Resenha Crítica | Regressão (2015)

Regressão (Regression)

Regression, de Alejandro Amenábar

Não é preciso consultar declarações ou entrevistas do diretor chileno Alejandro Amenábar para saber de sua descrença em qualquer religião ou poder divino. A sua obra, que inclui “Os Outros”, “Mar Adentro” e “Alexandria”, já deixa esse dado particular bem explícito, ainda mais por Amenábar ser um exemplo notável de autor. Ainda assim, converter essa curiosidade em fio condutor de uma carreira artística não é uma escolha saudável e “Regressão” vem não somente para expor uma fase de crise criativa, como também para arranhar a reputação de uma filmografia até então impecável.

Tenta-se explicar sem cair nos desagradáveis spoilers: estamos aqui no campo da história baseada em fatos, que questiona o divino e o profano em meio a uma investigação criminal. A autoridade é Bruce Kenner (Ethan Hawke), um detetive incumbido de prender John Gray (David Dencik), acusado de estuprar a própria filha, Angela (Emma Watson, ruim).

Devido a calamidade da situação, Angela demora a se pronunciar, mas encontra em Bruce alguém confiável para compartilhar os detalhes obscuros de sua denúncia. Mais do que a sordidez de sua família, Angela afirma existir um ritual satânico formato por uma série de anônimos que habitam a cidade, acrescentando inclusive o sacrifício de recém-nascidos.

Mais do que estampar o cartaz em um ponto de ônibus, os integrantes da banda “Behemoth” parecem fazer figuração em “Regressão” em imagens perturbadoras (risíveis?) que tomam a imaginação dos personagens. É o único elemento aterrador preparado por Alejandro Amenábar, mais preocupado com o modo como o seu protagonista cético passa a usar um crucifixo e uma bíblia como amuletos contra  os fenômenos que o assolam.

Com um final que poderá surpreender os desavisados, “Regressão” até resultaria em um interessante estudo sobre como a nossa imaginação é capaz de nos pregar peças quando nos vemos absorvidos por questões que parecem desafiar a nossa racionalidade. É a intenção de Alejandro Amenábar provocar esse efeito, mas o tratamento que confere a tudo é tão infantil que é inevitável não questionar o propósito desse seu novo manifesto.

Resenha Crítica | A Rainha do Deserto (2015)

A Rainha do Deserto (Queen of the Desert)

Queen of the Desert, de Werner Herzog

Gertrude Margaret Lowthian Bell, ou simplesmente Gertrude Bell, foi uma mulher que não permitiu que o comodismo de uma vida privilegiada lhe limitasse a alçar voos altos. Com um relacionamento muito próximo com o seu pai, Hugh Bell, por consequência da morte prematura de sua mãe, Mary Shield, Gertrude não tinha o desejo de seguir as convenções do matrimônio, ainda que tivesse amores verdadeiramente intensos. O seu desejo era conhecer o mundo, ampliado com os estudos de primeira qualidade, ainda que restritivos para uma jovem que desejava usufruir da liberdade.

Mais do que saciar os seus caprichos, Gertrude promoveu expedições que desafiaram a arqueologia no início do século passado. A aproximação com líderes e o registro escrito e fotográfico de destinos visitados a transformaram em um elemento essencial para a redefinição do Oriente Médio, que testemunhou a dissolução do Império Otomano após seis séculos como potência que se apropriar de tribos.

Seja na ficção (“Fitzcarraldo”, “Aguirre, a Cólera dos Deuses”), seja no documentário (“O Homem Urso”, “A Caverna dos Sonhos Esquecidos“), Werner Herzog parecia ser a escolha certa para levar Gertrude Bell aos cinemas com “A Rainha do Deserto”, uma espécie de versão de saias de “Lawrence da Arábia” – ainda que Bell seja considerado por muitos estudiosos uma figura ainda mais influente que T. E. Lawrence. Isso porque o cineasta alemão sabe como poucos transformar esse contato com a natureza, bem como a cultura afastada da civilização, em verdadeiras experiências cinematográficas.

