10 Filmes de Temática LGBT que Merecem ser Descobertos

Hoje, 28 de junho, é comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Muito mais do que uma comemoração que reúne membros da comunidade em pontos movimentados das cidades, a data vem para fortalecer a luta pela igualdade em uma sociedade ainda movida por preconceitos contra orientação sexual e gênero.

Desde o instante que o cinema se livrou das amarras da censura, os filmes de temática LGBT passaram a marcar presença na cinematografia mundial. A crença conservadora de doença ou desvio de conduta felizmente deu espaço para tramas ficcionais que se conscientizaram da importância em inserir em sua moral o fato de que há algo de muito perverso na condenação da prática do amor entre pessoas do mesmo sexo ou de indivíduos que passam a rever o gênero ao qual pertencem.

Sem a necessidade de transformar em vídeo institucional uma obra cinematográfica que retrata essas questões, os filmes a seguir são incisivos na dramaticidade e no humor ao representar um movimento de vozes que vêm se mostrando mais fortes do que a intolerância. Dentro de um sem número de títulos pré-selecionados, chegamos a um recorte com dez filmes, privilegiados na lista a seguir por não serem tão lembrados quando se fala em cinema LBGT.

Gostaria de recomendar algum título ausente em nossa seleção? Pois não deixe de usar os comentários para dar as suas recomendações.

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O Pecado de Todos Nós (Reflections in a Golden Eye)

O Pecado de Todos Nós, de John Huston +

Na velha Hollywood, os censores eram ferozes na avaliação de filmes não voltados para toda a família que envolvessem relacionamentos e violência. Na Era de Ouro, imperava o código Hays, responsável por todos os protocolos que passavam um pano em tudo o que categorizavam como impuro, um ataque aos bons costumes. Com a falência do sistema de censura, algumas produções foram mais claras ao lidar com as suas intenções e “O Pecado de Todos Nós” talvez seja o primeiro filme com grandes protagonistas ao tratar sobre desejos reprimidos e adultérios. Muito mais do que o serviçal afeminado interpretado pro Zorro David, há aqui um Marlon Brando como um major casado com uma insaciável Elizabeth Taylor que contempla às escondidas o soldado de Robert Forster cavalgando nu pela floresta próxima a sua propriedade.  Mesmo jamais deixando claro, é evidente que Sam Mendes se inspirou em “O Pecado de Todos Nós” para a sua estreia como diretor de cinema em “Beleza Americana”.

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Mulheres Apaixonadas (Women in Love)

Mulheres Apaixonadas, de Ken Russell

Dois anos após “O Pecado de Todos Nós”, o cineasta britânico Ken Russell deu alguns passos adiante para as narrativas que desejavam falar mais abertamente sobre a complexidade das relações humanas. Com base no romance de D.H. Lawrence, Russell escandalizou ao trazer aquela que foi a primeira cena de nudez frontal contida em uma produção de reconhecimento mundial. Trata-se da luta encenada entre Oliver Reed e Alan Bates em uma sala de estar, momento que denuncia o caráter homoafetivo da obra e que servirá inclusive como ferramenta para a perversidade da protagonista da extraordinária Glenda Jackson, em interpretação vencedora do Oscar. Ambientado na década de 1920, a história se desenvolve a partir do envolvimento de dois melhores amigos (Reed e Bates) respectivamente com as irmãs Gudrun e Ursula Brangwen (Jackson e Jennie Linden).

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Parceiros da Noite (Cruising)

Parceiros da Noite, de William Friedkin

Poucos cineastas tiveram uma ascensão e queda tão marcante quanto William Friedkin. Oscar de Melhor Diretor por “Operação França” e responsável por um dos filmes mais aterrorizantes da história do cinema (“O Exorcista”), Friedkin foi duramente criticado por “Parceiros da Noite”, onde trata sem reservas sobre a caça do policial interpretado por Al Pacino por um assassino em série que atua na cena noturna gay de Nova York. Repudiado no lançamento, hoje o filme tem sido redescoberto, ganhando atualidade com as tragédias recentes que vitimaram membros da comunidade LGBT, como a de Orlando neste mês. Em 2013, James Franco e Travis Mathews reimaginaram as sequências explícitas que teriam sido removidas da edição final de “Parceiros da Noite” em “Interior. Leather Bar.”.

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O Padre, de Antonia Bird

Falecida em 2013, a cineasta Antonia Bird foi capaz de desenvolver uma carreira expressiva, mesmo afeita a condução de episódios de séries que não tiveram grande repercussão. A sua obra-prima é “O Padre”, de 1994. Com roteiro assinado por Jimmy McGovern, Bird definitivamente mexeu em vespeiro: interpretado por Linus Roache (no melhor trabalho de sua carreira), o padre Greg Pilkington preocupa-se com as causas dos moradores da cidadezinha em que vive ao mesmo tempo em que mergulha secretamente em aventuras homossexuais com Graham (Robert Carlyle). Além de introduzir Tom Wilkinson como um colega de batina em um relacionamento não revelado com  a própria empregada, “O Padre” ainda amplia as discussões ao tornar pública a privacidade do protagonista, que ainda é atormentado com a confissão de uma menor que se diz abusada sexualmente pelo próprio pai.

