Os 10 Filmes Mais Aguardados de 2017

Fragmentado | Split | dir. M. Night Shyamalan | IMDb | Trailer
Estreia: 23 de março (Brasil)

Comparado a Steven Spielberg ao despontar em Hollywood, M. Night Shyamalan viu sua carreira se dissolver a partir do fracasso de “A Dama na Água”. No ponto mais baixo de seu talento criativo com “O Último Mestre do Ar” e “Depois da Terra”, o indiano experimentou uma volta por cima com “A Visita“. Em “Fragmentado”, o filme de terror mais lucrativo em anos e aclamado pela crítica, parece propor algo ainda mais ambicioso, uma espécie de “Síndrome de Caim” com spin off de seu próprio “Corpo Fechado”.

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The Killing of a Sacred Deer | dir. Yorgos Lanthimos | IMDb
Estreia: possível première no Festival de Cannes em maio

Yorgos Lanthimos demonstrou com “O Lagosta” que fazer um filme em língua inglesa e com um prestigiado elenco internacional não é sinônimo de castração de controle criativo, mas sim de possibilidade para propagar com mais força a peculiaridade de seu cinema. Retomando a empolgante parceria com Colin Farrell e ainda trazendo a bordo Nicole Kidman e, surpresa!, Alicia Silverstone, o realizador grego promete entregar uma história ainda mais provocadora.

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Based on a True Story | D’après une histoire vraie | dir. Roman Polanski | IMDb
Estreia: possível première no Festival de Cannes em maio

Após “Deus da Carnificina” e “A Pele de Vênus“, duas produções concentradas em um único ambiente, Roman Polanski deve explorar mais possibilidades cênicas com a adaptação do celebrado romance de Delphine de Vigan. Contando com a sua esposa Emmanuelle Seigner e a estonteante Eva Green como protagonistas, Polanski ainda terá a contribuição de ninguém menos que Olivier Assayas em um texto que flagrará a relação de uma escritora com uma leitora obsessiva.

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Okja | dir. Bong Joon-ho | IMDbTrailer
Estreia: 28 de junho (Netflix)

Após fazer “Expresso do Amanhã“, a melhor ficção pós-apocalíptica dos últimos tempos, Bong Joon-ho vem a ser outro nome estrangeiro que, assim como Yorgos Lanthimos, encontra na língua e em intérpretes americanos um meio de propagar com maior amplitude o seu cinema para um público mundial. Na premissa meio sem pé e nem cabeça, Mija é uma obstinada menina que luta para livrar o seu inusitado animal de estimação das mãos de uma corporação poderosa. Voltando a trabalhar com Joon-ho, a deusa Tilda Swinton é a cereja do bolo, fazendo aqui um papel duplo.

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Bingo: O Rei das Manhãs | dir. Daniel Rezende | IMDb
Estreia: agosto (Brasil)

Se em 2016 não se falou em outros filmes nacionais além de “Aquarius“, “Pequeno Segredo” e, vá lá, “Boi Neon”, boa parte das atenções em 2017 devem se concentrar em “Bingo: O Rei das Manhãs”, empreitada por trás das câmeras de Daniel Rezende que sugere fazer um registro bem subversivo do infame palhaço Bozo. Parece a chance de ouro para Vladimir Brichta finalmente exercer plenamente o seu talento dramático e o material já divulgado é de deixar qualquer com um água na boca.

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Happy End | dir. Michael Haneke | IMDb
Estreia: 18 de outubro (França) e com possível première no Festival de Cannes em maio

Cinco anos após a Palma de Ouro e o Oscar por “Amor“, Michael Haneke volta a fazer um drama com uma ironia perversa em seu título. O diretor austríaco já anunciou que não há garantia alguma de final feliz em sua história sobre a crise de refugiados na Europa. Será a sua quarta colaboração com Isabelle Huppert, ainda fresca do impecável award season que trilhou com “Elle“.

