Os 10 Piores Filmes de 2015

Alguns compromissos e estudos nos fizeram preterir os lançamentos por alguns clássicos e filmografias em particular no curso de 2015. Portanto, somente nas últimas semanas do ano nos preparamos para uma repescagem, com tudo aquilo de essencial que perdemos durante a passagem no circuito comercial ou mesmo em homevideo.

O empenho em correr atrás desses filmes que devem ser vistos antes de fechar uma lista de melhores nos tranquilizou, no sentido de que a nossa relação de piores está inalterada desde agosto. Portanto, a meta de ser mais seletivo surtiu um efeito positivo, com potenciais bombas sendo evitadas.

Ainda assim, elas existem e podem se revelar até mesmo em filmes que aguardamos com alguma expectativa ou no desafio da cobertura jornalística em um lançamento. Grande parte dos títulos a seguir se encaixa nessas condições e, por isso mesmo, buscamos (des)privilegiar o que houve de pior no cinema em 2015, seja no circuito alternativo, seja em títulos que predominam as salas de shoppings.

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Adeus à Linguagem#01. Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard +

Como um experimento, “Adeus à Linguagem” pode se comportar como um estudo curioso (e nada mais do que isso) sobre a predominância do digital e o quanto as transições do cinema fazem muitos diretores reavaliarem as novas possibilidades para contar uma história. Como cinema, “Adeus à Lingaugem” é um registro triste sobre Jean-Luc Godard desaprendendo o seu ofício, acreditando que vomitar citações de Darwin, Faulkner e Sartre e de distorcer as músicas de Bethoveen e Tchaikovsky são recursos para engrandecer personagens que carecem de uma alma. Uma agressão aos sentidos.

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Loucas Pra Casar#02. Loucas Pra Casar, de Roberto Santucci

Existe extremismo quando se fala das comédias com o selo Globo Filmes, como se todas fossem abomináveis ou meras transposições para o cinema de projetos televisivos. A verdade é que títulos como “Até que a Sorte nos Separe” e “Minha Mãe é Uma Peça – O Filme” fazem sucesso devido às premissas com temas que conseguem cativar, como a dificuldade de administração de fortunas daqueles que enriquecem da noite para o dia ou os exageros do zelo maternal. Não é o que acontece em “Loucas Pra Casar”, uma comédia que só nos perturba com o embate entre três mulheres histéricas para conquistar o mesmo homem. A surpresa final, que chegou a ser comparado com “O Sexto Sentido” por Ingrid Guimarães, só embaraça o que já estava irreversivelmente constrangedor. Além do mais, é impossível não namorar com a tecla “ejetar” quando “Happy”, de Pharrell Williams, é tocada pela enésima vez.

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O Amuleto#03. O Amuleto, de Jeferson De

Filmes estrangeiros de terror fazem um sucesso imenso no Brasil. Ainda assim, a nossa produção pena para produzir os seus próprios representantes do gênero. As coisas estão mudando um pouco, mas ainda há muito a ser feito. A existência de “O Amuleto” é um exemplo. Sem nenhuma experiência prévia que comprove o seu tino para o gênero, Jeferson De (“Bróder”) subverte as “regras” ao antecipar para o primeiro ato os danos de seu mistério somente para rechear as consequências dessa escolha com chavões surrados. Além de adolescentes aborrecidos, os personagens centrais de “O Amuleto” são daqueles que não conseguem demonstrar qualquer amadurecimento nos diálogos que entonam e ainda têm uma facilidade risível de se perderem em meio a floresta a partir de ações como tirar a água do joelho. Para cada Marco Dutra ou Rodrigo Aragão, haverá sempre um “O Amuleto” para retardar o nosso progresso.

