Os Cinco Seriados Prediletos de Paolo Enryco

Paolo Enryco

Ao começar a faculdade de Jornalismo no primeiro semestre de 2013, me espantou a preferência exorbitante de calouros interessados na formação com o objetivo de ingressar a área de Jornalismo Esportivo. Havia também uma parcela interessada em trabalhar como repórteres para emissoras de tevê. Somente eu confirmei o meu objetivo de atuar como jornalista cultural.

Formado em Direito, Paolo Enryco encara o Jornalismo tendo uma bagagem cultural extensa. Daí a identificação quase imediata com um sujeito que conversa com empolgação sobre um sem número de assuntos que não se restringem ao que trabalhamos em sala de aula. Veio assim a oferta de se apropriar de um espaço no Cine Resenhas para escrever sobre seriados, atrações televisivas das quais não acompanho com o mesmo fervor que o Paolo.

Reservo agora a chance para o Paolo conversar um pouco com vocês sobre algumas séries que o marcaram antes de formar a sua seleção de prediletos. No entanto, antes de me despedir, indico o seu blog com os seus devaneios do cotidiano, Eu Penso…

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Por Paolo Enryco

Antes, preciso explicar que as escolhas foram baseadas somente em séries encerradas, por isso não vão encontrar menções a “Game of Thrones”, “The Walking Dead”, “Mad Man” ou “The Big Bang Theory” nessa lista – mas sim, pretendo comentá-las futuramente. Também informo que concordo com críticas sobre séries aclamadas, desconsideradas na minha seleção. Tipo, “Friends”, “Lost”, “Seinfeld” ou “Twin Peaks”.

Ok, vou explicar. “Friends” se popularizou porque já existia aquele gênero de comédia com sonoplastia de risadas, tal qual “El Chavo del Ocho” ou “Diff’rent Strokes”. Sim, eu gosto dessas séries, são engraçadas e tal, mas vamos combinar que é chato a direção decidir a hora de dar risada.

“Lost” começou muito bem. Mas foi caindo, caindo… Não merece porque é o tipo da série “barriga”, enrola, enrola pra chegar a nada. A boa série tem que saber a hora de acabar (como fez primorosamente Vince Gilligan em “Breaking Bad”). Então, J.J. Abrams, você não merece estar na minha lista (apesar de ter criado “Felicty”, a série menininha que gostei).

Por fim, “Seinfield” e “Twin Peaks”, dois possíveis pecados da minha vida, já que a primeira tentei ver e não achei muita graça pela falta de continuidade, enquanto a segunda realmente não assisti, apesar da indicação do meu senhorio. Culpa minha, nos dois casos.

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Os Sopranos

Família Soprano (1999–2007)

Ok, creio que essa talvez seja unanime. Uma obra-prima, ótimos diálogos, ótimo ritmo.  Além da profundidade dos personagens centrais, os coadjuvantes não são deixados de lado nessa série (afinal, quem nunca se colocou no lugar do Christopher Moltisanti em seu dilema com a Adriana?). E mais: que final foi aquele!? Arrepia de lembrar! “Don’t Stop Believin'”, nunca mais teve o mesmo significado depois dessa série.

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Breaking BadBreaking Bad: A Química do Mal (2008–2013)

Obra prima! O senhor Gilligan fez tudo certinho. A série flutuou em temas pesados e deu passos profundos em temas leves. Acabou na hora certa e ainda deixa um gosto de quero mais. Talvez não tenha ganho de “Sopranos” pelo episódio final.

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The Office

The Office (2005–2013)

“That’s what she said!”. Cara, essa séria passeou por todas minhas sensações de humor, raiva, carinho e tristeza. E é “apenas” uma série de humor. E ninguém escolhe quando você vai rir! #MichaelScott4ever!

