Resenha Crítica | Grace de Mônaco (2014)

Grace: A Princesa de Mônaco | Grace of Monaco

Grace of Monaco, de Olivier Dahan

A mesmo tempo em que Grace Kelly recebeu o Oscar de Melhor Atriz por “Amar é Sofrer” em 1955, o príncipe Rainier Louis veio ao seu encontro em uma edição do Festival de Cannes. A informalidade da aproximação se transformou em uma união no ano seguinte que mudaria totalmente as prioridades de Grace Kelly. Os conflitos entre o seu marido com o presidente francês Charles de Gaulle eram intensos e a luta das gerações passadas em manter o principado independente ameaçava chegar a um fim indesejado.

Com a união de uma das maiores divas do cinema com o príncipe Rainier III, muitos afirmaram que Grace se aproximara daquilo que pode ser chamado de um conto de fadas sendo materializado na vida real. Ao contrário do que a ficção insiste, o final feliz não existe e o recorte da vida de Grace Kelly feito pelo roteirista Arash Amel para “Grace: A Princesa de Mônaco” é a comprovação dessa desilusão.

Desde que foi escolhida em “Os Outros” para viver a personagem Grace Stewart (junção do nome e sobrenome dos astros de “Janela Indiscreta”, Grace Kelly e James Stewart), ficou evidente que seria uma mera questão de tempo para que Nicole Kidman fosse a primeira escolhida para interpretar nos cinemas a musa de Alfred Hitchcock. No entanto, “Grace: A Princesa de Mônaco” não se comporta como uma cinebiografia. A Grace Kelly aqui é vista em seu momento de maior crise, este que não depende da delineação de seu passado artístico ou de seu futuro trágico no acidente automobilístico que resumiu sua existência.

O modo glorioso como Grace Kelly encerra sua participação em “Ladrão de Casaca” é também o seu último ato como intérprete. Bem, ao menos no cinema, como compreende Olivier Dahan, o diretor de “Grace: A Princiesa de Mônaco”. Tentada por Hitchcock (interpretado por Roger Ashton-Griffiths) a retomar sua carreira como a protagonista de “Marnie – Confissões de Uma Ladra”, Grace se vê presa em tempo integral no papel de princesa de Mônaco. Acertar a oferta de Hitchcock confirmaria os boatos da imprensa de que o seu casamento com Rainier III (Tim Roth) estaria em crise, bem como o seu descaso com os assuntos políticos de Mônaco.

Conselheiro de Grace, o padre Francis Tucker (Frank Langella) diz que esta é a deixa para ela exercer o papel de mãe carinhosa, de esposa devota e de mulher engajada em causas humanitárias. O papel mais desafiador do que qualquer um daqueles que representou no cinema e na tevê. O papel de sua vida. Teria Grace Kelly jogo de cintura para sustentar esta personagem para o resto de sua vida? Conseguiria preencher com convicção cada um de seus discursos? Os sacrifícios para manter sua família valeriam a pena?

Já tendo encenado de modo muito irregular a história da cantora Edith Piaf, Olivier Dahan mostra progresso como cineasta em “Grace: A Princesa de Mônaco”, mas lhe falta sutileza ao transformar este período tão tumultuado para Grace Kelly em um drama de proporções cinematográficas. A atmosfera de thriller de espionagem (supõe-se que a privacidade de Grace Kelly e Rainier III era acompanhada à distância por Charles de Gaulle) não ganham tanta ressonância diante do apego de Dahan pelos frufrus de sua mise-en-scène. Nem mesmo a presença de Paz Vega como Maria Callas confere alguma densidade ao filme.

Melhores são os instantes em que Olivier Dahan e, consequentemente, Nicole Kidman compreendem Grace Kelly incorporando o mito por trás de sua figura pública. É onde a opulência dos closes denunciam que Grace Kelly não está movida unicamente por suas emoções mais verdadeiras, como também por um script que deverá seguir para promover a harmonia entre Mônaco e França e em sua vida conjugal. É uma situação que requer que muitos sentimentos sejam forjados, mas o único que Daham permite que sua autenticidade seja questionada é a de arrependimento.

Resenha Crítica | A Menina Que Roubava Livros (2013)

The Book Thief, de Brian Percival

“Os seres humanos me assombram.”
– Morte

Na maioria das produções ambientadas no Holocausto, a tendência é compreendê-lo através dos judeus, as principais vítimas de um dos episódios mais trágicos e vergonhosos da história da humanidade. A luta pela sobrevivência sempre foi um tema cativante para a plateia e o cinema é uma arte infalível para rever as atrocidades que os seres humanos cometem ao mesmo tempo em que tenta repará-la de um modo a nos conscientizar de não reprisá-las nas próximas gerações.