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Ligadas Pelo Desejo (Bound)

Ligadas pelo Desejo, de Lana e Lilly Wachowski

Antes de sucumbirem à megalomania com os fracassados “Speed Racer” e “O Destino de Júpiter” ou mesmo de recolherem os louros obtidos com “Matrix”, Lana e Lilly Wachowski tinham começado pequeno com um filme produzido com apenas 4,5 milhões de dólares, mas que segue como o maior feito de suas carreiras. Trata-se de “Ligadas pelo Desejo”, um romance criminal que parece satirizar a cartilha do cinema noir ao trazer duas mulheres ambiciosas, Violet (Jennifer Tilly) e Corky (Gina Gershon), como parceiras de uma armação que visa puxar o tapete do namorado da primeira, Caesar (Joe Pantoliano), que estaria com uma maleta com dois milhões de dólares pertencentes à máfia. Como Caesar não está ciente da pulada de cerca de sua amada Violet (ou mesmo de sua verdadeira orientação sexual), isso muda todo o rumo da narrativa, que nos leva a caminhos definitivamente inesperados.

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O Oposto do Sexo (The Opposite of Sex)

O Oposto do Sexo, de Don Ross

Autor dos excelentes roteiros de “Mulher Solteira Procura” e “As Barreiras do Amor”, Don Ross superou todas as expectativas ao debutar como diretor em 1998 com  “O Oposto do Sexo”. Cheio de humor negro e com a narração em off mais sarcástica do cinema, o filme apresenta a ardilosa Dede (Christina Ricci), uma adolescente grávida que busca o marido de seu falecido irmão, Bill (Martin Donovan), para obter alguma assistência. As coisas começam a se transformar em um novelo de lã cheio de nós quando Dede foge com Jason (Johnny Galecki), o então novo namorado de Bill. A confusão ainda envolverá a irmã mal amada de Bill, Lucia (Lisa Kudrow), o xerife interpretado por Lyle Lovett e até um amante de Dede, Randy (William Lee Scott). É um raro exemplo de comédia voltada para todo o público que não transforma o núcleo gay de personagens em meras caricaturas.

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Gotas D'Água em Pedras Escaldantes (Gouttes d'eau sur pierres brûlantes)

Gotas d’Água em Pedras Escaldante, de François Ozon

Homossexual, François Ozon é às vezes chamado de o Woody Allen francês. Não apenas pela periodicidade com que lança os seus filmes (um por ano), como pelas marcas autorais presentes em todos os seus textos, inclusive naqueles adaptados de outras fontes. Baseado em uma peça assinada por um então jovem Rainer Werner Fassbinder, “Gotas d’Água em Pedras Escaldantes” tinha tudo para ser um teatro filmado, uma vez que se passa inteiramente em um apartamento que será povoado por apenas quatro personagens. O resultado é o oposto, pois a encenação efervescente supera as limitações do palco com todas as formas de amor experimentadas, do jovem Franz (Malik Zidi) com o cinquentão Léopold (Bernard Giraudeau) até de Léopold com a enigmática Véra (Anna Levine).

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Mistérios da Carne (Mysterious Skin)

Mistérios da Carne, de Gregg Araki

Na revolução do cinema independente noventista, Gregg Araki surgiu como uma voz de representatividade para o público LGBT, definindo uma estética e um estilo de contar uma história que ia muito além dos “tutoriais” em formas de obras cinematográficas que imperam o circuito hoje.  “Mistérios da Carne” é encarado quase por unanimidade como o seu melhor filme, desviando-se sutilmente das extravagâncias singulares de seus sucessos de início de carreira para abraçar uma premissa que abandona os toques fantásticos de seu prólogo para tratar seriamente sobre uma infância de traumas envolvendo o garoto de programa Neil (Joseph Gordon-Levitt) e o tímido Brian (Brady Corbet).

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Como Esquecer

Como Esquecer, de Malu De Martino

Publicado em 2003 por Myriam Campello, “Como Esquecer” se transformou em um bom filme pelas mãos de Malu De Martino. Alguns elementos poéticos podem não surtir o efeito desejado (atente-se as aparições da garota com o guarda-chuva) e há conflitos dramáticos com soluções insatisfatórias. De qualquer modo, existe algo de especial nesta representação do fim de um relacionamento e todas as dores que ele carrega, inerente a qualquer casal. Ana Paula Arósio está extraordinária como Júlia, uma professora em busca de isolamento após o rompimento com Antonia, sua companheira durante dez anos. A dor acaba sendo compartilhada com duas pessoas com as quais passa a dividir um mesmo teto por problemas financeiros: o seu melhor amigo homossexual Hugo (Murilo Rosa) e a colega deste, Lisa (Natália Lage), abandonada grávida pelo seu namorado. Uma prova de que as dores de amores não isentam ninguém, assim como as oportunidades de recomeços.

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Tangerine

Tangerine, de Sean Baker

Sean Baker já havia se revelado uma promessa em “Uma Estranha Amizade”, uma comédia dramática autentica sobre a amizade de uma jovem com uma idosa. Primeiro longa-metragem realizado integralmente com iPhone, “Tangerine” desconstrói da raiz os filmes natalinos, trazendo as desventuras que movimentam o reencontro de duas amigas transgênero (Kitana Kiki Rodriguez e a arrebatadora Mya Taylor) na véspera do feriado natalino. Como o esperado, a proposta rende um retrato cômico a partir de situações de constrangimento captadas em uma Hollywood periférica, mas há no coração de “Tangerine” uma empatia comovente por anônimos de algum modo oprimidos no ambiente que estão inseridos tanto por não terem receios em mostrarem quem são em essência quanto por desempenharem o papel que foi-lhes confiado, como o caso do taxista interpretado por Karren Karagulian.