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Cinquenta Tons de Cinza#04. Cinquenta Tons de Cinza, de Sam Taylor-Johnson

Existia alguma esperança de que a adaptação do best seller  “Cinquenta Tons de Cinza” fosse capaz de superar a caretice que impera em Hollywood com o seu inevitável sucesso comercial. Ledo engano. As peripécias sexuais da então virginal Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o seu amado milionário Christian Grey (Jamie Dornan) provam que o cinema americano regrediu aproximadamente 30 anos. A ousadia de cineastas como Adrian Lyne e Paul Verhoeven é um passado lamentavelmente castrado, dando lugar a cenas de sexo pudicas que não dialogam com o perfil aparentemente perturbador de seu protagonista. A equipe com pedigree, como o diretor de fotografia Seamus McGarvey (“Desejo e Reparação”), o compositor Danny Elfman (“Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”) e até mesmo a colaboração da montadora Anne V. Coates (“Lawrence da Arábia”), são meros adereços para a escritora E.L. James, que detém o controle artístico da adaptação de seu romance homônimo, um patético conto de fadas às avessas.

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Qualquer Gato Vira Lata 2#05. Qualquer Gato Vira Lata 2, de Roberto Santucci +

Novamente, Roberto Santucci tem um de seus filmes citados nesta lista de piores, desta vez dividindo a desonraria com Marcelo Antunez para que “Qualquer Gato Vira Lata 2” pudesse ser confeccionado mais rápido. É uma curiosidade importante, pois cada vez Santucci se assemelha mais a um empresário e menos como um diretor, tendo despontado como uma promessa após o regular “Bellini e a Esfinge”. Na verdade, o que mais incomoda nesta sequência protagonizada por Cléo Pires, Malvino Salvador e Dudu Azevedo é a total cara de pau em surrupiar a premissa de comédias americanas de sucesso, como “Esposa de Mentirinha”. E preparem-se, pois logo mais “Um Suburbano Sortudo” pintará nas telonas.

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Deixa Rolar#06. Deixa Rolar, de Justin Reardon

Mais que um mero galã. Chris Evans conseguiu a cobiçada posição de astro hollywoodiano, graças ao sucesso de “Capitão América” e um contrato confortável com a Marvel. Porém, fora desse universo de super-heróis, anda tendo dificuldades para ser levado a sério – excetuando, claro, o formidável “Expresso do Amanhã”.  “Deixa Rolar” marca os seus primeiros passos como produtor após uma experiência inexpressiva na direção de “Before We Go”. Evans é também o protagonista, um boa-pinta desinteressado em relacionamentos sérios. Bom, isso até aparecer Michelle Monaghan, aquela graça de mulher que vai desencadear tudo o que estamos exaustos de ver em comédias românticas vulgares e esquemáticas: as indecisões quanto ao homem que ela deve escolher, alguns dramas inócuos que buscam justificar a cafajestice do protagonista, a corrida para impedir um casamento, o discurso constrangedor ao final… Somente a presença engraçadinha de Topher Grace torna o humor mais tolerável.

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O Rio nos Pertence#07. O Rio nos Pertence, de Ricardo Pretti +

Parte de uma trilogia denominada como Operação Sônia Silk, “O Rio nos Pertence” é inspirado em um projeto da produtora Belair, no qual Júlio Bressane e Rogério Sganzerla se desdobraram durante três meses para conceber sete filmes. Assim como no passado, o resultado não passa de um exercício pretensioso, com “O Rio nos Pertence” certamente representando a ponta mais frágil do triângulo. Mesmo que seja curioso observar a instável protagonista de Leandra Leal em um cenário carioca despovoado e nada tropical, o que se tem é aquele velho caso de um artista presunçoso com o desejo de compartilhar histórias com relevância apenas para si mesmo.

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Amaldiçoado#08. Amaldiçoado, de Alexandre Aja

Americano de 43 anos, Joe Hill continua avançando para ser um sucessor à altura de seu pai, Stephen King. Os sucessos de “A Estrada da Noite”, “Nosferatu” e “O Pacto” provam que Hill está andando no caminho certo. Em contrapartida, a adaptação de “O Pacto”, batizada como “Amaldiçoado” em seu lançamento no Brasil direto em homevideo, prova que precisará tomar mais cuidado ao vender os direitos de seus romances. Isso porque o francês Alexandre Aja, que não faz nada digno desde “Viagem Maldita”, parece não saber o que fazer com o material. Na mistura de fantasia, terror e comédia, “Amaldiçoado” se arrasta durante duas horas que penam para chegar ao fim, trazendo ainda uma direção atroz de atores – Max Minghella está especialmente terrível no papel do melhor amigo do protagonista vivido por Daniel Radcliffe.