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The Death and Life of John F. Donovan | dir. Xavier Dolan | IMDb
Estreia: possível première no Festival de Toronto

Cada passo do jovem canadense Xavier Dolan pode ser considerado um enigma. De um lado, ele já nos presenteou com grandes momentos em “Eu Matei Minha Mãe” e “Mommy”. Do outro, é capaz de chegar aos momentos mais baixos de sua criatividade, como no recente e excessivamente histérico “É Apenas o Fim do Mundo“. A escolha de seu “The Death and Life of John F. Donovan” para compor a lista é simplesmente pelo interesse diante do que fará em sua estreia em língua inglesa com um elenco composto por Jessica Chastain, Natalie Portman, Thandie Newton, Susan Sarandon, Kathy Bates, Kit Harington, Jacob Tremblay, Michael Gambon, Bella Thorne e a cantora Adele.

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Downsizing | dir. Alexander Payne | IMDb
Estreia: 22 de dezembro (Estados Unidos)

Não há dúvidas de que Alexander Payne é um dos maiores autores do cinema americano e a vinda de um novo filme com a sua assinatura é um grande evento. Matt Damon, Kristen Wiig, Christoph Waltz, Neil Patrick Harris, Jason Sudeikis, Alec Baldwin, Margo Martindale e o sueco Rolf Lassgård (protagonista de “Um Homem Chamado Ove“) são os principais nomes do elenco de uma comédia que deve preservar o sarcasmo característico de Payne ao tratar sobre um psicanalista que busca por uma vida melhor ao analisar a si mesmo. A lamentar somente a desistência de Reese Witherspoon, que, mesmo muito bem substituída por Wiig, retomaria parceria com o diretor após o fabuloso “Eleição”.

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How to Talk to Girls at Parties | dir. John Cameron Mitchell | IMDb
Estreia: segundo semestre (Estados Unidos)

“Hedwig – Rock, Amor e Traição” é uma obra que repercute até hoje na carreira de John Cameron Mitchell, tendo rendido inclusive uma montagem na Broadway. De certo modo, “How to Talk to Girls at Parties” deve preservar um cenário musical, ainda que de modo secundário em uma premissa sobre o contato de um garoto com uma alienígena. O conto homônimo de Neil Gaiman é desses que imploram por uma versão nos cinemas e Mitchell ainda terá aqui uma nova parceria com Nicole Kidman, com quem trabalhou em “Reencontrando a Felicidade“.

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The Trap | dir. Harmony Korine | IMDb
Estreia: segundo semestre (Estados Unidos)

Harmony Korine transformou “Spring Breakers: Garotas Perigosas” em um inesperado sucesso e continuou dividindo o público e a crítica com a sua visão subversiva sobre gerações perdidas no tédio e na falta de ambições. Trazendo Robert Pattinson, Al Pacino e Benicio Del Toro a bordo como um trio improvável de protagonistas, Korine deve continuar uma trilogia imaginada a partir de “Spring Breakers” sobre a Flórida.

Resenha Crítica | A Jovem Rainha (2015)

The Girl King, de Mika Kaurismäki

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Mesmo que a emancipação feminina tenha de fato se efetivado no penúltimo século, no qual as mulheres encontraram outros papéis para desempenhar na sociedade simultâneo ao desejo de equiparação com os homens principalmente como profissionais e eleitoras, há em um passado distante outros modelos do gênero que se liberaram de uma série de amarras mesmo dentro das convenções. Para tanto, a ficção desempenha uma função importante para o estudo dessas figuras.

De certo modo, isso vem a ser o ponto mais fascinante de “A Jovem Rainha”, realização falada em inglês do finlandês Mika Kaurismäki. Com cunho claramente feminista, a história para muitos desconhecida da Cristina da Suécia (1626-1689) recebe uma série de intervenções sem necessariamente dissipar a importância de episódios fundamentais de sua biografia, como um contorno mais atrevido em seu comportamento impositivo ou mesmo em seu apetite sexual há anos oprimido.

Bela ao ponto de não permitir que nossos olhos se distraiam com qualquer outra coisa, a sueca Malin Buska interpreta Cristina da Suécia com fervor após uma introdução que trata de mostrá-la desamparada na infância, tendo ascendido ao trono com apenas seis anos. Perdida nos livros de seu imenso acervo, Cristina amadurece inebriada especialmente pela obra de René Descartes, pai do racionalismo e mentor intelectual para uma rainha que passou a agir ferrenhamente contra a Guerra dos Trinta Anos, arquitetada na Europa a partir do conflito entre católicos e protestantes.