Resenha Crítica | Contágio – Epidemia Mortal (2015)

Maggie, de Henry Hobson

Desde que George A. Romero popularizou em “A Noite dos Mortos-Vivos” que o filão dos filmes de mortos-vivos não saiu de moda. No entanto, a remodelação da tradição é inevitável com a vinda de novas gerações, tendo a mais atual encontrado um ponto de sustentação com o seriado “The Walking Dead”, no ar há sete temporadas.

Se o excesso faz os fãs se depararem com muitas bobagens, há ao menos o espaço para alguns realizadores experimentarem novas possibilidades para o cenário pós-apocalíptico com seres dados como mortos. É o que faz Henry Hobson, estreante então afeito ao design de sequência de créditos iniciais e finais.

Em “Contágio – Epidemia Mortal”, que chega ao Brasil direto em homevideo após muitas indecisões quanto ao seu lançamento e título nacional, há um viés mais dramático e menos aterrorizante de um planeta tomado por vírus que transforma paulatinamente os infectados em zumbis. Não é o que se espera de um filme que tem um lado de seu protagonismo defendido por Arnold Schwarzenegger, o que certamente frustrará muitos espectadores.

Na realidade, Schwarzenegger, que aceitou o papel sem embolsar um tostão de cachê, é um suporte para Abigail Breslin, que interpreta a sua filha Maggie, uma adolescente acometida por uma infecção que desliga a sua humanidade até se mover unicamente pelo desejo em devorar a carne de seus semelhantes. Como a mãe (Joely Richardson) se afastando cada vez mais, resta ao pai zelar por Maggie, que já atravessou estágios de transformação considerados perigosos para permitir que ela prossiga vivendo em sociedade.

Para um filme que figurou na black list de grandes roteiros não produzidos, “Contágio – Epidemia Mortal” não é necessariamente especial ou inesquecível. A sua autenticidade está em descartar a tendência de visualizar no caos mundial um recurso para extrair um comentário social. O que move a trama é uma consciência mais intimista, observando os sacrifícios de pais diante de uma criação que não terão uma existência tão longeva quanto a deles. Justamente o que vem a ser o verdadeiro horror compartilhado por adultos responsáveis por vidas ainda jovens.

Resenha Crítica | O Caseiro (2016)

O Caseiro, de Julio Santi

A cultura brasileira é cheia de lendas urbanas e misticismos que renderiam a produção de um sem número de filmes que disputariam em pé de igualdade com outros gêneros de nossa cinematografia. Além do mais, o público jovem interessado está crescendo, como se viu no um milhão de ingressos que “Invocação do Mal 2” vendeu apenas em seu fim de semana de estreia.

A razão da escassez está na falta de manejo com elementos consagrados no terror, transformando o que deveria ser aterrador em objeto de humor involuntário. Não à toa, as obras nacionais que obteram maior êxito foram justamente aquelas que compreenderam o humor como um componente que não se desassocia do horror, como fazia Ivan Cardoso.

Por tudo isso, o esforço de Julio Santi em “O Caseiro” merece algum crédito. Ao contrário de seus colegas, o jovem cineasta, em parceria com o seu irmão João Santi no roteiro, compreende que é possível rever com seriedade o nosso folclore e raramente traz para o seu filme o que já é chavão em exemplares estrangeiros.

Em boa atuação, Bruno Garcia é o professor de psicologia paranormal Davi. Os seus alunos encaram com certa resistência a sua disciplina, mas há aqueles que acreditam em sua fala, como Renata (Malu Rodrigues). Mesmo residindo na grande São Paulo para lidar com a graduação, a jovem ainda é muito ligada à família que vive no interior. Isso porque alguns eventos estranhos têm se intensificado na chácara que habitam, especialmente após a morte da matriarca.

Davi se compromete a passar um fim de semana para comprovar se há de fato a manifestação de alguma atividade paranormal e as evidências preliminares o fazem crer que o que perturba as irmãs de Renata é de caráter bem material. Resta identificar se o patriarca Rubens (Leopoldo Pacheco) e a sua irmã Nora (Denise Weinberg) são os responsáveis ou se, como afirmam, é tudo obra do espírito do antigo caseiro da família, que cometeu suicídio quando Rubens era apenas um garoto.

No curso da investigação, Julio Santi privilegia a tensão crescente ao invés dos sustos calculados. Não há em “O Caseiro” os esperados jump scares e pistas que corroboram para a antecipação do mistério, o que valoriza o conflito interno do protagonista entre ser racional ou ceder ao espiritual. Merece menção o excelente trabalho do diretor de fotografia alemão Ulrich Burtin, driblando muito bem os desafios da captura noturna com escolhas estéticas que privilegiam o desconforto diante do que aparentemente não é visto.

O que poderá provocar uma divisão de julgamentos sobre “O Caseiro” é a surpresa preparada para o terceiro ato da história. Além da sensação de que o realizador está perdendo o domínio de seus personagens (os encontros e desencontros entre eles evidenciam certo despreparo para lidar com contextos que correm em paralelo), muitos se sentirão trapaceados pela resolução do mistério. É aquele tipo de filme que dá vontade de assistir pela segunda vez para comprovar se tudo se encaixa com harmonia, ainda que muitos possam dar falta de algumas peças sem a necessidade de uma revisita.

