Resenha Crítica | Homesick (2015)

Homesick (De nærmeste)

De nærmeste, de Anne Sewitsky

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Tema tabu, o cinema segue tratando o incesto com uma série de reservas, geralmente associando-o em uma resolução que justifica o comportamento desequilibrado de um personagem de má índole. O que mais incomoda, no entanto, é construir relações que buscam atenuar o peso de uma polêmica. O brasileiro “Do Começo ao Fim”, por exemplo, havia construído um relato de amor entre dois irmãos concebidos pela mesma mãe, mas em relação com homens diferentes.

Algo parecido acontece no norueguês “Homesick”, novo longa-metragem de Anne Sewitsky, conhecida no Brasil por “Happy Happy”. Charlotte (Ine Marie Wilmann) é uma professora de balé de 27 anos em um período de estados de espírito destoantes e extremos. No primeiro instante, a flagramos celebrando o casamento da melhor amiga Marte (Silje Storstein). Um pouco adiante, a vemos em conflito com a mãe (Anneke Von Der Lippe) e em contato com o pai, que definha em uma ala hospitalar.

Para tumultuar ainda mais as coisas, Henrik (Simon J. Berger) entra em sua vida, havendo entre eles uma sintonia imediata. A questão é que Henrik, que encontra residência em Oslo, não é somente um marido e um pai, como também o meio-irmão de Charlotte. Se já não bastasse a dificuldade da situação, Charlotte continua em um relacionamento sério com o irmão de Marte, interpretado por Oddgeir Thune.

Autora do roteiro em parceria com Ragnhild Tronvoll, Anne Sewitsky encara Henrik não como alguém com o mesmo sangue que Charlotte e sim como um “estrangeiro”, um sujeito que brota em sua vida sem aviso prévio. É como se “Homesick” desejasse que o incesto fosse encarado não como o tema central, mas como um elemento adicional em seu drama. O fato é que absolutamente nenhum conflito chega a ressoar, a trazer alguma relevância que nos arrebate, restando somente a atriz Ine Marie Wilmann algum crédito pelo esforço em conferir alguma empatia para um filme cercado de desdobramentos e personagens intragáveis.

Resenha Críutica | Nós Monstros (2015)

Nós Monstros (Wir Monster)

Wir Monster, de Sebastian Ko 

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Como é comum nas maratonas de grandes festivais de cinema, sempre há aquela busca em identificar na seleção de títulos vindos de todos os cantos do mundo um tema em comum que repercuta na sociedade em geral. O sentimento de impunidade diante de um crime foi bastante discutido em algumas produções e em “Nós Monstros” ele se dá a partir da decisão dos pais em ocultar um assassinato cometido pela própria filha adolescente.

A filha, no caso, é Sarah (Janina Fautz), que diz ter empurrado a melhor amiga Charlie (Marie Bendig) de uma ponte, fato que toma a ação nos dez minutos iniciais. Nesta ocasião, o pai de Sarah, Paul (Mehdi Nebbou), estava próximo ao local como um carona para as duas garotas. Não encontrando o corpo de Charlie na parte rasa do rio, recomenda que o melhor a fazer é negar que ela os encontrou durante todo o dia.

Christine (Ulrike C. Tscharre), mãe de Sarah e ex-mulher de Paul, também acredita que esta é a melhor decisão. É evidente que essa postura irá perturbá-los a cada minuto e manter as aparências se transformará em um fardo, especialmente com uma indiferença por parte de Sarah que a aproxima de uma psicopata e com as intervenções do pai de Charlie (Ronald Kukulies).

Embora seja inevitável se distrair até que os desdobramentos dos comportamentos questionáveis dos personagens se apresentem, é clara certa inexperiência do alemão Sebastian Ko na condução de sua própria dramaturgia. A sua premissa promissora já oferece grande parte das ferramentas para entregar um ótimo conto moral, mas chega um instante em que ligar pontos com excesso de acasos extrapola o limite do tolerável. Talvez alcançasse resultados mais favoráveis caso abraçasse sem ressalvas o humor negro, com o qual flerta com atraso no epílogo.

