Os 10 Melhores Filmes de 2016

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Geralmente, começamos a pensar em nossos favoritos do ano no fim do primeiro trimestre do ano seguinte com o Prêmio Review, em que comentamos o que de melhor vimos no cinema a partir de algumas categorias. No entanto, o extenso planejamento pessoal já traçado para 2017 nos fez repensar o formato de apresentação para otimizar o tempo sem necessariamente comprometer a qualidade do conteúdo.

Dito isso, acreditamos que esta véspera de ano novo seja a ocasião perfeita para compartilharmos os nossos filmes favoritos de 2016. Além do tradicional top 10, também destacamos outras quarenta produções que nos marcaram de maneiras diferentes. Já no topo dessa publicação, há disponível um clipe modesto que produzimos trazendo trechos de alguns dos filmes citados a seguir.

Obrigado pela visita e tenha um 2017 espetacular!

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Brooklin (Brooklyn)

#50. Sr. Sherlock Holmes, de Bill Condon
#49. Sing Street, de John Carney
#48. O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
#47. Body, de Małgorzata Szumowska
#46. Kubo e as Cordas Mágicas, de Travis Knight
#45. O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Løve
#44. Divinas, de Uda Benyamina
#43. Um Caso de Família, de Tom Fassaert
#42. Hush – A Morte Ouve, de Mike Flanagan
#41. A Ovelha Negra, de Grímur Hákonarson
#40. Brooklin, de John Crowley

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Os Oito Odiados (The Hateful Eight)

#39. Invasão Zumbi, de Yeon Sang-Ho
#38. O Mestre dos Gênios, de Michael Grandage
#37. A Vingança Está na Moda, de Jocelyn Moorhouse
#36. Amor & Amizade, de Whit Stillman
#35. Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach
#34. O Retorno de John Henry, de Jon Cassar
#33. Assumindo a Direção, de Isabel Coixet
#32. De Longe te Observo, de Lorenzo Vigas
#31. Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino

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Meu Rei (Mon roi)

#30. Nise: O Coração da Loucura, de Roberto Berliner
#29. Amor Para a Eternidade, de Zhang Yimou
#28. Reaprendendo a Amar, de Brett Haley
#27. Desafiando a Arte, de Jason Bateman
#26. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
#25. No Fim do Túnel, de Rodrigo Grande
#24. Memórias Secretas, de Atom Egoyan
#23. De Palma, de Noah Baumbach e Jake Paltrow
#22. Agnus Dei, de Anne Fontaine
#21. Meu Rei, de Maïwenn

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Ninguém Deseja a Noite (Nobody Wants the Night)

#20. O Homem nas Trevas, de Fede Alvarez
#19. O Convite, de Karyn Kusama
#18. Espaço Além: Marina Abramovic e o Brasil, de Marco del Fiol
#17. O Bebê de Bridget Jones, de Sharon Maguire
#16. Ninguém Deseja a Noite, de Isabel Coixet

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Joy - O Nome do Sucesso (Joy)

#15. Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg
#14. Docinho da América, de Andrea Arnold
#13. Invocação do Mal 2, de James Wan
#12. Rastro de Maldade, de S. Craig Zahler
#11. Joy – O Nome do Sucesso, de David O. Russell

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O Quarto de Jack (Room)

#10. O Quarto de Jack, de Lenny Abrahamson +

Cineasta irlandês, Lenny Abrahamson parece ter se renovado em “O Quarto de Jack” em comparação ao mediano “Frank”. Principalmente ao confiar em Emma Donoghue para adaptar o seu próprio romance, “Quarto”, publicado no Brasil pela editora Verus. Toda a descrição necessária à literatura é suprimida para atender a uma linguagem que prima por estratégias para enriquecer personagens e os recursos visuais que o contexto permite.

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Tangerine

#09. Tangerine, de Sean Baker +

É no uso de um sentimentalismo moderado de contextos barras-pesadas que faz “Tangerine” ter um coração que pulsa. As estratégias de Sean Baker são evidentes, apropriando-se da comédia para trazer acessibilidade ao público ao mesmo tempo em que planeja um movimento em que tudo deverá ruir e talvez se reerguer. Encontra a beleza de seres marginalizados e os respeita ao permitir um respiro que os façam reavaliar os espaços que ocupam e a companhia para enfrentar o dia seguinte.

