Resenha Crítica | Capitão América: Guerra Civil (2016)

Captain America: Civil War, de Anthony Russo e Joe Russo

Os filmes solos do Homem de Ferro, Hulk, Thor e Capitão América se comportaram mais como um aquecimento para o que viria a ser “Os Vingadores” do que aventuras isoladas, Mesmo não fazendo um filme perfeito, Joss Whedon cumpriu com as expectativas aguardadas para a reunião de personagens tão queridos no imaginário nerd. No entanto, para onde avançar a partir desse ponto? Quais novidades oferecer quando esses indivíduos com poderes especiais já não são mais estranhos entre si?

Em “Vingadores: Era de Ultron”, era bem evidente que Whedon estava rondado por esses questionamentos, sem saber qual solução conferir. A resposta para o impasse veio a ser os irmãos Anthony e Joe Russo. Há dois anos, eles comandaram “Capitão América 2: O Soldado Invernal”. Mantendo o bom humor e a pegada com a ação de Whedon, os Russo ainda se sobressaíram ao oferecer um elemento mais cerebral no segundo filme protagonizado por Capitão América, como a sua inadequação em um contexto no qual passará a viver.

Por tudo isso, “Capitão América: Guerra Civil” vem a ser o melhor filme da franquia Marvel. É também inesperadamente ousado. Pela primeira vez, a figura do herói deixa de ser prestigiada para ser problematizada. Aqui, os Vingadores não são apenas aqueles que salvam o dia, mas também os agentes que colaboram para o seu caos. Afinal, o uso de habilidades sobre-humanas derruba tanto o vilão da vez quando o cenário que serve de palco para os embates, composto também por inocentes e os edifícios em que habitam ou trabalham.

São por essas ruínas que os Vingadores vão precisar prestar contas, deixando o coletivo dividido. De um lado, Tony Stark (Robert Downey Jr.) está disposto a assinar um tratado no qual só terá passe livre para atuar como o Homem de Ferro quando os líderes mundiais clamarem por sua intervenção. Do outro, Steve Rogers (Chris Evans) estuda que o acordo transformará os Vingadores em animais enjaulados, como vem a se sentir Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen), em reclusão após ser responsabilizada pela morte de dezenas durante uma ação terrorista de Brock Rumlow (Frank Grillo).

Como em todo o coletivo que se dissolve, há aqueles que apoiarão Tony Stark, enquanto outros compreendem o raciocínio de Steve Rogers, ainda que sua credibilidade seja colocada em xeque pelo seu zelo ao proteger Bucky Barnes (Sebastian Stan), o Soldado Invernal. Com isso, vem os atritos entre aliados, trazendo a bordo figuras nem um pouco esperados, como o Homem-Aranha, um dos pontos altos de “Capitão América: Guerra Civil” e tendo em Tom Holland a sua melhor encarnação no cinema.

Há inconsistências no filme, cujo roteiro é assinado por Christopher Markus e Stephen McFeely. A participação especial de Alfre Woodard como uma mãe com uma tragédia diretamente ligada aos Vingadores vem somente para causar um peso temporário na consciência de Tony Stark e o alemão Daniel Brühl não é capaz de provocar uma forte impressão como o vilão Zemo, por mais grande que seja como ator.

Ainda assim, as fragilidades se apequenam diante de qualidades realmente complicadas de se garantir. Além do equilíbrio entre humor e seriedade,  “Capitão América: Guerra Civil” sabe gerenciar o sem número de personagens  em ação, assim como os dramas particulares que cada um carrega. Os direcionamentos também apontam para novos horizontes, podendo influenciar a feitura de “Spider-Man: Homecoming” (prometido para o ano que vem), “Homem-Formiga e a Vespa” e “Pantera Negra” (ambos assegurados para 2018).

Resenha Crítica | O Tesouro (2015)

Comoara, de Corneliu Porumboiu

É difícil os brasileiros terem a chance de conhecer a fundo o cinema romeno e as poucas oportunidades são asseguradas a partir das credenciais que um filme pode carregar em seu cartaz, como os prêmios obtidos no circuito de premiações. Terceiro filme de Corneliu Porumboiu a desembarcar no circuito comercial do país, “O Tesouro” ganhou em Cannes uma das categorias da mostra Um Certo Olhar e contou com um bom público em suas duas exibições no INDIE 2015 Festival Cinema.

No entanto, a produção é ditada por um ritmo bem particular, capaz de provocar incômodo em espectadores pouco habituados com a cinematografia do país europeu. Mas se “Polícia, Adjetivo”, também um vencedor em Cannes na mostra Um Certo Olhar, parecia ter pouco a oferecer em uma narrativa linear e despida de grandes acontecimentos, “O Tesouro” é muito ciente de seu tom de fábula.

Também roteirista, Corneliu Porumboiu já evidencia no primeiro ato de “O Tesouro” a influência de “Robin Hood”, muito importante de ser considerada, especialmente para digestão dos desdobramentos finais. Protagonista da história, Costi (Toma Cuzin) é convencido a emprestar para o seu vizinho Adrian (Adrian Purcarescu) uma determinada quantia para o aluguel de um detector de metais. O objeto seria usado para localizar um tesouro, aparentemente enterrado na propriedade de um parente já falecido.

A princípio relutante, Costi acaba comprando a possibilidade do tesouro realmente existir, negociando com Adrian a divisão igualitária dos rendimentos. Porém, mais do que manter segredo sobre essa busca (há leis que asseguram para as autoridades a retenção dos bens cavados), Costi e Adrian precisarão ter muita paciência para explorar cada ponto do terreno, uma vez que objetos como pregos e vigas acionam o detector de metais.

