Prêmio Review | Melhores de 2014: Indicados

O Oscar consolidou o ano de 2014 no cinema ao premiar os melhores dentro de inúmeras categorias no dia 22 de fevereiro. Na Internet, a Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos promoveu o seu 8º Blog de Ouro, dando a “Boyhood – Da Infância à Juventude” o prêmio de Melhor Filme. Após esses e outros eventos, nos sentimos mais tranquilos para divulgar os nossos favoritos do ano passado dentro de 21 categorias.

Desta vez, damos a esse evento particular de nossa página o nome de Prêmio Review, mas sem modificar a dinâmica dos anos anteriores. Divulgamos agora os nossos indicados e comentaremos sobre os nossos prediletos ao longo dos próximos dias. Em 2014, assistimos a uma média de 200 lançamentos e títulos destinados ao mercado de homevideo foram elegíveis para a elaboração desta lista.

Nesta edição, “O Grande Hotel Budapeste” é o líder em indicações, recebendo nada menos que 12 nomeações, feito que o torna o primeiro filme a pintar em nossa premiação a ter destaque em mais de 50% de categorias existentes. A ficção científica “Sob a Pele“, adaptação do romance homônimo de Michel Faber, é uma daquelas experiências que crescem com o tempo e o reflexo disso está nas oito indicações para o Prêmio Review.

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Melhor Filme

MELHOR FILME

Cães Errantes
Nebraska
Ninfomaníaca: Volumes 1 & 2
O Grande Hotel Budapeste
O Lobo Atrás da Porta
O Lobo de Wall Street
O Passado
Philomena
Sob a Pele
Uma Vida Comum

Melhor DireçãoMELHOR DIREÇÃO

Alexander Payne | Nebraska
Asghar Farhadi | O Passado
Jonathan Glazer | Sob a Pele
Tsai Ming-liang | Cães Errantes
Wes Anderson | O Grande Hotel Budapeste

Melhor Ator

MELHOR ATOR

Ali Mosaffa | O Passado
Eddie Marsan | Uma Vida Comum
Geoffrey Rush | O Melhor Lance
Ralph Fiennes | O Grande Hotel Budapeste
Steve Coogan | Philomena

Mwelhor Atriz

MELHOR ATRIZ

Emma Thompson | Walt nos Bastidores de Mary Poppins
Judi Dench | Philomena
Leandra Leal | O Lobo Atrás da Porta
Paulina García | Gloria
Scarlett Johansson | Sob a Pele

Melhor Ator Coadjuvante

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Geoffrey Rush | A Menina que Roubava Livros
Jared Leto | Clube de Compras Dallas
Matthew McConaughey | O Lobo de Wall Street
Robert Pattinson | The Rover – A Caçada
Tom Hanks | Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Melhor Atriz Coadjuvante

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Watson | A Menina que Roubava Livros
June Squibb | Nebraska
Lupita Nyong’o | 12 Anos de Escravidão
Sarah Paulson | 12 Anos de Escravidão
Uma Thurman | Ninfomaníaca: Volume 1

Melhor Elenco

MELHOR ELENCO

Nebraska
Ninfomaníaca: Volumes 1 & 2
O Grande Hotel Budapeste
O Passado
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Melhor Roteiro Original

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

A Voz de Uma Geração
Nebraska
Ninfomaníaca: Volumes 1 & 2
O Grande Hotel Budapeste
O Passado

Melhor Roteiro Adaptado

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Nós Somos as Melhores!
O Lobo de Wall Street
O Predestinado
Philomena
Sob a Pele

Melhor Animação

MELHOR ANIMAÇÃO

Chico & Rita
Como Treinar o Seu Dragão 2
Frozen: Uma Aventura Congelante
Operação Big Hero
Vidas ao Vento

Melhor Filme Nacional

MELHOR FILME NACIONAL

Confia em Mim
De Menor
Eles Voltam
O Homem das Multidões
O Lobo Atrás da Porta

Melhor Documentário

MELHOR DOCUMENTÁRIO

A Imagem que Falta
Blackfish – Fúria Animal
Junho – O Mês que Abalou o Brasil
O Mercado de Notícias
Sem Pena