Porém, muito mais que as ações de uma Cristina pública, Kaurismäki, que conta aqui com o roteiro assinado pelo canadense Michel Marc Bouchard (de “Tom na Fazenda”, de Xavier Dolan), também quer desvendar a Cristina privada a partir da relação conflituosa com o chanceler Axel Oxenstierna (Michael Nyqvist, ótimo), que também lhe exerce uma função paternal, e a condessa Ebba Sparre (Sarah Gadon), o grande amor de sua vida. Mesmo a fotografia de Guy Dufaux desempenha um fascínio ao iluminar em excesso um período de trevas, dando tonalidades contemporâneas a uma mulher que hoje só ganha em interesse e pioneirismo.

Resenha Crítica | A Grande Muralha (2016)

The Great Wall, de Zhang Yimou

Quem conhece ao menos uma fatia da filmografia do chinês Zhang Yimou, tem conhecimento de sua habilidade em tratar com a mesma perícia o mais cristalino dos espetáculos visuais até o mais minimalista dos dramas humanos. Se você se pegou embasbacado com as habilidades marciais dos protagonistas de “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”, que transitam pela tela com a leveza de uma pena, é certo que também se verá fisgado por uma obra como “Nenhum a Menos”, sobre uma jovem que move montanhas ao desempenhar o papel de professora em um vilarejo em que um bastão de giz é equivalente a ouro.

Até certo ponto, é possível afirmar que Yimou volta a trafegar com naturalidade de um projeto pequeno como o bárbaro “Amor Para a Eternidade” (lamentavelmente lançado somente em video on demand no Brasil) para outro de grande escala como “A Grande Muralha”. Entretanto, na prática, temos uma nova tentativa de ocidentalizar o seu cinema após “Flores do Oriente”, que trouxe Christian Bale como um padre que encontra a sua redenção ao proteger um grupo de estudantes e prostitutas da sucessão de estupros de uma Nanking em tempos de guerra. Da China, temos em “A Grande Muralha” uma equipe técnica que não se compara com a de qualquer outra indústria, o elenco de apoio e uma fatia generosa do orçamento. Dos Estados Unidos, há Matt Damon como um líder, a predominância da língua e o restante dos custos de produção.

A premissa é de videogame. Mercenários europeus, William (Damon) e Tovar (o chileno Pedro Pascal) fazem uma busca incansável pelo pó preto (como aparentemente era chamada a pólvora) para enriquecerem. O embate com uma criatura, da qual conseguem remover uma das patas, faz com que ambos estudem um atalho. Mergulham em uma viagem de dois dias à Grande Muralha, onde informam sobre a existência de animais selvagens como ameaça ao mesmo tempo em que espiam a existência de um depósito generoso com a substância explosiva.

Estamos na época da Dinastia Sung e, embora tenhamos aqui pessoas que dariam conta exemplarmente da horda de bestas verdes que atacam os soldados com o único propósito de alimentarem a sua rainha, as habilidades de William e Tovar como arqueiros de algum modo se fazem necessárias. O problema é que sempre quando a Comandante Mae Lin (Jing Tian) está no centro da ação, os dois heróis se convertem em figuras ainda mais pálidas.

Em seus melhores momentos, “A Grande Muralha” é uma bela sinfonia cinematográfica, com uma harmonia no controle de multidões, cores e ação que somente Yimou é capaz de regenciar. O primeiro ataque à Grande Muralha, encenado logo após o prólogo, é daquele que faz valer a magnitude de uma tela grande de cinema. Pena que o que vem a seguir é dramaturgicamente frouxo, dando tom de filme B em algo vindo de um realizador sempre reconhecido por sua finesse.

Resenha Crítica | Logan (2017)

Logan, de James Mangold

Enquanto Robert Downey Jr. e Chris Evans somam cada um sete aparições respectivamente como o Homem de Ferro e o Capitão América, Hugh Jackman continua ostentando o recorde de vezes que encarnou o mesmo super-herói no cinema. “Logan” marca a nona vez que o vemos como o mutante com garras de adamantium. Por outro lado, os fãs do icônico personagem terão aqui a última oportunidade de ver o australiano vivendo o selvagem de bom coração em uma aventura inédita.