Descartando a frieza investigativa de “Polícia, Adjetivo”, Corneliu Porumboiu reconhece em “O Tesouro” a necessidade da presença do humor para o curso de sua história. Manifesta-o não somente com a inserção de um terceiro personagem, Cornel (Corneliu Cozmei), um sujeito que irá operar o detector de metais, como também para as ações que cada um comete, sempre de algum modo alinhadas com a situação econômica em que estão enclausurados. Portanto, nada melhor do que uma esperança fantasiosa para aplacar a realidade.

Entrevista com Roberto Berliner, diretor de “Nise – O Coração da Loucura”

Documentarista de sucesso, Roberto Berliner deixou a desejar na sua estreia na ficção com a comédia “Julio Sumiu”, lançada há dois anos. Naquele período, no entanto, estava com uma carta na manga: “Nise: O Coração da Loucura”, rodado em 2012 e recebendo o circuito comercial somente hoje, 21 de abril.

Somando prêmios em festivais nacionais e internacionais, o drama acerta ao não se comportar como uma cinebiografia quadrada de Nise da Silveira, descartando a construção de uma linha do tempo com legendas explicativas e flashbacks para oferecer um recorte específico de seu trabalho. Essa escolha é um dos tópicos discutidos pelo cineasta na entrevista a seguir, cedida pela Agência Febre.

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Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre a Nise? O que mais te encantou sobre a Nise?

A primeira vez que eu vi a Nise foi no Circo Voador, nos anos 80. Ela aparecia lá uma vez por mês, era “O Chá da Doutora”. O projeto do filme começou muito depois com os escritos do jornalista Bernardo Horta, colaborador da Nise e irmão do André Horta, que é o fotógrafo do filme e grande parceiro meu e da TvZero. Bernardo acompanhou a Dra. Nise de perto por anos. Ele fez parte do grupo de estudos C. G. Jung que acontecia na casa da Nise. Ele gostava de observá-la e anotava não só o que ela dizia sobre diversos assuntos, mas a maneira como se comportava, seus trejeitos, sua relação com as pessoas e com o animais. Foi através dessas anotações que eu conheci melhor a intimidade da Dra. Nise.

Ela é dessas pessoas que faz o mundo dar um pulo pra frente, é uma pessoa especial, uma rebelde, e quanto mais eu pesquisava sobre sua vida e conversava com seus colaboradores, mais eu sabia que esse filme tinha que ser feito.

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O filme não é exatamente uma biografia, já que se concentra em um momento da vida de Nise. Por que escolheram contar esta parte da história?

A Nise não gostava de biografias, isso foi importante para decidirmos fazer um recorte. O filme fala do momento em que Nise volta ao hospital do Engenho de Dentro, oito anos depois de sair da prisão, e volta a exercer sua função de psiquiatra. Chegando lá, se depara com os novos tratamentos, como o eletrochoque e a lobotomia e se recusa a participar disso. Nosso filme mostra a ruptura de Nise com a psiquiatria convencional e o começo de um novo trabalho que impactou o estudo da mente no mundo inteiro.

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Como foi feita a escolha do elenco?

Fomos atrás de atores que compusessem uma equipe, que tivessem uma capacidade de se adaptar aos outros, fizessem parte de um grupo, soubessem construir o todo. Que pudessem se divertir, se interessar e viver o processo. O filme se transforma na mão da equipe, então eu gosto de trabalhar com gente que entenda seu papel dentro do grupo. Foi um processo muito rico e com desafios diários, para não errar no tom e nem desviar do nosso rumo.

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Apesar de ser uma ficção o filme conta histórias reais, da Nise da Silveira e de alguns de seus clientes mais famosos. Explique esse processo partindo da pesquisa até a filmagem.

Construímos uma rede com vários colaboradores de Nise. Conversamos com muitas pessoas que trabalharam com ela no Engenho de Dentro, desde Martha Pires Ferreira e Almir Malvignier, que trabalharam diretamente com artistas como Fernando, Emygdio e Raphael, e aparecem no filme, como também com a equipe do Museu de Imagens do Inconsciente, Luiz Carlos Mello, Gladys Schincariol, além do Lula Vanderlei e da Gina Ferreira, entre outros. Lemos também os prontuários dos pacientes e todas as anotações que conseguimos encontrar. O roteiro passou por vários tratamentos, com diversas abordagens, e a versão final foi feita a partir de recortes tirados de todos os outros.

Os atores leram todas essa pesquisa, e foram conhecendo mais através de pesquisas no Museu de Imagens do Inconsciente. Luiz Carlos Mello deu aulas para os atores que interpretaram os clientes sobre cada um dos personagens reais. Além disso, eles tiveram contato com todas as obras originais. Então, sabendo intimamente a biografia dos personagens, os atores foram preparados no Engenho de Dentro, entrando naquela rotina e sentindo a energia daquele lugar, tanto dentro de uma sala com o preparador de elenco Tomás Rezende, quanto andando pelo espaço do centro psiquiátrico, pelas enfermarias. Cada um deles foi preparado fisicamente de uma forma específica. Era como se os autores daquelas obras voltassem para revisitar suas próprias obras.

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Qual foi a importância de se filmar no próprio Hospital do Engenho de Dentro, o Centro Psiquiátrico Pedro II?