Ao escrever o romance “A Menina que Roubava Livros”, é evidente que Markus Zusak pretendeu dar mais passos ao trazer alemães como personagens centrais da história. Há mais: tratou de apresentar a Morte como narradora dos eventos que cercam Liesel Meminger, menina que acaba de perder seu irmão e é “adotada” por Hans e Rosa Hubermann, um casal que se verá em muitos dilemas quando a Segunda Guerra Mundial se intensifica.

Na adaptação cinematográfica conduzida por Brian Percival (que traz na bagagem a direção de alguns episódios do seriado “Downton Abbey”), a Morte, que ganha a voz marcante de Roger Allam, tem sua presença reduzida, mas ainda é onipresente. Com dificuldades para ler e escrever, Liesel (Sophie Nélisse, confirmando o talento já notado em “O que Traz Boas Novas“), recebe de Hans (Geoffrey Rush) aulas extras no porão de seu novo lar, o que a motiva a se refugiar no mundo da literatura, menos sombrio do que aquele que habita.

Humildes e bem intencionados, Hans e sua esposa Rosa (Emily Watson) ainda abrigam o judeu Max Vandenburg (Ben Schnetzer), cujo pai salvou a vida de Hans no passado. A sua presença ilumina o dia a dia de Liesel, que também encontra em seu vizinho Rudy Steiner (Nico Liersch) um amigo para confidenciar os seus segredos, como os subterfúgios que recorre para preservar a sua paixão recém-descoberta pela leitura em um momento em que inúmeros livros são queimados em praças públicas por nazistas.

Embora “A Menina que Roubava Livros” se deixe levar pela perspectiva de uma criança inocente, a abordagem não é ingênua. Cercada de ternura e tensão, a narrativa busca através de Hans a situação delicada de alemães encarados como inimigos ao se recusarem a servir Hitler. Portanto, a fictícia cidade Paraíso ganha ares dos campos de concentração, com esposas e crianças desoladas com a partida obrigatória dos chefes de família para batalharem contra um inimigo que não reconhecem e as ameaças constantes dos bombardeios aéreos.

Roteirista da adaptação de “A Menina que Roubava Livros”, Michael Petroni teve a decisão sábia de não permitir que a Morte antecipe as tragédias que se apresentarão no clímax, o que oferece que a sua encenação seja ainda mais dolorosa. Mais do que exibir a dor da perda e a arte executando de modo exemplar o seu papel de se sobressair diante das adversidades, os instantes finais de “A Menina que Roubava Livros” são implacáveis ao apresentar a solidariedade como o nosso maior legado.

Jersey Boys: Em Busca da Música (2014)

Jersey Boys: Em Busca da Música | Jersey Boys

Jersey Boys, de Clint Eastwood

Dono de uma vitalidade que lhe permite produzir um filme por ano, Clint Eastwood errou ao aguardar pela cantriz Beyoncé para dirigir uma nova versão de “Nasce Uma Estrela”, cuja história já foi contada quatro vezes no cinema – considerar também “Hollywood”, de 1932. Após dois anos de espera somente para ouvir um não, Clint engavetou o projeto, mas não desistiu da ideia de transformar o seu próximo filme em um musical. E assim temos “Jersey Boys: Em Busca da Música”.

Com ritmo empolgante e às vezes jovial, é até difícil associar a direção ao veterano de 84 anos. O deslocamento é temporário, pois não demora para “Jersey Boys: Em Busca da Música” lidar com temas reconhecíveis em outros títulos da filmografia do cineasta. O principal deles é a obstinação do quarteto central formado por Frankie Valli (John Lloyd Young), Tommy DeVito (Vincent Piazza, o melhor do elenco e a cara de um jovem Dermot Mulroney), Bob Gaudio (Erich Bergen) e Nick Massi (Michael Lomenda) em conseguir trilhar o caminho mais favorável para alguém nascido e crescido em New Jersey. Caso não alcancem a fama com o talento que há para a música, restará ingressar a máfia ou o exército, duas opções capazes de reduzir qualquer existência.

Voz principal do “The Four Seasons”, Clint Eastwood transforma Frankie Valli no protagonista de “Jersey Boys: Em Busca da Música”, embora os seus colegas sejam os responsáveis por quebrar a quarta parede ao interagir diretamente com o público. Dono de sucessos como “Sherry” e “Walk Like A Man”, o grupo musical não apresentava fora do palco a mesma harmonia de suas composições alegres. Culpa de Tommy DeVito, que provou ser um péssimo líder ao acumular dívidas e ao interromper o progresso do “The Four Seasons” sempre que acreditava que o seu tapete estava sendo puxado por Valli e Gaudio, que ensaiavam a possibilidade de abandonar o grupo.

