Resenha Crítica | O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki (2016)

Hymyilevä mies, de Juho Kuosmanen

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

O boxe sempre foi visualizado como o maior dos esportes de superação, evidenciando especialmente na ficção o passado nebuloso de um homem sendo confrontado nos ringues em busca de uma redenção. Exemplares como “Rocky: Um Lutador”, “O Campeão”, “Touro Indomável” e “Menina de Ouro” seguem aclamados na exposição desse valor, ainda que invariavelmente alguns pendam para uma visão mais pessimista das coisas.

Interessado por uma abordagem que rejeita os extremismos americanos, o finlandês “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” encontra um meio termo entre a glória e o fracasso acompanhando um momento da vida do boxeador Olli Mäki (o excelente Jarkko Lahti, visto em “Pardais”) em que o dilema é sustentar o título de campeão ou priorizar o seu relacionamento com Raija (Oona Airola, graciosa). Portanto, o amor não vem como uma consequência para uma jornada de evolução, mas como um departamento emocional que demanda tanto cuidado quanto a sede por vitória.

Pressionado pelo seu agente Elis Ask (Eero Milonoff) e todos aqueles que o patrocinam, Olli Mäki aceita um tanto a contragosto o desafio de perder aproximadamente três quilos para que possa ser elegível para uma disputa de Peso-Pena. Mesmo dedicando a maior parte do seu tempo em corridas e em permanências em saunas para chegar à forma física desejada, Olli mal consegue mudar o resultado da balança. Talvez uma decorrência de sua vontade em curtir o tempo com Raija, algo impossível com a agenda de reuniões sociais e para a imprensa.

Em sua estreia na direção de um longa-metragem, Juho Kuosmanen parece evitar riscos, concebendo uma narrativa extremamente plana inclusive na exposição de seus conflitos. A decisão acarreta em uma ausência de picos emocionais. Por outro viés, há nela a inteligência de desglaumorizar o universo do boxe, enriquecendo um personagem que não se deixa corromper pela ganância e fúria que os cercam. Deu certo e, não à toa, o filme, que venceu o prêmio Um Certo Olhar no Festival de Cannes, já é um dos favoritos pela disputa ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

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+ Entrevista com Jarkko Lahti

Resenha Crítica | O Último Vagão (2016)

Das letzte Abteil, de Andreas Schaap

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Nem se exige tantas risadas de uma comédia ou lágrimas de um drama quanto o sentimento de medo em um filme de terror. Provocar calafrios ao ponto de nos fazer dormir com a luz acessa à noite é um feito que poucos cineastas são capazes de atingir, o que por vezes restringe o número de obras contemporâneas que serão os clássicos de amanhã. No entanto, nada é pior do que algo que se pretende assustador e resulta em risos de constrangimento.

Segundo longa do alemão Andreas Schaap, “O Último Vagão” a princípio parece movido por essa paixão comum nos diretores da nova geração em resgatar alguns elementos oitentistas do gênero. Ambientado em 1986, o filme também se vale de uma estética daquele período, como uma fonte bem particular para os créditos iniciais.

Personagem central, Greta (Anna Fischer) se vê encurralada dentro do vagão em que viajava, tendo tombado após uma avalanche nos Alpes. Com mais cinco estranhos como companhia, a garota de traços góticos é a primeira a se sentir insegura quando vê cadáveres escondidos em alguns compartimentos, logo levantando a suspeita de que há um assassino entre eles. Paralelamente, a vemos entre a vida e a morte num leito de hospital, podendo ser ou não uma consequência do episódio claustrofóbico.

A conclusão sugere que “O Último Vagão” foi dedicado para duas pessoas bem próximas de Andreas Schaap, justificando os contornos um tanto dramáticos que tomam a resolução da história. Porém, a comoção pretendida é substituída pela gargalhada involuntária e ininterrupta com a sua extrema inabilidade como contador de histórias, apoiado em justificativas estapafúrdias para o mistério que elabora. A imagem de um dos passageiros com uma divisória de madeira alojada em seu crânio é apenas a porta de entrada para um festival de embaraços.

