Resenha Crítica | De Palma (2015)

De Palma, de Jake Paltrow e Noah Baumbach 

De todos os cineastas da Nova Hollywood, Brian De Palma foi o que se manteve mais fiel às suas raízes, ainda produzindo um cinema com os mesmos interesses estéticos e temáticos sem que para isso precise se proibir a navegar por diferentes gêneros e estúdios. Ele não tem a estabilidade financeira de George Lucas ou mesmo está na posição confortável de Steven Spielberg, que hoje dirige uma média de um filme a cada dois anos. Por outro lado, talvez seja muito mais influente do que seus colegas, algo que se reflete pelo interesse em refilmar a sua obra e os inúmeros cineastas inebriados por seu estilo.

Realizadores do documentário “De Palma”, Jake Paltrow e Noah Baumbach são oriundos do cinema indie e têm em alta conta o cineasta norte-americano. Os constantes encontros entre os três renderam uma amizade que agora se traduz nesta contribuição no cinema, na qual De Palma traça uma linha do tempo de sua própria carreira, rememorando desde o seu interesse juvenil por tecnologia até “Paixão”, então o último filme que dirigiu.

Quem é um fã do cineasta, sabe que a idade o tornou cada vez mais avesso a entrevistas, sendo por vezes monossilábico principalmente em questões sobre o seu passado. Não à toa, nos primeiros minutos do documentário, o vemos de braços cruzados, um tanto desinteressado ao tratar sobre si mesmo e a sua velha obsessão pelo cinema de Alfred Hitchcock. No entanto, o conforto em estar em um ambiente familiar e revendo a sua trajetória para amigos fazem toda a diferença, logo reavaliando os seus próprios altos e baixos com algum senso de humor.

Trata-se de uma filmografia tão incrível e cheia de experiências para compartilhar que um documentário com quase duas horas de duração soa insuficiente. Após a realização de filmes experimentais (“Dionysus in ’69”, “Woton’s Wake”) e outros que flertavam sobre o anseio da juventude diante da guerra no Vietnã (“Saudações” e a sua continuação “Olá, Mamãe!”), De Palma quase viu o seu ofício de diretor ganhar um fim abrupto com a sua demissão durante a pós-produção de “O Homem de Duas Vidas”, o seu primeiro filme para um grande estúdio, a Warner Bros.

A sorte veio com “Carrie, a Estranha”, o primeiro de quatro filmes que julga ter obtido uma harmonia entre o sucesso comercial, a liberdade artística e o êxito da crítica – os demais são “Vestida Para Matar”, “Os Intocáveis” e “Missão: Impossível”. Por outro lado, o fracasso esteve à espreita sempre que De Palma atingia o topo. Das sessões vazias de “O Fantasma do Paraíso” em Los Angeles aos comentários severos por “A Fogueira das Vaidades”, o cineasta ainda assim encontra alguma satisfação ao reconhecer o status de cult que algumas de suas produções receberam, inclusive “Um Tiro na Noite”, cujo fiasco à época fez o seu casamento com Nancy Allen chegar ao fim, bem como a falência da companhia Filmways.

Mesmo dando conta de todos esses percalços, “De Palma” tem sido severamente criticado pela escolha de seu formato. Tendo somente Brian De Palma como testemunha e uma montagem bem astuta com a sua seleção de trechos de filmes e fotografias, muitos apontam Paltrow e Baumbach como preguiçosos, obtendo um resultado similar com os depoimentos destinados ao material extra de um DVD. Não soa justo, pois De Palma não é um artista que precisa de comentários bajuladores de terceiros, sendo os seus depoimentos e as imagens antológicas que arquitetou as melhores defesas de seu próprio legado.

Entrevista com Stephen Dunn, diretor de “O Monstro no Armário”

.:: 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

Primeira sessão que apanhamos na programação do Festival Mix Brasil deste ano, “O Monstro no Armário” contou com a presença de seu diretor e roteirista Stephen Dunn. Nascido no Canadá em 1989, o jovem tem um currículo bem abastado de curtas e demonstra potencial em sua estreia em um longa-metragem, tendo recebido inclusive o prêmio de Melhor Filme Canadense no Festival de Toronto do ano passado.