Os 10 Grandes Momentos de Nicole Kidman no Cinema

Nesta segunda-feira, Nicole Kidman celebra o seu 49º aniversário realizada como atriz, produtora, mãe e esposa. Antes uma mulher que vivia à sombra de Tom Cruise, Nicole conseguiu dar a volta por cima garfando grandes papéis em filmes inesquecíveis, chegando a se tornar a atriz mais bem paga em Hollywood.

Uma instabilidade se impôs com uma sucessão de fracassos e esforços em filmes que não correspondiam integralmente ao seu talento, mas hoje a atriz volta a navegar em mares sem tormentas. Retornou aos palcos com grande êxito em “Photograph 51” (há planos em converter a peça em longa-metragem com Nicole reprisando o papel da cientista Rosalind Franklin), fez as pazes com a crítica com “As Aventuras de Paddington”  e “The Family Fang” e está com dois grandes projetos na tevê: “Big Little Lies”, o qual também produz ao lado de Reese Witherspoon, e a segunda temporada de “Top of the Lake”, de Jane Campion. E ao contrário do que alguns tabloides anunciam, o casamento com o músico Keith Urban vai muito bem, obrigado.

Nunca houve suspeitas de que Nicole Kidman é a nossa atriz favorita e não poderíamos perder a oportunidade de homenageá-la nesta data tão especial. Para isso, preparamos uma lista com 10 grandes momentos da australiana no cinema. Como toda a lista, há as ausências sentidas (ela tem uma coleção de cenas inesquecíveis em “Terror a Bordo”, “Revelações”, “Terra Estranha” e até mesmo “Esposa de Mentirinha“, onde ela mostra um lado descontraído inesperado), mas estamos felizes com as nossas escolhas, que não seguem uma ordem de preferência.

Ah, e não se esqueçam que havíamos preparado uma outra homenagem em 2014. Para revê-la, basta clicar aqui.

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#10. O jogo de sedução em Um Sonho sem Limites

Anos antes de “A Isca Perfeita” e “Obsessão”, Nicole Kidman já havia encarnado uma personagem que usa o próprio poder de sedução para obter o que deseja dos homens que rapidamente se jogam ao seus pés. Sem grandes papéis em Hollywood, a atriz usou todos os meios possíveis para convencer Gus van Sant que era a escolha ideal para viver Suzanne Stone. Ela tinha toda a razão e ainda ganhou um Globo de Ouro pela interpretação.

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#9. Os créditos iniciais de Retratos de Uma Mulher

A cineasta Jane Campion foi uma das figuras mais influentes na carreira de Nicole Kidman, descobrindo a atriz quando ainda era uma pré-adolescente dando os seus primeiros passos no teatro australiano. Nesta primeira colaboração entre as duas, o romance de Henry James ganha uma sintonia com a mulher contemporânea graças à sequência de créditos iniciais, sem dúvidas uma das mais belas já concebidas. Devaneios sobre a sedução de um beijo e as várias faces femininas se mesclam com a confusão emocional expressa pela Isabel Archer de Nicole.

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#8. O monólogo em De Olhos Bem Fechados

Seria justo dizer que a carreira de Nicole Kidman se divide entre antes e depois da colaboração com Stanley Kubrick. Presa em Londres por mais de um ano para rodar a sua participação em “De Olhos Bem Fechados”, Nicole viria a se livrar da sombra de Tom Cruise, de quem se divorciou dois anos depois. O amadurecimento é patente no monólogo de sua Alice Harford sobre uma fantasia sexual que permite ao filme mergulhar na obscuridade de desejos reprimidos. As expectativas geradas pela sugestão de erotismo acabam se frustrando, mas Nicole segue como um de seus maiores trunfos ao dar um banho de atuação sobre Tom.

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#7. O número musical “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, de Moulin Rouge – Amor em Vermelho

Em entrevista recente, Nicole Kidman disse que em toda a sua filmografia, considera “Moulin Rouge” como um filme que abalou as estruturas do mundo. Pois não apenas o musical de Baz Luhrmann foi responsável por abrir as portas do gênero para este século em Hollywood, como fez Nicole ser vista como alguém com um talento inquestionável. Muito mais do que uma homenagem a “Os Homens Preferem as Loiras”, o número “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” simboliza também o nascimento de uma nova estrela.

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#6. “Eu sou a sua filha”, em Os Outros

Se “Moulin Rouge” transformou Nicole em uma atriz classe A em Hollywood, “Os Outros” evidencia a sua singularidade como uma estrela que poderia pertencer à Era de Ouro. Portanto, a junção do nome de Grace Kelly com o sobrenome de James Stewart para batizar a sua personagem na obra-prima de Alejandro Amenábar não é gratuita. É um dos filmes mais assustadores já produzidos e Nicole está totalmente plena ao dar vida a uma mulher instável.