Entrevista com Santiago Dellape, diretor de “A Repartição do Tempo”

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Apesar das comédias brasileiras serem lançadas quase que semanalmente, é raro uma produção do gênero fazer parte da Mostra Brasil. Dirigido por Santiago Dellape, “A Repartição do Tempo” obtém esta honraria oferecendo ao público uma experiência cômica que definitivamente sai do lugar comum ao introduzir elementos fantásticos na dinâmica de um grupo de funcionários públicos de um órgão de registro de patentes e invenções, o REPI.

Presente na Mostra para apresentar “A Repartição do Tempo” no último sábado, 22, Santiago Dellape agora nos concede uma entrevista detalhando algumas curiosidades e desafios que o cercaram em sua estreia na direção de um longa-metragem. E vale reforçar: os cinéfilos paulistanos ainda terão mais uma chance de assistir ao filme na Mostra, com sua sessão de despedida marcada para 1º de novembro, terça-feira, às 13h30 no Frei Caneca.

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“A Repartição do Tempo” surge em um momento no qual a comédia brasileira testa novas fórmulas e visualiza possibilidades fora do eixo Rio-São Paulo. Como reflete a respeito de sua contribuição para essa mudança de paradigmas?

Acho que nossa contribuição vai mais no sentido de dar à comédia brasileira um mínimo fundo de reflexão, no qual questões sérias como burocracia, funcionalismo público e nepotismo podem sim ser colocadas sem comprometer o riso. Entendo que às vezes a comédia seja considerada um gênero menor, pois a maioria delas tem viés puramente comercial e pouco compromisso com o cinema de autor. Mas gosto de pensar que há sim uma assinatura minha e do roteirista Davi Mattos na “Repartição”, que já se delineia desde nossa primeira colaboração em “Nada Consta” (2006) passando por curtas nebulosos, até amadurecer em “Ratão” (2010), que ganhou prêmio de público em Gramado.

Sobre ser fora do eixo, creio que a partir da democratização das políticas de fomento no Brasil, a tendência é a hegemonia de Rio-SP se dissolver aos poucos, dando cada vez mais lugar às vozes que vêm dos mais distantes rincões do país. E hoje o maior expoente dessa nova safra off-eixo, sem dúvida, é Halder Gomes, que é quem verdadeiramente está quebrando todos os paradigmas da comédia no Brasil. Cenários como a Zona Sul carioca e a Avenida Paulista já não interessam, estão mais do que batidos, o espectador agora quer ver Quixadá, quer ver os labirintos burocráticos de Brasília onde se viaja no tempo. Percebo que o público cansou da velha fórmula usada pra se fazer humor no Brasil e agora quer novidade. Penso que a comédia de sucesso por essas bandas vai cada vez mais se afastar do besteirol e se aproximar da linguagem dos millennials, que preferem a ironia, o sarcasmo e o humor negro.
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Outra contribuição que temos a dar são os novos rostos que estamos trazendo para o cenário da comédia no país. Para os papéis principais, em vez de ir atrás de figurinhas carimbadas, preferi apostar no casting de um sensacional quinteto de atores brasilienses, que tenho muito orgulho de revelar pro resto do Brasil: Edu Moraes, André Deca, Lauro Montana, Andrade Jr. e Ricardo Pipo. São atores engraçadíssimos, com ótimo timing de comédia, e que certamente podem dar fôlego novo ao humor nacional, hoje tão saturado pelos mesmos comediantes, contando as mesmas piadas.

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O texto que você assina com Davi Mattos é preciso na rotina de profissionais de cubículos, geralmente enfadados com suas atividades em órgãos públicos. Vocês já tiveram uma vivência pessoal em um departamento como o habitado por seus personagens antes de firmarem carreira no cinema ou o conteúdo ganhou vida a partir de pesquisas?

Eu e Davi vivemos essa experiência diariamente, já que somos funcionários públicos em Brasília (com o perdão da redundância). Eu há seis anos, ele há cerca de quatro. O roteiro tem muito da nossa observação cotidiana, sem dúvida. No começo, o título era “Licença Prêmio”, mas mudamos depois de um teste de audiência no Cine Belas Artes (SP), onde detectamos se tratar de uma expressão pouco conhecida no restante do país e que está caindo em desuso. Apesar disso, a forma que eu acabei encontrando de conseguir me dedicar à pré-produção do filme (dois meses) e à filmagem (quatro semanas) foi justamente tirando uma licença prêmio.

