Resenha Crítica | Aquarius (2016)

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

Mesmo com a ciência de um Brasil polarizado politicamente, é provável que Kleber Mendonça Filho não tenha previsto as penalidades que sofreria na decisão conjunta com a sua equipe de comparecer ao photo op em Cannes de “Aquarius” com sulfites A4 ostentando frases como “Um golpe ocorreu no Brasil” e “Brasil não é mais uma democracia”. Enquanto uma grande parcela demonstrou apoio o protesto, a oposição se enfureceu, exigindo boicote ao filme.

Quatro meses após o episódio no mais prestigiado festival de cinema do mundo, “Aquarius” chega ao público ainda envolto a controvérsias. Há duas que se destacam. A primeira diz respeito à classificação indicativa de 18 anos estabelecida pelo Ministério da Justiça, geralmente conferida a filmes com conteúdo violento ou sexual predominante e explícito.

A outra controvérsia se refere ao temor de Kleber em não ver “Aquarius” como o filme selecionado para representar o Brasil no Oscar, uma vez que um dos membros da comissão, o crítico Marcos Petrucelli, sempre se posicionou nas redes sociais contra a ação protagonizada pelo cineasta em Cannes. A novela prossegue, já contando com o desligamento de dois integrantes do grupo escalado pelo Ministério da Cultura e a desistência de colegas como Anna Muylaert (“Mãe Só Há Uma“), Gabriel Mascaro (“Boi Neon”) e Aly Muritiba (“Para Minha Amada Morta“) em inscrever os seus filmes para a vaga.

Muitos espectadores irão rememorar cada um dos acontecimentos descritos ao assistir “Aquarius”, já predisposto a apreciar ou não a realização. Vem aí um adendo. Kleber Mendonça Filho faz um cinema de autor, sintonizado com questões políticas e sociais que influenciam a sua visão de mundo. Por outro lado, isso não significa que “Aquarius” seja pautado nas inquietações que externou em Cannes. Assim, é importante apreciá-lo como uma manifestação artística que independe de todos esses fatores externos.

O tema central de “Aquarius” vem a ser uma extensão de uma discussão já fomentada em “O Som ao Redor” e em alguns de seus curtas: a apropriação de uma terra. Aposentada de 65 anos, viúva e mãe de três filhos com as vidas já feitas, Clara (Sonia Braga) é pressionada por uma construtora a abandonar o Edifício Aquarius, sendo a sua única inquilina. Mesmo que a oferta do jovem e ambicioso arquiteto Diego (Humberto Carrão) soe tentadora, Clara diz que jamais desistirá do seu apartamento.

Ao passo em que Diego bola provocações para que Clara ceda (como o transporte suspeito de colchões para os números desocupados e o convite para um grupo de amigos praticar uma orgia no andar superior – cena de meros segundos que de modo algum justifica a proibição de menores), vamos compreendendo o que o ambiente representa para ela. Não se trata apenas de um endereço para preservar as memórias de um tempo que não volta mais. É também a redoma de uma mulher aplacada pela solidão e as marcas de um câncer superado, que se consola com os inúmeros LPs que a rondam.

Há 20 anos sem protagonizar um longa-metragem brasileiro (o último pôster que estampou foi o de “Tieta do Agreste”, de Carlos Diegues), Sonia Braga é o coração que pulsa “Aquarius”. A veterana atriz se entrega de corpo e alma à Clara, um papel que não se exime de também compreender a vivacidade que há na velhice e que ainda a presenteia com instantes de fortes explosões dramáticas, especialmente quando a sua relação com o personagem de Humberto Carrão passa a ter as máscaras da cordialidade caídas.

Além da contribuição inestimável de Sonia Braga, Clara expõe outras dimensões quando problematizada pelo texto, tendo em seu encalço uma figura de grande influência tentando persuadi-la ao mesmo tempo em que os abismos sociais são deflagrados em uma Recife com territórios literalmente demarcados. Trata-se do investimento em um discurso que dá ao todo um excesso que poderia ser eliminado, mas que não nos faz desviar do principal atrativo de “Aquarius”: os valores de gerações que se atraem ou se repelem a partir da defesa de seus interesses particulares.

