Resenha Crítica | A Floresta que se Move (2015)

A Floresta que se Move

A Floresta que se Move, de Vinicius Coimbra

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Algumas adaptações de grandes clássicos da literatura e teatro andam provando que o melhor a ser feito é transportar a história e os seus personagens para um contexto contemporâneo do que meramente ambientá-los no período imaginado originalmente. Pegando um comparativo recente, tivemos a deliciosa comédia “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” fazendo muita mais justiça à imortalidade da obra de Gustave Flaubert do que a roupagem clássica que a cineasta Sophie Barthes conferiu a sua versão estrelada por Mia Wasikowska.

Temos dezenas de versões cinematográficas de “Macbeth”, com a mais recente estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard e com previsão de lançamento no Brasil para a véspera de ano novo. Para este momento, é a concepção do cineasta Vinicius Coimbra que revitaliza o texto de William Shakespeare. Por um lado, a fidelização ao material não é ignorada, com consequências e diálogos sendo reproduzidos com familiaridade. No outro, “A Floresta que se Move” obtém sucesso ao não manter uma relação de devoção exclusiva a Shakespeare, trazendo boas surpresas narrativas e visuais.

Gabriel Braga Nunes tem um bom momento como Elias, um homem competente com cargo poderoso em um banco cujo dono é Heitor (papel de Nelson Xavier). Um escândalo de desvio de dinheiro, procedido de um suicídio do veterano que o cometeu, faz Heitor selecionar Elias como o vice-presidente da corporação financeira. É justamente a previsão de sucesso feita por uma bordadeira (Juliana Carneiro da Cunha), que substitui as bruxas que ludibriam Macbeth. No entanto, a sua esposa Clara (Ana Paula Arósio, mantendo a excelência e beleza após um hiato de cinco anos) insiste que Heitor deve ambicionar mais, o que acarreta em um crime que irá ruir todo o império construído por este casal.

Um dos aspectos mais fascinantes desta versão moderna de “Macbeth” é o empenho do desenho de produção assinado por Walter Brunialti. A maior parte da encenação se dá em locações no Uruguai, com a casa de vidro de Elias e Clara e os ambientes profissionais estabelecendo alusões com o reino de Macbeth. A sofisticação é também propagada na direção de fotografia de Alexandre Fructuoso e Pablo Baião, que acinzentam as imagens ao ponto de se equiparar com a rusticidade da tragédia shakespeariana.

Ainda trazendo bons achados visuais, como o banho de sangue e as formigas que invadem a sala de Heitor, “A Floresta que se Move” se beneficia com a escolha de Vinicius Coimbra, em parceria com Manuela Dias no roteiro, de compreender o desejo de poder de Elias e Clara na conquista de um império financeiro e ao perturbá-los com ilusões concebidas pelas naturezas corrompidas que carregam. A seriedade com o texto só é comprometida em alguns pontos, como no uso inadequado de bullet time em um momento crucial e o apático desempenho de Rui Ricardo Diaz como o delegado que tumultuará as metas do protagonista.

Bate-papo com o diretor Pedro Severien, de “Todas as Cores da Noite”

Pedro Severien

Fonte: Divulgação/Mostra

 

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Nascido em Recife, Pedro Severien não chegou a sua estreia como diretor em longa-metragem por meio de “Todas as Cores da Noite” sem um preparo prévio. É dele alguns curtas como “Carnaval Inesquecível” e “Canção Para Minha Irmã”. Severien também assinou a produção de “Boa Sorte, Meu Amor”, bem como o roteiro de “País do Desejo”, drama de 2012 com Fábio Assunção, Gabriel Braga Nunes e Maria Padilha.

Na segunda apresentação de “Todas as Cores da Noite”, Pedro Severien se disponibilizou a bater um papo rápido com os espectadores da sala 6 do Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca. A transcrição está disponível a seguir.