Mesmo com essa distinção, uma apuração denuncia contra Herzog: a ausência de uma obra no qual apresente uma mulher como protagonista à altura de Gertrude Bell. Por isso mesmo, é desapontador o tratamento que ele confere a essa personagem interpretada por Nicole Kidman. A destreza, o pioneirismo e as demais virtudes pelas quais Bell é conhecida deram lugar a uma mulher que ocupa o seu tempo com lamúrias sobre relacionamentos não efetivados durante as desgastantes viagens com dromedários em meio a tempestade de areia do deserto.

Um tempo precioso é depositado na crença de que o gatilho que dispara Gertrude para o mundo é o diplomata Henry Cadogan, personagem ficcional interpretado por James Franco com um risível sotaque britânico. Hugh Bell (David Calder) não dá a sua benção para que ambos se casem, pois deseja que sua filha se relacione com partidos mais sofisticados. Uma fatalidade acontece e, três anos depois, Gertrude já é vista rumando para Amã. “Pela primeira vez, eu sei quem eu sou e o meu coração só pertence ao deserto”, vem a narração em off durante um close na face impecável de Nicole Kidman. Mais tarde, os atritos com um major casado, Charles Doughty-Wylie (Damian Lewis), se transformam em gentilezas, temperando o romance.

Com diários passionais e diálogos com xeiques com tensões que se dissipam em segundos, resta pouco espaço para as panorâmicas do diretor de fotografia Peter Zeitlinger terem uma função além da transição, do breve respiro de contemplação. Além do mais, “A Rainha do Deserto” não cumpre nem mesmo a intenção de se corresponder com “Lawrence da Arábia”, fazendo do encontro entre Gertrude Bell e T. E. Lawrence (Robert Pattinson) somente uma oportunidade para desmitificar a encarnação de Peter O’Toole. E o nosso desejo de ressuscitar David Lean para presentear Gertrude com uma aventura digna.

Resenha Crítica | D.U.F.F. – Você Conhece, Tem ou É (2015)

D.U.F.F. - Você Conhece, Tem ou É (The DUFF)

The DUFF, de Ari Sandel 

De tempos em tempos, a comédia colegial americana é capaz de produzir exemplares que reavaliam os populares e os perdedores como estereótipos ao mesmo instante em que se apropria de alguma tendência da vez. Vencedor em 2007 do Oscar de Melhor Curta-Metragem por “West Bank Story”, Ari Sandel não chega aos pés de uma Amy Heckerling, mas também não se contenta com pouco em “D.U.F.F. – Você Conhece, Tem ou É”.

D.U.F.F. não é um rótulo dos mais populares no Brasil. Significa designated ugly fat friend. Ou melhor, aquele estudante abraçado por um pequeno grupo de amigos íntimos por não possuir atributos físicos, o que acarreta em uma presença que somente acentua as virtudes daqueles que são suas principais companhias.

É exatamente como se vê Bianca (a sempre simpática Mae Whitman) ao ser alertada pelo seu vizinho saradão Wesley (Robbie Amell) de que é tratada como uma D.U.F.F. por Jess (Skyler Samuels) e Casey (Bianca A. Santos). Com jeito descolado de se vestir, aplicada nas matérias mais difíceis e fanática por filmes de terror, Bianca é mesmo diferente da aspirante a estilista (e linda) Jess e da hacker (e linda) Casey.

Mesmo que esse modelo de ambiente escolar nos provoque apatia por não se comunicar com aquele que de fato vivemos, “D.U.F.F.” é ao menos sincero quando prega a importância em preservar a nossa própria autenticidade, uma constatação que dialoga com os adolescentes e os inúmeros dilemas que atravessam na formação da identidade. Além do mais, é bacana que o texto consiga reconhecer que há pessoas bem-intencionadas no interior de corpos bem apresentáveis, como se vê no amparo à distância para Bianca mediado por Jess e Casey após um rompimento hilário, que inclui uma série de amizades desfeitas em redes sociais.

