anos de idade. Logo chega-se à conclusão: “Vovô sem Vergonha” é uma mistura de ficção com flagras reais.

O filme começa com Irving Zisman (Knoxville) recebendo com a maior felicidade do mundo a notícia da morte de sua esposa Ellie (Catherine Keener, acreditem se quiser!). No velório, Irving é surpreendido com o aparecimento de sua filha Kimmie (Georgina Cates), que dentro de alguns dias deverá encarar a prisão e que deixa com ele seu filho Billy (Nicoll). Irving quer aproveitar a viuvez para viver a vida plenamente, o que significa torrar a sua aposentadoria com bebidas e prostitutas. Planos em que Billy não pode ser encaixado, o que faz com que Irving procure o seu genro Chuck (Greg Harris) para cuidar do menino.

Ao adotar as características de um road movie (Irving deverá se deslocar até Raleigh, na Carolina do Norte, para encontrar Chuck), “Vovô sem Vergonha” usa as paradas durante a viagem para coletar com câmeras escondidas as reações de anônimos ao se depararem com acidentes previamente simulados pela equipe. Entre as mais absurdas e impagáveis, há uma sessão de flatulências em um restaurante com um resultado catastrófico e a participação de Billy em um show de calouros estilo “Pequena Miss Sunshine” em que ele se apresenta como Lindsey Dill.

O mais engraçado em “Vovô sem Vergonha” é que há algo de muito terno em meio a tudo isso. Após tantas piadas não aconselháveis para menores de idade, há uma cumplicidade muito verdadeira entre Irving e Billy ao ponto deles perceberem que não querem se afastar um do outro. A mistura bizarra funciona que é uma maravilha e os créditos certamente devem ser conferidos a Spike Jonze, que, pasmem!, como produtor e roteirista de “Vovô sem Vergonha” faz mais serviço do que no superestimado “Ela”. Deixe os preconceitos de lado e vá ver “Vovô sem Vergonha” com o coração aberto.

Jackass Presents: Bad Grandpa, 2013 | Dirigido por Jeff Tremaine | Roteiro de Jeff Tremaine, Johnny Knoxville e Spike Jonze | Elenco: Johnny Knoxville, Jackson Nicoll, Greg Harris, Georgina Cates, Kamber Hejlik, Jill Kill, Grasie Mercedes Jack Polick e Catherine Keener | Distribuidora: Paramount

Resenha Crítica | A Caça (2012)

Com a Internet atualmente acessível a todos, os casos de predadores sexuais multiplicaram. Não apenas porque o ambiente virtual se mostra perfeito para pedófilos agirem com informações falsas, mas também pela propagação de notícias sobre vítimas. Recentemente, David Schwimmer lidou com o tema com bastante propriedade como diretor de “Confiar“, longa-metragem que o afasta da persona cômica reconhecida mundialmente. Já Thomas Vinterberg, um dos criadores do movimento Dogma 95, busca o caminho mais difícil.

Quando a pequena Klara (Annika Wedderkopp, perfeita em um papel inegavelmente amedrontador para qualquer criança) diz que foi molestada pelo seu professor Lucas (Mads Mikkelsen), Thomas Vinterberg imediatamente elimina qualquer dúvida que cercaria este homem. Tudo é muito claro: Lucas não cometeu essa ação abominável e Klara está apenas fantasiando algo que nunca aconteceu devido a uma decepção ao qual sua imaturidade não é capaz de processar adequadamente.

Ao contrário do público, os personagens secundários de “A Caça” não sabem disso. Ou melhor, não avaliaram a declaração de Klara do modo mais adequado. Afinal, são todos indivíduos de uma sociedade desesperada em apontar culpados quando um crime é cometido. As conclusões são equivocadas e Lucas paga caro com isso. Primeiro ele perde o seu emprego. Na sequência, todos os seus amigos. Por fim, sua própria segurança.