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Sobre a construção de “Todas as Cores da Noite”

Todo ambiente urbano tem histórias de violência que são contadas com muita propriedade neste universo oral, mas que não é factual, você não tem acesso, é quase imaterial. São coisas investigadas sem documentação. Isso agitava muito a minha imaginação, tanto para o bem quanto para o mal. Há também uma certa lógica, uma construção de um imaginário de violência complexa. Percebi que esse era um universo que me interessava, que passei a investigar em alguns filmes e com “Todas as Cores da Noite” eu entendi que, para a construção do argumento, eu tinha que lidar com essa essência, que é contar uma história. O filme não tenta elucidar o caso, ele constrói uma espécie de quebra-cabeça a partir de versões que são sempre incompletas, são sempre muito próprias de quem as contam. Eu queria que o espectador fosse convidado a entrar na mente do outro, de quem fala, e com essas imagens como um fluxo mental da personagem que conta a história. Já ao longo do filme, fui buscando uma combinação entre outras formas de contar histórias. Tinha muito interesse nessa versão oral das coisas, por isso o monólogo. É claro que eu não tinha interesse em dar conta de um universo social, construir um painel da realidade social, da necessidade do Brasil. É muito mais sobre o que fica depositado nesse imaginário. Acho que a imaginação é muito ligada a inserção e a rejeição à memória, pois é algo sempre fluido, que nunca para, eu achava que era interessante e que eu poderia caminhar para o fantástico, caminhar para um lugar onde a resolução é outra vez imaterial, não carrega uma resolução física da vida.

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Sobre Sandra Possani

Sandra Possani é realmente uma mestra. Uma atriz gaúcha com uma história no teatro incrível. O monólogo dela foi feito como um desafio. Já havia trabalhado com ela em alguns filmes, então me senti na liberdade de jogar um texto louco. Ela consegue dar uma organicidade a algo muito louco.

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Sobre as referências literárias

O meu primeiro interesse pelo universo artístico foi por meio da literatura. Queria ser escritor. Em 2013, publiquei um livro de contos, e um deles se chama “As Aventuras Românticas de Governo e Metrópole”. O texto do monólogo da Sandra Possani é uma adaptação desse conto. É um jogo de linguagem. O monólogo é uma busca, uma brincadeira, como criar um filme dentro de um filme. Até mesmo na experiência de projeção como esta, cada um cria um filme dentro de sua cabeça, há uma dupla projeção, ninguém vê um filme igual. A gente reconstrói as imagens que está vendo.

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Sobre a dinâmica com o elenco

Para construir esse universo, há uma série de cumplicidade, uma espécie de pacto. O que interessava a mim e que eu desejava compartilhar com o elenco não era necessariamente uma narrativa que desse conta de um determinado tema, mas sim tentar fazer com que as emoções de sofrimento, de desafeto, se manifestassem. Tinha muito interesse por isso, que acontecesse algo ali, não sendo necessariamente uma narrativa no sentido mais clássico do termo. Como se fosse a expressão de algo, de um universo emocional desorientado. A personagem principal está em uma espiral de desorientação. O filme orbita em torno dela, das histórias das personagens. Elas estão orbitando em torno dela tanto no sentido físico da cena quanto até no conceitual das ideias, como um jogo de emoções, de traumas, de imagens que estão circulando na cabeça dela. O filme faz um convite para o espectador entrar neste jogo.

Lançamento de Memórias do Cinema – Um Idioma Universal na 39ª Mostra Internacional de Cinema

Memórias do Cinema - Um Idioma Universal

Memórias do Cinema – Um Idioma Universal
Renata de Almeida (org.)
Editora Brasileira/Produtora Brasileira
464 págs.

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quando se fala com um diretor de cinema, uma das perguntas mais frequentes é sobre as referências que as suas realizações acumulam. Afinal, o ato de ver um filme inspira muitas pessoas, especialmente aqueles que um dia sonham em se aventurar em uma produção cinematográfica, o que implica na revisão da própria bagagem cultural para a construção de uma identidade artística.

A série “Os Filmes da Minha Vida” foi interrompida na edição do ano passado da Mostra. Nela, podemos ler as transcrições integrais de depoimentos de convidados da Mostra que rememoram cada um dos títulos que marcaram as suas trajetórias pessoais e profissionais de algum modo. São lembranças ternas e que felizmente retornam em um livro reestruturado, “Memórias do Cinema – Um Idioma Universal”.

Organizado por Renata de Almeida, atual nome a frente da Mostra após a morte de seu marido, Leon Cakoff, a publicação reúne 18 depoimentos inéditos, todos coletados e transcritos ao longo de dois anos. Lançado pelos selos Editora Brasileira e Produtora Brasileira, “Memórias do Cinema – Um Idioma Universal” conta com as participações de Artur Xexéo, Bráulio Mantovani, Cássio Starling Carlos, Danilo Santos de Almeida, Helvécio Ratton, Ignácio de Loyola Brandão, José Carlos Aveliar, Jean-Michel Frodon, Jia Zhangke, Julio Bressane, Lauro Escorel, Maria do Rosário Caetano, Matheus Nachtergaele, Michel Ciment, Murilo Salles, Tata Amaral, Walter Salles e Zuenir Ventura.