Estar lá foi fundamental, porque mergulhamos na atmosfera do filme. Alguns colaboradores de Nise que estão lá até hoje volta e meia passavam pelas filmagens, iam lá no meu ouvido me lembrar de alguma coisa ou contar alguma história. Também tivemos a participação de vários esquizofrênicos que entraram de maneira muito intensa no filme. Nós passamos a conviver todos os dias com funcionários, médicos e esquizofrênicos; os ensaios e toda a pré-produção foram lá. Essa vivência foi fundamental.

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O filme tem imagens que parecem mais um documentário do que aconteceu ali. Por que escolheu fazer assim?

Diante da importância de Nise e de sua história, era fundamental que o filme fosse real e verdadeiro. Não sobrava tempo para inventarmos coisas que não fossem essenciais. Nise pede por isso. A ideia era recriar as cenas e que elas fossem filmadas com a câmera na mão, como se fosse um documentário. As ações levam a câmera, não são as pessoas que estão armadas em função de um plano. A cena em si tinha que ser real o suficiente. Por isso a importância de termos filmado dentro do hospital, onde tudo aconteceu. O cenário é um personagem muito forte do filme. O fator emocional foi muito intenso, o fez com que nosso filme tivesse uma verdade muito grande, em cada gesto e cada atuação. Ele nos levou de volta àquele tempo. Eu quis fazer com que os atores entrassem nessa realidade para recriá-las. Eles puderam ter seu tempo para entrar naquela história, o que é raro no cinema. E tentamos filmar em ordem cronológica, para que isso contribuísse no desenvolvimento dos personagens. Isso foi muito legal, porque os atores puderam viver cada curva de seus personagens e nós fomos vivenciando a história. Ficamos muito mais dentro da história. Estávamos ali liderados pela Nise e a Gloria fez esse papel muito bem.

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Qual é a importância desse filme na sua vida?

Quando eu estava fazendo “A Pessoa é Para o que Nasce”, eu tive a sensação de que estava fazendo um trabalho muito importante, que eu estava tentando dar um passo adiante e questionando várias coisas que eu já tinha feito na minha vida. Lá, eu estava descobrindo o cinema, a linguagem, acabei virando personagem de mim mesmo. Durante as filmagens do “Nise”, eu tinha certeza que estava diante de um assunto muito importante e que eu tinha a responsabilidade de contar isso de maneira honesta, simples e direta. Como diz a Gloria, sem ostentação. Acho que conseguimos isso.

Resenha Crítica | Amor por Direito (2015)

Freeheld, de Peter Sollett

Laurel Anne Hester se transformou em uma heroína anônima a partir do instante em que liderou uma causa pessoal convertida em uma luta coletiva pela igualdade. Doente, Laurel precisou abdicar de sua profissão como policial não apenas para se submeter a uma série de tratamentos, como também a ação para que a sua parceira, Stacie Andree, pudesse ser contemplada com uma pensão caso o pior acontecesse. No entanto, o município tradicionalmente republicano em que vivia não reconhecia como legítima uma união homossexual.

Ocorrida há um pouco mais de 10 anos, a história repercute no mundo de hoje, com nações ainda relutantes em conferir a casais do mesmo sexo os direitos assegurados por parceiros heterossexuais. Em registro incisivo, Cynthia Wade levou o Oscar de Melhor Documentário em Curta-Metragem em 2007 ao apresentar ao mundo o ativismo de Laurel por meio de “Freeheld”. Já a dramatização de Peter Sollett em “Amor por Direito” somente constrange.

Há um bom ponto de partida, mostrando Laurel (Julianne Moore) como uma policial muito competente em uma função com pouca presença feminina e que esconde a sua orientação sexual com o temor de ser preterida em uma evolução em sua carreira. É uma escolha que compromete inclusive a sua relação com a jovem Stacie (Ellen Page), negando-se a demonstrações afetivas em público e unindo laços em um casamento secreto. No entanto, esse comportamento é modificado quando o trabalho passa não ser a prioridade quando a sua integridade física é arruinada com a descoberta de um câncer em estágio avançado.

Como Dane Wells, policial que atua em parceria com Laurel, Michael Shannon não se permite a cair na caricatura. Por isso mesmo, é o único elemento equilibrado em “Amor por Direito”, um personagem com a neutralidade tanto por compreender Laurel pela escolha em manter a sua vida particular em segredo como para buscar auxílio em um ambiente de trabalho machista e conservador.

O restante do elenco fica à sombra, isso quando não sucumbe ao embaraço. As boas intenções de Ellen Page, uma atriz que vem priorizando o seu lado ativista desde que se assumiu como lésbica, não é o suficiente para tornar crível a sua caracterização como Stacie, uma mecânica que mais parece uma filha do que uma parceira para Laurel. É ainda pior as intervenções de Steve Carell como Steven Goldstein, que como o apoiador de uma causa se transforma aqui em um judeu histriônico que encara uma sala de tribunal como um carnaval patético.

Mais do que o elenco, “Amor por Direito” é contaminado por uma tentativa cada vez mais constante de tornar acessível um segmento de produção audiovisual ainda encarado com resistência pelo grande público. Soa por vezes como um vídeo institucional, buscando conscientizar que há outras formas de amor e que elas são igualmente belas. A consequência é a infantilização de uma história extraordinária, felizmente muito maior para se sobressair diante de sua encarnação ficcional.

Entrevista com Mateus Solano, ator de “Em Nome da Lei”

Quem acompanha Mateus Solano desde “Mateus, o Balconista”, deduzia que o ator poderia ir longe caso descoberto pela pessoa certa. Foi a minissérie “Maysa: Quando Fala o Coração” que mudou completamente a carreira desse brasiliense de 35 anos, que vive o seu segundo protagonista no cinema após o ótimo suspense “Confia em Mim“.