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Sex and the City (1998–2004)

Sim é uma série de mulheres, para mulheres, que eu gostei muito. Pelo menos na minha adolescência quando eu acreditava existir uma lógica em entendê-las. Essa série revolucionou o mundo muito mais que aquele séria da ilha – desculpem os sériemaníacosfanáticosporlost. Talvez não uma revolução audiovisual midiática, mas algo maior: a sociedade – e as mulheres.

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Boardwalk EmpireBoardwalk Empire (2010-2014)

Sim, ela tem um ritmo pesado. Às vezes é difícil assistir, mas se você chegar nos finalmentes, os finais de temporadas são realmente (desculpem o termo) “foderosos”. Tiro, porrada e bomba, que deixa “Sopranos” e “Breaking Bad” a ver navios. E meu amigo, essa ultima temporada foi de (desculpem novamente) “cagar arroz doce”.

Resenha Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (2014)

Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1 | The Hunger Games: Mockingjay - Part 1

The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, de Francis Lawrence

Suzanne Collins definitivamente não é uma grande escritora, mas não há dúvidas de que foi certeira nos desenvolvimento dos temas que trabalha na trilogia literária “jogos Vorazes”. A americana se cercou de boas referências ao criar um universo dividido em distritos controlados pelo President Snow (Donald Sutherland), que anualmente promove o massacre que dá título à franquia. Suzanne se apropriou de realities shows e da mitologia grega em busca de um diálogo com uma geração jovem cada vez mais sintonizada à política. O conteúdo é rico e exatamente por isso “Jogos Vorazes: A Esperança” se torna o primeiro filme a não sair prejudicado com uma divisão em duas partes.

A primeira metade do romance “A Esperança” é transposta aqui e há muitos acontecimentos reservados para 20 de novembro de 2015, data em que será lançada a derradeira “Parte 2”. Não há aqui a sensação de que o material foi esticado, um fenômeno que acometeu “Harry Potter” e “Crepúsculo” nos capítulos finais e agora “O Hobbit“, cujo livro relativamente curto foi transformado em uma trilogia com aproximadamente oito horas de duração. Só há dois equívocos originalmente concebidos por Suzanne Collins e lamentavelmente mantidos pelo cineasta Francis Lawrence e os seus roteiristas: a ridícula busca por Prim (Willow Shields) após o seu desaparecimento em um instante de reclusão forçado e um discurso desnecessário de Finnick Odair (Sam Claflin) usado no clímax de “A Esperança – Parte 1”.

Começa exatamente do ponto em que terminou “Em Chamas” essa sequência que substitui o colorido deslumbrante da qual a franquia é notória para um ambiente acinzentado de guerra permanente. Nada mais adequado para ilustrar o Distrito 13, antes dado como destruído e agora em funcionamento para iniciar uma revolução contra o Presidente Snow. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) promoveu involuntariamente uma esperança para mudar o estado das coisas e não estando ciente das suas habilidades de liderança, aceita o convite da Presidente do Distrito 13 Alma Coin (Julianne Moore) para incorporar o Tordo, o símbolo de uma revolução enfim posta em prática por uma maioria oprimida desde a sua existência.

Além de maior ênfase em Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), vértices que formam com Katniss um triângulo amoroso que jamais soa aborrecido, há a entrada importante de Cressida (Natalie Dormer), jovem que abandonou as firulas de Capitol para derrubar Snow. Sua missão é inserir Katniss em campos de batalha e flagrar com câmeras as suas reações mais espontâneas para converter em conteúdo de propaganda política. Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), Beetee (Jeffrey Wright), Boggs (Mahershala Ali), Effie Trinket (Elizabeth Banks, inserida digitalmente após filmar a sua participação isoladamente em estúdio) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) fecham o grupo de principais aliados de Katniss.