A carreira de Hugh Jackman no cinema só tinha um ano de vida quando Bryan Singer apostou que ele seria um excelente Wolverine em “X-Men”, produzido há 17 anos. A escolha não poderia ter sido mais que perfeita, com o ator assumindo o protagonismo da maior parte das sequências e ainda investindo em uma trilogia-solo, que chega ao seu derradeiro episódio com escolhas radicais que podem inaugurar novos caminhos para as adaptações de quadrinhos.

Na realidade, James Mangold, que já tinha assumido as rédeas do ótimo “Wolverine: Imortal”, prossegue privilegiando uma narrativa que pouco compete ao universo fantástico dos heróis de quadrinhos, uma vez que Logan é inserido em um universo à parte, com exemplares em brochura dos X-Men espalhados em sua realidade como se exercessem um papel metalinguístico. Aliás, Logan/James raramente é tratado como Wolverine, dando toques ainda mais críveis a um filme que percebe a sua mutação mais como uma alegoria sobre aquilo que é diferente e vive à margem e menos como justificativa para a ação.

O Logan visto aqui está em um futuro próximo, no qual os mutantes foram erradicados. Para se manter anônimo, trabalha como chofer enquanto busca entregar os pontos a partir do alcoolismo, trazendo consequências devastadoras para um ser que até então acreditávamos deter um indefectível fator de cura.

O surgimento de Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma enfermeira que diz ser mãe de Laura (Dafne Keen) e que implora por sua ajuda, faz com que Logan se rebele contra uma organização que as perseguem, que teria perdido o controle de um pequeno grupo de crianças concebidas para se transformarem em supersoldados. Ao seu lado, restaram somente um Charles (Patrick Stewart, em sua melhor encarnação como o personagem) nonagenário e em estágio inicial de demência, e Caliban (Stephen Merchant), albino ultrassensível ao sol e com olfato apuradíssimo.

O que se tem a partir dessa premissa é um filme de ação com características de road movie que chega a oscilar em algumas circunstâncias no ritmo e na qualidade. A atmosfera árida não dá espaço para nenhuma extravagância e Wolverine/Logan nunca foi tão humanizado, exercendo aqui uma figura paterna para Laura, pequena garota que também revelará capacidades sobre-humanas e podendo muito bem ser confundida com a fascinante Eleven, do seriado “Stranger Things”. Mas há também soluções e muletas dignas de roteiristas iniciantes, que alongam desnecessariamente algo que seria melhor resolvido em no máximo duas horas. Caliban acaba se transformando aqui em um mero GPS e há um impasse envolvendo um depósito de água que não passa de uma distração besta para render uma consequência devastadora.

De qualquer modo, o que prevalece é a integridade com a qual Hugh Jackman encerra o seu legado como o herói e a importância que é conferir controle criativo integral a um diretor de um grande projeto. Aqui, James Mangold entrega um filme extremamente violento, com garras perfurando crânios jorrando sangue sem qualquer cerimônia, abrindo mão de uma censura mais branda em nome de uma liberdade que fará do Logan encarnado por Jackman uma presença muito mais permanente no imaginário coletivo.

Resenha Crítica | A Qualquer Custo (2016)

Hell or High Water, de David Mackenzie

Se “La La Land” renovou o interesse da audiência pelos musicais a partir de um fenômeno equiparável somente com os de “Moulin Rouge” e “Chicago” há 15 anos, “A Qualquer Custo” tem uma tarefa ainda mais árdua: a de revitalizar o faroeste, gênero essencialmente americano, mas que se viu em apuros com o fim da era de ouro de Hollywood e que dependeu nas décadas seguintes da intervenção de nomes europeus (como Sergio Leone) ou de esforços isolados (“Dança com Lobos”, “Os Imperdoáveis”) que, mesmo com o estrondoso sucesso, não o impuseram novamente como tradição.

