Resenha Crítica | Caça-Fantasmas (2016)

Ghostbusters, de Paul Feig

Em uma atualidade em que reboots parecem surgir a cada semana, “Caça-Fantasmas” marcou história ao obter o maior índice de rejeição já durante a sua produção. Nunca se viu no YouTube um trailer com tantos thumbs down e os ataques da comunidade geek ao diretor Paul Feig serviram de manchetes constantes em editorias de cinema. A razão é clara: o novo quarteto central não resgata nenhum dos componentes originais, atualizado com quatro mulheres.

Naturalmente, a modernização de qualquer produto que marcou uma geração e que adquire novos adeptos com o passar do tempo pode ferir o sentimento de nostalgia. E não há o que não lembrar em “Os Caça-Fantasmas”: a sua premissa sobrenatural, o cinismo de Bill Murray que viria a se tornar a sua marca registrada, uniforme e logotipo reconhecíveis a milhas de distância, a canção-tema de Ray Parker Jr. indicada ao Oscar e por aí vai.

Porém, acima de tudo isso, estamos em um momento em que o público exige por representatividade na tela de cinema. Com os planos de fazer um terceiro “Os Caça-Fantasmas” descartados especialmente com a morte em 2014 de Harold Ramis, uma peça essencial do elenco, a Sony Pictures recorreu a Paul Feig, hoje o mais bem-sucedido diretor de comédias americanas.

Quem viu “Missão Madrinha de Casamento”, “As Bem-Armadas” e “A Espiã que Sabia de Menos” sabe a predileção de Feig por uma visão feminina para o humor e a ação e não era possível esperar algo diferente de sua reimaginação do filme de Ivan Reitman, especialmente por trazer a bordo a sua parceira de roteiro Katie Dippold. A consequência é que existe a caretice de um público expressivo que se opõe a um cenário cultural (e também social) sem distinções e a mudança do gênero do quarteto foi o alvo central dos haters, como são chamados os que disseminam um ódio inconsequente no mundo virtual.

O caráter panfletário de “Caça-Fantasmas” é perene até mesmo ao mais incauto dos espectadores. Ao contrário do longa de 1984, as mulheres assumem o controle da situação às vezes como resposta às críticas que as invalidam como heroínas da ação. Porém, a sacada mais genial é a escalação de Chris Hemsworth como o secretário das garotas, um paspalho que descaracteriza toda a masculinidade do australiano que deu vida a Thor, o Deus do Trovão.

De modo algum isso significa que Feig faz um filme tingido da cabeça aos pés por um discurso feminista. O humor é a prioridade e, na formação das caça-fantasmas para combater os perigos do além que assolam Nova York, o que se testemunha com naturalidade são as mulheres com a mesma mesma destreza e inteligência que os homens para assumir uma missão de risco – talvez ainda mais em comparação com a formação original.

Aqui, as cientistas interpretadas por Kristen Wiig, Melissa McCarthy e Kate McKinnon (irresistível como a mais tresloucada do time) abrem uma empresa para a resolução de assuntos ligados a um plano além do material. Um pouco mais a seguir, a personagem de Leslie Jones, funcionária de uma companhia metroviária que encontra na captura de fantasmas a sua nova vocação, vem como uma adição.

Com a necessidade de atingir um grupo mais juvenil, talvez “Caça-Fantasmas” não tenha tanta maturidade para gerenciar alguns pontos. Como um sujeito que surpreendeu ao humanizar a vilania de Rose Byrne em “Missão Madrinha de Casamento” e “A Espiã que Sabia de Menos”, Feig  não consegue oferecer muito para Neil Casey, que interpreta uma vítima de bullying com um plano de transportar para o nosso mundo os espectros de indivíduos malvados. O apego por vezes excessivo a “Os Caça-Fantasmas” também compromete a eficácia de algumas piadas.

Agora, se há um ponto a ser exaltado além da reformulação de personagens é como esse “Caça-Fantasmas” aprimora os efeitos visuais, conferindo a eles um viés artístico. Existe um risco em pincelar digitalmente um frame com a mistura de cores primárias (alguém lembra de “Speed Racer”?), mas o supervisor dessa categoria técnica, Peter G. Travers,  eleva a estética pretendida a um nível que deve ser apreciado no melhor cinema que tem o filme em exibição. Uma pena que a impopularidade tenha falado mais alto, pois os envolvidos mereciam repetir a dose com uma sequência.