27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo | Parte #2

Em nossa segunda parte da cobertura do 27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, comentamos brevemente sobre quatro títulos presentes no recorte Mostra Brasil 1, o qual prestigiamos na noite deste último sábado, 27 de agosto, no CineSesc. Trata-se de uma seleção quase impecável, com destaque especial para “Estado Iminente”, até o momento, o nosso curta favorito da edição.

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Solon
Brasil, 16′, dir. Clarissa Campolina

De caráter experimental, o curta-metragem de Clarissa Campolina acompanha o trajeto de uma criatura disforme em um ambiente de constantes mudanças climáticas, sempre enfatizando a presença dos quatro elementos da natureza: terra, água, fogo e ar. Atmosférico, há um comentário particularmente feminino, com a personagem paulatinamente ganhando os traços da bailarina e artista visual Tana Guimarães. Como o esperado, a fotografia de Ivo Lopes Araújo é um deleite.

Chutes
Brasil, 25′, dir. Gustavo Vinagre

Diretor de “Nova Dubai”, Gustavo Vinagre assumiu que “Chutes” veio de seu distanciamento com o futebol. O “trauma” com o esporte parece traduzido na protagonista vivida por Nina Vinagre, Sandra, que está na última fase da gestação e já não suporta o fanatismo futebolístico do marido (Danilo Grangheia), que costuma convidar para o apartamento em que vivem os amigos para assistir as partidas de seu time e que espera por um menino para se tornar um jogador – ela deseja uma menina. Há um bom uso de humor, presente especialmente em uma cena em que Sandra mata o seu tempo assistindo um programa que parodia atrações como “Casos de Família”, mas o drama é desleixado: há lacunas sobre o passado recente do casal preenchidas com sugestões que jamais mostram a que veio.

Mitã Odjau Ramo – Quando a Criança Nasce
Brasil, 17′, dir. Ricardo Sá

Mesmo com ações bem intencionadas, é assustador como os nossos costumes parecem dizimar a vida indígena. A questão da gravidez vem sendo pautada por movimentos que defendem um parto humanizado em um país em que 90% das mulheres se submetem à cesárea, uma “cultura” que interfere até mesmo as vidas das índias guarani Vanete e Teresa, que buscam em um hospital de Espírito Santo uma segurança para conceber os seus bebês. Restam ao fim as crianças e o peso que não imaginam carregar de preservar as tradições que ainda restam na aldeia que habitam.

Estado Itinerante

Estado Itinerante
Brasil, 25′, dir. Ana Carolina Soares

25 minutos são mais do que suficientes para Ana Carolina Soares defender de modo excepcional um dos temas centrais da 27ª edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo: o direito da mulher. Extraordinária, Lira Ribas dá vida à cobradora de ônibus Vivi, que claramente está enclausurada em uma situação de abuso doméstico. Entre noites mal dormidas, tenta encontrar um refúgio. É incrível o domínio da cineasta em dar alguma face para o inimigo que amedronta a sua personagem: a partir de uma casa periférica, Ana Carolina Soares mapeia toda a insegurança de Vivi. O uso na íntegra de “Don’t Cry”, do “Guns N’ Roses”, em um plano-sequência é também visceral.

Resenha Crítica | O Sono da Morte (2016)

Before I Wake, de Mike Flanagan

Os cinéfilos vivem hoje um período de dificuldade para encontrar diretores que possam ser alçados ao posto de mestres do terror. Temos alguns nomes que estão velando muito bem para o gênero, como James Wan, Ti West, Jim Mickle e Adam Wingard. Outros ainda não mostraram a que veio, como Mike Flanagan.

Com estreia prometida para o dia 1º de setembro, “O Sono da Morte” é o terceiro longa-metragem de Flanagan a desembarcar no país. Com ele, o diretor, roteirista e também editor denota uma falta de desenvoltura ao estabelecer uma coerência em sua premissa sobrenatural, um fator importante mesmo ao lidar com elementos que vão além do plano material.

27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo | Parte #1

Começa hoje, 24 de agosto, o 27º Festival Internacional de Curtas-Metragens. Realizado pela Associação Cultural Kinoforum, o evento traz a São Paulo uma programação com aproximadamente 400 títulos de todos os cantos do mundo, dando ênfase a temas como direito da mulher, inclusão, liberdade de expressão e xenofobia. Tratamos aqui sobre alguns dos destaques do festival, que ocorrerá até o dia 4 de setembro, sempre com sessões e atividades gratuitas.