Finalista em quatro categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, “A Qualquer Custo” talvez seja o maior êxito do gênero desde o remake promovido pelos irmãos Coen de “Bravura Indômita” ao mesmo tempo em que corresponde a uma roupagem contemporânea digna de Tarantino – o sarcasmo incluído no texto não deve diante dos diálogos ágeis do realizador de “Django Livre” e “Os Oito Odiados”. A ambientação aqui é no tempo presente, mas é imediata a associação do oeste do Texas e de todos os seus xerifes e bandidos que o habitam com os velhos agentes da lei e cowboys de moral ambígua.

Irmãos, Toby e Tanner Howard (Chris Pine e Ben Foster) são apresentados no prólogo de “A Qualquer Custo” em meio a uma maratona de assalto a bancos. Uma vez identificado o padrão quanto a como eles agem, Marcus Hamilton (Jeff Bridges), um Texas Ranger, e o seu parceiro Alberto Parker (Gil Birmingham) começam a agir para tentar antecipar os passos dos criminosos, cujas identidades ainda desconhecem. Enquanto seguem com o plano, Toby e Tanner começam a expor as suas diferenças, uma vez que o primeiro deseja saquear bancos somente para depois “reembolsá-los” em forma de pagamento para obter uma propriedade enquanto o segundo, um sujeito bem temperamental, parece mais interessado em jogos de azar e garotas de programa.

Com uma regência impecável, um mérito que também deve ser depositado na conta do montador Jake Roberts (que está na disputa ao Oscar na categoria), o versátil David Mackenzie tem aqui a maior obra de sua filmografia, especialmente por corresponder tão bem a algumas representações presentes no roteiro de Taylor Sheridan, o seu primeiro desde o arrasador “Sicario: Terra de Ninguém”. Aos poucos, alusões ao passado daquele cenário, uma propriedade indígena, ganham ressonância dramática.

Muito mais do que um alívio cômico perverso, os insultos de Marcus endereçados ao seu colega de descendência indígena carregam as heranças de uma nação dominada e depois erradicada. Ao mesmo tempo, os irmãos são vistos com alguma simpatia por desestruturar um mapa árido com bancos a cada esquina e comércios vazios. Tudo caminha para formar aquela anatomia estabelecida do faroeste, agora aqui com carros sepultados substituindo cavalos e o chumbo anunciando que não há mais recompensas para a caça.

Resenha Crítica | Eu, Olga Hepnarová (2016)

Já, Olga Hepnarová, de Petr Kazda e Tomás Weinreb

.:: 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.

Bem como no também recente “Christine”, é difícil tratar sobre “Eu, Olga Hepnarová” sem antecipar o dado que veio a transformar uma mulher comum em agente de um ato bárbaro. Portanto, assim como no caso da jornalista Christine Chubbuck, recomenda-se que nada se leia sobre Olga Hepnarová se a intenção é se surpreender com uma medida radical que a tirou do anonimato para entrar na história obscura da Tchecoslováquia.

Presente na programação Novos Diretores da última Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a realização da dupla Petr Kazda e Tomás Weinreb bem poderia estar no Foco Polônia do mesmo evento caso não contasse com a sua origem como distinção. Bem como a produção polonesa contemporânea, a exemplo do oscarizado “Ida”, “Eu, Olga Hepnarová” ignora a fotografia em cores e enclausura a sua protagonista em uma razão 1.85 : 1 como um comentário sobre o seu perfil individualista.

Apresentando outros fatos sem revelar demais, pode-se dizer que Olga (a excelente Michalina Olszanska, muito parecida com uma jovem Natalie Portman) é também aquele tipo de pessoa que se vê desprezado por todos, da família aos colegas da escola e de trabalho. O sentimento de rejeição é ampliado principalmente por assumir o interesse por mulheres, transformando-a de uma pessoa com boas credenciais graças ao sobrenome que herdou para alguém que passa a viver à margem.

A pegadinha de uma cinebiografia como essa está no tratamento que pretende conferir a uma personagem real. Dependendo da falta de sutileza, o interesse pode pender mais na ação trágica encenada e menos no autor que a executou. De certo modo, é o que acaba acontecendo aqui, especialmente pelo exagero do roteiro também assinado por Kazda e Weinreb em enfatizar Olga como uma injustiçada pelas circunstâncias.