Resenha Crítica | Café Society (2016)

Café Society, de Woody Allen

Conforme divulgamos no meio desta semana, agora contamos com um canal no YouTube, com o qual pretendemos usar como uma extensão do trabalho produzido neste endereço. Hoje, publicamos a nossa crítica sobre “Café Society”, novo filme de Woody Allen. No entanto, o editor preferiu a experiência diante de uma câmera, procurando maior proximidade com o leitor. Lamentamos algumas ressalvas quanto aos enquadramentos e a edição, mas prometemos melhorar conforme produzirmos novos vídeos.

Quanto ao filme, o diretor e roteirista acaba devendo no sarcasmo, mas há uma boa dinâmica entre os personagens, a revisitação de temas caros ao realizador e, o melhor, a estonteante fotografia do italiano Vittorio Storaro, que diz muito sobre os estados de espírito dos protagonistas. A opinião completa você checa no vídeo desta postagem.

Resenha Crítica | Julieta (2016)

Julieta, de Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar parecia em apuros com o público e a crítica nos últimos anos. Se “Abraços Partidos” e “A Pele que Habito” não foram recebidos por uma unanimidade outrora habituais em sua obra, a reputação obtida por “Os Amantes Passageiros” foi ainda pior, fazendo com que todos encarassem um projeto assumidamente descompromissado como o limite criativo de um artista.

Por tudo isso, a expectativa por trás de “Julieta” era imensa. Afinal, estamos de volta aquele Almodóvar de sensibilidade feminina que o mundo aprendeu a apreciar desde “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, onde as complexidades do gênero geralmente norteiam a sua narrativa. É exatamente o que se sucede a partir da personagem-título de seu novo filme.

Julieta Arcos (Emma Suárez, em interpretação estupenda)  é uma mulher de meia-idade com uma vida confortável em um aconchegante apartamento em Madri, dividido com o namorado Lorenzo (Darío Grandinetti). Os planos de mudança permanente para Portugal são frustrados pela própria Julieta, que desfaz o relacionamento sem prestar qualquer justificativa.

A motivação parece partir de um breve reencontro com Beatriz (Michelle Jenner), ex-melhor amiga de sua filha, Antia. Sem antecipar as razões para o abalo emocional advindo da breve interação, Julieta passa a rememorar o seu próprio passado em diários, fazendo a trama retroceder em um episódio de sua juventude marcado tanto por uma tragédia quanto pelo primeiro contato com Xoan Feijóo (Daniel Grao), que viria a se tornar o seu marido. Também excelente, Adriana Ugarte interpreta Julia em sua juventude.

“Julieta” é inspirado em três contos da autoria da canadense Alice Munro, com ênfase em “Silêncio”, como o filme foi batizado anteriormente até apresentar atritos com a nova realização de Martin Scorsese, “Silence”. Citar a fonte de origem é indispensável, pois é nela que está a razão de Pedro Almodóvar nos decepcionar tanto mais uma vez.

Quem viu “Longe Dela” e “Amores Inversos”, denotou um tom de crônica característico da obra literária de Munro, no qual os eventos dramáticos de um cotidiano não são submetidos a qualquer artificialismo para serem dignos da observação e, consequentemente, da reflexão. Nas mãos de Almodóvar, o que era para ser um registro sereno sobre uma personagem ressentida se transforma em matéria-prima para um suspense maternal equivocado.

Quanto maior o acorde do compositor Alberto Iglesias, menor é a paciência para aguardar que todas as peças se encaixem, com Almodóvar recorrendo a subterfúgios pouco sofisticados (as confissões para justificar os flashbacks, certo misticismo para nublar o curso da trama) até deixar clara a história que realmente está contando. Não era preciso e o gosto amargo deixado pela conclusão é uma evidência dessas escolhas mal traçadas.

Resenha Crítica | A Lenda de Tarzan (2016)

The Legend of Tarzan, de David Yates

A tecnologia evoluiu a um ponto tão inesperado que hoje o cinema realiza o sonho de transformar em realidade uma fantasia então capaz de ganhar vida somente em animação. Mais do que a atualização de valores (ou a ênfase naqueles que resistem ao tempo), muitos contos de fadas e aventuras são revistos para assegurar um êxito comercial a partir de uma história já testada e aprovada e ainda presente no imaginário coletivo.

