Resenha Crítica | Antes do Inverno (2013)

Avant l’hiver, de Philippe Claudel

Autor de livros como “Almas Cinzentas” (publicado em Portugal pela Edições Asa), Philippe Claudel iniciou tarde a carreira como cineasta. Aos 46 anos, lançou “Há Tanto Tempo Que Te Amo“, que permitiu a Kristin Scott Thomas entregar um dos trabalhos mais arrebatadores de sua carreira impecável. A falta de experiência prévia no cinema não anulou a sua habilidade como contador de histórias, garantindo uma obra cheia de grandes momentos dramáticos. “Antes do Inverno” fica a dever diante desse debut arrasador, mas confirma Philippe Claudel como um nome que ainda tem muito o que compartilhar com os aficionados por cinema.

Como Lucie, Kristin Scott Thomas oferece mais uma interpretação notável em um filme falado em francês, mas a maior parte do espaço é oferecido para Daniel Auteuil brilhar. Ele interpreta Paul, marido de Lucie e um neurocirurgião bem-sucedido. Como é possível identificar rapidamente, este é um casal que vive de aparências, pois o conforto garantido com os luxos materiais camufla um relacionamento tão frio quanto o outono, estação do ano que antecipa o inverno e na qual quase toda a narrativa transcorre.

Paul é um profissional excelente, mas algo em seu olhar diz que ele precisou abdicar de muitos prazeres para se dedicar a uma carreira que exige disponibilidade em tempo integral. É algo também evidente nas suas interações com os pacientes que saíram íntegros de sua mesa de cirurgia. É como se Paul encarasse seus feitos como algo a não se orgulhar. Já Lucie é aquela mulher que abriu mão dos seus desejos para virar uma dona de casa amargurada com um talento nato para cuidar do jardim de sua bela e espaçosa moradia. É preciso manter a faxada para fazer com que os amigos e vizinhos acreditem que ela é uma mulher que deve ser invejada pela família que tem.

De uma hora para outra, Paul passa a receber um ramo de rosas tanto no trabalho quanto em casa. Lucie até suspeita que seja uma amante, mas Paul logo afirma que isso deve ser um presente de alguma ex-paciente e tudo indica que ela seja a jovem Lou (Leïla Bekhti), funcionária de um restaurante que o aborda durante o seu café. Após não lhe dar muita atenção, Paul vê Lucie em todos os lugares que frequenta, seja uma casa de ópera, seja no consultório de seu amigo de longa data Gérard (Richard Berry).

A princípio indignado com a insistência de Lucie em se aproximar, Paul acaba cedendo e passa a desvendar por trás da jovialidade uma mulher com intenções confusas e com dramas amargos. Os laços se estreitam ainda mais com o tempo livre vindo com as férias forçadas de Paul (as investidas de Lucie provocou uma falta de concentração imediata para a realização de suas cirurgias) e ter de encarar as crises aborrecidas com a sua família o faz visualizar essa amizade que se desenha como um refúgio, ainda ele evite qualquer infidelidade que possa surgir com ela.

Na comparação com “Há Tanto Tempo Que Te Amo”, é interessante perceber a inversão que há de expectativas. Naquele drama de estreia, Philippe Claudel privilegiou uma narrativa que desnuda paulatinamente os fatos sobre o passado de sua protagonista. Chegamos ao fim da história sem sermos totalmente arrebatados, pois é possível antecipar o ato criminoso da personagem de Kristin Scott Thomas. Em “Antes do Inverno”, Claudel conduz a história em ritmo quase moroso, com uma trilha sonora que não rima com o clima de mistério pretendido em alguns instantes. No entanto, o diretor e roteirista reserva uma surpresa para o último ato. A princípio destoante do todo, ela confere uma dimensão que, quando refletida em retrospecto, eleva “Antes do Inverno” em todos os níveis. Mais do que um registro de um homem se infiltrando na realidade que nunca viveu de uma mulher, “Antes do Inverno” passa a ser também sobre o choque que ambos sofrem diante desse contato.