Melhor Trilha Sonora

MELHOR TRILHA SONORA

A Menina que Roubava Livros
O Grande Hotel Budapeste
Sob a Pele
Uma Vida Comum
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Melhor Canção Original

MELHOR CANÇÃO

Amantes Eternos | “Hal
Frozen: Uma Aventura Congelante | “Let it Go
Grand Central | “Ghost Tracks
Mesmo Se Nada Der Certo | “Lost Stars
O Menino e o Mundo | “Aos Olhos de Uma Criança

Melhor Figurino

MELHOR FIGURINO

Malévola
O Grande Hotel Budapeste
O Grande Mestre
Trapaça
Yves Saint Laurent

Melhores Efeitos Visuais

MELHORES EFEITOS VISUAIS

As Aventuras de Paddington
Êxodo: Deuses e Reis
Godzilla
Planeta dos Macacos: O Confronto
Sob a Pele

Melhor Fotografia

MELHOR FOTOGRAFIA

Era Uma Vez em Nova York
Nebraska
O Grande Hotel Budapeste
Sin City: A Dama Fatal
Sob a Pele

Melhor Maquiagem

MELHOR MAQUIAGEM

Clube de Compras Dallas
Malévola
O Grande Hotel Budapeste
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Trapaça

Melhor Direção de Arte

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Amantes Eternos
Era Uma Vez em Nova York
O Grande Hotel Budapeste
O Melhor Lance
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Melhor Montagem

MELHOR MONTAGEM

Ninfomaníaca: Volumes 1 & 2
No Limite do Amanhã
O Grande Hotel Budapeste
O Lobo de Wall Street
Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Melhor Som

MELHOR SOM

Godzilla
O Grande Hotel Budapeste
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Planeta dos Macacos: O Confronto
Sob a Pele

Resenha Crítica | Amantes Eternos (2013)

Amantes Eternos | Only Lovers Left Alive

Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch

Antes figuras folclóricas, os vampiros se converteram em criaturas populares a partir de um processo de inserção literária que culminou na publicação em 1987 de “Drácula”. No que diz respeito ao universo vampírico, o romance de Bram Stoker segue insuperável, tendo colaborado para a consolidação do personagem no cinema através das sombras expressionistas arquitetadas pelo cineasta F.W. Murnau em “Nosferatu” ou pela encarnação de Bela Lugosi na adaptação homônima dirigida por Tod Browning.

No cinema contemporâneo, os vampiros se viram com o fôlego renovado não somente ao se verem inseridos em contextos atuais identificáveis pelo público juvenil, como também ao terem as suas raízes reformuladas por sucessos do cinema europeu, a exemplo de “Deixe Ela Entrar”. Uma possibilidade pouco explorada desse universo fantástico é a imunidade diante da passagem do tempo não como uma busca pelo amor eterno, mas como um estudo sobre o fardo em atravessar tantas gerações testemunhando a degradação humana.

Jim Jarmusch cunhou o seu nome na história do cinema independente americano desde o momento que pediu ao alemão Win Wenders os negativos armazenados em um freezer que restaram das filmagens de “O Estado das Coisas”, convertendo-os em “Estranhos no Paraíso”. Desde então, tem realizado obras com características bem particulares, com o interesse em enaltecer os dramas de gente comum através de narrativas preenchida por segmentos ou com um protagonista sempre em movimento.

Com “Amantes Eternos”, Jarmusch é reconhecido da primeira à última frame, mas há aqui um desejo de subverter a si mesmo e ao tema que está sendo trabalhado. Trata-se de sua primeira inclusão em um filme de terror, mas a informação não dá conta de dizer verdadeiramente o que é “Amantes Eternos”, principalmente por Jarmusch negar a chamar de vampiros dois indivíduos que carregam claras referências bíblicas, Adam (Adão) e Eve (Eva), interpretados respectivamente por Tom Hiddleston e Tilda Swinton.