Resenha Crítica | Body (2015)

Body (Cialo)

Cialo, de Malgorzata Szumowska 

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

A cineasta polonesa de 42 anos Malgorzata Szumowska não havia entusiasmado os cinéfilos brasileiros com o seu primeiro filme a receber lançamento comercial no país, “Elles”. Protagonizado por Juliette Binoche, o drama definitivamente não trazia nenhum dado curioso ou empático sobre a vida de jovens prostitutas. Felizmente, é reconhecível o seu amadurecimento em “Body”, pelo qual venceu o prêmio de melhor direção no último Festival de Berlim.

O prólogo do filme é daqueles que desconcertam por não indicar exatamente a direção que a narrativa seguirá a partir de então. Nele, Janusz (interpretado por Janusz Gajos) avalia a cena de um suicídio. Após concluir o seu trabalho, o que inclui checar evidências e acompanhar a captura de imagens, o suicida, então com o corpo estendido no chão após ser retirado de uma forca presa a uma árvore, simplesmente se levanta e caminha como se nada tivesse acontecido.

Além de Janusz, que carrega as frustrações e a melancolia de um viúvo que já passou da meia-idade, “Body” também tem interesse por Anna (a excelente Maja Ostaszewska), uma terapeuta espírita com métodos de recuperação questionados por uma sociedade predominantemente católica – é possível notar uma fotografia de Chico Xavier emoldurada em seu quarto. O que conectará esse homem e essa mulher é a jovem anorexa Olga (Justyna Suwala), filha Janusz e paciente de Anna.

Bem como as excentricidades, “Body” contém um humor que evidencia o estranhamento entre duas pessoas maduras com credos e costumes distintos, potencializados com a perda da esposa não superada por Janusz e a forma como Anna se vê desconectada do mundo. São escolhas que funcionam, ainda que o roteiro de Szumowska, em parceria com Michal Englert, não consiga corresponder plenamente as expectativas prévias ao encontro entre ambos. Ainda assim, é um drama capaz de provocar uma forte impressão, especialmente pela solução singela e emotiva que prepara para as relações conflitantes entre seus personagens.

Resenha Crítica | Reza a Lenda (2016)

Reza a Lenda

Reza a Lenda, de Homero Olivetto

Uma das vantagens do aumento de nossa produção cinematográfica é o surgimento cada vez mais expressivo de projetos que gostam de riscos, de flertar com gêneros não consagrados no país. Claro que a cada 100 filmes produzidos anualmente, uma boa fatia é representada por comédias que reproduzem o formato televisivo e as fórmulas desgastadas, mas é algo a se comemorar. Ainda assim, existe uma força de vontade, uma boa intenção, que nem sempre permite a um filme chegar lá. É o caso de “Reza a Lenda”.

Roteirista de “Bruna Surfistinha”, Homero Olivetto certamente planejou por anos a sua estreia como diretor em longa-metragem e “Reza a Lenda” é mesmo um projeto carregado de um repertório composto por anos de pesquisa além do cinema, como a linguagem dos quadrinhos e os costumes do nordeste. É uma junção que promete, pois temos uma ação estilizada, por vezes temperada por uma violência gráfica, com a fé religiosa como elemento dramático, assegurando personalidade ao filme.

Interpretado por Cauã Reymond, Ara é quase uma encarnação do Mad Max de “Estrada da Fúria”, um sujeito silencioso e dúbio. É também o líder de uma gangue de motociclistas, sendo bem-sucedido ao “sequestrar” a imagem da Virgem Maria, adorada para que concretize o desejo de toda a população em fazer com que o céu despeja a água cuja falta devasta o solo.

Além dessa promessa de milagre, há interesses comerciais por trás do monumento e Tenório (Humberto Martins) vai iniciar uma caçada para reavê-lo, o que acarreta no massacre de todos os aliados de Ara. Há também espaço para um triângulo amoroso, com Ara dividido entre Severina (Sophie Charlotte), sua companheira, e uma jovem que resgata no meio da estrada, Laura (Luisa Arraes).