Após papear com o público, Stephen dedicou alguns minutos para uma breve conversa com a gente sobre a produção, na qual admitiu em sua apresentação possuir alguns traços autobiográficos. Também confirmou a realização de seu segundo filme, atualmente em fase de pré-produção.

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Você expressou grande admiração pelo trabalho do também canadense David Cronenberg. Como é lidar com uma narrativa em que a fantasia se confunde com o realismo?
Tenho grande atração por realismo fantástico e a obra de David Cronenberg é muito inspiradora para mim, especialmente no modo como o corpo de um indivíduo reage às perturbações de sua mente. “O Monstro no Armário” é um filme sobre aversão a si mesmo e como a homofobia é internalizada. O modo que encontrei para retratar isso foi trazer um garoto com uma barra de ferro dentro de si como um objeto que ilustra a sua repulsa ao sexo e o desejo em expurgá-lo quando finalmente assume a sua verdadeira orientação.

O seu protagonista amadurece em um contexto diferente da violência que testemunhou na infância. Ainda assim, ele se sente amedrontado mesmo em uma geração mais aberta ao que é diferente.
Este filme traz um episódio traumático testemunhado por uma criança e o impacto que isso trouxe ao seu psicológico para o resto de sua vida. Ele, Oscar, passa a crescer em um ambiente em que não é agredido da mesma maneira que viu no passado. No entanto, carrega consigo essa imagem de violência, esse medo. Oscar precisa lidar por si só com os problemas familiares, especialmente com o seu pai preconceituoso, e tomar a decisão de falar por si mesmo, aguardando pelo momento certo para expressar o que o assombra.

Como você chegou à Isabella Rossellini para fazer a voz do animal de estimação de Oscar?
Originalmente, a voz de Buffy, o hamster, era para possuir uma tonalidade séria. No entanto, cheguei à conclusão que essa escolha não representaria a natureza verdadeira de Oscar. O animal foi dado a ele em um momento em que a sua mãe o abandonou, então precisava de uma voz que soasse maternal. Além do mais, Isabella Rossellini tem todo um legado trabalhando em uma linha mais surrealista e trazia a vocalidade exata que passei a buscar.

Poderia comentar sobre o seu próximo projeto, “What Waits for Them in Darkness”?
Ele é um pouco diferente de “O Monstro no Armário”, que é um filme moderno. Trata-se de uma fantasia ambientada nos anos 1960 onde 50 mil pessoas são obrigadas a se transferir para uma ilha distante após uma inundação. Todas as famílias foram separadas, com os homens navegando em barcos enquanto as mulheres estão presas em suas casas.

Resenha Crítica | O Ídolo (2015)

Ya tayr el tayer, de Hany Abu-Assad

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quem acompanha competições musicais de calouros como “The Voice” e “The X-Factor” sabe que os responsáveis não economizam nos subterfúgios para reforçar a história de vida de seus competidores, logo convertendo a exposição de suas vozes como um mero pretexto para narrar uma história de superação. Funciona de algum modo, pois nada melhor do que ouvir a interpretação de uma grande música com um histórico de vida a acompanhando. Agora transferir todos esses recursos para se fazer um filme é algo completamente diferente.

Tendo dois filmes como finalista ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (“Paradise Now” e “Omar”), o israelense Hany Abu-Assad nunca pareceu tão desesperado para seduzir um público fora de seu país quanto em “O Ídolo”. Nele, traz a história verídica de Mohammed Assaf, morador de Gaza que se notabilizou ao se inscrever no Arab Idol.

Vivido na infância por Kais Attalah, Assaf lutou desde cedo pelo bem estar de sua irmã mais nova Nour (a graciosa Hiba Attalah, a melhor coisa do filme), com quem formava um conjunto musical com planos de ganhar o mundo. Uma tragédia se abateu sobre ela e, na fase adulta, Assaf, agora na pele de Tawfeek Barhom, busca por uma reparação além dos bicos como cantor de casamento, logo lutando por uma candidatura no concurso que o notabilizará.