A diferença é que hoje temos os protagonistas defendidos por intérpretes de carne e osso enquanto criaturas com anatomias não humanas podem são recriadas com a computação gráfica, às vezes tendo como base a captura de performance. É verdade que Tarzan, um personagem concebido pelo escritor Edgar Rice Burroughs, deve a a Elmo Lincoln a primeira encarnação em um filme, mas é a sua versão animada de 1999 pelas mãos da Disney que encontramos o herói selvagem definitivo.

A dupla de roteiristas formada por Adam Cozad e Craig Brewer tem boas intenções com “A Lenda de Tarzan”, algo comprovado em uma escolha que assegura o interesse pelo filme de David Yates ao menos em seu primeiro ato. Mais coerente com o papel do que o esperado, o sueco Alexander Skarsgård dá vida a um Tarzan já adaptado para conviver em sociedade, agora abraçando o nome John Clayton e sendo um bom marido para Jane (Margot Robbie). Portanto, temos uma espécie de sequência para a premissa que já conhecemos de cor e salteado, garantindo a espera de surpresas com o ponto de partida inédito.

Bom, isso até o conflito central estar inteiramente disposto sobre os nossos olhos. Tarzan/ John Clayton é informado por George Washington Williams (Samuel L. Jackson) que o seu verdadeiro lar, o Congo, se transformou em um campo de escravos comandado pelo ganancioso Leon Rom (Christoph Waltz, ainda com sérias dificuldades de se desvincular do papel de vilão unidimensional). Tarzan/John regressa com Jane e não dá outra: ela acaba sendo sequestrada por Leon e a “nova” história chega ao seu limite focando somente o resgate da mocinha pelo seu amado e em conflitos nada complexos, como o do protagonista com Mbonga (Djimon Hounsou), chefe de uma tribo com contas a acertar.

Para aplacar o desperdício, existe uma interação entre Tarzan/John com George com o claro propósito de se transformar no alívio cômico de um ressurgimento ao cinema que se julga sério. De resto, há apenas o desespero de David Yates em continuar extraindo algum suco do bagaço que tem em mãos, um hábito que herdou dos tempos em que precisou repartir em dois o derradeiro episódio de “Harry Potter”.

Resenha Crítica | Mãe Só Há Uma (2016)

Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

Foi com surpresa que muitos receberam a notícia de que “Mãe Só Há Uma”, cuja existência era desconhecida, seria exibido na edição deste ano no Festival de Berlim. A diretora e roteirista Anna Muylaert sequer tinha concluído as campanhas de divulgação de “Que Horas Ela Volta?” para a disputa por uma nomeação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e para ganhar os lares com a exibição na Rede Globo.

É bom ver um projeto anterior de Muylaert em evidência após o êxito de “Que Horas Ela Volta?” e que segue discutindo os abismos sociais de nossa realidade a partir de uma premissa que prioriza questões sobre identidade. Mesmo assim, há o sentimento de desapontamento a partir de um resultado que soa incompleto, algo possível tanto em comparação com o drama protagonizado por Regina Casé quanto na decisão em isolar “Mãe Só Há Uma” desse ou de outros fatores externos.

Para o roteiro de “Mãe Só Há Uma”, Muylaert se inspirou no famoso Caso Pedrinho, no qual Pedro Rosalino Braule Pinto descobriu na adolescência ter sido tirado de seus pais biológicos já no berçário do hospital em que foi concebido. Bem como Pedro, Pierre (Naomi Nero) é notificado quando jovem sobre o fato de ter sido afastado de sua mãe verdadeira ainda recém-nascido. As consequências do crime surgem de imediato, com a mulher que a roubou, Aracy (Daniela Nefussi), sendo presa ao mesmo tempo em que os seus verdadeiros pais se preparam para acolhê-lo.

Porém, a confusão de origem vem em um momento no qual Pierre passa por verdadeiras autodescobertas, tanto em relação à evolução de sua anatomia quanto à própria sexualidade. Além de experimentar às escondidas roupas e assessórios femininos, o jovem também se lança em relações com meninos e meninas.