Resenha Crítica | Gloria (2013)

Gloria

Gloria, de Sebastián Lelio

Gloria, faltas en el aire
faltas en el cielo
quémame en tu fuego
fúndeme en la nieve
que congela mi pecho
te espero, Gloria

Em razão das motivações que levam um autor a eternizar seu protagonista ou mesmo por falta de inspiração em nomear um projeto, o nome próprio é usado com frequência para ser usado como título de um filme. Pois no filme de Sebastián Lelio, Gloria não é apenas um nome aleatório conferido à protagonista vivida por Paulina García, mas representa tudo aquilo ressaltado na clássica canção de Umberto Tozzi.

Com roteiro em tom de crônica, Sebastián Lelio, em parceria com Gonzalo Maza, acompanha o cotidiano de Gloria, cinquentona com espírito independente que já não consegue camuflar a solidão que a abate. Divorciada, Gloria sempre frequenta bailes da terceira idade em busca de um homem interessante para se relacionar seriamente. Mesmo com amizades que resistiram ao tempo e um emprego para preencher o seu tempo, a ausência de um companheiro é sentida. Além do mais, sua filha Ana, de quem é muito próxima, está grávida e disposta a viver com o seu namorado (Eyal Meyer) na Suécia.

Em Rodolfo (Sergio Hernández), Gloria vislumbra o desejo de trazer mais emoções para a sua vida acompanhada de alguém com que possa se entregar de corpo e alma. Rodolfo, também divorciado, se diz apaixonado por Gloria, mas não consegue se envolver com a mesma intensidade, pois é incapaz de dizer não para as solicitações de suas filhas, que dependem dele para absolutamente tudo. Naturalmente, Gloria não se conforma em ser preterida nesta situação, o que amplia ainda mais sua turbulência emocional em meio ao abandono.

Trata-se de uma personagem extraordinária e Sebastián Lelio a aproxima de nós ao ponto de sentirmos na pele seu entusiasmo e melancolia. Claro que Gloria não causaria este efeito sem uma atriz como Paulina García para incorporá-la. No também recente “Las analfabetas“, Paulina lidara com a difícil missão de viver uma mulher de meia-idade mergulhando tardiamente no processo de alfabetização através de uma jovem professora. Como Gloria, Paulina está ainda mais fascinante, permitindo que a sua elegância e beleza sejam usadas como recursos dramáticos.

Em seu quinto longa-metragem, mas o primeiro a ganhar projeção mundial, Sebastián Lelio nem sempre é incisivo em seu registro, como denota a falta de potência dos instantes em que Gloria se afeiçoa com o gato do vizinho que invade com frequência o seu apartamento. Compensa as fragilidades ao compreender perfeitamente em sua protagonista a delicadeza de uma fase da existência que ainda não atravessou – o cineasta tem 40 anos. Em momentos em que não há mais nada ou ninguém que preencha o seu vazio, resta à Gloria uma solução antes temorosa e agora necessária: a de celebrar a si mesma.

Resenha Crítica | Oldboy – Dias de Vingança (2013)

Oldboy - Dias de Vingança | Oldboy

Oldboy, de Spike Lee

Convidado de honra na 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Park Chan-wook confirmou não apenas que sua benção não foi solicitada para o remake de “Oldboy”, como não teve qualquer envolvimento como consultor durante sua produção. O coreano encarou o descaso com naturalidade e, camarada, desejou boa sorte para Spike Lee. No entanto, não perdeu a oportunidade de destilar um pouco de seu veneno: afirmou que Hollywood resolveria o plano sequência antológico do protagonista eliminando inúmeros capangas com um martelo na base do tiro. “Uma arma resolve tudo em um filme de ação americano”, sacaneou o bem humorado Diretor Park.

Spike Lee não é um cineasta que costuma atenuar a violência em suas histórias, seja ela verbal ou física. Refaz tal momento ao seu modo, estando o protagonista Joe Doucett (vivido por Josh Brolin) com o imponente martelo em mãos. Também elimina algumas bobagens do “Oldboy” de dez anos atrás, como a hipnose como mecanismo pouco plausível para a preparação de uma pegadinha reservada para o clímax.