No longa “Em Nome da Lei”, Solano vive um personagem inspirado no juiz federal Odilon de Oliveira, que há anos vive isolado e com escolta policial devido as ameaças de morte que recebe constantemente por desmantelar o tráfico de drogas na fronteira do Brasil com o Paraguai. É sobre ele que mais reflete na entrevista a seguir cedida pela Palavra Assessoria em Comunicação.

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Qual foi sua reação ao convite do Sergio Rezende para fazer “Em Nome da Lei”?

A primeira coisa que pensei foi: “Sergio Rezende? Caramba!”. Ele é uma referência para mim, como ator e como espectador. O convite do Sergio me deu um pouco a sensação de onde eu cheguei na carreira; estou sendo chamado por pessoas que me construíram como ator. Já estava dentro do projeto só por ser dele, o Sergio. Depois que li o roteiro, fiquei mais animado ainda, porque fala de temas importantes, como honestidade, e de até onde podemos ser honestos.

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Como descreveria o juiz Vitor, o seu personagem?

Ele é um cara honesto, mas ingênuo também, porque acha que a honestidade vai resolver, por si só, a criminalidade naquela região. O Vitor carrega a arrogância natural do jovem que quer mudar o mundo, enfrentar o status quo, os paradigmas sociais. Acha que, como tem a lei do lado dele, vai transformar tudo da noite para o dia. Logo descobre que há muitos lados da mesma moeda e que, para vencer o inimigo, ele tem que jogar com ele, e aprender como ele joga.

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A produtora Mariza Leão descreve o Vitor como um herói imperfeito…

Essa é uma dos grandes sinais de maturidade do roteiro do Sergio. O discurso do Vitor é muito bonito mas, na hora de colocá-lo em prática, esbarra em muitas coisas, até na própria arrogância. Ele chega com ideias novas como que dizendo “façam o favor de acatá-las e não discutam!”, e vai dando com a cara na porta, até encontrar um caminho diferente. Essa humanidade do personagem é muito importante: não há maniqueísmo.

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E isso vale para todos os personagens, não?

Sim. O próprio Gomez (Chico Diaz), o traficante e contrabandista da história, ou seja, o grande vilão, é mostrado sem maniqueísmo. Porque a corrupção faz parte de nós, está no nosso sangue, em todas as áreas. É difícil pedir o fim da corrupção quando ela é servida já no nosso café da manhã. É tudo torto, nada é preto no branco.

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Que tipo de pesquisas fez para construir o Vitor?

O Vitor não foi um personagem que compus com a ajuda de livros e outros tipos de referência. Ele é um cara que chega à cidade com as melhores intenções possíveis, mas descobre que só isso não é suficiente para resolver os problemas. Ele sobrevive a um atentado, permite que pessoas corram risco de vida por causa dessa impetuosidade dele. O roteiro por si só me deu material para trabalhar. Tirando a questão sentimental, a relação dele com a Alice (Paolla Oliveira), o roteiro contém muita informação. “Em Nome da Lei” não é um filme que o ator precisa entender o que o personagem está sentindo naquele momento; é uma trama de ação concreta, sem grandes sutilezas emocionais.

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Então não houve necessidade de longos ensaios?

Fizemos, basicamente, leituras do roteiro na casa do Sergio, nas quais ele dava orientações sobre para aonde cada personagem ia. A calma do Sergio é contagiante, ele é um cara muito atento e generoso. Uma coisa que admiro em um artista é a sua juventude, independentemente da idade que ele tem, pelo jeito em que vai aproveitando as coisas que vão surgindo no caminho, sem se agarrar a ideias preconcebidas.

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Já se acostumou com a rotina de um set?

Minha história vem do teatro. Cinema, para mim, é coisa nova. Acho que participei de uns cinco filmes até agora, se muito, e todos diferentes um do outro. Ainda acho meio estranho essa coisa de juntar uma galera para trabalhar, morar com ela durante algum tempo, ficar íntimo dessas pessoas e, depois de algumas semanas, todos irem cada um para o seu canto, e só vai ver o filme meses depois. É diferente de fazer uma peça, quando a gente não se desgruda nem depois que a temporada termina; ou mesmo da TV, que exige convivência diária por muitos meses seguidos. Ainda não me acostumei com essa característica meteórica do cinema.

Entrevista com Paolla Oliveira, atriz de “Em Nome da Lei”

Mesmo que a prioridade de Paolla Oliveira seja a televisão, a atriz nunca deixou de provocar uma forte impressão no cinema. Como em “Entre Lençóis“, em que aparece despida a maior parte do tempo ao lado de Reynaldo Gianecchini. No entanto, o seu melhor momento segue sendo Catarina, a protagonista do gracioso “Uma Professora Muito Maluquinha“.

Com Sérgio Rezende, Paolla Oliveira vive a sua primeira protagonista séria no thriller Em Nome da Lei”, ainda que o papel por vezes ingrato evidencie mais o seu carisma como o interesse romântico de Mateus Solano do que a garra em viver a única autoridade feminina no núcleo central. Cedida pela Palavra Assessoria em Comunicação, a entrevista a seguir traz Paolla comentando sobre a preparação para o papel.

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O que você achou da promotora Alice, sua personagem no filme?

Eu vinha da minissérie “Felizes Para Sempre?”, que tem características muito diferentes do que projeto do Sergio propunha. O desafio de “Em Nome da Lei” era fazer uma personagem mais neutra, que não tivesse essa característica feminina muito forte, de abordá-la pelo lado do romance, que tem um peso menor na trama. Ela está ali por causa do juiz Vitor (Mateus Solano), tentando fazer o trabalho dela de forma correta. Alice tem uma ligação maior com o Vitor porque eles compartilham dos mesmos objetivos e valores. Então, minha preocupação era entender como uma promotora se comporta, e como profissional, como ela se relaciona com policiais e juízes.