A história de Assaf é riquíssima porque também abalou as estruturas políticas de onde veio, jogando os holofotes especialmente pelo modo de vida precário e opressor dos palestinos. O problema é que “O Ídolo” passa quase batido por essas características do biografado, preferindo priorizar o lado edificante de sua jovem e expressiva trajetória. Assim, dá-lhe situações de vergonha alheia extrema, como aquelas em que ele encanta o funcionário de um aeroporto e um competidor apenas com a amostra de sua voz. Melhor evitar o mico e caçar no YouTube as performances na íntegra de Assaf, algo que “O Ídolo” sequer é capaz de oferecer.

Resenha Crítica | A Rede (2016)

Geumul, de Kim Ki-duk

:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Responsável por um cinema cercado de imagens da mais fina sensibilidade, Kim Ki-duk passou a colecionar detratores desde o instante em que permitiu que a sua depressão passasse a interferir em suas realizações. Há quem tenha julgado o documentário “Arirang” como uma exposição embaraçosa de um período de baixa autoestima. Quanto a “Pièta”, pouco se viu um filme recente sendo detestado com tanta intensidade.

Por tudo isso, “A Rede” pode ser considerado um pedido de reconciliação com os fãs de fases mais unânimes do realizador, trazendo uma discussão não exatamente original, mas pertinente ao momento divisivo que vivemos hoje: as distinções entre as Coreias do Sul e do Norte. Em 2000, Park Chan-wook havia feito um tratado primoroso de iguais como inimigos em “Zona de Risco”, mas a abordagem de Kim Ki-duk tem contornos inclusive satíricos.

Pescador da Coreia do Norte, Nam Chul-woo (Ryoo Seung-bum) enfrenta um problema no motor do barco que garante o seu sustento. A correnteza do rio o faz ultrapassar a fronteira, logo invadindo involuntariamente a Coreia do Sul. Capturado, o pobre Chul-woo é imediatamente encarado como um espião, precisando se submeter a uma série de questionamentos e relatórios para provar que a sua permanência ali é puramente acidental.

Quem tem senso de humor, deve se divertir à beça com as tentativas frustradas dos vizinhos em converter o protagonista, todos realmente abismados com o fato dele ter passado toda a vida sob um regime ditatorial. A falta de sutiliza desses momentos casa muito bem com outros em que Kim Ki-duk encontra um ponto de equilíbrio ao ilustrar um sujeito que logo se verá como um estranho sem pátria. O resultado é ótimo, especialmente por trazer um nó na garganta sempre esperado no cinema do sul-coreano.

Resenha Crítica | A Chegada (2016)

Arrival, de Denis Villeneuve 

Desde o início de sua carreira, o canadense Denis Villeneuve já mostrava um interesse prioritário em contar histórias sem qualquer margem para pontas soltas. Foi algo que se viu em “Redemoinho”, no qual a protagonista vivida por Marie-Josée Croze acaba firmando um relacionamento com o filho de um desconhecido que atropelou sem prestar socorro. Essa marca particular também é reconhecida em “Incêndios”, que resgata a jornada de uma mulher no Oriente Médio e as ligações perigosas tecidas pelo destino.

Atar todos os nós em uma ficção científica provoca um resultado totalmente distinto daquele quando se está em outros terrenos ditados por um mistério. É preciso muito cuidado ao apresentar ao público uma realidade paralela, especialmente ao introduzir elementos fantásticos sem que o método seja meramente didático. Mais: os desdobramentos de uma trama mirabolante jamais devem negligenciar o fator humano. Os dois perigos são apenas alguns dos inúmeros em que Villeneuve pisoteia no curso de “A Chegada” sem saber que está em um campo minado.

Linguista, Louise Banks (Amy Adams), é convocada pessoalmente pelo Coronel Weber (Forest Whitaker) para decifrar a língua de alienígenas que aterrissaram em vários pontos da Terra. Rejeitando a princípio a oferta por cederem acesso somente a uma gravação, Louise recebe a oportunidade de estabelecer contato diretamente com as criaturas em Nevada, contando ainda com o suporte de Ian Donnelly (Jeremy Renner) nesta missão.

