Honra dos Cavaleiros (2006)

Honra dos Cavaleiros | Honor de cavallería

Honor de Cavelleria, de Albert Serra

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Além de Eugène Green, Albert Serra é outro cineasta a ganhar uma homenagem no INDIE 2014 Festival Cinema com uma retrospectiva de sua filmografia. Produzida em 2006, “Honra dos Cavaleiros” é a primeira obra de sua carreira e já impõe uma característica que lhe é muito particular: a desmitificação de grandes personagens da história e da literatura.

Antes de dar outros traços para Casanova e Drácula no recente “História da Minha Morte”, Albert Serra debutou ao rever para o cinema o romance “Dom Quixote”, escrito por Miguel de Cervantes. Como não poderia faltar em seu “Honra dos Cavaleiros”, há também o fiel escudeiro de Dom Quixote, Sancho Pança.

Produzido com apenas 300 euros, “Honra dos Cavaleiros” pouco faz para preencher os seus 103 minutos. Com um humor que funciona somente quando Dom Quixote (interpretado por Lluís Carbó) manipula Sancho Pança (Lluís Serrat) ao notar que a sua lealdade está enfraquecendo, a narrativa envolve a jornada exaustiva dos personagens por terrenos espanhóis, criando respiros somente através de diálogos primários e planos abertos com câmera na mão que confirmam o amadorismo do filme.

O mais curioso é como o Albert Serra que apresentou o filme no festival difere daquele que dirigiu “Honra dos Cavaleiros”. Bem humorado e com fortes argumentos que justificam o seu interesse por remodelar personagens consagrados, Albert Serra se revela aborrecido no que se refere ao modo como materializa em imagens as suas intenções.

Resenha Crítica | Ela Perdeu o Controle (2014)

Ela Perdeu o Controle | She's Lost Control

She’s Lost Control, de Anja Marquardt

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Pela proximidade entre os lançamentos, é quase difícil não traçar paralelos entre “Ela Perdeu o Controle” e “As Sessões“. Ou melhor, contrapontos. As duas obras carregam diversas distinções, é verdade. Enquanto o filme de Anja Marquardt é moldado através de um argumento original, o drama protagonizado por John Hawkes e Helen Hunt retratam duas figuras reais, Mark O’Brien e Cheryl Cohen-Greene. O elo está ao abordar as particularidades do trabalho de uma terapeuta sexual.

Em “Ela Perdeu o Controle”, a perspectiva sobre o trabalho dessa profissional não é positiva. Isso já é notado nos primeiros momentos em que acompanhamos Ronah (Brooke Bloom) ao interagir com Alan Cassidy (Dennis Boutsikaris), justamente o doutor que repassa para ela pacientes com muitas dificuldades em estabelecer qualquer contato físico com uma parceira. As interações de Ronah com três homens com perfis bem diferentes se dão de modo obscuro. Demora para ficar claro os métodos usados por Ronah e chegamos a questionar o que de fato está acontecendo nos ambientes em que eles se encontram.

O mais jovem entre os homens com quem tem consultas agendadas, Christopher (Tobias Segal) não tem qualquer pudor em partir direto para o sexo ao ver Ronah. O oposto acontece com o personagem vivido por Robert Longstreet, que sequer está preparado para se despir em frente de uma mulher. Porém, é Johnny (Marc Menchaca) aquele que realmente tumultuará os seus sentimentos. Médico aparentemente sem muito tempo para viver, Johnny costuma responder de modo agressivo cada vez que Ronah busca avançar com desejo sobre ele.

Viabilizado através dos 50 mil dólares levantados no site Kickstarter, “Ela Perdeu o Controle” é inegavelmente envolvente e existe a expectativa em testemunhar reações explosivas diante da aproximação cada vez mais estreita da protagonista com os personagens. No entanto, as resoluções que começam a se desenhar quando Ronah não consegue administrar as situações como o planejado não satisfazem e a adição de trivialidades só atenuam o impacto, a exemplo dos transtornos ocasionados pelo encanamento do banheiro, o uso de uma máquina de lavar que compromete a instalação hidráulica de seus vizinhos e os procedimentos de congelamento de seu ovário para adiar uma possível gestação.

