Resenha Crítica | Adeus à Linguagem (2014)

Adeus à Linguagem (Adieu au langage)

Adieu au langage, de Jean-Luc Godard

Desde os seus primórdios, o cinema sempre respeitou elementos narrativos e visuais capazes de serem decodificados pelo espectador. Flerta-se com estilos, com experimentalismos, mas sempre há a adoção de formalidades que sempre caracterizaram um bom filme, como uma estrutura que comporta um início, um desenvolvimento e uma conclusão ou ao menos um personagem de relevância para ter o seu próprio caráter testado.

Como o título anuncia, “Adeus à Linguagem” é uma inconsequência de Jean-Luc Godard em desconstruir os signos que integram a linguagem cinematográfica. Porém, não se trata de um radicalismo, uma revolução, somente de uma dificuldade em assumir a posse da linguagem da videoarte, justamente o segmento que depende do desprendimento do rigor da linguagem cinematográfica para se fazer valer.

A videoarte costuma encontrar o seu lar em instalações ou exposições de artes plásticas. Um exemplo recente foi “Terra Comunal”, coletânea de trabalhos assinados pela artista Marina Abramović que ganhou São Paulo no primeiro semestre deste ano. As performances registradas de Abramović são também videoartes exibidas em looping sem se ater a uma narrativa convencional. “Adeus à Linguagem” é um apanhado de performances, flagras e de histórias que não se concluem, sob a roupagem de um longa-metragem em três dimensões.

Claro que não há nenhum demérito na vídeoarte, que com a acessibilidade do digital só tem a ganhar em possibilidades, mas Godard definitivamente se deixou consumir pela irrelevância de uma carreira que há muito atingiu o seu limite. A revolução da nouvelle vague e os feitos que Godard obteve com ela, a exemplo do martírio de Anna Karina associado ao de Joana D’arc em “Viver a Vida”, estão no passado.

O Godard de hoje é um realizador que desaprendeu o seu ofício, contentando-se em filmar indivíduos sem nenhum preparo para a interpretação vomitando citações de Darwin, Faulkner e Sartre aleatoriamente. Na mistura, similar ao processo de embaralhar um castelo de cartas que acabou de desabar, há ainda o sacrilégio em picotar Bethoveen e Tchaikovsky para provocar uma sonoridade estridente e as imagens captadas com equipamentos que destoam em qualidade e portabilidade.

Em 3D, “Adeus à Linguagem” é ainda mais torturante, pois o recurso arruína qualquer tentativa de uma proposta sensorial com imagens sobrepostas e saturações que nada transmitem além de uma agressão ao olhar. As cópias em circuito são ainda mais vulgares, uma vez que as legendas em português a todo o momento se perdem entre camadas, tornando-se ininteligíveis caso um dos olhos não seja fechado ou tapado com uma das mãos. Resta ao final a lamúria de um recém-nascido, não somente a vaidade de um Godard se reconectando à linguagem cinematográfica, mas o adeus de um cineasta que já deveria tê-lo feito há muito.

Resenha Crítica | Terra Estranha (2015)

 

Strangerland, de Kim Farrant

Habitada por um calor que não dá trégua, animais peçonhentos bizarros e paisagens desoladoras, a Austrália sempre se mostrou um cenário perfeito para a encenação de histórias que buscam desvendar o instinto humano, as desigualdades de uma sociedade e o quanto a nossa pequenez é capaz de devastar todo um território. Portanto, “Terra Estranha” não é um nome genérico para batizar a estreia de Kim Farrant na direção de um longa-metragem.

Temos aqui uma história que se (des)constrói a partir de um desaparecimento, com contornos muito distintos aos de “Um Grito no Escuro”, um aussie drama com Meryl Streep e Sam Neill sempre rememorado quando se fala do que é produzido na terra dos cangurus. Matthew e Catherine Parker (Joseph Fiennes e Nicole Kidman) são os pais de Tommy e Lilly (Nicholas Hamilton e Maddison Brown), ambos às voltas com as descobertas nem sempre agradáveis da adolescência.

O histórico dos Parker foi para a lama assim que o relacionamento de Lilly com o seu professor veio à tona, com este quase morrendo pelas mãos de Matthew. Restou a eles a mudança para uma cidade insossa, com fácil acesso a uma série de regiões desérticas e montanhosas. A dinâmica familiar se dissipou e o sentimento, como bem aponta Lilly, é a de que cada um vive encarcerado.