Ainda que o principal foco de “A Esperança – Parte 1” seja o resgate dos vitoriosos em Capitol (incluindo Peeta, capturado por Snow no instante em que Katniss é resgatada pelo Distrito 13 na conclusão de “Em Chamas”), o filme é feliz ao mostrar uma heroína mais vulnerável do que se espera, um reflexo da máxima de que grandes símbolos de revolução nada mais são do que mártires para que aqueles nos bastidores possam exercer plenamente as suas ideologias. Acompanhar as respostas de outros distritos pelo declínio de um totalitarismo rende também grandes momentos, em especial aquele em que a explosão da represa que alimenta a energia de Capitol é embalada por uma canção de Katniss, “A Árvore do Enforcamento”. Que “A Esperança – Parte 2” venha para cumprir a promessa de ser um encerramento espetacular para a franquia “Jogos Vorazes“.

Os 10 Melhores Filmes da 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Fazer cobertura da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo sempre proporciona prazeres, dissabores e desafios. Durante duas semanas (e mais uma de repescagem), o evento permite ao cinéfilo visitar inúmeras cinematografias na sala escura. Há também o nervoso em assistir a um filme desagradável, cuja existência na seleção sempre questionamos. Por fim, é preciso interromper muitas atividades de nosso cotidiano e há sempre o problema da logística para se locomover de sessão em sessão, do cinema para a casa.

Ainda que tenhamos de abrir mão de uma análise mais aprofundada sobre alguns títulos, decidimos não resumir as nossas experiências publicando somente opiniões curtas de uma leva de longas em uma única postagem. Para respeitar o padrão de resenhas publicadas neste endereço, foi preciso esticar o prazo para concluirmos a nossa cobertura. Portanto, a Mostra chegou ao fim há duas semanas, mas todos os 45 filmes assistidos foram devidamente comentados.

Com a satisfação de missão cumprida, encerramos definitivamente o assunto Mostra Internacional de Cinema em São Paulo com uma seleção dos dez filmes que mais apreciamos desta 38ª edição. É importante dizer que não consideramos os clássicos que foram reprisados, bem como todos os filmes do bloco Apresentações Especiais, que contou com a exibição da versão do diretor dos dois volumes de “Ninfomaníaca“. Como complemento, também informamos sobre a nossa participação nos especiais promovidos pela Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos e o Cinema de Buteco.

Para saber mais sobre os filmes destacados no top 10, basta clicar no sinal de adição. Até a 39ª edição!

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A Gangue | Plemya

01. A Gangue, de Miroslav Slaboshpitsky +

O Pequeno Quinquin | P'tit Quinquin

02. O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont +

Leviatã | Leviafan

03. Leviatã, de Andrey Zvyagintsev +

Livre | Wild

04. Livre, de Jean-Marc Vallée +

Acima das Nuvens | Clouds of Sils Maria

05. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas +

Pássaro Branco na Nevasca | White Bird in a Blizzard

06. Pássaro Branco na Nevasca, de Gregg Araki +

Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo | Foxcatcher

07. Foxcatcher: A História que Chocou o Mundo, de Bennett Miller +

Tristeza e Alegria | Sorg og glæde

08. Tristeza e Alegria, de Nils Malmros +

A Moça e os Médicos | Tirez la langue, mademoiselle

09. A Moça e os Médicos, de Axelle Ropert +

Quando os Animais Sonham | Når dyrene drømmer

10. Quando os Animais Sonham, de Jonas Alexander Arnby +

Resenha Crítica | Leviatã (2014)

Leviatã | Leviafan

Leviafan, de Andrey Zvyagintsev

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Como cidadãos comuns inseridos em uma sociedade capitalista, sempre temos a sensação de que há uma força maior determinando o nosso destino.  Há aqueles que encontram nas circunstâncias a justificativa para a classe social que estão inseridos, para o local que habitam e para a profissão que exercem. Outros conferem a responsabilidade em agentes (políticos?) que detêm o poder para operam algumas injustiças. Essa é uma questão bem ilustrada por Andrey Zvyagintsev nas sequências inicial e final de “Leviatã”: as panorâmicas embaladas pela música de Philip Glass (extraída da ópera “Akhnaten”) sugerem que há algo muito grandioso nos manipulando como marionetes.

