Resenha Crítica | Um Homem Só (2016)

Um Homem Só, de Cláudia Jouvin

Bem como a maioria de nós, Arnaldo (Vladimir Brichta) é um sujeito sufocado por um cotidiano banal, não encontrando em suas tarefas padronizadas algum respiro para repensar o que o importuna e qual a melhor maneira de agir. Os seus incômodos vão desde um casamento no piloto automático com Aline (Ingrid Guimarães, numa personagem ainda mais antipática que a Nena de “Um Namorado Para Minha Mulher”) até o emprego burocrático no qual o único alívio é a amizade com Mascarenhas (Otávio Muller).

Ao usar o banheiro privativo do seu trabalho, Arnaldo ouve uma conversa sobre uma clínica secreta capaz de clonar pessoas. O intento do procedimento é fazer com que a cópia assuma as funções do original enquanto este recebe uma segunda chance para viver uma outra possibilidade. A única regra é que as duas versões jamais devem se cruzar: caso infrigida, a cópia deverá ser imediatamente eliminada e o original, reassumir o seu posto.

A princípio, Cláudia Jouvin, diretora de primeira viagem e roteirista com vasta experiência em produções televisivas e cinematográficas, parece fazer nada mais que um pastiche de comédia e ficção científica aos moldes de “O Homem do Futuro”. O teor fantástico da premissa se mostra sem qualquer complexidade e as coisas parecem rumar para um romance de pegada hipster com a entrada de Josie (Mariana Ximenes), uma jovem tresloucada que trabalha em um cemitério de animais com a sua “tia” Leila (Eliane Giardini), que é, na realidade, a ex-companheira de sua falecida mãe. Ledo engano.

O diferencial de “Um Homem Só” já começa pelo tratamento visual e cenográfico. Premiado no penúltimo Festival de Gramado, o diretor de fotografia argentino Adrian Teijido transforma uma cidade ensolarada como o Rio de Janeiro no ambiente mais lúgubre imaginável, algo que reverbera ainda mais com a direção de arte de Claudio Amaral Peixoto e Joana Mureb, conferindo no acúmulo de objetos nas residências de cada personagem um sentimento de apego por algo que já partiu, seja uma pessoa ou uma ambição de vida.

Há também outra virtude em “Um Homem Só” e ela deve ser creditada totalmente à Cláudia Jouvin. A diretora e roteirista carioca tem um domínio de seu material não comprovado somente com as surpresas que prega para a segunda metade do filme, como ao não abrir nenhuma concessão no ato final. É como se Jouvin sustentasse o discurso de que não há mágica capaz de camuflar a nebulosidade de nossas escolhas. Um ceticismo em forma de um risco que vai fazer muita gente sair de cabeça baixa do cinema, mas que fortalece a nossa singularidade como indivíduos que não podem ser duplicados.

Resenha Crítica | Na Vertical (2016)

Rester vertical, de Alain Guiraudie

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Há três anos, o diretor francês Alain Guiraudie havia escandalizado o mundo com o lançamento de “Um Estranho no Lago”. Se grande parte da plateia se mostra pudica com conteúdos adultos, imagine as reações quando o erotismo é explícito e praticado unicamente por homens. Nada que tenha espantado aqueles que legitimam o viés artístico de uma obra. Como o Festival de Cannes, que o selecionou como o melhor na mostra Um Certo Olhar.

Já neste ano, Guiraudie regressou a Cannes com a pompa de quem conseguiu inscrever o seu filme no seleto grupo de indicados à Palma de Ouro. Porém, o seu novo “Na Vertical” foi um dos títulos em competição que mais foi recebido com indiferença, impossibilitando-o de assegurar as mesmas credenciais que “Um Estranho no Lago” para assegurar de imediato uma vida fora do circuito de festivais.

O personagem central da história é Léo (Damien Bonnard), um roteirista com dificuldades em concluir o seu próximo projeto. Em viagem pelo sul da França, ele cruza com o que restou de componentes de duas famílias para lá de pitorescas. Primeiro com Yoan (Basile Meilleurat), jovem que Léo julga ter as feições perfeitas para ser um ator e que vive com o seu avô sem papas na língua Marcel (Christian Bouillette). Depois ele esbarra em Marie (India Hair), que cuida de um rebanho de ovelhas com o seu pai Jean-Louis (Raphaël Thiéry).