Fica evidente que algo está errado com cada membro desta família quando Catherine acorda em um dia como qualquer outro sem que os filhos estejam na cama. Eles não foram à escola e todos os vizinhos afirmam que não os viram durante o período matutino. Matthew viu que ambos pularam a cerca do quintal durante a madrugada, mas nada fez para impedi-los a abandonarem o lar. Vem literalmente a tempestade de areia, um anúncio das tragédias que vão testar o casal.

Nem um pouco satisfeito em acompanhar as investigações sobre o desaparecimento pelo detetive David (interpretado por Hugo Weaving), a dupla de roteiristas Fiona Seres e Michael Kinirons insere algumas insinuações sobre o caráter de cada personagem. Se David é capaz de eliminar evidências que podem comprometer Burtie (Meyne Wyatt) o filho de sua namorada (Lisa Flanagan), o que esperar dos Parker? A truculência ou completa passividade de Matthew importunam e alguns comportamentos de Catherine a denunciam como uma versão adulta de Lilly, uma jovem de 15 anos preenchida por uma libido incontrolável.

Quase ninguém parece saber exatamente o que está fazendo em “Terra Estranha”, uma vez que Kim Farrant farta a todos com inúmeras sugestões que só tornam penosa uma experiência que quase totaliza duas horas de duração. As belas panorâmicas captadas pelo diretor de fotografia P.J. Dillon não têm qualquer ressonância em uma narrativa que sequer se soluciona entre quatro paredes e há até mesmo flertes com misticismos locais para incrementar a história. Resta o grito desesperador de Nicole Kidman que ecoa na penumbra da terra estranha, implorando por uma resolução que se desenha do modo mais insatisfatório possível.

Resenha Crítica | Cake – Uma Razão Para Viver (2014)

Cake - Uma Razão Para Viver - Cake

Cake, de Daniel Barnz

Comediante de mão cheia, Jennifer Aniston se viu enclausurada nas produções de comédia com o fim do seriado “Friends”. Não há nada de indigno em fazer carreira circulando em um único gênero, mas estava evidente que a intérprete de Rachel desejava alçar voos mais altos em papéis dramáticos. Foi exemplar em dois deles: Justine Last de “Por Um Sentido na Vida” e Olivia em “Amigas com Dinheiro”. Como Claire Bennett em “Cake – Uma Razão Para Viver”, Jennifer Aniston prova que é necessário mais cineastas interessados em explorar este seu lado mais denso.

A princípio, Daniel Barnz (realizador do péssimo “A Fera”) tinha suspeitas sobre o interesse de Jennifer Aniston em liderar o elenco que daria vida ao texto de Patrick Tobin, o segundo de uma carreira iniciada há quase 20 anos. Jennifer embarcou no projeto não somente como protagonista, mas também como produtora executiva, o que responde aos vários nomes célebres escalados, quase todos lhe servindo de degraus para o  topo – extenuam-se a bárbara Adriana Barraza e Sam Worthington, aqui em boa interpretação.

Mesmo que os fãs de Jennifer Aniston tenham se excedido ao ver o seu nome fora da lista de finalistas ao Oscar de Melhor Atriz, é inquestionável a sua entrega de corpo e alma à Claire, uma mulher que se reveste de um sarcasmo que desconcerta como um meio de camuflar o luto que não a abandona. A sua boca ferina pode enganar, mas há as cicatrizes de seu corpo e as dores crônicas sempre presentes para alertá-la de que é preciso dar muitos passos para de fato se permitir a alguma paz de espírito.

Nada em “Cake” é revelado com clareza ao espectador, uma decisão que não somente respeita a postura rígida de Claire, como também garante ao filme alguns momentos que expressam uma verdade dilacerante. A comoção vem com as lágrimas evitadas de autopiedade, o flagelo para se locomover, o excesso de comprimidos consumidos para amenizar a fragilidade física e em uma cena final realmente espetacular.

A pergunta é como um texto que rende tantas virtudes ao tratar sobre o luto pode carregar consigo tantos problemas bobos, que anulam a veracidade e ferocidade da perda. Silenciá-la não isenta “Cake” de negligenciar dados básicos, como a capacidade de uma mulher inválida e divorciada em ter finanças que a fazem manter não somente uma casa com alguns luxos, como também uma empregada (vivida por Adriana Barraza). As aparições fantasmagóricas de Anna Kendrick também atrapalham, quebrando a fluência de uma narrativa que se beneficiaria sem elas. Resta aguardar um novo drama que seja capaz de enaltecer plenamente uma atriz que aprendeu que a experiência cinematográfica não se faz plena apenas com largos sorrisos, mas também com tragédias essenciais para a sua completude.