O extraordinário Mads Mikkelsen confirma-se como um dos mais notáveis intérpretes do cinema mundial em “A Caça”, produção que lhe garantiu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes em 2012. A situação desesperadora culmina em dois instantes de explosões devastadoras, uma em um supermercado e a outra em uma igreja. Até que esses instantes sejam encenados, fica a impressão de que Thomas Vinterberg exagerou no modo como desenhou Lucas ao lado do também roteirista Tobias Lindholm. Ao fazer um homem ciente de seu próprio caráter ao ponto de não dizer uma palavra em sua defesa, “A Caça” extrapola ao explorar sua passividade diante de eventos que exigem uma atitude imediata, ainda que essa decisão não comprometa a força do discurso apresentado.

Jagten, 2012 | Dirigido por Thomas Vinterberg | Roteiro de Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm | Elenco: Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Sebastian Bull Sarning, Steen Ordell Guldbrand Jensen     Steen Ordell Guldbrand Jensen, Daniel Engstrup, Troels Thorsen, Søren Rønholt, Hana Shuan e Jytte Kvinesdal | Distribuidora: California Filmes

Resenha Crítica | Marina Abramovic: Artista Presente (2012)

Marina Abramovic - Artista Presente | Marina Abramovic - The Artist Is Present

Após a dupla de documentaristas Jeff Dupre e Matthew Akers exibir uma série de imagens de arquivos em que visualizamos Marina Abramovic submetendo o seu próprio corpo e sanidade a martírios inimagináveis, a própria artista performativa servia indaga: “Onde está a arte em tudo isso? Essa é uma pergunta que não me fizeram até hoje”. Se a resposta é importante ou não, ela poderá ser elucidada pelo espectador que assistir a “Marina Abramovic: Artista Presente”.

Com 67 anos de idade e 40 de carreira, Marina Abramovic não se autodenomina “avó da arte da performance” à toa. Entre os seus trabalhos mais polêmicos estão o consumo de uma cebola, um ato de masturbação, autoflagelo com o símbolo do comunismo impresso em sua barriga e parcerias que desafiaram todos os seus limites com o seu ex-marido Ulay. Tudo, claro, devidamente aberto ao público.

Além de oferecer a audiência a oportunidade de ver alguns desses trabalhos, “Marina Abramovic: Artista Presente” também busca compreender quem é Marina ao acompanhar cada um de seus passos e ao extrair o máximo de relatos possíveis de suas origens. Como se imagina, há muita fúria acumulada no íntimo de Marina e a razão pode ser um convívio muito difícil com uma mãe rígida e fria.

Como modo de externar novamente a sua dor, Marina se submete a mais uma loucura pela arte. Durante uma temporada de três meses em 2010 no Museu de Arte Moderna de Nova York (o famoso MoMA), Marina repetiu uma performance antes realizada com Ulay. Tratava-se de ambos permanecerem sentados  e encararem um ao outro tendo apenas uma mesa separando-os. Pela impossibilidade de se alimentar e até mesmo de se movimentar, Ulay abandonou a performance após duas semanas e aproximadamente 14 quilos perdidos.

Como “Marina Abramovic: Artista Presente” registra, há uma modificação muito importante na performance de Marina. Ao invés de Ulay (que responde pelo melhor momento do documentário ao rever Marina no MoMA) ou qualquer outro artista performativo encarar Marina, uma assento é deixado para que o próprio público busque se comunicar apenas com o olhar. Mesmo que não estejamos realmente de frente com Marina, é possível experimentar o mesmo estado de êxtase vivenciado por centenas de milhares de pessoas que tiveram este privilégio único. As reações vão se intensificando quando a performance da artista chega aos últimos dias. Filas enormes são criadas diariamente por pessoas de todos os pontos do mundo e a comoção é irrefreável.

“Marina Abramovic: Artista Presente” seria perfeito se não fosse alguns inconvenientes. Não é dispensável apenas a participação de James Franco (visivelmente incomodado quando um indivíduo não o reconhece diante das câmeras), como também os depoimentos do diretor do MoMA Klaus Biesenbach, que a todo momento reduz involuntariamente a performance de Marina com observações ordinárias.

Marina Abramovic: The Artist Is Present, 2012 | Dirigido por Jeff Dupre e Matthew Akers | Com Marina Abramovic, Ulay, Klaus Biesenbach, David Balliano, Chrissie Iles, Arthur Danto, David Blaine, Rushka Bergman, Ashton Swinford e James Franco | Distribuição própria