Wes Craven e o prazer do medo

Wes Craven

Wesley Earl Craven
✰ 2/8/1939
✝ 30/8/2015

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Os filmes de terror são como um campo de treinamento para a psique. Na vida real, os seres humanos são embalados nas mais frágeis embalagens, ameaçados por eventos reais e às vezes horríveis, como Columbine. Mas a forma narrativa coloca esses medos em uma série gerenciável de eventos. Dá-nos uma maneira de pensar racionalmente sobre os nossos medos.

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Muito antes da adolescência, inúmeras dúvidas nos cercavam e éramos incapazes de formular as questões certas para saná-las. Temendo a autoridade de nossos pais, estes também com dificuldades em nos ensinar sobre a vida, lançamo-nos a outros subterfúgios, como a troca de confidências com os amigos que brincávamos nas ruas ou com materiais impróprios e proibidos.

De certo modo, o cinema foi o primeiro “objeto” que tive acesso para me oferecer as respostas para uma série de questões, principalmente sobre sexo e o medo. Para compreender o primeiro tema, esperava toda a minha família dormir para ligar a tevê, apertar a tecla mude e assistir aos filmes do Cine Band Privé, atração de filmes eróticos da Rede Bandeirantes que entrava ao ar na madrugada de sábado para domingo. Para compreender o segundo tema, o medo, não era preciso tanto segredo, bastava pedir para as minhas irmãs alugarem filmes de terror ou aguardar pelo TV Terror, programa exibido aos sábados pela RedeTV.

Eu realmente não me importava com as advertências de que aquelas histórias macabras que me fascinavam poderiam me tirar o sono. Como o esperado, em alguns momentos tive muitas dificuldades para dormir, mas era o prazer pelo desconhecido que realmente valia a experiência obscura. Portanto, era natural alguns mascarados ou deformados dos slasher films serem figuras cativas desde a terceira infância. Como Freddy Krueger, o sujeito repleto de queimaduras por todo o corpo que trucidava jovens com uma garra enquanto se viam imersos em seus inconscientes.

Nascido em 2 de agosto nos subúrbios de Cleveland, Ohio, Wes Craven foi um dos cineastas mais devotos ao terror, gênero no qual debutou em 1972 com o cult “Aniversário Macabro”. Excetuando “Música do Coração”, drama convencional estrelado por Meryl Streep, as perturbações de Wes sempre o direcionaram para as narrativas que tinham como combustível o fantástico ou os crimes em série. Na maioria das vezes, muito atento ao cenário em que estava inserido. Os vilões de “Quadrilha de Sádicos” são mutações de uma sociedade alienada pela guerra e os personagens de “A Hora do Pesadelo” estão às voltas com as consequências de abraçar as libertinagens de uma juventude com os hormônios em ebulição.

Se tudo isso não fosse o suficiente, Wes Craven ainda ousou ao rever o legado que deixou com todas as suas obras máximas. Brincou com a metalinguagem em “O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger” quando a franquia tinha entrado em declínio e ressuscitou o gênero que o formou com “Pânico”, produção que inaugurou um novo ciclo de produções de terror. Também foi brilhante com títulos sem grande repercussão, como “Benção Mortal” e “A Maldição dos Mortos-Vivos”, e ainda proporcionou um divertimento honesto até mesmo em seus piores trabalhos – como não recordar da cabeça da veterana Anne Ramsey explodindo ao ser atingida por uma bola de basquete em “A Maldição de Samantha”?

Mesmo diagnosticado com um câncer cerebral e sem um novo projeto assegurado como diretor, Wes Craven continuou ativo até o seu último suspiro, atuando como produtor executivo da versão em série de tevê de “Pânico” e de mais dois longas-metragens em fase de pós-produção, “The Girl in the Photographs” e “Home”. Prestou uma contribuição exemplar para o gênero, como quase nenhum outro o fez, ao elevá-lo como um canal para identificarmos todos os nossos temores internos e externos e finalmente enfrentá-los, mesmo a principio com as luzes acessas. No fim de sua existência, Wes Craven finalmente pode repousar sem que nenhuma alegoria monstruosa o perturbe.