Aproveitando a ocasião, comentamos a seguir sobre seis títulos apresentados na semana passada para a imprensa, uma seleção que traduz muito bem a diversidade do festival.

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Os Cravos e a Rocha (idem)
Portugal, 16′, dir. Luísa Sequeira

25 de abril de 1974 foi uma data muito importante para a história de Portugal. Trata-se do momento em que se instaurou um movimento social que determinou os rumos democráticos que o país viria a tomar. Batizado como Revolução dos Cravos, o episódio foi testemunhado de perto por Glauber Rocha, mas o curta nunca dá liga à tentativa de aproximar o engajamento político do cineasta baiano com a mobilização documentada.

Decibéis (Décibels)
França, 3′, dir. Léo Verrier

Parte do programa especial Coleção Canal+: Desenhar é Preciso, a animação é também uma ode à liberdade de expressão, um modo de fazer alusão ao trágico atentado terrorista à redação do periódico Charlie Hebdo. Divertido, o curta francês acompanha os desentendimentos entre amigos durante a seleção musical para embalar uma festa.

Os Barcos (Los Barcos)
Chile, Portugal, 24′, dir. Dominga Sotomayor Castillo

Presente na seleção oficial do Festival de Roterdã deste ano, esta realização de Dominga Sotomayor Castillo começa bem ao flagrar o desconforto de uma atriz (Francisca Castillo) em representar em uma mostra de cinema em Lisboa o diretor de um filme no qual tem uma participação secundária. Pena que o roteiro não se sustente, acompanhando de modo insípido uma jornada aparentemente sem destino.

O Delírio é a Redenção dos Aflitos (idem)
Brasil/PE, 21”, dir. Fellipe Fernandes

Promissora a estreia de Fellipe Fernandes. Nascido em Olinda e formado em jornalismo, Fellipe parece influenciado por esse cinema de sugestões sobrenaturais que vem ganhando cada vez mais adeptos – “O Som ao Redor” é uma influência evidente. Vivida por Nash Laila, Raquel é uma jovem desesperada para abandonar com a família o prédio em que vivem, que tem riscos de desabar. Há algo de muito perturbador em uma ação extrema nos minutos finais, além do sentimento de que a premissa renderia um bom longa-metragem.

A Cabeça Oculta (The Head Vanishes)

A Cabeça Oculta (The Head Vanishes)
França/Canadá, 9′, dir. Franck Dion

Uma pena que a filmografia de Franck Dion seja tão pequena. Quarto curta-metragem de sua carreira, “A Cabeça Oculta” é belamente concebido e parece inebriado pela obra de alguns artistas surrealistas, como René Magritte. Jacqueline é uma senhora que se movimenta com cabeça descolada de seu corpo, embarcando em uma viagem de trem que ampliará a sua desorientação. A conclusão entrega uma triste constatação sobre o fim da vida e as memórias que se dissipam.

Crônicas do Meu Silêncio (idem)
Brasil/SP, 9′, dir. Beatriz Pessoa

Realização claramente concebida por um grupo universitário, acompanha garotas anônimas que se cruzam não apenas pelo trânsito em pontos de São Paulo, como também pelos relatos que partilham sobre as violências e abusos que sofreram por uma figura masculina. A ideia é melhor que a execução, pois Beatriz Pessoa faz com que as narrações em off inutilizem as interpretações silenciosas. Ainda assim, as boas intenções validam o esforço.

Resenha Crítica | A Vingança Está na Moda (2015)

The Dressmaker, de Jocelyn Moorhouse

Casada com P. J. Hogan (“O Casamento de Muriel”), a australiana Jocelyn Moorhouse teve de abdicar de sua carreira como cineasta para cumprir em tempo integral o papel de mãe de dois filhos com autismo.  Fez de “Terras Perdidas”, de 1997, a sua última aventura por trás das câmeras. Há 10 anos, ensaiava um retorno com “Eucalyptus”, mas o projeto foi permanentemente engavetado devido às divergências com o astro Russel Crowe, o qual havia revelado em “A Prova”.

Todos esses meandros tornam o retorno de Moorhouse em “A Vingança Está na Moda” ainda mais esperado, especialmente pelo peso de um nome que contribuiu, ainda que de forma discreta, para a propagação da produção australiana para o mundo – bem como Crowe, o esplêndido Hugo Weaving também se beneficiou com o sucesso de “A Prova”. Mas vale um adendo: nem todos devem embarcar na história, que mergulha em tons obscuros sem aviso prévio.