Dentro de um gênero responsável por carregar multidões ao cinema principalmente pelo sentido de espetáculo embutido em uma estética construída a partir de efeitos visuais, “A Chegada” apresenta uma proposta inesperada, a princípio podendo quebrar as expectativas de muitos. A adrenalina inexiste no texto assinado por Eric Heisserer, privilegiando uma heroína incomum durante a árdua tarefa de identificar um discurso que se dá em formas circulares emitidas por uma nuvem acinzentada expelida pelos tentáculos dos alienígenas.

A consequência é um filme insípido em sua (falta de) imaginação visual, indo do design das criaturas até a arquitetura do espaço – nunca se viu “naves espaciais” tão ausentes de magnitude. Nenhum problema em propor uma experiência mais cerebral, mas “A Chegada” pouco faz com um aspecto que é favorecido no desdobramento de sua narrativa: o quão estrangeiros somos em um planeta com distinções traçadas a partir de nossa incapacidade de diálogo.

A escolha em conferir uma arma (ou melhor, presente) à Louise vem a ser o estopim para resoluções nada climáticas, podendo causar risos involuntários especialmente um contato com o líder de uma potência. Para piorar, o ato final é marcado por outra predileção de Villeneuve, desta vez ressoando falha: a surpresa para selar todo um arco dramático. Surpresa essa que quase soa como uma prenda tola que tenta ressignificar o histórico emocional de uma protagonista com poucos atrativos ao seu redor para fortalecê-la. Talvez seja melhor Villeneuve repensar a decisão de servir à fantasia com exclusividade.

Resenha Crítica | Quando o Dia Chegar (2015)

Der kommer en dag, de Jesper W. Nielsen

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Quando se fala de filmes ambientados em internatos, sempre relembramos aqueles que trazem um retrato acinzentado da infância e adolescência, especialmente denso pela restrição do ambiente. Vide o italiano “Vítimas da Tormenta”, de Vittorio De Sica, e o francês “Adeus, Meninos”, de Louis Malle. Pois “Quando o Dia Chegar”, de Jesper W. Nielsen, vem a ser ainda mais radical, descortinando os horrores vividos pelos órfãos da Dinamarca nos anos 1960.

Personagens centrais da história, Elmer (Harald Kaiser Hermann) e Erik (Albert Rudbeck Lindhardt) são uma junção do sem número de garotos que comeu o pão que o diabo amassou nas mãos de diretores e seus subordinados em orfanatos dinamarqueses. Irmãos, são obrigados a irem para um novo lar devido a condição debilitada que se encontra a mãe deles (Sonja Richter), uma operária que trabalha demais e recebe uma miséria.

Comandado por Frederik Heck (o excelente Lars Mikkelsen, irmão mais velho de Mads Mikkelsen), o orfanato em que Elmer e Erik são temporariamente instalados esconde sob uma faixada bem apresentável uma espécie de campo escravo, obrigado os meninos entre 10 e 14 anos a cumprirem um cronograma de tarefas árduas. Quando cometem alguma “falta”, são duramente penalizados, sendo expostos a humilhações e surras.

Em seu primeiro trabalho a ganhar lançamento no Brasil, Jesper W. Nielsen parece inserido no coletivo de cineastas que não poupa a plateia da encenação cruel de uma realidade. Com o apoio do roteiro assinado por Søren Sveistrup, Nielsen vai fundo inclusive ao explicitar a prática de pedofilia. Tanta maldade só cessa quando as fantasias de Elmer, que sonha em ser astronauta, ganham vida. Ou mesmo nas intervenções de Lilian (Sofie Gråbøl, bem parecida com a brasileira Fernanda Torres), a nova professora do orfanato cercada de dilemas quanto à tirania de Frederik.