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O filme é cheio dessas metalinguagens. A trama fala basicamente de um conflito trabalhista e na vida real houve motim e indicativo de greve por parte de alguns integrantes da equipe durante as filmagens. O motivo foi o cronograma super apertado, que implicava na realização de muitas horas extras por dia. Outra ironia do destino é que o filme, no fundo uma crítica à burocracia, teve sua estreia nos cinemas adiada justamente por pendências documentais em um edital público de fomento. Aliás, fazer cinema no Brasil é uma das atividades mais burocráticas que se pode imaginar. Solicitar um CPB (Certificado de Produto Brasileiro) junto à Ancine é um verdadeiro pesadelo! Em nosso primeiro curta, contamos a história de um rapaz que é impedido de viajar à lua por não possuir um nada consta. Tivemos a ideia desse filme na fila de um cartório, enquanto protocolávamos documentos para participar de um edital de cinema. É uma roda viva: o filme passa a perna na burocracia, que, por sua vez, passa a perna no filme, e assim vamos levando.

As piadas funcionam especialmente por evidenciar a burocracia das competências de funcionários públicos e o nepotismo nos cargos de gestão. Os comentários críticos por trás do humor foram uma prioridade na concepção do roteiro?

Enquanto roteiristas, nossa prioridade é sempre a narrativa, acima de tudo. Se ela terá um fundo crítico ou se vai se permitir ser meio alienada, tanto faz. Não temos nenhum problema com a segunda opção, inclusive: foi o que fizemos em “Ratão”, que, afinal de contas, não critica muita coisa, apenas diverte. Definitivamente estamos comprometidos em entreter o nosso público, em criar uma diegese forte o suficiente para envolvê-lo completamente. É claro que se existe um viés crítico e reflexivo por trás empurrando a trama, o filme ganha em significado e sofisticação, a partir do momento em que a ele vão se adicionando essas camadas. 

A Repartição do Tempo

Em “A Repartição do Tempo”, temos ao menos dois elementos atípicos em nossa cinematografia: a inserção de elementos fantásticos que se materializam a partir de efeitos visuais e o uso da animação em formato de quadrinhos, esta inclusive ditando os destinos dos personagens. Foi um desafio administrar esses recursos técnicos?

Certamente foi um desafio conjugar efeitos especiais e animação, até porque são elementos com os quais pouco trabalhei ao longo de minha carreira. Como diretor, sempre me senti mais à vontade filmando “live action”. Mas foi ótimo ter saído da minha zona de conforto e encarado esse desafio, aprendi muito. Além disso, não seria possível contar a história de “A Repartição do Tempo” sem essas ferramentas, então não nos restou outra escolha. Fiquei muito satisfeito com o resultado e verdadeiramente orgulhoso de ter executado essa etapa da finalização inteiramente em Brasília, sem ter de recorrer a soluções importadas do eixo Rio-SP. Vejo que o cinema brasiliense atingiu a maturidade e prova disso é o Prêmio Netflix que a cidade acaba de levar pelo filme “O Último Cine Drive In”, de Iberê Carvalho. Na “Repartição”, os créditos vão para Grillo VFX (efeitos especiais), Please No e Lojinha de Filmes (animação) e Flávia Lima, ilustradora de apenas 22 anos que surpreendeu a todos com seu talento e dedicação.

Após o Festival de Brasília e a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, quais são as próximas paradas de “A Repartição do Tempo”? Já há uma previsão para o lançamento comercial?

O público de SP terá uma última oportunidade de assistir ao filme na Mostra: será na próxima terça, dia 1/11, às 13h30, no Espaço Itaú Frei Caneca. Três dias depois (4/11, sexta), “A Repartição do Tempo” passa no Rio de Janeiro, na seleção do Rio Fantastik Festival, com exibição simultânea às 20h no Cine Joia Copacabana e Rio Shopping. E no começo de dezembro o filme volta a SP para participar de um painel na Comic Con no dia 3/12, às 12h30, com a presença do ilustre Dedé Santana. A previsão de lançamento comercial é maio de 2017 — quer dizer, se não estiver faltando nenhum nada consta!

