Resenha Crítica | Grandes Olhos (2014)

Grandes Olhos | Big Eyes

Big Eyes, de Tim Burton

A história de Margaret Keane poderia muito bem se encaixar naquele padrão de artistas são reconhecidos tardiamente após uma trajetória brilhante que passou totalmente despercebida ou não valorizada como deveria. Com uma filha pequena, Margaret decidiu fugir do marido abusivo para reconstruir sua vida em outro lugar, levando consigo um portfólio com os seus belos retratos de crianças com olhos negros e ampliados. No entanto, o sucesso de seu trabalho veio de modo inacreditável.

Estamos em uma época em que a sociedade ainda encara a mulher como a dona do lar, com ambições que devem ser preteridas para centrar as suas atenções no bem-estar do marido e dos filhos concebidos com a união. Portanto, é compreensível que Margaret encontre o seu porto seguro em Walter Keane (Christoph Waltz) e se deixe levar pelo seu desejo de ser um pintor celebrado mundialmente, mesmo que isso a faça abrir mão da própria autoria para que Walter leve o crédito pelo seu trabalho.

Ainda que as telas de Margaret confiram as características da pintura expressionista, há elementos que vão ao encontro da estética gótica preservada por Tim Burton em sua filmografia. Portanto, a pintora e o cineasta pareciam formar uma dupla perfeita para dar vida à “Grandes Olhos”, um drama biográfico que se concentra exclusivamente nos conflitos entre Margaret e Walter até o momento em que a polêmica vem a público.

As expectativas denunciavam que Tim Burton voltaria a realizar um filme à lá “Ed Wood”, uma obra que o fez abrir mão de universos fantásticos para conduzir uma história real com encantos mais palpáveis. É admirável a escolha de Tim Burton em sair de sua zona de conforto e oferecer um bom acabamento para uma produção certamente viabilizada com dificuldades (o orçamento foi de apenas 10 milhões de dólares). No entanto, o resultado prova que ele não foi a escolha certa para dar vida ao bom roteiro escrito pela dupla Larry Karaszewski e Scott Alexander.

Algumas assinaturas de Burton são certeiras, como as cenas em que Margaret vê as pessoas ao seu redor com olhares reprovadores como a de suas crianças melancólicas. Outras são compreensíveis, mas não funcionam. Christoph Waltz é uma delas e os danos quase arruínam “Grandes Olhos”, pois o ator extrapola todos os tons ao se converter em uma caricatura nada sedutora ou amedrontadora. O prejuízo dessa presença inoportuna só não é irreversível porque Amy Adams garante a delicadeza exata para viver Margaret, um modelo que atua como um reflexo crível da mulher de sua época.

Resenha Crítica | Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | Birdman

Birdman, de Alejandro González Iñárritu

Quase como o seu intérprete Michael Keaton, Riggan Thomas era um astro em Hollywood que se consolidou ao viver um super-herói e que agora amarga uma espécie de ostracismo. A razão de seu declínio está na recusa em reprisar Birdman em uma quarta aventura do personagem nos cinemas. Muita coisa rolou desde então: a escassez de ofertas de trabalho, a falta de oportunidade de brilhar em um bom papel, o rompimento com a sua esposa Sylvia (Amy Ryan) e um relacionamento despedaçado com Sam (Emma Stone), sua filha única que acaba de sair de uma clínica de reabilitação.

Quando isolado em seu camarim, Riggan é assolado pela presença de Birdman, herdando aparentemente dele habilidades como flutuar durante uma meditação, apagar as luzes sem apertar a o interruptor, mover objetos e voar em Nova York como um Superman. Mas isso não basta, pois Riggan quer mesmo comprovar o seu talento artístico ao viabilizar uma nova montagem de “What We Talk About When We Talk About Love”, conto de Raymond Carver, na Broadway. Mas será se Riggan triunfará diante dos fantasmas de seu passado o acompanhando? Conseguiria manter o controle de seu co-protagonista, o temperamental Mike (Edward Norton)? Seria esmagado pela crítica da inflexível Tabitha (a extraordinária Lindsay Duncan, em um dos momentos mais brilhantes do filme)?

É estranho ver o nome do mexicano Alejandro González Iñárritu associado a um projeto como “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, uma comédia nervosa que nada se assimila com os seus dramas-corais (“21 Gramas”, “Babel”) e as relatos de indivíduos menos favorecidos (“Amores Brutos”, “Biutiful”). A mudança de ares é totalmente favorável ao cineasta, que mergulha com “Birdman” em um experimento arriscado, mas executado com uma excelência técnica de cair o queixo.