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Rua Secreta#09. Rua Secreta, de Vivian Qu +

Exibido na 38ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o chinês “Rua Secreta” certamente ocupou a oportunidade de lançamento em circuito comercial de algum dos inúmeros títulos superiores que infelizmente se perdem após a passagem por festivais. Isso porque esse debut de Vivian Qu na direção e roteiro acompanha com desinteresse um jovem que se vê enroscado em uma teia conspiratória ao se sentir atraído por uma jovem que atua em uma empresa misteriosa. Embora a premissa seja uma grande promessa para um thriller, com o protagonista não identificando em seus equipamentos de mapas digitais alguns locais em que seu interesse amoroso transita, Qu contenta-se com uma condução em banho-maria e uma conclusão em aberto propenso a gerar mais frustrações do que questões para o seu enigma.

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Vício Inerente#10. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson não é um cineasta dos mais ativos, chegando a atingir cinco anos de intervalo entre a realização entre um filme e outro. Dois anos após “O Mestre”, o americano vem com “Vício Inerente” esquecendo-se de uma máxima sobre a obra do excêntrico Thomas Pynchon: inadaptável. PTA não entendeu o recado, camuflando com a boa reconstituição de uma época o ritmo claudicante de uma história não compatível com a narrativa cinematográfica. Além do mais, o extremo formalismo de sua condução não tem ressonância com a decadência que contamina toda a história, muito distante da estética pornográfica de “Boogie Nights: Prazer Sem Limites”.

Resenha Crítica | Macbeth: Ambição e Guerra (2015)

Macbeth - Ambição e Guerra (Macbeth)

Macbeth, de Justin Kurzel

Nem sempre é regra, mas as adaptações de grandes peças, romances e contos que persistem em nossa memória são aqueles que conseguem subverter o texto original, carregando-o para um contexto atual. Baseado em uma das obras mais populares e encenadas de William Shakespeare, “Macbeth: Ambição e Guerra” definitivamente não está interessada em reinventar a roda, propondo fidelidade sem brilhantismo.

São Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso os responsáveis pelo roteiro de “Macbeth: Ambição e Guerra”, apresentando respeito extremo ao material inclusive nos diálogos shakesperianos, por vezes incompreensíveis até mesmo para aquele que tem o inglês como língua materna. Há também um acerto quanto a ambientação, flagrando paisagens que ilustram uma Escócia um tanto distante da opulência de um reinado.

Como já se sabe de cor e salteado, Macbeth (Michael Fassbender) é ainda o Barão da Escócia quando planeja o assassinato do Rei Duncan (David Thewlis), sendo impulsionado ao crime por Lady Macbeth (Marion Cotillard). Coroado, a sua ambição por poder absoluto o faz cometer novas atrocidades, como eliminar todos os possíveis herdeiros ao trono.

Os excelentes coadjuvantes, a exemplo de Paddy Considine como Banquo, Sean Harris como Macduff e Elizabeth Debicki como Lady Macduff, bem como a potência de um texto que segue resistindo com a vinda de novas gerações, compensam os esforços insuficientes do cineasta australiano Justin Kurzel (“Os Crimes de Snowtown”), com opções estéticas indecisas que o aproximam de um iniciante, como a ação às vezes em curso normal, às vezes congelada da batalha inicial e a beleza plástica e vazia do terceiro ato com tinta escarlate. Um filme com prazo de validade que será determinado com a vinda de um novo e inevitável “Macbeth”.

Resenha Crítica | O Lagosta (2015)

The Lobster

The Lobster, de Yorgos Lanthimos

Para “O Lagosta”, o diretor, roteirista e produtor grego Yorgos Lanthimos constrói um cenário paralelo ao nosso, com autoridades invisíveis em que os rumos são ditados por anônimos submissos ao poder estabelecido sem que estes percebam a própria relevância. Popularizada na ficção pelo britânico George Orwell com “1984”, essa premissa é revista com muita originalidade nesta co-produção entre Estados Unidos, França, Grécia, Holanda, Irlanda e Reino Unido.