Atualmente, Adam habita um apartamento de uma Detroit abandonada, encontrando na música um meio de aplacar a sua depressão. Já Eve circula por uma noturna Tânger, cidade do Marrocos, geralmente acompanhada por Marlowe (John Hurt), um sábio da sua espécie. Juntos há tantos séculos, é natural que Adam e Eve optem em pertencerem a destinos distintos, mas sempre preservando duas promessas: a de sempre se reencontrarem e a de se alimentarem somente do sangue obtido em bancos hospitalares ou meios ilegais.

Ainda que consigam controlar os próprios instintos, o casal pode não ser capaz de reverter as premonições de um infortúnio chamado Ava (Mia Wasikowska), a irmã mais nova de Eve. Com a aparência permanente de uma adolescente, Ava não compartilha os mesmos valores de sua irmã e de seu cunhado, saciando os seus desejos do modo mais primitivo possível. Temos assim a materialização do fruto proibido, a tentação que não é combatida diante da fome.

Novas analogias surgem com um desabafo de Adam para Eve, afirmando que a humanidade (ou os zumbis, como nós somos referidos) é a responsável pela destruição de seus maiores ídolos, como Pitágoras, Galileu e Tesla, e dos recursos naturais mais ricos. É, portanto, na busca pelo essencial para manter a sobrevivência que ambos vão direto à fonte para se alimentarem. Somos todos vampiros incorrigíveis prestes a cometer algum ato bárbaro, aponta Jarmusch ao final de “Amantes Eternos”.

Yves Saint Laurent (2014) Vs. Saint Laurent (2014)

Yves Saint Laurent  Vs. Saint Laurent

Yves Saint Laurent, de Jalil Lespert
Saint Laurent, de Bertrand Bonello

Vítima de um câncer cerebral, o notável estilista Yves Saint Laurent deixou como herança não somente um império que revolucionou a moda, como também um histórico de vida cheio de capítulos polêmicos. Embora tenha morrido em 2008 aos 71 anos, seis anos se passaram até que Yves Saint Laurent se transformasse em um personagem de interesse para o cinema, que no ano passado o homenageou com duas produções: “Yves Saint Laurent”, de Jalil Lespert, e “Saint Laurent”, de Bertrand Bonello.

É verdade que o estilista tinha recebido em 2010 um documentário pelas mãos de Pierre Thoretton, “O Louco Amor de Yves Saint Laurent”. Entretanto, é a ficção que costuma garantir um registro com um alcance mais amplo. Ambos os filmes foram rodados quase simultaneamente, mas Jalil Lespert tomou a dianteira ao lançar “Yves Saint Laurent” antes de “Saint Laurent”. O que determinou a vitória de Lespert nesta disputa foi o fato de Bonello fazer uma cinebiografia não autorizada, o que rendeu uma produção conturbada com as constantes ameaças de processo emitidas por Pierre Bergé, o braço direito de Yves Saint Laurent nos negócios e com quem teve um caso amoroso.

Yves Saint LaurentPor falar em Pierre Bergé, Lespert também contou com o privilégio de trazer para a sua produção as versões verdadeiras dos figurinos assinados por Yves Saint Laurent, o que trouxe apuros para Anaïs Romand, que teve que desenhar para “Saint Laurent” peças que fizessem jus à opulência das coleções que marcaram a alta-costura. A vantagem é evidente na tela, pois “Yves Saint Laurent” mergulha com mais intensidade neste universo dos desfiles de moda e o processo trabalhoso de concepção de roupas sofisticadas, algo que “Saint Laurent” só dá uma pincelada em seu primeiro ato.

Os “concorrentes” também surpreendem ao darem perspectivas distintas sobre o mesmo personagem. No filme de Jalil Lespert, o pecado está ao trazer uma narrativa basicamente episódica como um modo de flagrar todas as facetas do estilista, ficando clara a instabilidade entre as cenas que trazem um Yves Saint Laurent com personalidades destoantes. Bertrand Bonello, que tem a seu favor o tempo (150 minutos) e a experiência por trás das câmeras em bons títulos como “O Pornógrafo” e “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”, também não promove muito interesse na construção do protagonista, carregando “Saint Laurent” de vícios que só dispersam o espectador, como o ponto da cena sempre demorando a se revelar.