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5 filmes essenciais de Wes Craven:

– Quadrilha de Sádicos, 1977
Benção Mortal, 1981
– O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, 1994
Pânico, 1996
Pânico 4, 2011

Os Cinco Filmes Prediletos de José Alves Trigo

José Alves Trigo

Dos grandes momentos na minha graduação em Jornalismo, talvez o melhor tenha sido um seminário sobre fotografia, na disciplina de Linguagens e Estruturas do Discurso. Além de um passo importante para superar certa inibição para apresentar algo a um público, veio a satisfação de ter compartilhado a minha admiração pela fotógrafa Diane Arbus com competência e desenvoltura. O professor que propôs este seminário foi José Alves Trigo (ou simplesmente Trigo) e os seus elogios foram essenciais para eu saber que a transição que forcei em minha vida ao desejar atuar como um profissional de Comunicação Social foi a melhor decisão que tomei até aqui.

Tive o privilégio de rever Trigo na disciplina de Pauta, Reportagem e Redação II no primeiro semestre deste ano e nos retornos sobre as reportagens que desenvolvi encontrei uma brecha para chamá-lo para participar desta seção do Cine Resenhas. Graduado em Jornalismo pela FIAM e com mestrado em Comunicação e Mercado pela Cásper Líbero, Trigo aceitou o convite com a sua inconfundível generosidade. E o melhor: com a presença de nada menos que dois filmes de Brian De Palma, o meu cineasta favorito.

 

 

Meia Noite em ParisMeia Moite em Paris, de Woody Allen (Midnight in Paris, 2011)

Woody Allen mostra nesse filme o seu lado mais criativo.  O filme trabalha com o conceito de limiar, a transição entre realidade e virtualidade, como no filme Matrix.  A chance de conversar com os intelectuais é como se voltasse à cena o que o pensador alemão Jurgen Habermas chamou de última da história de um ser humano comum estar próximo, sentado em uma mesa de bar e conversar com Picasso, Matisse, Hemingway, Dalí e várias outras personalidades. O filme mostra que estrelas da pintura e da literatura tinham as mesmas angústias que temos no nosso dia a dia.

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Os IntocáveisOs Intocáveis, de Brian De Palma (The Untouchables, 1987)

Uma perfeita combinação de música, enredo e fotografia. Como se tudo isso não bastasse, conta com um elenco que incluia Kevin Costner e Robert De Niro.  E a direção de Brian de Palma. Lançado em 1987, devo ter assistido logo após ter chegado às telas, no final dos anos 1990. Quase 20 anos depois, em 2014, fui aos Estados Unidos e ao entrar no Grand Station, em New York,  vi a escada e na hora lembrei da antológica cena onde Costner corre para salvar um bebê que desce em um carrinho descontrolado.

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Carrie, a EstranhaCarrie, a Estranha, de Brian De Palma (Carrie, 1976)

Faz parte dos meus filmes inesquecíveis por várias razões. Primeira: por ter um misto de drama, terror e até romance. É a história de uma jovem que sofre bullying, um tema que nem era tratado em 1976, quando o filme é lançado. É  a possibilidade de vingança do adolescente. Talvez um pouco daquilo que todos temos inconscientemente (ou conscientemente), quando somos criança. Segundo pela competência de Brian de Palma (de novo). E terceiro pela beleza de Sissy Spacek, com um sorriso tão inesquecível quanto o filme. Teve uma nova versão em 2013, sem o mesmo brilho.

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Apocalipse NowApocalipse Now, de Francis Ford Coppola (idem, 1979)

Francis Ford Coppola consegue unir nesta produção, de 1979, não apenas drama, ação e aventura. Mas inclui também a música. É quase um musical com uma história de tragédia ao fundo. Entre balas que são disparadas no Vietnã e barulhos intensos de helicópteros, você tem a oportunidade de ouvir The Doors e Rolling Stones. Coppola dá uma aula de história e Marlon Brando e Martin Sheen completam o restante. Por sinal, uma aula demorada. O filme dura mais de três horas. Torna-se inesquecível também por isso.

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O Discurso do ReiO Discurso do Rei, de Tom Hooper (The King’s Speech, 2010)

Um filme de 2010 com Colin Firth interpretando a história do rei George VI, da Inglaterra. Para muitos é um filme cansativo, com pouca ação. Mas o que me impressionou foi a interpretação do ator principal e talvez por eu ser professor de comunicação, o fato  de ser possível transformar as pessoas. E o filme mostra isso. Que mesmo um rei também tem suas aflições, seus problemas, muitas vezes considerados como insuperáveis.