Tudo provoca estranheza em “Na Vertical”, seja o modo como Léo faz a primeira abordagem nesses estranhos ou mesmo como se dá a dinâmica de cada acontecimento.  Parece haver em jogo muito mais do que uma mera inversão do que compete a cada gênero, a exemplo de Marie negando a maternidade a partir do momento que engravida de Léo ou como é exposta a vulnerabilidade de homens então viris – poucos momentos neste ano são tão desconfortantes quanto uma cena de sexo jogada no meio da metragem. É um filme dificílimo de categorizar e, por isso mesmo, imperdível.

Resenha Crítica | A Morte de Luís XIV (2016)

La mort de Louis XIV, de Albert Serra

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O reinado de Luís XIV é um daqueles que ocupam um número extra de páginas nos livros de história. No poder por mais de 70 anos, Luís XIV ainda aprimorou o seu exército para fazer uma verdadeira revolução na Europa e se viu em crise para encontrar um herdeiro ideal para sucedê-lo, uma vez que todos os seus filhos morreram ao contraírem enfermidades. São dados essenciais na biografia da figura real ignorados por Albert Serra em “A Morte de Luís XIV”.

No filme, vemos o rei francês definhando em seu aposento, com dificuldades inclusive de caminhar sem o auxilio de seus criados. A causa de sua fraqueza é uma gangrena contraída, tomando o que restou de sua vitalidade enquanto médicos e curandeiros tentam, sem sucesso, reverter a doença que o levaria a morte em 1º de setembro de 1715, quatro dias antes de completar 77 anos.

Ator favorito do cineasta François Truffaut e com quase a mesma idade de seu personagem real, Jean-Pierre Léaud tem uma interpretação aflitiva, nada expansiva, expressando o desejo de morrer com olhares sutis de reprovação e interjeições que mais parecem rosnos. O trabalho meticuloso de Léaud, porém, talvez seja o único elo que nos mantêm conectados com a encenação sempre fria de Albert Serra.

Hoje levantando mais recursos em comparação com os seus primeiros filmes, Serra se sofisticou, cercando de maior opulência a sua visão particular para contextos de época, sejam eles ficcionais ou não. Mesmo assim, a impressão é de que “A Morte de Luís XIV” nada mais é do que uma reprise da mesma estrutura narrativa de suas obras anteriores. O recorte crucial, as interações verbais esporádicas, as tomadas contemplativas, a música para pontuar o clímax. O personagem é outro, mas o filme é o mesmo de sempre.

Resenha Crítica | O Vale do Amor (2015)

Valley of Love, de Guillaume Nicloux

Não há nada pior para um pai e uma mãe do que a perda de um filho. É uma tragédia que trai a ordem que a existência humana deveria seguir, com os mais velhos partindo enquanto os mais novos se estabelecem no que os cristãos nomeiam como plano material. Porém, o maior choque vem quando a morte prematura é pontuada por um suicídio, deixando aos pais o peso da culpa.

É sobre isso que trata o 13º longa-metragem de Guillaume Nicloux, tendo sido exibido em competição no ano passado no Festival de Cannes. Mas o texto, também de sua autoria, traz a possibilidade para o casal interpretado pelos magníficos Isabelle Huppert e Gérard Depardieu dar um adeus apropriadamente e assim encontrar algum conforto antes de retomarem as suas rotinas.

Fotógrafo homossexual, Michael tirou a própria vida ingerindo inúmeros comprimidos. Antes, deixou cartas endereçadas para os seus pais incluindo um roteiro de viagens que eles devem seguir ao longo de uma semana. O destino é o Vale da Morte, situado na Califórnia, onde promete fazer uma aparição.

Além de um reencontro sobrenatural com o filho, a ocasião serve de oportunidade para esse homem e essa mulher se reencontrarem após constituírem uma família com novos parceiros. Foi uma separação harmoniosa, bem resolvida, mas os atritos são inevitáveis, especialmente ao avaliarem o quanto foram negligentes com Michael – a mãe teria ficado nada menos que sete anos sem vê-lo.