Séries nacionais para sair da rotina

Mandrake

Apesar das atualizações semestrais no mundo das séries, sempre que a HBO anuncia o lançamento de alguma produção, independente do que, paro tudo para ver do que se trata. Afinal, desde sempre, esse canal digníssimo sempre teve um alto padrão de qualidade e ousadia, produzindo séries como “Oz”, “The Sopranos”, “Six Feet Under”, “Sex And The City” e sim, “Game of Thrones”, entre muitas outras.

Dentre essas, vou citar três que saíram um pouco do óbvio: as nacionais “Mandrake”, “Filhos do Carnaval” e “(fdp)”. E sim, esse post é sobre elas, goste ou não.

Mesmo estando abaixo do padrão das grandes produções da HBO, essas séries têm lá um grande valor. Tanto por estarem acima daquilo de muitas atrações audiovisuais nacionais como por tratarem de temas nunca ou pouco abordados.

Filhos do Carnaval

A estrela de ouro delas vai para “Filhos do Carnaval” (2006-2007), protagonizada pelo saudoso cafajeste Jece Valadão como o Anésio Gebara, patriarca de uma organização criminosa baseada no jogo do bicho no Rio de Janeiro e que financiava o carnaval, investia no futebol e possuía negócios escusos no que tange as linhas transporte público. Inspirada na “vida e obra” do maior e mais poderoso bicheiro do Brasil, Castor de Andrade, a série passeia por esse submundo, que todo mundo sabe que existe, mas prefere ignorar. A série conta também com um roteiro bacana e com o ótimo Felipe Camargo, em um dos primeiros papéis após seu hiato causado por problemas pessoais.

Na segunda posição, mas por pouca diferença, está “Mandrake” (2005-2007), baseada na obra de Rubem Fonseca. Conta as aventuras cotidianas de Mandrake (Marcos Palmeira), um advogado nada convencional que atua como um abafador de crises e resolve pepinos de gente que não quer se envolver num escândalo. Gosto de dizer que “Mandrake” é aquilo que “Scandal” gostaria de ser, mas não conseguiu.

(fdp)

Por fim, abaixo das duas, mas não pior, está “(fdp)” (2012), a série que dá uma luz à vida de um juiz de futebol – algo que nunca foi explorado antes. De forma cômica, com diversas referências e clichês futebolistas, conta com as participações de jogadores como Neymar e Rincón, além do jornalista Juca Kfouri. E é bacana que a série trabalha bem isso, apesar do eterno desafio do audiovisual em representar o futebol e de ser necessário ignorar algumas atuações sofríveis que encontramos.

São séries bacanas pra quem quiser assistir algo diferente e com temáticas mais familiares.

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Paolo Enryco amadureceu em frente à tevê e por esse motivo adquiriu um humor exótico e um senso crítico rabugento. Sua formação, que varia entre o sensato e o lírico, compõe suas críticas – ou seja lá o que ele escreve aqui. Mais devaneios em Eu Penso.

Os 10 Melhores Filmes de 2015 – 1º Semestre

Não faltam filmes para comentar e o período de férias universitárias sempre se mostrou favorável para a elaboração de textos, mas os planejamentos não andam se efetivando como o esperado. Enquanto a dificuldade de novas atualizações persiste, decidimos publicar a nossa lista dos 10 melhores títulos lançados nos cinemas, em homevideo e video on demand no primeiro semestre após uma rápida repescagem. As expectativas para a primeira metade do ano foram superadas e ótimos títulos como “Mapas Para As Estrelas”, “Leviatã“, “Dívida de Honra”, “A Espiã que Sabia de Menos”, “O Ano Mais Violento”, Cássia Eller” e “Miss Julie” ficaram somente como menções honrosas. Em breve voltaremos a nossa programação normal com novas resenhas críticas do que anda pintando no país.

 

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) - Birdman Or (The Unexpected Virtue of Ignorance)

10. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu +

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Força Maior - Force Majeure

09. Força Maior, de Ruben Östlund +

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Caminhos da Floresta - Into the Woods

08. Caminhos da Floresta, de Rob Marshall +

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O Pequeno Quinquin - P'tit Quinquin

07. O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont +

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A Gangue - Plemya

06. A Gangue, de Miroslav Slaboshpitsky +

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Mad Max - Estrada da Fúria Mad Max Fury Road

05. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller 

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A Lição - Urok

04. A Lição, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov

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Livre - Wild

03. Livre, de Jean-Marc Vallée +

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Paixão - Passion

02. Paixão, de Brian De Palma +

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Whiplash - Em Busca da Perfeição - Whiplash

01. Whiplash – Em Busca da Perfeição, de Damien Chazelle

Resenha Crítica | A Justiceira (2014)

Miss Meadows, de Karen Leigh Hopkins

Apresentada como Senhorita Boas Maneiras, a personagem de Katie Holmes em “A Justiceira”, Mary, é uma mulher totalmente deslocada da cidadezinha em que vive. Ou da época. Miss Meadows parece uma garotinha da primeira metade do século passado, com os seus vestidinhos floridos comportados e acessórios como as luvas de cetim que vão até a altura dos cotovelos e os sapatinhos para sapateado. A cordialidade é também antiquada, usando o obsoleto too-da-loo a cada despedida.