Ambientar “Oldboy – Dias de Vingança” nos dias atuais permite que Spike Lee faça uma retrospectiva de tudo o que abateu a América nos últimos 20 anos. Jogado em um cativeiro sem motivo aparente, Joe é um canalha que vê pela tevê episódios como o do 11 de Setembro enquanto estuda métodos de se vingar de seu algoz quando as tentativas de tirar a própria vida ou implorar pela sua liberdade se esgotaram. Basta a década vigente vir para Joe ser abandonado dentro de um baú no meio de um matagal. A primeira imagem que visualiza em um ambiente externo é de uma jovem enigmática (Pom Klementieff) com um guarda-chuva. Persegui-la o faz se chocar com Marie Sebastian (Elizabeth Olsen), enfermeira que se tornará sua companheira para compreender as razões que o levaram em cativeiro.

Há outros personagens secundários,e todos são interpretados por atores em estado de graça e que dão ao filme de Spike Lee um toque que o diferencia – e muito – do original. O melhor é Chaney, o sujeito que controla o “presídio” em que Joe foi mantido. Sempre perfeito em papéis insanos, Samuel L. Jackson consegue relembrar a extraordinária parceria com Spike Lee em “Febre da Selva”, em que fez um junkie. Como o único contanto de Joe com o mundo externo que resistiu ao tempo, Michael Imperioli também está ótimo como Chucky, o dono de um bar, bem como Sharlto Copley, o vilão da história.

O tom exagerado como esses personagens são construídos podem até ressaltar as origens em mangá de “Oldboy” e Spike Lee tem personalidade para contornar a impressão de estar lidando com um projeto encomendado (há depoimentos de insatisfação do cineasta com a versão lançada nos cinemas, que aparentemente saiu de seu controle durante a pós-produção). O problema de “Oldboy – Dias de Vingança” está na armadilha que poucas refilmagens são capazes de escapar. Há um momento em que não é mais possível seguir com a história de modo independente e logo ela envereda por territórios já explorados na obra de Park Chan-wook. Neste ponto, não há qualidade que prevaleça diante do “para quê?” emitido por qualquer espectador.

O Passado (2013)

O Passado | Le passé

Le passé, de Asghar Farhadi

Após os louros adquiridos com “A Separação”, Asghar Farhadi foi convidado imediatamente pelo produtor francês Alexandre Mallet-Guy a realizar o seu primeiro projeto fora do Irã. Cineastas que são reconhecidos através de filmes que retratam as peculiaridades de sua nação não costumam obter muito sucesso diante de uma transição de culturas, como se viu com os alemães Oliver Hirschbiegel e Florian Henckel von Donnersmarck, somente para citar alguns exemplos. Definitivamente, não é o que acontece com Asghar Farhadi em “O Passado”.

Independente do cenário um tanto opressor que habitam, os personagens de Asghar Farhadi sobrevivem em nosso imaginário por lidarem com questões universais, como a fragilidade de homens na posição equivocada de autoridade e as dificuldades das mulheres em se sobressaírem diante das convenções do lar. Esses são apenas alguns dos temas que permeiam “O Passado”, talvez o filme mais completo já realizado por Asghar Farhadi.

A francesa Marie (Bérénice Bejo, vencedora da Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes) e Ahmad (Ali Mosaffa, ator notável e cujo principal destaque de sua breve filmografia é “Leila”, de 1997) estão separados e não se veem há quatro anos. Iraniano, Ahmad vai ao encontro dela em Paris para oficializar o divórcio. Ele já havia adiado o compromisso por razões pouco plausíveis e tudo indica que sua depressão já superada foi o que motivou o rompimento da união.

Marie o convida para se hospedar em sua residência enquanto não assinam os papéis no cartório, mesmo que já esteja vivendo com Samir (Tahar Rahim), seu mais novo companheiro. Fouad (Elyes Aguis), filho de outro relacionamento de Samir, também habita a casa, assim como as duas filhas de Marie, a pequena Léa (Jeanne Jestin) e Lucie (Pauline Burlet). Ainda que Lucie seja enteada de Ahmad, ela teve uma forte sintonia com ele no passado e o seu retorno somente energiza sua personalidade temperamental. Ela não é a favor do namoro de sua mãe com Samir e se tornará o pivô do resgate de muitos episódios que todos varreram para debaixo do tapete, como o coma da esposa de Samir, presa à uma maca e alguns aparelhos em um hospital.