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Coração de Cachorro (Heart of a Dog)

#08. Coração de Cachorro, de Laurie Anderson +

Desenhos em movimento, justaposições, registros captados pelos mais variados suportes e uma narração terna formam um panorama reflexivo universal a partir da ideologia budista de Anderson para aplacar a tristeza de uma existência que segue testemunhando vários finais ao seu redor. Uma tristeza que Anderson não autoriza que a consuma até a vinda de seu próprio fim.

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Aquarius

#07. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho +

Além da contribuição inestimável de Sonia Braga, Clara expõe outras dimensões quando problematizada pelo texto, tendo em seu encalço uma figura de grande influência tentando persuadi-la ao mesmo tempo em que os abismos sociais são deflagrados em uma Recife com territórios literalmente demarcados. Trata-se do investimento em um discurso que dá ao todo um excesso que poderia ser eliminado, mas que não nos faz desviar do principal atrativo de “Aquarius”: os valores de gerações que se atraem ou se repelem a partir da defesa de seus interesses particulares.

Spotlight - Segredos Revelados (Spotlight)

#06. Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy +

Redimindo-se da comédia “Trocando os Pés”, Tom McCarthy volta a fazer um registro dramático mais condizente com uma filmografia composta pelos ótimos “O Agente da Estação”, “O Visitante” e “Ganhar ou Ganhar – A Vida é um Jogo”. Apoiando-se principalmente na parceria com Josh Singer no roteiro, na montagem de Tom McArdle e no elenco que prioriza o senso de trabalho coletivo em detrimento do brilho individual, McCarthy realmente desglamouriza a profissão ao avaliar as consequências no âmbito privado.

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Decisão de Risco (Eye in the Sky)

#05. Decisão de Risco, de Gavin Hood +

Os sucessos de “A Hora Mais Escura” e “Homeland” parecem ter inaugurado um novo momento para os ditos “filmes/seriados de guerra”. Os embates armados seguem usando como palco os territórios ocupados por soldados e civis. No entanto, há aqueles que são resolvidos à distância, em salas com acesso restrito em que ações são tomadas por um sem número de autoridades que acreditam deter o “olhar de Deus”. Esse momento em que a tecnologia se sobrepõe à ação é enfatizado no título original de “Decisão de Risco” – olho no céu.

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Cinco Graças (Mustang)

#04. Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven +

Em sua estreia na direção de um longa-metragem, Deniz Gamze Ergüven poderia facilmente transformar o roteiro que escreveu em parceria com Alice Winocour em um panfleto feminista, recorrendo a uma moral sentimental. O resultado obtido é completamente diferente, pois sabe que é a dureza, essa vontade de não suavizar o que é naturalmente cruel, que faz emergir as discussões sobre a posição da mulher em um cenário de repressões.

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Elle

#03. Elle, de Paul Verhoeven +

A excentricidade da personagem, confirmada em seu silêncio e em outras posturas injustificáveis (como a de destruir o para-choque de Richard antes de encontrá-lo e o de se relacionar com o marido de sua melhor amiga), sugere que Verhoeven, a partir do texto de David Birke (“Os 13 Pecados”), não está interessado em fazer um manifesto sobre a violência contra a mulher, uma abordagem que muitos visualizam mais pelo potencial comercial em tempos de empoderamento e menos por sua força discursiva. Michèle é uma pessoa tão ou mais perigosa que o seu assediador.

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Magical Girl, A Garota de Fogo (Magical Girl)

#02. A Garota de Fogo, de Carlos Vermut +

Neste thriller recheado de reações desconcertantes, quando não extremas, há tudo que dignifica um grande filme. Desde o princípio, Carlos Vermut estabelece uma relação de cumplicidade com o público ao confiar em sua inteligência. Portanto, em “A Garota de Fogo”, nós vemos o que é preciso ser visto, enquanto as lacunas são preenchidas com a imaginação que esse quebra-cabeça propõe.

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The Lobster
#01. O Lagosta, de Yorgos Lanthimos +

Em distopias, o amor surge como o instrumento de salvação de um planeta que ruma para o fim da humanidade. Em “O Lagosta”, essa máxima é revirada. Estaria o amor realmente presente na repetição das convenções, que padroniza a constituição de uma família como o alcance da felicidade plena? Estamos todos condicionados a compartilhar um lar e a intimidade com aqueles que nos interessam por mera compatibilidade ou por sentimentos que superam as distinções vigentes?

É uma surpresa que uma premissa repleta de tantas estranhezas consiga transcender com questionamentos que não apenas nos dizem respeito, como contaminam o nosso âmago, trazendo ainda uma conclusão desconcertante e desesperançosa que revê as contradições complexas de um ser humano por traz de suas decisões, regidas mais pela necessidade de preenchimento do que por amor. É um alívio que Yorgos Lanthimos não tenha recuado nem um pouco na autoria que imprime em seu cinema ao elevá-lo a um novo patamar em um idioma não materno.