Com participações inexpressivas em filmes como “Tão Forte e Tão Perto” e “Tudo por Ela”, Brooke Bloom é a única que se apresenta como um elemento que garante alguma credibilidade ao filme. A atriz incorpora Ronah com grande convicção e assegura a nossa empatia mesmo ao baixar a guarda ao se ver atraída por Johnny. Lamentavelmente, a força de sua presença não é suficiente para validar uma história que tem como proposta estabelecer os limites de uma profissão em que a intensidade do contato físico pode propiciar efeitos desagradáveis.

Resenha Crítica | Jornada ao Oeste (2014)

Jornada ao Oeste | Xi you

Xi you, de Tsai Ming-liang

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Está cada vez mais recorrente nos surpreendemos com declarações públicas de cineastas que confirmam uma aposentadoria na função. Steven Soderbergh, que atualmente está envolvido com o seriado “The Knick”, já foi e voltou atrás inúmeras vezes e Hayao Miyazaki se arrependeu da decisão de apresentar “Vidas ao Vento” como o seu último filme. Antes que repense a decisão, “Jornada ao Oeste” é o adeus de Tsai Ming-liang no cinema.

Se a escolha é para valer, antes fosse “Cães Errantes” o seu último filme, este repleto de elementos que podem ser compreendidos como uma despedida. Ao invés disso, Tsai Ming-liang decidiu dar um ponto final na série cinematográfica “Walker”, até então apresentada através de curtas. A perspectiva é a mesma: acompanhar um monge (Lee Kang-sheng) com vestes vermelhas em sua peregrinação incansável e sem fim em inúmeros ambientes.

O principal atrativo está na presença de Denis Lavant, o muso do cineasta Leos Carax. É com um close em seu rosto que “Jornada ao Oeste” inicia, interrompendo o registro de suas linhas faciais e a sua respiração somente quando uma lágrima se anuncia. “Jornada ao Oeste” tem somente 56 minutos e ao menos 7 deles se passaram com este único plano-sequência. O dobro de tempo é consumido em outras duas ocasiões: uma em que o monge reprisado por Lee Kang-sheng desce a escadaria de uma estação e outra em que o personagem de Lavant o segue próximo a uma esquina.

É comum para Tsai Ming-liang reavaliar o tempo e o espaço em suas obras. A paciência que seria necessária para contemplar uma ação (ou a ausência dela) é substituída por uma admiração vinda com as leituras deflagradas em cada plano-sequência que forma um todo muito significativo. A costura desses planos em “Jornada ao Oeste”, no entanto, se assemelha a uma colcha de retalhos que representa uma intenção já decodificada antes mesmo que o filme apresente o terceiro ou quarto percurso do monge.

Quando o monge é cercado pelas reações mais diversas nos ambientes urbanos, é evidente que Tsai Ming-liang reflete sobre a histeria que tomou os nossos tempos. As multidões, os transportes, os barulhos e as inúmeras informações processadas por segundo permitem que o monge seja encarado como uma presença à parte pela sua concentração em buscar uma paz de espírito em meio a tormenta de nosso cotidiano. Possivelmente um sujeito à margem da sociedade, o personagem de Denis Lavant evidentemente o persegue para apanhar essa serenidade. Bonito, mas nada de muito diferente do que se vê em uma videoinstalação.

Resenha Crítica | Ida (2013)

Ida

Ida, de Pawel Pawlikowski

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Os efeitos do Holocausto foram tão arrasadores que até hoje algumas gerações são atingidas, especialmente aqueles que tiveram as suas famílias dizimadas neste que é um dos episódios mais nebulosos da história da humanidade. Trata-se de um tema inegavelmente poderoso. No entanto, o cinema o explora de modo tão recorrente que é difícil ser arrebatado por uma história que contenha algum viés inédito. “Ida” não escapa dessa armadilha.