A princípio, o regresso de Myrtle Dunnage (Kate Winslet, ótima, ainda que velha demais para o papel) a uma cidadezinha no meio do nada sugere uma comédia tradicional com uma protagonista provando que deu a volta por cima, agora pretendendo acertar algumas pendências com pessoas responsáveis por transformar o seu passado em um verdadeiro inferno. A questão é que o peso que Myrtle carrega é o de alguém acusado por cometer um assassinato cujos detalhes foram nebulosos demais para processar em sua infância.

Adulta, tenta reparar o relacionamento com a mãe senil (Judy Davis) enquanto impacta a pequena comunidade com as suas habilidades como estilista. Porém, é a receptividade com dois homens que a fará reconstruir a cena do acontecimento que a traumatizou. O primeiro é Farrat (Weaving), sargento que gosta de experimentar roupas e adereços femininos em segredo, e Teddy McSwiney (Liam Hemsworth), rapaz que amolece aos poucos o coração de pedra de Myrtle.

Quando tudo parece caminhar para uma resolução convencional, o texto de Moorhouse e Hogan, com base no romance homônimo de Rosalie Ham, dá novos rumos aos planos de vingança da protagonista. Se antes as suas habilidades em conceber belos figurinos tinha como intenção ocultar a sua motivação em seduzir e desmoralizar todos que a taxaram como uma assassina, os infortúnios do acaso tingem o filme com um humor negro desconcertante. Entre os lançamentos recentes, talvez “A Vingança Está na Moda” seja o que mais se atreveu a sair de uma zona de conforto ao seu final, provocando a reação nada típica de ame-o ou deixe-o.

Resenha Crítica | Ben-Hur (2016)

Ben-Hur, de Timur Bekmambetov

Deveria existir um manifesto que mantivesse as maiores obras cinematográficas intocáveis. A ideia de revisitar um épico como “Ben-Hur” soa tão profana quanto o de flertar com outros clássicos como “…E o Vento Levou” e “Lawrence da Arábia”.  São obras que sobrevivem a passagem do tempo e que encantam ao serem (re)vistas hoje por olhos fascinados.

A pegadinha com o filme de William Wyler é a mesmo que fazem muitos se esquivarem do rótulo de mera refilmagem: a concepção de um roteiro dada a partir de um material literário. Portanto, o “Ben-Hur” dirigido pelo cazaque Timur Bekmambetov não vem até nós como uma nova versão para a aventura de 1959, mas sim como uma transposição do livro de Lew Wallace, originalmente publicado em 1880.

Seja como for, não soa justa uma análise interessada somente em traçar o que aproxima ou afasta as duas versões de “Ben-Hur”. Portanto, se o filme que chega agora aos cinemas tem um potencial enorme de cair no esquecimento assim que encerrar a sua carreira comercial, também é correto reconhecer que há virtudes que o fazem sair de argumentos comparativos com uma obra-prima que povoa o imaginário até mesmo de um público que ainda o desconhece.

A fragilidade do relacionamento entre os irmãos Judah Ben-Hur (Jack Huston) e Messala Severus (Toby Kebbell) já é evidenciada nos primeiros minutos da história. Isso porque Messala tem um complexo de inferioridade por ser o filho adotivo de uma família de judeus. Na busca pela sua própria identidade, Messala se converte em um oficial do exército romano, que vem protagonizando uma guerra contra os judeus para dominar Jerusalém.

Assim como o Ben-Hur personificado por Charlton Heston, o jovem herói de Jack Huston é acusado de traição em uma tentativa mal-sucedida da comunidade judaica em atentar contra a vida do governador romano. Sem julgamento, Ben-Hur e a sua família são imediatamente penalizados – somente a sua esposa Esther (Nazanin Boniadi) consegue fugir antes que todos sejam rendidos. Paralelamente, Jesus (Rodrigo Santoro) vai se tornando uma presença secundária mais recorrente, com uma trajetória que irá fazê-lo cruzar com o destino de Ben-Hur em algumas ocasiões decisivas.