Escrito por Marshall Brickman e Rick Elice, dupla responsável pelo livro que serviu de base para a criação do roteiro, “Jersey Boys: Em Busca da Música” compreende com fascínio a ascensão de quatro indivíduos que encontraram na música o meio principal para se popularizarem. Já a queda é longa, provocando um incômodo que só é parcialmente compensado com a preservação do humor. Se já não fosse suficiente representar a decadência do grupo, há ainda um tempo precioso dedicado aos conflitos familiares de Frankie Valli, tão artificiais quanto o envelhecimento que os atores são submetidos nos momentos derradeiros: após “J. Edgar“, Clint Eastwood volta a provar que não é bom para selecionar sua equipe de maquiadores.

Resenha Crítica | Malévola (2014)

Malévola | Maleficent

Maleficent, de Robert Stromberg

A Disney concebeu histórias imortais através da animação. Títulos como “Branca de Neve e os Sete Anões” e “A Bela e a Fera” são conhecidos de cor e salteado, inclusive por crianças e adultos que jamais os conferiram na íntegra. Passaram-se vários anos desde as suas produções e hoje vivemos em um cenário que não comporta mais a fragilidade conferida a essas moças que antes dependiam da presença de um príncipe encantado e da promessa de amor eterno para se autoafirmarem.

Como visto em duas releituras recentes em live-action de “Branca de Neve e os Sete Anões”, “Espelho, Espelho Meu” e “Branca de Neve e o Caçador”, a protagonista já não é mais a garota indefesa de outrora. É preciso vê-la liderando uma tropa e bem preparada para usar espada e escudo. O envolvimento com um cavaleiro se torna assim algo deixado para depois, pois a prioridade é enfrentar a adversidade, lutar pela própria sobrevivência.

Aurora (vivida na fase adolescente por Elle Fanning) recebe uma repaginada em “Malévola”, mas é a personagem-título, vilã célebre de “A Bela Adormecida”, que é revista de modo mais radical. Portanto, o filme de estreia de Robert Stromberg na direção também se preocupa em remodelar Malévola, encarnada com aquele gosto perverso inimitável de Angelina Jolie. Eis assim uma Malévola que representa uma dualidade em seu caráter, com boas e más intenções que recebem o aprofundamento merecido.

Antes de se corromper pela maldade do reino ligado a floresta mágica e vívida que habita, Malévola foi uma fada pura e que preservava a integridade de seu lar com perseverança. Ao se deparar na infância com Stefan (que será encarnado por Sharlto Copley na fase adulta), Malévola conhece o amor. Tudo para, na sequência, ter a convicção plena da inexistência deste sentimento ao desvendar em Stefan um homem obcecado pelo poder, o que lhe custa suas belas asas e benevolência. Compreensível que lance assim um feitiço contra Aurora, filha que o agora Rei Stefan tem com Leila (Hannah New), que a fará dormir eternamente  ao completar 16 anos contanto que alguém que a ame de verdade a desperte com um beijo.

“Malévola” tem um primeiro ato primoroso e um clímax surpreendente e oportuno para validar os valores que hoje caracterizam a mulher independente. Já o desenrolar do roteiro de Linda Woolverton (uma veterana na Disney) é muito problemático. Ao enaltecer suas protagonistas, Woolverton transforma todas as figuras masculinas em meras caricaturas, especialmente o Príncipe Phillip (Brenton Thwaites), que surge na história sem qualquer aviso prévio. Salva-se Diaval, o serviçal de Malévola vivido pelo carismático Sam Riley. Além do mais, as elipses comprometem a harmonia da interação entre personagens e o curso de algumas ações. Tivessem meia hora a mais ao seus dispor, é certo que Robert Stromberg e Linda Woolverton dariam um acabamento mais caprichado ao filme.

Resenha Crítica | Uma Relação Delicada (2013)

 

Abus de faiblesse, de Catherine Breillat

Ainda jovem, Catherine Breillat iniciou uma carreira próspera como escritora já na publicação de seu primeiro romance, “L’Homme Facile”, inapropriado para menores de 18 anos – ela o escreveu com 17 anos. Suas histórias de forte apelo sexual foram propagadas para um público mais amplo quando ganharam as telas de cinema. Em seu mais novo trabalho como diretora e roteirista, Breillat se desvincula um pouco do que produziu até aqui ao compartilhar um acontecimento que a abateu e que nem todos sabiam.