A escolha de Nielsen pela exposição de uma violência nauseante ganha validade porque ela contém um desejo de contestar um passado obscuro da história da Dinamarca enquanto está sintonizado a um presente que precisa se policiar para que ele não se repita. No entanto, há em sua direção um fascínio quase sádico em explorar a vulnerabilidade de seu elenco mirim, captando os olhos claros e as feições inocentes de Elmer e Erik de um modo tão questionável quanto às ações de Frederik.

Entrevista com Lívia Perez, diretora de “Lampião da Esquina”

.:: 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

Lançado com exclusividade no CineSesc há três meses, o documentário “Lampião da Esquina” volta aos cinemas para fazer parte da programação do Festival Mix Brasil. Na quarta-feira, 16 de novembro, saiu com uma Menção Honrosa na premiação do júri. Trata-se de um grande momento para a diretora Lívia Perez, que também colheu alguns reconhecimentos com o curta-metragem “Quem Matou Eloá?“, que assistimos durante a cobertura do 27° Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.

A seguir, conversamos com Lívia após a primeira exibição de “Lampião da Esquina” no Festival Mix Brasil, questionando, entre outras coisas, sobre o seu interesse pelo primeiro jornal do país direcionado ao público LGBT. Ela, inclusive, recomenda aos interessados o acesso no Grupo Dignidade, endereço que compartilha gratuitamente a versão digitalizada de todas  as edições Lampião – clique aqui.

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Quando aconteceu o seu primeiro contato com o jornal Lampião da Esquina?
Conheci o Lampião da Esquina por meio de um professor no meu último ano de faculdade, que o citou enquanto tratava sobre imprensa alternativa. Eu fiquei muito interessada, pois foi em um momento em que estava me cultivando como militante feminista, LGBT. Estava buscando sobre as questões referentes à identidade pelas quais sempre fui atraída. Percebi que havia todo o acervo online do Lampião, tive contato com o material e notei que todos os textos eram extremamente contemporâneos, tratando sobre assuntos que estamos discutindo até hoje.  Era uma forma de texto da qual nunca tive contato antes: ousada, irônica, provocativa, sagaz. Um artigo sobre aborto que li estava muito antenado ao contexto do ano em que conheci o jornal.

Como foi a decisão em transformá-lo em tema para um documentário?
Por ter essa conexão com a nossa contemporaneidade, tive a ideia para fazer o documentário, pois descobri que era um tema do qual as pessoas queriam discutir sobre. E há mais um assunnto fundamental, que é a mídia. Sou formada em comunicação social e tenho também uma militância em questão da mídia e sua democratização. Algo que o Lampião trazia, pois era uma publicação alternativa, feita voluntariamente, por pessoas de São Paulo e do Rio de Janeiro que decidiram se reunir entorno de uma causa, de um jornal que abordasse pautas que as pessoas desejavam se expressar naquela época. Era um jornal distribuído de modo colaborativo, com pontos de distribuição pelo país mantidos por voluntários. De algum modo, temos atualmente algumas alternativas que remetem ao Lampião. Não diretamente, mas com uma forma de organização parecida na web, a exemplo do Jornalistas Livres e Outras Palavras, ambos tratando sobre aspectos que não são contemplados pela grande mídia.

Atualmente, temos uma onda cada vez mais expressiva de documentários LGBT, como “Divinas Divas, “São Paulo em Hi-Fi” e “De Gravata e Unha Vermelha”. Como avalia a sua contribuição nesse segmento?
O que é muito legal nesses documentários é que os realizadores geralmente se conhecem. Assim, acaba acontecendo uma colaboração entre eles. O Lufe (Steffen, diretor de “São Paulo em Hi-Fi”) foi uma pessoa fundamental. Ele é creditado nos agradecimentos e me ajudou demais com materiais de arquivos. Queremos contar a história de uma época ou sobre uma temática ainda não prioritária para os grandes meios. Não adianta buscarmos no acervo da Globo sobre a Galeria Alaska, por exemplo. Ela e outros nomes da grande mídia não faziam registros sobre isso à época, muito menos com o olhar que eu queria. Busquei por muitos realizadores independentes, que colaboraram prontamente. Como o José Joffily e a Rita Moreira, esta fornecendo as imagens dos anos 1980 e 90 na Avenida Paulista perguntando às pessoas sobre o que achavam sobre o assassinato de travestis e homossexuais. Há essa colaboração nesse circuito mais independente, que é das identidades. Acabamos consumindo documentários dessa forma. Isso o que acho bacana, pois não é somente sobre a temática, mas também sobre a forma.