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E onde você foi buscar essas informações para ajudar a compor a personagem?

Procurei um promotor do Rio e troquei ideias com ele. Queria entender melhor essa relação de subordinação entre os profissionais do judiciário, e como eles se comportavam dentro do fórum. Ele me explicou tudo, que cada um exerce um tipo de poder, mas não estão subordinados. Já tinha perguntado tudo que fora possível com parentes que trabalham nessa área, mas foi bom ter conversado com uma pessoa de fora. A gente também foi buscar referências em filmes sobre a fronteira, guerra contra o narcotráfico e gângsteres, sugeridos pelo Sergio.

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A fronteira já lhe era familiar?

Ainda não conhecia aquela região do Mato Grosso do Sul. Foi uma experiência bacana. Visitei lugares mais afastados do set. Fui até o Paraguai! É engraçado perceber as pequenas diferenças entre países vizinhos, coisas que são permitidas lá e proibidas aqui, e vice-versa. A gente pegar uma permissão para atravessar do Brasil para o Paraguai, tem multas aqui que não existem lá, do outro lado. Mas estamos falando do lado mais puro da fronteira. O filme trata de como se vive numa área em que o legal e o ilegal se misturam, e sobre que tipo de justiça pode ser feita num lugar em que as pessoas vivem nessa confusão.

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É uma região violenta?

Não tive essa impressão. Pelo menos em Dourados, a cidade onde filmamos. A violência de que fala o filme é de outra ordem. “Em Nome da Lei” mostra, por exemplo, que as pessoas se revoltam contra a ação dos juízes que estão tentando prender os traficantes da região. A contravenção é tão bem organizada que a presença de lei ali acaba representando a desordem. A maior violência acontece entre as organizações criminosas que atuam na região.

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Como foi reencontrar o Mateus Solano, com quem contracenou na novela “Amor à Vida”, agora no set de um filme?

Foi muito bom nos reencontrarmos tanto tempo depois da novela. O engraçado é que, na TV, ele tinha um personagem quase cômico; e no filme ele está num personagem tão sério. Como interpretamos irmãos durante meses na novela, eu entrei no set ainda me sentindo um pouco irmã do Mateus, e ele lá, fazendo o Vitor, um personagem seríssimo. E eu me perguntava: “Meu Deus, cadê o Félix da novela?”.

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Este é o seu sétimo longa-metragem em pouco mais de 10 anos de carreira. Gostaria de fazer mais cinema?

Só não fiz mais filmes até agora porque não me aparecerem mais convites. Em cinema a gente pode fazer coisas diferentes, experimentais; em TV isso é muito mais difícil esse tipo de experimentação. Do ponto de vista da atuação, não vejo diferença no fazer entre as duas mídias. A distinção está na expectativa que ele gera. O filme é uma obra fechada, você vê o arco de evolução do personagem; telenovela é uma obra aberta, a personagem vive em função da resposta do telespectador ou de algo que o coloque na berlinda.

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A que você credita a falta de mais convites para cinema? Que tipo de filme gostaria de fazer?

Gostaria de fazer escolhas não tão populares, como tenho feito na TV, e acho que as pessoas não me enxergam fazendo outro tipo de personagem em filmes. Fazer cinema no Brasil é complicado, lento, burocrático, e isso atrapalha muito a produção, em termos de quantidade e diversidade. Mas é no cinema que gostaria de fazer coisas diferentes.

Entrevista com Sérgio Rezende, diretor de “Em Nome da Lei”