Em 2004, Catherine Breillat sofreu um AVC. Mesmo submetida a um longo processo de recuperação e com a parte esquerda do corpo paralisada, a cineasta não se aposentou, rodando longas como “A Última Amante”. No entanto, este acontecimento em sua vida não é o único a ser apresentado em “Uma Relação Delicada”, cuja produção ela mesma tratou de encarar.

Na ficção, Catherine Breillat se transformou em Maud Schoenberg (Isabelle Huppert), uma artista que reúne forças para voltar a trabalhar após o AVC que sofreu enquanto dormia. Sua intenção é contratar Vilko Piran (Kool Shen) para ser o protagonista de seu próximo projeto. O único senão é que Vilko, um sujeito que acabou de sair da prisão, não é a pessoa mais indicada para ter uma relação tão próxima com Maud, extremamente vulnerável com as suas limitações físicas e estado de solidão. O que era para ser um convívio movido para a realização de um filme se transforma em um círculo vicioso de dependências.

Com 61 anos de idade e 43 de carreira, Isabelle Huppert continua se envolvendo em papéis desafiadores. Embora nem sempre precisa ao retratar alguém com paralisia parcial, a veterana é a principal responsável em impor alguma densidade ao projeto. É particularmente especial o momento em que sua Maud demonstra plena confiança na história que pretende filmar, gesticulando como se não tivesse sofrido um AVC.

Os problemas irreversíveis de “Uma Relação Delicada” acontecem justamente pela presença de Catherine Breillat como narradora de sua própria história. Se por um lado há a propriedade com que conta eventos em que foi testemunha e vítima, por outro há a parcialidade com que os fatos são exibidos. Além do mais, Catherine Breillat não é uma cineasta que tem a sutileza como uma qualidade. Todos os acontecimentos repetitivos (especialmente aqueles das assinaturas nos cheques emitidos de Maud para Vilko) são potencializados com o uso exagerado da trilha-sonora de instrumentos agudos e com a atmosfera que dramatiza em excesso as dificuldades da protagonista em se locomover.

Resenha Crítica | Um Plano Brilhante (2013)

Um Plano Brilhante (2013) | Love Punch

Love Punch, de Joel Hopkins

O número de produções com narrativas românticas protagonizadas por nomes que já chegaram à terceira idade é mínimo. Há uma teoria bem tola de que apenas os jovens conseguem segurar a plateia, formada em sua maioria por outros jovens. Em seu segundo longa-metragem, Joel Hopkins provou que não concordava com essa injustiça ao trazer os veteranos Dustin Hoffman e Emma Thompson nos papéis principais de dois desconhecidos que se apaixonam diante de alguns encontros e desencontros em Londres. Por se tratar de uma produção independente restrita ao circuito alternativo, podemos dizer que os 32 milhões que “Tinha Que Ser Você” arrecadou mundialmente são bem expressivos – na comparação, a receita é a mesma obtida pelo novo “Amor Sem Fim”, protagonizado pelos jovens, belos e insossos Alex Pettyfer e Gabriella Wilde.

Em “Um Plano Perfeito” (não confundir com o ótimo thriller de 2007 com Demi Moore e Michael Caine), Joel Hopkins repete parceria com Emma Thompson e convoca Pierce Brosnan para defender o papel masculino principal. No entanto, o resultado desta vez não é lá muito louvável. Thompson e Brosnan tem aquela pinta dos casais que faziam a alegria de todos na Era de Ouro de Hollywood, mas o projeto não tem preocupação alguma em nos deixar uma forte impressão.

Emma Thompson e Pierce Brosnan vivem os divorciados Kate e Richard. Pais de um casal de adolescentes e interessados em se comprometer seriamente com outra pessoa, ambos acabam se unindo para uma missão. Richard deu uma tremenda bola fora ao ter uma relação com uma jovem enquanto era casado com Kate e está há um bom tempo arrependido de sua cafajestice. Prestes a se aposentar, ele e seus colegas de trabalho são surpreendidos ao verem toda a grana que receberiam ir para o espaço. O responsável pela ação foi um empresário francês (papel de Laurent Lafitte), aproveitando-se de subterfúgios para arrancar toda a grana de modo legal.

Richard fica inconformado e solicita a companhia de Kate para viajar para Paris em busca de satisfações. Quando são chutados sem cerimônia do edifício do sujeito, eles armam um plano que o título considera brilhante: roubar um colar de diamante no valor de 10 milhões de dólares que o empresário comprou para a sua noiva (a fofa Louise Bourgoin, de “A Garota de Mônaco” e “As Múmias do Faraó“).