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#5. “Você não pode encontrar a paz evitando a vida”, em As Horas

Trabalhando sem interrupções, é difícil imaginar como Nicole foi capaz de encontrar tempo para o complexo trabalho de composição para viver a escritora britânica Virginia Woolf. Tanto esforço foi retribuído com o Oscar de Melhor Atriz, embora hoje ela reveja o período como de grande êxito profissional e de fracasso pessoal – além de divorciada, estaria sem ver os filhos adotivos, que sempre estiveram sob a custódia de Tom Cruise. Os fatores de sua vida privada colaboraram positivamente para dar vida a uma figura real sempre mergulhada na melancolia e que encontrava algum conforto em sua própria arte.

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#4. A conclusão de Dogville

Nicole Kidman estava com o mundo aos seus pés após a vitória no Oscar por “As Horas”. Como muitas atrizes fazem, poderia ter assinado um contrato milionário para protagonizar uma comédia esquecível (é o que fez dois anos depois em “Mulheres Perfeitas”). Mas provou ser a mais ousada em seu meio ao encarar ninguém menos que o dinamarquês Lars von Trier no magnífico “Dogville”. A conclusão, daquelas que causam uma satisfação perversa, vai ao encontro de uma carreira que está disposta a assumir qualquer risco.

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#3. O close-up em Reencarnação

Nicole até hoje lamenta a recepção negativa de “Reencarnação”, ainda que o segundo longa-metragem de Jonathan Glazer esteja sendo reavaliado mais de dez anos após o seu lançamento. Há uma razão para a atriz defender com fervor essa obra que compreende a dor do luto a partir de uma premissa que sugere uma investida no fantástico. Nicole não tem aqui explosões dramáticas. É justamente em sua contenção em que mapeamos o que se passa em sua mente, como no fabuloso closeup de dois minutos em seu rosto com a ópera de Richard Wagner.

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#2. A dor da perda em Reencontrando a Felicidade

Após a indicação ao Globo de Ouro por “Reencarnação”, Nicole Kidman viveu uma fase de crise em sua carreira, enfrentando fracassos comerciais, bons dramas independentes que não contaram com o respaldo da crítica e do público e notícias sucessivas sobre as intervenções cirúrgicas que teria submetido o seu belo rosto. “Reencontrando a Felicidade” veio como a solução para os impasses, fazendo-a ser uma finalista ao Oscar de Melhor Atriz. A sua Becca faz um contraponto interessante ao marido interpretado por Aaron Eckhart, sendo a figura que se desapega dos itens materiais para superar a perda do filho. É uma dor que nunca se dissipará, como se vê em seu descontrole emocional no clímax da história.

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#1. O orgasmo na prisão em Obsessão

Uma intérprete que trabalhou com Stanley Kubrick, Jonathan Glazer e Lars von Trier certamente não tem medo de se expor, mas Nicole Kidman atinge um novo patamar ao trabalhar com Lee Daniels em “Obsessão”. O drama deu o que falar em sua première no Festival de Cannes, sobretudo pelas cenas protagonizadas por Nicole. Na melhor delas, o presidiário interpretado por John Cusack atinge o orgasmo em uma relação sexual sem qualquer contato físico. Uma pena que o filme seja uma bagunça.

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Bônus: O monólogo em Segredos de Sangue

Embora a primeira produção em inglês do coreano Park Chan-wook seja um espetáculo de suspense, o lançamento não foi dos mais favoráveis. É mais um caso na filmografia de Nicole Kidman de título que deverá ser reavaliado com o tempo. Ela foi a escolha perfeita para o papel secundário de um roteiro que corresponde a todos os silêncios e atmosferas reconhecíveis na obra do cineasta, protagonizando um monólogo sobre maternidade de gelar a espinha.

Os Cinco Filmes Prediletos de Cláudia Nonato

No ano passado, as aulas da disciplina de Jornalismo Social e Comunitário foram ministradas por Cláudia Nonato. Adorei o seu método de ensino, sempre trazendo em sala profissionais e especialistas que nos apresentavam um panorama exclusivo de alguma das várias áreas de atuação no jornalismo. Havia também o interesse por filmes como uma ferramenta de trabalho, exibindo para nós a ficção “Uma Onda no Ar” e o documentário “Junho – O Mês que Abalou o Brasil“.

Nesta reta final da minha graduação, reencontro Cláudia, novamente como a minha professora. Agora, sinto ter conquistado a sua amizade, sendo uma excelente ouvinte e conselheira para todos os meus anseios de uma fase tão complicada de minha formação. Por tudo isso, fiz um convite à Cláudia para esta seção do Cine Resenhas, acreditando que as suas dicas seriam muito importantes para aqueles que desejam conhecer nos filmes as responsabilidades e dilemas por trás de sua profissão, a qual exerce com um afeto exemplar.

Agora, fiquem com as palavras de Cláudia:

Eu sou e sempre serei uma jornalista, mas atualmente a educação se faz muito presente em minha vida. E, ao receber esse carinhoso e difícil desafio, de escolher cinco filmes (entre milhares que eu adoro), a primeira ideia que me veio à mente foi selecionar cinco filmes que falem de educação, escola, ser professor. Além disso, pensei em filmes que me remetem à uma memória afetiva. Em ordem cronológica, escolhi:

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Ao Mestre, Com CarinhoAo Mestre, Com Carinho, de James Clavell (To Sir, with Love, 1967)

Clássico das sessões da tarde, com o astro negro Sidney Poitier no papel principal, como um engenheiro desempregado, que aceita trabalhar como professor de uma escola do subúrbio inglês. Cheio de clichês, como casos de rebeldia, indisciplina, preconceito, alunas que se apaixonam e bailes de formatura, entre outros, o filme encanta também por conta da canção tema, “To Sir, with Love”, na voz da cantora Lulu.