Personagem central de “Leviatã”, Kolia (Alexei Serebriakov) é um mecânico casado com a jovem Lilya (Elena Lyadova) e pai do adolescente Roma (Sergey Pokhodaev), fruto de um relacionamento com outra mulher. Sua vida comum é transformada em pesadelo a partir do instante que o prefeito Vadim (Madyanov) demostra interesse pela sua propriedade. Embora modesta, ela está situada em uma área com vista privilegiada, o que faz Kolia temer que a posse seja repassada pela justiça para Vadim. A solução parece se apresentar através de Dimitri (Vladimir Vdovichenkov), um amigo de longa data de Kolia no exército que atuará como seu advogado.

Para compreender o perigo que há na luta de um indivíduo comum contra uma autoridade cheio de conexões nebulosas, Andrey Zvyagintsev se apropria de dois elementos, um narrativo e outro visual. Premiado em Cannes, o roteiro escrito por Zvyagintsev em parceria com Oleg Negin é contaminado por um humor quase perverso que envolve situações constrangedoras de embriaguez, adultério e falsas aparências. Já através das imagens, Zvyagintsev referencia o mostro medieval (e, consequentemente, a cobiça da qual ele é materializado) que lhe serve de título com carcaças de animais e cacos de objetos visualizados em todos os cantos.

Um triunfo em todos os quesitos, “Leviatã” só fraqueja na meia hora final ao ter o contexto religioso da narrativa, até então somente sugerido com maestria, tomar forma ao ponto de comprometer a fluência dos acontecimentos. Embora uma decisão que conte negativamente para o resultado final, Andrey Zvyagintsev ainda assim mantém a potência de uma história sobre a disparidade entre homens e as consequências cruas e irreversíveis para aqueles que se rebelam estando presentes no lado menos privilegiado do conflito.

Bate-papo com o diretor Albert Kodagolian, de “Algum Lugar Belo”

Albert Kodagolian[Foto: Mario Miranda Filho/Agência Foto]

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Embora a nossa presença nesta edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo tenha sido muito mais expressiva em comparação com os anos anteriores, lamentavelmente as oportunidades de participar de um bate-papo com um convidado foram raras. Os intervalos de uma sessão para a outra foram encurtados e muitos diretores ou membros de equipes tiveram somente cinco minutos para conversar com o público.

Apesar de termos registrado as conversas com o produtor Thomas Thümena (de “Adorável Louise“) e com o diretor Christian Bach (de “Fuga da Realidade“), somente o bate-papo com Albert Kodagolian, diretor, ator e roteirista de “Algum Lugar Belo“, rendeu um material que vale a publicação. Com uma carreira como publicitário, Kodagolian veio pessoalmente me contar que ficou contente ao ver um espectador notar a homenagem que prestou a “Calendário”, longa-metragem que Atom Egoyan produziu em 1993 e do qual serviu de base para a construção de “Algum Lugar Belo”. Esse foi um dos pontos abordados no bate-papo, cuja transcrição vocês podem ler a seguir.

Algum Lugar Belo | Somewhere Beautiful

Sobre “Calendário”, de Atom Egoyan, e os dois segmentos de ‘Algum Lugar Belo”

Durante dez anos, eu filmei comerciais em Londres. Os comerciais são coisas muito controladas, certinhas. Já com a experiência de rodar um filme, ao menos com as cenas que filmei na Argentina, você chega para fazer a sua parte, as outras fazem as delas e tudo se junta.

Quando terminamos de filmar a parte da Argentina, eu mostrei o resultado para o Atom Egoyan. Há até uma passagem no filme com a voz dele deixando uma mensagem em minha caixa eletrônica. Ele achou muito interessante o que eu já tinha feito, um triângulo amoroso solto, sem um fio condutor. Atom costuma ser experimental e gostou do resultado. Depois fui incentivado a criar uma outra história, justamente a parte ambientada em Los Angeles.