Como não dá para encaixar Emma Thompson e Pierce Brosnan em uma trama com ação (há algumas brincadeiras com o fato de Brosnan já ter sido James Bond e só), restou para Joel Hopkins fazer humor através da idade avançada de seus personagens. Kate quase perde o fôlego ao se infiltrar na despedida de solteiro da noiva e Richard a todo o momento reclama de dores corporais. São piadas bem corriqueiras que só ganham algum atrativo quando Timothy Spall e Celia Imrie entram em cena como Jerry e Penelope. Amigos de longa data de Kate e Richard, os dois surgem para ajudam a valer o preço pago pelo ingresso.

Homenagem a Nicole Kidman

Nicole Kidman

 

por Alex Gonçalves
Cine Resenhas

O cinema é um universo abrangente que permite a qualquer espectador criar um fascínio imediato pelas estrelas responsáveis pela arte da interpretação. Marilyn Monroe é ainda reconhecida por uma sensualidade insuperável que hipnotiza a todos que assistem qualquer uma de suas comédias atrevidas. Daniel Day-Lewis trabalha esporadicamente, mas sempre arrebata com o modo com que se compromete em compor cada um de seus papéis. Recordista em nomeações ao Oscar, Meryl Streep é capaz de incorporar qualquer personagem. São alguns exemplos notórios de intérpretes que zelam (ou zelavam) por suas reputações artísticas e que nós sempre depositamos confiança ao ver os seus nomes com destaque em um pôster.

Homenageada neste espaço em seu 47º aniversário, Nicole Kidman já havia conquistado o meu coração quando ainda era uma criança. Como irmão de duas garotas que suspiravam em suas juventudes por Tom Cruise, era comum ver e rever, tanto em VHS quanto na tevê aberta, produções bobinhas como “Dias de Trovão” e “Um Sonho Distante”. Naquela época, Nicole Kidman era casada com Tom Cruise, mas não tardou em buscar projetos que a fizessem sair da sombra de seu marido. Os feitos foram mais expressivos após um episódio particular dramático: o divórcio entre Tom e Nicole. Chegou ao fim o relacionamento entre o casal mais famoso em Hollywood, mas eis que surge uma Nicole Kidman renascida, preparada para explorar novas possibilidades como atriz.

Acredito na força que o cinema tem em mudar as nossas perspectivas sobre quem somos e onde estamos inseridos. Eis que Nicole protagonizou três filmes essenciais para o meu amadurecimento tanto como cinéfilo quanto indivíduo. “Os Outros”, o meu filme favorito de todos os tempos, traz uma possibilidade pouco favorável quanto ao que nos aguarda quando nossa existência no plano material chegar ao fim. Em “As Horas”, há três retratos maravilhosos sobre os desejos e o quanto podemos ser infelizes quando eles são reprimidos. Por fim, há “Dogville” e a perspectiva desesperançosa de Lars von Trier, que acredita que a humanidade somente reprisa os erros das gerações passadas. São filmes com cargas emocionais pesadíssimas e que refletem a estratégia que Nicole Kidman viria a tomar a partir de então: de se doar para diretores que a explorassem de corpo e alma.

Para comprovar essas e outras qualidades, tive o prazer de contar com a colaboração de Brenno Bezerra, Paulo Soares e Wanderley Teixeira, três amigos que nutrem essa paixão intensa por esta que é uma das maiores dádivas do cinema em atividade e que ainda tem uma longa carreira pela frente. Além dos depoimentos individuais, há também um top 10 elaborado por cada um de nós.

Feliz aniversário, Nicole!

.

Top 10

01. Os Outros (2001)
02. Dogville (2003)
03. As Horas (2002)
04. Um Sonho Sem Limites (1995)
05. Cold Mountain (2003)
06. Reencarnação (2004)
07. Segredos de Sangue (2013)
08. Flertando – Aprendendo a Viver (1991)
09. A Pele (2006)
10. Retratos de Uma Mulher (1996)

.

.

Nicole Kidman 80'

por Brenno Bezerra
Cinema com Brenno

Quando explano para alguém sobre o amor que tenho pela sétima arte, confesso que não consigo responder sobre quem é o meu ator ou diretor favorito, nem sei qual é o meu filme predileto. Mas nesse fanatismo, um nome em muito me encanta: Nicole Kidman. Falar sobre como surgiu meu fanatismo por essa atriz é até bizarro. O ano era 2001, eu tinha onze anos e já era algo em torno de sete de noite, quando uma forte dor de cabeça me abateu. Criança sem saber o que fazer, deitou-se bem próxima a um ventilador forte, como se o frio fosse aliviar a dor. Resultado: sono precoce. Diante disso, acordei de madrugada, e sem conseguir voltar a dormir, liguei a televisão. O filme era “Malícia”, e aquela mulher loura, que eu nunca tinha visto, em muito chamava minha atenção. Os créditos finais mataram minha curiosidade. Aquele nome não saía de minha cabeça.