Como um vilão com diálogos impagáveis e métodos pouco comuns para exibir o poder que exerce, como decapitar desafetos e despachar as cabeças com balões de São João, Humberto Martins rouba a cena em “Reza a Lenda”, um filme incapaz de desenvolver os demais personagens e o contexto em que estão inseridos satisfatoriamente. As intenções de discurso estão devidamente alinhadas. O que restou é inserir substância ao roteiro, que por vezes anda em círculos.

Resenha Crítica | O Quarto de Jack (2015)

O Quarto de Jack (Room)

Room, de Lenny Abrahamson 

No início de “O Quarto de Jack”, temos uma jovem (Brie Larson) e o seu filho Jack (Jacob Tremblay) confinados em um quarto sem janelas e com uma porta somente destravada com o dígito correto de seu segredo. Somente uma claraboia permite a passagem de luz e todos os cômodos de uma residência, como a cozinha e o banheiro, estão compactados neste ambiente com aproximadamente cinco metros quadrados.

A sutileza em como esse minúsculo cenário é explorado, bem como os personagens que ele habitam, já sugere o que é preciso saber sem que isso precise ser claramente verbalizado. Há aqui uma mulher vítima de um sequestro sem solução, suportando há sete anos um cativeiro com um filho que acaba de completar cinco. O único contato com o mundo exterior é uma televisão que perturba a imaginação de Jack, bem como o Velho Nick (Sean Bridgers), o responsável pelo cárcere.

Cineasta irlandês, Lenny Abrahamson parece ter se renovado em “O Quarto de Jack” em comparação ao mediano “Frank”. Principalmente ao confiar em Emma Donoghue para adaptar o seu próprio romance, “Quarto”, publicado no Brasil pela editora Verus. Toda a descrição necessária à literatura é suprimida para atender a uma linguagem que prima por estratégias para enriquecer personagens e os recursos visuais que o contexto permite.

Dito isso, Abrahamson consegue criar em “O Quarto de Jack” dois momentos que se correspondem a partir de divergências. Um universo de possibilidades foi criado na convivência solitária no “quarto” enquanto o “mundo lá fora” sufoca, gera grandes proporções a explosões emocionais que surgem com o trauma e a dificuldade de readaptação.

É preciso um elenco exemplar para dar conta desse turbilhão de contradições. É o que se vê em William H. Macy como um avô que se nega a reconhecer o seu neto, em Joan Allen em preservar a gentileza que de algum modo condenou a sua filha e em Brie Larson, quase tão intensa quanto em “Temporário 12”, ao comprovar que o papel de mãe é um pilar que precisa sustentar mesmo diante de sua ruína.

Ainda assim, é o pequeno Jacob Tremblay quem realmente move “O Quarto de Jack”. A sua vulnerabilidade, a princípio preservada com o colo materno, os óculos escuros e as máscaras, aos poucos dá lugar para aquela curiosidade de quem está assimilando novos códigos e as novas figuras que o rondarão. É na inocência de Jack que esta versão ficcional de tantas histórias reais consegue reascender aquela luz de esperança tão necessária após uma tragédia pessoal tão difícil de desvincular.

Resenha Crítica | A Garota Dinamarquesa (2015)

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)

The Danish Girl, de Tom Hooper

Na Hollywood lamentavelmente careta de hoje em dia, é muito comum um projeto como “A Garota Dinamarquesa” ser uma vítima de uma série de reveses. Há quase dez anos, o projeto estava nas mãos de Nicole Kidman, com interesse em produzir e protagonizar a história sobre a transexual Lili Elbe. No entanto, mais do que as dificuldades em levantar o financiamento, Nicole não conseguiu alguém para viver Gerda Wegener, a companheira de Lili, um papel declinado por atrizes como Charlize Theron, Gwyneth Paltrow e Rachel Weisz.

Agora, “A Garota Dinamarquesa” ganha formas com Tom Hooper no comando, mas com todas as modificações perceptíveis em uma produção que passou por um sem número de mãos. Isso porque essa encenação sobre o pintor Einar Mogens Wegener e a sua decisão em ser a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de mudança de sexo se preocupa menos com esse dado e mais na potencialidade romântica que ele gera.