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Mesmo longe das telas desde 2009, ano em que lançou “Salve Geral”, Sérgio Rezende estava comprometido com “Em Nome da Lei” desde 2012. Não imaginava que lançaria o filme em um instante em que a política e a justiça se tornariam as pautas principais dos jornais diários e da boca do povo.
Ainda assim, o thriller não parte da linha da produção oportunista, algo confirmado pelo próprio cineasta em coletiva de imprensa realizada em 11 de abril. “Em Nome da Lei” trás temas que se comunicam com a sua filmografia. É o que evidencia na entrevista a seguir, oferecida pela Palavra Assessoria em Comunicação.
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O que há de particular na região de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai?
O filme é uma ficção, uma história original inspirada em histórias daquela parte do país. Aquele mundo ali tem muita história. Na década de 1970, aquilo era o fim do mundo e uma paisagem ainda muito desconhecida pelos brasileiros. Aos poucos, foi se transformando em solo fértil para o agronegócio. A proximidade com a fronteira, pouco policiada, a transformou em porta de entrada para o contrabando e o tráfico de drogas. Primeiro, foi o contrabando de café e de outros produtos. Depois as drogas, maconha, cocaína, e até roubo de carro. Hoje é uma região turbulenta. Mais recentemente, as gangues de São Paulo se mudaram para lá. Tenho muita pesquisa sobre isso. Acabei me interessando mais pelo aspecto mítico da fronteira.
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A fronteira geográfica ou a metafórica?
Ambas. Esse espaço físico e humano onde a linha entre o legal e o ilegal, a justiça e o crime é sempre tênue. Fui começando a pensar no filme a partir das questões que a ideia de fronteira levantam. De repente, percebi que tinha estruturado o filme quase como um western: o cara chega em seu cavalinho numa cidade nova para enfrentar todo mundo. No caso de “Em Nome da Lei”, o herói chega em uma moto, mas é mais ou menos a mesma coisa. Meu horizonte eram filmes americanos como “A Marca da Maldade” e “O Homem que Matou o Facínora”.
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Vê alguma relação entre a extensão de nossa fronteira e o crime organizado?
Uma fronteira como a brasileira é uma coisa que não dá para cercar ou vigiar de forma eficiente. É um estímulo ao contrabando, ao tráfico. Hoje, cerca de ¼ do cigarro consumido aqui no Brasil é contrabandeado, pirata. Agora tem uma coisa que está animando muito os criminosos, é o fato de que contrabando é considerado uma contravenção, já traficar droga é crime. Dirigir um caminhão carregado de cigarro pirateado é um crime afiançável; quem é pego com maconha ou cocaína é preso. Os rigores são outros. O contrabando é um negócio que rende bilhões de reais aos criminosos, e gera uma perda bilionária de impostos para o país. E todo mundo participa disso ao comprar material contrabandeado. A sociedade também tem responsabilidade sobre isso.
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O filme chega aos cinemas brasileiros em um momento em que há um clamor por um Judiciário mais eficaz. Há juízes que estão se tornando verdadeiros heróis. O que acha disso?
Em um país como o Brasil, a lei, muito frequentemente, serve à injustiça. É através da lei que a justiça não é feita, o julgamento de casos de corrupção são protelados por décadas, até caducarem. Isso acontece porque a lei permite. Há um conflito entre a lei a a Justiça. Até o (juiz Sergio) Moro (à frente das investigações da operação Lava-Jato) tem falado sobre isso. Essa questão está muito latente na sociedade brasileira.
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“Em Nome da Lei” se passa em uma cidade fictícia da fronteira. Por que a escolha de Dourados como locação?
Filmarem Dourados significou uma facilidade logística brutal, não perdíamos tempo. Tínhamos aeroporto, restaurantes e locações tudo a cinco minutos do hotel em que a equipe ficou hospedada. Aqui no Rio, por exemplo, teríamos o problema locomoção. Em Dourados não houve nenhuma locação mais distante 20 minutos. Filmamos ao longo de sete semanas. A gente construiu cenários e adaptou prédios já existentes. O fórum onde o Vitor trabalha foi construído em um clube social da cidade. A casa do Gomez é uma mansão que pertenceu a um cara que tinha uma vida meio polêmica e estava abandonada. A gente reformou o casarão inteiro. Grande parte em locações.
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O elenco do filme combina antigos colaboradores seus com nomes de jovens talentos revelados pela televisão. Como chegou a essa composição?
Nunca havia trabalhado com o Mateus e a Paolla, mas tinha admiração pelo trabalho deles na TV. São pessoas que ajudam a dar visibilidade ao filme. Chegar ao Chico foi mais fácil, pois já havia feito dois filmes com ele, “O Sonho Não Acabou”, nosso primeiro filme de ficção, e “O Homem da Capa Preta”. Mas o resto da turma também me deu um grande prazer. Trouxe atores da série “Questão de família”, que fiz recentemente para o canal GNT, como o Eduardo Galvão. Éramos um pouco como uma companhia de teatro, rolou uma integração, um companheirismo muito grande na locação.
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Por que você trouxe o Pedro Bromfman, que mora e trabalha nos Estados Unidos, para fazer a trilha sonora?
Já tinha tentado trabalhar com o Pedro antes, em “Salve Geral” (2009), mas não deu certo. “Em Nome da Lei” é um filme de gênero, coisa que não se faz tanto aqui no Brasil e, como o Pedro agora está no olho do furacão, assinando a música de produções como “Robocop”, a refilmagem do sucesso dos anos 1980, e da série “Narcos”, ambos com direção de José Padilha, achei que a contribuição dele seria mais que oportuna. O Pedro é um cara que está imerso no cinema de gênero e, ao mesmo tempo, sendo brasileiro, conhece o universo cultural do filme. Ele fez essa ponte.

Entrevista com Chico Diaz, ator de “Em Nome da Lei”

Com quase uma centena de créditos no cinema e na tevê, o ator Chico Diaz se consagrou em 2002 como Wellinton Kanibal, um dos papéis centrais de “Amarelo Manga”, o filme mais elogiado do pernambucano Cláudio Assis. Mas Chico deve parte de seu sucesso ao diretor Sérgio Rezende, que ofereceu o primeiro papel de sua carreira em 1982, no longa-metragem “O Sonho Não Acabou”.

Também no elenco de “O Homem da Capa Preta” (de 1986), Chico Diaz revê Rezende em “Em Nome da Lei“, dando aqui vida ao vilão Gomez. Nascido na Cidade do México em 1959, o intérprete mergulhou em um processo minucioso de construção para entregar um personagem composto não apenas de uma dimensão. Esse é um dos aspectos discutidos na entrevista a seguir, cedida pela Palavra Assessoria em Comunicação.

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“Em Nome da Lei” é o seu terceiro filme sob a direção de Sergio Rezende. Como vê esse reencontro?

Acho que foi um belo reencontro, porque o Sergio pensou em mim para um ótimo personagem. Na verdade, foi o Sergio e a Mariza Leão que me apresentaram ao mundo do cinema, em “O Sonho Não Acabou” (1982), meu primeiro filme. Depois, fizemos juntos “O Homem da Capa Preta” (1986). Então, há um sentimento de gratidão muito grande por ele ter aberto esse caminho para mim. Foi interessante ver como o Sergio e a Mariza amadureceram ao longo desse tempo e, ao mesmo tempo, o quanto permaneceram os mesmos também, em termos de camaradagem e no cuidado com os detalhes, as pequenas coisas.