Resenha Crítica | A Visita (2015)

A Visita (The Visit)

The Visit, de M. Night Shyamalan

Provavelmente, desde Michael Cimino que Hollywood não testemunha uma ascensão e queda tão vertiginosa quanto a de M. Night Shyamalan. O indo-americano havia produzido dois longas (“Praying with Anger” e “Olhos Abertos”) que ninguém viu e abalou as estruturas do cinema com “O Sexto Sentido”. Os sucessos posteriores de “Corpo Fechado” e “Sinais” o tornaram capa da revista Newsweek, onde se lê a chamada “The Next Spielberg”, o próximo Steven Spielberg. Hoje, a previsão é encarada como uma piada quase tão hilária quanto os últimos filmes do diretor.

Se a fábula “A Dama na Água” e o mistério ecológico “Fim dos Tempos” ainda é defendido com fervor por alguns fãs, o mesmo não pode ser dito sobre os desastres fantásticos “O Último Mestre do Ar” (adaptação da minissérie animada “Avatar”) e “Depois da Terra”. Neste ano, Shyamalan parece finalmente ensaiar uma volta por cima, lidando com projetos menores após a rejeição dos grandes estúdios. Investiu na tevê como produtor executivo de “Wayward Pines”, com uma temporada de 10 episódios com boas críticas – ele próprio dirigiu o piloto. Com “A Visita”, consegue o feito de ter um dos lançamentos mais lucrativos do ano.

Com o desejo de retomar o controle criativo de seus filmes, Shyamalan produziu “A Visita” quase na surdina, com o orçamento minúsculo de 5 milhões de dólares e dentro da estética do found footage. Na história, Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) são irmãos enviados pela mãe (Kathryn Hahn) para a casa dos avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie), pois ela passa por um período delicado e decide entrar em férias para relaxar um pouco.

Becca e Tyler têm conhecimento das desavenças que a mãe deles passou com os seus avós ao abandoná-los ainda na juventude, o que já estabelece certa tensão quando eles chegam por conta própria na casa deles. Amáveis, Nana e Pop Pop sequer se incomodam com o fato de Becca trazer consigo uma câmera para a realização de um documentário – ela tem o desejo de atuar profissionalmente como uma diretora quando mais velha. Os problemas se concentram nos hábitos estranhos desse casal de idosos, ainda mais sinistros no curso da noite.

Como em seus grandes filmes, M. Night Shyamalan confere em “A Visita” as suas maiores virtudes como diretor e roteirista. Como poucos, constrói uma linha progressiva de tensão com ameaças palpáveis. Também extrai o melhor de seu elenco, com destaque especial para Ed Oxenbould, Kathryn Hahn e a assustadora Deanna Dunagan. Só não vai mais adiante justamente pelo formato, que parece aprisioná-lo no desenrolar de alguns acontecimentos que seriam ainda mais assustadores caso a câmera tivesse posicionada em um ponto mais privilegiado.

Não poderia faltar a “reviravolta Shyamalan”, aquela que desconcerta o público ao pegá-lo totalmente desprevenido diante de uma revelação difícil de se antecipar. Felizmente, ela vem carregada com uma brutalidade arrepiante e com um discurso contundente e emotivo sobre famílias destroçadas, tema caro na filmografia de Shyamalan. Ressalvas à parte, é um belo retorno à boa forma.

Resenha Crítica | Aliança do Crime (2015)

Aliança do Crime (Black Mass)

Black Mass, de Scott Cooper

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Está certo que um episódio de 2011 essencial para o histórico de James Joseph “Whitey” Bulger Jr. possa servir de justificativa, mas ainda assim impressiona que o cinema ainda não tenha criado uma ficção dedicada em narrar a vida desse irlandês que já foi um dos criminosos mais procurados pelo FBI. Pois chegou o momento e ninguém menos que Johnny Depp é escalado para incorporar essa violenta figura real.