Com uma fisionomia pouco atrativa e, ao mesmo tempo, singular, Eddie Redmayne tem também uma androgenia que o torna uma escolha perfeito para viver Einar/Lili. E se restava alguma dúvida sobre o seu talento desse vencedor do Oscar “A Teoria de Tudo”, em “A Garota Dinamarquesa” o vemos novamente em um trabalho extremamente meticuloso de composição.

É ainda como Einar que o vemos no primeiro ato, casado com a também pintora Gerda (Alicia Vikander). Enquanto ele é especializado no registro de paisagens, Gerda busca decolar ao fazer retratos. Na inocência de substituição parcial de uma modelo, Einar adota com naturalidade os adereços femininos e, paulatinamente, reconhece o próprio corpo como algo que não corresponde à mulher que descobre habitar o seu ser, a qual batizará como Lili.

Agora notório por suas composições questionáveis de imagem, como o flerte descuidado com o plano holandês e o uso de grande angular com os atores como assunto, Tom Hooper até poderia recorrer a essas escolhas estéticas como uma representação da distorção de seu protagonista. Não é o que acontece, pois o seu preenchimento inadequado de quadro resiste até o final. Notem não apenas os elementos cenográficos que emolduram as imagens, como também os planos e contra planos com personagens totalmente alinhados à esquerda ou direita quando o ponto de contato visual está centralizado.

Por outro lado, é preciso conferir mérito a Hooper pelo despudor em explorar o corpo de Eddie Redmayne, algo tão importante para compreendermos a natureza verdadeira de sua personagem. Até porque “A Garota Dinamarquesa” resulta como uma experiência frustrante justamente por Lucinda Coxon fazer um uso inadequado tanto do romance de David Ebershoff quanto da própria biografia de Einar, infantilizando a complexa situação a um mero jogo de onde está Einar e onde está Lili, como se o primeiro fosse uma entidade que pudesse reaparecer a cada clamor de Gerda.

Resenha Crítica | O Regresso (2015)

O Regresso (The Revenant)

The Revenant, de Alejandro González Iñárritu

Alejandro González Iñárritu venceu nada menos que três estatuetas do Oscar por “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Essa consagração artística também marcou uma ruptura do cineasta mexicano de 52 anos com temas que lhe eram caros, como a incomunicabilidade humana e as distinções sociais. Talvez fosse melhor ter se rendido novamente a eles em “O Regresso”, pois são só algumas das abordagens à parte em um roteiro ausente de substância.

Em adaptação parcial do romance homônimo de Michael Punke, “O Regresso” resgata a figura real Hugh Glass, geralmente associada a um mito. Na pele de Leonardo DiCaprio, Glass se vê envolvido ao lado de seu filho Hawk (Forrest Goodluck) em meio a um conflito para a caça de pele. De um lado, há os subordinados ao capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Do outro, a tribo de índios Arikara. Ao ver todos os homens de Henry sendo selvagemente massacrados, Glass age em sua defesa.

O problema está no mal estar que a presença de Hawk provoca, um sujeito de origem indígena com um passado obscuro. Os atritos são especialmente gerados por John Fitzgerald (Tom Hardy), que pode não ser tão leal a Henry quanto proclama e que logo se converterá em um grande pesadelo para Glass ao assumir uma postura que o atingirá intimamente.

O ponto em que os papéis de herói e inimigo são integralmente assumidos por Hugh Glass e John Fitzgerald é exatamente aquele em que “O Regresso” passa a evidenciar os seus limites. É ainda mais grave isso já ocorrer quando o segundo ato sequer se aproximou, expondo as fragilidades de um texto do qual Iñárritu e o seu parceiro Mark L. Smith são incapazes de contornar.