O que move a sociedade em “O Lagosta” são os relacionamentos. Aqueles que não encontram a chamada alma gêmea ou simplesmente a perderam são classificados como Solitários. Rejeitados, precisam se submeter a um “resort” em que terão somente 45 dias para encontrarem um parceiro. Caso não tenham sucesso no curso desse prazo e não sejam eliminados em um massacre em que os Solitários são os caçadores e as caças, terão como destino a transformação permanente em um animal, cuja escolha partirá de cada um.

Embora Yorgos Lanthimos a todo o momento insira indícios de que os traços fantásticos de sua narrativa possam ser questionados, é nela que David (Colin Farrell) se vê enclausurado.  É preciso encontrar uma parceira que corresponda às características pouco usuais que o integram: a miopia, as dores insuportáveis na coluna e a inabilidade para curá-la com as próprias mãos e o irmão que o acompanha, agora nas formas de um cachorro.

Há dois momentos distintos em “O Lagosta”, o primeiro com a narração pouco apaixonada de Rachel Weisz sobre os passos dados por David e o segundo marcando o encontro desses dois personagens em uma floresta que divide os mundos dos Solitários e dos casais que vivem pacificamente na cidade. Não que a paz esteja estabelecida neste refúgio, uma vez que a liderança dos Solitários, nas formas da francesa Léa Seydoux, pune com rigor aqueles que assumam um relacionamento.

Em distopias, o amor surge como o instrumento de salvação de um planeta que ruma para o fim da humanidade. Em “O Lagosta”, essa máxima é revirada. Estaria o amor realmente presente na repetição das convenções, que padroniza a constituição de uma família como o alcance da felicidade plena? Estamos todos condicionados a compartilhar um lar e a intimidade com aqueles que nos interessam por mera compatibilidade ou por sentimentos que superam as distinções vigentes?

É uma surpresa que uma premissa repleta de tantas estranhezas consiga transcender com questionamentos que não apenas nos dizem respeito, como contaminam o nosso âmago, trazendo ainda uma conclusão desconcertante e desesperançosa que revê as contradições complexas de um ser humano por traz de suas decisões, regidas mais pela necessidade de preenchimento do que por amor. É um alívio que Yorgos Lanthimos não tenha recuado nem um pouco na autoria que imprime em seu cinema ao elevá-lo a um novo patamar em um idioma não materno.

Resenha Crítica | Os Oito Odiados (2015)

Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

The Hateful Eight, de Quentin Tarantino

Na sequência de créditos iniciais de “Os Oito Odiados”, Quentin Tarantino mantém em primeiro plano a escultura de Jesus Cristo crucificado. Coberta pela neve, a imagem é posicionada à parte da carroça que transporta Marquis Warren (Samuel L. Jackson), John Ruth (Kurt Russell) e Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma alusão ao inferno que esses e outros personagens irão se concentrar, materializado em uma casa de madeira, o cenário principal de “Os Oito Odiados”.

Marquis é um caçador de recompensas que traz consigo o cadáver de dois criminosos, só não tão valiosos quanto Daisy, a qual John leva para embolsar 20 mil por sua captura. Como o destino dela será a forca, deduz-se as barbaridades de seus atos, ainda que a brutalidade com a qual é silenciada possa criar alguma compaixão. Antes de uma parada obrigatória para que os cavalos possam repousar até a nevasca recuar, vem a bordo Chris Mannix (Walton Goggins), que se apresenta como o xerife que recepcionará John e a cabeça a prêmio de Daisy.

Quem os abriga são Oswaldo Mobray (Tim Roth) e Joe Gage (Michael Madsen), além do mexicano Bob (Demian Bichir) e o ex-general idoso e racista Sandy Smithers (Bruce Dern). Condutor de John, O.B Jackson (James Parks) fecha esse grupo de indivíduos que se estranham, às vezes por razões óbvias e em outras por motivações que em algum tempo deixarão de ser omitidas. É Marquis, imunizado por uma carta que diz ser escrita por Abraham Lincoln, quem assume o protagonismo da situação, fazendo com que as máscaras que revestem a face de cada um despenquem – inclusive as suas.