Não é necessário que a trama progrida demais para que seja possível antecipar que muitos conflitos abaterão esta família. No entanto, dizer que tudo é uma lavagem de roupa suja é no mínimo deselegante, pois Asghar Farhadi volta a dar as dimensões para que todos os personagens sejam essenciais para o preenchimento de cada lacuna. “O Passado” se torna assim não apenas um retrato da falência da família como instituição, como também o quanto o nosso desapego e as decisões tomadas por motivações egoístas deixam cicatrizes difíceis de ser apagadas.

Não demora muito para que Marie, já exausta dos conflitos que aconteceram em um curto espaço de tempo, se renda ao ponto de querer esquecer o passado. Como Asghar Farhadi diagnostica, a vida não garante este privilégio e, mais cedo ou mais tarde, as consequências de nossos passos tortos irão se manifestar. Sustenta-se essa perspectiva carente de positividade até o epílogo, que alivia parcialmente esta consternação através de uma indicação de compaixão.

Resenha Crítica | Sob a Pele (2013)

 

Under the Skin, de Jonathan Glazer

No romance “Sob a Pele”, o escritor Michel Faber, antes um jovem que ganhava a vida inclusive como faxineiro, criou uma história envolvente de uma alienígena cuja missão era dar carona para homens fisicamente atraentes, desempregados e sem muitos laços afetivos que vagavam pelas estradas frias da Escócia. Apresentando-se como Isserley, a alienígena persuadia suas companhias até derrubá-los com uma substância presente em um mecanismo instalado debaixo do estofado em que eles sentavam. Inconscientes, os caroneiros recebiam um destino grotesco.

Tendo como alvo principal indivíduos à margem da sociedade, era evidente o comentário que Michel Faber pretendia fazer em “Sob a Pele”, principalmente por se ater mais às interações de Isserley com esses homens tão ingênuos quanto ameaçadores. Na adaptação para cinema dirigida por Jonathan Glazer, poucos dos elementos reconhecíveis no romance de Faber se manteram. Melhor assim, pois, como filme, “Sob a Pele” se livra das amarras para fazer uma investigação extremamente sensorial das contradições humanas.

Assim como o prólogo de “2001: Uma Odisseia no Espaço” (a evolução da humanidade), nos primeiros minutos de “Sob a Pele”, observamos a formação do ser que ganhará o corpo de Scarlett Johansson. Habitando um edifício abandonado, a jovem estabelece uma rotina que se resume a apanhar caroneiros, seduzi-los e levá-los para um salão escuro em que eles afundarão em uma superfície movediça.

A presença do personagem de Adam Pearson, cuja deformação facial não é fruto de maquiagem, garante a narrativa uma reviravolta que transforma a protagonista em uma verdadeira alienígena em contato com valores antes desconhecidos. Assim, recebem nova potência alguns episódios prévios (os estranhos que a levantam após uma queda na rua, o modo sereno como seduz um sujeito desfigurado), bem como o seu próprio resgate por um homem solitário sem segundas intenções.

“Sob a Pele” é apenas o terceiro longa-metragem do britânico Jonathan Glazer, mas aqui ele já se consolida como um cineasta autoral que tem a legitimidade como sua matéria-prima principal. Muitas das abordagens de Scarlett Johansson em escoceses foram registrados por câmeras escondidas sem a ciência destes e o seu comparsa interpretado por Jeremy McWilliams é de fato um motociclista. Não poderia também ser mais acertada a escolha de Mica Levi para a composição da trilha-sonora, uma fusão de sons perturbadores que se compatibiliza com as estranhezas provocadas pelas imagens de Glazer.

Já a escalação de Scarlett Johansson é um dos maiores méritos de “Sob a Pele”. Inúmeras vezes considerada a mulher mais bela do mundo, Johansson se despe aqui de qualquer vaidade no papel mais desafiador de sua carreira. A atriz nunca esteve tão vulnerável, tão entregue a uma proposta sem garantias concretas e se porta como uma verdadeira estranha em um cenário imprevisível.