Representante da Polônia na última edição do Oscar e com dezenas de prêmios obtidos mundo afora, “Ida” até promete alguma novidade. Vivida pela estreante Agata Trzebuchowska, a protagonista é uma jovem freira chamada Anna que é surpreendida por uma pessoa que a afastará do convento que habita: Wanda (Agata Kulesza), uma tia cuja existência desconhecia e que imediatamente lhe revela seu nome verdadeiro, Ida, e a sua origem judia. Totalmente opostas, ambas estabelecerão um equilíbrio no relacionamento para concretizarem um desejo em comum: desvendar onde está o túmulo dos pais e irmão de Ida, assassinados durante a ocupação nazista na Polônia.

A princípio fazendo humor com os comportamentos de uma Ida vulnerável diante de uma tia cética, o drama vai se atenuando quando as personagens estão diante do ponto final da busca que traçaram. É poderoso o momento em que Ida e Wanda recebem respostas desagradáveis, mas o cineasta e roteirista Pawel Pawlikowski (cujo último filme foi o péssimo “Estranha Obsessão”) não apresenta garra ao lidar com os demais desdobramentos do material, restando aos diretores de fotografia Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski corresponderem às expectativas com uma estética que privilegia os tons cinzas do período narrado e enquadramentos sem muito apego aos elementos cenográficos.

Resenha Crítica | Cala a Boca, Philip (2014)

Listen Up Philip

Listen Up Philip, de Alex Ross Perry

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Cientes do dom para emitir ideias criativas e opiniões que requerem muito repertório para serem rebatidas, os intelectuais buscam na reclusão a oportunidade para externarem os seus pensamentos mais pulsantes no papel. Naturalmente, vem o interesse para produzir algo capaz de ser publicado e espalhar para o mundo uma história originalmente concebida durante um recolhimento. Por fim, vem o ego e, como mostra o protagonista Philip (Jason Schwartzman) em “Cala a Boca, Philip”, ele pode ser muito indigesto.

Philip obteve muito sucesso com o seu primeiro romance e já colhe louros pela segunda obra recém-publicada. A convicção de que é um escritor brilhante é tão gritante que ele não hesita em destruir em aproximadamente uma hora os relacionamentos de longa data com uma garota com quem namorou e com um de seus melhores amigos. Se não bastasse, Philip ainda recusa participar do processo de divulgação de seu novo livro, sendo descortês com o fotógrafo que sugere algumas poses para retratos e agressivo com um jornalista renomado.

Não à toa, Philip se dá muito melhor com o seu mentor Ike Zimmerman (Jonathan Pryce) do que com a sua namorada Ashley (Elisabeth Moss). Afinal, Ike é um escritor que há anos não produz nada e que parece a versão idosa de Philip, enquanto Ashley é uma fotógrafa cuja ascensão não lhe interessa. Diante desse comportamento, é fácil decifrar Philip, um jovem que se considera melhor do que aqueles que o rondam, mas que não consegue se satisfazer sem uma companhia para que possa destilar o seu sucesso.

Alex Ross Perry é um jovem cineasta que realiza filmes que não sobrevivem fora dos festivais de cinema independente. Mesmo recheado de nomes respeitáveis no elenco, o mesmo acontece com “Cala a Boca, Philip”. Não significa que seu novo feito não tenha potência. A escolha de construir um protagonista quase desprezível poderá provocar desistências durante a sessão, ainda que busque atenuar a barra dando merecido destaque à Ashley, a pobre namorada em um processo complicado de desapego daquele com que se relaciona há três anos. Para o público que não tem resistência alguma com personagens como Philip, “Cala a Boca, Philip” é uma boa opção.

Resenha Crítica | Sin City: A Dama Fatal (2014)

Sin City: A Dame to Kill For, de Robert Rodriguez e Frank Miller

Excetuando “Capitão Sky e o Mundo de Amanhã”, Hollywood nunca havia produzido um blockbuster integralmente rodado sob green screen. Lançado em 2005, era natural que “Sin City: A Cidade do Pecado” fizesse barulho. De certo modo, o filme representou não apenas a seriedade com que viriam a ser adaptadas outras graphic novels posteriormente, como também a consolidação do digital diante do uso preferencial da película. Verdadeiro adepto dos mecanismos experimentais que dão vida aos seus filmes, Robert Rodriguez encontrou nessa transição de meio de captação o sonho de traduzir o universo de Frank Miller para o cinema.