“Mãe Só Há Uma” preserva muito bem a dualidade que é essência do texto. Cada elemento parece dividido em duas naturezas que se recusam a mesclar. Pierre não só chega ao seu novo lar sendo tratado como Felipe, como também tem a sua mãe biológica, Glória, sendo também incorporada por Daniela Nefussi. Integra-se ao mesmo conflito Joca (Daniel Botelho), o irmão mais novo de Pierre/Felipe e pré-adolescente que se espelha em figuras autoritárias que apenas tumultuam a sua formação de caráter, sejam elas o seu pai Matheus (o sempre excelente Matheus Nachtergaele) ou a panela de amigos que está inserido.

A questão é que todos esses temas parecem modelar um filme feito a toque de caixa. Se por um lado Muylaert explora bem a conversão forçada de Pierre em Felipe, com uma mãe que se comporta inadequadamente para aplacar a ausência de um filho tomado e criado por outra mulher com valores distintos, do outro passa raspando por discussões abandonadas quando são finalmente acaloradas. Soam por vezes como estudos de caso, com traços que se desenham somente para justificar uma reação. Quinto longa-metragem para cinema de Muylaert, “Mãe Só Há Uma” é o primeiro em que os personagens não ficam conosco após os créditos finais.

Resenha Crítica | Entre Idas e Vindas (2016)

Entre Idas e Vindas, de José Eduardo Belmonte

Desde que estreou em longa-metragem com “A Concepção”, ficou clara a assinatura autoral de José Eduardo Belmonte, que posteriormente seguiria um caminho de personagens em dramas urbanos e transgressores em “Meu Mundo em Perigo” e “Se Nada Mais Der Certo”. É também o realizador que experimentou uma transição ousada em sua carreira, abraçando o cinema popular de gênero com “Billi Pig” e “Alemão”.

Belmonte parece viver em um momento alto-astral e isso reflete em seus textos, o que nos faz chegar a “Entre Idas e Vindas”. De longe, é o melhor filme de sua nova fase. Trata-se de uma comédia romântica totalmente afável, investindo as energias que seriam depositadas em algo que se desenvolve e se resolve com complicações no carisma dos personagens.

De um lado, temos Afonso (Fábio Assunção), pai solteiro de Benedito (João Assunção, também filho de Fábio na vida real), que se estagna na estrada ao rumar para São Paulo. No dia seguinte, ambos têm a sorte de cruzar o ônibus de Amanda (Ingrid Guimarães), viajando para o que seria a despedida de solteira de Sandra (Alice Braga) na companhia das amigas Cillie (Caroline Abras) e Krisse (Rosanne Mulholland).

Todos eles têm identidades muito bem definidas, especialmente pelas crises amorosas que carregam. Afonso e Benedito sofrem respectivamente com a ausência da mulher e da mãe, vindo a ser a mesma mulher.  Amanda levou um fora ao saber que não poderia engravidar. Sandra está indecisa entre casar ou não, uma vez que descobriu a infidelidade de seu noivo com a prima dela. Cillie e Krisse são mais bem equilibradas, ainda que seja patente alguma ausência de afeto.

Por mais óbvio que soe o arco dramático de cada personagem, é curioso como Entre Idas e Vindas busca um tratamento adulto para os impasses sem que precise penalizar o humor para isso. Belmonte, com o apoio de Cláudia Jouvin no roteiro, força a parada em uma ou outra cidadezinha notória por alguma excentricidade, tendo também um ambiente mais aberto para que cada um discuta as relações ou iniciem novas, algo que se desenha entre os flertes entre Afonso e Amanda.

Claro que há inconsistências. É difícil acreditar na viabilização de uma “excursão” de um quarteto de amigas que trabalham com teleatendimento, mesmo com a justificativa pífia do veículo pertencer ao tio da personagem de Ingrid Guimarães. Há também um desserviço aos momentos mais vulneráveis de Fábio Assunção, sempre tomados por uma trilha sonora intrusiva. Problemas de menos em um filme que parece ter algo a oferecer além do descompromisso e que traz Belmonte se comunicando com mais clareza sobre temas que lhe são caros, como amizade e família. Vem a ser também um bom indício para o que Belmonte prepara para depois, como o terror “Aurora”, já em pós-produção.