Morei desde que nasci até os quinze anos no interior do Maranhão (moro inclusive hoje, após cinco anos na capital). Cinema na cidade? De forma alguma. Locadora? Apenas uma. Internet? Demorou muito a chegar. A “Tela Quente” salvou bastante meu fanatismo de cair em desgraças. Porém, sempre lia os jornais para ver quais filmes estavam em cartaz, os atores do momento, colunas de arte e cultura… Até que um dia, um veículo impresso trazia a lista dos indicados ao Oscar 2002. Lá vou eu todo curioso saber quem estava na disputa. E lá estava na categoria de Melhor Atriz: Nicole Kidman, por “Moulin Rouge”. Pronto. Naquele momento pus em minha mente que aquela era a pessoa que eu ia venerar. Seu nome quando era tido, fazia meus olhos brilharem. Cada filme seu que eu via, era meu preferido, e seu talento era incontestável.

Minha mudança para São Luis em muito melhorou minha vida. Já tinha comigo todos os artifícios para viver mais o cinema e seguir a vida da Nic. Não nego que fui ficando mais culturalizado e de mente aberta, a ponto de saber reconhecer vacilos. Mas meu lado fã fala mais alto. Hoje, e desde sempre, vivo a seguir sua carreira, querer saber notícias sobre sua vida, seus projetos. Quando criticada, fico triste como um pai vê seu filho sendo esculachado publicamente. Uma atriz que fez o que fez no já citado “Moulin Rouge”, em “Os Outros” ou “Reencontrando a Felicidade” nunca me fez perder a crença de que grandes atuações pode vir a qualquer momento, mesmo que muitos ainda demonstrem prazer em estar criticando implantes de botox.

O mais marcante, sem dúvida, foi o dia 23 de março de 2003, quando eu fiquei acordado até Denzel Washington falar: “And The Oscar Goes To… By a Nose… Nicole Kidman”. Em plena madrugada, fiquei pulando em casa sem parar, como o torcedor de futebol vibra o gol de seu time. Era o momento em que o mundo via Nicole Kidman ser consagrada com uma interpretação arrebatadora em “As Horas”. Em seu discurso, pediu que sua filha Isabella tivesse orgulho dela. Tal pedido, sinto como se fosse para todos os seus fãs, e agora eu digo: “Nicole, eu tenho orgulho de você”.

.

Top 10

01. Moulin Rouge – Amor em Vermelho (2001)
02. As Horas (2002)
03. Os Outros (2001)
04. Happy Feet: O Pinguim (2006)
05. Reencontrando a Felicidade (2010)
06. Cold Mountain (2003)
07. A Bússola de Ouro (2007)
08. Dogville (2003)
09. Um Sonho Sem Limites (1995)
10. A Pele (2006)

.

.

Nicole Kidman 90'

por Paulo Soares
@Pauloscorsa

“Estou sempre à procura de personagens e diretores que me desafiem. Eu quero ser levada para lugares que nunca fui. Eu não penso em função da minha carreira. Não tenho planos. Não faz parte da minha natureza.” Dentre as frases com que Nicole Kidman se descreve, nenhuma poderia ser melhor para delinear com precisão o reflexo de sua já longa e brilhante carreira. Uma atriz que sempre se coloca trabalhando firme naquela linha tênue que separam as atrizes de fato das atrizes de ocasiões, as estrelas fulgazes das estrelas eternas; tudo isso resultando em uma das atrizes mais ousadas e versáteis de sua geração, que chega aos seus 47 anos mostrando pleno vigor artístico, e dando notáveis sinais de que continuará desafiando e sendo desafiada, conteste quem contestar! Nos acertos e nos erros sim, porém jamais pautada pelo medo e insegurança!

Na difícil missão de enumerar um top 10 de suas notáveis performances, seguem aquelas que se completam e formam um conjunto de desempenhos e projetos invejáveis que deveriam servir de espelho para todo artista que deseja encarar a arte em toda sua expressão máxima e explorado seus limites.

.

Top 10*
01. Satine, Moulin Rouge – Amor em Vermelho (2001)
02. Virginia Woolf, As Horas (2002)
03. Anna, Reencarnaçao (2004)
04. Grace Stewart, Os Outros (2001)
05. Suzanne Stone Maretto, Um Sonho Sem Limites (1995)
06. Grace Margaret Mulligan, Dogville (2003)
07. Becca, Reencontrando a Felicidade (2010)
08. Alice Harford, De Olhos Bem Fechados (1999)
09. Rae Ingram, Terror a Bordo (1989)
10. Isabel Archer, Retratos de Uma Mulher (1996)

*por interpretação

.