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A partir de que referências você construiu o traficante Gomez?

O Gomez não é baseado em ninguém em particular. A inspiração é mais abrangente: o universo dos grandes capi do tráfico de cocaína. Sergio me apresentou a um personagem que poderia ter um corte arquetípico, como um grande bicheiro ou um mafioso italiano, com fortes laços com a família e noções de fidelidade, que encontramos em livros, filmes e séries de TV. Minha preocupação maior era dar peso ao personagem, porque sou mais baixo e, portanto, mais leve também. Tinha que adquirir uma densidade de movimento e de voz. E é isso que a gente vai aprendendo com o cinema, a se movimentar dentro do quadro.

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Consegue entender as motivações de Gomez?

Li recentemente uma entrevista agora o traficante mexicano “El Chapo” Guzmán. A argumentação dele é próxima à do Gomez: de onde vim não tinha nada, aprendi a sobreviver, me impus. Ele é produto de uma geração quase espontânea, fruto da ausência do Estado, que não oferece proteção e educação a seus cidadãos. Gomez é um criminoso, mas também um pai de família e bom comerciante. Ele é cria de uma região de fronteira em que, historicamente, esses procedimentos ilegais eram ignorados pelo poder público, um problema que só observado há pouco mais de 10 anos. Antes era invisível a todos.

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O que você conhecia sobre a fronteira entre o Brasil e o Paraguai?

A familiaridade se dá mais pelo sangue do que pela geografia: meu pai mora no Paraguai e vou lá com uma certa frequência. Mas eu nunca tinha estado na fronteira do lado de cá, o brasileiro. Desconhecia a pujança agroindustrial daquela região. A cidade de Dourados, onde filmamos “Em Nome da Lei”, me impressionou muito pela riqueza, mas também pela discriminação dos índios, que são colocados de lado, marginalizados.

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O que achou da experiência de filmar em locação?

Adoro fazer filmes em locação. A natureza em torno e as pessoas do lugar contribuem para compor a personagem. Ficamos meio isolados naquela localidade, mas eu saía para fotografar, escutar como as pessoas falam e constroem seu mundo para então roubar um pedacinho para colocar no roteiro. Cada filme exige uma forma de abordagem do personagem. Uns exigem imersão mais profunda, em outros a técnica vai melhor o personagem, e há outros que não valem tanto o esforço da imersão, porque não vai imprimir tudo na tela.

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Como classificaria “Em Nome da Lei” dentro da produção nacional atual?

É um exemplar raro no panorama de hoje, um filme pesado, de locação pesada, e com um elenco heterogêneo. Essa experiência me deu vontade de navegar no grande cinema brasileiro que fiz lá atrás, 20 anos ou mais. É uma história onde há um embate entre claro e escuro, o que é lei e o que não lei. Um filme que não se propõe a fazer uma leitura, um julgamento, daquela realidade que apresenta. “Em Nome da Lei” não tem proposta sociológica, é um filme de ação e romance.

Entrevista com Mariza Leão, produtora de “Em Nome da Lei”

Parceira de Sérgio Rezende na vida pessoal e na profissão desde “Até a Última Gota” (de 1980), Mariza Leão não havia participado da produção de “Salve Geral“, thriller protagonizado por Andrea Beltrão em 2009. A colaboração no cinema volta com “Em Nome da Lei“, cuja premissa é inspirada em uma figura real, o juiz federal Odilon de Oliveira.

Antes desse reencontro, no entanto, Mariza se consolidou como uma das produtoras mais bem-sucedidas de nosso cinema, resultado de uma flexibilização que abraçou comédias populares como “De Pernas Pro Ar” e “Meu Passado Me Condena: O Filme”. São detalhes comentados na entrevista a seguir, cedida pela Palavra Assessoria em Comunicação.

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Você não produz um filme do Sergio, seu marido, desde “Onde Anda Você” (2004). Como analisa esse período em que vocês dois estiveram “separados”?

Acho que foi muito bom a gente ter ido cada um para o seu lado, durante algum tempo, para poder voltar com um projeto que encantava os dois. Sempre digo que é bom trabalhar juntos por opção e não por contingência. Ele me propôs esse projeto, adorei e achei que já estávamos muito tempo separados profissionalmente. De certa forma, “Em Nome da Lei” é um reencontro.

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Quais aspectos de “Em Nome da Lei” te chamaram mais a atenção?

Acho que a contemporaneidade do projeto me interessou mais. Tenho mais afinidade com filmes contemporâneos. O filme fala de um personagem que identifico no Brasil contemporâneo e isso me atrai muito. Essa coisa de me ver colada numa realidade que estou vivendo. Acho que um juiz jovem que assume uma vara em uma região de fronteira é uma coisa muito contemporânea, sim.

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Enxerga alguma semelhança entre o Vitor, protagonista de “Em Nome da Lei”, e o juiz Sergio Moro, que está à frente das investigações da Lava-Jato, na vida real?

Acho que o nosso juiz não tem nada a ver com o Moro. O que acontece no nosso Brasil é que os poderes Executivo e Legislativo estão passando por um momento muito difícil, e o Judiciário está assumindo um papel que, a meu ver, não é equilibrado. Existem três poderes, não pode existir apenas um que seja um depositório da expectativa da sociedade. Nesse sentido, gosto desse juiz imperfeito, que tem contradições. O Vitor de “Em Nome da Lei” é um herói imperfeito. Não um herói no sentido tolo, rasteiro, mas alguém que tem um compromisso com seus ideais e que os leva adiante com todas as contradições que nós, seres humanos, temos.