52 Filmes Dirigidos por Mulheres | #52FilmsByWomen

No último ano, a hashtag #52FilmsByWomen vem ganhando força entre os cinéfilos. Trata-se de uma campanha para estimular o espectador a encaixar em seu tempo livre ao menos um título por semana dirigido por uma mulher, durante um ano.

A verdade é que desde o século passado é possível ver produções comandadas por mulheres, ainda que o número seja parco. As oportunidades passaram a ser maiores em meados dos anos 1950, com a produção europeia ganhando um novo fôlego. Cineastas como a belga Agnès Varda e a inglesa (e também atriz) Ida Lupino davam os seus primeiros passos atrás das câmeras, marcando um território que passaria a ser ocupado por um número maior de colegas nos anos seguintes.

Hoje, estamos em um cenário mais democrático, com uma representatividade feminina mais fortalecida. Ainda assim, a luta está longe de chegar ao fim, pois as oportunidades seguem desiguais. Por isso mesmo, uma campanha como a 52 Filmes por Mulheres chega em boa hora para ajudarmos a essas vozes serem propagadas.

Para a seleção a seguir, estabelecemos uma série de critérios para indicar 52 títulos dos quais apreciamos demais. Como sempre, há muitas ausências sentidas. Nada que impeça a sugestão dos leitores de outras obras imperdíveis – ou mesmo a possibilidade de criar um “volume 2” para essa postagem.

 

 photo A Grande Ilusatildeo The Truth About Emanuel.jpg

# 1. A Grande Ilusão +

Francesca Gregorini

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#2. A Hora da Estrela

Suzana Amaral

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#3. A Hora Mais Escura +

Kathryn Bigelow

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#4. A Massai Branca

Hermine Huntgeburth

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#5. A Prova

Jocelyn Moorhouse

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#6. A Vida Secreta das Palavras

Isabel Coixet

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#7. Adoráveis Mulheres

Gillian Armstrong

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#8. Alma de Poeta, Olhos de Sinatra

Tiffanie DeBartolo

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#9. As Noites de Rose

Martha Coolidge

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#10. As Vozes

Marjane Satrapi

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#11. Baladas em NY

Daisy von Scherler Mayer

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#12. Bem Me Quer, Mal Me Quer

Laetitia Colombani

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#13. Beyond

Pernilla August

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#14. Born in Flames

Lizzie Borden

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#15. Cemitério Maldito

Mary Lambert

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#16. Cerejeiras em Flor

Doris Dörrie

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#17. Chuva de Verão

Christine Jeffs

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#18. Cinco Graças +

Deniz Gamze Ergüven

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#19. É Proibido Fumar +

Anna Muylaert

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#20. Encontros ao Acaso +

Joey Lauren Adams

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#21. Encontros e Desencontros

Sofia Coppola

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#22. Eu, Você e Todos Nós

Miranda July

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#23. Filhos da Guerra

Agnieszka Holland

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#24. Garçonete +

Adrienne Shelly

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#25. Impacto Profundo

Mimi Leder

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#26. Lavagem a Seco

 Anne Fontaine

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#27. Lugar Nenhum na África

Caroline Link

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#28. Maldito Coração

Asia Argento

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#29. Marcas do Silêncio

Anjelica Huston

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#30. Meninos Não Choram

Kimberly Peirce

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#31. Monster – Desejo Assassino

Patty Jenkins

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#32. O Atalho

Kelly Reichardt

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#33. O Babadook

Jennifer Kent

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#34. O Diário de Bridget Jones

Sharon Maguire

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#35. O Lenhador

Nicole Kassell

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#36. O Morro dos Ventos Uivantes +

Andrea Arnold

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#37. O Padre

Antonia Bird

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#38. O Piano

Jane Campion

#39. O Preço de Uma Escolha

Cher e Nancy Savoca

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#40. O Rapaz que Partia Corações

Elaine May

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#41. O Retorno do Talentoso Ripley

Liliana Cavani

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#42. Orlando – A Mulher Imortal

Sally Potter

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#43. Precisamos Falar Sobre o Kevin +

Lynne Ramsay

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#44. Psicopata Americano

Mary Harron

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#45. Quatro Garotas… Uma Grande Confusão