Sem cair na mesma tentação de Michel Faber em elucidar os próprios mistérios que elabora, Jonathan Glazer segue um rumo menos seguro, quase desconstruindo na conclusão o discurso sustentado durante “Sob a Pele”. Aos poucos fraquejando diante da benevolência da maioria daqueles que cruzaram seu caminho, a protagonista estabelece com os humanos uma inversão de papéis. Antes uma ameaça com a forma humana que a cobre, aos poucos ela se revela os olhos da plateia diante da ação de nosso lado mais obscuro. Assim como Lars von Trier em “Ninfomaníaca: Volume 2“, Jonathan Glazer é um pessimista em essência e é para o bem ou para o mal que “Sob a Pele” sobreviverá ao tempo.

Resenha Crítica | Sem Evidências (2013)

Sem Evidências | Devil's Knot

Devil’s Knot, de Atom Egoyan

Há quase dez anos que o roteiro de “Sem Evidências” circulava pelas mãos de cineastas e produtores americanos. Antes planejado para ser dirigido por Scott Derrickson assim que se consolidou com o sucesso comercial de “O Exorcismo de Emily Rose, “Sem Evidências” pousou no colo de Atom Egoyan, restando de Derrickson somente os créditos no roteiro também assinado por Paul Harris Boardman.

Pouco importa que o caso d’Os Três de West Memphis tivesse servido de tema para os capítulos de “Paradise Lost” ou mesmo de “West of Memphis”. Eis a dramatização de um caso real que faria Atom Egoyan revisitar temas que lhe foram muito caros em “O Doce Amanhã” e em outros títulos de sua filmografia, como a comoção de uma pequena comunidade diante de um crime, a necessidade em apontar um culpado e os segredos mais íntimos dos envolvidos, aos poucos sendo revelados.

Ambientada na West Memphis de 1993, a história registra as investigações que levaram a prisão de Damien Echols (James Hamrick), Jason Baldwin (Seth Meriwether) e Jessie Misskelley Jr (Kristopher Higgins) pelos assassinatos de Stevie Branch (Jet Jurgensmeyer), Christopher Byers (Brandon Spink) e Michael Moore (Paul Boardman Jr.), crianças encontradas amordaçadas e com várias lesões corporais próximo a um lago.

Em casamento em frangalhos com Margaret (Amy Ryan), o investigador Ron Lax (Colin Firth) decide tomar a frente da defesa dos três acusados, acreditando que não há provas que sustentem a versão do crime que todos confirmam cegamente. Além do mais, Damien, Jason e Jessie são roqueiros e curiosos à prática de rituais satânicos, fortalecendo a interpretação de Ron de que os habitantes de West Memphis, em sua maioria religiosos fervorosos, os acusam mais por seus perfis obscuros do que por alguma convicção plausível dentro de um tribunal.

Mãe de Stevie, Pam (Reese Witherspoon) encara Ron como uma presença desagradável em West Memphis, mas revê suas conclusões sobre o crime quando a razão se manifesta após o luto, o que traz tensão inclusive para o seu casamento com Terry (Alessandro Nivola). Há assim duas vertentes em uma narrativa que registra de modo quase documental um caso real do qual Atom Egoyan não compartilha da mesma resolução.

Ao contrário do que se viu em “O Doce Amanhã”, “Sem Evidências” não revela em nós aquele impulso tão natural que temos em apontar suspeitos com o falso sentimento de justiça diante de um caso de impunidade. Também não há um estudo sobre os inúmeros perfis identificáveis diante de discursos cercados de preconceito. Pelo contrário, Egoyan somente contorna os traços ao ponto de caricaturar todos os seus personagens e se livra do compromisso em sustentar sua interpretação do caso deixando várias pontas sem nó, como a identidade de um negro ensanguentado visto no banheiro de um restaurante na data do crime. Em “Sem Evidências”, Egoyan faz o seu pior filme.

Resenha Crítica | Entre Vales (2012)

Entre Vales

Entre Vales, de Philippe Barcinski

Em seu segundo longa-metragem, Philippe Barcinski se apropria de dois ambientes para representar o abismo emocional de Vicente, personagem vivido por Ângelo Antônio. Na verdade, Vicente é um homem dividido em dois na narrativa. Em um tempo, ele estreita os laços com o seu filho Caio (Matheus Restiffe) enquanto nada faz para evitar o declínio de seu casamento com Marina (Melissa Vettore), uma dentista que anda (aparentemente) estendendo o seu expediente de trabalho. Em outro, Vicente se apresenta como Antônio enquanto recolhe materiais reciclados em um lixão.