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Crédito da imagem em destaque: Mario Miranda Filho/Agência Foto

Entrevista com Jarkko Lahti, ator de “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki”

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Representante da Finlândia para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” tem sido um dos filmes mais procurados da Mostra. Para se ter uma ideia, a sala 1 do Frei Caneca estava bem povoada na tarde da última terça-feira, 25, algo nem sempre comum.

Visto em “Pardais”, um dos melhores filmes presentes na programação da penúltima Mostra, Jarkko Lahti tem a sua primeira chance como protagonista ao viver o notório boxeador Olli Mäki, que em sua versão ficcional está no conflito entre priorizar a carreira ou o relacionamento com Raija, interpretada pela doce Oona Airola. Aproveitamos a disponibilidade do ator após o fim da exibição para conversar brevemente sobre os desafios de encarnar o papel de uma figura real.

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O boxeador Olli Mäki ainda é uma figura de prestígio na Finlândia? Você teve acesso a figuras que o conheceram para compor o personagem?

Olli Mäki ainda é uma figura icônica na Finlândia. Ele é um dos melhores de todos os tempos, ainda a ser superado, mas as gerações mais novas talvez não o conheçam porque na época em que lutava ainda não existia televisão. Tive contato com o Olli e a sua esposa Raija. Eles são da mesma cidade que a minha. Ambos acompanharam bastante a preparação do filme, foi muito divertido ouvir as histórias que compartilharam. O Olli está com Alzheimer. Ele não lembra de muitas coisas do presente, mas recorda muito bem de seu passado. Teve uma carreira muito longa. Dois anos após a luta que é encenada no filme, ganhou o campeonato europeu e lutou até 1973.

O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki (Hymyilevä mies)

Durante a história, você passa por uma transformação física radical. Como foi a preparação física? As filmagens seguiram uma ordem cronológica?

Eu comecei a perder peso enquanto filmávamos. Houve esse intervalo de quatro ou cinco dias em que trabalhei por conta própria para atingir a forma esperada. Posteriormente, retomamos as gravações com os momentos em que eu estou realmente magro no chalé e na sauna. Essas gravações aconteceram por dois dias e depois pude voltar a ganhar peso novamente. Mas já estava me preparando fisicamente dois meses antes das filmagens. Durante elas, eu treinei por duas semanas correndo todas as manhãs por uma hora, sempre alternando a velocidade. Só depois começamos a trabalhar para formar a imagem que desejávamos de um boxeador Peso-Pena.

“O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki” foi selecionado por seu país para brigar por uma vaga no Oscar na categoria de filme estranheiro. Você e o diretor Juho Kuosmanen estão fazendo campanhas para promover o filme na América?

Começamos a campanha pelo Oscar no Festival Internacional de Cinema em Toronto no mês passado. Passamos em Chicago e, neste exato momento, o diretor está em Los Angeles promovendo o nosso filme lá. Juho é o principal responsável pela divulgação, mas tento participar dos festivais quando há tempo, pois estou envolvido em outro projeto agora. Tem sido um grande prazer estar disponível para vir ao Brasil para apresentar o filme.

Resenha Crítica | O Apartamento (2016)

Forushande, de Asghar Farhadi

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O diretor e roteirista Asghar Farhadi talvez seja atualmente o maior expoente do cinema iraniano a provar mundialmente que os filmes produzidos em seu país estão muito longe de serem tediosos e de vocabulário restrito. Ao contrário. Sem abrir mão das tradições culturais que cercam a sua realidade, Farhadi ainda assim exibe a ânsia de uma juventude e a quebra de paradigmas dos adultos.

Justamente por considerarmos todos esses fatores, “O Apartamento” soa um tanto discreto dentro do recorte mais recente e vibrante de sua filmografia, ainda que o ponto de virada do roteiro premiado em Cannes seja extremamente espinhoso de ser discutido pelos iranianos. Trata-se da condição da mulher em uma situação de abuso, geralmente privilegiando o silêncio em nome da honra.