Já disponível, “Memórias do Cinema – Um Idioma Universal” é vendido pelo valor de R$ 35 e terá o seu lançamento realizado amanhã, sexta-feira, na Blooks Livraria SP, às 20h. Uma grata surpresa aos que participarem: o diretor Walter Salles e o ator Matheus Nachtergaele estarão presentes para autógrafos.

Diretores e alguns dos filmes citados em depoimentos:

Bráulio Mantovani: “Cidadão Kane”, “Encurralado”, “A Batalha de Argel”, “Uma Mulher é Uma Mulher”, “O Bandido da Luz Vermelha”.

Jia Zhangke: “Ladrões de Bicicleta”, “Terra Amarela”, “Os Garotos de Fengkuei”.

Julio Bressane: “Aranha”.

Murilo Salles: “8 ½”, “O Encouraçado Potemkin”, “O Ano Passado em Marienbad”, “Blow-up – Depois Daquele Beijo”, “Vidas Secas”.

Tata Amaral: “Independência ou Morte”, “Rio 40 Graus”, “O Grande Momento”, “Roma, Cidade Aberta”, “Acossado”.

Walter Salles: “Luzes da Cidade”, “Tempos Modernos”, “Mamma Roma”, “O Passageiro – Profissão: Repórter”, “Alice nas Cidades”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Não Matarás”.

Serviço:
Blooks Livraria SP
30/10/15, das 20h às 22h
Shopping Frei Caneca, 3º piso, ao lado do cinema
Tel.: (11) 3259-2291

Resenha Crítica | Cruel (2014)

Cruel

Cruel, de Eric Cherrière

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Francês de 41 anos, Eric Cherrière iniciou a carreira como roteirista de dois longas vistos por quase ninguém, “La petite fille aux os brisés” e “Calibre 9”, tendo assim uma carreira mais expressiva como autor de romances policiais. Há agora a tentativa de debutar como diretor de um longa-metragem com “Cruel”, trazendo a tentativa sempre perturbadora de acompanhar os passos de um assassino em série.

Há grandes filmes sobre protagonistas perversos, mas Eric Cherrière definitivamente não atinge o mesmo feito de outros estreantes que lidaram com a mesma abordagem, mas tendo como base figuras reais, como John McNaughton em “Retrato de um Assassino” e Patty Jenkins em “Monster – Desejo Assassino”. É como se estivéssemos diante de um Supercine europeu um pouquinho mais sugestivo em sua violência.

Seria injusto dizer que Jean-Jacques Lelté não está bem na pele de Pierre Tardieu, um quarentão que segue todos os protocolos de um psicopata, como a infância brutalizada e a crença de que sufoca traumas com a morte de inocentes. Se a sua já falecida mãe cometia uma série de abusos, o pai resiste a morte ao atormentá-lo com a sua invalidez, silêncio e misoginia.

São bons os momentos entre assassino e próxima vítima, que sempre frustam a expectativa pela sobrevivência pelo mal encarnado em Pierre. No entanto, qualquer sofisticação digna de um “O Silêncio dos Inocentes” que isso renderia inexiste com o investimento não somente em uma trama policial muito ruim com a incompetência de agentes em localizar evidências, como também em um romance que desencadeia uma queda de ritmo e de estética irreversíveis.

Resenha Crítica | Chronic (2015)

Chronic

Chronic, de Michel Franco

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Vencedor do prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes, o mexicano Michel Franco fez de seu “Depois de Lúcia” um dos filmes mais indigestos daquele ano de 2012 ao acompanhar com uma frieza quase doentia a sucessão de humilhações vivida por sua protagonista, Alejandra (Tessa Ia). Não será com “Chronic” que o realizador de 36 anos atenuará as coisas.

Produção entre México e França falada em inglês, “Chronic” traz o britânico Tim Roth em maravilhoso desempenho como David. Sem vínculos profundos com outras pessoas, David passa as horas que permanece acordado cuidando de pacientes em estágio terminal. Sem nenhuma sentimento de pena, David é tanto a melhor companhia para esses indivíduos como também aquele a lidar de modo mais adequado com situações de embaraço, como a hora do banho ou a troca de roupa suja.