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Resenha Crítica | Corrente do Mal (2014)

Corrente do Mal (It Follows)

It Follows, de David Robert Mitchell

Bem como para Jim Mickle em “Julho Sangrento” quanto para Adam Wingard em “The Guest”, o veterano John Carpenter é uma influência evidente para o cineasta David Robert Mitchell em “Corrente do Mal”. A partir de uma premissa de ordem aparentemente espiritual, “Corrente do Mal”, bem como “Halloween” com o seu assassino impiedoso, se articula com a construção minuciosa de personagens ao mesmo tempo em que estabelece a atmosfera densa que impregna o cenário.

Claramente ambientado nos dias de hoje, mas em uma Detroit que se perdeu no tempo, “Corrente do Mal” traz Jay (Maika Monroe, protagonista do já citado “The Guest”) como a vítima atual de uma maldição em vigência, repassada a partir de uma relação sexual. O seu pretendente (Jake Weary), antes um rapaz atencioso e amoroso, justifica a sua ação como um instinto de sobrevivência e alerta a ela que será preciso encontrar um novo parceiro sexual caso não queira se tornar o próximo alvo dessa corrente.

Mesmo com um único longa-metragem desconhecido pelos brasileiros em seu currículo (“The Myth of the American Sleepover”), David Robert Mitchell é um jovem com pleno conhecimento de seu ofício de diretor. Além da nostalgia como combustível, há em “Corrente do Mal” um risco pela quebra de paradigmas que estabeleceram as regras do gênero. Pouco usuais nos filmes de terror, os planos abertos revelam uma geografia amedrontadora. Mitchell também faz a escolha de remover da escuridão a sua ameaça, com ela no encalço da protagonista em paisagens banhadas pela luz natural.

Ao infringir algumas leis do gênero, Mitchell constrói um filme verdadeiramente assustador, um tormento que toma a forma de moribundos aleatórios apenas visíveis para Jay e que parecem receber impulso com os sons diabólicos do compositor de música eletrônica Rich Vreeland, mais conhecido no universo dos games como Disasterpeace. É um sentimento de angústia que se amplifica, mas que o texto nem sempre corresponde.

Também roteirista, David Robert Mitchell estabelece uma maldição que funciona pela sua obscuridade e ausência de justificativas. No entanto, a forma abstrata que molda inclui uma série de escolhas questionáveis. Devastar o cenário com a ausência de figuras adultas, de pais e mães, confere um sentimento de abandono que encontra dificuldade de provar o seu ponto, especialmente pelo clímax mascarar um “seguidor” com um rosto familiar para Jay. Também é incompreensível a conversão do sobrenatural em matéria possível de ser alvejada. Faltou parcimônia no David Robert Mitchell que assinou o roteiro, mas aquele que o dirige soube contorná-lo com um pesadelo que domará o nosso inconsciente por um bom tempo.

Resenha Crítica | Que Horas Ela Volta? (2015)

Que Horas Ela Volta?

Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert

As empregadas domésticas vivaram um alvo de interesse na ficção brasileira, especialmente com a conquista de leis trabalhistas que surgiram para favorecer uma profissão até então isenta dos mesmos direitos de outros empregados com registro em carteira.  Porém, o ponto de interesse está em como a relação entre uma patroa e a sua empregada reflete um país atingido por contrastes sociais, pelas posições de autoridade e de subordinação.

Em “Que Horas Ela Volta?”, temos duas mulheres que ilustram essas divergências. De um lado, temos Val (Regina Casé), há anos uma empregada doméstica em uma casa situada no Morumbi e longe de sua única filha, Jéssica (Camila Márdila). Do outro, há Bárbara (Karine Teles), mãe de Fábio (Michel Joelsas) e a figura que exerce poder em um território cuja figura masculina, o marido Carlos (Lourenço Mutarelli), é desmotivada, passiva.

Com a vinda de uma já adolescente Jéssica pedindo abrigo para estudar para um vestibular de arquitetura em São Paulo, “Que Horas Ela Volta?” passa a dar contorno mais fortes nas linhas que separam os universos de Val e Bárbara. É Jéssica que irá ultrapassar as barreiras imaginárias deste convívio: as acomodações, os ambientes de estar, os produtos alimentares, o servir e o ser servida.