A cena em que Glass é quase morto por um urso recriado em CGI espanta pela brutalidade e a transparência como exibe cada um dos danos físicos provocados. A falha está em recorrer a esse choque, ao impacto visual que isso provoca, não como um recurso dramático e sim como uma muleta para permitir que “O Regresso” atinja algum progresso insistindo na tentativa de provocar uma forte impressão, algo que ficará intolerável quando um cantil com uma espiral desenhada pelo personagem vivido por Will Poulter retornar como um objeto que abrirá as portas para o clímax.

A decisão seria muito mais sensata caso fosse somente confiado a Emmanuel Lubezki a exploração desse território inóspito e selvagem, que usa grandes angulares que contornam cada entorno, obtendo um efeito quase circular. Quando a intenção é ir além das consequências de uma luta pela sobrevivência, que implica a interação entre desiguais e os testes dos próprios limites físicos e psicológicos, “O Regresso” não funciona.

É possível de fato perceber o empenho de Leonardo DiCaprio ao papel, especialmente com a dificuldade em encarar uma temperatura fria extrema e o diálogo em uma língua indígena na maior parte do tempo. No entanto, faltam camadas ao personagem, enfraquecido por um Tom Hardy novamente unidimensional como o seu “oponente” e os flashbacks e os devaneios poéticos que extrapolam as barreiras do pieguismo.

São fatores que preenchem a jornada de Glass com inverossimilhança, milagrosamente pulando estágios de uma recuperação definitivamente impossível estabelecidas as barreiras climáticas e o curso extremamente breve até o seu destino pretendido. Opaca-se assim a força de uma história real, que seria mais enriquecida se Iñárritu compreendesse mais as distinções e as particularidades dos inúmeros coletivos que exibe e menos os subterfúgios de um espetáculo nem sempre honesto em suas intenções.

Resenha Crítica | Carol (2015)

Carol

Carol, de Todd Haynes

A escritora Patricia Highsmith é dona de uma bibliografia recheada de thrillers sofisticados. É ela a criadora de Tom Ripley, personagem encarnado no cinema por cinco grandes intérpretes: Alain Delon (“O Sol por Testemunha”), Dennis Hopper (“O Amigo Americano”), Matt Damon (“O Talentoso Ripley”), John Malkovich (“O Retorno do Talentoso Ripley”) e Barry Pepper (“Ripley no Limite”).

Mesmo debutando com o romance que inspiraria Hitchcock a realizar “Pacto Sinistro”, Highsmith veio a seguir com “Carol”, estranho diante de uma retrospectiva de sua obra. Publicado em 1952 como “O Preço do Sal” sob o pseudônimo de Claire Morgan, o livro foi assumido por Highsmith somente em 1990, cinco anos antes de seu falecimento. Com “Carol”, Todd Haynes faz o seu primeiro longa-metragem em oito anos para continuar com um tema recorrente em sua filmografia: a descoberta da própria identidade.

Inebriada de delicadeza, a sua direção traz à tona a atração entre Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara) a princípio com apenas algumas trocas de olhares, com todos aqueles planos e contraplanos que exaltam o cinema como uma arte especial em conferir a profundidade de um oceano a pequenos gestos, geralmente ignorados com a banalidade da existência humana. Carol é uma mulher madura e visivelmente entediada com o curso que leva a sua vida e Therese é a materialização de sua vivacidade perdida, bem como a da ingenuidade que lhe permitia se doar ao novo com intensidade.

O encontro entre essas duas mulheres acontece na loja em que Therese trabalha como atendente, havendo nele uma troca de cordialidades que aos poucos recebem contornos íntimos. Em evidência, há também a presença masculina como uma figura que reprime, que sufoca, que castra. Therese tem como companheiro Richard (Jake Lacy), um sujeito bem-intencionado, mas que não percebe que ela não deseja corresponder ao seu amor. Já Carol sabe que efetivar uma separação com Harge (Kyle Chandler) lhe trará consequências graves, como a de não acompanhar o crescimento de sua pequena filha, Rindy (papel revezado pelas gêmeas Sadie e Kk Heim).