Mesmo que tenha uma abordagem original sobre o luto, Guillaume Nicloux acredita que nada é maior do que as presenças de Isabelle Huppert e Gérard Depardieu, que têm um reencontro no cinema após os 35 anos que os separam de “Loulou”, de Maurice Pialat. O diretor e roteirista sequer se dá ao trabalho de imaginar outros nomes para os personagens que não sejam os de seus intérpretes. Até a profissão se manteve –  ao ser abordado por um sujeito em férias com a esposa, Gérard assina como Bob de Niro ao dar um autógrafo.

Nem todos gostam de filmes que vivem em função dos astros estampados no cartaz, mas isso não é exatamente um problema em “O Vale do Amor”. Ainda mais porque não há muitos veteranos como Isabelle Huppert e Gérard Depardieu para trazer a mesma intensidade dramática em um filme quase ausente de artifícios. Ela com uma dor emocional e ele, com a fragilidade física de um diamante bruto.

Resenha Crítica | O Silêncio do Céu (2016)

Era el Cielo, de Marco Dutra

Um acontecimento de forte impacto marca o prólogo de “O Silêncio do Céu”. Dentro de sua própria casa e sem possibilidade de se rebelar, Diana (Carolina Dieckmann) é violentada por dois homens. Minutos depois, o episódio é reprisado, mas a partir de uma perspectiva que não tínhamos deduzido que existiria: a do marido de Diana, Mario (Leonardo Sbaraglia), que vê os dois indivíduos abandonando o local sem antes conseguir efetivar alguma ação contra eles.

Baseado em um romance assinado por Sergio Bizzio, “O Silêncio do Céu” é o terceiro longa-metragem de Marco Dutra e o seu primeiro em que se aventura a rodar em outro país e língua. A princípio, há um dilema moral que o aproxima muito do sueco “Força Maior“, em que um homem se vê desacreditado no fracasso de seguir o instinto de proteger a sua mulher.

Uma impressão inicial que logo dá lugar a um território desconhecido povoado por figuras que Mario não sabe bem como abordar. Não é com dificuldades que o protagonista, um homem cheio de fobias, identifica que os agressores são os irmãos Néstor (Chino Darín) e Andrés (Alvaro Armand Ugon). O primeiro é um sujeito instável, cheio de tiques estranhos, que trabalha ao lado de sua mãe Malena (Mirella Pascual) em um viveiro. Já o segundo é um dono bem-sucedido de uma agência e diferente de sua família.

Em um período em que a violência contra a mulher vem sendo discutido com maior intensidade a partir de movimentos pautados pelo empoderamento feminino, é fácil associar “O Silêncio do Céu” ao tema com base no trauma sofrido por Diana. No entanto, é importante frisar que o texto nas mãos de Marco Dutra é de um thriller que não está interessado somente nesta temática, debatendo questões sobre aparências e a incomunicabilidade entre pessoas que dividem o mesmo teto.

Mario e Diana expressam as suas intimidades não com interações verbais um com o outro, mas em narrações que somente o espectador tem o privilégio de ouvir. Há metáforas visuais que correspondem essa barreira entre duas pessoas que se amam. Algumas primorosas, como uma pedra intacta em uma mesa após não ser usada para evitar o ato que abre a história. Outras um tanto excessivas, como os cactos que representam os espinhos que o casal se blindou.

É o melhor trabalho até aqui de Marco Dutra. Segunda parceira com o produtor Rodrigo Teixeira (com quem trabalhou em “Quando Eu Era Vivo”), “O Silêncio do Céu” permite a Dutra evoluir como um contador de histórias deixando um pouco de lado os elementos sobrenaturais de sua obra sem antes resgatar a excentricidade que eles têm. Não é à toa que o sentimento de estranheza se manifesta como nunca na presença da extraordinária Mirella Pascual, fazendo do arrastar de pé de sua personagem o melhor símbolo para expressar uma deformidade coletiva.