Em termos de elenco, “Yves Saint Laurent” outra vez se mostra superior a “Saint Laurent”. Ainda que a estrutura comprometa a evolução do personagem, Pierre Niney faz um trabalho delicado, iniciando o filme com uma inibição que sugere as perturbações ainda provocadas por uma juventude não relatada como deveria (Saint Laurent passou um período em um sanatório após uma vivência traumática no exército francês) e passando para as fases posteriores com a liberdade vinda com a descoberta de sua verdadeira identidade e do sucesso como estilista. Ainda melhor é Guillaume Gallienne na pele de Pierre Bergé, se livrando de todas as amarras e afetações testemunhadas no terrível “Eu, Mamãe e os Meninos”.

Saint LaurentEm “Saint Laurent”, o refinamento do elenco não foi aproveitado na encenação. As participações especiais de Valeria Bruni Tedeschi e Brady Corbet não provocam uma forte impressão e os excelentes Léa Seydoux e Jérémie Renier, aqui responsável por dar vida a Bergé, são mal aproveitados. E se não bastasse Louis Garrel mais uma vez interpretar Louis Garrel, Gaspard Ulliel escorrega ao quase caricaturar Yves Saint Laurent. As belas feições do ator contemplam uma inconveniente cicatriz no rosto, na altura da bochecha esquerda, o que faz com que algumas expressões se assemelhem a caretas dignas de um sociopata.

No fim das contas, podemos dizer que as duas tentativas não foram suficientes para dar a Yves Saint Laurent o filme que ele merece. Na comparação, “Yves Saint Laurent” é o melhor, mas o seu resultado final é apenas razoável por fazer um desenho incompleto do estilista. Já “Saint Laurent” foi lançado com a promessa de mostrar uma versão sem censura dessa figura real. O que se vê é algo similar a um banho de água fria, uma vez que as expectativas criadas pelo material promocional não são cumpridas. Bertrand Bonello prometeu carícias, luxúria e entrega aos instintos mais ardentes e o que oferece é uma sexualidade insípida que configura “Saint Laurent” como um ponto baixo em sua carreira.

Resenha Crítica | Confia em Mim (2014)

Confia em Mim

Confia em Mim, de Michel Tikhomiroff

Estar em uma fase em que a vida parece estagnada uma ribanceira não é fácil, especialmente se os dias são dedicados unicamente ao trabalho para concretizar o desejo de atingir uma ascensão profissional. Mari (Fernanda Machado) é uma chef de mão cheia, mas a todo o momento é impedida de inserir no cardápio os seus pratos singulares pelo dono do restaurante, Edgar (Fabio Herford), um sujeito autoritário que jamais reconhece os seus esforços.

Diante das frustrações, é natural que Mari, uma jovem que tem apenas a sua melhor amiga e companheira de trabalho Teresa (a excelente Fernanda D’Umbra), responda às investidas de Caio (Mateus Solano). Empresário, o sujeito é um boa pinta que Mari conheceu em uma degustação de vinhos que parece disposto não comente em conquistá-la, como também enchê-la de otimismo para investir em um negócio próprio.

Estreante na direção de um longa-metragem, Michel Tikhomiroff alça voos muito mais altos que o seu próprio pai, João Daniel Tikhomiroff, veterano responsável pelo recente “Besouro”. Com um primeiro ato que contempla todos os elementos de um romance, “Confia em Mim” logo traz uma reviravolta que o configura como um thriller ao dar indícios de que Caio não sustenta o caráter que vinha apresentando em seu relacionamento com Mari, o que pode deixá-la em apuros.

Como é sugerido no título, o roteiro escrito por Fabio Danesi se ampara pelo sentimento de confiança, pelo crédito que conferimos tanto ao nosso potencial quanto àqueles que nos envolvemos com uma má intenção mascarada por uma boa lábia. Diante dos dois aspectos, a atriz Fernanda Machado faz um trabalho exemplar ao permitir que o público torça pelo seu sucesso e pela sua segurança quando se vê em um beco sem saída. Ao mesmo tempo, Michel Tikhomiroff confere honestidade ao conduzir uma história que assume um tom pouco usual em nossa cinematografia, algo testemunhado tanto nas surpresas bem pregadas quanto em uma cena final que não extingue o valor de sua protagonista.