A pegadinha neste filme de Karen Leigh Hopkins (mais lembrada pelo texto do drama “Lado a Lado”, com Julia Roberts e Susan Sarandon) está no fato de Miss Meadows não ser apenas uma professora de ensino infantil, como também uma espécie de vigilante que usa a sua pistola para eliminar criminosos que espalham o terror pela vizinhança. Uma soma de homicídios que se dá na plena luz do dia e com a maior indiferença possível.

A mistura de humor negro com drama psicológico (atentar às interações da protagonista com a mãe interpretada por Jean Smart) ganha credibilidade com o empenho de Katie Holmes em processar com perfeição as etiquetas rígidas de seu papel, bem como a vulnerabilidade patente em sua relação com o detetive vivido por James Badge Dale. No entanto, o que fica em pauta é a visão questionável, senão perigosa, de Karen Leigh Hopkins para este cenário de casa de boneca em que todo presidiário é flagrado cometendo alguma transgressão assim que abandona a cela, como matar todos os presentes em um restaurante durante um assalto. Em uma sociedade que despreza a reabilitação de um preso, assusta a conformidade da diretora e roteirista no desenho asqueroso que confere a todos sob a mira de Miss Meadows.

Resenha Crítica | Belas e Perseguidas (2015)

Belas e Perseguidas - Hot Pursuit

Hot Pursuit, de Anne Fletcher

Após uma bela volta por cima como protagonista em “Livre”, coadjuvante em “Uma Boa Mentira” e produtora em “Garota Exemplar”, Reese Witherspoon poderia se envolver com qualquer tipo de filme, menos uma comédia do calibre daquelas que derrubaram a qualidade de sua carreira após o Oscar por “Johnny e June”. “Belas e Perseguidas”, produção em que Reese também é produtora, não empolgou comercialmente e se tornou um dos lançamentos com a menor média da crítica do primeiro semestre deste ano, mas não é uma realização que deverá comprometer algum envolvido.

Começa divertida a história de Cooper, personagem de Reese Witherspoon. Ela é uma policial que deseja seguir os passos do pai, mas um incidente a faz ficar desacreditada diante de seu chefe (John Carroll Lynch). A chance de se redimir está em escoltar Felipe (Vincent Laresca) e Daniella Riva (Sofía Vergara), casal que entrou no programa de proteção à testemunha. Na ação, o parceiro de Cooper, o detetive Jackson (Richard T. Jones), é morto, bem como Felipe. Resta a Cooper prosseguir com a missão protegendo Daniella.

Como o esperado, Cooper e Daniella têm personalidades totalmente diferentes, fazendo com que ambas estejam em conflito em cada acontecimento, bem como encontrando soluções inusitadas para se livrar do perigo. De uma hora para outra, Cooper é vista como uma ameaça nacional enquanto Daniella está sob a mira de traficantes e policiais corruptos. O boa pinta errante Randy (Robert Kazinsky) surge na equação para ajudar as moças – ou complicar ainda mais as coisas.

Diretora do ótimo “A Proposta“, comédia romântica com Sandra Bullock e Ryan Reynolds, Anne Fletcher pouco faz em “Belas e Perseguidas”, sendo evidente a falta de sua contribuição para dar alguma sofisticação ao projeto. Pior é o caso dos roteiristas David Feeney e John Quaintance, que entregam um texto que tem como única utilidade oferecer o terreno para Reese Witherspoon e Sofía Vergara aproveitarem todo o potencial que têm como comediantes.

As atrizes estão tão entrosadas que as piadas acabam sendo elevadas de algum modo. Se de um lado Reese não guarda remorsos com as brincadeiras sobre a sua baixa estatura, do outro Sofía prossegue usando o seu sotaque como ferramenta de humor, uma repetição que definitivamente não incomodará os fãs do seriado “Família Moderna”. É o limite de “Belas e Perseguidas”, uma comédia inofensiva com uma falta de progresso narrativo que transforma os seus 87 minutos em uma experiência por vezes exaustiva.