Diretora extremamente habilidosa ao confinar as suas histórias em um único cenário, como se viu em “Durval Discos” e “É Proibido Fumar”, Anna Muylaert cria planos minuciosos para estabelecer essa divisão. Nas cenas de jantares, temos somente um olhar parcial da família reunida à mesa, pois há à direita a parede da cozinha e à esquerda temos a porta, a passagem para Val transitar entre os dois cômodos.

Essa perspectiva sobre o direito de pertencimento a determinados ambientes pela posição social é extremamente original e “Que Horas Ela Volta?” se permite a questionar sobre como elas determinam as funções que exercemos em um tabuleiro – aparentemente ingênua, o momento em que Val “descasa” um conjunto de xícaras é uma representação de nosso status quo. Sem a necessidade de fazer discursos que caricaturam os seus personagens, Anna Muylaert faz um belo alerta sobre algumas posturas ainda enraizadas em nossa cultura e ainda explora o tema da maternidade com muita ternura. É, sem dúvida alguma, um forte representante ao título de melhor filme nacional deste ano.

Publicamos nesta semana uma conversa com a diretora e roteirista Anna Muylaert.  Para conferir, basta clicar aqui.

Entrevista com Anna Muylaert, diretora de “Que Horas Ela Volta?”

Fonte: Farrucini

Fonte: Farrucini

Embora “Que Horas Ela Volta?” tenha a sua estreia já confirmada para esta quinta-feira, 27 de agosto, o filme desembarca no circuito comercial do país com uma carreira consolidada, inclusive com passagens premiadas em festivais internacionais como Berlim e Sundance. É um grande momento para a diretora e roteirista Anna Muylaert, dona de uma filmografia impecável que inclui “Durval Discos”, “É Proibido Fumar” e “Chamada a Cobrar“.

Paulistana, Anna Muylaert atendeu ao nosso pedido para responder algumas perguntas sobre “Que Horas Ela Volta?”. São revelados alguns detalhes sobre a produção, como a dinâmica colaborativa que desenvolve junto ao elenco na construção do roteiro e como o seu relato reflete a nossa contemporaneidade.

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“Que Horas Ela Volta?” chega ao Brasil com uma reputação moldada por reações bem positivas vindas do público e da crítica de festivais como Berlim e Sundance. O que refletiu sobre as impressões estrangeiras a partir da realidade brasileira que encenou?

Quando chegamos em Sundance tinha medo até que não entendessem a história. No entanto, não foi isso o  que aconteceu.  Embora no começo eles mostrem curiosidade para saber mais sobre essa estrutura brasileira que remonta ao escravagismo em pleno século XXI, logo as discussões se ampliam para relações de poder – o que acontece em todas as sociedades, talvez não no Xingu.

E como o filme trata-se de uma história familiar e ao mesmo tempo é uma crítica severa a atitudes segregacionistas, ele leva também a múltiplas discussões que, creio, encantam os estrangeiros.

“Que Horas Ela Volta?” discute a discrepância entre duas classes sociais a partir de uma vertente pouco explorada na ficção: o pertencimento, a proibição de adentrar a propriedade de alguém com elevado poder aquisitivo. Vê a mansão, o ambiente central do filme, como um espelho do cenário atual de nosso país?

Sim com certeza. Creio que neste filme discute-se moradia, o espaço e até a função da arquitetura: o andar superior, o andar inferior, o quarto de hóspede, a área de serviço, a área de lazer…  Tudo isso espelha zonas de convívio social, alguma permitidas para alguns e proibidas para outros – como a piscina – e outras permitidas para todos, mas frequentadas apenas por alguns  – como a lavanderia, por exemplo.

Enquanto promovia “Quando Eu Era Vivo” no ano passado, Lourenço Mutarelli admitiu que se sente a vontade como ator somente com você. Segundo ele, você propõe uma dinâmica no set em que todos os intérpretes estão livres para acrescentar camadas ao seu roteiro. Como obtém essa harmonia? Há uma preparação prévia ou tudo acontece naturalmente já nas filmagens?