Rapidamente, as imagens de um aterro sanitário (o que inclui sua representação em uma maquete) ainda inexplorado e outras de catadores desesperados atrás de algum lixo reutilizável se mesclam e representam uma alegoria óbvia. São representações do estado de espírito de um Vicente que aos poucos perde sua integridade como homem e de um Antônio já imerso em um estado mais degradante possível.

Philippe Barcinski tomou duas decisões pouco usuais em “Entre Vales”, uma muito acertada e a outra, comprometedora. Mesmo ambientando em um lixão, terreno em que almas sem perspectivas encontram refúgio e brigam pelo seu próprio território, o tom de denúncia, sempre aguardado em relatos de ficção como este, é descartado para contemplar os dramas privados de Vicente/Antônio. Já a narrativa é repartida em dois tempos que não se completam com harmonia, somente auxiliam na antecipação de acontecimentos que se pretendem surpreendentes. Irretocável mesmo, somente o extraordinário Ângelo Antônio entre vales tão nebulosos.

Resenha Crítica | Você é o Próximo (2011)

Você é o Próximo | You're Next

You’re Next, de Adam Wingard

Gênero movido por tendências, o terror encontra agora um truque para continuar progredindo. Há dez anos, a fonte de sucesso era a refilmagem de fitas asiáticas e há cinco anos, o found footage. Desta vez, a matéria-prima para os cineastas tem sido os elementos facilmente identificáveis em clássicos do gênero dos anos 1970 e 1980. Após os sucessos de títulos como “The House of the Devil“, “Sobrenatural” e “Invocação do Mal“, Adam Wingard vem com “Você é o Próximo” para apresentar um home invasion com o resgate de tudo aquilo que auxiliou sua formação como cineasta.

O filme tem Erin (Sharni Vinson) como protagonista. Garota humilde, ela não esconde o desconforto ao conhecer os pais ricos de seu namorado Crispian (AJ Bowen) em um fim de semana na residência luxosa em que eles vivem em uma cidadezinha bem afastada. O jantar com toda a família promete ser uma bela lavação de roupa suja, ainda mais porque a matriarca temperamental (Barbara Crampton, uma figurinha fácil nos filmes de Stuart Gordon) não gostou nem um pouco de sua nova nora e Drake (Joe Swanberg), o filho bem-sucedido, é um mauricinho pretensioso que sempre perde a oportunidade de ficar calado.

As farpas são rapidamente substituídas por flechas atiradas por um grupo que usa máscaras amedrontadoras de animais. Cercada, a família desconhece a razão para ser vítima do ataque (o diretor Ti West, por sinal, é o primeiro presente a empacotar) e Erin surpreende a todos por ser a única a se comportar de modo racional nesta situação desesperadora. Sem meios de pedir socorro (o sinal para chamadas telefônicas foi cortado e os vizinhos mais próximos foram devidamente eliminados), resta a Erin liderar um contra-ataque aos invasores.

Em “Você é o Próximo”, Adam Wingard confere cenografia, música e ritmo saborosamente antiquados e que fazem alusão às fitas com maníacos mascarados. Ao longo do processo, os erros também são emulados. A revelação do mistério pode ser antecipada em dez minutos de filme e há erros primários (para quê assassinar um casal e deixar uma música em looping?). Equívocos facilmente perdoáveis em um filme que tem uma tensão implacável e um humor negro que bate cartão nas ocasiões mais oportunas.

O maior barato de “Você é o Próximo”, no entanto, é testemunhar o modo como a mocinha foi remodelada ao longo dos tempos. Se antes as mulheres tinham como únicas funções os gritos e as fugas, hoje elas se mostram muito mais firmes diante de uma ameaça. Além de ser uma descoberta para lá de graciosa, a australiana Sharni Vinson consegue fazer com que o público desenvolva uma relação de cumplicidade tremenda com a sua Erin. Sua determinação em sobreviver assombra mais do que o plano diabólico dos mascarados que insistem em matá-la, o que fortalece ainda mais a eficácia de “Você é o Próximo”.