Bem como Alejandra, David é alguém afetado por um passado traumático que nunca fica claro. Sabe-se que uma decisão sua foi crucial para livrar um filho de uma existência dolorosa. É também evidente os laços familiares que foram rompidos a partir disso. Porém, ao invés de recorrer a algumas alternativas positivas para se consolar, a exemplo das tentativas de reaproximação com a sua filha Nadia (Sarah Sutherland), David se martiriza ao cuidar de idosos que já descartaram a esperança de recuperação.

 “Chronic” acompanha as interações entre David e cada um dos enfermos com uma câmera distanciada, que sabe o efeito norteador ao não se solidarizar com as figuras frágeis a sua frente. Ao mesmo tempo, é uma escolha que demostra extremo respeito pelos personagens também desenhados por Michel Franco em um material laureado com o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes neste ano.

O que segue incomodando é a passividade forçada como justificativa para a obscuridade que integra David. Felizmente, não estamos aqui diante da mesma perversidade traumatizante experimentada com “Depois de Lúcia”, mas nenhuma leitura sobre David pode existir neste contexto quando este se recusa a assumir qualquer postura diante de uma acusação de abuso sexual anterior a uma transição de atos. E há também a conclusão, que quase põe a perder o empenho de um elenco exemplar que contorna sem defesas o sofrimento de uma morte não somente física, como também emocional.

Resenha Crítica | Túmulos e Ossos (2014)

Túmulos e Ossos (Grafir & Bein)

Grafir & Bein, de Anton Sigurdsson

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Definitivamente não temos acesso ao cinema da Islândia e o Foco Nórdico da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo vem para preencher esse vazio em cinéfilos que dependem de outros meios para conhecê-lo. O assunto fica ainda mais restrito quando se fala em produções de terror. Já pudermos ver bons representantes vindos da Dinamarca (“Quando os Animais Sonham”) e Suécia (“Deixe Ela Entrar”). Não será “Túmulos e Ossos” um bom exemplar para suprir qualquer lacuna envolvendo a terra natal da Björk.

A história acompanha Gunnar (Björn Hlynur Haraldsson) e Sonja (Nína Dögg Filippusdóttir), um casal em frangalhos. Ele passa por uma crise financeira ao ter o seu nome associado a um processo de ilegalidade em um negócio que mantém com o melhor amigo. Ela segue abatida com a morte prematura da filha que concebeu. De algum modo, a oferta de cuidar da sobrinha de Gunnar, Perla (Elva María Birgisdóttir), no interior da Islândia pode afastá-los da tormenta que arrasou suas vidas. Ou intensificá-la paulatinamente, como será o caso.

Essa premissa básica demora um tempo precioso para ser estabelecida. Quando o terreno para a propagação de sustos está preparado, as coisas pioram ainda mais. O diretor Anton Sigurdsson se deixa levar pelas soluções mais estapafúrdias do gênero, sempre dando a impressão de que definitivamente não está seguro na condução de seu primeiro longa-metragem. Há sempre uma anedota de péssimo gosto quando alguma manifestação sobrenatural parece se anunciar, como o barulho de um vidro se despedaçando para o que será depois um gato andando no porão ou alucinações que não levam a lugar algum.

Há até uma sugestão de que tudo se encaminhará para um horror dramático que tem como principal alicerce a maternidade, mas as conexões da pequena Perla com algo obscuro e as DRs de Gunnar e Sonja são tão enfadonhas que chegamos a um ponto em que não nos importarmos mais com a resolução para tudo. Bem como Anton Sigurdsson, que prepara para o próximo ano um thriller sobre um professor de sociologia e o desaparecimento de uma aluna. Se não chegar aqui, não fará a menor falta.

Resenha Crítica | Madres de los dioses (2015)

Madres de los dioses

Madres de los dioses, de Pablo Agüero

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo realiza um trabalho muito importante ao trazer para o público brasileiro um panorama do cinema mundial. Muitos filmes jamais receberão qualquer tipo de lançamento ou exibição no país e a oportunidade de ver uma grande maravilha pode ser única. Por outro lado, não há como não questionar a presença de alguns títulos, programados somente para enaltecer algum nome. Este é definitivamente o caso do documentário “Madres de los dioses”, do argentino Pablo Agüero, o mesmo de “Salamandra”.

Filha mais velha de Charles Chaplin, Geraldine Chaplin faz uma participação especial em “Madres de los dioses”, em um monólogo que reforça a feminilidade das mulheres que serão flagradas pela câmera na mão de Pablo Agüero. A veterana recebeu no ano passado o Prêmio Humanidade. Nesta edição, ela regressa para integrar o Júri Internacional. Possivelmente, trouxe “Madres de los dioses” na bagagem sem nenhum veto.