Sim, esta é minha proposta. Convidar o ator para uma co-criação. Não estou ali dando ordens, apenas sou parceira numa pesquisa de hipóteses. O Lourenço em particular – assim como a Regina Casé – é um sujeito que escreve, é um autor, então em vez de dar ordens a ele eu espero entusiasmada pelo que ele vai me trazer.  Eu não gosto de estar com tudo previsto, eu gosto de me surpreender e de ser surpreendida.

Quanto a preparação, sim, há ensaios – mas eles servem mais para facilitar ao ator um campo de pesquisa e de possibilidades, do que exatamente para marcar cenas e prever comportamentos na hora de rodar.

Os seus longas têm protagonistas adultos, mas você apresenta em suas credenciais uma vasta experiência com o universo juvenil, a exemplo do seriado “Castelo Rá-Tim-Bum” e do livro “No Rabo do Cometa”. Como foi convencer Michel Joelsas de voltar às telas? E sobre e a escolha de Camila Márdila, que estreia no cinema? Enxerga na juventude de hoje a oportunidade de quebrar os paradigmas enraizados em mães como Bárbara e Val?

Michel foi fácil de ser convencido. Convidamos, ele leu o roteiro e aceitou. A Camila surgiu no filme através de testes de elenco e se destacou por sua inteligente compreensão do que a Jessica tinha que ser.

Acredito sim que a juventude é a base para uma mudança no futuro, este filme fala desta utopia. Estamos no século XXI e ainda agimos como se estivéssemos no século XIX. Os jovens tem mais condição de fazer esse upgrade do que aqueles cujas raízes escravagistas, machistas, homofóbicas, racistas, classistas etc estejam mais aprofundadas.

“Que Horas Ela Volta?” já vem recebendo pela audiência alguns paralelos com “Casa Grande”. Assistiu ao filme de Fellipe Barbosa? Concorda com as associações? Acredita que o cinema brasileiro continuará viabilizando um discurso tão em pauta quanto a dos universos distintos (mas próximos) que habitam uma empregada doméstica e a sua patroa?

Já li sobre esses paralelos, mas não concordo. Acho que o filme dele começa com um olhar crítico e no meio do caminho apega-se a um protagonista burguês que tira as vendas do palácio e percebe as mazelas sociais do seu país, antes ocultas pelo “sucrilhos no prato”.  O meu filme é outra coisa. É uma historia contada do ponto de vista da cozinha e cujas personagens femininas estão vivendo suas próprias vidas.  A cena final de “Casa Grande” me incomoda profundamente porque essa solução de “comer a empregada”, para mim, além de machista é retrógrada – é mais velha que José de Alencar.

Quanto ao futuro do cinema brasileiro, não sei. Acho que ainda daria para fazer vários filmes de empregada e patroa em diversas situações. Mas não tenho como saber se ainda vão tocar nisso ou não.

Resenha Crítica | O Homem Irracional (2015)

O Homem Irracional (Irrational Man)

Irrational Man, de Woody Allen

Por ser um diretor que tem como maiores feitos as obras que prestam homenagens aos cartões-postais e a expressão de arte ou dramas incisivos, Woody Allen tem outras realizações in  between que adotam um tom mais sereno nem sempre vistoso pelos seus fãs mais exigentes. Subestimados, “Scoop – O Grande Furo”, “Para Roma, Com Amor” e “Magia ao Luar” foram recebidos com frieza por procederem a grandes sucessos como “Match Point”, “Meia-noite em Paris” e “Blue Jasmine”. Desta vez, é possível concordar com a recepção desapontadora conferida a “Homem Irracional”, que teve uma exibição especial no Festival de Cannes deste ano.

Embora a premissa seja muito pertinente, “Homem Irracional” é um filme com elementos que não concatenam, com soluções e escolhas difíceis de serem compradas. Ator favorito de James Gray e, atualmente, de Paul Thomas Anderson, Joaquin Phoenix tem uma presença introvertida que pode render muito nas mãos de grandes diretores. Em “Homem Irracional”, Phoenix prova que tem um grande repertório para viver Abe, um professor de Filosofia frustrado contratado para lecionar em uma universidade conceituada.