Resenha Crítica | Pequeno Segredo (2016)

Pequeno Segredo, de David Schurmann

Membro da família de velejadores Schurmann, David Schurmann já havia se prontificado a levar para os cinemas detalhes de suas expedições com o documentário “O Mundo em Duas Voltas”. Em “Pequeno Segredo”, Schurmann agora resgata as memórias de seus pais e Kat, sua irmã adotiva, com um registro ficcional não de suas aventuras pelo mundo, mas de um drama particular narrado por sua mãe Heloisa no livro “Pequeno Segredo – As Lições de Kat para Família Schurmann”.

Mesmo o mais desinformado do espectador sabe que o centro da trama é a enfermidade carregada por Kat (Mariana Goulart), pré-adolescente que acredita ingerir vitaminas para controlar uma hepatite. Adotada por Heloisa (Julia Lemmertz) e Vilfredo (Marcello Antony), Kat tem os detalhes de sua concepção recriados aos poucos em “Pequeno Segredo”.

Graduado em cinema e televisão na Nova Zelândia, David Schurmann sugere ter grande afeto por filmes corais, aqueles em que alguns personagens desconhecidos entre si se conectam em uma narrativa não linear. É um desafio gerenciar indivíduos de personalidades distintas em linhas temporais diversas e, mesmo que Schurmann tenha a facilidade de lidar com apenas dois núcleos familiares, há uma regra sagrada não respeitada em “Pequeno Segredo”: o fator surpresa.

Fracassando ao pretender que o “pequeno segredo” nos seja revelado na mesma altura em que Kat descobre o que condenará a sua existência (uma pista jogada no primeiro ato trata de destruir qualquer apreensão que esse mistério provocaria), a condução de Schurmann se sabota na tentativa de respeitar as regras mais básicas da cartilha do melodrama. É um filme que não tem vergonha de admitir que foi feito para emocionar, mas que não sabe até onde apelar para fazê-lo.

Além da estrutura, dessas que ainda lidam com dados do passado já descortinados pelo presente, outro problema grave no filme vem a ser a construção de personagens. O senso de desprendimento dos Schurmann foi substituído por um novo estilo de vida em que Kat é uma prioridade 24 horas por dia. Já os pais biológicos da garota (interpretados por Maria Flor e Erroll Shand) contam com preocupações como o bem-estar próprio e alheio, assim como os dilemas de abandonar ou se manter em seus locais de origem. Tudo para serem descartados quando os Schurmann assumem um protagonismo mais evidente.

Lamentavelmente, o trabalho mais ingrato recai justamente nos ombros da irlandesa Fionnula Flanagan, excelente veterana mais conhecida por filmes como “Mães em Luta” e “Os Outros”, bem como por sua participação especial no seriado “Lost”. No papel da avó biológica de Kat, a atriz precisa se virar com falas desprezíveis e ainda é submetida a uma redenção a partir de um monólogo sobre o que é amar que jamais compramos.

É preciso coragem para tornar pública uma história dolorosa e privada e David Schurmann busca compartilhar a de sua irmã com carinho e ênfase em valores que deseja que o público carregue consigo após a sessão. No entanto, é preciso um amadurecimento que nenhuma credencial para tentar uma vaga no Oscar é capaz de substituir. Talvez fosse melhor ter repassado a história de Kat para outro diretor que não se preocupasse tanto em higienizar a tela e enfeitá-la com borboletas.

Resenha Crítica | Creepy (2016)

Kurîpî: Itsuwari no rinjin, de Kiyoshi Kurosawa

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Diretor de cinema desde os 20 anos, Kiyoshi Kurosawa tem atravessado uma fase intensa em sua carreira, lidando com projetos um atrás do outro. Recentemente em Toronto para promover “Le secret de la chambre noire” (coprodução entre Bélgica, França e Japão falada em francês), já regressou para a sua terra natal para as filmagens de seu novo longa-metragem a ser lançado no próximo ano.

Se às vezes o resultado soa como algo feito a toque de caixa, como “O Sétimo Código” (presente na edição de 2014 do INDIE Festival), por outro há muito a ser avaliado e discutido, como se vê em “Creepy”. Mesmo envolto no gênero thriller, Kurosawa faz um estudo psicológico curioso a respeito da deformidade familiar em detrimento do que a princípio soa como um mero mistério de assassinato em série.