Contando com Chris Haarhoff como operador de Steadicam (a câmera acoplada ao corpo) e fotografia de Emmanuel Lubezki, “Birdman” promove a ilusão para o público de que a narrativa é filmada em um único plano-sequência, resultando em uma transição de intervalos ocultada pela dupla de montadores Douglas Crise e Stephen Mirrione que pouco tempo garante para que o fôlego seja retomado durante os bastidores turbulentos de “What We Talk About When We Talk About Love”. O compositor estreante Antonio Sanchez amplia essa atmosfera de urgência com uma música que se apropria apenas de uma bateria.

Além dos conflitos existenciais do próprio protagonista, há várias interações problemáticas disparadas com a velocidade de uma metralhadora em “Birdman”, como as crises com o produtor Jake (Zach Galifianakis), o fato de Lesley (Naomi Watts) e Mike, ex-namorados, contracenarem nos palcos e as investidas amorosas de Laura (Andrea Riseborough), a atriz que fecha o quarteto central de “What We Talk About When We Talk About Love”. São muitos temas para serem processados simultaneamente em uma estrutura raivosa e talvez por isso “Birdman” seja excepcional, pois o desejo em revisitá-lo é muito maior em comparação com a maioria das obras que surgiram neste último award season.

Resenha Crítica | A Teoria de Tudo (2014)

A Teoria de Tudo | The Theory of Everything

The Theory of Everything, de James Marsh

O astrofísico Stephen Hawking é uma dessas figuras reais com uma história que deve ser obrigatoriamente levada aos cinemas. Além de um gênio, como comprova o cargo de diretor no Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica (DAMTP) e de fundador do Centro de Cosmologia Teórica (CTC), Hawking é um verdadeiro exemplo de superação. Diagnosticado com a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) quando ainda era jovem, Hawking foi informado por especialistas de que resistiria por somente dois anos, mas sobreviveu aos infortúnios, tendo completado recentemente 73 anos.

Vencedor do Oscar pelo documentário “O Equilibrista”, James Marsh ainda não tinha obtido muita visibilidade como diretor de ficção, como demostram os poucos vistos “The King” (2006) e “Agente C – Dupla Identidade” (2012). Com “A Teoria de Tudo”, o britânico atinge uma nova etapa na carreira, embora não convertida em uma nomeação ao Oscar, premiação na qual o drama aparece em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora.

A primeira hora de “A Teoria de Tudo” é um primor. Todos os elementos que marcaram a vida de Stephen Hawking (Eddie Redmayne, excelente) em sua juventude em Cambridge são retratados com esmero e emoções controladas. As suas pesquisas científicas, convertidas no best seller “Uma Breve História do Tempo”, não são negligenciadas em uma narrativa que prioriza o seu relacionamento  com Jane Wide (Felicity Jones), a garota que desperta a sua atenção em uma festa entre amigos.

Ao contrário do que se espera, “A Teoria de Tudo” não centra as suas atenções na luta de uma doença irreversível nesta etapa de seu roteiro, mas na força que é reunida para enfrentar a adversidade. Portanto, comove a determinação de Jane em preservar o relacionamento com Stephen quando este anuncia a condição que irá limitar drasticamente o seu corpo e que promete resumir a sua existência. O amor opera realizações na vida deste casal, assegurando inclusive a construção de uma família.

Lamentavelmente, o roteirista Anthony McCarten não cobre a perspectiva mais enriquecedora da vida de Stephen Hawking, preferindo se deixar levar pelas memórias publicadas pela verdadeira Jane Wide para construir “A Teoria de Tudo”. O resultado é uma segunda metade em que várias armadilhas emocionais se sobrepõem às qualidades contempladas, uma mudança registrada com a entrada de Jonathan Hellyer Jones (Charlie Cox), um viúvo que dedica a sua vida à igreja e que desenha com Jane e Stephen um triângulo amoroso.

É evidente que um relacionamento como este não perduraria sem arranho, especialmente pelos desejos que precisam ser abdicados para preservá-lo, mas há um tom incômodo de piedade por personagens que se mostravam notáveis justamente pela resistência que externavam para evitá-lo. Restam assim a promessa de um filme realmente notável, os desempenhos de Eddie Redmayne e Felicity Jones e algumas escolhas de um mau gosto indesculpável, como a cena do apanhar de uma caneta.