Além de professor, Emad (Shahab Hosseini) também lidera um coletivo teatral, atualmente encenando “A Morte do Caixeiro Viajante”, a mais notória peça da autoria de Arthur Miller. Com Rana (Taraneh Alidoosti), Emad compartilha não somente o palco, como a vida privada em um apartamento em que acabaram de se mudar após o endereço em que viviam anteriormente ser ameaçado de desabamento.

A transferência de moradia resulta em uma situação em que Rana se transforma em vítima de um ataque, sendo gravemente ferida por um estranho enquanto se banha. Ao conhecer a verdadeira natureza da agressão, Emad passa a ser corroído por um sentimento de vingança enquanto Rena prefere deixar as coisas como estão para se preservar.

Com tantos filmes de outras nacionalidades tendo uma premissa similar, a exemplo de “Paulina”, “Elle” e especialmente “O Silêncio do Céu”, esperava-se que “O Apartamento” fosse mais incisivo em sua observação sobre os comportamentos que permeiam o íntimo das mulheres ao serem violadas. Em um ângulo geral, a produção não contribui muito para o debate e, fora dele, não representa um passo adiante para Farhadi, então superando a si mesmo a cada nova obra.

Por um lado, “O Apartamento” descarta as estruturas convencionais de um mistério já deixando todas as pistas expostas para ir ao encontro do agressor. Por outro, uma predileção pela perspectiva masculina do contexto é mais perceptível, reservando em poucas ocasiões a condição de Rana em um cenário em que a mulher é secundária mesmo em situações em que seus anseios deveriam ser priorizados. Uma escolha que converge em um estrondo final sem todas as rachaduras pretendidas.

Resenha Crítica | O Sonho de Greta (2016)

Girl Asleep, de Rosemary Myers

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Um pouco antes de atingir a maioridade, os jovens visualizam nos 15 anos uma fase em que a vida já os preenche de dúvidas e dilemas. É um momento em que se experimenta o primeiro beijo, os estímulos de um corpo que vai ganhando formas, a atração por outra pessoa. Porém, muito mais do que esses tópicos pertinentes ao campo amoroso, a formação do caráter também se efetiva, por vezes determinando o perfil que iremos incorporar na fase adulta.

Na comédia com toques de fantasia “O Sonho de Greta”, a diretora australiana Rosemary Myers está bem sintonizada com essa realidade juvenil ao exibir Greta (Bethany Whitmore) em um novo ambiente escolar e às vésperas de completar 15 anos. Sentindo-se uma alienígena, a garota só conseguiu fazer amizade com Elliott (o engraçado e fofo Harrison Feldman), o rapaz mais ridicularizado da turma.

É uma péssima ocasião para se pensar em fazer uma grande festa de aniversário, algo que os pais de Greta, Conrad (Matthew Whittet) e Janet (Amber McMahon), ignoram. Para não desapontá-los, ela acaba topando a recomendação de uma celebração, resultando em um fiasco que a fará se refugiar em um universo repleto de criaturas que reservam planos misteriosos para Greta.

Especialista na condução de espetáculos infantojuvenis, Rosemary Myers faz uma transposição segura para o cinema do texto de Matthew Whittet, que deve as suas origens aos palcos. No primeiro ato, parece movida pela estética de Wes Anderson, privilegiando uma janela quadrada e planos perfeitos em sua simetria. Um pouco adiante, encontra uma voz própria, especialmente pelo cenário encantado que arquiteta para aprisionar Greta. Só faltaram revisões no texto para polir alguns diálogos que não surtem o efeito cômico pretendido e um pouco mais de sintonia entre o sonho e realidade de Greta.

Resenha Crítica | 24 Semanas (2016)

24 Wochen, de Anne Zohra Berrached

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Às vezes, um filme tem o poder de ir além do mero entretenimento ao obrigar o espectador a se enxergar desconfortável no cinema, convertendo a sua poltrona em um assento de poder para deliberar sobre a postura de um personagem. Pois quem encarar a sessão de “24 Horas” inevitavelmente estará sujeito a essa posição nada confortável.