Os 10 Piores Filmes de 2016

O amadurecimento como cinéfilo refina o nosso gosto ao ponto de permitir que consigamos identificar de antemão aquilo que definitivamente não agradará o nosso paladar. Isso não significa que determinado segmento de produção com a qual temos reservas não possa apresentar exemplares que nos surpreenda.

Ainda assim, com centenas de produções ofertadas tanto no circuito de cinema quanto no consumo doméstico, o melhor a fazer é ser o mais seletivo possível no momento da escolha do que assistir. A partir desse critério, o ano de 2016 não contou com uma lista de produções ruins tão extensa em comparação com os nossos balanços retroativos. O que não significa que conseguimos evitar a decepção, a expectativa frustrada ou puramente o risco de se ver algo que comporte todos os elementos para nos desagradar.

A seguir, compartilhamos a nossa lista com 10 produções que consideramos as piores que assistimos ao longo de 2016:

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É Apenas o Fim do Mundo (Juste la fin du monde)

#10. É Apenas o Fim do Mundo, de Xavier Dolan +

Xavier Dolan faz algo pior que um teatro filmado. Quase sem pausas para respiros, a sua câmera fica grudada nas faces do elenco durante 90 minutos, como se pretendesse com isso representar a rua sem saída em que está o seu protagonista, captando cada olhar e gota de suor, mas jogando pela lixeira a potencialidade dos intérpretes ao ignorar que uma atuação depende da anatomia em sua totalidade para se comunicar. A pretensão dessa escolha, somada à artificialidade da iluminação do diretor de fotografia André Turpin para reforçar a inconstância do temperamento dos personagens, não condena “É Apenas o Fim do Mundo” somente como o ponto mais embaraçoso da carreira de Dolan, mas também nos faz questionar se George Miller estava sob o efeito colateral de alguma tarja preta ao deliberar com o seu júri os melhores em competição no Festival de Cannes.

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Prova de Coragem filme

#9. Prova de Coragem, de Roberto Gervitz +

“Prova de Coragem” prefere investir em simbolismos que, no fim das contas, não nos leva a lugar algum. Seja a figueira que fascina Adri ao ponto de resgatá-la para ocupar toda a área externa de seu ateliê, seja o montanhismo praticado por Hermano – ou mesmo as suas mãos brutas, uma ligação ao protagonista literário de Daniel Galera -, não consta um elemento puramente cinematográfico que remova “Prova de Coragem” do terreno das trivialidades, sendo prejudicado ainda por uma montagem sem cadência de Manga Campion. Esperava-se mais deste novo regresso de Gervitz ao cinema.

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Demolição (Demolition)

#08. Demolição, de Jean-Marc Vallée

O canadense Jean-Marc Vallée mal tinha curtido o sucesso de “Clube de Compras Dallas” no circuito de premiações e já estava com outros dois projetos engatinhados. No entanto, se fez um filme belíssimo sobre recomeço com “Livre”, “Demolição”, apresentado poucos meses depois, denota uma falta de cuidado assustadora de concepção, como se fosse abraçado sem os tratamentos que qualquer roteiro precisa ser submetido antes de ganhar vida – e olha que ele foi apontado na Blacklist de 2007, que dá luz aos textos “brilhantes” ainda não filmados.

Atravessando uma fase “quero Oscar” em sua carreira, Jake Gyllenhaal transforma Davis no protagonista mais insuportável visto em qualquer outro filme do ano, um sujeito bem-sucedido que reage com indiferença diante da morte de sua esposa após um acidente automobilístico. Certa imaturidade de seus atos o faz se aproximar de Karen (Naomi Watts, grande atriz que anda com o dedo meio podre para escolher projetos), a quem inicialmente conhece a partir de uma ligação telefônica, e o filho dela, Chris (Judah Lewis), adolescente em dúvida sobre a própria orientação sexual.

O problema é que toda a condução atordoante não passa de um mero pretexto para uma revelação final com a missão de dignificar todos os passos de Davis. O resultado obtido é o extremo oposto, pois só passamos a detestá-lo ainda mais. Assim como o filme.