Os 10 Piores Filmes de 2014

Durante o ano de 2014, tomamos a decisão de não assistir a certos filmes. Como estamos livres da responsabilidade de veículos que exigem a cobertura completa do que chega ao circuito comercial, algo impossível de realizarmos devido aos compromissos particulares, decidimos passar títulos como “Transformers: A Era da Extinção”, “Vestido Pra Casar” e “Guardiões da Galáxia” com o intento de priorizar o destaque a obras com potencial de surpreender positivamente e que lamentavelmente não recebem o destaque merecido na blogosfera ou mesmo nos veículos mais consagrados.

Ainda assim, assistir a filmes com resultados que nos desagradam é inevitável. Os dez títulos a seguir foram selecionados por uma série de critérios, seja a falta de uma razão que justifique a sua existência como obra fílmica ou de mero entretenimento, as pretensões, as expectativas não correspondidas ou a ausência quase completa de virtudes que justifiquem o tempo que doamos e o valor que pagamos para vê-los. Atentem que há filmes com uma adição, sinal para a leitura da resenhas na íntegra presentes em nosso arquivo.

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Interestelar | Interstellar#01. Interestelar, de Christopher Nolan +

A escolha de “Interestelar” para ocupar o primeiro lugar da lista de piores filmes de 2014 pode soar como uma estratégia para criar uma interação conflituosa com uma maioria que defende o seu apreço por este mais novo filme de Christopher Nolan. Mas o critério de seleção veio de uma constatação básica: quanto maiores as pretensões de um filme, maior poderá ser a queda. Dito isso, é surpreendente a quantidade de alvos imaginados pelo diretor e o quão vacilante ele é ao mirá-los. Sem oferecer uma experiência de imersão em ambientes além do nosso alcance e tolo ao fazer uma costura de questões astrofísicas que se pretende complexa, “Interestelar” ainda falha vergonhosamente quando chega ao momento de efetivar todos os fatores humanos que movem uma premissa fantástica, apresentando um ato final que joga na lata do lixo as motivações pessoais que movem a jornada de Cooper (Matthew McConaughey). O tom lúgubre emanado do órgão de tubo presente na música de Hans Zimmer definitivamente vem bem a calhar.

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Machete Mata |Machete Kills#02. Machete Mata, de Robert Rodriguez

Amigo de Quentin Tarantino, Robert Rodriguez sempre produziu um cinema que guarda muito proximidade com os métodos autorais do realizador de “Pulp Fiction – Tempos de Violência”. Rodriguez é movido por elementos que regeram o cinema B essencial para a sua formação como cineasta, obtendo sucesso em filmes como “Sin City – A Cidade do Pecado”, “O Mariachi” ou mesmo “Prova Final”. No entanto, há tempos passa batido pela sofisticação, flertando atualmente com o trash de pior qualidade sem mostrar a que veio. Com “Machete Mata”, Rodriguez extrapola todos os limites do tolerável , fazendo aquele que é o seu pior filme – e olha que isso parece impossível em um currículo que contempla “A Pedra Mágica” e o próprio “Machete” original. Embora incorpore o personagem-título, Danny Trejo não passa de palco para o desfile de inúmeros famosos em participações especiais, como Vanessa Hudgens, Charlie Sheen, Antonio Banderas e até mesmo a cantora Lady Gaga. Felizmente, o fracasso comercial deve impedir que “Machete Kills Again… In Space!” seja viabilizado.

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Alemão#03. Alemão, de José Carlos Belmonte +

Responsável por “A Concepção” e “Se Nada Mais Der Certo”, é inegavelmente estranho ver um cineasta alternativo como José Eduardo Belmonte cedendo aos projetos com um apelo mais popular. Se a comédia calcada na chanchada “Billi Pig” foi um dos piores filmes de 2012, “Alemão” atinge o feito de ser o único filme nacional a figurar nesta lista – isto em um ano carente de grandes títulos nacionais produzidos no país. Baseado em uma ideia do produtor Rodrigo Teixeira, “Alemão” reconstrói risivelmente um acontecimento verídico na história recente do Brasil: o processo de pacificação das favelas cariocas. “Alemão” erra em tudo. Os atores se mostram totalmente despreparados para viverem policiais ou traficantes. Cada personagem representa um esteriótipo grosseiro. O roteiro força situações somente para ampliar a tensão que inexiste em um cenário claustrofóbico. A trilha-sonora é estridente e a montagem chega a flertar com a linguagem de videoclipe barato. Que Belmonte tenha mais sucesso em suas próximas empreitadas.