Jill Sprecher

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#46. Querido Frankie

Shona Auerbach

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#47. Sabor da Vida

Naomi Kawase

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#48. Sentimento de Culpa +

Nicole Holofcener

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#49. Sob o Sol da Toscana

Audrey Wells

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#50. The Invitation

Karyn Kusama

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#51. Vida de Menina

Helena Solberg

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#52. Yentl +

Barbra Streisand

 

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Os 10 Melhores Filmes de 2016 – 1º Semestre

Finalmente chegamos ao segundo tempo de 2016, inaugurado com o mês de férias em que grandes produções devem invadir a maior parte do circuito comercial. Para nós, foi uma oportunidade não apenas para assistir alguns lançamentos perdidos nos cinemas, como também traçar quais foram os nossos favoritos do primeiro semestre

Feito esse levantamento, decidimos compartilhar com os leitores os filmes que escolhemos como os melhores da primeira metade de 2016, um meio de também recomendar títulos que não podem deixar de ser vistos antes do fechamento de qualquer lista de melhores do ano. Todos os filmes listados receberam análises nesta página. Para lê-las, basta clicar no sinal de adição, localizado do lado direito dos diretores.

Menções honrosas: Memórias SecretasNise: O Coração da Loucura, O Escaravelho do DiaboO Tesouro, Reaprendendo a Amar e Trumbo: Lista Negra.

Espaço Além - Marina Abramovic e o Brasil (The Space in Between - Marina Abramovic and Brazil)

# 10. Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil, de Marco Del Fiol +

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Rua Cloverfield, 10 (10 Cloverfield Lane)

# 9. Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg +

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O Quarto de Jack (Room)

# 8. O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson +

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Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2)

# 7. Invocação do Mal 2, de James Wan +

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Tangerine

# 6. Tangerine, de Sean Baker +

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Joy - O Nome do Sucesso (Joy)

# 5. Joy – O Nome do Sucesso, de David O. Russell +

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Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight)

# 4. Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy +

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Decisão de Risco (Eye in the Sky)

# 3. Decisão de Risco, de Gavin Hood +

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Cinco Graças (Mustang)

# 2. Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven +

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A Garota de Fogo (Magical Girl)

# 1. A Garota de Fogo, de Carlos Vermut +

 

Resenha Crítica | Tangerine (2015)

Tangerine, de Sean Baker

Ainda que faça cinema há 16 anos, o jovem cineasta Sean Baker precisou contar com a sorte para consolidar o seu nome em uma indústria independente em que talentos são devorados por novas promessas. O seu grande momento chegou em 2012 com a comédia dramática “Uma Estranha Amizade”, registro pouco usual sobre a relação entre uma garota de 21 anos (Dree Hemingway) e uma idosa (Besedka Johnson). Agora, alça voos mais altos com “Tangerine”, uma obra oportuna em tempos que se discute tanto a questão de gênero.

Poderia carregar somente o feito de ser o primeiro longa-metragem produzido integralmente com iPhone, mas Baker, também um excelente roteirista, está interessado aqui em exibir a face periférica de Los Angeles. Há ainda mais uma subversão: ajustar a sua narrativa para se passar na véspera de Natal, quebrando todos os paradigmas exaustivos sobre a tradição familiar em um feriado religioso.

“Tangerine” começa com o reencontro das melhores amigas transgênero Sin-Dee (Kitana Kiki Rodriguez) e Alexandra (Mya Taylor) quando a primeira sai da prisão. Na realidade, Sin-Dee acobertou o seu namorado Chester (James Ransone), que atua como cafetão e traficante. Ela está desesperado para revê-lo até Alexandra revelar o relacionamento que ele estaria tendo com Dinah (Mickey O’Hagan). Assim, começa a batida de perna pela cidade para localizar a amante e, posteriormente, ter o acerto de contas com Chester.

Na equação, há também o taxista Razmik (Karren Karagulian). Armênio, ele vive as pressões familiares e religiosas em manter um lar, algo que sempre camufla os seus verdadeiros desejos, geralmente extravasados com programas durante o expediente de trabalho. É um dos clientes mais fiéis de Sin-Dee, de quem sai à procura assim que notificado sobre a liberdade dela.