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Paulina (La patota)

#07. Paulina, de Santiago Mitre

Grande parte das mulheres saiu revoltada da sessão de “Paulina”. Também pudera. Não é segredo para ninguém que, na metade da narrativa, a personagem-título interpretada por Dolores Fonzi é estuprada e que, um pouco adiante, pensa em não tomar uma atitude efetiva contra os seus agressores (e alunos). Provocador, o diretor e roteirista Santiago Mitre ainda constrói Fernando (Oscar Martínez), pai de Paulina e juiz influente que acalorará o debate diante de tal postura.

O problema nem vem a ser o fato de nomes masculinos estarem diante de um contexto especialmente delicado para as mulheres, mas sim o de sermos obrigados a tolerar uma personagem que mais funciona como uma tese estúpida sobre o quão cruel é a realidade que a rodeia e o quão se sente culpada por pertencer do lado “favorável” desse cenário. É o equivalente a ter de escutar o lamento de uma vítima esfaqueada em um assalto pedindo perdão ao criminoso por causa do sistema em que estão inseridos.

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Amor em Sampa

#06. Amor em Sampa, de Carlos Alberto Riccelli e Kim Riccelli +

Resolvendo todos os núcleos do modo mais simplório possível, “Amor em Sampa” é também uma prova de que ainda não descobrimos a fórmula para elaborar bons números musicais, com letras que não inserem qualquer camada nos personagens e uma ausência de coreografias e exploração de espaços que só ampliam a apatia. Restou o amor por São Paulo, que termina enclausurado em agências publicitárias e apartamentos no último andar de hotéis de luxo.

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Descompensada (Trainwreck)

#05. Descompensada, de Judd Apatow

Com vasto repertório em stand up comedy, Amy Schumer teve a sua primeira chance de ouro para se transformar em estrela ao ser presenteada com uma atração televisiva só sua, “Inside Amy Schumer”. O sucesso foi estrondoso, especialmente pelos esquetes que viralizaram na internet, e “Descompensada” veio como a tentativa de estender as suas especialidades no cinema.

Mas o roteiro de sua própria autoria não passa de um capricho para exercer o seu narcisismo, por vezes soando autobiográfico para fazer piada de si mesma ao mesmo tempo em que tenta justificar em cena o quão incompreendida é por não corresponder ao modelo de princesinha americana. Os dramas com uma figura paterna (interpretada por Colin Quinn), no entanto, só não são mais embaraçosos do que o humor, no qual Amy luta para se mostrar descolada somente para se sujeitar ao mais machista jogo de reparação, com direito a declaração de amor com figurino de líder de torcida. Mas nada soa mais profano do que transformar a camaleônica Tilda Swinton em uma caricatura grosseira.

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Independence Day - O Ressurgimento (Independence Day - Resurgence)

#04. Independence Day: O Ressurgimento, de Roland Emmerich

Até mesmo os detratores mais ferrenhos do alemão Roland Emmerich devem admitir certo apreço por “Independence Day”, um dos mais memoráveis blockbusters paridos nos anos 1990. Muito mais do que um espetáculo de efeitos visuais ainda hoje impressionantes, a maior atração era como o filme exaltava heróis improváveis, seja o casal interpretado por Will Smith e Vivica A. Fox, seja o presidente nada omisso de Bill Pullman.

Pois tudo isso que tirava o original do terreno da mediocridade é solenemente ignorado em “Independence Day: O Ressurgimento”, agora priorizando um time de jovens atores com carisma zero enquanto reserva aos veteranos que reprisam os seus papéis a responsabilidade de lidar com as burocracias de uma nova ameaça. O choque de núcleos tão destoantes transforma a continuação em um monstro bipolar, alternando humor com densidade sem nenhuma liga. Vale dizer que Emmerich também está prestando contas pelo equivocado “Stonewall: Onde o Orgulho Começou”, outro filme seu a desembarcar no Brasil em 2016.

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Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man)

#03. Um Cadáver Para Sobreviver, de Dan Kwan e Daniel Scheinert

Diretor de “Primavera Maluca”, aquela tipo de comédia que a gente costuma esconder que adora para não fazer feio em uma roda de cinéfilos, Ryan Shiraki disse que é fã de uma piada de peido e que a adicionaria mesmo se fizesse uma continuação de “As Horas”. A dupla de diretores Dan Kwan e Daniel Scheinert certamente levaria bem a sério um comentário como esse, pois “Um Cadáver Para Sobreviver” transforma a piada em uma história com 97 minutos.