Oito é também o número de longas-metragens de Tarantino, que parece convicto da decisão em encerrar a sua carreira como cineasta quando atingir o décimo projeto por trás das câmeras. Tarantino se justifica com o medo de passar a não entregar filmes que não supram as expectativas geradas pelo seu nome, mas é também a denúncia de um certo esgotamento criativo.

O que não se pode dizer de “Os Oito Odiados” é que ele não seja um ótimo filme. Retomando parcerias com velhos conhecidos (Samuel L. Jackson, Tim Roth, Michael Madsen et cetera) ao mesmo tempo em que introduz intérpretes até então estranhos em seu universo (Jennifer Jason Leigh, Demian Bichir e Channing Tatum em papel surpresa), Tarantino prossegue explorando a potencialidade de seu elenco transformando cada um em figuras maliciosas, quase cartunescas.

Fator que sempre moveu a sua obra, a violência é também revista como um elemento cômico, mas também de denúncia, permitindo que “Os Oito Odiados” dê continuidade a temas centrais de “Django Livre”, como o enraizamento do preconceito racial e a vingança como a possibilidade ficcional de apaziguação. É também um primor a exteriorização atingida com os embates verbais, que modelam a partir do confinamento a realidade transitada por cada personagem.

Avaliada todas essas camadas, é justo ainda assim dizer que “Os Oito Odiados” tem uma base extremamente simples, sendo ela ainda mais evidente com um capítulo final norteada por um longo flashback que denuncia o roteiro de Tarantino como uma peça pautada por reviravoltas que contornam inúmeros caminhos para sempre chegar ao mesmo destino. “Os Oito Odiados” não entediará o público, mas a repetição de negociações, a narração em off como uma prenda e a inconstância da moralidade de Mannix são apenas algumas provas de que Tarantino é melhor quando visualiza alguma parcimônia em meio ao excesso.

Resenha Crítica | Até Que A Casa Caia (2015)

Até que a Casa Caia

Até que a Casa Caia, de Mauro Giuntini

Quatro anos após a sua estreia como diretor de longa-metragem com “Simples Mortais”, Mauro Giuntini faz, ao menos a princípio, um bom estudo de Brasília, a capital federal do país e cidade em que reside. Isso porque o cenário esplendoroso, notório por suas construções modernas, algumas assinadas por Oscar Niemeyer, é visto quase em ruínas ou em estado degradante.

Protagonistas de “Até que a Casa Caia”, Marat Descartes e Virginia Cavendish são Rodrigo e Ciça, um casal legalmente divorciado que habita o mesmo apartamento. Mesmo com um filho, Mateus (Emanuel Lavor), ambos são cientes do acordo em levar uma vida independente, sem precisar dar satisfações sobre os novos parceiros que possam surgir.

A implicação quanto a conviverem juntos diz mais respeito a um problema de renda, pois as más remunerações para as atividades que exercem – ele é professor, ela é massagista/vidente/taróloga – são suficientes para arcar com as despesas domésticas quando unidas. Tudo caminha no limite do tolerável até Rodrigo responder a uma episódio de ciúme com o relacionamento sério que assume com Leila (Marisol Ribeiro), secretária de um gabinete em que ele apresenta propostas para projetos de lei.

Os desajustes de infraestrutura dos ambientes, que incluem um buraco na parede que separa os quartos dos ex-cônjuges e as goteiras que interrompem as aulas de Rodrigo, ressoam como rachaduras na moralidade de personagens de um território com um custo de vida tão altíssimo que o impossibilitam de preservar a própria integridade e privacidade em um teto todo seu. Leila é também enriquecida nesse processo, passando de mera amante para uma jovem com motivações que ficam mais claras com a aproximação do último ato.