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Uma Aventura Lego | The Lego Movie# 04. Uma Aventura Lego, de Christopher Miller e Phil Lord

Você sabe que uma indústria de cinema passa por uma época de crise criativa quando até mesmo jogos de tabuleiro ou brinquedos infantis se convertem em matéria-prima para a realização de longas-metragens. Peter Berg fez de “Battleship – A Batalha dos Mares” o pior filme de 2012 ao adaptar… Batalha Naval. Agora, é a vez de “Uma Aventura Lego” representar o que de ruim houve no cinema no ano passado ao se inspirar nas peças de plástico para montagem da empresa dinamarquesa Lego. Por incrível que pareça, essa espécie de animação classe Z encontrou o seu público ao lidar de modo banal com mensagens como o quão especial pode ser uma figura taxada como ordinária e o relacionamento entre pai e filho, representado do modo mais deslocado possível em um clímax com a participação de Will Farrell. Aos menos impacientes, a explosão extravagante de cores e a repetição insuportável da canção “Tudo é Incrível” podem ocasionar um ataque epilético digno do episódio proibido do seriado animado “Pokémon”.

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Eu, Mamãe e os Meninos | Les Garçons et Guillaume, à table!#05. Eu, Mamãe e os Meninos, de Guillaume Gallienne

Muitos reclamam das premiações americanas por valorizarem obras mais pelo modo que o seu tema reflete a sociedade estadunidense e menos pelo seu mérito artístico, a sua capacidade de atravessar gerações, de realmente marcar a sétima arte – um exemplo que ilustra os resultados do Oscar 2014, em que “Gravidade” foi preterido por “12 Anos de Escravidão”. Os europeus também têm o seu histórico de equívocos e o César talvez tenha cometido o maior deles ao premiar “Eu, Mamãe e os Meninos” nas categorias de Melhor Filme, Melhor Primeiro Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem. Guillaume Gallienne (que está muito melhor como Pierre Bergé no médio “Yves Saint Laurent”) revê a sua própria vida para transformá-la em matéria-prima nesta comédia sobre um sujeito que desde a infância passa por uma crise de identidade, não sabendo definir seu gênero ou mesmo orientação sexual. O próprio Guillaume interpreta a mãe desse protagonista, que vê com maus olhos essa disfuncionalidade que se instaura em sua família. A comédia é uma ferramenta perfeita para inaugurar discussões sobre os efeitos de um comportamento pouco usual do protagonista, mas “Eu, Mamãe o Os Meninos” se empenha mais em encenar os constrangimentos da situação, investindo em cenas de humor nulo, como a sessão com uma massagista ou o exame médico ao se alistar no exército a contragosto.

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Mulheres ao Ataque | The Other Woman#06. Mulheres ao Ataque, de Nick Cassavetes

Em 1996, Nick Cassavetes estreou como diretor não apenas prestando uma bela homenagem sua mãe Gena Rowlands em “De Bem com a Vida”, como também ao seu pai John Cassavetes ao investir em um projeto que compreende as características de um cinema independente com um coração enorme. Não há problemas em se desvincular de suas raízes e Nick se mostrou interessado em outras possibilidades a partir de “Um Ato de Coragem”, drama de 2002 protagonizado por Denzel Washington. Com “Mulheres ao Ataque”, Nick força a barra ao trazer um trio feminino histérico que descobre ter um amor em comum: Mark King, bonitão interpretado por Nikolaj Coster-Waldau. O pobre astro dinamarquês se torna alvo de constrangimentos que vão do surgimento de mamas até idas imediatas ao banheiro após o consumo de laxante. É ótimo ver personagens machistas se dando mal, mas as personagens de “Mulheres ao Ataque” apresentam perfis tão imaturos que o ataque parece ferir mesmo é a mulher moderna. Como melhor elogio, Nick Cassavetes fez uma comédia compatível com uma tolice dirigida pelo seu pai chamada “Um Grande Problema”.