Quem acompanhou o trabalho de Timur Bekmambetov até aqui, sabe que o realizador não é afeito a sutilezas no desejo de promover uma experiência visual bem particular. Por isso mesmo, o ritmo alucinado é concentrado somente quando a ação se manifesta com intensidade, mas sempre com um cuidado para não corromper a seriedade de uma narrativa de cunho religioso.

A contenção funciona. Não há como negar a humanidade que Rodrigo Santoro traz para a figura mais influente da cultura religiosa ocidental, bem como a sede de vingança expressa por Jack Huston, que após um período de cinco anos como escravo se renova ao ganhar a simpatia de Ilderim (Morgan Freeman, excelente), um homem rico que pretende desmoralizar o império romano ao inscrever Ben-Hur em uma disputa no coliseu.

Se esses esforços podem ser insuficientes, o filme deve se sustentar como espetáculo. Não é impressionante somente a longa sequência em que o protagonista se vê entre outros escravos remando em batalhas navais, como também a recriação da icônica corrida de bigas. São as sequências que esse “Bem-Hur” consegue compreender, ainda que por alguns suspiros, o que caracteriza um bom épico.

Resenha Crítica | Rocco e Seus Irmãos (1960)

Rocco e i suoi fratelli, de Luchino Visconti

Ainda que “Roma, Cidade Aberta”, obra de Roberto Rossellini produzida quando a Segunda Guerra Mundial se dissolvia, seja vista como o marco que consolidou o neorrealismo italiano, pode-se afirmar que o termo deve a sua origem a Luchino Visconti, cujo “Obsessão” de 1943 já comportava um estilo semidocumental que notabilizaria a corrente artística.

Quatro longas-metragens depois, Visconti faz “Rocco e Seus Irmãos” carregando algumas características que marcou o início de sua carreira. No entanto, é o ponto em que há uma transição em sua filmografia, conferindo à saga familiar um ar grandiloquente que viria a ser reprisado em seus dramas seguintes, como “O Leopardo” e “Os Deuses Malditos”.

Ainda que o título dê ênfase ao personagem Rocco Parondi (Alain Delon), o texto faz uma divisão em capítulos muito bem definida para que cada ponta de um quinteto de irmãos tenha o seu protagonismo. Um quinteto que circula em torno de uma figura matriarcal, Rosaria (Katina Paxinou), que foge da pobreza da vida rural para tentar prosperar em Milão.

Mais velho entre os irmãos, Vincenzo (Spiros Focás) já vive na cidade e tenta conquistar Ginetta (Claudia Cardinale). Os demais irmãos, Rocco, Simone (Renato Salvatori), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi), vão se submetendo a todas as atividades possíveis até conquistarem uma estabilidade profissional, seja clamando por neve para caçar bicos que remunerem por sua retirada, seja descobrindo uma vocação.

Uma rivalidade se impõe entre Rocco e Simone. Agora o mais velho em casa, Simone é um modelo natural para os seus demais irmãos. No entanto, acaba sucumbindo à ganância justamente quando é notado como um lutador de box promissor, carreira que passa a ser seguida por Rocco assim que conclui o serviço militar. Há ainda a entrada da prostituta Nadia (Annie Girardot), a princípio uma namorada de Simone e, posteriormente, um interesse romântico de Rocco.

Hoje tradicional, a premissa sobre a busca por ascensão social recebe um tratamento único pelas mãos de Visconti, penalizando especialmente Rocco e Simone por uma decadência moral como uma consequência  para as ambições em um modo de vida capitalista: o primeiro é capaz de passar por cima do que é correto para preservar a honra de sua família enquanto o segundo caminha a passos largos a um precipício ao perder o papel de autoridade antes pertencente ao seu falecido pai.

Mesmo a precariedade sonora, resultando em uma dublagem realizada inclusive por intérpretes de fora da encenação, traz uma intensidade extra aos atritos, sempre enfatizando uma expansividade característica nos italianos. Um aspecto que ganha uma ressonância ainda maior com a bela restauração supervisionada pelo próprio diretor de fotografia Giuseppe Rotunno, responsável por nebular os rumos trágicos da história.

Resenha Crítica | Quando as Luzes se Apagam (2016)

Lights Out, de David F. Sandberg

 Há três anos, David F. Sandberg fez “Lights Out”, curta-metragem com um pouco mais de dois minutos que viralizou ao trazer um velho medo que será para sempre funcional: a escuridão. É bem assustador e não há um indício de uma premissa. Algo que o próprio Sandberg não compreendeu ao topar convertê-lo em um longa de 80 minutos.