A deficiência do texto assinado por Lu Teixeira é acreditar que o paralelo de estrutura do espaço com os limites emocionais não é o suficiente para “Até que a Casa Caia”, avolumando o filme com impasses com resoluções insatisfatórias e a inserção de humor. Além de se perder com o posicionamento de Mateus em meio a todo o conflito conjugal, há uma ingenuidade extrema ao trazer Rodrigo como um sujeito corruptível e Ciça com toda uma passividade implausível tanto ao tolerar Leila quanto ao trazer uma senhora estranha para o seu lar. São problemas ignorados em tratamentos de roteiro que nenhuma tentativa de fazer graça consegue contornar.

Os 10 Melhores Pôsteres de 2015

É inevitável chegar ao fim do ano sem relembrar tudo o que rolou nos cinemas desde janeiro. Daí as listas, um modo de condensar em menções os aspectos marcantes das produções cinematográficas que chegaram ao público.

Tradicionalmente, começamos esse período de retrospectiva destacando aqueles que foram os cartazes mais belos do ano. Mais do que uma peça de divulgação, o pôster de um filme serve como um cartão de visita para o espectador, tentando concentrar tudo que possa atrair a sua atenção para comprar o ingresso – ou descarregá-lo no computador, uma alternativa cada vez mais popular em tempos de streaming e download gratuito.

Deste ano, vale destacar as artes para dois filmes nacionais: “Que Horas Ela Volta?” e “Obra”. Enquanto os americanos apresentaram a mais densa arte para o filme de Anna Muylaert, o drama de Gregorio Graziosi contou com um designer de nosso país, o paulistano Bruno Alfano – que essa qualidade seja repetida com mais frequência em nossos pôsteres.

 

A Ballerina's Tale

Bem-Vindos ao Meu Mundo

Corrente do Mal

Kumiko - A Caçadora de Tesouros

Louder Than Bombs

Maggie

Obra

Que Horas Ela Volta

Queen of Earth

The Lobster

Resenha Crítica | Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

Mad Max - Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road)

Mad Max: Fury Road, de George Miller

Uma série de contratempos pesou contra “Mad Max: Estrada da Fúria”. Em planejamento desde a virada do século, a quarta aventura pós-apocalíptica centrada na figura de Max Rockatansky foi adiada inúmeras vezes e ainda perdeu Mel Gibson, com carisma e talento decisivos para transformar o personagem em um dos heróis mais celebrados do cinema. Mais: gravado durante o verão de 2012, o lançamento do filme foi adiado em quase dois anos, algo que denuncia o fracasso de várias grandes produções.

Seja como for, George Miller não desistiu do sonho de prosseguir com a sua franquia, essencial por colocar a Austrália no mapa do cinema mundial, e todo esse empenho, de algum modo comovente para um veterano de 70 anos, é a força que move “Estrada da Fúria”. Além disso, o tempo extenso que separa a filmagem da exibição provavelmente fez Miller e os seus roteiristas Brendan McCarthy e Nick Lathouris realizarem não somente algumas cenas adicionais como também repensar o ritmo da ação, este sendo um dos principais alicerces para o sucesso do filme.

Ainda que encarada como a quarta aventura de Max Rockatansky, “Estrada da Fúria” também se comporta como um reboot para a série. Não só por Tom Hardy, que substitui Gibson, como também por uma premissa que, na maior parte do tempo, não está inclinada aos acontecimentos dos três episódios anteriores, produzidos entre 1979 e 1985. O ressurgimento do ator Hugh Keays-Byrne, que incorporava outro personagem no longa original, os flashes sobre o passado traumático de Max e a aridez do deserto são os elementos mais fortes que nos reconectam a encarnação anterior do herói.

Como raramente (nunca?) se vê em uma sequência, “Estrada da Fúria” não tem tempo para conversa fiada. O seu prólogo já engata a última marcha, sem nunca vacilar neste frenesi que rege o filme. Membros da gangue War Boys capturam Max com o intento de utilizar o seu sangue como suprimento. Por traz não somente desse coletivo de peles pálidas como também de toda a população que restou está Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que detém toda a água que restou e tem planos para dominar todo o combustível de Gas Town. É a Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) a principal responsável por essa “expedição”, mas logo conhecemos o seu verdadeiro plano: salvar cinco mulheres capturadas para parir os herdeiros de Immortan Joe e encontrar refúgio no sagrado Green Place.