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Noé | Noah#07. Noé, de Darren Aronofsky

Mesmo com a badalação de “O Lutador” e “Cisne Negro”, é fato que Darren Aronofsky ainda não conseguiu superar os resultados obtidos com “Réquiem Para um Sonho”, o seu melhor filme. Diante disso, temos com “Noé” um diretor diante de uma crise. Primeiro porque é unânime que o projeto bíblico é uma derrapada embaraçosa em sua breve filmografia. Segundo porque Aronofsky integra com ele um grupo de cineastas corrompidos por estratégias comerciais após estreias independentes triunfantes, a exemplo de David Fincher e Christopher Nolan. Além das escolhas questionáveis (a importância da integridade familiar após uma tragédia de proporções literalmente bíblicas) e o modo canhestro como elas se efetivam (a possibilidade de Deus ser um delírio do protagonista), “Noé” é um filme involuntariamente hilário. Como Matusalém, Anthony Hopkins parece estar interpretando O Mestre dos Magos em uma versão live action de “A Caverna do Dragão”. Os anjos caídos que auxiliam o protagonista soam como Transformers arcaicos. Há ainda Tubalcaim como um vilão caricatural, a surpresa de uma concepção indesejada e a busca desenfreada de Cam por uma mulher para que possa reproduzir. Um verdadeiro freak show.

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Caçadores de Obras-Primas | The Monuments Men#08. Caçadores de Obras-Primas, de George Clooney

A falta de relevância de “Caçadores de Obras-Primas” como obra fílmica foi rediscutida recentemente com a polêmica dos vazamentos de informações sigilosas do estúdio Sony. Entre os e-mails vazados, há um em que George Clooney revela à presidente da Sony Amy Pascal estar com receios de ter decepcionado a todos após a enxurrada de críticas negativas para “Caçadores de Obras-Primas”. Tendo na função de diretor realizado bons filmes como “Boa Noite e Boa Sorte” e “Tudo Pelo Poder”, Clooney tem mesmo de se envergonhar por “Caçadores de Obras-Primas”, um filme que caricatura um episódio verídico na Segunda Guerra Mundial com potencial para render uma encenação poderosa sobre a importância da preservação da arte como documento de uma época. Em uma missão em que quadros e monumentos artísticos são mais importantes que as vidas dos soldados recrutados para resgatá-los, Clooney se entrega totalmente ao nonsense sem qualquer razão.

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Os Mercenários 3 | The Expendables 3#09. Os Mercenários, de Patrick Hughes +

Comprometido com o vazamento na Internet a um mês de sua estreia nos cinemas, “Os Mercenários 3” teve a sua arrecadação na bilheteria americana claramente afetada pelo público amplo que preferiu conferi-lo ilegalmente. Os valores obtidos mundialmente permitiram que Sylvester Stallone não cancelasse o seu desejo em fazer um quarto episódio, mas a verdade é que a franquia chega aqui desgastada. As inclusões de Wesley Snipes, Mel Gibson e Harrison Ford no elenco não ressoam diante do péssimo roteiro que dá a abertura para que nomes jovens entrem em ação. O resultado, ao contrário das aventuras anteriores, é maçante de se acompanhar e não há uma sequência imaginativa entre tiroteios, perseguições e astros de outrora buscando por uma recolocação no gênero.

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Sétimo | Séptimo#10. Sétimo, de Patxi Amezcua

Não há astro argentino mais aclamado no Brasil do que Ricardo Darín. Do recorte exibido aqui do que o seu país produz, uma grande fatia corresponde a obras que levam o seu nome nos créditos. Além de “Sétimo”, tivemos o lançamento comercial de outros dois filmes com o ator em 2014: “O Que Os Homens Falam” e “Relatos Selvagens”. Uma co-produção entre Argentina e Espanha, “Sétimo” traz Darín dividindo a cena com ninguém menos que Belén Rueda, uma musa dos thrillers espanhóis. A parceria vai por água abaixo em uma trama de sequestro que se dá através de uma brincadeira inocente entre um pai e o seu casal de filhos, pois o cineasta Patxi Amezcua se mostra totalmente incapaz de conferir tensão em uma corrida contra o tempo e, com o roteirista Alejo Flah, prepara aquela que é a revelação mais estapafúrdia para um mistério, isentando de qualquer penalidade os envolvidos pela armação que encurrala o protagonista.