Além desse feito, que receberá a devida valorização quando os avanços do cinema no início deste século foram reavaliados, “Sin City: A Cidade do Pecado” é uma obra-prima. Ao se apropriar de elementos do cinema noir já característicos nos originais de Frank Miller, ainda contou com a sua parceria para conduzir três histórias sobre crime, paixão e perversidade irretocáveis que encontram na estética os tons para se fortalecerem: nunca o preto, o branco e o vermelho foram tão bem usados para colorir um universo habitado por agentes da Lei frustrados, prostitutas e psicopatas.

Lamentavelmente, os passos seguintes de Robert Rodriguez e Frank Miller estavam longe demais de se aproximarem de algo tão precioso quanto “Sin City: A Cidade do Pecado”. Robert Rodriguez sofreu uma queda tão vertiginosa ao ponto de não dever em nada a um Uwe Boll (“A Pedra Mágica” e “Machete Mata” são suficientes para rebater qualquer opinião contrária desta afirmação). Já Frank Miller decidiu investir sozinho na direção de um longa-metragem, decisão que resultou em “The Spirit: O Filme“, praticamente um rascunho pálido de “Sin City: A Cidade do Pecado”.

A boa notícia é que “Sin City: A Dama Fatal”, sequência produzida nove anos após o original, não deixa a peteca cair. Mais que isso. “A Dama Fatal” encontra meios de arrebatar visualmente com o uso do 3D, recurso que permite criar um espetáculo em que a imersão é garantida. Também são apresentadas três histórias novas e ao menos duas delas garantem o mesmo charme de “A Cidade do Pecado”.

Alguns personagens queridos de “A Cidade do Pecado” estão de volta. Dwight (Josh Brolin, substituindo Clive Owen sem qualquer prejuízo) e Marv (Mickey Rourke) são dois deles e participam justamente do segmento que dá realce à dama fatal do título, ninguém menos que a esfuziante Eva Green, mais desnuda do que nunca. Como Ava, a atriz reforça as características que tornaram a sua vilã Artemisia de “300: A Ascensão do Império” tão marcante: a dissimulação e o corpo como instrumento de sedução. É o que basta para ludibriar Dwight, cujo relacionamento com Ava o deixará em uma enrascada que o obrigará a visitar a Cidade Velha, zona comandada por Gail (Rosario Dawson), sua ex-companheira.

O segmento que traz Joseph Gordon-Levitt como protagonista é outro arraso. Ele faz Johnny, um jovem com um domínio insuperável em jogos de azar. Seu ego o faz desafiar Roark (Powers Boothe, na interpretação de sua carreira), senador corrupto que domina cada ponto de Sin City. Acompanhado por Marcie (Julia Garner, sempre perfeita), Johnny humilha Roark diante de seus comparsas, o que o fará pagar muito caro. Há uma motivação para arruinar Roark, mas não é somente Johnny que o tem sob uma mira. Nancy (Jessica Alba) amadureceu atormentada pelo espírito de Hartigan (Bruce Willis) e é ela que protagonizará o último segmento de “A Dama Fatal”, justamente o mais desapontador.

Atuar em um cenário de faz de conta não é fácil e, como bem frisou Eva Green em uma entrevista, estar em “Sin City” permite que um ator encare o desafio como se estivesse em uma dinâmica de teatral sem a noção de uma plateia existente. Para isso, Robert Rodriguez consegue escalar um elenco perfeito para os seus personagens excêntricos, mas nenhum ajuste é capaz de operar em Jessica Alba. Pode ser uma implicância gratuita com a bela, mas é impossível não notar de imediato a sua ausência de veracidade ao retratar os dramas de sua Nancy. É por culpa exclusivamente de Jessica que “A Dama Fatal” tem o seu efeito hipnótico quebrado e a sua fantasia pela primeira vez contestada.