Takakura (Hidetoshi Nishijima) decidiu abandonar o ofício de detetive após um episódio traumático. Um ano depois, recebe o pedido de seu colega Nogami (Masahiro Higashide) para investigar o desaparecimento há seis anos de uma família, deixando como único membro e testemunha a jovem Saki (Haruna Kawaguchi).

Ao identificar que o caso é mais obscuro que parece, Takakura acaba negligenciando a sua esposa Yasuko (Yûko Takeuchi), com quem acabou de se mudar para um novo bairro. Paralelo ao avanço das investigações, acompanhamos a rotina solitária e banal de Yasuko, que aos poucos se aproxima de Nishino (Teruyuki Kagawa, sensacional), vizinho instável que vive com uma filha adolescente, Mio (Ryoko Fujino), e a sua esposa enferma.

Paulatinamente, Kurosawa descortina as aparências, por vezes sugerindo que Takakura e Yasuko estão lidando com contextos completamente isolados. E o faz com bom domínio de direção, mais preocupado com a tensão provocado a partir das interações de personagens e a exploração dos cômodos de uma propriedade do que com o horror passageiro da violência gráfica.

Uma pena que Kurosawa e o seu parceiro de roteiro Chihiro Ikeda não tenham sido mais cuidadosos nos elementos detetivescos da trama inspirada em um romance de Yutaka Maekawa. Trata-se de um aspecto totalmente negligenciado em “Creepy”, comprometendo por vezes a seriedade e a evolução da história toda vez que um erro primário é cometido por alguém envolvido na resolução do crime central. Um deslize que só vem a ser realmente abafado com a intensidade dramática do ato final.

A versatilidade de Curtis Hanson

Curtis Hanson
✰ 24/3/1945
✝ 20/9/2016

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Uma vez que você tem a oportunidade para realmente dirigir e a história que você está morrendo de vontade de contar, aproveite-a da melhor maneira que puder e não se distraia com nada mais. E seja honesto.

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Quando finalmente assisti a “Los Angeles: Cidade Proibida” (1997) quando tinha uns 14 anos, o film noir era ainda uma incógnita para mim. Não por ser apenas um subgênero adulto, mas pelo difícil acesso em encontrar os seus principais representantes em um bairro sem videolocadoras alternativas.

A adaptação do romance homônimo de James Ellroy concentra tudo que há na cartilha de um bom “filme negro”: uma trama de mistério ambientada em um cenário de violência habitado por agentes da lei, indivíduos de caráter questionável e mulheres dúbias, tudo envolto a uma estética singular de luz e sombras. Teria levado todas as nove estatuetas do Oscar para as categorias em que foi indicado se “Titanic” não estivesse na disputa no mesmo ano – Curtis Hanson e o seu parceiro Brian Helgeland asseguraram uma vitória pelo texto adaptado enquanto Kim Basinger foi a Melhor Atriz Coadjuvante em um momento em que a sua carreira estava a um passo de cair no abismo.

O sucesso de “Los Angeles: Cidade Proibida” permitiria a Curtis Hanson o envolvimento com qualquer grande projeto que desejasse, mas o cineasta preferiu seguir um planejamento já em curso e que posteriormente se revelou mais ousado: o de investir em uma carreira pautada pela versatilidade. Fotógrafo de formação e escritor à caça de freelas, Hanson sempre ambicionou uma carreira no cinema, debutando atrás das câmeras aos 27 anos com “Sweet Kill”, no qual foi apadrinhado pelo lendário Roger Corman.

Por 15 anos, precisou trabalhar com os projetos que lhe eram oferecidos, incluindo até mesmo “Losin’ It”, um dos primeiros filmes de Tom Cruise e batizado no Brasil como “Porky 3” para capitanear em cima da franquia de Bob Clark. Poucos sabem, mas Hanson também tem crédito no roteiro de “Cão Branco” (1982) de Samuel Fuller.