Como o esperado, Todd Haynes cerca “Carol” com todas as virtudes esperadas de um bom drama/romance de época permeado por preconceitos, como bem fez em “Longe do Paraíso”. A adaptação do texto pelas mãos de Phyllis Nagy (do telefilme “Mrs. Harris”) consegue captar os costumes da Nova York de 1950, enquanto a fotografia de Edward Lachman, a direção de arte de Jesse Rosenthal e os figurinos de Sandy Powell são apenas algumas das peças que se encaixam com harmonia para reproduzir as ambientações pretendidas.

Porém, o choque físico entre duas personagens de classes sociais distintas traz consequências negativas ao filme. Para o momento em que se espera uma entrega justamente sem amarras, o que se tem é um sexo evidentemente ensaiado, pouco arrebatador. O mesmo pode ser dito da escolha em honrar a literatura de Patricia Highsmith com um suspense ingênuo, sem consequências. Resta após esses desdobramentos um ato final que volta a envolver ao rememorar as convenções daquele contexto que ainda ganha reflexo na contemporaneidade e o quão importante é desafiá-las para um amor pleno.

Os 10 Filmes Mais Aguardados de 2016

Bridget Jones's Baby

O Bebê de Bridget Jones | Bridget Jones’s Baby | dir. Sharon Maguire | IMDb
Estreia: 16 de setembro (Reino Unido)

Exemplo raro na ficção, Helen Fielding conseguiu o feito de construir uma protagonista que carrega todas as imperfeições de uma mulher estagnada na vida decidida em por em ação todos aqueles planos que sempre prorrogamos, como fazer dieta e parar definitivamente de fumar. O retorno de Bridget Jones vem 12 anos após “No Limite da Razão”, trazendo de volta a sua intérprete Renée Zellweger, desaparecida desde “A Minha Canção de Amor”, de 2010.

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Certain Women

Certain Women | dir. Kelly Reichardt | IMDb
Estreia: a definir – première no Festival de Sundance em 24 de janeiro

Em atividade desde 1994, Kelly Reichardt veio obter reconhecimento no cinema independente americano apenas em 2008 ao estabelecer uma parceria singular com Michelle Williams a partir de “Wendy and Lucy” e continuada com “Meek’s Cutoff” e agora com “Certain Women”. Contando ainda com Kristen Stewart e Laura Dern no elenco de apoio, Reichardt tem tudo para voltar a provar que é hoje uma das vozes femininas mais interessantes a ser ouvida por meio de uma história de mulheres que habitam um cidadezinha perdida no tempo.

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Christine

Christine | dir. Antonio Campos | IMDb
Estreia: a definir – première no Festival de Sundance em 23 de janeiro

Interessados pela pesquisa sobre grandes tragédias televisionadas provavelmente acharão familiar o nome da jornalista Christine Chubbuck. Para aqueles que não a conhecem, revelar as causas que interromperam a sua existência seria o maior spoiler de “Christine”, terceiro longa-metragem do nova-iorquino Antonio Campos. Deprimida e em desacordo com as novas políticas adotadas para o seu programa Suncoast Digest, Christine protagonizou um episódio que só agora ganha a ficção. Atriz subestimada, Rebecca Hall recebe aqui a chance de ouro para finalmente brilhar no circuito de premiações.

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Elle

Elle | dir. Paul Verhoeven | IMDb
Estreia: 21 de setembro (França)

Há diretores veteranos tão exemplares em seu ofício que nos resta lamentar quando eles decidem diminuir o ritmo de trabalho. Paul Verhoeven é um dos maiores dentro desse grupo e a vinda de qualquer filme com a sua assinatura é item obrigatório em qualquer lista de mais aguardados do ano. Mas “Elle” é também uma prova de que o holandês está sempre disposto a se reinventar, trabalhando pela primeira vez em língua francesa com a fantástica Isabelle Huppert como protagonista. A trama, que envolve elementos mais que dominados por Verhoeven (como sexo e assassinato), é baseada no romance “Oh…”, de Philippe Djian, o mesmo de “Betty Blue”.

