Resenha Crítica | Julho Sangrento (2014)

Julho Sangrento - Cold in July

Cold in July, de Jim Mickle

Jim Mickle vem de uma geração de cineastas extremamente inebriados com a estética do cinema das décadas de 1970 e 1980. A formação desse grupo, que conta com nomes como Ti West, David Robert Mitchell e Adam Wingard, se deu especialmente com o estudo da filmografia de John Carpenter, um veterano hoje inativo, mas talvez o dono de uma obra mais perseguida no cinema contemporâneo, especialmente no que diz respeito ao cinema de horror e as suas extensões.

Se em “Somos o Que Somos” Jim Mickle já havia cercado a sua história em uma atmosfera quase antiquada para exaltar o instinto primitivo de seus protagonistas, em “Julho Sangrento” ele vai mais longe ao transportar uma história essencialmente masculina. Estamos no leste do Texas de 1989, momento em que o VHS não apenas trouxe o cinema para os lares, mas também era usado como uma ferramenta para a disseminação da vigilância e do mal.

Antes que este aspecto seja explorado com mais afinco, há Richard Dane (Michael C. Hall) às voltas com o papel de pai de família ao agir com uma brutalidade acidental diante do dever de proteger a esposa (Vinessa Shaw) e o filho (Brogan Hall) em uma invasão noturna em sua residência. A consequência é a morte do filho delinquente de Russel (Sam Shepard), um homem irredutível que jura vingança.

Ousado, Jim Mickle prepara em “Julho Sangrento” um terreno que amplia a sua premissa. De repente, as energias que Richard e Russel concentram para um encontro explosivo são usadas para lidar com outras prioridades. Há assim o desencadeamento de uma organização diretamente ligada com os “herdeiros” de Russel e a entrada de Jim Bob (Don Johnson) será essencial para que as coisas caminhem para uma resolução mais aceitável. Uma violência encenada com tintas tão obsoletas quanto o vídeo cassete, mas que ecoam quando o assunto se diz respeito somente aos homens e as suas continuidades errantes.

Resenha Crítica | Um Momento Pode Mudar Tudo (2014)

Um Momento Pode Mudar Tudo - You're Not You

You’re not You, de George C. Wolfe

Sem grandes destaques prévios no cinema, o americano George C. Wolfe fez o seu debut como diretor de longa-metragem com “Noites de Tormenta”, romance inspirado em uma novela do popular Nicholas Sparks. Insípida, a produção tinha como ponto favorável a escolha de Diane Lane e Richard Gere como protagonistas. A dupla já havia testado a química irretocável em cena em dois encontros anteriores, “Cotton Club” e “Infidelidade”, e respondeu por bons momentos sob as mãos de Wolfe.

Ainda não lançado no Brasil, o romance de Michelle Wildgen “You’re not You” é aparentemente mais interessante que um Nicholas Sparks, mas é novamente o encontro entre protagonistas que faz George C. Wolfe se dar bem. Em “Um Momento Pode Mudar Tudo”, temos duas mulheres que não poderiam ser mais diferentes uma da outra. A primeira é Kate (Hilary Swank, também produtora), uma musicista casada com Evan (Josh Duhamel) e que tem a sua vida perfeita virada pelo avesso ao ser diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica. Vem ao seu socorro Bec (Emmy Rossum), uma jovem totalmente inadequada para ser a enfermeira particular de Kate.

É bem evidente que o envolvimento de Shana Feste (diretora dos melosos “Em Busca de Uma Nova Chance” e “Onde o Amor Está!”) no roteiro de “Um Momento Pode Mudar Tudo” pesou contra o progresso dos personagens. George C. Wolfe desenha paralelos interessantes para ilustrar a disfunção que irá acometer o relacionamento entre Kate e Bec. A primeira mantem o controle da situação mesmo descobrindo a infidelidade do marido enquanto a segunda não pensa duas vezes antes de explodir em uma situação de adversidade.

O problema de “Um Momento Pode Mudar Tudo” é a caricatura que invade os personagens secundários, cheios de comportamentos histriônicos. Excetuando o simpático Jason Ritter como um interesse romântico de Bec e Loretta Devine em uma participação extremamente delicada, o círculo social das protagonistas é habitado por mães que jamais abandonam o perfil de dondocas e por amigas desprezíveis.