A princípio, há muitas informações textuais e visuais no submundo de “Tangerine” (segundo o diretor, o título do filme faz alusão à coloração do pôr do sol em LA), dificultando o entendimento do histórico que as personagens carregam até o prólogo e para onde elas pretendem se mover a partir deste ponto de partida. Passada a fase de introduções, todos passam a agir como tipos certeiros em uma comédia que pretende extrair graça a partir do embaraço, como o envolvimento da polícia quando um cliente se nega a pagar por uma relação sexual  ou a remoção de Dinah do prostíbulo em que trabalha.

Porém, é no uso de um sentimentalismo moderado de contextos barras-pesadas que faz “Tangerine” ter um coração que pulsa. As estratégias de Sean Baker são evidentes, apropriando-se da comédia para trazer acessibilidade ao público ao mesmo tempo em que planeja um movimento em que tudo deverá ruir e talvez se reerguer. Encontra a beleza de seres marginalizados e os respeita ao permitir um respiro que os façam reavaliar os espaços que ocupam e a companhia para enfrentar o dia seguinte.

Resenha Crítica | Decisão de Risco (2015)

Eye in the Sky, the Gavin Hood

Os sucessos de “A Hora Mais Escura” e “Homeland” parecem ter inaugurado um novo momento para os ditos “filmes/seriados de guerra”. Os embates armados seguem usando como palco os territórios ocupados por soldados e civis. No entanto, há aqueles que são resolvidos à distância, em salas com acesso restrito em que ações são tomadas por um sem número de autoridades que acreditam deter o “olhar de Deus”.

Esse momento em que a tecnologia se sobrepõe à ação é enfatizado no título original de “Decisão de Risco” – olho no céu. No filme, o Quênia é observado de cima na operação liderada pela Coronel Katherine Powell (Helen Mirren), que acredita finalmente ter obtido a pista correta sobre o local em que estão escondidos três dos terroristas mais procurados no leste africano.

Antes uma missão de captura, Katherine insiste em uma intervenção que os levariam à morte imediata, uma vez que a câmera em formato de besouro que sobrevoa uma residência observa o trio se preparando para uma explosão em um centro comercial. Porém, os tempos são outros e qualquer procedimento que resulte na morte de inocentes não sacode somente a opinião pública, como também a relação amigável entre países.

Portanto, até que a ordem de Katherine para que uma bomba seja jogada no alvo por Steve (Aaron Paul) e Carrie (Phoebe Fox) – a dupla comanda em uma cabine privada o drone preparado para finalizar a operação – muitas pessoas serão consultadas, do Tenente General Frank Benson (Alan Rickman, em seu último papel no cinema) ao Secretário de Relações Exteriores James Willett (Iain Glen). No pivô, está a pequena Alia (a graciosa Aisha Takow), que está vendendo pães nos arredores do alvo e cuja morte poderia ser provocada com a explosão.

Nascido na África do Sul, o diretor Gavin Hood passou a se posicionar no radar de Hollywood ao vencer há 10 anos o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Infância Roubada”. Desde então, parece ter encarado grandes produções que o colocavam na desconfortável posição de diretor de aluguel, como se testemunhou em “X-Men Origens: Wolverine” e “Ender’s Game: O Jogo do Exterminador”. Com “Decisão de Risco”, está de volta a uma dramaturgia mais condizente com o seu estilo.

Com base no excelente roteiro de Guy Hibbert (“Rastros de Justiça”), o cineasta a princípio gerencia as situações que sempre soam improváveis em contextos como o que narra. Não apenas a garotinha presente no lugar errado e na hora errada, como a incompetência dos representantes de órgãos que movem uma nação, como o Secretário do Estado Americano (Michael O’Keefe) deliberando às pressas sobre o ataque para não interromper o torneio de pingue-pongue que participa em Pequim.

Porém, ao invés de se apropriar dessas situações com um propósito satírico, Hood explora em todas elas as complicações em seguir com um plano que põe em risco a vida de uma criança ou sabotá-lo para que se efetive um ataque terrorista que pode matar ao menos uma centena de inocentes. Os bastidores dessa escolha são o que movimentam um filme enxuto e exemplar ao orquestrar uma tensão outrora vista em zonas de guerra e agora contida em uma visão privilegiada diante da maturação do terror. Independente da decisão para o impasse, as implicações éticas e morais darão um nó na garganta.