Em sua primeira hora, “Eu, Olga Hepnarová” não passa de um saco de pancadas para as pessoas que a cercam. Todos a tratam com grosserias, começando por sua mãe (interpretada por Klára Melísková) até a funcionária do caixa que diz não ter dinheiro para o pagamento do seu salário. Vale pela curiosidade em conhecer os percursos de alguém que não teve qualquer escrúpulo para pregar a sua lição torta.

Resenha Crítica | Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

Moonlight, de Barry Jenkins

Com o debate sobre a diversidade em Hollywood após o polêmico “Oscar so white” do último ano, várias produções com a defesa de bandeiras bem particulares se viram no curso de produção em um timing perfeito. Delas, “O Nascimento de Uma Nação” estava no centro das atenções, chegando a ser comprado pela Fox Searchlight por um valor recorde em Sundance, além de visto como a produção a se destacar na temporada de premiações.

O histórico particular pouco recomendável de seu realizador Nate Parker acabou vindo à tona, com a produção naufragando em suas chances de obter sucesso comercial e troféus. Portanto, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” se apresenta agora com naturalidade ao assumir a posição de representatividade então reservada a “O Nascimento de Uma Nação”, ainda que o filme de Barry Jenkins, infinitamente superior ao de Parker, tenha intenções distintas em seu registro sobre um protagonista inserido em uma comunidade de figuras desfavorecidas pelas circunstâncias.

A partir de traços autobiográficos, Jenkins constrói um protagonista, Chiron, que será acompanhado em três fases distintas. Inicialmente, o vemos na pele de Alex R. Hibbert, uma criança deixada à própria sorte por sua mãe Paula (Naomie Harris), uma viciada em drogas. O seu porto seguro será Juan (Mahershala Ali, ótimo, ainda que em um favoritismo exagerado nas premiações), um traficante bem intencionado, e Teresa (Janelle Monáe), sua companheira.

No segundo ato, Chiron é um adolescente vivido por Ashton Sanders. Além do fardo de enfrentar a sua mãe ser ainda maior, o garoto precisa lidar com as inadequações da idade, explicitados pela sua confusão sexual e o bullying sofrido na escola. Por fim, Chiron amadurece como Trevante Rhodes e chega ao terceiro e último ato da história como uma espécie de reprise de Juan, acertando as contas com Paula e Kevin (André Holland), este um indivíduo que exerceu grande influência em seu passado.

A partir de uma figura masculina cheia de nuances e mutações, “Moonlight” promove uma radiografia barra-pesada e sem perspectivas de uma Miami com tonalidades fortes e deprimentes da fotografia de James Laxton, uma espécie de versão periférica e igualmente fascinante de Christopher Doyle, braço direito do realizador chinês Wong Kar-Wai. Entre lares desfeitos e um mundo externo perigoso, Chiron parece não ter qualquer escapatória a não ser a de se corromper pelo meio em que vive.

A redenção encontrada aqui vem a ser a afetividade discreta que se revela em meio a rispidez da vida. E Jenkins a encena com uma intimidade de deixar os nervos à flor da pele, seja por uma troca de carícias à beira-mar, pelas mãos que preparam uma refeição ou pelo uso da música como elemento narrativo, como o jukebox que reproduz “Hello Stranger”, de Barbara Lewis. Em uma existência de ranhuras como a de Chiron, um simples toque humano faz toda a diferença.

Resenha Crítica | Estrelas Além do Tempo (2016)

Hidden Figures, de Theodore Melfi

Após todas as discussões sobre representatividade que permearam o último ano hollywoodiano, “Estrelas Além do Tempo” se apresenta para o público com um timing perfeito. Há tempos não nos víamos inseridos em um cenário no qual as ideologias reacionárias estão tão evidentes, assim como os protestos em busca pela igualdade. Portanto, nada melhor do que a ficção para nos relembrar de outros períodos também nefastos que não calaram a atuação de heróis anônimos.

No caso de “Estrelas Além do Tempo”, temos uma história que enaltece três figuras reais da NASA até então mantidas anônimas. Tratam-se de Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três mulheres negras essenciais para o sucesso da missão do astronauta John Glenn (Glen Powell) em alcançar a lua.