Por sorte, “Um Momento Pode Mudar Tudo” tem Hilary Swank e Emmy Rossum. Vencedora de duas estatuetas do Oscar, Hilary Swank prossegue se permitindo a encarar papéis desafiadores, obtendo como Kate um resultado distinto de Eddie Redmayne como Stephen Hawking no filme “A Teoria de Tudo”. Ainda que haja um empenho com a sua sonoridade e fisicalidade, é o seu rosto que é privilegiado pela câmera, estampando nos poucos movimentos faciais que lhe restaram a dor de uma doença devastadora. Já Emmy Rossum é uma grata surpresa, criando uma relação de cumplicidade com o espectador a medida que seu desprendimento é substituído pelo afeto a uma vida que se dissipa diante dos seus olhos. Está aí um caso quase exclusivo em que um filme é salvo pela devoção de suas atrizes aos papéis que representam.

Entrevista com Bill Corso, maquiador de “Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo”

Quando a primeira imagem oficial de “Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo” foi divulgada, houve uma repercussão mundial sobre a transformação em que Steve Carrell foi submetido. O ator sempre foi reconhecido pelos seus papéis cômicos e nasceu neste novo filme de Bennett Miller a primeira oportunidade de o vemos em um grande papel dramático.

Transformar Steve Carrell no milionário John du Pont, que patrocinou uma equipe de luta livre e se envolveu em um assassinato, não foi uma missão fácil. Vencedor do Oscar por “Desventuras em Série”, o maquiador Bill Corso descreve o seu trabalho desafiador em “Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo” em uma entrevista conduzida por Harrison Pierce em fevereiro deste ano e gentilmente disponibilizada com exclusividade pela Cinnamon Comunicação.

No seu primeiro com o diretor Bennett Miller ele teve alguma diretiva geral ou específica em termos de como ele queria que a maquiagem fosse usada no filme?

Ele me mandou o roteiro e… eu o li e sabia que Steve Carell foi escalado, mas eu pensava comigo e não conseguia imaginá-lo neste filme. Então eu tive uma conversa posterior com Bennett e disse ‘Eu preciso ser honesto, eu não consigo ver Steve Carell neste filme’. E ele respondeu, ‘Você está certo. Steve Carell não pode estar neste filme; John du Pont é quem deve estar neste filme’. É raro quando você tem essa conversa com um diretor onde ele quer que o ator esteja totalmente irreconhecível, o que geralmente acontece é quando Meryl Streep surge e precisa se parecer com Margaret Thatcher, mas você quer ter a certeza de que o público sabe que é Meryl Streep interpretando Margaret Thatcher e nunca perder de vista a grande estrela do cinema que você está pagando um monte de dinheiro. Neste filme, porém, Bennett Miller era como, ‘Eu não quero ver Steve Carrell em tudo’. Eu disse, ‘Por que você não contrata Gary Oldman, Jeremy Irons, Christoph Waltz ou algum desses caras?’ E ele disse, ‘Quando você contrata esses caras, você sabe para onde você está indo. O que eu quero é um ator que a plateia não tenha a menor ideia aonde ele está indo’. Diante de tudo isso, ele não queria que os atores parecessem estar sob uma maquiagem, ‘Os meus filmes são contados em close-ups e em longos takes‘. É como se você encarasse uma fotografia de maquiagem, o que pode ser horrível se você não fazê-lo corretamente. Foi um trabalho cheio de elementos exigentes e desafiadores.

Que auxílio visual você usou para criar a aparecia dos personagens e o quão importante era para que os atores se assemelhassem com as figuras reais que interpretam?

Bennett disse que não se importava se eles se assemelhassem com os personagens reais. Ele não se importava se Steve se parecesse com du Pont porque ninguém realmente sabe como du Pont se parecia. Ele estava muito mais interessado nele parecendo como um cara com grandes riquezas, um superior de uma Nova Inglaterra sem miscigenação de raças. Assim, ele me enviou toneladas de fotos de homens ricos – indo além de du Pont – e todos têm uma aparência similar. Assim como também fizemos uma pesquisa similar quanto aos lutadores: todos têm uma similaridade facial, geralmente achatados. É algo que tentamos fazer com Channing Tatum e Mark Ruffalo.