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Quais as vantagens de se filmar em locação uma história com geografia tão complexa como essa?

Acho que não conseguíramos uma figuração com essa, meio com cara de índio boliviano/matogrossense. Outra vantagem são os grandes planos abertos daquela região, a terra vermelha das plantações de cana e soja, que aqui, no Rio, não teria. Sergio não tem medo de filmes em locação. Eu também sou maluca o suficiente para filmar no sertão (“Canudos”), no interior de Portugal (“Meu Passado Me Condena 2”), ou num navio (“Meu Passado Me Condena”). Filmo muito pouco no Rio. Acho que interessante também porque a região Centro Oeste é muito pouco mostrada no cinema ou na TV brasileiros. O visual do filme é elemento de atração para o público. Aqueles grandes planos de estradas, sem montanhas, fogem do lugar comum.

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A que você credita essa quase ausência da paisagem do Centro Oeste no cinema brasileiro?

Se você pegar a literatura brasileira, vai encontrar uma quantidade enorme de livros que têm como cenário o sertão ou o litoral nordestino, ou ambientados na região amazônica. Há poucos autores que se detêm sobre o Pantanal, como o poeta Manoel de Barros. Em outras mídias, a escassez é maior ainda. A gente consegue lembrar de “O Matador”, do Beto Brant, que se passa na fronteira do Centro Oeste, e mais nada. Mas a fronteira é muito ativa, é um tema brasileiro.

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É mais difícil levantar fundos para um filme com questões sociais e políticas, como “Em Nome da Lei”, do que uma comédia?

O tema não trouxe facilidades ou dificuldades. Ele tem apoios fortes da Fox e do Fundo Setorial, por exemplo. Sim, há investidor que só quer fazer filmes para as pessoas rirem, o que não é o caso do nosso, que fala sobre contrabandistas que agem entre o Brasil e o Paraguai. Há filmes que são mais fáceis de conseguir apoio do que outros, mas tem lugar para tudo no mercado. O que vejo é uma dificuldade maior para levantar recursos para produções mais encorpadas. Hoje, no Brasil, os filmes que se viabilizam mais facilmente são os de custo médio, de até R$ 6 milhões, com alguma vocação popular. Os filmes mais encorpados, orçados entre R$ 7 e R$ 7,5 milhões, que também são importantíssimos, têm mais dificuldades de encontrar parceiros. Até porque os recursos oriundos de leis de incentivo diminuíram muito nos últimos anos.

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Você produz filmes de diversos gêneros e tamanhos. Tem preferência por algum tipo?

Gosto da pluralidade. Uma produtora tem que ter no currículo filmes de diferentes patamares. Tem que fazer um drama intimista como “Ponte Aérea”, comédias como “Meu Passado Me Condena” e um filme de ação como “Em Nome da Lei”. Não quero ser refém de um modelo de sucesso, nem de um caminho. Acho que produzir é também se expor, se colocar no mundo, ter um ponto de vista através dos filmes que você faz. Mas não é fácil, porque o “Em Nome da Lei” é um filme de porte grande, em termos de elenco, quantidade de extras, de cenas de ação. É diferente de fazer um filme urbano sobre relações afetivas, com o “Ponte Aérea”. E todos eles têm que ser igualmente bem realizados.

Resenha Crítica | Em Nome da Lei (2016)

Em Nome da Lei, de Sérgio Rezende

Nascido em 1949 e formado em Direito no final da década de 1980, o juiz federal Odilon de Oliveira tem tanta convicção de seu papel em cumprir com a lei que isso custou a sua própria liberdade. Incisivo em desmantelar o tráfico de drogas na fronteira entre o Paraguai e o Brasil, Odilon se viu ameaçado por um sem número de criminosos, estando há anos escoltado por policiais federais 24 horas por dia.

Trata-se de uma grande figura real, não conhecida como o merecido devido a própria situação em que está enclausurado por defender o certo em um país marcado pela violência e valores facilmente corrompidos. Por isso mesmo, Sérgio Rezende parecia a escolha correta para “Em Nome da Lei”, o seu primeiro longa-metragem após o subestimado “Salve Geral”.

O diretor é responsável por uma filmografia que tem como ápice o registro político de uma época tendo como protagonista um grande líder ou representante para um impasse, justamente o principal aspecto de “Em Nome da Lei”. Entretanto, Odilon, por meio do roteiro também assinado por Rafael Dragaud, é transformado em Vitor, um jovem idealista mais ingênuo do que audaz.

Bem-apessoado, Mateus Solano é um talento inadequado para o papel, mais seguro no jogo de sedução com a procuradora Alice (Paolla Oliveira) do que em por em ação os casos que buscam arruinar as operações ilegais de Gomez (Chico Diaz), líder de uma máfia de drogas que exerce forte influência inclusive em agentes da lei e que costuma zelar pelo bem-estar de sua família.

Ainda que as locações em Dourados emulem bem as intermediações das linhas que separam dois países, a produção privilegia uma estética limpa, raramente captando a sordidez que ronda uma teia de crimes tecida por traficantes, ilegais, corruptos e indivíduos íntegros. Há também soluções fáceis no roteiro, praticamente ditadas por envolvimentos amorosos, seja entre Vitor e Alice, seja entre os bandidos Cebolinha (Silvio Guindane) e Hermano (Emilio Dantas) respectivamente com a personagem de Carolina Chalita e Luna (Juliana Lohmann). É como ver um filme sintonizado com os nossos tempos e ainda assim soar antiquado.