Além de apresentar perseguições que se sobressaem com facilidade como as melhores sequências de ação no cinema pipoca deste ano, George Miller sabe o efeito devastador causado com a presença de figuras anômalas, totalmente condizentes com o contexto de sua história e com uma força visual certeira. Como o tão comentado Coma-Doof Warrior, insano guitarrista que embala a guerra sobre rodas.

O que transformará “Estrada da Fúria” em clássico, no entanto, é a virada de expectativas que é proposta a partir de seu segundo ato. É preciso muita coragem para transformar Max em um coadjuvante de sua própria história, algo que George Miller faz sem qualquer cerimônia ao avaliar a potencialidade de sua Imperatriz Furiosa. É ela a face que os personagens íntegros precisam como um novo líder e a inteligência em confirmar esse desejo permite ao filme caminhar para um encerramento implacável.

Resenha Crítica | 45 Anos (2015)

45 Anos (45 Years)

45 Years, de Andrew Haigh

Kate e Geoff Mercer (Charlotte Rampling e Tom Courtenay) estão completando 45 anos de união. Compartilham juntos a rotina de uma velhice sem grandes aventuras ou ambições. O cuidado com o lar, os cafés da manhã, os livros, as carícias. Podem ainda assim serem desconhecidos entre si? O diretor e roteirista Andrew Haigh aposta que sim.

A premissa foca a semana que antecede a comemoração de 45 anos de casamento. É um feito pouco usual para se celebrar entre conhecidos, mas um agravante na saúde de Geoff impossibilitou a viabilização da cerimônia de Bodas de Esmeralda. No entanto, os preparativos para o grande dia não é o que gera o conflito central de “45 Anos”.

Já nos primeiros instantes da narrativa, Geoff recebe uma carta que anuncia a descoberta do corpo de uma mulher muito importante em seu passado, que certamente teria interferido no curso da vida que construiu ao lado de Kate. A reação extremamente emocional de Geoff com a notícia faz Kate reavaliar o relacionamento, o que permite a Rampling reviver todos os anseios de sua Marie de “Sob a Areia”, a primeira parceria da atriz com o diretor francês François Ozon.

Responsável pelo ótimo “Weekend”, Andrew Haigh parece não ter notado que, apesar do bom ponto de partida, o conto de David Constantine que inspira o roteiro não rende um longa-metragem vigoroso em seus desdobramentos. É como se Haigh desarmasse Geoff e principalmente Kate de qualquer dado que fortaleça o apego ao passado do primeiro e o ciúme da segunda, restando aos seus notáveis intérpretes o peso de carregar nas costas um texto quase nulo em densidade.

Resenha Crítica | Sicario: Terra de Ninguém (2015)

Sicario - Terra de Ninguém (Sicario)

Sicario, de Denis Villeneuve

O canadense Denis Villeneuve transformou “Incêndios”, então o seu quarto longa-metragem, em credenciais para finalmente desembarcar em Hollywood. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (perdeu para “Em um Mundo Melhor”, de Susanne Bier), a extraordinária adaptação da peça de Wajdi Mouawad talvez seja a obra mais notável produzida nos últimos anos a adotar uma estrutura circular.

Com “Os Suspeitos” e “O Homem Duplicado”, Villeneuve  confirmou o talento com a condução de elementos que caracterizam o thriller, mas havia nesses dois exemplares alguns subterfúgios que contradiziam de algum modo o seu vigor em criar grandes mistérios, como a facilidade de pistas jogadas para auxiliar na resolução de enigmas. Limites irreversíveis em textos que não contaram com a sua assinatura.

Um dos títulos em competição pela Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes, “Sicario: Terra de Ninguém” pode ter o estreante Taylor Sheridan como autor do roteiro, mas há aqui um domínio tão pleno de toda a situação que um temor se dissipa: o de nunca mais vermos Villeneuve à altura de “Incêndios”. E o feito é atingido em um narrativa de alta voltagem, quase sem pausas para a retomada de fôlego.