Algum Lugar Belo | Somewhere Beautiful

Sobre a dinâmica de filmagem e as distinções das narrativas

Quando eu comecei a fazer este filme, pensei: “Bem, vamos viajar com essa equipe pequena, rodar esse filme e ter um bom momento.” Essa era a minha intenção. No entanto, houve um instante em que o elenco ficou muito desconfortável ao não saber o que iria fazer, o que iria  falar. Frequentemente eu encontrava um novo local e pedia para todos pararem para filmarmos algo nele. Também tinham dias em que acordava com novas ideias e sugeria para modificarmos o que já tínhamos planejado. Na segunda parte do filme, quis lidar com uma estrutura mais forte, pois a primeira foi complicada, a gente não estava mais conseguindo extrair algo com isso. Assim, o elenco ficava mais confortável sabendo exatamente a cena que rodaria.

Na Argentina, estive com uma equipe com 20 membros e, quando terminei, eu pensei que eram muitas pessoas. Filmei na Argentina em 16mm e em Los Angeles, em 35 mm, com câmeras maiores. Estava com apenas oito membros na equipe. Quando fazia comerciais, tinha de 60 a 100 pessoas no estúdio. Essa quantidade de pessoas meio que interrompe o fluxo criativo. A parte de Los Angeles foi feita na minha casa, com a minha própria filha, foi algo muito particular. Eu me diverti muito com contracenando com os meus amigos músicos, foi a parte mais legal.

Algum Lugar Belo | Somewhere Beautiful

Sobre os elementos autobiográficos

Penso que todos tiveram a experiência de um rompimento. Fazer “Algum Lugar Belo” foi uma maneira de compreender um pouco sobre a minha separação. Como uma pessoa criativa, a parte esquerda do meu cérebro é a mais ativa, é aquela que sempre me mantém sob grande pressão quando faço o meu trabalho. Assim, quis usar mais o lado direito, o mais lúdico. Com esse filme, creio que o lado direito do meu cérebro disse para eu ser mais tranquilo e perceber a beleza que isso proporciona.

Sobre a primeira exibição de “Algum Lugar Belo” para o público

Esta é literalmente a primeira exibição de “Algum Lugar Belo” para o público e ativei um site antes de desembarcar no Brasil. Então, por favor, contem aos seus amigos sobre o filme o poste comentários nas redes sociais.

Resenha Crítica | Relatos Selvagens (2014)

Relatos Selvagens | Relatos salvajes

Relatos salvajes, de Damián Szifrón

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No mundo globalizado de hoje, é impossível não vivermos a todo o instante à beira de um ataque de nervos. Qualquer coisa é capaz de provocar o nosso estresse, seja o trânsito, a fila enorme do supermercado, as burocracias dos procedimentos para atendimento ao cliente, o barulho ocasionado pelo vizinho em horário inadequado… Primeiro trabalho de Damián Szifrón a receber lançamento no Brasil, “Relatos Selvagens” é exatamente sobre esses empecilhos do cotidiano que nos fazem rebelar com irracionalidade.

Também autor do roteiro, Damián Szifrón criou seis segmentos que mostram personagens que se comportam dos modos mais inesperados quando a paciência se dissipa. Os passageiros de um voo turbulento que descobrem conhecer uma pessoa em comum é a história que dá o tom ao filme. Não tão inspirado, o próximo segmento mostra uma garçonete (Julieta Zylberberg) revendo um sujeito desprezível (Cesar Bordon) que logo vira alvo de uma cozinheira (Rita Cortese) com passagem pela cadeia.

No quase cartunesco “O Mais Forte”, Leonardo Sbaraglia vive um homem de negócios totalmente deslumbrado com o seu novo Audi, o que o faz inclusive provocar o motorista (Walter Donado) de um Peugeot modesto. A reviravolta é digna de “Encurralado”, de Steven Spielberg, com a diferença que o vilão não tem medo de esconder a própria face. Em “Bombita”, o astro Ricardo Darin é Simon, um engenheiro responsável pela demolição de edifícios que vive um dia de cão a partir do instante que o seu veículo é guinchado pela prefeitura.