Uma boa conclusão é fundamental para uma boa série

Lost

Em minha primeira colaboração para o Cine Resenhas – minha lista de séries prediletas de todos os tempos – deixei de fora outras que realmente me deixam entusiasmado em seu andamento atual. Porém, pelo fato de não terem sido concluídas ainda, seria irresponsável e prematuro inclui-las em meu top 5.

“Mad Men”, “Game of Thrones”, “The Walking Dead” e a recém-nascida “Better Call Saul” são séries que tenho muito apreço e que quero comentar aqui. Porém, ainda não devem ser consideradas obras prontas a ponto de botar a minha mão no fogo por elas. Esse é o barato de seriados. Eles precisam fechar o ciclo ou, caso contrário, correm o risco de causar uma decepção imensa no espectador.

Ora, existem centenas de obras cujos desenvolvimentos muitas vezes são mais importantes que a introdução ou a conclusão. Filmes, livros… Quem sabe até um concerto. Mas no caso de séries, o tempo demandado para você assistir todo o seu ciclo (em média quatro anos, se não for cancelada antes) é longo o suficiente para uma grande decepção. Posso citar pelo menos duas séries que me deixaram com uma amargura imensa em sua conclusão.

Não é raro pessoas desiludidas com a pop “Lost” (2004-2010). Desculpe, raro é quem colocaria Lost em seu top 5. Que final foi aquele? Apesar de que, no caso dessa série, a impressão que dava é que ela já estava perdida talvez desde a quinta temporada. Até achei um barato aquela onda de viagem no tempo. Mas não subestime o “seriéfilo”. Pode até ser que tenha ali uma resposta filosófica, religiosa ou o que for, mas o fato é que essa tal temática de bem e mal parece ter sido construída só no final da série. Foi um final broxante! Miraram a surpresa e acertaram a decepção.

Outra série, e dessa vez não é culpa dos roteiristas, cujo final foi mais triste que decepcionante é “Deadwood” (2004-2006). Por uma peleja entre criador da série e executivos da HBO a série simplesmente não teve fim! “Deadwood” tinha tudo para estar no meu top 5 com o inevitável incendido que encerraria a história da cidade, mas não aconteceu. A série simplesmente acabou em um anticlímax triste e repulsivo, que deveria ser considerado um antecedente penal para evitar outros possíveis crimes futuros – sim, aconteceu novamente em outras séries, mas, em alguns casos, foi justo pela péssima qualidade da obra.

Há diversas outras séries com finais dramáticos por serem ruins. No meu caso, tive mais sorte que azar e acompanhei aquelas que me apeteciam e cujo final foi bom. Isso também se deve pelo fato de eu não ter visto tantas séries até o final. Algumas por pouco, outras por muito. Deve ser algo relacionado ao intuito.

Mas quando eu encontrar essas séries com finais ruins com certeza alertá-lo-eis.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.

Resenha Crítica | Planeta dos Macacos: O Confronto (2014)

Planeta dos Macacos: O Confronto | Dawn of the Planet of the Apes

Dawn of the Planet of the Apes, de Matt Reeves

Uma das obras mais icônicas da ficção científica, “O Planeta dos Macacos” foi realizado em 1968 por Franklin J. Schaffner, se estabelecendo como um dos filmes mais oportunos a debater sobre os instintos humanos ao trazer Charlton Heston como um homem submisso aos símios, então a sua espécie inferior. As sequências não deram conta de sustentar um tema tão forte e a desapontadora refilmagem capitaneada por Tim Burton em 2001 pareceu enterrar as chances da franquia.