De nenhum modo diminuímos a força de Samiha Aguirre, Humana Espectral Amarilla, Maicoño Guitart e María Merino, mas Pablo Agüero definitivamente não as valoriza. Cada uma delas vive em uma aldeia da Patagônia, sem estabelecer qualquer contato com o “mundo exterior”. Constroem casas para si mesmas e para contribuir de algum modo com a humanidade, cantam, colhem, cuidam dos filhos. São também as donas de suas próprias crenças, com odes às treze luas que compõem o ciclo de um ano.

A produção pode até atrair antropólogos ou curiosos por costumes de coletivos isolados, mas definitivamente não funciona como registro audiovisual. Não há assuntos que o sustentem como um longa-metragem e Pablo Agüero é um diretor sem qualquer imaginação. Posiciona essas personagens reais para narrar as suas trajetórias sem naturalidade e a divisão em três capítulos não define sequer atos ou ritmo. Extremamente dispensável.

Resenha Crítica | O Ceifador (2014)

O Ceifador (Kosac)

Kosac, de Zvonimir Jurić

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Há uma série de razões para um filme ser categorizado como ruim. Estamos habituados com produções que subestimam a inteligência do espectador. Há também aquelas que têm como única ambição o êxito financeiro, mesmo que para isso alimente sequências que nada acrescentam ao original. E o que dizer daquelas que são uma soma de fatores que brigam entre si? No entanto, é a constatação de que absolutamente nada justifica a viabilização de um filme que causa uma das frustrações mais incontornáveis.

Temos em “O Ceifador” três protagonistas masculinos. O primeiro é Ivo (Ivo Gregurevic), um senhor que já cumpriu uma pena por ser acusado de estupro. Ele está enclausurado em uma vida banal e antissocial, passando os seus dias em um casarão totalmente desgastado afiando uma foice. Após mais um dia de trabalho em uma colheita, ele oferece ajuda à Mirjana (Mirjana Karanovic), uma cabeleireira que ficou sem gasolina e que misteriosamente perdeu as chaves de seu veículo. Ela aceita o convite de Ivo em aguardar em sua casa até um guincho atendê-la.

Na mesma noite, conhecemos Josip (Igor Kovac), um rapaz que trabalha em um posto de gasolina no qual atendeu Mirjana. Ele a viu se aproximar de Ivo e vai a uma festa com o pressentimento de que alguma coisa poderá dar errada. A terceira ponta do triângulo é Kreso (Nikola Ristanovski), um policial incumbido por Josip a resgatar Mirjana antes que Ivo tome alguma ação criminosa. Na tentativa de conferir maior densidade a Kreso, há também as pressões no lar, com a sua esposa Ana (Lana Baric) a todo o instante sinalizando a sua insatisfação como mãe e esposa.

Se há algum mérito no trabalho do cineasta croata Zvonimir Jurić, ele se concentra unicamente em uma cena verdadeiramente incômoda de Ivo e Mirjana interagindo sobre a mesa. Perguntas banais são feitas, algumas xícaras de chá são tomadas, tentativas de cordialidade são efetivadas e ainda assim há suspeitas de que algo muito cruel pode acontecer no encontro entre esses dois estranhos, especialmente pelo passado conhecido de Ivo.

Jurić traz para as suas insinuações apenas uma observação mundana, sem produzir nela qualquer consequência ou impacto. Faz de “O Ceifador” um filme despido de qualquer virtude cinematográfica. Se há alguma intenção de alegorias ou reflexos da sociedade de seu país ou como ela se organiza – é o que vende a sua sinopse-, ela está dissociada de tudo o que captou. Não se trata do velho caso de perdido na tradução. Simplesmente não existe e não há qualquer interjeição.

Resenha Crítica | Memórias Secretas (2015)

Memórias Secretas (Remember)

Remember, de Atom Egoyan

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Houve um período em que Atom Egoyan se recolheu para refletir profundamente sobre o genocídio armênio, evento que exterminou milhões de inocentes do Império Otomano e também reconhecido como o holocausto armênio. Foi o primeiro cineasta a debater o trágico evento histórico em larga escala com “Ararat”, embora menções também sejam feitas no curta-metragem “A Portrait of Arshile” e em seus segmentos em “Mundo Invisível” e “Venice 70: Future Reloaded”.