Comediante especializada em stand up, Astrid (a excelente Julia Jentsch, de “Edukators”) está em uma fase perfeita de sua vida. Com Markus (Bjarne Mädel), seu agente e namorado, ela sustenta um relacionamento que já dura oito anos, refletindo em uma agenda lotada de apresentações e a gestação de um segundo filho.

Com aproximadamente quatro meses de gravidez, Astrid vai a uma consulta de rotina com um resultado que a desnorteia: o seu filho nascerá com a síndrome de Down. A mesma descontração usada nos palcos é usada por ela ao anunciar aos familiares a condição do mais novo membro, gerando todos os questionamentos aguardados, como a capacidade do casal em cuidar de uma criança que irá cobrar o dobro de atenção para o resto da vida.

Até esta etapa, tudo indica que a diretora e roteirista Anne Zohra Berrached seguirá o típico cinema de cartilha, mediando o espectador quanto a rotina de pais e clínicas que convivem com pessoas com Down, incluindo uma observação sobre os seus modos de comportamento e raciocínio. No entanto, há muito mais em jogo em sua ficção: com a evolução do feto, os médicos de Astrid identificam que o bebê precisará ser submetido a uma cirurgia devido a uma malformação cardíaca. E mesmo bem-sucedida, isso não impedirá a necessidade de procedimentos futuros.

Naturalmente bem humorada, Astrid passa a ser corrompida por sentimentos conflituosos que a fazem estudar a possibilidade de um aborto, conferindo ao filme uma nova natureza em que as questões que formulamos são ainda mais delicadas e cruéis. Na decisão em descontinuar ou não uma vida que se forma, mergulhamos fundo na intimidade do casal e nos sensibilizando implacavelmente com um drama que ninguém é capaz de se imaginar. Um tema espinhoso finalmente ganhando vida em um filme que não recorre ao didatismo para nos fazer refletir e debater sobre ele.

Resenha Crítica | Glory (2016)

Slava, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov

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Um dos melhores filmes do ano passado, “A Lição” expôs de modo nu e cru a realidade de muitos desafortunados em um mundo globalizado marcado por distinções sociais a partir de uma mulher que, prejudicada pelas circunstâncias, precisa encontrar saídas urgentes para aplacar a falta de dinheiro. Dois anos depois, a mesma dupla de diretores, Kristina Grozeva e Petar Valchanov, volta com um registro com a mesma preocupação em “Glory”, desta vez lidando com duas faces totalmente distintas de uma mesma moeda.

No ponto de partida da história, o trabalhador ferroviário Tsanko Petrov (Stefan Denolyubov) encontra inúmeras cédulas de dinheiro abandonadas no trilho em que está fazendo uma inspeção. Humilde e ocupando o cargo mais baixo da hierarquia, Tsanko ainda assim realiza a devolução do dinheiro recolhido. Ao ser recompensado por seu gesto em uma cerimônia, faz, na confusão de sua gagueira, um discurso revelador comprometendo os chefões do sistema ferroviário, que estariam lucrando com o desvio de combustível.

Na outra vertente, temos Julia Staikova (Margita Gosheva), relações públicas da empresa de transporte que faz de tudo para abafar o escândalo, chegando até mesmo a negligenciar os exames que está se submetendo para uma tentativa de gravidez. É ela quem também toma o relógio de pulso que Tsanko tanto preservou com a dedicatória de sua mãe, sendo substituído por um outro barato ao qual recebeu como presente simbólico pela entrega às autoridades da pequena fortuna que encontrou.

O relógio de Tsanko, por sinal, acaba funcionando como um McGuffin em “Glory”, representando o seu caráter incorruptível diante das armadilhas que Julia passa a armar em busca de uma retratação. Porém, muito mais do que as desavenças de reaver o objeto ou de extrair um depoimento mentiroso para limpar a imagem de uma organização corrupta, “Glory” também visualiza os dois protagonistas como marionetes de um sistema movido por capital e a descaracterização de indivíduos.

Margita Gosheva preserva as virtudes do trabalho anterior com Kristina Grozeva e Petar Valchano, agora retomando a parceria no papel de uma mulher que despreza a princípio qualquer empatia, mas que jamais recai à mera vilania. Ainda assim, a atriz cede mais espaço para Stefan Denolyubov brilhar, aqui como um homem que passa a comer o pão que o diabo amassou incapaz de dialogar com clareza para a sua própria defesa. Duas figuras opostas que irão acertar as contas em uma conclusão desconcertante, mesmo que o todo não iguale a potência do bárbaro “A Lição”.