A princípio, ninguém entendeu e uma fatia enorme de espectadores abandonou a première em Sundance. No entanto, o tempo fez com que a realização obtivesse uma aura de filme maldito, logo sendo compreendido como um indie fofinho sobre inadequações dentro de uma roupagem absurda. Mas o sentimento mesmo é de que estamos sendo feito de trouxas e nada sintetiza melhor a impressão do que o WTF soltado por Mary Elizabeth Winstead antes do fade out.

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Visões do Passado (Backtrack)

#02. Visões do Passado, de Michael Petroni

Que Adrien Brody mereceu o Oscar de Melhor Ator por “O Pianista” é algo indiscutível. No entanto, não há como não reconhecer a dificuldade que norte-americano está tendo para se manter relevante desde então. Além de não ter funcionado como herói de ação, como visto em “King Kong” e “Predadores”, Brody acabou caindo na obscuridade ao investir em produções independentes com uma seriedade inexistente. Caso de “Visões do Passado”, coprodução entre Austrália, Emirados Árabes e Reino Unido com um mistério óbvio até mesmo para quem não viu mais do que dez thrillers sobrenaturais em toda a vida. E quem ainda aguenta um filme sobre um psicólogo que vem a ser justamente o único a não compreender os próprios mistérios que povoam a sua mente?

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Floresta Maldita (The Forest)

#01. Floresta Maldita, de Jason Zada

Não há lugar mais assustador do que a floresta Aokigahara, sempre lembrado como um dos endereços mais procurados por aqueles que desejam cometer suicídio. Em um curto espaço de tempo, duas produções ocidentais construíram as suas premissas a tendo como cenário principal: “The Sea of Trees” e “Floresta Maldita”. Se o filme de Gus Van Sant é notório por ser o mais vaiado da edição de 2015 do Festival de Cannes, o terror de Jason Zada ocupa o topo de nossa lista de piores.

Em seu primeiro papel como protagonista, a bela Natalie Dormer tem a ingrata função de viver Sara Price, americana preocupada com o sumiço de sua irmã gêmea, que teria viajado ao Japão para tomar uma decisão definitiva para os seus impasses particulares. O mistério não passa de um pretexto para fazer o espectador, assim como a personagem, andar em círculos em uma Aokigahara que se revela nem um pouco amedrontadora, culminando em uma conclusão marcada por uma reviravolta no mínimo risível.

 

Resenha Crítica | Mundo Cão (2016)

Mundo Cão, de Marcos Jorge

Embora não tenha sido um sucesso quando lançado nos cinemas, “Estômago” logo foi descoberto pelo público, consolidado junto com críticas praticamente unânimes como um dos grandes filmes nacionais deste jovem século. Com “Corpos Celestes” e “O Duelo”, o diretor Marcos Jorge acabou devendo nas expectativas. Já com o recente “Mundo Cão”, atinge resultados que o aproxima de seu debute inquietante.

A trama tem uma vibe de “Relatos Selvagens” periférico, no sentido de mostrar as consequências gravíssimas que um desentendimento desencadeará. De um lado, temos Santana (Babu Santana), funcionário do Departamento de Combate as Zoonoses de São Paulo, casado com a costureira evangélica Dilza (Adriana Esteves) e pai de Isaura (Thainá Duarte) e João (Vini Carvalho). Do outro lado, há Nenê (Lázaro Ramos) antes policial e hoje criminoso que teve o seu cão sacrificado com o auxílio de Santana.

Como se espera, Nenê não reagirá da maneira mais racional, efetivando a sua vingança contra Santana sequestrando João e pedindo a ele a recompensa de um valor que não tem. Isso não desestabiliza somente toda a família, como faz com que a narrativa siga por caminhos chocantes, especialmente no que diz respeito às surpresas arquitetadas para o meio da história e que evidencia claramente o instinto raivoso de cada um.

Com toques de thriller, Marcos Jorge conduz muito bem a tensão presente em seu texto assinado em parceria com Lusa Silvestre (de “O Roubo da Taça”), tirando proveito de um excelente elenco em que se destaca especialmente Adriana Esteves, impecável como a mãe desesperada para reencontrar o seu filho após testar os parcos recursos disponíveis. Ainda que entregue um terceiro ato sem a mesma alta voltagem dos anteriores, “Mundo Cão” não se furta de exibir um terreno que, mesmo literalmente pavimentado, traz as raízes de toda a nossa selvageria.

Os 10 Melhores Pôsteres de 2016

A transição de um ano para o outro é sempre especial para este endereço. Não apenas pela correria em dar conta de uma repescagem repleta de títulos perdidos ao longo do ano, como também para pensarmos sobre os principais de um ciclo que está se fechando.