Steve Carrell in Foxcatcher

Dos três atores, Steve Carrell passou pela transformação física mais drástica para o filme. Você pode nos descrever o processo de transformá-lo em John du Pont?

A questão inicial era o que há de particular em Steve Carrell? E o que temos a perder com ele? Na lata eu pensei que as sobrancelhas são o que há de mais particular nele e, por isso, tínhamos de perdê-las. Então eu criei essa prótese que cobre a sua testa e as sobrancelhas. Isso me permitiu mudar a anatomia ao redor dos seus olhos e torná-lo um pouco mais velho. E du Pont tem um perfil que o faz ter um nariz de águia, então nós adicionamos um arco para imitar o nariz do du Pont. Steve tem cabelos muito escuros e nós o acinzentamos e ainda raspamos a região frontal para que ele parecesse diferente. Em seguida, nós demos para ele dentaduras com dentes pequenos, pois du Pont os tinha. Enquanto fazíamos isso, pensei ‘Vamos ver se nós podemos mudar o formato de sua boca’. Então adicionamos um enchimento que empurrava a arcada dentária para fora, algo parecido com Marlon Brando em “O Poderoso Chefão”. Isso mudou totalmente a forma da boca dele. E os lábios do Steve são finos e fortes, enquanto os do du Pont eram macios e pastosos, então, nos risos, eu coloquei lábios falsos nele. Steve pesquisou muitas imagens do du Pont, que usava a sua boca de modo muito específico enquanto falava, então ele gostou dos lábios falsos e nós o mantemos. E então o pintamos para dar essa aparência pálida, translúcida. Finalmente, Steve tem olhos claros e du Pont, castanhos escuros. Colocamos lentes de contato nele. Foi um ponto primordial. Ele não era du Pont até colocarmos as lentes de contato.

Por quanto tempo os atores estiveram na cadeira de maquiagem todas as manhãs e o que eles faziam para passar o tempo?

Steve era o que ficava na cadeira por mais tempo. Ele ficava na cadeira por duas horas e meia e tinha a sua maquiagem feita antes de qualquer outra pessoa entrar no trailer. As maquiagens de Channing de Mark levaram cerca de uma hora cada. E eles ainda passavam as linhas do roteiro para se deparar com os seus personagens diante do espelho.

Com todas as cenas de luta e os tapas na cara, houve alguns percalços com a maquiagem no set?

Você faz todo o trabalho de maquiagem e deixa os caras irem embora e a primeira coisa que fazem é um dar chave de braço no outro. E esses caras realmente faziam isso. Assim, o meu parceiro Dennis Liddiard e eu ficávamos constantemente consertando eles. Channing Tatum tinha tatuagens que precisavam ser sempre cobertas. E ele teve que dar uma chave de braço em Mark Ruffalo e, claro, Mark teve toda a cabeça pintada com uma pele realista que sempre era arruinada a cada golpe. Durante um take de luta, nós vimos uma orelha voando (risos). Há muita manutenção, mas nós estávamos acima de tudo. A maquiagem se deu do melhor modo possível.

Thanks to the special-effects makeup wizardry of Bill Corso, Steve Carell’s mug morphs from one of the most benign, albeit deadpan, in the business into one of the most monstrous in the movie Foxcatcher, the all-too true and disturbing story of malcontent heir and wannabe wrestling guru John du Pont. Here, Carell being transformed. Courtesy: Sony Pictures Home Entertainment

Você foi indicado ao Oscar pelo seu trabalho em “Foxcatcher” e ganhou em 2005 por “Desventuras em Série”. O que você se recorda sobre aquela noite?

Eu realmente estava esperando não vencer, porque eu estava totalmente nervoso quanto ao que teria de dizer – e não me sentir digno. Naquele ponto, eu estava cheio de dúvidas. Quero dizer, eu sempre fui um líder de torcida – eu amo o trabalho que fazemos e eu sou tão inspirado por outros artistas -, então eu estava mais focado em torcer pelos meus colegas do que por eu mesmo. No ano seguinte, nós fomos indicados por “Click” e eu sabia que não ganharia novamente e eu tive um grande momento. Foi simplesmente divertido ir e estar lá sem precisar me preocupar em ficar estressado.