Resenha Crítica | Blackfish – Fúria Animal (2013)

Blackfish - Fúria Animal | Blackfish

Blackfish, de Gabriela Cowperthwaite

É fato que parques aquáticos, como os do grupo SeaWorld, são um dos que mais despertam a atenção de turistas ou de famílias em período de férias. A razão está nas apresentações das orcas, que fazem a alegria do público através dos seus feitos na piscina coordenados por um treinador. No entanto, a performance do animal só é possível após anos de cativeiro e uma série de ações alarmantes em busca do lucro através do entretenimento.

“Blackfish – Fúria Animal” vem como um dos documentários mais pulsantes em tempos recentes no que se refere ao seu caráter de denúncia. Com 75 mil dólares ao seu dispor, a novata Gabriela Cowperthwaite moveu montanhas ao coletar depoimentos de vários treinadores que passaram pelo SeaWorld, confessando diante da câmera o arrependimento de participarem do processo cruel de adestramento de orcas como Tilikum, cujo histórico de vida é acompanhado pela narrativa.

Capturada na Islândia em 1983, a orca cresceu totalmente comprometida ao ser retirada de sua verdadeira natureza. Além da possibilidade de ter a sua própria existência resumida, Tilikum pode provocar ações que correspondem a sua natureza selvagem, trazendo riscos a todos que a manipulam no SeaWorld. O desastre era inevitável: ao todo, três treinadores foram atacados por Tilikum, levando a óbito Dawn Brancheau, talvez a mais experiente que passou pelo SeaWorld.

A cineasta Gabriela Cowperthwaite não poupa o público de imagens de arquivos que flagram tanto as agressões de orcas contra os seus treinadores quanto a dor profunda provocada pelos ruídos que Tilikum emite com a falta da família e do lar em que nasceu. Os protestos já repercutiram: além de métodos para manter a integridade dos treinadores durante as apresentações, celebridades agora recusam que suas imagens sejam associadas ao SeaWorld, o que talvez tenha colaborado para a queda de vendas de ingressos para as atrações no último ano. Alguns progressos em um caso que precisa de mais mudanças urgentes.

Resenha Crítica | Como Treinar o Seu Dragão 2 (2014)

Como Treinar o Seu Dragão 2 | How to Train Your Dragon 2

How to Train Your Dragon 2, de Dean DeBlois

Quando a dupla de diretores Chris Sanders e Dean DeBlois levou para o cinema a série de livros “Como Treinar o Seu Dragão“, assinada por Cressida Cowell, o resultado foi bem representativo, ainda mais em um ano com os lançamentos de “Mary e Max – Uma Amizade Diferente“ e “Toy Story 3“, dois exemplares cheios de uma qualidade singular. O segredo do sucesso foi trazer temas sérios como bravura e sacrifício para um público-alvo habituado a animações com temas mais corriqueiros ou brandos.

Desta vez dirigido somente por Dean DeBlois, “Como Treinar o Seu Dragão 2” traz um Soluço (voz de Jay Baruchel na dublagem original) já crescido e com uma conquista: a paz entre os vikings e os dragões, que agora atuam como os seus aliados. Com os seus amigos, Soluço e o seu fiel escudeiro Banguela acabam explorando terrenos que desconheciam, o que resulta na descoberta de novas espécies selvagens de dragões em uma caverna congelada. Sob o comando do ambiente está Valka (Cate Blanchett), uma mulher que revela ter alguma ligação com o passado de Soluço.

Apesar de alguns cortes no orçamento (a sequência economizou 20 milhões de dólares em comparação com o original), “Como Treinar o Seu Dragão 2” comprova a evolução técnica promovida pela Dreamworks em suas animações a cada ano, visto aqui com um 3D que torna ainda mais deslumbrantes as sequências aéreas. No entanto, esta segunda aventura protagonizada por Soluço e Banguela não promove muitos progressos em sua narrativa. Há uma repetição de valores e lições já assimiladas no filme de 2010, o que pode condenar o diferencial de uma franquia em progresso.

Resenha Crítica | A Voz de Uma Geração (2013)

A Voz de Uma Geração | In a World...

In a World…, de Lake Bell

“A Voz de Uma Geração” talvez seja o único filme a retratar com proximidade o nicho de profissionais que trabalha com a voz. Porém, a atividade não é lá tão glamourosa. Bom, ao menos para Carol (Lake Bell), que não recebe o suficiente para deixar de viver à sombra do pai, o célebre narrador Sam (Fred Melamed).