Entretanto, estamos aqui nos não tão distantes anos 1960, em uma Virginia segregada e com poucos afro-americanos exercendo profissões que exigem um perfil lógico. Por isso mesmo, as vidas de Katherine, Dorothy e Mary foram triplamente difíceis justamente pela raça e gênero que pertencem.

Sempre unidas antes e após o expediente de trabalho, essas mulheres enfrentam sozinhas em suas competências os preconceitos que impedem as suas evoluções. Solicitada pelo departamento comandado por Al Harrison (Kevin Costner) para fazer os cálculos que devem assegurar o sucesso da decolagem do foguete que lançará John Glenn às alturas, Katherine é diariamente hostilizada pelos colegas, todos homens e brancos. Já em seu setor, Dorothy tem todos os seus pedidos de promoção sabotados pelo intermédio de Vivian (Kirsten Dunst), enquanto Mary não consegue desempenhar a função de engenheira por ser impedida de ingressar uma universidade.

Mesmo com todas essas circunstâncias, elas não desistirão de provar as singularidades que possuem, visualizando os obstáculos não como limites, mas como incentivos para continuarem perseverando. Temos com isso aquele modelo de narrativa cinematográfica que encanta desde os tempos do tramp de Charlie Chaplin, no qual a vontade para ganhar um lugar ao sol é maior do que as adversidades.

Diretor de “Um Santo Vizinho”, Theodore Melfi se apropria do texto de Allison Schroeder compreendendo muito bem as características desse cinema inspirado e inspirador, contornando com traços ficcionais uma história real para ser efetivo principalmente em seus gritos de protesto. É especialmente arrebatadora a explosão de Katherine ao finalmente externar a sua humilhação ao precisar se prestar a um trajeto de mais de um quilômetro para ir ao banheiro exclusivo para negros. Não ficam muito atrás o fervor de Dorothy e Mary em se provarem extremamente capazes de enfrentar novos desafios.

Além do mais, Melfi conduz com uma fluidez invejável algo que, em teoria, não tem qualquer encanto. Mesmo o mais avesso aos raciocínios de exatas se verão imediatamente hipnotizados com números e fórmulas que se revelam não somente como uma ciência complexa, como também como instrumentos sociais que só engrenam quando os seus operadores se reconhecem como semelhantes.

Resenha Crítica | A Garota no Trem (2016)

The Girl on the Train, de Tate Taylor

Escrito por Paula Hawkins, “A Garota no Trem” se transformou imediatamente em best seller ao ser lançado em 2015. Mesmo pertencendo a um gênero literário que sempre assegura boas vendas, a britânica fez muito mais do que um sub “Garota Exemplar”, obra com a qual vem sendo comparada. Há em sua história intrincada um teor feminista a partir do mapeamento de suas três personagens centrais, que ao final se perceberão como reprises uma da outra em um contexto de violência e traições.

Tate Taylor dá conta do recado, mas é uma pena que as ameaças masculinas sejam aqui desempenhadas por atores sofríveis em seus respectivos papéis. Assista a seguir o meu comentário na íntegra.

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Resenha Crítica | O Chamado 3 (2017)

Rings, de F. Javier Gutiérrez

Há 15 anos, Gore Verbinski promoveu uma grande revolução no terror mainstream em “O Chamado”, refilmagem do japonês “Ringu – O Chamado”. De repente, várias histórias de fantasmas nipônicos começaram a invadir o ocidente, formando um público cativo inclusive para os j-horrors. Como em qualquer segmento do gênero, a glória durou por apenas alguns anos, com o gênero recebendo uma nova recauchutada com a vinda de “Jogos Mortais” e “O Albergue”, que inauguraram o torture porn, hoje também obsoleto.

Por tudo isso, o maior mistério de “O Chamado 3” acaba sendo a sua própria existência, equivocada em um cenário que já não tem mais interesse por novas maldições pregadas por Samara Morgan. Abaixo, você pode assistir ao meu comentário completo sobre a continuação, que entra em cartaz no Brasil hoje.