Nesta véspera de natal, deixamos um pouco de lado o conteúdo textual para darmos espaço a uma galeria contendo os mais belos cartazes produzidos ao longo de 2016. Muito mais do que peças para divulgação, os pôsteres têm a responsabilidade de sintetizar toda uma obra cinematográfica, algo difícil de alcançar especialmente pela complexidade de uma narrativa. As imagens a seguir conseguiram atingir esse feito com brilhantismo.

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A Criada Christine Docinho da América Floresta Maldita Jackie La La Land - Cantando Estações O Homem nas Trevas O Nascimento de Uma Nação Onde o Mar Descansa Rua Cloverfield, 10

Resenha Crítica | Minha Mãe é Uma Peça 2 – O Filme (2016)

Minha Mãe é Uma Peça 2 – O Filme, de César Rodrigues

Lançado há mais de três anos, “Minha Mãe é Uma Peça – O Filme” consolidou Paulo Gustavo como um dos grandes comediantes do país. Também pudera: independente da personagem que incorpora, o ator é dono de uma espontaneidade que o faz disparar em segundos um sem número de diálogos francos e ofensivos. Mesmo com o intervalo considerável, a equipe não foi capaz de maturar uma sequência capaz de comportar algum atrativo além do prazer em ver Paulo Gustavo reprisando Dona Hermínia, o seu papel mais querido na tevê, no teatro e agora no cinema.

Resenha Crítica | Creed: Nascido para Lutar (2015)

Creed, de Ryan Coogler

Imortalizado na tela por Sylvester Stallone, Rocky Balboa segue lembrado como um dos mais queridos heróis da ficção americana, fruto de sua primeira aparição em “Rocky: Um Lutador”, que traz a representação de um homem comum reajustando a sua vida privada ao mesmo tempo em que era desacreditado enquanto se preparava para uma luta de boxe contra o imbatível Apollo Creed (Carl Weathers). O que veio a seguir, excetuando “Rocky Balboa”, tratou de direcionar o personagem para abordagens menos nobres, mas nada que interferisse o afeto nutrido pelo imaginário coletivo.

Rocky é uma presença secundária em “Creed: Nascido para Lutar”, mas sem ela o diretor e roteirista Ryan Coogler (de “Fruitvale Station: A Última Parada”) estaria em apuros. Nascido na Oakland de 1986, Coogler viu em Rocky Balboa um modelo para se inspirar principalmente em sua determinação em fazer cinema, apresentando a Stallone um argumento que o convenceria a reprisar novamente o seu icônico personagem.

Na superfície, “Creed: Nascido para Lutar” é uma espécie de atualização da base de “Rocky: Um Lutador”. Filho de Apollo Creed, Adonis Johnson (Michael B. Jordan) é bem-sucedido em um emprego burocrático, mas tem uma fúria internalizada que o faz recorrer à mesma atividade da figura paterna que sempre renegou. Obstinado em herdar o título de maior lutador de Creed, Adonis vai ao encontro justamente daquele que foi o seu maior oponente, Rocky, hoje aposentado e gerenciando um restaurante dos subúrbios da Filadélfia.

Ao convencer Rocky de que ele seria o melhor treinador que encontraria, “Creed: Nascido para Lutar” passa a reprisar também todas aquelas baterias duríssimas de preparo físico tão notórias no filme de John G. Avildsen. Há também o espaço para um interesse amoroso, com Adonis  logo se sentido atraído por Bianca (Tessa Thompson, ótima), uma jovem perdendo paulatinamente a audição que encontra na composição musical um conforto antes de chegar a um estado mais permanente.

Toda essa estrutura reconhecida não impede “Creed: Nascido para Lutar” de obter um resultado igualmente digno, mas é Sylvester Stallone o algo a mais que faz toda a diferença. Não é fácil abrir mão da vaidade para representar um Rocky Balboa no fim de sua carreira, contaminado por uma doença que faz todo o seu vigor se dissipar e os seus dias de vida diminuir. Uma vulnerabilidade com a qual o ator se entrega com uma humildade ímpar e que fará todos os marmanjões que o acompanham até aqui se emocionarem sem reservas.

Resenha Crítica | Reaprendendo a Amar (2015)

I’ll See You in Your Dreams, de Brett Haley

Ainda que seja dona de uma carreira estável, a veterana Blythe Danner se acomodou em escolhas que não a fizeram variar na ficção, geralmente encarnando a mãe coruja ou a avó recatada. Não à toa, é mais reconhecida como a mãe de Gwyneth Paltrow do que pelo seu próprio nome. Pois foi preciso o jovem diretor Brett Haley reconhecer algo de especial em Danner para finalmente presenteá-la com um papel extraordinário em “Reaprendendo a Amar”, no qual a atriz não é somente o centro das atenções, como também o talento que pulsará o filme a cada segundo.