“Lampião da Esquina” por vezes não segue o padrão de somente posicionar os entrevistados diante de uma câmera. A exemplo do Edy Star, com depoimento colhido no Vão do MASP. Como foi captar essa irreverência?
Não houve nenhum esforço meu, pois eles já eram naturalmente irreverentes, tinham essa forma muito divertida de lidar sobre as questões.  Acho que é algo que já estava impresso no jornal, os personagens são assim na vida real. Também havia essa coisa deles me provocarem muito por eu ser mulher e haver uma diferença de idade muito grande entre nós. Às vezes eu fazia uma pergunta sobre ditadura para o (João Silvério) Trevisan e ele ficava puto, dizendo que viviam em uma ditadura. Dizia que precisava dele tratando sobre ela para o documentário. Mas era algo bacana, pois ele estava indignado, falando “olha, era totalmente inóspito naquele momento, vivíamos em uma ditadura, não dava para dar pinta!”.

Além de “Lampião da Esquina”, você exibiu neste ano o curta “Quem Matou Eloá?”. Se correto afirmar, são filmes jornalísticos sobre o jornalismo. O seu interesse por essa abordagem vem de sua formação ou de seu interesse pela repressão contra mulheres e minorias em nossa sociedade?
Tenho um grande interesse por dois temas: as identidades e a mídia. Ambos são muito presentes em minha vida, pautando toda a minha pesquisa, todo o meu trabalho, a forma como me expresso hoje. Tanto em “Lampião da Esquina” quanto em “Quem Matou Eloá?”, isso está combinado. Realmente trabalho nessa linha. Tanto a questão das identidades, pois hoje queremos extrapolar tudo e há toda uma onda conservadora, como a questão dos meios de comunicação, pois são extremamente concentrados no país e precisamos ter uma participação popular maior, propor alternativas.

Crédito da imagem em destaque: Jéssica Dalla Torre

Resenha Crítica | As Mulheres Que Ele Despiu (2015)

Women He’s Undressed, de Gillian Armstrong

.:: 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

Um dos nomes mais fortes a impulsionar o cinema australiano, Gillian Armstrong está afastada da ficção desde “Atos que Desafiam a Morte”, competente drama de 2007 que faz um registro romantizado sobre o ilusionista Harry Houdini. Foi o limite de uma fase sem êxitos comerciais, mas que não impediu a cineasta de prosseguir com a carreira, agora interessada por documentários.

Em “As Mulheres que Ele Despiu”, a vida Orry-Kelly é revista de cabo a rabo. O figurinista ainda é considerado uma espécie de herói pelos australianos, pois foi um dos primeiros do país a fazer o seu nome com uma carreira artística em Hollywood. Porém, algo importante sobre Orry-Kelly que não podia ser expresso com liberdade era o fato de ser um homossexual, tendo inclusive, supõe-se, um relacionamento com o astro Cary Grant.

Oriundo da televisão, Darren Gilshenan é o responsável por dar vida a Orry-Kelly quando alguns detalhes mais íntimos são compartilhados a partir da pesquisa da roteirista Katherine Thomson. Embora as cenas ajudem a quebrar um pouco o formalismo característico de um documentário, Armstrong as constrói com pouca imaginação, por vezes trazendo à tona a sensação de que está reencenando o seu próprio “Roof Needs Mowing”, curta-metragem realizado em 1971 com um protagonista que rema o seu barco em um mar finito.

Portanto, “As Mulheres que Ele Despiu” faz bem melhor quando é tradicional, enriquecendo o nosso olhar para os figurinos no cinema especialmente ao trazer craques dessa função, como Ann Roth, Catherine Martin, Colleen Atwood e Deborah Nadoolman. É especialmente curiosa a análise sobre a contribuição de Orry-Kelly com Bette Davis, uma atriz com seios fartos e caídos que tinha o seu guarda-roupa totalmente readaptado para reforçar a sua forte presença.