Resenha Crítica | Nascimento (2015)

Nacimiento, de Martín Mejía

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Nascido na Colombia, Martín Mejía iniciou a carreira de diretor em 2004 com o curta “Od – El camino” e só agora faz um experimento em longa com “Nascimento”. O problema é o mesmo da maioria que experimenta a transição de metragens: mesmo com apenas 84 minutos de duração, o fiapo de história é esticado para ser comportado em um formato de qualquer outro filme lançado em circuito.

O centro de “Nascimento” é concentrado em Helena (Yuliana Rios) e seu ventre. Moradora de uma aldeia, ela está nos últimos momentos de gestação. Sem uma figura paternal clara, ela repousa silenciosamente enquanto sua mãe faz os serviços domésticos e o seu irmão confecciona uma nova canoa para a pesca.

Praticamente sem diálogos e com intérpretes que mais parecem posar com pouca naturalidade para a câmera, “Nascimento” exerce um olhar contemplativo sobre o ambiente natural, com inúmeras tomadas denotando vidas sem grandes perspectivas a partir do curso da água do rio e do vento soprando as folhas das árvores. Tudo para culminar na explícita concepção de uma nova existência. Se tivesse 20 minutos de duração, ainda seria muito.

Resenha Crítica | A Garota Desconhecida (2016)

La fille inconnue, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

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Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne sempre gostam de enfatizar que fazem um cinema amparado pela economia, rejeitando subterfúgios que sejam maiores que os seus personagens e os dramas reais em que estão inseridos.  Para os fãs, é uma característica que os elevam ao patamar de maiores cineastas humanista em atividade. Para outros, há um sentimento de uma organização narrativa que se repete exaustivamente a cada novo filme.

A temática de “A Garota Desconhecida” não apenas resulta em uma via crucis muito parecida por aquelas enfrentadas pelas protagonistas de “Rosetta” e “Dois Dias, Uma Noite”, como comprova uma limitação na feitura do texto que traz acasos para que a trama possa prosseguir. São tantas felizes coincidências que é impossível não questionar sobretudo a escrita excessivamente ingênua dos belgas.

A premissa é daquelas perfeitas para a construção de um bom conto moral. Interpretada pela excelente Adèle Haenel (de “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”), Jenny Davin é uma médica que está prestes a assumir um consultório de atendimento particular. Antes dessa evolução profissional, segue em um endereço para conveniados ao lado de um estagiário. Julien (Olivier Bonnaud), que a auxilia nos serviços burocráticos.

Em uma noite de desavença entre os dois, Jenny o proíbe de atender a campainha após o horário de expediente. No dia seguinte, a polícia a procura comunicando que a pessoa que ela se negou a abrir a porta é a mesma encontrada minutos depois morta em um terreno de obras à beira do mar. O sentimento de culpa a invade imediatamente, iniciando uma busca para conhecer a identidade da vítima e assim removê-la do sepultamento de indigentes.

A principal virtude de “A Garota Desconhecida” é o interesse da protagonista não em identificar quem matou a jovem e por qual razão e sim ao encontrar o nome que corresponde a uma face que capturou dentro de segundos a partir da gravação de sua câmera de vigilância. Jenny nada pode fazer para reverter a tragédia, mas visualizamos a sua mudança interna como um item compensatório. Não à toa, Adèle Haenel vem a ser o grande trunfo do filme, evidenciando essa transformação com grande sutileza.

Porém, uma grande protagonista e um bom ponto de partida não asseguram um bom drama e os Dardenne sabotam “A Garota Desconhecida” a cada minuto pela maneira sem imaginação como fatos e indivíduos são atraídos por Jenny como imãs. Ela não apenas tem pacientes que são ligados diretamente à vítima, como visita ambientes que convenientemente irão ajudá-la a alcançar o que deseja.  Desta vez, os truques dos irmãos não funcionaram, resultando em vaias pela primeira vez em Cannes, festival em que sempre batem o cartão.