Dado como o ator mais camaleônico em Hollywood, Johnny Depp enfadou o público justamente por essa distinção. De uma hora para a outra, o sucesso da franquia “Piratas do Caribe” acomodou o ator na opção de viver personagens carregados na caracterização e nos trejeitos, dando a sensação de que víamos o ator vivendo o mesmo papel com pequenas variações. Em “Aliança do Crime”, o mesmo processo de construção trabalha em favor de Deep, especialmente por Whitey ser, acima de tudo, uma criatura palpável.

Whitney cresceu com o também irlandês John Connolly (Joel Edgerton) nas ruas de Boston. No entanto, o destino fez com que traçassem caminhos distintos, com Whitney convertendo-se em padrinho da máfia irlandesa e John buscando uma ascensão no FBI. São sujeitos que vão se reencontrar, cada um com um interesse particular. John não é ingênuo e conhece muito bem os trabalhos escusos de Whitney e ainda assim o transforma em informante para desbancar a criminalidade da cidade. Isso só traz vantagens para Whitney, que, na surdina, faz os seus negócios de extorsão e tráfico de drogas prosperarem rapidamente.

“Aliança do Crime” é somente o terceiro longa-metragem dirigido por Scott Cooper, que possuía um currículo inexpressivo como ator antes de seu debut em “Coração Louco”. É o seu melhor filme por trás das câmeras, embora o sentimento seja de que esse americano de 45 anos ainda não chegou lá.

 A execução da violência nua e crua é um instinto que habita a natureza de Whitney, que eliminava “dedos-duros”, inimigos e devedores com uma frieza que aterroriza. Em “Aliança do Crime” essa característica é parcialmente abafada ao priorizar mais a versão de Whitney como informante do que como criminoso. Como consequência, uma teia com personagens coadjuvantes é tecida, garantindo que grandes atores se sobressaiam, como Julianne Nicholson vivendo a esposa de John Connolly e Corey Stoll como a figura ética que dará novos contornos à trama. No entanto, é incômodo ver Whitey assumindo uma função secundária de sua própria história.

Resenha Crítica | Garoto (2015)

Garoto

Garoto, de Júlio Bressane

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Ao exibir “Educação Sentimental” na 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Júlio Bressane de algum modo previu os rumos que o seu cinema tomaria ao relatar que o seu filme foi o último rodado em película a ser trabalhado em um laboratório que, na sequência, fechou as portas. “Passou o cinema da transparência para a opacidade.” Dois anos depois, temos “Garoto”, agora com Bressane abraçando os experimentalismos do digital.

Livremente inspirado em “O Assassino Desinteressado Bill Harrigan”, conto de Jorge Luis Borges presente na coletânea “História Universal da Infâmia” (publicada pela Companhia das Letras em 1995), “Garoto” acompanha um homem e uma mulher interpretados por Gabriel Leone e Marjorie Estiano. Ele emudece enquanto ela é só devaneios, aqueles já típicos de Bressane e a sua parceira Rosa Dias.

Na realidade, há um jogo erótico entre esses dois gêneros, esses irmãos, em meio às folhas que despencam das árvores que cercam o ambiente árido. Da saída desse breve isolamento, surge uma terceira figura feminina, feita por uma Josi Antello que praticamente revive a sua Áurea de “Educação Sentimental”. E então, consuma-se um crime que fará esse casal retroceder tanto no tempo quanto no espaço.

Outra vez Bressane pauta a sua obra em comportamentos que reaproximam os seus personagens contemporâneos de uma ancestralidade que provoca a constatação de que nós pouco progredimos. Vê-se também a mulher como uma representação da liberdade, do conhecimento, de sua fuga do homem de seu estado primitivo permanente. As tatuagens expostas de Marjorie incomodam, mas ela é dona de uma intensidade que reduz ainda mais Gabriel, que nada deve a ruindade proposital dos desempenhos de Bernardo Marinho em “Educação Sentimental” ou mesmo de Selton Mello em “A Erva do Rato”.