Expulsa de casa após o seu pai assumir um relacionamento sério com Jamie (Alexandra Holden), uma garota jovem demais para ele, Carol acaba levando as suas malas para o apartamento de sua irmã Dani (Michaela Watkins), casada com o gente finíssima Moe (Rob Corddry). Porém, ao invés de se conformar que não está em uma fase muito positiva de sua vida, Carol começa a fazer progressos para provar que pode ser tão respeitada quanto o seu pai.

Conforme Carol vai se tornando uma mulher mais comprometida com as suas metas, muito graças ao convívio com Louis (o carismático Demetri Martin), uma tensão cresce com o seu pai, pois ela é contratada para narrar o trailer de um filme de ação protagonizado por mulheres que pode representar um verdadeiro divisor de águas nesta indústria, algo que pode marcar o seu ingresso ao Golden Trailers.

Atualmente com 35 anos, Lake Bell não é uma figura desconhecida do grande público e tem talento como comediante, mas não há em seu currículo um trabalho em que podemos vê-la usando todo o seu potencial. Portanto, surpreende que em seu debut como diretora e roteirista de longa-metragem seja inebriado de originalidade e de energia contagiante.

“A Voz de Uma Geração” consegue subverter todas as resoluções manjadas de comédias com toques de romance. Há uma solução bem sincera para um conflito amoroso que se desenha entre Dani e Moe e o provável romance entre Carol e Louis é importante para a trama, mas nem por isso é o centro das atrações do clímax. Pelo contrário, a importância vem com o seu momento de glória, marcado por sentimento de amargura surpreendente, mas que oferece uma abertura para um final feliz realista e inteligente. Que o próximo filme de Lake Bell confirme essa promessa de uma cineasta exemplar.

 

Resenha Crítica | O Crítico (2013)

O Crítico | El Critico

El crítico, Hernán Guerschuny

A profissão de crítico de cinema pode ser um tanto solitária. Como bem ilustra Víctor Tellez, personagem vivido pelo excelente Rafael Spregelburd, a rotina desse profissional é agitada com a presença em exibições prévias de filmes para a imprensa sem a inclusão do público (as chamadas cabines), com os problemas em exercer uma atividade cada vez menos remunerada e glamorosa e entre as interações intelectualóides com colegas de profissão ou pessoas mais próximas.

Além desses empecilhos, Victor não é uma pessoa fácil. De mal com a vida, o crítico tem problemas de relacionamento (desfez recentemente o namoro com uma mulher que ainda o contata para solicitar ajuda com uma tese), não consegue encontrar um novo apartamento para viver e é pressionado pelo seu editor a ser mais maleável com os filmes – em tom de chacota, ele diz que a última vez que Victor deu “cinco poltronas” para um filme foi há vinte anos, convertendo a novidade em feriado nacional. Somente a sua sobrinha Ágatha (Telma Crisanti) consegue lidar com ele.

A graça de “O Crítico” começa a se manifestar com mais intensidade com a presença de Sofía (Dolores Fonzi), com quem iniciará uma disputa para obter um apartamento por um bom preço em um endereço excelente. Um verdadeiro detrator das comédias românticas, Victor sente que está inserido no gênero ao se aproximar da excêntrica Sofía, uma cleptomaníaca que parece estar cheia de assuntos mal resolvidos.

De uma hora para outra, todos os chavões do gênero comentados com desprezo em suas críticas cinematográficas começam a moldar a relação. Os melhores momentos são aqueles em que Victor se deixa levar por acontecimentos que tanto o irritam, como ver Sofía caminhando ao seu encontro em câmera lenta ou a famosa sequência chamada de clipe, em que um casal faz inúmeras coisas em público com uma música melosa como trilha sonora.

Mesmo que esse esforço em contestar as fórmulas mais manjadas do gênero faça com que o diretor e roteirista estreante Hernán Guerschuny incorra a alguns erros, como um clímax digno de um thriller envolvendo um cineasta outrora detonado por Victor, “O Crítico” consegue ser irresistível e compreende a importância da inverossimilhança como fuga de uma realidade que nem sempre contempla os encantos proporcionados pela sétima arte. Porém, há o endereçamento exclusivo para aqueles que de algum modo se dedicam, através da escrita, a antecipar para o público a valia de um filme.