A história de um espírito que pode ser uma velha amiga do passado de Sophie (Maria Bello) e que aos poucos desestrutura a sua própria família é um mero pretexto para uma sucessão de jump scares, extraindo de muitos de nós o riso involuntário, uma reação sempre indesejada em filmes de terror que se levam a sério. Que mancada na produção, James Wan!

Resenha Crítica | Terror em Silent Hill (2006)

Silent Hill, de Christophe Gans

No dia 18 de agosto de 2006, era lançado no Brasil “Terror em Silent Hill”, adaptação da popular série de games da Konami. Até hoje, o filme de  Christophe Gans segue como uma referência em transposição de um jogo eletrônico para o cinema, ainda que o seu êxito comercial tenha sido modesto.

Gans realmente se dedicou no processo em recriar Silent Hill, com o seu arrojo visual característico trabalhando em favor de uma narrativa muito mais interessada em abraçar uma atmosfera de pesadelo do que colocar todos os pingos nos is em sua conclusão. É o que defendemos em nosso breve comentário publicado hoje em nosso canal no Youtube.

Resenha Crítica | Amor & Amizade (2016)

Love & Friendship, de Whit Stillman

No primeiro ato de “Metropolitan”, Tom, personagem principal vivido por Edward Clements, tem uma discussão literária com Audrey (Carolyn Farina), no qual ele desdenha de “Mansfield Park”, considerando o livro de Jane Austen ridículo dentro de um contexto contemporâneo. Inconformada, Audrey retruca: “Já te ocorreu que o mundo contemporâneo, pela perspectiva de Austen, ficaria ainda pior?”.

Com 26 anos de carreira, Whit Stillman continua fiel a um sentimento de deslocamento vivido por seus personagens nos ambientes em que transitam, como se estivessem despreparados para um novo rito de passagem. É um conflito que aproxima “Metropolitan” ou qualquer um dos seus três filmes seguintes de “Amor & Amizade”, este justamente inspirado em um romance de Jane Austen.

Assumidamente comercial, o título pode fazer os fãs da escritora pensarem que “Amor & Amizade” é uma adaptação homônima do romance escrito em 1970, quando Austen ainda era uma adolescente. No entanto, o roteiro de Stillman tem como base “Lady Susan”, publicado postumamente em 1871.

Kate Beckinsale é quem interpreta Lady Susan Vernon, uma quase quarentona que enviuvou sem uma herança generosa. Exatamente por isso, aproveita a ocasião do retorno de sua filha Frederica (Morfydd Clark) após a expulsão do colégio em que estudava para aproximá-la do afortunado Sir James Martin (o hilário Tom Bennett, mais conhecido por suas participações em seriados britânicos), que vive de cometer gafes durante as tentativas frustradas de conquistá-la.

Sem muito sucesso na tentativa em sofisticar o seu nome por meio de sua própria filha, Lady Susan parece ter outras cartas na manga, como conquistar Reginald DeCourcy (Xavier Samuel), jovem irmão de Catherine DeCourcy (Emma Greenwell), esposa de seu ex-cunhado, Charles Vernon (Justin Edwards). Durante os flertes, surgem os boatos de que Lady Susan também estaria atraída por Lord Manwaring (Lochlann O’Mearáin), este em um casamento aos frangalhos com Lady Lucy (Jenn Murray).

Mais do que respeitar os elementos de uma boa comédia de costumes, Whit Stillman persegue uma aproximação entre os valores antiquados e modernos. Não à toa, ele traz Chloë Sevigny fazendo a melhor amiga americana de Beckinsale: as duas atrizes foram também protagonistas de “Os Últimos Embalos do Disco”, vivendo garotas que parecem as encarnações futuras de Lady Susan e sua confidente Alicia Johnson em plena era da conversão de hippies em yuppies.

O resultado está longe de ser uma adaptação convencional de Austen, especialmente pela ênfase na ardilosidade que move Lady Susan. Os homens até pensam que estão resolvendo os seus assuntos amorosos com uma impunidade que não favorece as mulheres. Mal sabem que as razões contidas no coração de Lady Susan a fazem estar muito avançada no jogo de aparências que articula.