É como se “Garoto” fosse também uma releitura do conto bíblico de Adão & Eva, com a mulher conduzindo o homem para a civilização enquanto este a arrasta sem rumo para um mundo onde nada mais resta do que rochas, seca e escuridão. É uma pena que as possibilidades de interpretação sejam sufocadas com o vazio dos ambientes que os protagonistas transitam, fazendo com que “Garoto” atinja o seu limite após uma primeira metade enxuta e valiosa. Talvez o ponto de comprometimento seja pertencer ao projeto Tela Brilhadora, que ainda traz o documentário “Origem do Mundo”, em que Moa Batsow estuda a arte rupestre a partir das locações de “Garoto”.

Resenha Crítica | Olhos da Justiça (2015)

Olhos da Justiça (Secret in Their Eyes)

Secret in Their Eyes, de Billy Ray

Ótimo diretor, Billy Ray acabou pendendo mais para o ofício de roteirista, sendo indicado no Oscar nesta função com o texto adaptado de “Capitão Phillips”. Não se sabe as razões dessa decisão, pois “O Preço de Uma Verdade” e “Quebra de Confiança” foram recebidos com entusiasmo pelo público e crítica. O seu retorno na direção de um longa-metragem vem com “Olhos da Justiça”, talvez o movimento mais ousado de sua carreira.

O título original tenta esconder, mas todos já sabem que estamos diante da refilmagem americana para o argentino “O Segredo dos Seus Olhos”, filme de Juan José Campanella laureado em 2010 com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Novas versões para obras ainda frescas no imaginário coletivo raramente rendem resultados positivos, como bem provam “Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, “Quarentena” e “Deixe-me Entrar”.  Felizmente, “Olhos da Justiça” sabe ser fiel ao material original e escolheu um bom contexto para situar as duas linhas do tempo que correm paralelamente.

No período atual, temos o protagonista Ray (Chiwetel Ejiofor) flagrado em um momento em que uma descoberta o faz se reconectar a pessoas essenciais quando exercia o papel de investigador do FBI, sendo elas a supervisora Claire (Nicole Kidman), pelo qual tem um amor não declarado, e os parceiros Jess (Julia Roberts), Bumpy (Dean Norris) e Siefert (Michael Kelly). Simultaneamente, a trama retrocede 13 anos para sabermos o que atingiu este núcleo.

Já no primeiro ato, o mistério é elucidado. 2002 foi um ano sensível para os Estados Unidos, com o país em situação de alerta após os atentados do 11 de setembro. Um assassinato é investigado pela equipe de Ray e revela-se que a vítima foi Kit (Lyndon Smith), a única filha de Jess. O principal suspeito é o jovem Marzin (Joe Cole), que atua como informante em uma mesquita com membros que o FBI julga como terroristas em potencial. Esse fato prejudica o andamento de uma punição, pois uma autoridade da unidade, Martin Morales (Alfred Molina), não quer arruinar a sua reputação como líder de uma operação com a exposição de um colaborador com potencial de psicopata. Daí a narrativa não seguir uma ordem cronológica, pois Ray retorna crente de que encontrou Marzin, que aparentemente se submeteu a uma cirurgia plástica para não ser reconhecido e detido.

As comparações com o original são inevitáveis quando Billy Ray reprisa cenas-chave. O fabuloso plano-sequência de uma perseguição no estádio de futebol é reencenada em “Olhos da Justiça” com cortes e sem a mesma tensão. Também não soma a trilha sonora de Emilio Kauderer, compositor em “O Segredo dos Seus Olhos”. De qualquer modo, Billy Ray, que conseguiu trazer Juan José Campanella a bordo para a produção executiva, acerta nas atualizações e conta com grandes nomes para os papéis principais.