A sorte grande finalmente apareceu em 1987 com “Uma Janela Suspeita”. Protagonizado por Steve Guttenberg, Elizabeth McGovern e a francesa Isabelle Huppert, o thriller tem um espírito hitchcockiano, mas a voltagem erótica aponta que Hanson também assistiu atentamente aos filmes de Brian De Palma.

Com valores corrigidos, “A Mão que Balança o Berço” (1992) é o maior sucesso de bilheteria de Hanson, algo que se deve muito a Peyton Flanders, personagem de Rebecca De Mornay que apavorou todas as mães da plateia que zelavam por suas famílias. No entanto, a produção também culminou na decisão de Curtis em seguir o desejo de explorar novos gêneros, algo sinalizado dois anos depois em “O Rio Selvagem” e, um pouco mais adiante, com a consagração de “Los Angeles: Cidade Proibida”.

A atmosfera de uma Los Angeles sórdida dos anos 1950 não combinava nem um pouco com o tom de crônica que trouxe para “Garotos Incríveis” (2000), versão cinematográfica de um romance publicado em 1995 por Michael Chabon. Poucos foram aos cinemas, mas isso não impediu que a filme fosse considerado um dos melhores no ano em que foi lançado, rendendo inclusive um Oscar para o cantor Bob Dylan, que compôs a canção “Things Have Changed”.

Os filmes mais recentes de Hanson também não seguiram um rumo previsível. Deu a sua visão sobre a juventude em Detroit do músico Eminem em “8 Mile: Rua das Ilusões” (2002), enveredou pela comédia romântica com uma premissa nada óbvia em “Bem-vindo ao Jogo”, foi um dos primeiros a avaliar os bastidores da crise econômica de 2008 com o telefilme da HBO “Grande Demais para Quebrar” (2011) e tentou dar a maior contribuição possível para “Tudo Por Um Sonho” (2012), precisando ceder no fim das filmagens a direção para Michael Apted por complicações que pouco depois descobriríamos ser de um diagnóstico de Alzheimer.

Em Seu Lugar (In Her Shoes - Mary Ellen Mark)

Claro que não poderia faltar uma menção especial para “Em Seu Lugar”, talvez o meu filme favorito de Curtis Hanson. Muitos colegas ainda afirmam que superestimo esse drama produzido em 2005. Não me importo, pois os meus sentimentos com ele seguem inabalados a cada revisão. Ao tecer o relacionamento conturbado entre as irmãs Maggie (Cameron Diaz) e Rose (Toni Collette), Hanson provou que com ele nunca existiu esse papo de que a adaptação do livro de Jennifer Weiner tinha como finalidade atingir somente as mulheres.

Mais do que um filme sobre problemas femininos, “Em Seu Lugar” é muito delicado em como exibe os benefícios que encontramos ao nos abrirmos para pessoas que detêm uma maior experiência de vida e o quão o perdão é uma das capacidades mais belas de nossa natureza. Cameron Diaz nunca esteve tão luminosa e choro copiosamente em sua leitura tanto de “A Arte de Perder”, poema de Elizabeth Bishop, quanto de “Eu Carrego Seu Coração“, de E. E. Cummings. Mérito do texto de Susannah Grant, mas tenho certeza de que o mais famoso registro fotográfico da Mary Ellen Mark foi uma sugestão do diretor. Uma pista de que Hanson compreendia e dominava intimamente as realidades que orquestrava para depois compartilhar com o público.

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5 filmes essenciais de Curtis Hanson:

– Uma Janela Suspeita, 1987
– A Mão que Balança o Berço, 1992
– Los Angeles: Cidade Proibida, 1997
– Garotos Incríveis, 2000
– Em Seu Lugar, 2005

Resenha Crítica | Lily Lane (2016)

Liliom ösvény, de Benedek Fliegauf

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Nascido na Hungria, o cineasta e roteirista de 42 anos Benedek Fliegauf tem a maternidade como um dos temas centrais em sua obra. Com um início de carreira movido a longas formados a partir de segmentos experimentais, Fliegauf havia trazido com “Ventre” as complicações de uma mulher (interpretada por Eva Green) ao exercer o papel materno.