Em 2011, as dúvidas rondaram “Planeta dos Macacos: A Origem“, prequel dirigido por Rupert Wyatt, até então com um único longa-metragem no currículo, o nada visto “O Escapista”, de 2008. O resultado saiu melhor que a encomenda e ainda trouxe Andy Serkis atingindo um novo patamar na técnica de captura de performance como Caesar. “Planeta dos Macacos: O Confronto” consegue promover novos avanços: é superior diante de “A Origem” e em termos de esmero técnico é ainda mais fascinante.

O protagonismo agora é assumido por Jason Clarke e Keri Russell, que interpretam Malcolm e Ellie. O casal inicia uma expedição na floresta em que vivem os macacos, todos às ordens de Caesar – incluindo o instável Koba (Toby Kebbell), que ameaça a todo o instante se rebelar contra o seu superior. A missão é estabelecer um acordo pacífico visando ter acesso à hidroelétrica, que precisa ser reativada imediatamente para que os humanos isolados sem muitos recursos na cidade sobrevivam.

Apesar dos créditos como criador do seriado “Felicity” e como diretor do superestimado “Cloverfield: Monstro”, o americano Matt Reeves até então não havia mostrado a que veio. Responsável por “O Confronto”, é visível a falta de tato ao lidar com certos personagens humanos desenvolvidos pelo roteiro do trio Amanda Silver, Mark Bomback e Rick Jaffa, transformando Dreyfus (Gary Oldman) e especialmente Carver (Kirk Acevedo) em caricaturas grosseiras.

Por outro lado, “O Confronto” é incisivo ao retratar um cenário selvagem que imediatamente encontra um reflexo em nossa sociedade ao avaliar que uma solução pacífica entre dois ou mais grupos distintos parece impossível, confirmando a intolerância que a nossa espécie carrega desde as suas origens. O paralelo também é visto na relação entre Caesar e Koba, divergentes quanto ao que esperam da raça humana. Que Matt Reeves consiga manter a progressão na sequência já confirmada para 2017.

Resenha Crítica | O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (2014)

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos | The Hobbit: The Battle of the Five Armies

The Hobbit: The Battle of the Five Armies, de Peter Jackson

Quando a saída do mexicano Guillermo del Toro da direção de “O Hobbit” foi anunciada e Peter Jackson o substituiu confirmando a divisão do breve romance de J.R.R. Tolkien em três partes que totalizam quase nove horas de duração, eram evidentes os tropeços que seriam cometidos na criação de novos personagens e do resgate de figuras conhecidas para preencher o tempo com inúmeros arcos dramáticos. Ainda não há um consenso sobre a concentração dos problemas: alguns apontam que “Uma Jornada Inesperada” é demasiadamente desinteressante, enquanto outros afirmam que “A Desolação de Smaug” frustra ao não trazer um terceiro ato com uma conclusão.

Os fãs da obra de J.R.R. Tolkien alegam que “A Batalha dos Cinco Exércitos” traz modificações não desejadas, resultando em queixas que provavelmente comprometeram as avaliações para o filme, menores do que as duas aventuras anteriores. Processo de adaptação à parte, “A Batalha dos Cinco Exércitos” fecha muito bem a nova trilogia ambientada na Terra Média, sendo também o capítulo mais bem resolvido ao se virar bem com o novelo de conflitos. Há também um desenvolvimento mais apurado de personagens, conferindo a Thorin (Richard Armitage) e ao seu exército diminuto a importância sempre negligenciada nos eventos prévios.

“A Batalha dos Cinco Exércitos” inicia do ponto em que “A Desolação de Smaug” acabou, trazendo a derrota do dragão dublado por Benedict Cumberbatch pelas mãos do modesto Bard (Luke Evans), imediatamente levado ao status de líder pela bravura de seu ato. No entanto, o feito desencadeia uma série de desavenças entre indivíduos de raças e interesses distintos, configurando a guerra anunciada no título. Há um Thorin corrompido pela cobiça (ele agora detém todo o ouro trancafiado na Montanha Solitária), Bard e os Homens do Lago, Dain (Billy Connolly) e os anões, os Orcs e Thranduil (Lee Pace) e a sua tropa de elfos. No centro de tudo, temos um destemido Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) tentando resgatar o honesto Thorin da avareza.