.

Nicole Kidman 2010'

por Wanderley Teixeira
Chovendo Sapos | Coisa de Cinéfilo

O colega Alex Gonçalves me pediu para falar sobre Nicole Kidman e todos sabem como é difícil para mim fazer uma defesa de uma obra ou de alguém que me é tão especial quanto a nossa estrela preferida, que faz aniversário nesta sexta-feira. Todo relato me parecia uma melosa declaração de um fã que, aos 27 anos, tenta manter um certo equilíbrio emocional ao falar do seu ídolo, mas não consegue. Então resolvi contar como e porque ela se tornou um ícone para mim a partir de “primeiras” experiências com a atriz nas telonas.

O primeiro filme de Nicole Kidman que me recordo de ter visto no cinema foi ‘Batman Eternamente” em 1995 e nem foi por causa da Nicole, foi por causa do Morcegão mesmo. As coisas foram diferentes em 2001… Descendo de um balanço, ostentando uma cartola e um collant de diamantes, Kidman, ou melhor, Satine, cantava “Diamonds are a girls best friends”, canção que décadas passadas tinha sido imortalizada pela loira curvilínea Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras”. Agora, “Diamonds” seria cravada na minha memória por uma longilínea ruiva em “Moulin Rouge – Amor em Vermelho”.

Ali, Nicole recebia a alforria de um casamento que visivelmente podou o seu talento e se revelaria a atriz que conhecemos hoje, colocando o seu poder magnético de estrela de cinema a seu favor a fim de se envolver em empreitadas arriscadas com realizadores ecléticos como Alejandro Amenábar, Stephen Daldry, Lars von Trier, Anthony Minghella, Jonathan Glazer, Sydney Pollack, Steven Shainberg, Noah Baumbach, John Cameron Mitchell, Lee Daniels, Park Chan-wook, Werner Herzog e tantos outros que certamente virão.

Alguns lampejos dessa Kidman já tinham surgido em “Um Sonho sem Limites”, “Retratos de uma Mulher” e, principalmente, “De Olhos Bem Fechados”, de Stanley Kubrick, talvez o estopim para essa revolução na carreira e na vida da atriz. No entanto, “Moulin Rouge”  é o que pode ser definido como um marco. Assim como a geração da década de 1960 foi hipnotizada pela garota de programa de luxo de Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo” e a geração dos anos de 1990 se apaixonou pela doce e desbocada prostituta de rua da Julia Roberts em “Uma Linda Mulher”, a minha geração se apaixonou pela trágica cortesã Satine no musical “Moulin Rouge”. E desde então, #teamkidman! Parabéns, Nicole!

.

Top 10

01. Moulin Rouge – Amor em Vermelho (2001)
02. As Horas (2002)
03. De Olhos bem Fechados (1999)
04. Dogville (2003)
05. Os Outros (2001)
06. Reencarnação (2004)
07. A Pele (2006)
08. Reencontrando a Felicidade (2010)
09. Um Sonho sem Limites (1995)
10. Cold Mountain (2003)

Resenha Crítica | Gata Velha Ainda Mia (2013)

Gata Velha Ainda Mia

Gata Velha Ainda Mia, de Rafael Primot

Ainda que seja mais reconhecido por sua carreira como ator, Rafael Primot é cineasta há mais de dez anos. Após a assinatura em quatro curtas, ele faz sua estreia em longa-metragem seguindo os mesmos passos de outros profissionais que experimentam o formato pela primeira vez. Remando contra a maré, Primot coordena “Gata Velha Ainda Mia” sem recorrer às leis de incentivo e busca extrair o melhor de seu texto e de sua equipe em um ambiente limitado.

Originalmente pensado para o teatro, “Gata Velha Ainda Mia” sofreu alterações para ganhar a tela grande. Sua principal contribuição para nossa cinematografia está em investir no suspense, gênero ainda pouco usual em nossa língua. É na interação entre as personagens Gloria Polk (Regina Duarte) e Carol (Bárbara Paz) em um apartamento com mobília antiquada que há uma tensão crescente.

Após muitos anos sem escrever um livro, Gloria Polk decide retomar o seu maior sucesso de ficção com uma continuação. Todos estão empolgados com o seu retorno, especialmente seu editor, com quem anda discutindo sobre as revisões que deseja realizar no fim da história antes que ela chegue às livrarias. Reclusa e amarga, Gloria Polk cede de má vontade uma entrevista para Carol, jornalista que vê nesta oportunidade a chance de ascender profissionalmente.