Outra que se viu transformada por Orry-Kelly foi Natalie Wood. Bela atriz, mas sem muitas curvas, Wood é vista como um furacão que incendeia a tela na comédia dramática “Em Busca de um Sonho”. São pontos que não apenas reafirmam o lado glamouroso no cinema, mas que evidenciam o efeito que uma peça de roupa exerce não somente na construção de um personagem, mas em toda a identidade estética de uma produção. Algo enfatizado principalmente no depoimento da diva Jane Fonda, que relembra emocionada o quanto Orry-Kelly a fez se sentir querida e segura ao vesti-la no início de sua carreira.

 

Entrevista com Abigail Spindel, codiretora de “Waiting for B.”

.:: 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

Na primeira exibição de “Waiting For B.” no Festival Mix Brasil, parte dos fãs de Beyoncé acompanhados pelas lentes de Abigail Spindel e de seu marido Paulo Cesar Toledo durante um acampamento de dois meses para um show da cantora estavam presentes. O entusiasmo em se verem na tela grande do cinema foi notado mesmo por aquele espectador sentado a fileiras de distância.

Esse mesmo sentimento contagiou a codiretora Abigail Spindel enquanto concedia para nós uma entrevista, detalhando os meandros da pré-produção até a exibição para o público de “Waiting For B.”. A realização foi adquirida pela Vitrine Filmes e o seu lançamento comercial deve acontecer no primeiro trimestre do próximo ano.

Como surgiu a concepção para o projeto?
A ideia surgiu quando o Paulo disse que havia fãs que acampariam por dois meses para o show da Beyoncé no Morumbi em 2013. Achei incrível. Só o fato de serem dois meses chamou a nossa atenção. Já a decisão em fazer um documentário em longa-metragem eu posso te dizer que veio quando cheguei ao local e os encontrei. Eles estavam tão à vontade para fazer algo legal. Todos criavam um mundo naquele ambiente e tomamos a decisão em capturar tudo.

A organização de fãs para o show de um artista com meses de antecedência costuma ser ridicularizada. Em seu documentário, você os acompanha com muita afetividade. 
Honestamente, eu nunca fui uma grande fã de alguém, com exceção do Bob Dylan, pois cresci em Boston, num mundo de individualismo, onde não se abaixa a cabeça para ninguém. Aqui no Brasil, há uma cultura de se construir um grupo para celebrar algo. Não se trata de perder a própria dignidade, mas de se inserir em um coletivo para celebrar a vida. Eu aprendi isso durante a realização do documentário.

Mais do que exaltar uma artista, os fãs parecem diante de um modelo de inspiração e superação. Como visualiza esse comportamento vindo de uma cultura mais comedida?
Tenho dois pensamentos sobre isso. De um lado, acho lindo que as pessoas possam se inspirar com a imagem da Beyoncé. Do outro lado, há essa coisa do Brasil ficar em segundo lugar diante de outro país. Não deve proceder. Tudo é por questão da economia, de sistema político. Não é que existe mais talento nos Estados Unidos, mas aqui não há suporte para a meritocracia.

É curioso como você confronta a fila dos fãs da Beyoncé com a organização de torcedores para um jogo no Morumbi. Como se apropria de intervenções nem sempre esperadas como essa?
Quando faço um filme de observação, sempre busco por um momento poético. Algo que contenha metáforas e analogias dentro do que está acontecendo. As nossas vidas são filmes que estão rolando. Na busca por poesia, você captura circunstâncias que são paralelas, que são óbvias. Não é preciso tecer comentários ou adicionar alguma vaidade. São coisas que vão aparecer quando somente observar. Sinto que atualmente ninguém observa mais. Você tem uma tese e faz tudo o que é preciso para defendê-la.