Professora universitária aposentada, a Carol Petersen de Danner é hoje uma mulher presa a um cotidiano sem atrações, aproveitando o conforto de uma pensão bem generosa deixada pelo seu falecido marido. Sequer as reuniões entre as suas melhores amigas são capazes de agitar as coisas. Por isso mesmo, ela encara como uma tempestade em um copo d’água a intrusão de um roedor em sua residência, logo contando com os serviços do jovem Lloyd (Martin Starr) para dar fim ao novo morador indesejado.

Sem novas figuras batendo à sua porta, Carol visualiza em Lloyd a possibilidade de ter um novo amigo. Como nas melhores relações entre indivíduos pertencentes a gerações bem diferentes, ambos acabam identificando alguns pontos de atração, com ele reconhecendo a importância de se ter alguma estabilidade enquanto ela constata que até os mais velhos devem se permitir a novas aventuras, estas vindo na forma de Bill (Sam Elliott), também um sujeito com a vida feita tentando emplacar uma nova paixão.

Em parceria com Marc Basch, Brett Haley cria um texto afetuoso ao ponto de transcender para fora da tela o prazer que há em testemunhar as interações entre duas pessoas que realmente se completam ao mesmo tempo em que reconhece as etapas finais do ciclo de uma existência com todas as surpresas e decepções presentes nos estágios prévios. Comovente sem abrir mão daquela leveza necessária em recomeços, o resultando ainda amplia o desejo em ver Danner em outros papéis como o de Carol.

Resenha Crítica | Doutor Estranho (2016)

Doctor Strange, de Scott Derrickson

Com o perdão do trocadilho, não há como não reconhecer que “Doutor Estranho” é uma adição incomum dentro do universo Marvel. Personagem desconhecido para aqueles que não têm qualquer afinidade com quadrinhos, o Doutor Stephen Strange está inserido em um contexto fantástico sem muita liga com os cenários habitados pelos componentes que integram os Vingadores, representando uma aposta arriscada do estúdio.

Contrariando algumas expectativas, os fãs e os críticos abraçaram a investida. Além das ótimas avaliações, “Doutor Estranho” já arrecadou mais de 650 milhões de dólares mundialmente, valor superior ao obtido por algumas aventuras individuais de heróis mais do que consagrados como Homem de Ferro, Thor e Capitão América.

A produção também estabelece Benedict Cumberbatch como astro, ainda que o britânico não seja integrado das feições que o faça assumir confortavelmente tal posição. A princípio apresentado como um neurocirurgião tão singular quanto intragável, Stephen Strange se verá pela primeira vez em uma situação desprivilegiada ao sofrer um acidente automobilístico gravíssimo, arruinando especialmente as suas mãos, justamente o seu principal instrumento de trabalho.

Após arranhar a amizade com a sua assistente Christine Palmer (Rachel McAdams), então a única a tolerar o seu temperamento, Strange inicia a busca pelo Ancião a partir de uma pista de Jonathan (Benjamin Bratt), paraplégico que recuperou todo o seu vigor físico após conhecê-lo em Nepal, no Himalaia. Eis que o Ancião se revela nas formas físicas de Tilda Swinton e Strange se verá manipulando ciências que vão além de seu ceticismo.

Também uma escolha nada óbvia para o projeto, o diretor Scott Derrickson embarca em “Doutor Estranho” com toda a bagagem imaginativa avolumada com as suas experiências no terror em títulos como “O Exorcismo de Emily Rose” e “A Entidade”. Trata-se da surpresa mais agradável do filme, pois o seu domínio para a arquitetura dos elementos visuais da narrativa é de longe o que se viu de mais impressionante dentro do universo Marvel no cinema.

Porém, é evidente que Derrickson não está aqui 100% do controle da situação, precisando seguir com alguns protocolos cansativos e já esperados, como a obrigação de alimentar os alívios cômicos além do necessário (tem até piadinha deslocada envolvendo a Beyoncé aqui), a falta de esmero no desenvolvimento de alguns personagens secundários (a talentosa McAdams parece estar aqui só para bater cartão) e a incapacidade de construir um vilão à altura da irreverência de seu protagonista.