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Grease - Nos Tempos da BrilhantinaGrease – Nos Tempos da Brilhantina, de Randal Kleiser (Grease, 1978)

A escola aparece apenas como pano de fundo para esse musical. Hoje talvez fosse comparado a mais um dos milhares de filmes estilo “High School Musical”, mas na época o filme foi (e ainda é) um sucesso: levou o Globo de Ouro de melhor filme e o Oscar de melhor canção original, ambos em 1979. O filme retrata o comportamento dos jovens dos anos 50, na Califórnia. As músicas realmente são inesquecíveis, assim como a presença dos atores Jonh Travolta e Olivia Newton-John que, além de lindos, cantavam, dançavam e se tornaram ídolos de toda uma geração.

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Pro Dia Nascer FelizPro Dia Nascer Feliz, de João Jardim (idem, 2006)

Não poderia deixar de falar do Brasil, e esse filme retrata muito bem a nossa educação, mostrando a vida de adolescentes, ricos e pobres, de escolas públicas e particulares de três Estados brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Questões como desmotivação, violência e desigualdade inquietam e angustiam alunos, professores e também a quem assiste o filme. Uma dura realidade que todos precisamos conhecer.

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Entre os Muros da EscolaEntre os Muros da Escola, de Laurent Cantet (Entre les Murs, 2008)

Esse filme se passa na França, e é interessante porque mostra que a realidade da educação de lá não é tão diferente da nossa, além de trazer questões contemporâneas. Alunos de diversas etnias e raças (asiáticos, africanos, franceses), questões familiares, sociais, políticas. Todos os problemas giram em torno de um grupo de professores de uma escola de ensino médio da periferia de Paris, principalmente em François, professor de língua francesa, que luta contra o desinteresse e a falta de educação dos alunos, em busca de estímulo para as aulas.

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A OndaA Onda, de Dennis Gansel (Die Welle, 2008)

O filme é inspirado no livro homônimo, de 1981. A história se passa em uma escola alemã, que oferece cursos rápidos, de uma semana. O professor Rainer é designado para dar o curso de autocracia contra a sua vontade, porque preferia dar o curso de anarquismo. Logo na primeira aula, os alunos duvidam que possa voltar a nascer uma ditadura na Alemanha, e o professor resolve, como demonstração, formar um governo fascista dentro da sala de aula. O que era, a princípio, uma brincadeira, acaba tomando proporções incontroláveis para todos. O filme é assustador e, ao mesmo tempo, muito atual.

Resenha Crítica | Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo (2016)

Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo, de Afonso Poyart

Lançado há poucos meses, “Presságios de Um Crime” parece ter sido uma experiência internacional que não entusiasmou o diretor Afonso Poyart (leia entrevista aqui). Vindo do elogiado “2 Coelhos”, a produção, originalmente pensada como uma sequência para “Seven: Os Sete Pecados Capitais”, acumulou críticas somente medianas e ainda enfrenta um engavetamento nos Estados Unidos enquanto a sua produtora, Relativity Media, se recupera de uma crise financeira.

O próprio Poyart admitiu que “Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo” veio em um período de questionamentos ao voltar ao Brasil. É também aquele terceiro filme característico de uma filmografia que tende a traçar os horizontes de seu realizador: com uma estreia promissora e um segundo filme nem um pouco unânime, as virtudes e pontos a aparar se consolidam em uma terceira tentativa.

A produção certamente sofreu um baque com a derrota de José Aldo por nocaute contra Conor McGregor no UFC 194 em dezembro do ano passado. A queda do mito não compromete a apreciação de sua cinebiografia, na qual é representado por José Loreto, um intérprete então afeito a novelas. De temperamento explosivo, José Aldo deve a sua influência à vivência em uma periferia marcada pela violência e ao pai (Jackson Antunes), um alcoólatra que agride constantemente a sua mãe (interpretada por Claudia Ohana).

A só com uma figura paterna autodestrutiva, Aldo prefere refazer a vida no Rio de Janeiro, residindo no quartinho de uma academia e trabalhando em uma lanchonete enquanto desenvolve  as habilidades que o tornariam o lutador do qual hoje é conhecido. Mas há as influências de grandes filmes de luta, em que a glória não está associada a vitória contra um oponente e sim na superação de um passado recente, na conciliação com uma família desestruturada.

Poyart compreende que essa nuance é o que marcou algumas produções com protagonistas desestruturados que saíram da selvageria das brigas para mergulhar na filosofia da luta. Ainda assim, o seu estilo não encontra sintonia com um texto com escolhas equivocadas. O embate é um momento de foco total, em que a câmera deve estar presente a todo o momento com um personagem que tenha em seu olhar todo o fardo que carrega, uma regra infligida em “Mais Forte que o Mundo”.

O exibicionismo vai além das passagens de treino (os 360 graus ininterruptos enquanto Aldo pula corda é canhestro), com cortes frenéticos e a inclusão de flashbacks que enfatizam as motivações do herói. No entanto, o mais questionável é o apego ao pai de Jackson Antunes quando a figura fragilizada é a mãe de Claudia Ohana. É a redenção que move o filme e ela não emociona.