O intervalo entre o fim das filmagens e a exibição de “Waiting for B.” é de três anos. Como foi o longo processo de pós-produção?
Foi muito difícil. A princípio foi positivo, pois entrou uma parceira, a Popcon. Antes, ela se chamava Paranoid e precisávamos aguardar por um ano para que ela se reformulasse. A pessoa à frente da direção (a produtora Tatiana Quintella) tentou para nós divulgar o filme a partir de campanhas com celebridades. Nenhum instante de todo esse tempo foi perdido.

Durante esse período, manteve contato com os fãs que acompanhou durante o acampamento?
Continuamos em contato, mas online. Eles aguardavam com muita ansiedade para ver o filme pronto. Não posso deixar de dizer o quanto estou feliz em assisti-lo novamente, depois de todo esse tempo, e pensar que foi feito para eles, pois todos trouxeram para a minha vida muita felicidade. O que vemos neste filme é uma comunidade que começou do zero e se transformou em algo real, que se emociona quando vê que uma hora esse momento iria acabar. Há aqui uma janela sobre como se construir uma comunidade.

Resenha Crítica | É Apenas o Fim do Mundo (2016)

Juste la fin du monde, de Xavier Dolan

.:: 24º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade ::.

O prestígio que cerca jovens talentos geralmente é alvo de muitos protestos, especialmente quando o campo de atuação é a arte. Xavier Dolan tinha acabado de atingir a maioridade quando foi revelado ao mundo com o desconcertante “Eu Matei a Minha Mãe”. Desde então, transformou-se em um queridinho dos franceses, recebendo em Cannes duas vitórias no Grande Prêmio do Júri tendo somente 27 anos, um marco sequer atingindo por um sem número de veteranos que batem cartão com frequência no festival.

Todas as reações que cercam Dolan são exaltadas, sejam elas positivas ou negativas. Por um lado, o canadense é um bom diretor de elenco, algo que assegura por também desempenhar o ofício da interpretação, e compreende as possibilidades de artimanhas da linguagem, tendo em “Mommy” modificado a razão da tela com uma intenção muito mais do que estética. Por outro lado, a sua visão para dramas adultos soa infantilizada, por vezes tratando banalidades com a pirraça de um jovem que visualiza tudo como o fim do mundo – vem bem a calhar aqui o título de seu novo filme.

O seu sexto longa-metragem concentra tudo aquilo que faz valer todo o desprezo pelo seu cinema. Isso porque a adaptação que faz do espetáculo de Jean-Luc Lagarce é insuportável, um pavor. Escritor que oculta o fato de estar com uma doença terminal, Louis-Jean Knipper (Gaspard Ulliel) volta para a casa de sua família com a intenção de revelar a sua condição. Não há um segundo que ele não ensaie o modo como trará a informação à tona, mas sempre se acovarda quando se julga preparado.

Há quatro membros que o aguardam: a sua mãe (Nathalie Baye), a sua irmã caçula Suzanne (Léa Seydoux), o seu irmão mais velho Antoine (Vincent Cassel) e a sua cunhada Catherine (Marion Cotillard, deslocada como nunca). Raramente se viu um núcleo familiar que usasse tanto as trivialidades como justificativa para discutir aos berros. Ainda que alguma escolha no passado de Louis-Jean tenha deixado um mal estar na atmosfera da residência, briga-se por várias outras coisas, como a preparação do jantar, a ausência de cartas, a passividade de Catherine, a notificação de partida do anfitrião e por aí vai.

Dolan faz algo pior que um teatro filmado. Quase sem pausas para respiros, a sua câmera fica grudada nas faces do elenco durante 90 minutos, como se pretendesse com isso representar a rua sem saída em que está o seu protagonista, captando cada olhar e gota de suor, mas jogando pela lixeira a potencialidade dos intérpretes ao ignorar que uma atuação depende da anatomia em sua totalidade para se comunicar. A pretensão dessa escolha, somada à artificialidade da iluminação do diretor de fotografia André Turpin para reforçar a inconstância do temperamento dos personagens, não condena “É Apenas o Fim do Mundo” somente como o ponto mais embaraçoso da carreira de Dolan, mas também nos faz questionar se George Miller estava sob o efeito colateral de alguma tarja preta ao deliberar com o seu júri os melhores em competição no Festival de Cannes.