Resenha Crítica | Medos Privados em Lugares Públicos (2006)

Coeurs, de Alain Resnais

Antes de fechar suas portas em março de 2011, o Cine Belas Artes havia se despedido com um feito impressionante: ter mantido “Medos Privados em Lugares Públicos” em cartaz desde o seu lançamento no circuito comercial em 6 de julho de 2007. Nada mais natural que esta obra, uma dos melhores de Alain Resnais, seja um dos principais atrativos da reabertura do cinema, voltando a exibi-lo com sessões relativamente cheias. Portanto, ver “Medos Privados em Lugares Públicos” na tela grande é uma missão a ser cumprida por qualquer cinéfilo.

De certo modo, “Medos Privados em Lugares Públicos” é um filme que representa adequadamente uma grande metrópole como São Paulo. Adaptação da peça teatral de Alan Ayckbourn, o romance, com toques mais cômicos que dramáticos, acompanha seis personagens que, cada um a sua maneira, buscam suprir suas carências em uma Paris menos charmosa do que o cinema está acostumado a retratar.

Há Dan (Lambert Wilson), um ex-soldado frustrado há seis meses estagnado na vida e com um casamento aos frangalhos com Nicole (Laura Morante). Para amenizar as mágoas, acredita que a melhor saída é se embriagar e desabafar com um barman, Lionel (Pierre Arditi). Como desvendamos a seguir, Lionel também tem os seus dramas privados no que se refere a Arthur (voz de Claude Rich), o seu pai enfermo que habita o seu apartamento. Com intenção de lidar com o trabalho sem muitas pressões, ele decide contratar Charlotte (Sabine Azéma) para cuidar de seu pai.

Essa ciranda de anônimos se fecha com mais dois personagens: Thierry (André Dussollier), veterano de uma imobiliária que tem Charlotte como assistente e que passa a ter um fascínio por uma fita de vídeo dela com o registro de uma dança erótica, e sua irmã Gaëlle (Isabelle Carré), que marca um encontro com Dan (Lambert Wilson) após se conhecerem em uma sala de bate-papo. De garantia, há os efeitos que, mais cedo ou mais tarde, aparecerão com essas conexões que se desenham.

Em comum, esses personagens possuem o receio de terem a intimidade exposta através de flagras na redoma do lar ou em ambientes em que circulam outras pessoas, uma abordagem sustentada com um envolvimento raro em outras obras recentes de Alain Resnais com uma linguagem mais teatral – e a escolha da distribuidora nacional em manter o título da peça ao invés do título original do filme, “Corações”, valoriza ainda mais o material. Também funciona a transição de cenas: assim como a neve incessante que cobre Paris, as figuras de “Medos Privados em Lugares Públicos” parecem acometidas por um inverno na alma que teima em se dissipar.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins (2013)

Walt nos Bastidores de Mary Poppins | Saving Mr. Banks

Saving Mr. Banks, de John Lee Hancock

Muitos críticos se queixaram com o roteiro de “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”. Escrita por Kelly Marcel e Sue Smith, a história apresentada conta com pitadas bem fantasiosas para ilustrar a vida de P.L. Travers, a autora do romance “Mary Poppins”. Sua amargura incessante é reprisada, mas havia ainda mais nebulosidade em sua relação com Walt Disney, que tentou conquistar a confiança de P.L. Travers para levar para o cinema a sua obra literária máxima.

No entanto, essa produção dirigida por John Lee Hancock não busca se comportar como uma cinebiografia convencional. Ao invés disso, prefere se apropriar da vida de P.L. Travers para discutir algo pouco usual: a desfiguração de um material original no processo de adaptação para uma mídia distinta. E aí vai uma recomendação sincera: se a intenção é criar algum bloqueio com “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” por não ser fiel aos fatos no processo de filmagem de “Mary Poppins”, contente-se somente com a leitura de “Mary Poppins e sua Criadora – A Vida de Pamela Travers”, publicado neste ano pela Editora Prata.