Trata-se de um intelectual com conceitos negativos sobre a vida, especialmente com as lembranças que o importunam desde que pisou como jornalista no campo de uma batalha desumana e sem sentido. A proximidade com uma colega de trabalho de sua idade e casada, Rita (Parker Posey, excelente como o esperado) e com uma aluna, Jill (a doce Emma Stone), colaboram para a mudança de Abe, que encontra um sentido para se abrir para a vida ao arquitetar a morte de um juiz (Tom Kemp) notório pelos vereditos questionáveis.

O desejo de se cometer um crime com as próprias mãos para se safar de uma situação-limite rendem uma série de dilemas já pautados por Woody Allen em obras como “Crimes e Pecados” e o já citado “Match Point”. Aqui, o veterano tem todo o arsenal para dignificar erroneamente um personagem ausente de ambições e que se revigora ao livrar do mundo um indivíduo que acredita representar o que pior há na humanidade, mas faltou-lhe vigor para acertar o alvo, ainda que tenha desenhado personagens palpáveis.

A questão é que Woody Allen adota um manual de romance policial pouco sofisticado. “O Homem Irracional” é impregnando de diálogos expositivos (como se não bastasse o excesso de narração em off), de situações pouco verossímeis que encurralam o protagonista e do uso inadequado do blues do Ramsey Lewis Trio, convergindo para um clímax cheio de impacto e ironia arruinado com recursos de antecipação de ação. Tudo isso compromete demais a fluência do conto moral, o que é uma pena.

Californication, a série sanfona

Californication

Ao menos para mim, que não assistiu “The X-Files” por desinteresse sobre a sua temática, David Duchovny parece ter nascido para o papel de Hank Moody, protagonista da série “Californication” (2007-2014). Talvez por isso, tenho uma dificuldade imensa em desvincular ator e personagem.

E talvez seja isso que faça a série ser bem bacana. Para quem não tem ideia do seu enredo, trata-se de um escritor nova-iorquino que teve muito sucesso com um livro e mudou-se com a mulher e filha para Los Angeles com a finalidade de trabalhar no roteiro do filme baseado em sua obra. A partir daí sua vida muda totalmente, uma vez que a costa oeste norte-americana o corrompe moralmente, levando-o a cair de cabeça dos excessos e atrativos da indústria do cinema – isso envolve drogas e muito sexo.

Consequência disso é que ele perde sua família e, após aquilo que parece um coma de luxúria e hedonismo, ele tenta recuperar e constituir família novamente. Para isso se envolve em mil e uma confusões… Até porque uma das coisas legais da série é o fato dele ser um imã para problemas que muitos de nós às vezes até buscamos ter.

O enredo é bacana, principalmente quando o espectador acredita na glamourização de escritores num mundo cada vez mais limitado a 140 caracteres. Ao menos para a realidade nacional, o sonho californiano parece algo irreal e atraente, já que Hank, apesar de levar uma vida marginal, convive com estrelas do rock, do pop, celebridades e empresários do show business num mundo regado a bebida, drogas e sexo.

Porém, a série não ultrapassa o selo de “boa” pelo fato de com o tempo ter se tornado sanfona, no sentido que varia de uma temporada boa e uma muito ruim – que causa até vergonha alheia no telespectador.

Isso se explica no fato da série ter um viés humorístico, quando trata de confusões amorosas e temas tabus (novamente sexo e drogas) de forma cômica. Talvez numa tentativa de inserir pessoas comuns num mundo totalmente oposto ao seu, creio que Tom Kapinos, criador e escritor da série, falha ao gerar cenas típicas de uma comédia familiar italiana – com muitas confusões. Sério, soa como uma “Sessão da Tarde” com censura de “Corujão”.

Por outro lado, quando Kapinos busca sensibilidade, ele o faz muito bem. Até porque, no final, a série nada mais é que um pai reconquistando sua filha e sua ex-esposa. O problema é que ele não dosa as coisas muito bem, e usa nelas o pastelão em uma temporada e, na outra, uma temática mais séria. Por isso acaba ficando sanfona, já que a série perde sua essência – inclusive a última temporada poderia estar no rol de pastelões. Uma pena.

Fora isso, a série também conta com um elenco de apoio sólido, com atores como Natascha McElhone e o Evan Handler, respectivamente ex-mulher e melhor amigo de Hank. Além de participações especiais de atores como Rob Lowe, Marilyn Manson, Kathleen Turner, Michael Imperioli e Heather Graham.