Chiwetel Ejiofor é um ator pelo qual nos envolvemos com facilidade, representando o desejo da audiência em desrespeitar regras de interesse para cumprir o desejo de se fazer justiça. O carisma também é um dos fortes de Dean Norris, que colhe os frutos com a sua participação em “Breaking Bad” com várias propostas para cinema – esteve excelente no também recente “Memórias Secretas”. Por fim, há Nicole Kidman e Julia Roberts, sendo aquelas que mais refletem em cena o peso que o tempo teve para as suas personagens. São também submetidas a momentos de maior densidade, como o da Claire de Nicole no interrogatório com Marzin e a Jess de Julia ao abraçar o corpo sem vida de sua filha em uma caçamba. A sobriedade presente na conclusão surpreendente também colabora para “Olhos da Justiça” deixar uma impressão forte e positiva.

 

Os 10 Melhores Filmes da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Às 20h30 desta quarta-feira, o CineSesc exibe “A Grande Guerra”, do cineasta italiano Mario Monicelli. Não só o último filme da repescagem, como também aquele que marca a despedida da 39ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Desde o dia 22 de outubro, a Mostra trouxe ao público mais de 300 títulos, entre os quais os principais destaques em festivais internacionais de cinema, uma série de representantes do cinema nórdico e grandes clássicos em versões restauradas.

Embora o Cine Resenhas faça a cobertura da Mostra desde a sua 36ª edição, neste ano o mergulho no panorama do cinema mundial foi intenso, com 65 títulos assistidos ao longo das últimas três semanas. A calmaria agora se impõe, com São Paulo voltando a sua programação normal de lançamentos e outros festivais, mas a Mostra continuará sendo a principal pauta desse espaço ao longo de novembro, com análises diárias dos filmes assistidos.

Para hoje, decidimos antecipar a nossa lista de filmes favoritos vistos na Mostra. Entretanto, adotamos um formato diferente das edições anteriores, convidando alguns colegas da blogosfera e companhias em sessões e em breves intervalos para compartilharem as suas preferências em um top 10. As escolhas estão disponíveis a seguir.

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Os 10 melhores filmes da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo segundo o Cine Resenhas:

1. Magical Girl, A Garota de Fogo, de Carlos Vermut +
2. Mistress America, de Noah Baumbach +
3. Chave Casa Espelho, de Michael Noer
4. Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler
5. Pervert Park, de Frida Barkfors e Lasse Barkfors
6. Krisha, de Trey Edward Shults
7. O Idealista, de Christina Rosendahl
8. Vovó Está Dançando na Mesa, de Hanna Sköld
9. Memórias Secretas, de Atom Egoyan +
10. Pardais, de Rúnar Rúnarsson

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Adriano Garrett, Cine FestivaisAdriano Garrett, editor do Cine Festivais
1. Trilogia As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes
2. Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira
3. Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba
4. O Touro, de Larissa Figueiredo
5. Ixcanul, de Jayro Bustamante
6. Três Lembranças da Minha Juventude, de Arnaud Desplechin
7. Paulina, de Santiago Mitre
8. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
9. Pardais, de Rúnar Rúnarsson
10. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo

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Cecilia Barroso, Cenas de CinemaCecilia Barroso, editora do Cenas de Cinema
1. Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira
2. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
3. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo
4. Pardais, de Rúnar Rúnarsson
5. A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson
6. Ixcanul, de Jayro Bustamante
7. O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra
8. Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob
9. Flocking, de Beata Gärdeler
10. As Mil e Uma Noite: Volume 2 – O Desolado, de Miguel Gomes

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Christian Barroso, loucoporcinemaChristian Barroso, @loucoporcinema
1. John From, de João Nicolau
2. Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira
3. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
4. As Mil e Uma Noite: Volume 2 – O Desolado, de Miguel Gomes
5. É o Amor, de Paul Vecchiali
6. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo
7. Pardais, de Rúnar Rúnarsson
8. Aferim!, de Radu Jude
9. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
10. Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira

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Hélio Flores, Sobre Séries Ligado em SérieHélio Flores, editor do Sobre Séries e colaborador do Ligado em Série
1. Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira
2. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
3. Sob Nuvens Elétricas, de Aleksey German Jr
4. John From, de João Nicolau
5. Para o Outro Lado, de Kiyoshi Kurosawa
6. Mistress America, de Noah Baumbach
7. Ryuzo e os Sete Capangas, de Takeshi Kitano
8. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo
9. Três Lembranças da Minha Juventude, de Arnaud Desplechin
10. Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira

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Márcio Sallem, Em CartazMárcio Sallem, editor do Em Cartaz
1. O Filho de Saul, de László Nemes
2. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo
3. Chronic, de Michel Franco
4. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
5. Virgin Mountain, de Dagur Kári
6. A Bruxa, de Robert Eggers
7. As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
8. Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler
9. Califórnia, de Marina Person
10. Aspirantes, de Ives Rosenfeld

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Paulo Costa, Cine & CiaPaulo Costa, editor do Cine & Cia
1. Camino a La Paz, de Francisco Varone
2. O Filho de Saul, de László Nemes
3. O Retorno, de Björn Hlynur Haraldsson
4. A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson
5. Duas Noites, de Mikko Kuparinen
6. Desde Allá, de Lorenzo Vigas
7. Body, de Malgorzata Szumowska
8. Voltando Para Casa, de Henrik Martin Dahlsbakken
9. A Bruxa, de Robert Eggers
10. Labirinto de Mentiras, de Giulio Ricciarelli

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Pedro Strazza, O Nerd Contra-AtacaPedro Strazza, editor de O Nerd Contra-Ataca
1. Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira
2. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo
3. Virgin Mountain, de Dagur Kári
4. Ixcanul, de Jayro Bustamante
5. Bone Tomahawk, de S. Craig Zahler
6. Mistress America, de Noah Baumbach
7. Sob Nuvens Elétricas, de Aleksey German Jr
8. Para o Outro Lado, de Kiyoshi Kurosawa
9. É o Amor, de Paul Vecchiali
10. O Evento, de Sergey Loznitsa

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Rodrigo Mathias, Cinematographico Diário de Dois CinéfilosRodrigo Mathias, ex-editor do Cinematographico e Diário de Dois Cinéfilos
1. O Filho de Saul, de László Nemes
2. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
3. Virgin Mountain, de Dagur Kári
4. As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
5. The Paradise Suite, de Joost van Ginkel
6. A Bruxa, de Robert Eggers
7. Para o Outro Lado, de Kiyoshi Kurosawa
8. Ixcanul, de Jayro Bustamante
9. John From, de João Nicolau
10. Sabor da Vida, de Naomi Kawase

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Tiago Paes de Lira, Tem Um Tigre no CinemaTiago Paes de Lira, editor do Tem Um Tigre no Cinema
1. O Filho de Saul, de László Nemes
2. A Bruxa, de Robert Eggers
3. Ixcanul, de Jayro Bustamante
4. Imagine Acordar Amanhã e a Música Ter Desaparecido, de Stefan Schwietert
5. O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra
6. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
7. Chronic, de Michel Franco
8. Mama Gogo, de Friðrik Þór Friðriksson
9. Longo Caminho Rumo ao Norte, de Rémi Chayé
10. Nós Monstros, de Sebastian Ko

Yuri Deliberalli, Discurso Cinematográfico

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Yuri Deliberalli, editor do Discurso Cinematográfico
1. John From, de João Nicolau
2. Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira
3. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
4. É o Amor, de Paul Vecchiali
5. Para o Outro Lado, de Kiyoshi Kurosawa
6. Sob Nuvens Elétricas, de Aleksey German Jr
7. Aferim!, de Radu Jude
8. O Apóstata, de Federico Veiroj
9. Três Lembranças de Minha Juventude, de Arnaud Desplechin
10. Ao Longo dos Anos, de Nikolaus Geyrhalter

Resenha Crítica | Absorvição (2015)

Absorvição (Henkesi edestä)

Henkesi edestä, de Petri Kotwica

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Com cinco longas no currículo, o cineasta Petri Kotwica é apresentado pela primeira vez ao público brasileiro com “Absorvição”. A produção finlandesa foi um dos destaques do Foco Nórdico da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e também confere um tema recorrente na seleção de filmes para a edição: as ações inadequadas que assumimos a partir de um acidente.