A princípio, o passado e presente de P.L. Travers (Emma Thompson) parecem a materialização de uma fantasia digna de um musical da Disney. Com uma narrativa que se alterna entre os dois tempos, vamos aos poucos descobrindo o que tornou a protagonista uma senhora de mal com a vida ao mesmo tempo em que precisa abrir mão de seu orgulho para finalmente vender os direitos de “Mary Poppins” para Walt Disney (Tom Hanks). Explica-se: P.L. Travers não suporta as afetações das produções do estúdio que deu vida a Mickey e, durante vinte anos, recusou todas as ofertas de Walt para adaptar o seu livro. O problema é que Travers precisa pagar as contas e a venda dos exemplares de “Mary Poppins” caiu ao longo dos anos.

P.L. Travers acaba cedendo, mas com uma série de condições. A principal delas consiste no controle criativo do roteiro, que vai ganhando forma a partir das canções compostas pelos irmãos Sherman (papéis de B.J. Novak e Jason Schwartzman). Porém, antes mesmo de se mostrar totalmente inflexível nesta colaboração para levar “Mary Poppins” ao cinema, Travers rememora a sua infância na Austrália e a sua relação com a própria família. Nos flashbacks, é bem clara a influência que o pai dela (interpretado por Colin Farrell) exerceu sobre a sua vida e carreira como escritora e não demora para sabermos que os tons dourados dessa vida no campo escondem alguns ressentimentos.

A leveza típica dos contos de fadas não fez bem ao cineasta John Lee Hancock ao conceber “Um Sonho Possível“, drama baseado em uma história real que rendeu à Sandra Bullock o Oscar de Melhor Atriz. Já em “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”, este tom dialoga perfeitamente com a construção de P.L. Travers e Walt Disney. A princípio apresentados como figuras reconhecíveis por trás dos personagens agora eternos que criaram, ambos são desmitificados quando o choque entre mentes criativas dá lugar para as suas motivações mais pessoais. Durante este processo, é impossível não visualizar o vigor que Tom Hanks recupera após uma sucessão de erros no cinema. No entanto, é Emma Thompson a energia que impulsiona o filme, demostrando uma queda de resistência gradativa que só amplia nossa identificação com sua personalidade forte. Sua ausência entre as finalistas na categoria de Melhor Atriz na última edição do Oscar é indesculpável.

É importante frisar que “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” nem sempre é certeiro na transição de tempos, que usa e abusa de elementos para estabelecer algumas relações óbvias, como o repúdio da protagonista por peras e a cor vermelha. Um pecado muito pequeno diante da franqueza de P.L. Travers e Walt Disney em usar a arte como uma reparação para o que a vida não tratou de ser mais condescendente – é uma pena que a distribuidora nacional não tenha notado a sensibilidade do título original, “Salvando Mr. Banks”. Mesmo não tendo assistido a “Mary Poppins” uma única vez, não estranhe caso se veja aos prantos ao final do filme.

Resenha Crítica | O Grande Hotel Budapeste (2014)

O Grande Hotel Budapeste | The Grand Budapest Hotel

The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson

Entre todos os cineastas contemporâneos, Wes Anderson é, sem dúvida, aquele que mais progrediu entre todas as fases de sua carreira. Após o gosto amargo deixado por “A Vida Marinha com Steve Zissou”, Wes Anderson se submeteu a um processo de refinamento de técnica e narrativa muito perceptível. O limite parecia ter sido atingido no formidável “Moonrise Kingdom“, lançado há dois anos. Eis que mais passos são dados com “O Grande Hotel Budapeste”, definitivamente, sua obra-prima.

As probabilidades das excentricidades de Wes Anderson desandarem eram muito altas. Há um sem número de personagens com algum peso para determinar o rumo da história, bem como o modo como ela perpassa por períodos distintos. A segurança com que tudo é administrado é traduzida no rigor com que cada enquadramento é milimetricamente planejado.

Em um elenco sensacional repleto de rostos reconhecíveis em obras prévias de Wes Anderson, surpreende a escolha de Ralph Fiennes como protagonista, que aqui estabelece com sucesso a sua primeira parceria com o cineasta americano. Ele interpreta o senhor Gustave, concierge d’O Grande Hotel Budapeste. Extremamente rígido, o senhor Gustave visualiza no mensageiro Zero (Tony Revolori) um parceiro ideal ao se envolver com algumas complicações vindas com o falecimento de Madame D. (Tilda Swinton).