Resenha Crítica | Frozen: Uma Aventura Congelante (2013)

Frozen: Uma Aventura Congelante | Frozen

Frozen, de Chris Buck e Jennifer Lee

Malévola” e “Caminhos da Floresta” denotaram o interesse da Disney em conferir um viés diferente do que estamos habituados a ver nos contos de fada. Como fica evidente na solução para o clímax no longa protagonizado por Angelina Jolie ou na obscuridade do musical de Rob Marshall, vivemos em um tempo em que não dá mais para encarar as mocinhas com ingenuidade e qualquer ação mais radical é bem-vinda. Lançado antes das duas obras citadas, a animação “Frozen: Uma Aventura Congelante” ajudou a abrir essa porta para novas possibilidades.

Em um reino, as irmãs Elsa (voz de Idina Menzel na dublagem em inglês) e Anna (Kristen Bell) são mantidas separadas. Elsa tem a capacidade de criar e manipular o gelo, o que fez os seus pais acreditarem que isso pudesse por em risco a vida da caçula Anna após uma brincadeira na infância resultar em acidente. Com a morte dos pais, Elsa deve suceder o reinado de Arendell ao completar 21 anos, mas a descoberta de seus poderes pelo povoado no dia da coroação a faz se refugiar em um lugar afastado de todos.

A necessidade de Elsa retornar a Arendell para impedir o inverno permanente que se instaurou, bem como a vontade de reestabelecer os laços afetivos, faz com que Anna inicie uma busca por ela. No entanto, Anna, que aceitou de imediato o pedido de casamento de Hans (Santino Fontana), começa a repensar os seus sentimentos ao contar com a presença Kristoff (Jonathan Groff), um homem das montanhas, para encontrar Elsa.

“Frozen: Uma Aventura Congelante” não se tornou um fenômeno instantâneo a troco de nada. Com codireção e roteiro de Jennifer Lee, essa adaptação de “A Rainha da Neve” dispensa os príncipes encantados para salvar o dia e ainda trazem duas protagonistas fortes. Se Anna é valente o suficiente para enfrentar riscos no reencontro com Elsa, esta se mostra livre de amarras para abraçar a sua essência, mudança representada com a bela canção “Let it Go”, um verdadeiro hino sobre autoaceitação.

Resenha Crítica | Eles Voltam (2012)

Eles Voltam

Eles Voltam, de Marcelo Lordello

Diretor e roteirista estreante, o brasiliense radicado em Recife Marcelo Lordello lida em “Eles Voltam” com uma ideia poderosa: ilustrar o processo de amadurecimento de uma criança ao abandoná-la de modo amedrontador em um cenário que desconhece. Claro que este argumento não é inédito, mas é a primeira vez que ele é visto no cinema brasileiro por um viés dramático.

Cris (Maria Luiza Tavares) é a protagonista de “Eles Voltam”, uma menina de 12 anos que é deixada pelos pais no meio da estrada depois de um desentendimento. Ao seu lado está Peu (Georgio Kokkosi), o seu irmão mais velho. Após horas de espera, Peu a deixa afirmando que irá desvendar o que aconteceu com o pai e a mãe deles. Um dia se passa e ninguém a procura, o que causa um estado de angústia extrema.

A segurança aparece com a mobilização do povo local, que abriga Cris enquanto aguardam a possibilidade de relatar o episódio à polícia. Enquanto as possibilidades se desenham – aconteceu um acidente ou o abandono foi intencional? – Cris vive por instantes o cotidiano de pessoas menos favorecidas que sobrevivem com o mínimo que têm.

Crível, a narrativa ganha potência através do trabalho aplicado da inexperiente Maria Luiza Tavares. Em nenhum momento a situação que a sua personagem se encontra a força ao choro fácil e o seu olhar puro comunica a retenção de muitas descobertas em uma realidade que lhe é inédita.

Como ressalva ao trabalho de Marcelo Lordello, há os 40 minutos finais. Submetido a uma reviravolta, o filme segue ditado por um ritmo que priorizava uma lentidão para a absorção dos fatos. Até então perfeitamente calculado, ele não funciona ao narrar os eventos do último ato, tornando excruciantes ações banais como um trabalho escolar. De qualquer modo, “Eles Voltam” atinge o feito de apresentar ao final uma Cris diferente daquela menina insegura deixada à beira da estrada, uma constatação que fascina.