Em meio a um humor sagaz e uma atmosfera de mistério, “Gata Velha Ainda Mia” apresenta tanto o atrito de gerações entre as duas protagonistas quanto a sustentação de falsas aparências. Logo se vê que Carol tem outras intenções, ao mesmo tempo em que Gloria vai evidenciando as razões que não a fizeram declinar o convite de ser entrevistada por ela.

Fosse uma narrativa preocupada em apenas aproveitar o potencial explosivo da discussão entre essas mulheres com personalidades tão fortes, “Gata Velha Ainda Mia” seria classificado como imperdível. Não é o que acontece. Se já não fosse difícil comprar a existência de um personagem somente citado para justificar algo nebuloso no passado entre Gloria e Carol, há ainda a inclusão de um jogo perverso no terceiro ato que não dialoga com naturalidade com tudo o que foi construído. Ao lançar tudo para os ares, “Gata Velha Ainda Mia” ganha como único consolo a presença magnética de Regina Duarte. Afastada do cinema desde “Além da Paixão” (drama de Bruno Barreto lançado em 1986), a atriz mergulha de corpo e alma no universo perturbador de Gloria Polk, respondendo adequadamente até mesmo aos momentos que soariam constrangedores caso encarados por outra atriz que não conferisse a mesma entrega.

Resenha Crítica | A Grande Ilusão (2013)

A Grande Ilusão | The Truth About EmanuelThe Truth About Emanuel, de Francesca Gregorini

As melhores histórias sobre maternidade são aquelas que buscam explorar a qualidade de mãe de modo pouco usual, perturbador. Há exemplos recentes notórios e “A Grande Ilusão” encontra seu espaço nessas referências ao apresentar três frentes femininas em que o espectador identificará o fortalecimento da figura materna através de sua ausência.

Tendo sua premiere em Sundance (sendo apresentado como “Emanuel and the Truth About Fishes”) e com exibição na última edição do Festival do Rio, “A Grande Ilusão” tem Emanuel (Kaya Scodelario) como protagonista. Prestes a completar 18 anos, essa jovem batizada com nome masculino até hoje se culpa pela morte de sua mãe, que não resistiu ao parto. Introspectiva, Emanuel não tem um relacionamento sereno com o seu pai Dennis (Alfred Molina) e não responde de forma positiva às investidas de aproximação de Janice (Frances O’Connor), companheira de Dennis e uma mulher frustrada com a impossibilidade de engravidar.

Se Emanuel e Janice já renderiam alguns conflitos com suas carências incontornáveis, há também a presença de uma terceira mulher que tumultuará um pouco a vivência entre elas. Trata-se de Linda (Jessica Biel), mãe solteira e nova vizinha de Emanuel. Mesmo estudante e funcionária de uma drogaria, Emanuel aceita o pedido de Linda em ajudá-la como babysitter. Emanuel não consegue ver a bebê de Linda por estar sempre dormindo e a aproximação tardia traz uma surpresa perturbadora que, claro, não deve ser revelada ao espectador de antemão.

Nascida na Itália e enteada do músico Ringo Starr, Francesca Gregorini faz sua primeira aventura solo por trás das câmeras após dividir a função com Tatiana von Furstenberg em “Os Segredos de Tanner Hall” (drama protagonizado por Rooney Mara e que em “A Grande Ilusão” atua como produtora-executiva após deixar o papel de Emanuel para Kaya Scodelario), obtendo resultados satisfatórios a partir de algumas estranhezas.

Uma vez que as privacidades e perturbações de Emanuel e Linda ficam em evidência, a narrativa exige um esforço redobrado de Kaya Scodelario e Jessica Biel no desempenho de seus trabalhos muito difíceis. Ao evitarem o ridículo que poderiam cair com a situação que se apresenta, as atrizes favorecem as intenções contidas no texto, também desenvolvido por Francesca Gregorini.

Há em “A Grande Ilusão” três complicações maternais. A de Emanuel é superar a perda de uma mãe que jamais conheceu, enquanto a de Linda é a de processar apropriadamente a impossibilidade de continuar desempenhando o papel de mãe do modo que acredita se materializar. Não menos importante, há também Janice e sua obstinação em se impor como uma nova mãe para Emanuel e a ciência de que esta talvez seja a única oportunidade que ela terá para atingir algum sucesso. Quem se doar à proposta de “A Grande Ilusão”, certamente será emocionalmente tocado por alguma das personagens.