Resenha Crítica | Como Eu Era Antes de Você (2016)

Me Before You, de Thea Sharrock

Quando vendeu os direitos de suas novelas “Uma Carta de Amor”, “Um Amor Para Recordar” e “Diário de Uma Paixão”, Nicholas Sparks não era um nome reconhecível para todos os amantes da literatura romântica. Hoje, responde por um “império” de best-sellers, mas a sua forma nos cinemas vem se desgastando. Não é preciso ir além da sinopses para deduzir os rumos de suas mais recentes adaptações e o público as têm ignorado drasticamente – o seu mais novo “A Escolha” fechou o caixa com apenas 18 milhões de dólares nos Estados Unidos.

A britânica Jojo Moyes vem como uma nova opção, uma Nicholas Sparks de saias. Ela mesma cuida da adaptação para o cinema de seu famoso “Como Eu Era Antes de Você” e as estimativas soam promissoras. Em sua estreia, o filme já cobriu o seu orçamento de 20 milhões e é fácil testemunhar garotas às lágrimas nas passagens mais dramáticas. Portanto, será uma questão de tempo até que novas transposições dos livros de Moyes ganhem vida.

Intérprete de Daenerys Targaryen em “Guerra dos Tronos”, Emilia Clarke é a protagonista Lou Clark, uma jovem de 26 anos dispensada do pequeno café em que trabalhava há seis anos. A cidadezinha em que vive passa por um momento de crise e o seu pai, Bernand (Brendan Coyle) a pressiona a conseguir algo para ajudar nas despesas domiciliares. Sem qualquer preparo, ela topa trabalhar como uma cuidadora informal de Will Traynor (Sam Claflin), rapaz de 31 anos que perdeu a maior parte dos movimentos corporais após um acidente.

O jogo de opostos se inicia. Lou é uma tagarela de origem humilde que adora usar roupas coloridas, além de ser um par perfeito para Patrick (Matthew Lewis) um ciclista banana com ambições em atravessar um circuito de dois mil quilômetros na Noruega. Já Will é um ricaço que repousa em seu castelo lidando com a amargura com sarcasmo, filmes europeus e o rancor em ver a sua ex-namorada casando com o seu melhor amigo. É a atração entre opostos, com ela amadurecimento com a perspectiva de que há um mundo enorme para abraçá-la enquanto ele reavalia a sua vontade em continuar vivendo na situação em que está confinado permanentemente.

Os protagonistas defendem bem os personagens e criam  um entrosamento em cena favorável para a história de amor prevalecer diante das adversidades, mas é o velho caso de romantizar em excesso o que é naturalmente cru e doloroso. Mesmo com intenções que se pretendem honestas, Jojo Moyes, em conjunto com a direção personalidade de Thea Sharrock, confere a tudo uma estética de conto de fadas, com os limões da vida rendendo viagens internacionais e um troco para um frasco de perfume. Se Moyes não aprimorar a fórmula, é bem capaz de suas adaptações terem o mesmo destino daquelas assessoradas por Sparks.

Resenha Crítica | Invocação do Mal 2 (2016)

The Conjuring 2, de James Wan

Ainda que Ed e Lorraine Warren tenham sido os responsáveis pela investigação de forças malignas que predominavam as residências de “Horror em Amityville”, “Evocando Espíritos” e do telefilme “A Casa das Almas Perdidas”, “Invocação do Mal” foi o primeiro longa-metragem a trazê-los como protagonista. Muito além do sucesso, estava claro que havia o potencial de criação de uma franquia, pois Ed e Lorraine nasceram para se tornarem “heróis sobrenaturais” em suas encarnações fictícias e não falta arquivo pessoal para dar conta de vários capítulos.

Na impossibilidade de refazer “Horror em Amityville” com uma nova versão já pronta para ser lançada (dirigida por Franck Khalfoun e protagonizada por Jennifer Jason Leigh), James Wan felizmente desfez a promessa de se despedir do gênero ao retornar a ele em “Invocação do Mal 2” com um caso também verídico, conhecido como o Amityville britânico: o poltergeist em Enfield. A similaridade entre os dois casos é evidenciado no prólogo e a força nefasta por trás deles é tão poderosa que Lorraine (Vera Farmiga) considera recuar na demonologia.

Porém, o drama que acomete a família é ainda mais intenso. Mãe solteira, Peggy Hodgson (Frances O’Connor, ótima) tem nada menos do que quatro filhos para criar numa casa que precisa passar por inúmeros reparos. Mais nova de suas filhas, Janet (Madison Wolfe) é o principal alvo dos estranhos fenômenos que assolam a propriedade, todos da autoria de uma presença que se apresenta como Bill Wilkins, justamente o dono anterior do imóvel, um idoso que faleceu solitário em sua velha poltrona.

Se em “Invocação do Mal” tínhamos a família Perron clamando pela intervenção dos Warren, nesta sequência os Hodgson os encontram quando todo o caso foi exaustivamente apurado pela imprensa, com a maioria questionando a veracidade dos fenômenos mesmo após testemunhá-los com fotografias, gravações e a exploração da casa. Na condição de apenas avaliar se há ou não a ação de forças diabólicas, Lorraine aceita acompanhar Ed até a Inglaterra, mas as suas visões antecipam que tragédias muito graves estão prestes a se efetivar.