Você já fez a maquiagem para filmes de grandes orçamentos como “O Espetacular Homem-Aranha” e “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, bem como obras de proporções menores, mais íntimas e humanas como “Foxcatcher”. Você tem alguma preferência?

A preferência é a variedade. Ninguém quer apenas fazer um filme de grande orçamento. Você quer variar. E fazer algo diferente é o que torna tudo emocionante. Essa é uma das coisas que eu mais amo sobre este trabalho: nunca dois filmes serão os mesmos. Mas eu não poderia fazer TV. Eu não poderia fazer a mesma coisa ano após ano. Isso não é comigo.

Que conselho você daria a alguém interessado em explorar este campo?

O que eu fiz foi somente praticar. Eu costumava copiar o trabalho que eu realmente amava – como o trabalho de artistas famosos de maquiagem – e eu queria apenas continuar trabalhando nisso. E cercar-me de outros artistas, porque você aprende com outras pessoas, você começa a extrair as coisas das pessoas e, quanto melhor for o artista que você extrair, melhor você será. Atualmente, eu tento me cercar de artistas que são melhores do que eu. E o último conselho que eu gostaria de dar é aprender a usar computação. Não ignore o mundo digital, porque ela é uma realidade atual muito palpável.

Resenha Crítica | A Qualquer Preço (2014)

I Am Here

I Am Here, de Anders Morgenthaler

A mais bela atriz do mundo a já ultrapassar a faixa dos 60 anos, a americana Kim Basinger é uma presença que equivale a 50% de sucesso ambicionado com qualquer produção que a tenha escalado como protagonista. É consenso de que sua beleza desperta o líbido de todos, mas o uso dela como ferramenta para interpretação faz de Kim Basinger uma atriz única.

Nos raros momentos de algum brilhantismo em “A Qualquer Preço”, o cineasta dinamarquês Anders Morgenthaler extrai da face de Kim Basinger a turbulência emocional de uma mulher que, mesmo após os 40 anos, não desiste de se realizar através da maternidade. É doloroso, já no início da narrativa, ver a sua mais recente tentativa de gravidez ser frustrada por mais um aborto espontâneo. Pior é a desesperança que a invade quando o seu marido, Peter (Sebastian Schipper), se recusa a dar mais uma chance para que concebam um filho, afastando-se quando Maria vem com a possibilidade de adoção.

Já em seu prólogo, “A Qualquer Preço” flerta com a fábula ao apresentar espiritualmente um filho que Maria insiste em dar à luz. A propósito, o próprio nome do casal, Maria e Peter, faz alusão a nomes essenciais na concepção e trajetória de Jesus Cristo. Há também Jordan Prentice, um ator com uma estatura incomum e, por isso mesmo, perfeito para reforçar o realismo quase fantástico pretendido.

Com uma carreira que inclui o crédito em um dos segmentos de “O ABC da Morte” (“K is for Klutz”), Anders Morgenthaler é limitado tanto como diretor quanto como roteirista de “A Qualquer Preço”. Sem valorizar a presença de Kim Basinger, Morgenthaler se mostra afeito a uma câmera na mão que a acompanha por trás, registrando as ações que a rodeiam desastrosamente. É também um narrador vacilante, mantendo em banho-maria uma jornada que só efetiva os caminhos tortos da maternidade em uma conclusão ao mesmo tempo desconcertante e comovente.

Resenha Crítica | A Escolha Perfeita 2 (2015)

A Escolha Perfeita 2 | Pitch Perfect 2

Pitch Perfect 2, de Elizabeth Banks

Em “A Escolha Perfeita“, o diretor Jason Moore, com base no roteiro de Kay Cannon inspirado em um romance de Mickey Rapkin, deu um frescor aos embates musicais juvenis ao trazer o canto a cappella. Trata-se da música que não conta com o acompanhamento de instrumentos, mais popular em igrejas. Também havia no filme uma pitada de John Hughes, apresentando uma influência explícita oriunda de “Clube dos Cinco”.

Em primeiro lugar, é bacana que Elizabeth Banks tenha se comprometido com a direção de “A Escolha Perfeita 2”. A atriz já estava envolvida no original como coadjuvante e produtora e agora colhe os louros de ser uma mulher à frente de um sucesso estrondoso de bilheteria. Em segundo, as personagens eram simpáticas o suficiente para merecer uma nova, digamos, aventura.