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Franz

Franz | dir. François Ozon | IMDb
Estreia: a definir

François Ozon realiza um filme por ano e ainda consegue o feito de investir em gêneros e premissas que lhe são inéditos sem perder em nenhum momento a sua assinatura. O francês só tirou férias em duas ocasiões: entre o seu debut em língua inglesa “Angel” (2006) e o retorno aos filmes pequenos com “Ricky” (2008) e entre o médio “Uma Nova Amiga” e “Franz”, em fase de finalização. Pierre Niney vem fresquinho da consagração como Yves Saint Laurent em uma história que remexe os traumas da Primeira Guerra Mundial ao acompanhar duas pessoas ligadas a um morto.

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Ghostbusters

As Caça-Fantasmas | Ghostbusters | dir. Paul Feig | IMDb
Estreia: 15 de julho (Brasil)

Desde o estrondoso sucesso de “Missão Madrinha de Casamento”, Paul Feig vem se provando o melhor diretor de comédias nos Estados Unidos. São poucos aqueles que conseguem em cada piada encontrar uma pulsação humana, a identificação com algo verdadeiramente cômico que guarda em si uma motivação dramática. Ter o seu nome ligado a “As Caça-Fantasmas” é tudo o que a franquia de Harold Ramis precisava para ser revitalizada.

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Love And Friendship

Love and Friendship | dir. Whit Stillman | IMDb
Estreia: a definir – première no Festival de Sundance em 23 de janeiro

Grande revelação do cinema independente noventista, Whit Stillman mergulhou em um hiato que durou nada menos que 13 anos entre “Os Últimos Embalos da Disco” e “Descobrindo o Amor”. Por mais estranho que possa soar, os filmes de Stillman encantam pelo antiquado, sem se ater a temas contemporâneos, aproximando-o de Woody Allen. A  fórmula deve se repetir no romance de época “Love and Friendship”, inspirado na “Lady Susan” de Jane Austen e no qual retoma a parceria com Kate Beckinsale e Chloë Sevigny, as suas protagonistas em “Os Últimos Embalos da Disco”.

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The Conjuring 2 - The Enfield Poltergeist

Invocação do Mal 2 | The Conjuring 2: The Enfield Poltergeist | dir. James Wan | IMDb
Estreia: 9 de junho (Brasil)

Nem sempre confie quando é propagado que terror X é o mais assustador dos últimos tempos, especialmente se na campanha de marketing constar virais em redes sociais ou registro da reação de uma plateia em exibições-teste. No entanto, há exceções, como “Invocação do Mal“, que realmente cumpriu o que prometeu. Agora encenando o Poltergeist de Enfield, um dos maiores casos de atividades paranormais já registrados, James Wan só faz crescer o desejo da criação de uma franquia cinematográfica sobre o casal Warren.

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The Handmaid

Agassi | dir. Park Chan-wook | IMDb
Estreia: a definir

Após desembarcar em Hollywood para filmar o excelente “Segredos de Sangue“, o cineasta sul-coreano Park Chan-wook volta a apanhar um material ocidental, mas em sua terra natal. Em “Agassi” (“The Handmaid” em inglês), Chan-wook adapta um romance da britânica Sarah Waters, “Na Ponta dos Dedos”, consagrado pela crítica como uma versão feminina de “Oliver Twist”, obra assinada por Charles Dickens. No entanto, há por trás desse verniz uma trama envolta a trapaças, mistérios e manipulações, elementos que Chan-wook sempre tirou de letra com a sua estética arrebatadora.

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Wiener-Dog

Wiener-Dog | dir. Todd Solondz | IMDb
Estreia: a definir – première no Festival de Sundance em 22 de janeiro

Bem como Whit Stillman, Todd Solondz despontou nos anos 1990 como um dos cineastas autorais mais importantes do cinema independente americano. Embora trabalhe com maior frequência, cinco anos distanciam “Dark Horse” de “Wiener-Dog”, em que acompanhará brevemente a vida de gente como a gente através da perspectiva de um cachorro. Greta Gerwig, Ellen Burstyn, Julie Delpy, Kieran Culkin, Danny DeVito e o dramaturgo Tracy Letts são os nomes principais do elenco.