Há mais dois relatos selvagens. Em “A Proposta”, os risos fazem um intervalo para acompanhar a teia de manipulações que o milionário Mauricio (Oscar Martinez) se envolve quando tenta livrar a barra de seu filho Santiago (Alan Daicz), que matou uma mulher grávida ao dirigir imprudentemente. “Até que a Morte nos Separe” fecha “Relatos Selvagens” com chave de ouro ao trazer Romina (Erica Rivas) descobrir sobre a infidelidade de seu companheiro Ariel (Diego Gentile) em plena festa de casamento.

Ao contrário do que estamos cansados de testemunhar em nove a cada dez longas-metragens moldados a partir de micro roteiros, “Relatos Selvagens” não apresenta um desequilíbrio de qualidade abissal. Excetuando as resoluções pouco impressionantes dos seguimentos protagonizados por Julieta Zylberberg e Oscar Martinez, Damián Szifrón obtém bons resultados com as suas histórias. O problema está na estrutura. Sem ter um elo mais forte do que as ações selvagens cometidas por cada personagem central, o longa sempre apresenta sinais involuntários de exaustão em meio a explosões de fúria que receberiam melhor destino caso comportados individualmente como curtas-metragens.

Resenha Crítica | Winter Sleep (2014)

Winter Sleep | Kis uykusu

Kis uykusu, de Nuri Bilge Ceylan

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Parece que o sucesso progressivo obtido pelo cineasta Nuri Bilge Ceylan a partir de “Distante” tem ampliado o seu desejo de alçar voos cada vez mais altos, o que reflete em obras que soam grandiosas não apenas na duração alongada, como também em engrandecer os conflitos humanos por razões sociais ou puramente banais. Com duas horas e meia de duração, “Era uma Vez na Anatólia” foi exibido ano passado nos cinemas brasileiros e dividiu a plateia com a história sobre um cadáver encontrado nos campos rurais de Anatólia e as implicações com todos os envolvidos neste episódio. Com “Winter Sleep”, Nuri Bilge Ceylan promete obter as mesmas reações em uma história que ultrapassa as três horas de duração.

Embora tenha sido laureado na última edição do Festival de Cannes com a Palma de Ouro, nem lá o filme foi recebido com unanimidade. À frente do júri deste ano, a cineasta neozelandesa confessou que não se sentia preparada para assistir a um filme tão longo, mas que foi surpreendida pela sensibilidade de Nuri Bilge Ceylan em contar uma história de amor. “Winter Sleep” não é apenas sobre o amor, mas a “Aleluia!” proferida por uma espectadora no fim da segunda projeção do filme durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo entrega o que já era temido: três horas e meia é um pouco demais para uma história que se beneficiaria com uma duração mais enxuta.

Aydin (Haluk Bilginer) gerencia um hotel em Anatólia e tem larga formação artística. Intelectual, ele costuma observar com superioridade as pessoas e situações que o cercam. Hamdi (Serhat Mustafa Kiliç) é o primeiro a ser atingido pelo rigor de Aydin no início da história, um inquilino com problemas financeiros que o impedem de pagar em dia as prestações de sua casa. Essa inflexibilidade também atinge sua irmã Necla (Demet Akbag) e Nihal (Melisa Sözen, levemente parecida com Penélope Cruz), sua jovem esposa.

Passado durante um inverno que vai se tornando rigoroso, “Winter Sleep” busca associar a desolação da estação não somente ao seu protagonista, como também à frieza das interações entre os bem afortunados e os desfavorecidos, entre o intelectual e aqueles que refletem sobre o estado das coisas com mais sentimentalismo. Quando não há as passagens da narrativa que podem muito bem serem considerados tempos mortos, o filme de Nuri Bilge Ceylan cresce ao investir longos minutos em três embates verbais arrebatadores. Dois deles são protagonizados por Aydin e o terceiro e último é travado entre a bem intencionada Nihal e Ismail (Nejat Isler) o irmão orgulhoso de Hamdi diante de uma doação em dinheiro.