Seis anos depois, o realizador revisita o tema em “Lily Lane”, exibido em fevereiro deste ano no Festival de Berlim. Mãe do pequeno Dani (Bálint Sótonyi), Rebeka (Angéla Stefanovics) tenta evitar a todo custo qualquer contato com o marido. A razão seria a discussão sobre o divórcio, cujos papéis ela se recusa a assinar por afirmar que a união legal foi uma condição que eles respeitariam para sempre a partir do nascimento de Dani.

O sentimento de estranheza se impõe quando notamos que Rebeka parece perdida em seus devaneios sombrios, geralmente manifestados nas fantasias que narra para o seu filho. Identifica-se também que é essa relação pouco saudável com Dani a única coisa para a qual ela vive em função. Trata-se de uma mulher aparentemente sem ocupação, sem apego pela sua casa, que não conta com a companhia de outras pessoas e com bons momentos pertencentes somente ao seu passado.

Poderia ser um estudo fascinante da psicologia instável de uma personagem, mas Fliegauf se contenta com uma sugestão insatisfatória da falência da estrutura de uma família para justificar as atitudes por vezes detestáveis de Rebeka, alguém ausente de qualquer traço de humanidade para que tenhamos alguma empatia pelo seu deslocamento. Mas o pior vem a ser a farsa da atmosfera obscura de “Lily Lane”, tentando encontrar na falta de informações, no tom fantástico da história de ninar narrada e na música (também assinada por Fliegauf) que a embala um mistério que não leva a lugar algum e que nos faz questionar o tempo que perdemos para acompanhá-lo.

Resenha Crítica | Lampedusa (2016)

Lampedusa, de Peter Schreiner

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Lampedusa forma com Lampione e Linosa um arquipélago de três ilhas situadas no meio do Mar Mediterrâneo. Sendo a maior em extensão e número de habitantes, a ilha italiana deixou de lado a beleza que lhe é natural para dar lugar a um ambiente de contrastes. Nos últimos três anos, transformou-se no destino de refugiados da África e do Oriente Médio.

O cineasta Gianfranco Rosi ganhou o prêmio máximo no Festival de Berlim com o documentário “Fogo no Mar”, problematizando a questão da imigração a partir de depoimentos colhidos dos refugiados hoje presentes em Lampedusa. Vale também destacar “No borders – Un Mondo dei Migranti in Realtà”, este também um documentário sobre o mesmo tema premiado recentemente no Festival de Veneza.

Mais afeito a ficção, o veterano cineasta austríaco Peter Schreiner prefere um tratamento mais cinematográfico sobre Lampedusa, ainda que não se furte de às vezes trazer veracidade a sua narrativa em takes de depoimentos que emulam um documentário. Além do mais, Lampedusa não recebe interferências cenográficas, com paisagens e ruínas exibidas como verdadeiramente são.

Há dois protagonistas em “Lampedusa”. A primeira é a turista Giulia (Giuliana Pachner), uma senhora que se aproxima dos 60 anos com a saúde debilitada. A ilha mediterrânea já havia servido de refúgio para a resolução de algumas crises de seu passado, mas hoje é um novo lugar. Com metade da idade de Giulia, Zak (Zakaria Mohamed Ali) é jornalista e vive em Roma. É flagrado se reconectando a Lempedusa, antes o seu lar quando fugiu da guerra civil na Somália.

Com um orçamento de apenas 100 mil euros, “Lampedusa” traz Peter Schreiner lidando com nada menos que cinco funções: direção, roteiro, produção, fotografia e montagem. A sua maior contribuição sem dúvida é com a estética obtida. Não há escolha melhor para explicitar distinções do que o uso do preto e branco e as imagens do longa são inegavelmente estonteantes, especialmente em planos fechados nos atores, que se assemelham a retratos com movimentos mínimos, mas cheios de leituras a partir das linhas faciais.

A questão é que o resultado prático não é tão arrebatador quanto soa na teoria. “Lampedusa” mais parece um tratado sobre a existência humana (o protagonismo de Giulia sobre Zak é evidente) do que uma leitura poética de uma realidade. A Lampedusa vista não traz tensão ou horror. Ela vem a ser somente um repouso de uma mulher diante de um fim anunciado pelo tique-taque lúgubre do relógio.