Como todo bom episódio derradeiro, “A Batalha dos Cinco Exércitos” cerca a ação de perigo para todos os lados, incluindo o embate de Gandalf (Ian McKellen), Galadriel (Cate Blanchett), Elrond (Hugo Weaving) e Saruman (Christopher Lee) contra Sauron na Colina da Bruxaria. É o momento em que as coisas realmente acontecem, como o massacre movido pela ganância ou a vitória contra os inimigos para estabelecer a paz. Dentro de tudo, há os sacrifícios, sejam como provas de redenção ou amor – a resolução oferecida para a relação entre Tauriel (Evangeline Lilly) e Kili (Aidan Turner) é inegavelmente comovente. Peter Jackson não iguala a excelência da trilogia “O Senhor dos Anéis”, mas com “A Batalha dos Cinco Exércitos” transforma em realidade esforços muito dignos.

Resenha Crítica | Simplesmente Acontece (2014)

Simplesmente Acontece | Love, Rosie

Love, Rosie, de Christian Ditter

Não costuma ocorrer com todos, mas sempre nos deparamos com uma pessoa que parece predestinada a algo, podendo ser desde uma profissão até o relacionamento com aquele ou aquela que definitivamente é a sua alma gêmea. Nos primeiros minutos de “Simplesmente Acontece”, é evidente que os melhores amigos Rosie Dunne (Lily Collins) e Alex Stewart (Sam Claflin) deveriam assumir um compromisso mais sério, pois o amor que um tem pelo outro é magnético.

O fato de temerem ir além de uma amizade construída desde a infância faz com que Rosie e Alex sempre interrompam até mesmo a vontade de se beijarem. Talvez ambos acreditem que o namoro possa destruir a intimidade construída, embora o problema mesmo seja o de iniciativa. Como essa constatação demora em ser feita por Rosie ou Alex, vem assim os encontros e desencontros quando os pares que formam com outras pessoas são selados e uma gravidez indesejada e uma vida construída em outro país dão um choque de realidade.

Tendo atualmente 33 anos, a escritora irlandesa Cecelia Ahern concebeu o livro que rendeu “Simplesmente Acontece” em 2004, batizando-o como “Where Rainbows End”. É uma jovem que entende desse riscado do romance, sendo também a responsável por “P.S. Eu Te Amo” e pela criação do seriado “Samantha Who?”. Como houve um intervalo de dez anos entre o lançamento de “Where Rainbows End” e a produção de “Simplesmente Acontece”, são perceptíveis algumas mudanças certamente impostas na adaptação.

Algumas são inevitáveis e geram alguns questionamentos sobre algumas ações. Quando amadurecem, os protagonistas passam a se comunicar por aplicativos de troca de mensagens instantâneas, mas um desabafo crucial emitido por Alex é feito por carta em tempos em que essa prática romântica sequer existe. Há também as reaproximações, sempre acontecendo em circunstâncias inoportunas para alongar a chegada do inevitável final feliz.

Até o casal central é um acerto que provoca incômodo. Lily Collins e Sam Claflin estão bem como protagonistas, ainda que a atriz não tenha a habilidade de uma Alison Lohman para convencer sempre nos doze anos retratados da vida de seu papel. Vemos o quanto eles combinam, mas era mesmo preciso tornar o roteiro desonesto ao fazê-los enganar o destino com outros parceiros totalmente desagradáveis, como o infantil Greg (Christian Cooke) ou a histérica (Tamsin Egerton)? Somam-se a tudo isso algumas cenas de humor que não funcionam (como aquele em que Rosie sai de casa presa à cabeceira de sua cama com uma algema) e o desfecho que vem sem nenhuma comemoração da plateia.

Resenha Crítica | O Predestinado (2014)

O Predestinado | Predestination

Peredestination, de Michael Spierig e Peter Spierig

Escritor americano de ficção científica, Robert A. Heinlein, não pôde testemunhar uma grande adaptação para cinema de uma de suas obras, tendo o holandês Paul Verhoeven levado “Tropas Estelares” para essa mídia somente nove anos após a sua morte. Não se trata de um Philip K. Dick, mas Heinlein parece estar sendo redescoberto de algum modo, como anuncia os quatro projetos cinematográficos que envolvem o seu nome e “O Predestinado”, lançado recentemente no país.