Em desempenho subestimado, Emily Blunt é os olhos da plateia como Kate Macer, uma agente do FBI que sobrevive a uma explosão durante uma operação. Sem que o choque tenha passado, ela é convocada pelo agente da CIA Matt Graver (Josh Brolin) a integrar uma força-tarefa que pretende desmantelar um quartel de drogas, cujas ações envolvem a bomba detonada que vitimou alguns membros da equipe de Kate.

A vinda de Alejandro (Benicio Del Toro) a essa equipe faz Kate questionar a todo o instante a sua função e o propósito da missão, uma vez que este homem assume um protagonismo muito além de um mero intérprete, influenciando implacavelmente no curso de uma ação em que a sua presença parece motivada por um ajuste de contas. As coisas ficam ainda mais obscuras com os procedimentos questionáveis de ataque, bem como a intromissão de Força Delta para derrubar o chefe de quartel de drogas Fausto Alarcon (Julio Cedillo).

Após “Os Suspeitos”, Denis Villeneuve volta a trabalhar novamente com o diretor de fotografia Roger Deakins, formando assim uma dupla que compreende a tensão com o enclausuramento de seus personagens com planos fechados e a preferência por alguns recursos que nos jogam na ação, como o clímax que emula o que se vê com o uso de um equipamento de visão noturna. Colabora também a trilha do islandês Jóhann Jóhannsson, que substitui os acordes ternos de “A Teoria de Tudo” pelo empenho em criar uma ilusão de uma tormenta desabando sobre a terra.

Constrói-se assim uma teia de violência que não poupa ninguém, especialmente Kate, que nos faz reviver o impacto da revelação de “Incêndios” ao voltar a ser o centro das atenções em uma decisão que pode arruinar toda a sua identidade, um pessimismo que também toma conta de uma cena final que ilustra um ciclo de desolação que sempre se repete.

Resenha Crítica | A Very Murray Christmas (2015)

A Very Murray Christmas

A Very Murray Christmas, de Sofia Coppola

Excelente comediante, Bill Murray é um sujeito que aprecia o isolamento, não tem um agente para lhe repassar roteiros e é dono de uma ranzinzes que o torna ainda mais engraçado. Parecia ótima a ideia de Sofia Coppola em se reunir com o seu protagonista de “Encontros e Desencontros” e com o acréscimo deste encarnando uma versão de si mesmo em uma noite de natal. No entanto, o que ambos fazem em “A Very Murray Christmas” é aborrecer ainda mais aqueles que não estão na vibe de espírito natalino nesta reta final de ano.

Ainda que a distribuição da Netflix permita algumas liberdades artísticas e a duração seja enxutíssima, o que exige que cada passo seja dado com rigor, “A Very Murray Christmas” é um produto televisivo porcamente roteirizado e encenado. No que nomeamos como premissa, Bill Murray tem o compromisso de apresentar, na véspera de natal, um programa televisivo no qual ninguém aparece devido uma tempestade de neve que esvaziou toda Nova York.

Um Bill Murray cabisbaixo dá lugar a um Bill Murray eufórico quando a salvação vem com a presença surpresa de Chris Rock, que participa da cantoria natalina a contragosto. É a deixa para “A Very Murray Christmas” passar de uma comédia que não funcionava para um musical em que Sofia Coppola não tem qualquer tino para orquestrar.

Além de George Clooney e Miley Cyrus interpretarem a si mesmos, Rashida Jones, Jenny Lewis, Maya Rudolph, Jason Schwartzman e os integrantes do “Phoenix” fazem participações especiais cantando todos os hinos já consagrados no natal americano. Quase uma festa de karaokê, em que ninguém do lado de cá da telinha consegue se entrosar, além de um desastre ao ponto de Sofia se equiparar a um equívoco de seu pai, “Captain EO”. É de fazer qualquer um ouvir “25 de Dezembro” da Simone só para superar a perda de tempo e de potencial de todos os envolvidos.