Autor do roteiro ao lado de Johanna Hartikainen, Petri Kotwica definitivamente não alivia a barra. Temos como protagonista Kiia (Laura Birn, muito parecida com a atriz Gwyneth Paltrow), casada com o padre Lauri (Eero Aho) e grávida de seu primeiro filho. Após uma celebração na igreja, Kiia exige dirigir o carro, pois Lauri tomou algumas taças de champanhe acima do recomendável para conduzir um veículo.

De repente, Kiia entra em trabalho de parto prematuro e as dores das contrações a fazem atropelar algo a caminho do hospital. Lauri sai do veículo e retorna assegurando que ela atingiu um veado que andava pela estrada. Eis que somos apresentados a Hanna (Mari Rantasila, ótima) e logo descobrimos que a vítima foi o seu companheiro, Timo (Teijo Eloranta). Há o encontro entre essas duas mulheres. E a despedida é desconcertante, pois Kiia sai dele comemorando a saúde do bebê enquanto Hanna parece preparada para o luto.

Ao não fazer mistério sobre o acidente, “Absorvição” imediatamente posiciona os personagens em uma encruzilhada. Kiia é bem-intencionada, mas não quer assumir para Hanna a autoria do acidente quando todas as evidências a apontam como culpada. Lauri adota a imunidade religiosa e foge da responsabilidade como o diabo da cruz. E Hanna definitivamente não está confortável no papel desolador de uma esposa vendo o seu amado definhando. Se não é um grande filme, “Absorvição” merece ser descoberto por não recuar diante de suas consequências severas, dignas de um bom conto moral.

Resenha Crítica | Mistress America (2015)

Mistress America

Mistress America, de Noah Baumbach

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Hoje um dos principais expoentes do cinema independente americano, Noah Baumbach está mantendo um ritmo de trabalho impressionante. No último ano, nada menos do que quatro projetos com a sua assinatura já chegaram ao público. Além de “Enquanto Somos Jovens”, Baumbach é produtor de “Um Amor a Cada Esquina” e divide com Jake Paltrow a direção do documentário “De Palma”, sobre o extraordinário cineasta de “Scarface” e “Carrie – A Estranha”. O quarto e último projeto é “Mistress America”, que estreia dia 19 de novembro nos cinemas brasileiros e o melhor trabalho desse realizador nascido no Brooklyn.

Mesmo com seguidores fiéis, Baumbach continua sendo desprezado por uma parcela de audiência, talvez incômoda com o painel de figuras nem um pouco modestas com as bagagens intelectuais que carregam e com a amargura que destilam diante da constatação de que estagnaram na vida. As irmãs vividas por Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh em “Margot e o Casamento” parecem usar as frustrações pessoais como combustível para se ferirem e o fracasso sempre ofusca o espírito contagiante de Greta Gerwig em “Frances Ha”.

Em “Mistress America”, Lola Kirke (de “Garota Exemplar” e uma mistura de Elizabeth Olsen com Rashida Jones) e Greta Gerwig descobrem-se meias-irmãs quando a mãe da primeira anuncia que se casará com o pai da segunda. Lola é Tracy, caloura em uma universidade prestigiada de Nova York obstinada em entrar com o seu colega Tony (Matthew Shear) em um rígido clube de leitura. E Greta é Brooke, trintona que se revela uma profissional multifacetada ao atuar em vários campos, mas ainda com dificuldades em seguir uma linha reta para ir até o fim com uma única meta, sendo a da vez a abertura de um restaurante.

Tracy nunca teve a atenção de alguma pessoa que exercesse uma forte influência em suas tomadas de decisões. Brooke vem para não somente preencher esse vazio, como também servir de modelo para a criação de “Mistress America”, o conto com o qual pretende arrebatar as atenções de seus colegas universitários. Porém, a Brooke de sua história não é construída de modo muito lisonjeiro, mas a inevitável revelação disso será apenas uma das várias bombas que irão explodir quando ela decidir retomar um assunto mal resolvido de seu passado.