Apesar da presença de Ethan Hawke (que recentemente acumulou mais duas indicações ao Oscar em sua carreira, ano passado pelo roteiro de “Antes da Meia-Noite” e neste ano como Melhor Ator Coadjuvante por “Boyhood – Da Infância à Juventude”) e de uma trama desenvolvida com inteligência, “O Predestinado” recebeu distribuições desleixadas por onde passou. Um infortúnio que, com o tempo, pode passá-lo para o status de obra de culto.

Após um prólogo desconexo, “O Predestinado” traz um escritor e um barman (papel de Hawke) transformando uma conversa fiada em confissões bem profundas sobre as suas vidas e particularidades. Enquanto o personagem de Ethan Hawke se diz um viajante do tempo, o escritor revela algo inesperado sobre o seu próprio gênero.

Os irmãos nascidos na Alemanha Michael e Peter Spierig já haviam trabalhado com Ethan Hawke em “2019 – O Ano da Extinção”, também uma ficção científica sobre uma sociedade em que os humanos vão se transformando progressivamente em vampiros. Desta vez, lidam com um material mais sofisticado, atingindo em cheio o âmago dos dois protagonistas e chegando a um terceiro ato em que absolutamente tudo é conectado com um forte impacto. É também preciso ficar de olho no trabalho extraordinário da australiana Sarah Snook, a responsável pela eficácia de todas as surpresas preparadas em “O Predestinado”.

Resenha Crítica | Força Maior (2014)

 

Force Majeure, de Ruben Östlund

Um dos maiores privilégios de um ser humano é a capacidade de raciocinar com clareza diante da tomada de decisões, sejam elas decisivas ou simplesmente corriqueiras. No entanto, muitas vezes essa virtude é negligenciada quando se impõe o instinto de sobrevivência, o que imediatamente nos lança no mesmo patamar dos animais selvagens que ilustram qualquer estágio de uma cadeia alimentar.

O diretor e roteirista Ruben Östlund mostra de forma bem imediato no prólogo de “Força Maior” uma família aparentemente perfeita, posando para inúmeras tentativas para conseguir um retrato digno de um espaço em cima de uma lareira. Tudo para dez minutos depois mostrar o progresso de como ela se desintegra quando o patriarca, Tomas (Johannes Kuhnke), abandona a esposa Ebba (Lisa Loven Kongsli) e o casal de filhos com a vinda de uma avalanche em direção ao restaurante do terraço em que almoçavam.

Sem mortos ou feridos, o fenômeno só não deixa intacta a reputação de Tomas, acusado por Ebba por não proteger a família. Pior: por ter fugido da situação sem antes levar consigo o seu par de luvas e o celular. E assim começam os constrangimentos, tanto pelo fato de Ebba desabafar sobre a atitude nada nobre do marido quanto pelo modo como Tomas se nega a admitir que a sua reação diante do fato pode não ter sido a mais adequada.

Vencedor do prêmio Um Certo Olhar na última edição do Festival de Cannes e lamentavelmente ignorado no Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, “Força Maior” busca tanto por panorâmicas de paisagens naturais e gélidas como representações da natureza do protagonista como também por planos que o capturam à distância, forçando uma pequenez que parece caçoar de sua masculinidade. Os suecos são ótimos em retratar as suas fraquezas sem qualquer reserva e as coisas não são diferentes para Tomas, nos fazendo criar uma empatia por um homem inegavelmente patético.

Há também a música de Vivaldi como um elemento narrativo, sempre repetida para alertar alguma  dissonância, como as interações entre o casal central com outros turistas hospedados no mesmo hotel, todas bradando o quão excepcionais seriam em uma situação de perigo. Um clímax encenado dentro de um ônibus e ainda mais angustiante que a avalanche inicial é carregado de uma ironia exemplar ao promover uma inversão de papéis.