Hoje o mais bem-sucedido diretor de terror de sua geração, James Wan não demora para provar que é mesmo um realizador em pleno domínio da arte de provocar medo. A princípio repetindo os métodos do original que voltam a funcionar aqui, como a apresentação de personagens e o ambiente que habitam por meio de um plano-sequência que cobre toda a sua dinâmica, Wan dá um passo além ao fazer com que “Invocação do Mal 2”, ao menos em sua primeira metade, seja uma experiência macabra ininterrupta, em que o calafrio provocado por uma manifestação sobrenatural anterior não seja superado antes que o próxima já esteja preparada para assombrar os protagonistas e, consequentemente, o público.

Há muita coreografia e domínio de tempo para que tal efeito seja obtido. Perceba que Wan sempre adota a perspectiva da vítima, e não daquilo que a assombra. Isso é patente em uma conversa de Ed com Janet sob a influência de Bill Wilkins. Em aproximadamente três minutos, ficamos todo o tempo ouvindo exatamente o mesmo que Ed em primeiro plano, enquanto Janet está totalmente desfocada em segundo plano.

No entanto, o acontecimento que irá inscrever “Invocação do Mal 2” no histórico de cenas mais assustadoras do cinema é sem dúvida a pintura de uma figura que assombra os sonhos de Ed, um demônio nas formas de uma freira que também vem a ser o mesmo demônio que testou os limites de Lorraine em excomungar o mal que não pertence ao nosso plano material. Desde “Os Outros”, em que a imagem de um camponês é confundida com um fantasma enquanto a personagem de Nicole Kidman revisita um salão de espelhos protegidos por lençóis, que um quadro não perturba tanto o imaginário coletivo.

Talvez a solução que deixe “Invocação do Mal 2” em pé de igualdade com o filme de 2013 seja encarar o poltergeist em Enfield não como mais um caso dos Warren, mas uma justificativa que os atinjam muito mais que os próprios Hodgson, algo que enfraquece a força do acontecimento verídico e que abre a porta para alguns excessos em um filme até então tradicional em seu trato com o nefasto, como a possibilidade de teletransporte, o arremesso violento de grandes e móveis e mudanças temporais radicais, não condizendo com a sutileza infalível de portas que rangem e tevês dessintonizadas. De qualquer forma, o fato de Wan ter alcançado um resultado tão bom quanto o seu maior feito definitivamente não é pouco.

Resenha Crítica | Uma Loucura de Mulher (2016)

Uma Loucura de Mulher, de Marcus Ligocki

Com a crise do cenário político em pauta desde a vitória de Dilma nas eleições presidenciais de 2014, muitas produções nacionais vêm pegando onda na oportunidade para satirizar ou problematizar o caráter corrompido de autoridades e as consequências para gente comum que vive em um país desestabilizado. Algumas têm um oportunismo mais evidente, como “O Candidato Honesto” e “Até que a Sorte nos Separe 3: A Falência Final”, ambos protagonizados por Leandro Hassum. Já outras contaram com a sorte de apostar em uma abordagem que vai naturalmente ao encontro de nosso contexto atual, como “Em Nome da Lei” e “Uma Loucura de Mulher”.

Porém, não basta tratar sobre o que está na boca do povo para que o resultado seja automaticamente relevante e o pecado de nossa cinematografia atual está na pertinência de temas usados com o único pretexto de reaproveitar fórmulas cômicas ou dramáticas surradas. Por isso, visualizar Marcela Temer na personagem de Mariana Ximenes, Lúcia, é apenas um efeito não intencional que sustenta “Uma Loucura de Mulher” por meros minutos.

Explica-se: casada com o candidato a governador Gero, Lúcia é o molde perfeito da “bela, recatada e do lar” sustentado por nossa agora primeira-dama. Mas por trás dos eventos públicos, há uma verdadeira esposa troféu questionada até mesmo pelo vestido que optou em usar em uma celebração decisiva para a campanha eleitoral de Gero. Uma “fiscalização” de imagem que a protagonista dá um basta a partir do instante em que armam a sua internação em um manicômio por não interpretarem bem o tapa como resposta a um assédio de influente líder político.

Da bela mansão em Brasília, Lúcia encontra abrigo no antigo apartamento de seu falecido pai no Rio de Janeiro. Nada que impeça os chavões de persegui-la no que se pretende ser uma comédia romântica. Há a melhor amiga, Dulce (Miá Mello), que está há cinco anos em uma relação secreta com Gero, bem como o reencontro com o primeiro amor da infância, Raposo (Sergio Guizé, sem tino para o humor), hoje um requisitado cirurgião plástico. Salve-se Guida Vianna como Rita, aquela típica vizinha mexeriqueira que adora ouvir tudo o que se passa no apartamento do lado com um copo na parede e que teria sido a principal amante do pai de Lúcia.

Antes produtor, Marcus Ligocki faz a sua estreia como diretor e roteirista com tentativas de elevar a qualidade do material com traços da screwball comedy. Maior evidência disso está na clássica situação de encontros e desencontros entre personagens em um apartamento, mas executada sem nenhum cuidado além do geográfico. Sem um bom texto, ela só se justifica como uma vontade de fazer humor através do constrangimento, trazendo o personagem de Bruno Garcia com a necessidade de usar o banheiro para depois se despir diante de Mariana Ximenes como uma tentativa pífia de conquistá-la. Mais um caso de comédia que chega aos cinemas com o prazo de validade já vencido.