Explica-se: Brooke ainda guarda ressentimentos de sua ex-melhor amiga, Mamie-Claire (Heather Lind). Brooke não apenas alega que ela roubou a sua ideia próspera de estampas para camisas, como também uma antiga paixão, Dylan (Michael Chernus). Eis que ela vai ao encontro desse agora casal para uma reconciliação e um acordo de viabilização para o seu restaurante.

Longe do aconchego do apartamento de Brooke e do campus universitário que Tracy habita, Noah Baumbach seleciona uma bela casa de vidro como o principal cenário de “Mistress América” a partir do segundo ato. E é nela que o filme, que já estava excelente, atinge um estado de graça irretocável, introduzindo ainda outros personagens secundários, como a namorada controladora de Dylan, Nicolette (Jasmine Cephas Jones), Harold (Dean Wareham), o vizinho bisbilhoteiro, e a amiga gestante de Mamie-Claire, Karen (Cindy Cheung).

Nunca se viu Noah Baumbach tão certeiro na mise-en-scène e nos diálogos, estes também assinados por Greta Gerwig e disparados como balas de uma metralhadora. E é exatamente aí que “Mistress America” vai deixando um gosto amargo. É um filme tão sincero e espontâneo em suas intenções que 84 minutos de duração parecem insuficientes. O desejo é o de ficar acompanhando esses personagens instáveis o dia inteiro.

Resenha Crítica | De Longe Te Observo (2015)

Desde allá, de Lorenzo Vigas

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Presidido por Alfonso Cuarón, o júri deste ano do Festival de Veneza laureou “De Longe Te Observo” com o Leão de Ouro, prêmio máximo do evento italiano. É a primeira vez que uma produção latino-americana obtém o feito e imediatamente a honraria foi associada pela imprensa a um ato de favorecimento a uma obra vinda do mesmo continente de seu presidente.

As suspeitas são intensificadas com o fato de Lorenzo Vigas ser um realizador de primeira viagem, tendo os veteranos Marco Bellocchio (“Sangue do Meu Sangue”), Atom Egoyan (“Memórias Secretas”), Amos Gitai (“Rabin, the Last Day”) e Jerzy Skolimowski (“11 Minutos”) como alguns dos competidores. De qualquer modo, é natural festivais como o de Veneza, com todas as ambições de promover atos políticos por meio da arte cinematográfica, serem alvos desse tipo de recepção e, verdade seja dita, “De Longe Te Observo” é um filme digno de louros pelo que é até os seus cinco minutos finais.

O extraordinário Alfredo Castro prova mais uma vez ser um dos grandes atores em atividade na pele de Armando, um senhor aparentemente polido que tem como prazer secreto pagar rapazes desfavorecidos para se despirem diante de si em seu apartamento. Funcionário em uma mecânica e marginal com o desejo de comprar um carro, Elder (Luis Silva) é abordado por Armando, mas quebra o padrão de passividade dos rapazes ao agredi-lo.

Esses personagens voltarão a se reencontrar e Lorenzo Vigas, em um roteiro que teve o seu argumento também assinado por Guillermo Arriaga, constrói com muito cuidado o relacionamento que ambos vão construindo com inúmeras resistências. Em comum, Armando e Elder são filhos de homens que os negligenciaram no processo de formação da própria identidade. Armando não verbaliza essa ausência de afeto, mas ela é clara. O oposto faz Elder, que chega a assumir que, caso se tornasse um pai, bateria em seus filhos para eles aprenderem que a vida não é justa.

Armando e Elder são personagens surpreendentes e críveis, reflexos de uma sociedade com a instituição familiar em declínio e vividos por atores soberbos –  com Luis Silva com uma pequena vantagem diante de seu co-protagonista por ser um iniciante que compreende muito bem os dramas de seu personagem. É uma pena que a química entre figuras tão dispares corrobore para um fim amargamente preguiçosa ao propor questões desinteressantes ao público e que nada soma ao papel de cúmplices que assumimos com tanta entrega antes de sua resolução em aberto.