No geral, é uma séria boa pra assistir despretensiosamente. Se fosse um livro diria para deixar no banheiro para aquela leitura sem compromisso.

Resenha Crítica | A Lição (2014)

A Lição (The Lesson)

Urok, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov

No prólogo de “A Lição”, a professora de inglês Nade (Margita Gosheva) age com rigidez quando atende uma aluna roubada em sala de aula. Ao não ter o ladrão identificado, Nade exige que todos, inclusive ela mesma, a reembolse, cada um com uma moeda. Também dá a oportunidade para o pequeno infrator se redimir, deixando na porta de entrada um envelope em que poderá devolver anonimamente o valor apropriado.

Ao que tudo indica, este ponto inicial do filme já justificaria o seu título, mas aplicar uma lição de moral a uma criança por cometer um ato condenável definitivamente não é a prioridade da dupla de diretores e roteiristas Kristina Grozeva e Petar Valchanov, búlgaros em seu segundo longa-metragem de ficção. É justamente o caráter de Nade que será testado, em uma via-crúcis em que somos convidados a acompanhar.

A cumplicidade com Nade é estabelecida porque não há como não torcer por dias melhores para uma mulher realmente batalhadora, que a todo o instante conta os meros trocados que carrega enquanto dribla uma série de obstáculos, entre os quais o marido, um ex-alcoólatra que gastou todas as economias destinado ao pagamento da mensalidade da casa em troca das manutenções do trailer precário em que dorme. Não é tudo: Nade tem o salário como intérprete sempre adiado, não tem vínculo com o pai que enterrou a sua mãe sem lhe dar uma lápide e faz das tripas coração para cuidar dignamente de sua filha, uma criança de saúde frágil.

A premissa, bem como cada passo de Nade é perseguido, sugere um drama que compreende as características do cinema dos irmãos Dardenne. Não passa de impressão, pois Grozeva e Valchanov estão aqui com uma mulher forte, que jamais implora por piedade e que sequer precisa ser submetida a qualquer espécie de redenção. Pausas para quedas emocionais seriam totalmente justificáveis, mas não há tempo para Nade se dar ao luxo de lamuriar na encruzilhada em que é colocada.

Muito parecida com Noomi Rapace, Margita Gosheva está extraordinária no desafio em viver Nade, que passa a ter um problema ainda maior a partir do ponto que soluciona o anterior. É sufocante vê-la com dificuldades em pagar uma taxa risível para não ter a sua residência tomada pelas autoridades e os acontecimentos que se sucedem, como as consequências por um empréstimo ilegal e os atritos familiares vindo à tona, quase nos fazendo perder as esperanças por uma resolução positiva, não fosse a determinação em Nade em não permitir que as adversidades pisoteiem os seus valores. Um estudo fascinante de personagem e do cenário em que está inserida, bem como um dos melhores filmes deste ano.

Resenha Crítica | Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte (2014)

Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery)

Gemma Bovery, de Anne Fontaine

Há uma série de grandes clássicos da literatura estrangeira que prossegue resistindo ao tempo não somente pelas tragédias que nos arrebatam, mas também pela sedução que há em experimentar durante a leitura a potencialidade de um sentimento humano tão profundo quanto o amor. A desilusão acaba vindo como uma consequência, mas até aí o leitor já se tornou cúmplice de uma entrega irreversível.

Diretora fascinada por “Madame Bovary”, Anne Fontaine fez a excelente escolha de ignorar a possibilidade de fazer mais uma adaptação direta do romance de Gustave Flaubert. Ao invés disso, preferiu se inspirar em um romance de Posy Simmonds chamado “Gemma Bovery”, que traz um personagem contemporâneo testemunhando com muita proximidade a chegada de uma mulher atraente que parece condenada a repetir o martírio emocional de Emma Bovary.

“Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” faz exatamente o que sugere o seu subtítulo: oferecer ao espectador o prazer de uma grande personagem ficcional ganhar vida diante dos olhos de Martin Joubert (Fabrice Luchini), um padeiro entediado que tem como nova vizinha Gemma Bovery (Gemma Arterton), inglesa casada com Charlie (Jason Flemyng). É Martin que revela a essa mulher estonteante a semelhança de seu nome com o de sua heroína trágica favorita e que se ressente em intervir em seu relacionamento extraconjugal com o jovem rico Hervé (Niels Schneider).