Como se vê no instante em que o senhor Gustave é apresentado, ele tem um fascínio suspeito pelas idosas que habitam o Grande Hotel Budapeste em algumas temporadas do ano e Madame D. era uma de suas amantes mais queridas. É para ele que Madame D. destina em seu testamento uma pintura renascentista valiosa cobiçada pelo seu filho Dmitri (Adrien Brody), um homem inescrupuloso envolvido com atividades fascistas.

Para narrar a história cheia de reviravoltas, Wes Anderson faz uma junção de humor com mistério e se articula dentro de três tempos. “O Grande Hotel Budapeste” é, na realidade, um longo flashback que se estabelece após escritor interpretado por Tom Wilkinson relembrar um episódio em que um Zero já velho (F. Murray Abraham) lhe relatou suas memórias da juventude, estas ganhando maior realce no filme com a presença do senhor Gustave.

Por trás das gags visuais esplendorosas e os desdobramentos planejados com uma astúcia singular, há no âmago de “O Grande Hotel Budapeste” uma representação muito especial sobre uma necessidade inerente a qualquer indivíduo: a preservação da memória. Ao testemunhar perdas ou naturais ou promovidas pela desgraça humana em tempos de guerra, Zero encontra na curiosidade de um escritor o vínculo com uma geração posterior para possibilitar que os mesmos erros de seu passado não sejam reprisados. Na ficção, seu objetivo é alcançado através da literatura. Do “lado de cá”, a meta se materializa como um dos melhores filmes do ano.

Resenha Crítica | Metrópole Manila (2013)

Metro Manila

Metro Manila, de Sean Ellis

Antes um fotógrafo que produzia imagens que misturavam a sensualidade com o surreal, o britânico Sean Ellis se lançou com o pé direito no cinema ao ter o seu segundo curta-metragem, “Cashback”, indicado ao Oscar. Dois anos depois, a trama foi adaptada em formato de longa-metragem, atingindo um resultado que deixava claro que estávamos diante de um jovem cineasta como poucos na arte de manipular as suas próprias imagens. Seu filme seguinte, o suspense “Reflexos”, só confirmou as impressões positivas de sua estreia.

A consagração de Sean Ellis só chegou no ano passado com o seu terceiro longa-metragem, “Metrópole Manila”. No entanto, é triste constatar que esse momento de glória venha através de uma realização que anula tudo aquilo que o tornava um artista tão especial. Não há mais o apuro estético, a trama intrincada, um protagonista com a habilidade de manipular cada segundo do seu dia a dia. O Sean Ellis de “Metrópole Manila” está mais preocupado em atingir um público mais amplo com emoções fáceis.

Na história, Oscar Ramirez (Jake Macapagal) sustenta sua família com uma recompensa ridícula com o arroz que colhe no norte das Filipinas. Chegou o momento em que sobreviver já não é mais possível e a única alternativa é arrumar um emprego na cidade de Manila. É para lá que vai com a sua esposa Mai (Althea Vega) e as duas filhas (interpretadas por Erin Panlilio e Iasha Aceio). Dono de uma inocência incorruptível, Oscar continua comendo o pão que o diabo amassou em uma metrópole marcada pela divergência social, mesmo acreditando que se tornou o homem mais sortudo do mundo ao conseguir uma vaga em uma empresa de carro-forte.

Ainda que confira algum traço autoral (o cineasta dedica o filme para a sua mãe), “Metrópole Manila” só alimenta um vício cada vez mais constante no cinema contemporâneo: o registro da degradação de um universo vista por olhos estrangeiros. Portanto, é difícil se sensibilizar com algumas ações de uma ingenuidade quase risível, como todas aquelas em que Oscar e Mai se deixam levar pelas ofertas de estranhos. Sem dizer o pieguismo ilustrado em olhares esperançosos diante de dinheiro e comida. Drama filipino para inglês ver.