O que a inexperiência de Elizabeth Banks – como cineasta e produtora, pois como intérprete ela é há muito excelente – não foi capaz de considerar é que uma sequência deve expor progressos e os terrenos para novas possibilidades. “A Escolha Perfeita 2” é apenas a reciclagem de tudo o que deu certo no filme de 2012.

Alguns recortes denunciam o autoplágio, como o prólogo que vai da harmonia ao constrangimento em público. Ou mesmo a adição de Hailee Steinfeld como Emily, uma versão da Beca (Anna Kendrick) de três anos atrás. Continuam as rixas, os primeiros passos no mercado de trabalho (Beca abre parcialmente a mão da Barden Bellas para encarar um estágio) e as piadas. Alguns estereótipos vêm em dose dupla, pois a estranhíssima Lilly (Hana Mae Lee) agora divide as anedotas com Flo (Chrissie Fit), uma garota que só abre a boca para fazer observações sobre as condições horrorosas de imigrantes de sua origem latina nos Estados Unidos.

“A Escolha Perfeita 2” só tem identidade própria quando fica evidente a dissipação das Bellas. Afinal, todas estão no último ano da faculdade e logo a formação irá constatar que é preciso ir além dos concursos de a cappella para finalmente abraçar as responsabilidades da vida adulta. É só por isso que os números musicais ganham algum sentido emocional, mesmo cheios de coreografias elaboradíssimas e de cortes ágeis para dar a ilusão de que o elenco está realmente dando conta de canções processadas no Auto-Tune.

Resenha Crítica | Bem-vindos ao Meu Mundo (2014)

Welcome to Me

Welcome to Me, de Shira Piven

Em tempos de realities shows e redes sociais, a procura de anônimos pela fama ou reconhecimento midiático esta cada vez mais desenfreada. Alice Klieg (Kristen Wiig) não é uma mulher sintonizada nesses meios, mas a ideia de ser flagrada por uma câmera e ter a sua face transmitida lhe é sedutora, especialmente quando ganha 87 milhões de dólares ao acertar todos os números da loteria.

Alice é vidrada no programa da Oprah Winfrey, revendo vários episódios incessantemente através das gravações que fez em fitas de vídeo. É nele que Alice se inspira ao dar ao magnata de um canal em frangalhos Rich Ruskin (James Marsden) um cheque de 15 milhões de dólares, quantia que viabilizará uma temporada de um programa todo seu, chamado “Welcome to Me”.

Através das consultas com o doutor Daryl Moffet (Tim Robbins), sabemos que Alice sofre de transtorno de personalidade Borderline e ter um programa em que ela é a única atração ocasionará uma série de imprevisibilidades. A primeira é o protesto de alguns profissionais por trás do programa, como Deb (Jennifer Jason Leigh). O segundo é o sucesso inesperado de “Welcome to Me”, transformando Alice em um verdadeiro fenômeno. Por fim, há os danos na relação de Alice com algumas pessoas que a acompanham há muito, como a sua melhor amiga Gina (a excelente Linda Cardellini).

Filme com um roteiro complicado de ganhar vida, “Bem-vindos ao Meu Mundo” precisou dos esforços de sua protagonista Kristen Wiig, que trouxe o diretor Adam McKay e o ator Will Ferrell a bordo como produtores. Por ser uma mulher instável, Alice dita os rumos de suas ações no último segundo. Por isso, talvez a diretora Shira Piven não consiga extrair da encenação do programa “Welcome to Me” algo além da estranheza (a castração de cachorros é um dos poucos momentos cômicos que realmente funcionam) e da oportunidade para a protagonista exibir todos os seus ressentimentos.

De qualquer modo, não se pode acusar “Bem-vindos ao Meu Mundo” de não ser uma produção independente cercada de autenticidade, especialmente pela preocupação acertada em investigar Alice ao invés de insistir do discurso cansado sobre as intenções nem sempre nobres por trás daquilo que é televisionado. Com o tempo, Alice reconhece a sua vilania em uma narrativa em que se insere como vítima, uma constatação que vem em um terceiro de certo modo enternecedor.