As boas sacadas de Posy Simmonds já haviam sido utilizadas no cinema com “O Retorno de Tamara“, uma versão cheia de humor ácido que renova as bases de “Longe Deste Insensato Mundo”, de Thomas Hardy. Felizmente, Gemma Arterton foi lembrada para viver uma segunda personagem de Posy, trazendo novamente a sua exuberância atrelado a um talento dramático nem sempre aproveitado por outros nomes que a dirigiu.

No entanto, os ótimos resultados de “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” devem ser creditados também à Anne Fontaine, que encontrou em uma trama bem fluída e encenada com sofisticação uma aproximação com a sua própria obra, cercada de indivíduos que estimam por alguma turbulência na vida plana em que se acomodaram. Portanto, a identificação não é com a figura de Gemma Bovery/Emma Bovary, mas com o ingênuo Martin, peça essencial de uma resolução cheia de ironia e de surpresas bem pregadas.

Tivemos uma rápida conversa com a cineasta francesa Anne Fontaine durante a sua passagem ao Brasil para promover “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” no Festival Varilux de Cinema Francês. Para ler, clique aqui.

Resenha Crítica | Missão: Impossível – Nação Secreta (2015)

Missão: Impossível - Nação Secreta (Mission: Impossible - Rogue Nation)

Mission: Impossible – Rogue Nation, de Christopher McQuarrie

Tom Cruise quase arruinou a continuidade da franquia “Missão: Impossível” ao protagonizar uma série de embaraços em público momentos antes do lançamento do terceiro capítulo dirigido por J.J. Abrams. De uma hora para a outra, a imagem do astro estava desgastada diante do público, em parte desistindo de vê-lo pela terceira vez como o agente secreto Ethan Hunt.

Cinco anos depois, Tom Cruise fez as pazes com o sucesso, com “Protocolo Fantasma” sugerindo novas possibilidades a “Missão: Impossível”. Aos 53 anos, o ator segue provando que tem um fôlego invejável para continuar vivendo um personagem que exige um preparo físico extremo, mas “Nação Secreta” chega para mostrar que algo se perdeu com os quase 20 anos de “Missão: Impossível”.

As premissas de “Missão: Impossível” certamente sustentariam uma nova versão para a tevê do seriado homônimo concebido por Bruce Geller em 1966, uma vez que elas se dão a partir de ciclos de ameaças que sempre se resolvem no clímax. Ao contrário das novas aventuras de James Bond, não há uma linha dramática que acompanhe Ethan Hunt a cada filme, excetuando somente o seu relacionamento pouco convincente com Julia, personagem de Michelle Monaghan em “Missão: Impossível 3” e “Protocolo Fantasma”.

É exatamente por isso que nos desinteressamos pelos desdobramentos da busca do protagonista pelo idealizador do Sindicato, uma “nação secreta” integrada por alguns agentes secretos altamente treinados não somente para desmartelar a IMF de Ethan Hunt, como também para protagonizar uma série de atentados idealizados por Solomon Lane (Sean Harris), vilão cheio de assuntos mal resolvidos com o seu próprio passado.

Parceiro constante de Tom Cruise, o diretor e roteirista Christopher McQuarrie tem dificuldades em nos inserir no mundo da espionagem, algo patente nos papéis ingratos que delegou a Jeremy Renner e Alec Baldwin, burocratas que defendem a maior parte dos diálogos explicativos do texto. A compensação está na escolha de dois personagens fundamentais e como orquestra a ação.

Deslumbrante, a Ilsa Faust de Rebecca Ferguson talvez seja o grande acerto de “Nação Secreta”, uma personagem com o poder de causar dúvida sobre o seu caráter até a sua última aparição. Resgatar Simon Pegg e o seu hilariante Benji não só garante a espirituosidade da coisa, como também tira Ethan Hunt de sua zona de conforto ao ter o seu emocional testado. Envolvê-los em embates contra inimigos em cenários como uma casa de ópera na Áustria ajuda a manter um interesse por vezes pulsante. Só será preciso impor futuramente algumas intervenções que promovam renovações a uma franquia que não pretende encontrar o seu ponto final tão cedo.