É curioso perceber que ao evoluir no processo de escrita, Nuri Bilge Ceylan deixa para trás a virtude que marcou as suas produções anteriores. Não há em “Winter Sleep” o mesmo vigor estético de “3 Macacos” e “Era uma Vez na Anatólia” e as suas tomadas se dão mais na penumbra de ambientes isolados do que em externas que registram as particularidades de Anatolia, um local com acomodações que se assemelham a cavernas. É uma pena que a preservação do estudo de personagens em detrimento de algo visualmente mais envolvente não se efetive diante de uma decepcionante redenção quase piegas oferecida para Aydin, um homem que a vida inteira se deixou levar pela amargura.

Resenha Crítica | A Moça e os Médicos (2013)

A Moça e os Médicos | Tirez la langue, mademoiselle

Tirez la langue, mademoiselle, de Axelle Ropert

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Não há cinema que produza mais as histórias de amor cheias de amargura do que o francês, trazendo resultados que podem mais repelir do que atrair. Seja nos clássicos de Jean-Luc Godard ou nas obras contemporâneas de Philippe Garrel, há sempre uma frieza na construção (ou deterioração) do amor diante de um par, o que garante diálogos pretensiosos e interações que carecem de algo mais vívido.

É também fato que o cinema francês é notório em rever as estruturas mais cansadas dos romances para apresentar algo que garanta ao espectador uma experiência realmente autêntica. Atriz com carreira como diretora iniciada a pouco tempo, Axelle Ropert não provoca fortes estrondos com “A Moça e os Médicos”, mas é louvável os novos prazeres que impõe em uma premissa a princípio batida.

Sim, “A Moça e os Médicos” é mais uma história que gira em torno de um triângulo amoroso. Porém, há aqui um charme que não o torna improvável ao ponto de se transformar em uma piada grosseira como muito se vê em produções de outras nacionalidades. Além do mais, Louise Bourgoin, uma revelação recente do cinema francês, é uma singularidade de mulher, tornando crível a atração instantânea que sua presença provoca nos irmãos Boris e Dimitri Pizarnik (respectivamente Cédric Kahn e Laurent Stocker), dois médicos habituados em trabalhar em parceria e que atendem Alice (Paula Denis), a filha diabética de sua personagem, Judith Durance.

É bem visível as distinções entre esses irmãos, sendo Boris um sujeito que se deixa contaminar pela descrença que tem da felicidade plena e Dimitri alguém que esconde o vício pelo álcool com um bom humor que o faz ter uma impressão extremamente positiva diante de seus pacientes. Nada mais natural que o humor se manifeste sutilmente quando ambos declaram o seu amor para Judith em um intervalo de tempo quase inexistente, o que assegura risos potencializados com a escolha da também roteirista Axelle Ropert em deixar às claras as intenções desse trio atingido no passado pelas desilusões do amor.

Resenha Crítica | A Gangue (2014)

A Gangue | Plemya

Plemya, de Myroslav Slaboshpytskiy

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Quando imaginamos que o cinema já contou todas as histórias de todos os modos imagináveis, filmes como “A Gangue” surgem para comprovar que esta arte confere um arsenal infinito de possibilidades. Produção ucraniana que repete na Mostra o prestígio obtido durante a sua passagem no último Festival de Cannes, “A Gangue” é falado inteiramente em linguagem de sinais. Mais: a música está plenamente ausente, bem como os diálogos e, o mais importante, as legendas que serviriam como suporte para compreendermos as interações entre os personagens.

A princípio, há o receio em mergulhar nesta experiência sem compreender todo o contexto por trás dela, mas o cineasta Myroslav Slaboshpytskiy apresenta um domínio tão singular da situação que não leva muito tempo para estarmos inseridos na dinâmica de um grupo escolar que recebe um novo componente, o personagem recém-chegado vivido por Grigoriy Fesenko, o protagonista de “A Gangue”.