Resenha Crítica | Meu Rei (2015)

Mon roi, de Maïwenn

Muitos cineastas costumam partir do princípio de que os seus filmes realmente começam a existir quando estão na ilha de edição, dando forma a um sem número de horas gravadas e por vezes sequer contando com um roteiro como bússola. Com uma carreira mais expressiva como intérprete do que como diretora, Maïwenn provavelmente partiu desse fundamento ao se imaginar concebendo “Meu Rei”.

Caso tivesse decidido com o montador Simon Jacquet conferir uma estrutura linear a “Meu Rei”, é certo que Maïwenn teria em mãos algo com a sua força amortecida, ainda que o texto que assina com Etienne Comar seja naturalmente impactante em sua observação crível sobre as crises matrimonias de casais maduros e modernos – a francesa teria se inspirado em seu relacionamento com Jean-Yves Le Fur.  Mas do jeito que se apresenta, “Meu Rei” é ainda mais incisivo em seu olhar, com uma escolha autodestrutiva do presente ganhando maior ressonância por depender dos fragmentos do passado para se justificar.

Vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 2015, Emmanuelle Bercot está mesmo arrebatadora como Marie-Antoinette, que passa a ficar em um centro de reabilitação para se recuperar de um joelho fraturado enquanto esquiava. Existe a possibilidade de ela mesma ter provocado o acidente e a constatação surge com flashbacks que desenharão o seu convívio de altos e baixos com Georgio (Vincent Cassel).

Entregues a uma paixão avassaladora, Marie-Antoinette e Georgio sustentam uma atração quase juvenil, com muita intensidade e sem considerar a princípio tudo o que os diferenciam. Quem sofre essa consequência é Marie, especialmente quando um amor mal resolvido do passado presente de Georgio, a instável Agnès (Chrystèle Saint Louis Augustin), surge para prestar contas. Um clima tempestuoso se impõe sobre o casal, carregando todos os reveses da realidade adulta inclusive quando Marie engravida.

Sem artificialismos e amparado principalmente pelo empenho do excelente elenco, que inclusive trás um surpreendente e nada afetado Louis Garrel como o irmão de Marie, Maïwenn capta o romance dos protagonistas com toda aquela descrição de quem observa com muita perícia o que às vezes soaria como banal. Daí ser definidora a escolha por uma estrutura fragmentada, preenchendo os espaços apenas com as “memórias” daquilo que dignificam a construção e ruína de um casamento.

Resenha Crítica | Mascots (2016)

Mascots, de Christopher Guest

Usado para designar o segmento do falso documentário, o mockumentary foi praticamente cunhado por Christopher Guest a partir no seu envolvimento como roteirista e intérprete de “Isto É Spinal Tap”, produção de 1984 dirigida por Rob Reiner. Ainda que Woody Allen tenha se utilizado de todas as características desse subgênero no clássico “Zelig”, foi Guest quem o tomou para si após um início de carreira atrás das câmeras em produções televisivas.

Ainda assim, por mais que “Esperando o Sr Guffman”, “O Melhor do Show”, “Os Grandes Músicos” e “Por Trás das Câmeras” sejam lembrados e discutidos até hoje, o mockumentary passou por uma repaginada nos últimos 10 anos, sendo usado como instrumento não somente de sátira, mas também de escracho, a exemplo de “Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América” e “Ele Está de Volta”. Guest lamentavelmente não acompanhou essas mudanças, voltando a dirigir após uma década com “Mascots” soando extremamente antiquado.

Tudo indicava que “Mascots” seria uma nova versão de “O Melhor do Show”, a sua obra-prima, substituindo os casais que inscrevem os seus cães de estimação em um concurso de talentos por anônimos que buscam por alguma glória em uma competição que define o melhor mascote de times esportivos. Grande parte de sua conhecida trupe de comediantes está de volta para uma nova colaboração, sendo acompanhada durante o período de preparação para arrasarem em um palco e serem avaliados por um trio de jurados linha-dura.

Há poucos bons momentos até a “grande final”, geralmente defendidos pelas irmãs Cindi e Laci Babineaux (interpretadas respectivamente por Parker Posey e Susan Yeagley) ou pelo casal em crise vivido por Zach Woods e Sarah Baker. Também causa um desconforto ver outros personagens perdedores como se estivessem diante da maior provação de suas vidas. São êxitos insuficientes de uma comédia ausente do sarcasmo tão característico de Guest, conduzindo em banho maria algo que obterá um resultado insípido e nada compensador. Que as críticas desapontadoras que recebeu o incentive a bolar algo mais incisivo da próxima vez.