Portanto, desenha-se assim uma outra obsessão na obra do cineasta nascido no Egito e naturalizado no Canadá: o compromisso em rever grandes tragédias mundiais por meio da linguagem cinematográfica. A tradução “Memórias Secretas” esconde a advertência do original. Lembre, recorde, não esqueça.

O grande Christopher Plummer merecia ser lembrado nesta temporada de premiações no papel de Zev, o protagonista de “Memórias Secretas”. Senhor de 80 anos em estado avançado de demência, Zev perdeu a esposa Ruth há uma semana, invocando a sua presença toda vez que desperta. Internado em um asilo, Zev é informado pelo colega Max (Martin Landau) sobre um acordo que estabeleceram quando Ruth partisse, que consiste em um plano de vingança contra os nazistas que mataram as suas famílias e que ainda podem estar vivos.

Ao fugir do asilo para cumprir com a promessa, Zev leva uma carta que descreve as ações que deve tomar como uma bússola ao mesmo tempo em que Max gerencia à distância a sua logística. A viagem o leva a quatro destinos que evidenciam um dos segredos do sucesso para um bom thriller: o acesso que o público tem as respostas na mesma velocidade de seu protagonista.

Mesmo desassociado da produção e do texto de “Memórias Secretas”, Atom Egoyan definitivamente se relaciona ao filme com uma marca autoral. É também um passo adiante após os desapontadores “Sem Evidências” e “À Procura“, ambos lançados comercialmente no Brasil no ano passado. O ponto comprometedor só se manifesta na falta de coragem em cortar ou modificar passagens do roteiro do estreante Benjamin August, como os dois minutos adicionais com Martin Landau para uma cena que concluiria adequadamente o filme.

É por isso que a boa reviravolta final não supera as sequências com a participação de Dean Norris no segundo ato de “Mentiras Secretas”. Nesta etapa da história, Max se vê diante de uma herança perversa do holocausto, de sua continuidade. É uma constatação que vem ao som de demolições que revivem os massacres, as humilhações, a irracionalidade. Um recurso dramático brilhante de Egoyan para denunciar que muitas guerras são superadas, mas que nunca deixarão de ecoar nas gerações seguintes.

Resenha Crítica | O Quarto Proibido (2015)

O Quarto Proibido (The Forbidden Room)

The Forbidden Room, de Guy Maddin e Evan Johnson

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Guy Maddin sempre deixou claro o seu interesse por abstrações, pela criação de alegorias imprecisas e pela total falta de comprometimento em se encaixar em um gênero. É recomendável que o espectador esteja ciente dessas regras (ou falta delas?) no cinema do diretor canadense, que em “O Quarto Proibido” nos convida a embarcar na viagem surreal mais longa que já produziu.

São mais de duas horas de metragem e Guy Maddin ainda convoca o seu ex-aluno Evan Johnson como co-diretor. Se é possível definir algum fio condutor em ‘O Quarto Proibido”, a princípio somos capazes de identificar três: a narração didática de um idoso (Louis Negin) sobre banhos, a jornada de um herói (Roy Dupuis) que explora uma caverna cuja única figura feminina se torna fugitiva amnésica e, por fim, a tripulação de um submarino que luta pela sobrevivência ao constatar que tem somente algumas horas de oxigênio.

É difícil avançar com a sinopse, pois são inúmeras as intervenções que pouco ou nada contribuem para o curso das premissas em destaque. O desprendimento possibilita a Guy Maddin entregar algumas depravações certeiras na intenção de provocar risadas, como a de um paciente que tem taras por traseiros ou de um canalha que forja um bigode para o seu filho pequeno para que a sua esposa cega (interpretada por Maria de Medeiros) não note a sua ausência.

O cineasta é também notório pelo experimentalismo visual que impõe em suas obras. “O Quarto Proibido” parece ter sido rodado em Super 8 e cada sequência demanda um filtro de cor distinto. Possivelmente, é a primeira realização que se tem conhecimento de introduzir os créditos do elenco não somente no prólogo ou na conclusão, mas também no período em que cada um faz a sua aparição na tela – os veteranos Mathieu Amalric, Geraldine Chaplin, Charlotte Rampling e Udo Kier são alguns que dão o ar da graça.

Ao contrário de seus filmes menores, a exemplo de “Keyhole“, “O Quarto Proibido” não traz uma sensação de amadorismo, pois aqui há uma imersão em escolhas estéticas que o aproximam da atmosfera dos sonhos. É um deslumbramento que se esvai, provocando um desconforto que renderá muitas desistências durante a sessão. Talvez tivesse maior valia caso fosse mais compacto.