Por trás do ambiente aparentemente tradicional, há os adolescentes que subvertem o sistema em busca de dinheiro fácil através da violência, prostituição e ilegalidade. Ao conquistar o respeito de seus colegas, o protagonista passa a agir como um dos líderes desta gangue, mas o envolvimento com uma colega (Yana Novikova) prestes a ir à Itália para prosseguir com as suas atividades como garota de programa colocará em risco a sua reputação.

Além de exigir que o público saia de sua zona de conforto ao contar uma história que se comunica com a apropriação de ferramentas pouco usuais, “A Gangue” também não o poupa ao fazer um registro barra-pesada sobre o submundo europeu que não deixa ninguém incólume. Figuras geralmente retratadas em tom piedoso, os surdos-mudos se veem aqui tão errantes e vulneráveis quando os indivíduos que verbalizam com mais facilidade as suas fúrias internas.

Resenha Crítica | Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (2014)

Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo | Foxcatcher

Foxcatcher, de Bennett Miller

.:: 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

O título nacional é quase um spoiler para o espectador desavisado. Ao menos que se conheça o escândalo protagonizado pelo milionário John du Pont, “Foxcatcher” é um daqueles filmes em que o melhor a ser feito é vê-lo no escuro. No entanto como é “Uma História que Chocou o Mundo”, o público saberá de antemão que algo muito nebuloso acontecerá em algum instante do filme.

Seja como for, conhecer ao menos a premissa não deverá estragar qualquer surpresa. Em boa parte de “Foxcatcher”, é Mark Schultz (Channing Tatum) que se apresenta como o grande protagonista da história. Ainda que se dedique em tempo integral à luta livre, é evidente que Mark se sinta inferiorizado diante de seu irmão mais velho, Dave Schultz (Mark Ruffalo), uma referência no meio olímpico.

Descoberto por John du Pont (Steve Carell), multimilionário filantrópico que o patrocina ao inseri-lo no Time Foxcatcher de luta livre, Mark encontra a oportunidade para ascender, o que o faz partir para uma interatividade de competitividade com Dave. O que torna perigosa a proximidade desses personagens é a ambição de John du Pont em atingir uma glória perdida, algo muito claro diante dos olhares desaprovadores de sua mãe Jean (Vanessa Redgrave), que desejava um herdeiro que desse continuidade ao tradicionalismo da família du Pont.

Premiado em Cannes como Melhor Diretor, Bennett Miller é um cineasta com um estilo clássico de condução. Ainda que o resultado final possa ser frio, sua virtude está na paciência e pleno controle da história. Não há pressa para contá-la e os personagens são beneficiados com a construção plena de seus perfis.

Em “Foxcatcher”, Bennett Miller também continua se mostrando um grande diretor de elenco ao oferecer papéis de uma carga dramática pesada para atores pouco prestigiados quando lidam com gêneros mais densos. É graças a Miller que o saudoso Philip Seymour Hoffman pôde ser realmente levado a sério após viver Truman Capote, figura real que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator. O mesmo aconteceu com Jonah Hill em “O Homem que Mudou o Jogo” e agora com Steve Carell e Channing Tatum – se o primeiro foi nomeado um sucessor de Jim Carrey ao estourar com ‘O Virgem de 40 Anos”, o segundo prova que pode ser mais do que um astro sem personalidade.

Uma vez exaltada todas essas qualidades inquestionáveis, é também preciso dizer que “Foxcatcher” não é o filme irretocável que Bennett Miller promete entregar. Há o respeito a uma estrutura infalível diante do julgamento daqueles que colaboram para a entrada de uma produção em um circuito de premiações, mas o fator humano que determina a relevância de um grande filme parece esquecido em um terceiro ato que não se apropria do potencial psicológico que impulsiona algumas ações drásticas.